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domingo, 7 de setembro de 2008 Novo Mundo, Velho Mundo | 02:21

O chileno que derrotou os franceses

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O produtor de vinhos chileno Eduardo Chadwick é alpinista. Seus vinhos  também são. 2004 foi o ano que eles atingiram o topo da montanha. Chadwick arriscou todas as suas fichas na já famosa Cata de Berlim, a degustação que colocou, lado a lado, seus rótulos e ícones franceses como Château Lafite-Rothschild, Château Margaux e Château Latour, e italianos como Sassicaia e Ornelaia. O resultado da prova: deu Chadwick 2000 na cabeça e Seña 2001em segundo. Ele compara o desafio de escalar o Aconcágua e a disputa de uma degustação às cegas, contra pesos-pesados, em Berlim: “Nos dois casos, é preciso perder o medo”, define. “A primeira tentativa de subir o Aconcágua enfrentei uma tempestade de neve e tive de voltar, foi frustrante”, relembra. “Na prova de Berlim, eu não arrisquei nada, nossos vinhos não eram conhecidos, não tinha nada a perder.”
A partir daí, Eduardo Chadwick se firmou como uma estrela ascendente do mundo do vinho. Foi eleito pela revista inglesa Decanter como uma das 50 personalidades mais influentes do mercado e viu sua produção, e os preços de seus vinhos, crescer como cotação de barril de petróleo, com a vantagem adicional de não sofrer oscilações para baixo. “O objetivo desta prova foi mostrar que nossos vinhos são de classe mundial”, recorda Chadwick. “Fiquei surpreso, não achava que íamos ganhar”, explica com um sorriso de quem venceu. Depois desta, ele repetiu a prova diversas vezes, em mercados distintos, como São Paulo (2005, meninos e meninas, eu estava lá!), Tokyo (2006), Toronto (2006), Copenhagen e Pequim (2008). Em todas elas seus vinhos ficaram bem posicionados. Em São Paulo, perdeu para o Château Margaux 2001, mas ficou com honrosos segundo (Chadwick 2000) e terceiro lugares (Seña 2001). Não dá para falar aqui da batalha do tostão contra o milhão, pois se tratam de garrafas que custam respectivamente R$ 480,00 (Chadwick) e R$  3.055,00 (Margaux 2001)!!!. “Meu objetivo não é ganhar sempre, mas mostrar que podemos estar entre os primeiros”, fundamenta. “Isso demonstra uma consistência tremenda de nosso vinhos.” As avaliações, uma espécie de franquia que crítico inglês Steven Spurrier que estreou o modelo em Paris, em 1976, e repetiu a dose com o produtor chileno, se tornou o My Way do repertório de Chadwick. Assim como Sinatra sempre tinha de incluir esta canção em suas apresentações, Chadwick retorna ao modelo sempre que quer ampliar seu mercado. É um maneira fácil de criar notícia, e mostrar ao mundo a qualidade de suas etiquetas. Chadwick conta que aprendeu com Robert Mondavi, recém-falecido produtor americano, que o marketing é tão importante quanto a produção. O produtor chileno aprendeu direitinho e virou um craque nas duas frentes. Em março do ano que vem, pretende realizar em Nova York uma prova em solo americano, desta vez incluindo dois rótulos consagrados da Califórnia, o Stag’s Leap e o Opus One. O Stag’s Leap, vale lembrar, foi o vinho que derrubou os franceces na citada prova de Paris, derrocando em solo gaulês os melhores Bordeaux e Borgonhas. Foi um choque. A história é contada em um livro delicioso: O Julgamento de Paris: Califórnia x França 1976 – A Histórica Degustação que Revolucionou o Mundo, de George M. Taber, único jornalista que cobriu o evento, que fez uma reportagem  para a revista TIME (leia texto original). A versão em filme, com Jude Law, Hugh Grant e Keanu Reeves no elenco, estreou em agosto nos EUA com o sugestivo título Bottles Shock (veja site oficial).

Notas relacionadas:

  1. Um bate-papo com Chadwick
  2. Um sonho engarrafado
Autor: beto gerosa Tags: ,

Entrevista, Novo Mundo | 01:56

Um bate-papo com Chadwick

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Em sua conversa com o Blog do Vinho, Eduardo Chadwick opinou sobre Robert Parker e a crítica americana, lembrou de Robert Mondavi (de quem foi sócio), explicou a razão da mudança de seus rótulos Errazuriz  de importador (Terroir para Vinci), contou suas aventuras como alpinista e, claro, falou sobre seus vinhos.

Parker e a crítica americana
“Crítico americano é paroquial, eles usam como referência o seu quintal, o Vale do Napa, na Califórnia.”

“O americano médio está acostumado com sabores doces e apimentados. Por isso gostam de vinhos com esta característica que o Parker tanto aprecia, de vinhos potentes que ele pontua com notas altas, numa escala que os americanos compreendem bem, de 0 a 100, igual às notas do colégio”.

“Eu não adapto meu vinho ao gosto do Parker e da revsita Wine Spectator, ao contrário de muitas vinícolas do Chile. Parker, aliás, nunca foi ao Chile.”

“Meus vinhos são bem pontuados por Parker e Wine Spectator, mas o gosto da crítica americana não pode ser o único critério de valor no mundo.”

“Os americanos são mesquinhos na avaliação do Chile, ao contrário do que acontece no Reino Unido, que tem outra cultura de vinho, mais refinada.”

Cata de Berlim
“Um ano antes, em 2003, fizemos uma prova às cegas com nossos vinhos das safras 98 e 99 junto com cinco grand cru. Não era um evento aberto, com divulgação, mas ficamos com o terceiro e quinto lugares. Isso nos deixou mais seguros.”

“Não concordo que os vinhos franceses vão envelhecer melhor do que os chilenos. Vou refazer a Cata de Berlim em 2014, com as mesmas safras, para demonstrar a capacidade de envelhecimento de nossos vinhos.”

Robert Mondavi
“Meus dois maiores mentores foram o meu pai e Robert Mondavi. Ele tinha 80 anos e eu 30 quando nos associamos. Ele me deu uma noção de aprendizado maravilhosa.”

“Em 1995, Bob Mondavi enxergou no Chile o mesmo potencial que viu no Napa Valley nos anos 60.”

“Mondavi me ensinou que o marketing é uma ferramenta tão importante quanto a produção do vinho, pois é preciso torná-lo conhecido.”

“A última vez que estive com Bob Mondavi foi em junho de 2007, ele já estava bastante debilitado, menos lúcido, sofria de Alzheimer. Sua morte não foi uma surpresa, ele sofreu muito no hospital.”

Seña branco
“A idéia inicial era produzir um grande vinho tinto e outro branco com o rótulo Seña. Mas depois de provar os brancos, percebemos que não tinham tipicidade para competir com os grandes da Borgonha, por isso resolvemos apostar só no Seña tinto.”

“Hoje as uvas brancas do Chile melhoraram muito, o sauvignon blanc plantado nas costas tem uma qualidade muito melhor do que há 15 anos. O mesmo acontece com o chardonnay. Produzimos um chardonnay mais fresco e mineral, como menos presença de madeira, como os da linha Arboleda, com bons resultados.”

A troca do Errazuriz da Terroir pela Vinci e a reação de Lopes
“Lopes (Elídio Lopes, proprietário da Terroir) foi bastante injusto nas declarações na imprensa e em seus programas de TV sobre o  fim de nossa parceria, pois ele não fez o trabalho que se comprometeu comigo. Lopes queria nossa marca muito reduzida, elitista, sem um trabalho forte nos restaurantes, que é algo que nos interessa.”

“Por cinco anos trabalhamos com o Lopes na Terroir, depois deste tempo, nos demos conta que era uma missão impossível, não íamos ser bem representados no Brasil, por isso trocamos a Terroir pela Vinci. Nós é que fomos falar com eles.”

Vinhos chilenos
“Eu não acho que um vinho tenha de mostrar taninos rústicos e verdes quando novos. Nossos vinhos nascem com taninos maduros e com capacidade de envelhecer.”

“O paladar mundial está cada vez mais orientado para os vinhos do Chile.”

“Cada marca representa um vale, uma história. O Seña, em Aconcágua,  e o Chadwick, no Vale do Maipo

Alpinismo
“Na primeira tentativa, em 1996, treinamos seis meses, eu e um grupo de três amigos. Mas no último acampamento enfrentamos uma tempestade de neve de três dias, a neve chegou a 1 metro de altura. Ficamos desiludidos e frustrados. A montanha te ensina a humildade, se não é possível enfrentá-la, não se pode.”

“Na segunda vez estava com um grupo de ingleses. Eles desistiram, mas eu fui até o final.”

Autor: beto gerosa Tags: , ,