Chile | Blog do Vinho

Publicidade

Posts com a Tag Chile

quarta-feira, 28 de novembro de 2012 Degustação, Sem categoria | 12:13

Vinhateiros Independentes do Chile: pequenas vinícolas, grandes vinhos

Compartilhe: Twitter

Pequenas quantidades, vinhos produzidos artesanalmente no Chile

Mauro Von Siebenthal é suíco,  proprietário da Viña von Siebenthal e idealizador do tinto Cabrantes. Angela Mochi é brasileira, e produz os vinhos Tunquen. Fernando Atabales é enólogo da Starry Nights Wines. Sergio Avendaño une sua paixão pela bateria e pelo vinho com os tintos da Trabun. Todos são produtores de rótulos chilenos, e provavelmente você nunca ouviu falar deles, nem jamais bebeu um de seus vinhos, mesmo sendo um fã dos tintos e brancos dos Andes.  Eles fazem parte do Movi, o Movimento dos Vinhateiros Independentes do Chile.

Não, não se trata de mais um grupo revolucionário da América Latina que resolveu pegar em armas e combater as gigantes da indústria vinícola chilena propondo um boicote aos seus rótulos com piquetes nas lojas ou adulterando suas barricas na calada da noite. A proposta do grupo é mostrar que existe vinho além dos gigantes Concha y Toro, Santa Rita, Santa Helena e San Pedro, que preenchem as prateleiras dos supermercados e catálogos online da importadores. E vinhos de qualidade, que tentam refletir a identidade do local em que foram produzidos e traduzem a interpretação do enólogo do seu vinhedo, seja lá o que isso signifique na prática para os consumidores.

Nada contra os blockbuster dos fermentados. Desde os rótulos de base até seus ícones são no geral vinhos bem feitos, de alta tecnologia, que buscam a excelência em cada linha de atuação. Minha geração, com certeza, se iniciou nos caldos bebendo vinhos destes produtores, sempre confiáveis. Eu, particularmente fico muito feliz com uma taça de Dom Melchor (Concha y Toro), Don (Santa Helena), Casa Real (Santa Rita) ou Cabo de Hornos (San Pedro), na mão, ou mesmo seus primos mais pobres, a linha do dia a dia.

Barrica alada: símbolo do Movi

O Movi só existe, diga-se de passagem, pois está inserido em uma indústria madura, de alta capacitação técnica, muita pesquisa e presente no mercado internacional. Parte dos membros do Movi fizeram carreira nas grandes empresas vinícolas do Chile, outros são diletantes que se aventuraram pelos vinhedos com uma ideia de vinho na cabeça e uma taça vazia na mão. O objetivo é esvaziar a cabeça e encher a taça. Criada em 2009 por 12 sócios fundadores, atuamente conta com 21 membros. São eles: Armidita, Bravado Wines, Bustamante, Clos Andino, Flaherty, Garage Wine Co., Gillmore, I-Wines, Lafken, Lagar de Bezana, Meli, Peumayen, Polkura, Reserva de Caliboro, Rukumilla, Starry Night, Trabun, Tremonte, Tunquen Wines, Villard e Von Siebenthal.

O símbolo do Movi já é uma bela sacada que define um pouco seu caráter iconoclasta e diferenciado: um barril alado. No catálogo que apresenta cada vinícola os enólogos-idealizadores mostram suas criações em fotos descontraídas, o vinho tratado como um objeto alegre e hedonista, feito para dar prazer, e não um ícone  embalado em uma caixa de veludo exibido em um gabinete inglês. Nas fichas técnicas, algumas harmonizações fazem fronteira com a poesia. O Trabun, por exemplo, combina bem com… uma “boa música”, segundo seu enólogo.

O movimento, por ter uma proposta artesanal, independente e de respeito à natureza também tem as suas idiossincrasias. E tome nomes de línguas nativas como mapuche (Rukumilla, significa “seios de ouro”; Polkura, “pedra amarela”; Peumayen “lugar sonhado”) e mapundungun (Lafken, significa “terraço”; Trabun, “lugar de encontro”). Sei não, a despeito de todo simbolismo, me parece que estas línguas nativas só servem para dar um toque de raiz nos rótulos dos vinhos chilenos. Além de exótico para o mercado externo fica bacana no material de apresentação, né não? Trata-se do movimento inverso ao das importadoras que insistem batizar suas empresas com  nome em inglês no Brasil.

Os 21 produtores do Movi juntos engarrafam 40.000 caixas por ano, na média são 2.000 por vinícola, mas há aquelas, mais artesanais, que não passam de 200 caixas. Independência, identidade, vincultura orgânica e conceito de origem, no entanto, tem seu preço: os  rótulos vendidos no Brasil (os que têm representantes) estão na casa dos 100 reais. Ou mais. Não são ampolas para iniciantes, talvez mais indicado para aquele tipo de consumidor que procura o novo, a diversidade, e está em constante busca de sabores diferenciados.

Vinhos Indicado pelo Gerosa (ViG)

O Movi, apesar de independente, está longe de rasgar dinheiro – e rótulos. O marketing da diferenciação é muito eficaz. E  funciona, olha eu aqui escrevendo sobre o grupo e seus vinhos. Como parte da proposta de divulgação é realizado um road-show para apresentar os vinhos aos críticos, especialistas, virtuais importadores, enfim para os homens que cospem vinho – e depois escrevem sobre eles. Na última rodada promovida pela Movi em novembro de 2012 em São Paulo, foram provados 21 rótulos, com uma forte predominância da uva syrah (eram 12 deles, sendo que 4 100% da varietal). Os vinhos indicados pelo Gerosa (ViG) deste painel foram os seguintes:

Vinos Bustamante, Bustamante Mantum 2007 – um assemblage (mistura de várias uvas) com predominância de cabernet sauvignon (65%), carmenère (22%) e com pitadas de syrah (8%) e merlot (5%). Me encantou o bom entrosamento das uvas, de vinhedos centenárias, com um final persistente e elegante, com taninos firmes, um belo estilo Bordeaux chileno, com o auxílio da carmenère, uma uva que na minha opinião é melhor aproveitada em cortes do que em vôo-solo.

Importador: La Charbonnade

Garage Wine Co, Carignan Lot #27 2010 – de vinhedos antigos de mais de 70 anos de idade, esta deliciosa carignan, com 11% de grenache, desce macia, se amplia na boca e tem um ótimo final. Duas curiosidades, o Lot # 27 é uma homenagem à resistência do lavrador do Maule, já que as uvas foram colhidas logo em seguida ao terremoto que devastou o solo chileno. E os cascos são de garrafas recicladas de champanhe.

Importador: Premium

Starry Night, Starry Night 2010 – um puro sangue, 100% syrah. Uma baita cor violeta, toques florais, frutas vermelhas, desce macio e tem na boca uma fruta excepcional com um fundinho herbácio elegante. Talvez o mais surpreendente vinho do painel.

Pena, não tem importador no Brasil. Alguém se habilita?

Patricio Bustamante, Derek Moosman, Villard, Fernando Atabales e Mauro Von Siebenthal e suas criações

Villard, Tanagra 2009 – outro 100% syrah do Valle do Maipo, uma fruta madura e elegantes notas de especiarias. São produzidas apenas 2820 garrafas desta belezura daquela que é considerada a primeira vinícola-boutique do Chile, fundada em 1989.

Importador: Decanter

Von Siebenthal, Cabrantes 2009 – 85% de syrah, escoltada por 10% de cabernet sauvignon e 5% de petit verdot. Tem uma pegada intensa mas com finesse, uma tipicidade chilena com um amentolado sutil. Seus vinhedos ficam colados ao mais conhecido e comercializado Errazuriz e o cultivo é orgânico.

Importador: Terramater

Três curiosidades

Angela Mochi e Marcos Attilio, brasileiros no Movi

O Movi, apesar de defender a autenticidade do solo chileno, não é uma república nacionalista, pelo contrário, é uma espécie de ONU dos vinhateiros no Chile. Há representantes dos Estados Unidos, Suíca, França, Italianos e até mesmo um casal de brasileiros, Angela Mochi e Marcos Attilio, da Tunquen Wines. Até onde eu saiba os únicos brasileiros que se aventuraram a produzir vinho nos Andes. Para completar o ineditismo, arriscaram na uva e apresentaram um malbec chileno do Vale de Casablanca, variedade pouco comum na região. Trata-se do Tuquen 2011 Malbec (sem importador no Brasil). Quem está acostumado aos densos, doces e maduros malbecs pode se surpreender. Aqui a pegada é outra. Por estar numa região mais fria a potência dá lugar a notas mais frescas. Sim, tem aquela violeta característica dos malbecs, mas é mais fresca e sutil. E um toque mineral que mesmo para quem não sabe do que se trata se traduz numa leveza na degustação do vinho. Vale provar, e comparar com um exemplar argentino.

Um dos tintos exibidos é mais conhecido no mercado. E faturou em 2012 o prêmio  do Guia Descorchados, uma das publicações mais conceituadas da América Latina. O Erasmo 2007 (importado pela Franco Suissaa) é um corte bordeaux por excelência e que sempre me agradou ao paladar. Continuou agradando, é classudo, com uma boa madeira integrada à fruta, mas… comparado aos seus colegas de Movi, deixou o encanto um pouco de lado na prova. O que demonstra que a degustação é um exercício que comprova a qualidade – ou não – daquela garrafa e não necessariamente de um determinado vinho.

Foram apresentados neste painel apenas dois exemplares brancos, o Armidita (sem importador no Brasil), um moscatel de caráter mais doce, uma espécie de vinho-arqueologia, pois recupera o branco conhecido como “pajarete”, cultivado pelos monges jesuítas como vinho de misssa. É produzido no Deserto do Atacama, 100% da uva moscatel colhidas e selecionadas a mão. O outro vinho branco, um chardonnay com toques de baunilha e dez meses de barrica francesa (alada?) da I-Wines traz no rótulo um nome que deve trazer alguma dificuldade na indicação nas lojas e restaurantes: Qu Chardonnay 2011 (Berenguer Imports). É inevitável imaginar a ginástica do sommelier na indicação do vinho…

Notas relacionadas:

  1. Vinhos importados de 12, 13 e 18 reais. Baratos. Mas será que são bons?
Autor: Beto Gerosa Tags: , ,

terça-feira, 19 de outubro de 2010 Degustação | 13:00

Vinhos importados de 12, 13 e 18 reais. Baratos. Mas será que são bons?

Compartilhe: Twitter

A prova doméstica. Vale a pena escolher um vinho importado só pelo preço baixo?

Alguns blogs (incluindo este), sites e revistas especializadas tratam muito de vinhos consagrados, premiados e bem pontuados. Ou então as novidades ou raridades que são objeto de desejo dos amantes da bebida. Mas raramente o foco é o vinho que os consumidores acabam adquirindo pelo critério do valor da etiqueta, para o dia-a-dia.

Um passeio pelos corredores dos hipermercados, no entanto, mostra pilhas de garrafas em oferta de rótulos que a maioria dos especialistas desconhecem, desdenham mas o povo compra. As garrafas de grande volume são a base da pirâmide do consumo no Brasil. Rótulos do Chile e Argentina entram rasgando nesta, digamos, janela de oportunidade do negócio do vinho; e ainda sobra espaço para uma mordida dos tintos portugueses, espanhóis e italianos.

E aí me ocorreu: por que nunca se fala destes rótulos, já que são eles os mais consumidos? Preconceito, falta de curiosidade, de coragem? Este Blog do Vinho resolveu encarar o desafio e conferir se o resultado na taça compensa a economia no bolso no caso de alguns rótulos de grande apelo de preço – isso, claro, sempre do ponto de vista de quem aprecia a coisa. Sempre lembrando que o corte deste Blog é o vinho fino, a bebida de garrafão é outra história (leia aqui).

Passeando casualmente em uma loja de um grande supermercado topei com o cenário descrito acima: grandes lotes de tintos de preços baixos e enorme exposição. Selecionei quatro rótulos de 12, 13 e 18 reais, aqueles com maior número de garrafas. Dois do Chile, um da Argentina e outro de Portugal, respectivamente. Nunca havia provado nenhum deles nem tinha qualquer referência.

Confesso porém que sou partidário do aforismo: “A vida é muito curta para beber vinho ruim”, e fui adiando a prova. Mas se não bebê-los, como sabê-lo?  Em um fim de semana, enfileirei as garrafas, despejei os tintos em taças apropriadas, uma ao lado do outra, e provei os caldos. Por 55 reais, o preço de um vinho de padrão médio (nacional e importado) eu tinha à minha disposição 2.250 mililitros de fermentados de uva e uma expectativa – exagerada, convenhamos – de ser surpreendido.

A prova

Chiloe 2008 – R$ 12,90
Wine of Chie
Carmenère
Valle Del Maipo
Viña Indomita
Importador: Zaffari
13,5% álcool

Avaliação: RUIM

Ao abrir vem o álcool no nariz, na linha Zulu mesmo. Parece um vinho que não ficou pronto e foi para a garrafa mesmo assim. Herbáceo ao extremo, verde, adstringente. Parece que a gente está mastigando o fim da casca da uva. Taninos tão agressivos que pensei em abrir um BO contra a vinícola na delegacia mais próxima.

Costa Vera 2008 – R$ 11,90
Cabernet sauvignon
Indomita
Valle Del Maipo
Chile
Importador: Zaffari
13,5% álcool

Avaliação: RUIM

Menos álcool no nariz, apesar do desequilíbrio, e mais presente na boca. Uma fruta lá no fundo parece que fica querendo aparecer: “olha eu aqui, olha eu aqui”, mas é difícil achar. Muito curto, some na boca. Os taninos também pegam, mas não com tanta violência. Fica difícil reconhecer a uva cabernet sauvignon. O fim de boca é o fim mesmo.

Bigode 2006 – R$ 17,90
Portugal
Tinta roriz, touriga nacional, alicante bouschet e castelão
Vinho Regional de Lisboa/Estremadura
DFJ Vinhos
Importador: Casa Aragão
12,5% álcool

Avaliação: MEDIANO (melhor com a comida, alguma tipicidade)

O mais caro e mais antigo (safra de 2006) dos quatro rótulos. O único dos quatro que não é varietal (vinho de uma só uva), e sim um assemblage (mistura de uvas). Os quatro anos resultam em uma cor mais evoluída e menos fechada. Um toque de fruta vermelha, os sabores das uvas portuguesas (quem já provou o Periquita, por exemplo vai notar alguma semelhança), com corpo bem leve. O grau menor de álcool  (12,5º) é perceptível – o que o torna mais gastronômico, mais fácil de beber. Foi declinando com o tempo na taça. Tem alguma tipicidade, que é importante na avaliação de um vinho. Bebi mais um gole um dia depois e ele ainda segurava a onda.

Aberdeen Angus 2009 – R$ 12,90
Malbec
Mendoza
Argentina
Finca Flichman
13% álcool

Avaliação: MEDIANO (o melhor da prova, maior tipicidade)

O mais novo dos rótulos provados. Mostra uma flor fácil no nariz, é doce na boca (típico de tintos do novo mundo, feitos para agradar). Desce mais fácil, agrada quem não exige muito de um vinho, mas tem alguma experiência com a bebida. Passa três meses em barrica e outros três na garrafa, segundo o produtor. Bom para quem quer conhecer algumas características da uva malbec argentina – mesmo com uma pegada mais maquiada – e quer pagar pouco.

Uma segunda opinião

Para não ficar na visão de um “chato” no assunto, pedi para minha mulher provar os quatro vinhos e dar sua opinião. Ela não é especialista, mas tem uma sensibilidade olfativa mais apurada que a minha e bom gosto para os tintos. Odiou o primeiro rótulo no nariz e na boca (“tem um aroma estragado”), procurou alguma característica do cabernet sauvignon no segundo (não encontrou), acho fraco o terceiro, apesar de um toque de alguma fruta e descobriu alguma qualidade no último, principalmente no primeiro impacto no nariz e na boca fácil, mas sem ter o prazer de repetir nenhum gole.

Uma terceira opinião

Para tirar a prova dos noves chamei meu filho mais velho (ele tem 21 anos, antes que me acusem a induzir o consumo de bebida alcoólica a menores de idade), e pedi para ele repetir a operação. Fez uma careta para o primeiro (“horrível”), achou médio o segundo, não gostou do corpo leve do português (“parece aguado”), e também preferiu o malbec argentino, e como resultado atraiu a unanimidade da prova.

Contexto

Importante ressaltar que todos os vinhos têm rótulo até de bom gosto e todos os descritivos informativos do produto: origem, região, nome da vinícola, teor alcoólico, tudo direitinho.  Algumas garrafas até registram descritivos degustativos no contra-rótulo e sugestão de harmonização. Pobre mas limpinho, sabe? Ok, são vinhos de uvas prensadas até o limite, sem muito rigor de seleção de frutas, de terrenos menos nobres, e de grande volume, Não são rótulos para ganhar prêmio, mas para ganhar dinheiro. Muitas vezes são produzidos exclusivamente para um determinado supermercado para venda imediata e não são encontrados em seu país de origem.

De onde a gente menos espera

Claro que não se pode medir o todo por uma amostragem tão pequena. Se a expectativa foi exagerada – sempre sonho em me encantar com um vinho muito barato – a experiência é sempre didática. O fato de a seleção ter sido aleatória creio que aproxima mais o teste do comportamento da maioria dos consumidores. O resultado nem sempre é alvissareiro. Na loteria da escolha só pelo critério do preço, o risco é sempre grande. Vou repetir aqui a frase da minha mulher após se submeter à prova dos quatro rótulos: “De onde a gente menos espera alguma coisa boa é de onde não vem nada mesmo… “

Então fica a dica. Se o critério for preço, os tintos brasileiros bons, baratos e de vinícolas conhecidas (veja nota) são uma opção mais segura.

Autor: Beto Gerosa Tags: , , ,

segunda-feira, 14 de junho de 2010 Teste | 11:47

Você conhece vinho chileno?

Compartilhe: Twitter

Você conhece os vinhos desses vinhedos?

O consumidor mais atento percebe em uma rápida visita pelas lojas e superemercados qual é a maior oferta de rótulos importados no Brasil: são dos nossos vizinhos Chile e Argentina. O Chile, no entanto, se mantém na pole-position dos vinhos mais vendidos no país. Em 2009,  22,516,176 litros de tintos e brancos chilenos  invadiram nossas prateleiras e encheram nossas taças: um crescimento de 20% em relação ao ano anterior (dados consolidados pela Ibravin – Instituto Brasileiro do Vinho). Ou seja, volta e meia você desarrolha uma garrafa chilena, certo? Então  Responda mais este teste do Blog do Vinho e confira seus conhecimentos dos vinhos do lado de lá da Cordilheira dos Andes.

No final deste quiz você encontra outros cinco testes do Blog do Vinho

O Chile produz vinhos de alta qualidade e de grande produção. A mamãe-natureza faz sua parte.  Por um lado a Cordilheira dos Andes ergue uma barreira natural que mantém a sanidade das uvas. Do lado oposto, pelo Oceano Pacífico, os vinhedos recebem o ar frio e úmido, que formam nuvens baixas e neblina. Qual corrente marítima é responsável por este resfriamento?




Qual a uva tinta mais plantada no Chile?




Um do vales mais conhecidos do Chile, onde são engarrafados vinhos de alta qualidade, fica praticamente dentro da capital, Santiago. Trata-se do:




Ao topar com o termo reservado em um rótulo de um vinho chileno, você:




Chile também produz vinhos brancos de alta qualidade. A região de Casablanca, com suas baixas temperaturas, tem o terroir adequado para a cultivo das uvas brancas. Ter o termo Casablanca estampado no rótulo é um indicativo de qualidade para este tipo de vinho. Quem foi o enólogo e produtor que primeiro enxergou o potencial desta região?




O tinto Almaviva é um dos vinhos ícones do Chile. A empresa é resultado de uma joint-venture entre a francesa Mouton-Rothschild e a gigante Concha y Toro. Este tesouro líquido é resultado da mistura das uvas cabernet sauvignon, carmenère e cabernet franc, em variadas proporções, determinada pela safra de cada ano. O nome Almaviva é uma referência:




Em 1979, um importante produtor fez um investimento importante na região de Curicó. Foi o primeiro investimento estrangeiro a apostar no potencial dos vinhos do Chile, depois foi seguido por vinícolas francesas e outros capitais de risco. Qual foi este produtor?




Casillero del Diablo é um dos rótulos chilenos mais conhecidos e vendidos no Brasil. Seus varietais tintos e brancos são facilmente encontrados na prateleiras dos supermercados. Qual explicação do nome Casillero Del Diablo para este vinho?




As regiões vinícolas do Chile estão concentradas no centro do país. O sistema de Denominação de Origem está dividido em quatro principais regiões - Coquimbo; Aconcagua, Vale Central e Sul e suas respectivas subregiões. Qual das subregiões abaixo não corresponde à sua denominação de origem?




Esta é fácil mas obrigatória em um quiz sobre o Chile. A uva tinta carmenère foi identificada  pelo professor francês Jean-Michel Boursiquot em 1994. Até então ela era confundida, e misturada, com a variedade:




Dos três rótulos abaixo, um deles não é chileno. Se você é capaz de identificar qual é?




Além do clima favorável, e por conta da proteção natural das Cordilheiras dos Andes, o Chile é um dos raros países vitivinícolas que jamais sofreu problemas com uma famosa praga dos vinhos:




As mulheres são importantes no desenvolvimento dos vinhos chilenos. Qual das três enólogas abaixo é responsável por brancos e tintos de estilo elegante e mineral na região do Vale de San Antonio, a 4 quilômetros do Oceano Pacífico?




Dados de 2008, portanto antes do terremoto que atingiu algumas áreas vinícolas do Chile, indicavam que o país era o ___ maior produtor de vinho do mundo:




Qual a proporção de uvas tintas e brancas plantadas no Chile?






Faça os outros testes

Autor: Beto Gerosa Tags: , , ,

terça-feira, 25 de maio de 2010 Livros | 12:28

Os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil

Compartilhe: Twitter

Edição 2010

Descorchados 2010
Guia de Vinhos de Argentina, Brasil e Chile
Patricio Tapia
Degustadores: Jorge Lucki, Fabrício Portelli e Hector Riquelme
Editora Planeta
RS 120,00/R$ 150,00

Responda rápido: qual o melhor vinho do Chile, da Argentina e do Brasil? Difícil? Pois  quatro mosqueteiros da degustação – profissionais das taças meio cheio e meio vazias – levaram ao pé da letra o titulo do guia que editam  (Descorchados) e chegaram nesta resposta. Para isso desarrolharam mais de 2.000 amostras de vinhos sul-americanos e após uma peneira de 1.387  garrafas selecionadas montaram um painel de 50 rótulos e enfim chegaram a um vencedor: o argentino Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003. Os onze primeiros lugares e as surpresas brasileiras da lista você confere no final deste post.

Descorchados: enfim, um guia de vinhos para o mercado nacional

Guia de vinhos tem aos montes. Aqui mesmo neste blog, na seção de livros, é possível encontrar alguns dos títulos disponíveis nas livrarias. A maioria, no entanto, tem uma visão americana ou europeia. Mas o que adianta um guia recheado de indicações francesas, italianas e americanas que raramente você vai encontrar nas prateleiras e na carta de vinhos dos restaurantes e, pior ainda, dificilmente terá dinheiro para comprar?

O Guia Descorchados vem suprir esta lacuna. Comandado pelo reconhecido critico chileno Patricio Tapia, o guia é uma seleção que reúne os melhores vinhos do Chile, da Argentina e do Brasil – aqueles que você encontra nas prateleiras dos supermercados e nas boas importadoras. São exatos 1.387 rótulos recomendados e comentados e uma boa novidade: pela primeira vez é realizada uma avaliação de 86 vinhos nacionais, entre tintos, brancos e espumantes.

Didático e fácil de consultar, o guia organiza os produtores dos três países por cores: azul para a Argentina; verde para o Brasil e bordô para o Chile. Cada produtor é introduzido por um pequeno texto e os vinhos selecionados são empilhados pelo critério de pontuação, com símbolos que indicam seu tipo (branco,  tinto, espumante, rosé ou doce), preço médio e até indicação de boas barganhas. A parte inicial – uma descrição dos vales e vinhedos de cada país e uma descrição das principais varietais e sua melhor combinação com comida – é pura informação, mas o leitor só vai se ater a este conteúdo após folhear as páginas de rankings . Além da já citada lista dos top 50, há outros rankings organizados por variedade de uva e de país. Afinal, concordando ou não, quem resiste a uma lista? O melhor malbec argentino? Noemía; o melhor cabernet sauvignon chileno? Manso de Velasco; o melhor espumante brasileiro?  Chandon Excellence, e por aí vai…

O que a esquerda utópica do final da década de 70 tentou na ideologia Tapia e seus colaboradores conseguiram em um guia, a tal unidade da América Latina, pelo menos no mundo do vinho. Publicado no Chile há treze anos, desde 2008 incluiu no time de degustadores os craques Fabrício Portelli (Argentina) e Jorge Lucki (Brasil). Em um primeiro passo ampliou o leque de opções com garrafas argentinas. Este ano incorporou os produtores brasileiros e o próximo candidato lógico, e anunciado, são os vizinhos uruguaios, que serão incluídos numa próxima edição.

Entre os 50 melhores, 4 brasileiros

DV Catena Zapata

A prova coordenada por Jorge Lucki é feita às cegas – isto é, o rótulo não é mostrado para os degustadores, explica ele no início do guia. Um julgamento desses tem sempre um lado pessoal, mas as listas foram ordenadas seguindo o conhecido critério de pontuação (até 100 pontos), critério este que o próprio Tapia não considera ideal: “As pontuações, muito no fundo, escondem é essa mania ocidental de acreditar que a perfeição existe”, escreve no prefácio, para logo adiante tentar se explicar sobre o  “método Parker” aplicado. “Mas é a única maneira que eu conheço de mostrar a vocês de que vinhos gosto mais, qual prefiro, de até onde vai minha subjetividade neste assunto.” Vamos então ao gosto de Tapia & Cia, extraindo do Descorchados 2010 uma amostra dos onze primeiros colocados. Por que onze? Para registrar o maravilhoso branco chileno Sol de Sol, que tanto aprecio….

1º – Catena Zapata DV Catena Nicasia Vineyard Malbec 2003 – Argentina – importadora Mistral

2º – Caliboro Erasmo Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc 2006 (Maule) – Chile – importadora Casa do Porto

3º – Maycas del Limarí Reserva Especial Syrah 2007 (Limarí) – Chile –Importadora Enoteca Fasano

4º – Ribera del Lago Cabernet-Sauvignon, Merlot 2007 (Colbún) – Chile – Importadora Casa do Porto

5º – Catena Zapata, Nicolas Catena Zapata Malbec 2006 – Argentina – Importadora Mistral.

6º – Casa Marin, Cipreses Vineyard Sauvignon Blanc 2009 (Lo Abarca)– Chile – Importadora Vinea

7º – Concha y Toro, Carmín de Peumo Carmenère 2007 (Peumo) – Chile –  Importadora  VCT

8º – Villard Tanagra Syrah 2007 (Casablanca) – Chile –  Importadora Decanter

9º – Finca La Anita Malbec 2006 – Argentina – Importadora Bodegas de los Andes

10– Morandé, House of Morandé Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc 2006 (Maipo) – Chile– Importadora Carvalhido

11º- Aquitania, Sol de Sol Chardonnay 2007 (Traiguén) – Chile– Importadora Zahil

O jogo é equilibrado. Se entre os primeiros onze colocados o Chile fez mais bonito (8 x 3), na batalha geral dos Andes a Argentina levou 24 posições contra 22 do Chile, restando 4 honrosos lugares ao Brasil.

Pode ser que o bebedor mais requintado sinta falta de ícones chilenos como Almaviva, Chadwick ou Dom Melchor nesta lista. Eles também foram avaliados, fazem parte do guia, claro, mas não chegaram lá… não estão entre os top 50.  Outro ponto que chama a atenção é que a uva syrah está mostrando seu valor em vinhedos chilenos. Isso é muito bom.

Vila Francioni Sauvignon Blanc

Grata surpresa, no entanto, é encontrar quatro produtores nacionais entre os top 50. Surpresa maior é que o rótulo brasileiro melhor colocado no ranking (37º posição) não é um espumante, muito menos um tinto, e sim a branca sauvignon blanc 2009 da Vinícola Villa Francioni, da região de  São Joaquim, em Santa Catarina. Os outros brasileiros classificados sao tintos: 43º Casa Valduga Storia Merlot 2005;  45º Salton Talento 2005; 47º Miolo RAR 2005. Bacana, não?

O melhor das indicações deste guia, porém, é que você vai encontrar tanto os pesos-pesados nas páginas de seus respectivos produtores como muitos dos rótulos do dia a dia que você depara nos supermercados e lojas de vinho – todos devidamente descritos e  pontuados. Enfim um guia pragmático e mais próximo das nossas taças.

Notas relacionadas:

  1. O peso: se tiver de apostar em um critério, escolha este
  2. Vinho e comida: a arte de combinar lé com cré
  3. 10 livros para conhecer mais sobre vinho
Autor: Beto Gerosa Tags: , , , ,

quarta-feira, 10 de junho de 2009 Novo Mundo, Tintos | 18:47

Surazo, um chileno que não tem pressa

Compartilhe: Twitter

Os vinhos sul-americanos costumam ser lançados assim que as uvas são esmagadas, fermentadas e jogadas para dentro da garrafa em forma líquida, certo? É a lei que rege o ciclo de vida destes vinhos de consumo imediato. Não para Don Emilio de Solminihac, proprietário e enólogo da vinícola chilena Santa Mônica. Seus rótulos, batizados no Brasil e na Inglaterra de Surazo, não rezam por esta cartilha. Eles descansam mais tempo na adega antes de serem lançados nas prateleiras. Tratam-se de brancos que não têm pressa e tintos que sabem aguardar seu melhor momento.

Surazo é o vento que corta os vinhedos da região do Vale do Rapel, onde está o Santa Monica. Ele  retarda o amadurecimento das uvas, aumentando a concentração do sabor e aroma dos vinhos. O nome  exibido no rótulo retrata a origem e o estilo da bebida.

Don Emilio Solminihac é o simpático senhor da foto acima, uma mistura do ator Jack Palance com traços do ex-presidente do período militar, Garrastazu Médici. A voz no entanto é pausada e suave, como se espera de douto com um título Don atrelado ao nome. Ele foi o primeiro sul-americano formado em enologia pela Universidade de Bordeaux, em 1952, e foi discípulo do pai de todos os enólogos, o francês Emile Peynaud. Solminihac carrega a tradição do velho mundo, onde o costume de aguardar os vinhos evoluir é uma escolha  natural. Ou era. Don Emílio sabe que o consumidor hoje em dia não tem paciência para aguardar o amadurecimento da bebida e é rápido no saca-rolha. Resolve o problema segurando ele mesmo seus vinhos na adega. Isso é uma raridade.

Os vinhos

A linha mais básica, o varietal Surazo Cabernet Sauvignon (R$ 35,00), pode muito bem entrar no panteão dos bons e baratos. Um degrau acima, o corte Surazo Reserva 5 Big Reds (R$ 46,00) – cabernet sauvignon (40%),  merlot (30%), carmenère (20%), syrah (5%) e malbec (5%) – é o chamado pau pra toda obra e vai bem com vários tipos de pratos: desce redondo (opa, isso não é cerveja?), é  macio e tem uma presença de fruta atraente e persistente na boca. Ambos são da safra de 2003. Veja bem, 2003 e não 2006, 2007…

Perguntado se a carmenère é uva símbolo chilena, Don Emílio relativiza: “É uma uva muito recente, ainda conheço pouco”. Ele dá preferência à merlot. “A carmenère é muito sensível, pede uma graduação alcoólica de no mínimo 14 graus”, explica. As uvas, a propósito, são colhidas a mão, o que facilita a seleção dos cachos de acordo com o estilo do vinho, dos mais ligeiros aos de qualidade superior.

Na linha de tintos de alta qualidade, o Gran Reserva Cabernet Sauvignon e Merlot (R$ 131,00) vem com ano de 2002 carimbado no rótulo. Antes de chegar na sua taça, o bicho ficou interagindo com uma barrica francesa por 18 meses o que conferiu uma boa concentração e estrutura parruda, além de uma amplitude de aromas bem diversificada, principalmente aqueles herdados da madeira (tostado, baunilha, defumado) e das frutas mais maduras. Até o branco da linha Surazo varietal, o Chardonnay (R$  35,00), não é um recém-nascido, como de praxe. É de 2006.

Mas emblemático mesmo desta filosofia é o Surazo Reserva Especial. A safra comercializada é de 1993 (R$ 68,00). Uau! Um tinto envelhecido em grandes barris, depois em madeiras menores, seguido de tanques de aço inoxidável e por fim hiberna na garrafa. É o rótulo mais antigo ainda em linha disponível no Chile. Bom, taí um estilo de vinho que merece passar por um decanter antes de abastecer sua taça. Mas depois de tudo que escrevi sobre este jarra metida à besta no post anterior, você não vai levar a recomendação a sério, não é?

Quem traz: Importadora Porto Mediterrâneo

Notas relacionadas:

  1. O chileno que derrotou os franceses
  2. Três goles de três vinhos de três países…
  3. Bom pra diabo!
Autor: beto gerosa Tags: , ,

quarta-feira, 15 de outubro de 2008 Novo Mundo, Tintos | 23:57

Bom pra diabo!

Compartilhe: Twitter

“Deus come escondido, e o Diabo sai por
toda a parte lambendo o prato”
Guimarães Rosa, em Grande Sertão, Veredas

Tenho uma notícia ótima, outra boa e uma terceira nem tanto para quem gosta de vinhos chilenos.

A ótima: a safra de 2007 dos tintos reserva e topo de linha que começam a chegar ao mercado está  excelente. Uma conjunção dos astros e uma mãozinha da natureza produziram esta que está sendo considerada com uma das melhores safras dos últimos anos! Há depoimentos nesse sentido de enólogos de diferentes casas como Pablo Morandé (Morandé), Aurélio Montes (Viña Montes) e Henrique Tirado (Dom Melchor, Concha y Toro).

A boa: a sempre acessível e constante linha Casillero del Diablo já colocou nas gôndolas o seu cabernet sauvignon 2007. São produzidas inacreditáveis 1,5 milhão de caixas deste vinho que é distribuído em todo o planeta. Na cápsula, a propaganda oficial: “SAFRA HISTÓRICA – a melhor safra de vinhos tintos reserva”.

A má: com certeza as linhas mais “topo de linha e premium”, à medida que as safras forem lançadas e bem pontuadas, vão ter seus preços remarcados. Pode apostar! Mas o nosso papo aqui é vinho acessível. E, por enquanto, o preço não mexeu!

Onde mora o diabo
A marca Casillero del Diablo é tão forte que nem todo mundo se dá conta que pertence à gigante Concha y Toro. Os caras são craques em construir tintos e brancos de sucesso. E são talentosos também no tal do marketing. O timaço de enólogos canta, dança e sapateia. É dura a vida do profissional das uvas hoje em dia. Não basta elaborar um bom vinho, é preciso saber vendê-lo. E dá-lhe vídeo destes senhores entre as parreiras, na adega, olhares esperançosos para frente, a sensação de domínio da natureza, as frases bem decoradas, a estratégia muito bem definida. E, claro, as viagens e encontros com a imprensa.

Marcio Ramírez, enólogo do Casillero del Diablo, cumpriu esta tarefa por aqui, mostrando cinco tintos da linha 2007. Além do cabernet, também apresentou os varietais merlot, malbec, carmenère e shiraz (que começam a ser vendidas entre novembro e dezembro). A malbec do demo é novidade por aqui. A produção é limitada e os vinhedos têm mais de 50 anos. Curioso como de repente brotaram plantas de malbec com mais de 50 anos no Chile…

Mas quer saber? Se na taça todos têm suas qualidades evidentes, o encanto fica com a malhada merlot do filme Sideways. A propósito, alguém lembra? O merlot do tinhoso 2007 é na minha percepção a melhor escolha dos tintos desta safra. Pronto para a taça e direto para a boca. Cor intensa, suave, macio, frutas frescas no nariz e no paladar, um vinho que combina com massas, aves e até na pizza do domingo. Vai bem num vôo solo também, o corpo médio e o frescor convidam a mais uma taça.

Outro tinto da casa do diabo tentador? O shiraz. Vai mais para o estilo da potência, com seu tostado mais marcante (todos os tintos do Casillero passam por 8 a 9 meses de barrica), uma fruta vermelha mais confitada, a especiaria de sempre da shiraz e um final mais longo. Fiquei imaginando com uma carne mal passada… O melhor de tudo? Você tem tudo isso por cerca de 30 reais. É ou não é coisa do demo?

Notas relacionadas:

  1. Um bate-papo com Chadwick
  2. Um sonho engarrafado
  3. Três goles de três vinhos de três países…
Autor: beto gerosa Tags: , ,

quinta-feira, 25 de setembro de 2008 Novo Mundo, Velho Mundo | 17:35

O investidor que virou vinho

Compartilhe: Twitter


Em 2004, quando o espanhol José Manuel Ortega Gil-Fournier (foto) largou  a vice-presidência do Banco Santander para se dedicar aos vinhedos, seus amigos do mercado financeiro o chamaram de maluco. Neste dias, em que os bancos de investimento estão derretendo e o mercado trinca os dentes, Ortega Gil-Fournier saboreia o retrogosto da vitória: “Hoje em dia, quem me chamava de louco, me cumprimenta pela decisão”.

A conversão deste alto executivo do mundo das finanças para o mundo dos vinhos começou pelo bolso, mas acabou tomando conta da cabeça. Quando trabalhava com o Goldman Sachs, em Londres, investiu 25 mil euros na aquisição de 2000 garrafas de rótulos espanhóis com forte apelo de investimento: topos de linha como Pesquera, Vega Sicilia, etc

A garimpagem pelas melhores safras aproximou Fournier do assunto. Em 1999, quando era responsável por investimentos do Santander na América do Sul, enxergou o potencial dos vinhedos argentinos e adquiriu terras em Mendoza. O negócio começou a tomar forma com a irmã e um cunhado. Passados oito anos, a O. Fournier tem vinícolas estabelecidas na Argentina, no Chile e na Espanha, na região de Ribera del Duero. São projetos autônomos, mas com afinidades de objetivos (vinhos de alta qualidade) e de características: os três estão localizados em terrenos de altitudes mais elevadas (cerca de 2.400 metros), trabalham na recuperação de vinhedos  antigos e adotam um regime de baixa produção por planta (que geralmente resulta em caldos de maior complexidade e refinamento, e preços idem).

Resultado: rótulos como A Crux (Argentina) e Spiga (Espanha) acumulam prêmios e críticas favoráveis ao redor do planeta. O argentino O. Fournier Syrah 2004 (U$ 159,50) é um dos rótulos mais prestigiados de um linha de excelências da vinícola. Mas de todos que provei fico com outras escolhas, listadas no post seguinte. “Não queremos produzir vinhos muito caros, nem para os top de linha”, argumenta Ortega Gil-Fournier. Não, isso não quer dizer que são produtos baratos, mas comparados a preços de vinhos do mesmo nível, o argumento é válido.

Ortega Gil-Fournier ainda toca num ponto controverso: a capacidade de envelhecimento dos rótulos abaixo do Equador. Contrariando o senso comum, que alega que envelhecimento é prerrogativa dos vinhos europeus, ele aposta na capacidade dos caldos do novo mundo. “Vinhos chilenos e argentinos podem evoluir, sim”, pontifica. “Fizemos uma degustação onde havia um tannat 1944, da Norton, que estava vivíssimo e um Trapiche 64 que evoluiu muito bem”, relata. É beber para crer.

Quanto à adega de safras antigas de seu investimento inicial, Ortega Gil-Fournier não parece muito preocupado. Seu foco, agora, é outro – ampliar seu raio de ação. Os próximos alvos são as regiões do Douro, em Portugal, e de Napa Valley, na Califórnia. Algumas garrafas da coleção foram abertas, claro, mas o restante continua ali, evoluindo seus aromas, afinando seus taninos e aumentando seu preço – o vinho transformou a vida do ex-vice-presidente de banco, mas nem por isso o homem rasga dinheiro, não é mesmo?

Notas relacionadas:

  1. Família Vega-Sicilia
  2. O chileno que derrotou os franceses
  3. Três goles de três vinhos de três países…
Autor: beto gerosa Tags: , , ,

Brancos, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 17:24

Três goles de três vinhos de três países…

Compartilhe: Twitter

…de um mesmo produtor: O. Fournier. Algumas impressões:

O Centauri Sauvignon Blanc 2007 (Chile, Vale de Leyda, San Antonio, U$38,50) vem da primeira safra do projeto do O. Fournier no Chile. Tem ótimo frescor e aquele nariz meio cítrico e de ataque que se espera de um sauvignon blanc do novo mundo.

O tinto Alfa Crux Blend 2002 (Argentina, Mendoza, La consulta, U$ 75,50), como revela o nome, é uma mistura de três uvas: tempranillo (60%), malbec (35%) e merlot (5%). Se tiver de optar, eu costumo preferir os cortes. O produtor Ortega Gil-Forunier também. Neste tipo de vinho o trabalho do enólogo é mais exigido, pois ele pode extrair o melhor de cada uva e reunir num único rótulo. Vinho delicioso, pronto e macio na boca, aromas de frutas mais maduras e flores, tudo isso prolongado por um final longo.

Alfa Spiga 2003 (Espanha, Ribera del Duero 2004, U$ 129,50). Trata-se de um puro-sangue: 100% tempranillo (tinta del país, como é conhecida a uva na região). Ortega Gil-Fournier aposta, e torce, na vocação da tempranillo como uma uva internacional, e cita experiências na Austrália e nos Estados Unidos. E, só para contrariar minha predileção por misturas, mencionada acima, este vinho conquistou de primeira, mas exige um investimento mais alto. O Alfa Spiga, antes de virar garrafa, hiberna 20 meses em barricas novas de carvalho, que dá aquele tempero ibérico e um caldo potente, de cor intensa e fruta madura. Que a tempranillo se espalhe pelo mundo, então.

Site oficial: O. Fournier
Onde encontrar: Importadora Vinci (preços com cotação do dólar do dia)

Notas relacionadas:

  1. Família Vega-Sicilia
  2. Um sonho engarrafado
  3. Bordeaux em três rótulos
Autor: beto gerosa Tags: , , , , , ,

domingo, 7 de setembro de 2008 Novo Mundo, Velho Mundo | 02:21

O chileno que derrotou os franceses

Compartilhe: Twitter


O produtor de vinhos chileno Eduardo Chadwick é alpinista. Seus vinhos  também são. 2004 foi o ano que eles atingiram o topo da montanha. Chadwick arriscou todas as suas fichas na já famosa Cata de Berlim, a degustação que colocou, lado a lado, seus rótulos e ícones franceses como Château Lafite-Rothschild, Château Margaux e Château Latour, e italianos como Sassicaia e Ornelaia. O resultado da prova: deu Chadwick 2000 na cabeça e Seña 2001em segundo. Ele compara o desafio de escalar o Aconcágua e a disputa de uma degustação às cegas, contra pesos-pesados, em Berlim: “Nos dois casos, é preciso perder o medo”, define. “A primeira tentativa de subir o Aconcágua enfrentei uma tempestade de neve e tive de voltar, foi frustrante”, relembra. “Na prova de Berlim, eu não arrisquei nada, nossos vinhos não eram conhecidos, não tinha nada a perder.”
A partir daí, Eduardo Chadwick se firmou como uma estrela ascendente do mundo do vinho. Foi eleito pela revista inglesa Decanter como uma das 50 personalidades mais influentes do mercado e viu sua produção, e os preços de seus vinhos, crescer como cotação de barril de petróleo, com a vantagem adicional de não sofrer oscilações para baixo. “O objetivo desta prova foi mostrar que nossos vinhos são de classe mundial”, recorda Chadwick. “Fiquei surpreso, não achava que íamos ganhar”, explica com um sorriso de quem venceu. Depois desta, ele repetiu a prova diversas vezes, em mercados distintos, como São Paulo (2005, meninos e meninas, eu estava lá!), Tokyo (2006), Toronto (2006), Copenhagen e Pequim (2008). Em todas elas seus vinhos ficaram bem posicionados. Em São Paulo, perdeu para o Château Margaux 2001, mas ficou com honrosos segundo (Chadwick 2000) e terceiro lugares (Seña 2001). Não dá para falar aqui da batalha do tostão contra o milhão, pois se tratam de garrafas que custam respectivamente R$ 480,00 (Chadwick) e R$  3.055,00 (Margaux 2001)!!!. “Meu objetivo não é ganhar sempre, mas mostrar que podemos estar entre os primeiros”, fundamenta. “Isso demonstra uma consistência tremenda de nosso vinhos.” As avaliações, uma espécie de franquia que crítico inglês Steven Spurrier que estreou o modelo em Paris, em 1976, e repetiu a dose com o produtor chileno, se tornou o My Way do repertório de Chadwick. Assim como Sinatra sempre tinha de incluir esta canção em suas apresentações, Chadwick retorna ao modelo sempre que quer ampliar seu mercado. É um maneira fácil de criar notícia, e mostrar ao mundo a qualidade de suas etiquetas. Chadwick conta que aprendeu com Robert Mondavi, recém-falecido produtor americano, que o marketing é tão importante quanto a produção. O produtor chileno aprendeu direitinho e virou um craque nas duas frentes. Em março do ano que vem, pretende realizar em Nova York uma prova em solo americano, desta vez incluindo dois rótulos consagrados da Califórnia, o Stag’s Leap e o Opus One. O Stag’s Leap, vale lembrar, foi o vinho que derrubou os franceces na citada prova de Paris, derrocando em solo gaulês os melhores Bordeaux e Borgonhas. Foi um choque. A história é contada em um livro delicioso: O Julgamento de Paris: Califórnia x França 1976 – A Histórica Degustação que Revolucionou o Mundo, de George M. Taber, único jornalista que cobriu o evento, que fez uma reportagem  para a revista TIME (leia texto original). A versão em filme, com Jude Law, Hugh Grant e Keanu Reeves no elenco, estreou em agosto nos EUA com o sugestivo título Bottles Shock (veja site oficial).

Notas relacionadas:

  1. Um bate-papo com Chadwick
  2. Um sonho engarrafado
Autor: beto gerosa Tags: ,

Novo Mundo, Tintos | 02:11

Um sonho engarrafado

Compartilhe: Twitter


Eduardo Chadwick vem com uma certa regularidade ao Brasil para apresentar novas safras, fazer seu marketing e, claro, aparecer na mídia. Dá certo, esta nota é um exemplo. Na sexta-feira, 5 de setembro, ele desarolhou o Seña 2005 e aproveitou para compará-lo às safras de 2003 e 2004, todas elas a 348 reais a garrafa. O Seña 2005 sai pronto da garrafa, com uma complexidade e intensidade que qualquer mortal com pupilas gustativas e um nariz capaz de distinguir aromas é capaz de perceber. Na receita  do enólogo misturaram-se 57% de cabernet sauvignon, 25% de merlot, 9% de carmenère, 6% de cabernet franc e 3% de petit verdot: mais bordalês impossível! É o Chile derrotando a França com as mesmas armas dos gauleses! Aromas de frutas e tabaco, um bom corpo na boca, e um delicioso chocolate no final, sempre intenso. Chadwick comentou que os taninos ainda podem amaciar, eu juro que não sinto necessidade. O 2005 é muito semelhante ao perfil do 2003, com a diferença dos dois anos que o separam. Mas creio que o 2005 tem uma pegada mais sedutora. Os incríveis 14,5% de álcool registrados na etiqueta passam  ao largo. Muita gente reclama dos vinhos muito alcoólico, que se tornam pesados e enjoativos. No Seña, o equilíbrio de seus elementos encobrem este álcool todo. Além da minivertical de Seña, um bônus track: um Chadwick (R$ 480,00, um dos rótulos mais caros do Chile) da difícil safra de 2004. A linha Chadwick é de estilo mais clássico, um pouco mais velho mundo do que o Seña – não tem tanta doçura e a acidez é mais preponderante. Por essas e outras que Eduardo monta, junto com Steven Spurrier seu show às cegas com tops de Bordeaux. O estilo é o mesmo, e, já se disse aquí, degustação às cegas é a prova dos noves. Sempre. Para finalizar, foi servido um refrescante  Arboleda Chardonnay 2005 (R$ 85,00).
Por que um branco no final? Foi aí que começaram a ser servidos os pratos. À medida que o almoço foi avançando tivemos a difícil tarefa de retomar aos tintos cima, agora acompanhados de comida, por ironia ou provocação, francesa. Ficou sensacional. Seña é o vinho de todos os dias do importador Otávio Piva de Albuquerque. Ok, ele pode. Mas também pode ser aquele vinho para você em um momento especial. Não tem erro. Seña, a propósito, não significa sonho, e sim “rasgo de distinción” ou “firma personal”, mas bem que poderia.

Notas relacionadas:

  1. Um bate-papo com Chadwick
Autor: beto gerosa Tags: , , , , , ,

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. Última