Salton completa 100 anos e lança um tinto e um espumante para comemorar
A VinÃcola Salton completa 100 anos no dia 25 de agosto de 2010. Uma empresa brasileira cravar 100 anos de existência já é um ponto fora da curva, uma indústria do vinho em um paÃs sem a tradição na bebida alcançar este feito, então, é um assombro.
Um estudo realizado por uma empresa japonesa, Tokyo Shoko Research, fundada em 1892, pesquisou 1.975,260 cadastros em seu banco de dados e encontrou 21.660 empresas com mais de 100 anos no mundo. Entre elas, há inúmeras vinÃcolas ainda atuantes, 76 para ser mais exato. Fundada no ano 1000, o Château de Goulaine, localizado no Vale do Loire, é a vinÃcola mais antiga ainda em funcionamento e a oitava empresa mais antiga da lista. A italiana Ricasoli, de 1141, uma verdadeira dinastia do Chianti na Toscana, é a vigésima da lista. As únicas representantes nacionais são o Banco do Brasil, fundado em 1808, e a distilaria Ypioca, criada em 1846.
A lista pode ser até imprecisa, mas 100 anos, como se vê, merecem festa e pompa. Para comemorar o centenário, dois vinhos foram cuidadosamente elaborados pelo principal enólogo da vinÃcola, Lucindo Copat. Um tinto e um espumante. O primeiro, o Salton 100 anos, é uma espécie de evolução do Talento, o top de linha da empresa lançado em 2004, um assemblage com 50% de cabernet sauvignon, 40% de merlot e 10% de cabernet franc que permaneceu 16 meses em carvalho novo francês antes de ir para a garrafa. Um tinto intenso, a madeira batendo continência, camadas de frutas, pedindo um decanter ou algum tempo a mais de garrafa. Já o Salton Espumante Nature 100 anos, elaborado pelo método tradicional (champenoise), é composto por 70% de pinot noir e 30% de chardonnay e permaneceu três anos em contato com as leveduras. Resultado: nariz de champanhe, espuma abundante e sabor rico. Top espumante nacional, digno de um selo 100 anos. Se precisasse escolher uma das duas bebidas para brindar, eu ficaria com esta. A 13 mil garrafas dos vinhos, em edição limitada para os padrões da vinÃcola, estarão à venda a partir de 26 de agosto, um dia após o centenário. O Brandy 100 anos que aparece na foto acima será exclusivo para comemorações da empresa.
O vinho Salton consumido hoje guarda poucos laços com 100 anos de tradição. Os produtos atualmente engarrafados na moderna vinÃcola de Tuiuty, em Bento Gonçalves – as linhas Classic, Volpi, os espumantes Évidence, Reserva Ouro, e os tops Talento, Desejo (tintos) e Virtude (branco) – são fruto de uma revolução dos últimos 10 anos da empresa. Um dos principais engenheiros desta guinada, no entanto, não vai estar presente na festa. Em fevereiro de 2009 o então presidente da empresa, Angelo Salton, em uma dessas trapaças do destino, faleceu, vÃtima de um infarte fulminante.
Pessoalmente, Angelo lembrava o ator e diretor Orson Welles dos últimos anos. De grande estatura e jeito bonachão, abria um sorriso enorme cada vez que oferecia, com seu vozeirão, uma taça de vinho a quem quer que passasse à sua frente em feiras e degustações: “Este é um espumante da mais alta qualidade, brasileiro, é da Salton. Você vai provar, gostar e comprar mais no supermercado”. Bingo, mais um cliente conquistado. Claro, Angelo não comandava uma ONG, mas uma empresa, e estava comprometido com o crescimento da Salton e a divulgação de seus produtos. Mas fazia isso com um entusiasmo raro.  Em 2006, ele deu uma entrevista a este colunista que revista anos depois traduz o homem e seu projeto. E demonstram uma visão que extrapolou o regionalismo e deu o rumo desses últimos 10 anos da vinÃcola, que completa 100 anos com boa musculatura. Alguns trechos, abaixo:
Mudança
O foco, a filosofia e a cultura da Salton mudaram nos últimos três anos. O que ajudou muito é que eu mudei muito como presidente da empresa. Eu passei a vivenciar os vinhos junto com enólogos, até hoje faço isso.A empresa
A Salton tem 94 anos (em 2006). Nós temos uma estrutura de indústria muito forte. O Conhaque Presidente e outros vinhos populares geram um lucro que nos permite investir. É este lucro que bancou a construção da nova adega, em Tuiuty. Você não pode falar em vinhos e espumantes finos devendo no banco.
ABS, Sbav e confrarias
Essas associações estão totalmente ligadas ao mundo do vinho brasileiro. São formadas por especialistas que tomam de 20 a 30 rótulos importados por dia. Eles têm uma boca superior à do enólogo que só toma vinho brasileiro. Por isso eu dizia para o pessoal do Sul: “Respeitem esta turma, vamos aproveitar esta capacidade, esta crÃtica para nos ajudar.” E foi o que aconteceu nesses anos, com esse tipo de contato.
O choque dos importados
Nós não tÃnhamos a cobrança de fazer vinhos finos, como o Talento, o mercado não exigia isso. A concorrência do importado fez a indústria se mexer, esta é a verdade. Por que até não ter estes 30 milhões de litros importados, 40 milhões de garrafas, a vinÃcola brasileira estava meio tranquila.Vinho popular
A Salton não vai viver só do vinho fino. Ela vai viver também do vinho popular. Mas vamos fazer o melhor popular que tem. Vamos deixar de fazer o Chalise? Vamos cortar as parreiras de uva isabel? Acho que não. Temos um mercado que é o Brasil real. A uva isabel custa 30 centavos e a cabernet sauvignon, 2 reais. O dia que tiver cabernet sauvignon a 30 centavos, a gente corta o resto! Mas vai demorar.As bandeirinhas
O Volpi nasceu em 2000. Uma idéia que tivemos de trazer um rótulo mais sofisticado. Fizemos um grande lançamento do Salton Volpi Chardonnay, no restaurante D.O.M. A Salton começou ali a engatinhar rumo às coisas mais refinadas.O caminho para chegar aos restaurantes
Atualmente eu não admito um restaurante em São Paulo que não tenha vinho Salton. O Talento, por exemplo, está na carta de vinhos dos melhores restaurantes da cidade. Mas no começo, há quatro anos, foi um processo lento. Fui visitar o Fasano umas oito vezes até convencer o sommelier da casa, Manoel Beato, que o nosso vinho tinha qualidade para entrar na carta de vinhos do restaurante.Enochatos
Se o cara começa a descrever cheiro de borracha queimada e aroma de frutas exóticas que ninguém conhece fora do meio dele, pode passar por ridÃculo. É o risco. De vez em quando eu escuto umas pessoas comentar as caracterÃsticas de um vinho, e falo: “Olha, eu não estou sentido nada disso.” Aà tem um pouquinho de marketing de quem faz o show.Degustação
Eu sei que eu não sou um grande degustador. Mas hoje o meu padrão está com o Salton Talento. Se eu provo um vinho inferior, do dia-a-dia, já noto que falta tipicidade, aroma, intensidade. Estou também virando um chato…
Os 100 anos sem Angelo, mas com seu legado
A ausência de Angelo ao brinde dos 100 anos da Salton provoca um travo amargo. Afinal, a finitude inesperada é uma dessas armadilhas que interrompem uma vida cheia de expectativas. Mas também pode ser encarada com um último recado do empresário que dedicou 28 anos de sua carreira profissional à Salton e que nos últimos anos defendia o crescimento do mercado do vinho nacional pela qualificação do produto – sem perder o olho no mercado de grande volume. Ele não vai estar na festa, uma pena, mas seus vinhos sobreviveram a sua marcante personalidade. Missão cumprida.
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Autor: Beto Gerosa Tags: Angelo Salton, Salton, Vinho Nacional





