Angelo Salton | Blog do Vinho

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010 Nacionais | 10:54

Salton completa 100 anos e lança um tinto e um espumante para comemorar

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A Vinícola Salton completa 100 anos no dia 25 de agosto de 2010. Uma empresa brasileira cravar 100 anos de existência já é um ponto fora da curva, uma indústria do vinho em um país sem a tradição na bebida alcançar este feito, então, é um assombro.

Um estudo realizado por uma empresa japonesa, Tokyo Shoko Research, fundada em 1892, pesquisou 1.975,260 cadastros em seu banco de dados e encontrou 21.660 empresas com mais de 100 anos no mundo. Entre elas, há inúmeras vinícolas ainda atuantes, 76 para ser mais exato. Fundada no ano 1000, o Château de Goulaine, localizado no Vale do Loire, é a vinícola mais antiga ainda em funcionamento e a oitava empresa mais antiga da lista. A italiana Ricasoli, de 1141, uma verdadeira dinastia do Chianti na Toscana, é a vigésima da lista. As únicas representantes nacionais são o Banco do Brasil, fundado em 1808, e a distilaria Ypioca, criada em 1846.

A lista pode ser até imprecisa, mas 100 anos, como se vê, merecem festa e pompa. Para comemorar o centenário, dois vinhos foram cuidadosamente elaborados pelo principal enólogo da vinícola, Lucindo Copat. Um tinto e um espumante. O primeiro, o Salton 100 anos, é uma espécie de evolução do Talento, o top de linha da empresa lançado em 2004, um assemblage com 50% de cabernet sauvignon, 40% de merlot e 10% de cabernet franc que permaneceu 16 meses em carvalho novo francês antes de ir para a garrafa. Um tinto intenso, a madeira batendo continência, camadas de frutas, pedindo um decanter ou algum tempo a mais de garrafa. Já o Salton Espumante Nature 100 anos, elaborado pelo método tradicional (champenoise), é composto por 70% de pinot noir e 30% de chardonnay e permaneceu três anos em contato com as leveduras. Resultado: nariz de champanhe, espuma abundante e sabor rico. Top espumante nacional, digno de um selo 100 anos. Se precisasse escolher uma das duas bebidas para brindar, eu ficaria com esta. A 13 mil garrafas dos vinhos, em edição limitada para os padrões da vinícola, estarão à venda a partir de 26 de agosto, um dia após o centenário. O Brandy 100 anos que aparece na foto acima será exclusivo para comemorações da empresa.

Angelo

O vinho Salton consumido hoje guarda poucos laços com 100 anos de tradição. Os produtos atualmente engarrafados na moderna vinícola de Tuiuty, em Bento Gonçalves – as linhas Classic, Volpi, os espumantes Évidence, Reserva Ouro, e os tops Talento, Desejo (tintos) e Virtude (branco) – são fruto de uma revolução dos últimos 10 anos da empresa. Um dos principais engenheiros desta guinada, no entanto, não vai estar presente na festa. Em fevereiro de 2009 o então presidente da empresa, Angelo Salton, em uma dessas trapaças do destino, faleceu, vítima de um infarte fulminante.

Pessoalmente, Angelo lembrava o ator e diretor Orson Welles dos últimos anos. De grande estatura e jeito bonachão, abria um sorriso enorme cada vez que oferecia, com seu vozeirão, uma taça de vinho a quem quer que passasse à sua frente em feiras e degustações: “Este é um espumante da mais alta qualidade, brasileiro, é da Salton. Você vai provar, gostar e comprar mais no supermercado”. Bingo, mais um cliente conquistado. Claro, Angelo não comandava uma ONG, mas uma empresa, e estava comprometido com o crescimento da Salton e a divulgação de seus produtos. Mas fazia isso com um entusiasmo raro.  Em 2006, ele deu uma entrevista a este colunista que revista anos depois traduz o homem e seu projeto. E demonstram uma visão que extrapolou o regionalismo e deu o rumo desses últimos 10 anos da vinícola, que completa 100 anos com boa musculatura. Alguns trechos, abaixo:

Mudança
O foco, a filosofia e a cultura da Salton mudaram nos últimos três anos. O que ajudou muito é que eu mudei muito como presidente da empresa. Eu passei a vivenciar os vinhos junto com enólogos, até hoje faço isso.

A empresa
A Salton tem 94 anos (em 2006). Nós temos uma estrutura de indústria muito forte. O Conhaque Presidente e outros vinhos populares geram um lucro que nos permite investir. É este lucro que bancou a construção da nova adega, em Tuiuty. Você não pode falar em vinhos e espumantes finos devendo no banco.

ABS, Sbav e confrarias
Essas associações estão totalmente ligadas ao mundo do vinho brasileiro. São formadas por especialistas que tomam de 20 a 30 rótulos importados por dia. Eles têm uma boca superior à do enólogo que só toma vinho brasileiro. Por isso eu dizia para o pessoal do Sul: “Respeitem esta turma, vamos aproveitar esta capacidade, esta crítica para nos ajudar.” E foi o que aconteceu nesses anos, com esse tipo de contato.

O choque dos importados
Nós não tínhamos a cobrança de fazer vinhos finos, como o Talento, o mercado não exigia isso. A concorrência do importado fez a indústria se mexer, esta é a verdade. Por que até não ter estes 30 milhões de litros importados, 40 milhões de garrafas, a vinícola brasileira estava meio tranquila.

Vinho popular
A Salton não vai viver só do vinho fino. Ela vai viver também do vinho popular. Mas vamos fazer o melhor popular que tem. Vamos deixar de fazer o Chalise? Vamos cortar as parreiras de uva isabel? Acho que não. Temos um mercado que é o Brasil real. A uva isabel custa 30 centavos e a cabernet sauvignon, 2 reais. O dia que tiver cabernet sauvignon a 30 centavos, a gente corta o resto! Mas vai demorar.

As bandeirinhas
O Volpi nasceu em 2000. Uma idéia que tivemos de trazer um rótulo mais sofisticado. Fizemos um grande lançamento do Salton Volpi Chardonnay, no restaurante D.O.M. A Salton começou ali a engatinhar rumo às coisas mais refinadas.

O caminho para chegar aos restaurantes
Atualmente eu não admito um restaurante em São Paulo que não tenha vinho Salton. O Talento, por exemplo, está na carta de vinhos dos melhores restaurantes da cidade. Mas no começo, há quatro anos, foi um processo lento. Fui visitar o Fasano umas oito vezes até convencer o sommelier da casa, Manoel Beato, que o nosso vinho tinha qualidade para entrar na carta de vinhos do restaurante.

Enochatos
Se o cara começa a descrever cheiro de borracha queimada e aroma de frutas exóticas que ninguém conhece fora do meio dele, pode passar por ridículo. É o risco. De vez em quando eu escuto umas pessoas comentar as características de um vinho, e falo: “Olha, eu não estou sentido nada disso.” Aí tem um pouquinho de marketing de quem faz o show.

Degustação
Eu sei que eu não sou um grande degustador. Mas hoje o meu padrão está com o Salton Talento. Se eu provo um vinho inferior, do dia-a-dia, já noto que falta tipicidade, aroma, intensidade. Estou também virando um chato…

Os 100 anos sem Angelo, mas com seu legado

A ausência de Angelo ao brinde dos 100 anos da Salton provoca um travo amargo. Afinal, a finitude inesperada é uma dessas armadilhas que interrompem uma vida cheia de expectativas. Mas também pode ser encarada com um último recado do empresário que dedicou 28 anos de sua carreira profissional à Salton e que nos últimos anos defendia o crescimento do mercado do vinho nacional pela qualificação do produto – sem perder o olho no mercado de grande volume. Ele não vai estar na festa, uma pena, mas seus vinhos sobreviveram a sua marcante personalidade. Missão cumprida.

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Autor: Beto Gerosa Tags: , ,

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009 Entrevista, Espumantes, Nacionais | 10:15

Angelo Salton 1952 – 2009

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O mundo do vinho acordou mais triste nesta terça-feira, dia 10 de fevereiro. Faleceu, a 1 hora desta madrugada, vítima de um infarto agudo, o presidente da Vinícola Salton, Ângelo Salton. Segundo assessoria de imprensa da empresa, há 15 dias o empresário havia feito um check-up geral e nada havia sido constatado. O corpo está sendo velado no cemitério do Araçá e às 16 horas segue para o crematório de Vila Alpina. Ângelo tinha 56 anos e deixa a mulher, Fátima, e quatro filhos.

No último encontro que tive com Ângelo, em um restaurante em São Paulo no final do ano passado, ele esbanjava otimismo e bom humor – uma característica marcante de sua personalidade – e estava cheio de planos para o aniversário de 100 da Salton, que será comemorado em 2010. Seus planos, certamente, terão continuidade na empresa.

Reproduzo abaixo o último texto que publiquei sobre Ângelo e o sucesso dos espumantes Salton na edição de dezembro de Veja São Paulo. Esta é a modesta homenagem deste blog a este guerreiro do vinho nacional.

O senhor das borbulhas

De cada três espumantes abertos no Brasil, dois
são nacionais. E 40% da produção brasileira é
do paulistano Ângelo Salton Neto

Por Roberto Gerosa 19.12.2007

Uma visita ao restaurante Fasano, em 2000, mudou a vida do empresário paulistano Ângelo Salton Neto. Enquanto tentava incluir um de seus rótulos na refinada carta de vinhos da casa, notou que a maioria das mulheres bebia um prosecco italiano durante a refeição. Imediatamente, ligou para o enólogo da Salton, em Bento Goncalves, no Rio Grande do Sul: “Aqui, só se bebe isso. Precisamos fazer o nosso”. Estava com sorte. Em suas propriedades havia 77 hectares cultivados com a uva prosecco, que era usada em outro tipo de vinho. Em três meses, lançou 6 000 garrafas. Um sucesso de público e crítica. De lá para cá, investiu pesado em sua linha de espumantes e, há três anos, chegou à liderança do setor, ultrapassando a Chandon, sua maior concorrente. De cada 100 garrafas de espumantes finos produzidas no Brasil, quarenta saem dos tanques de aço da Vinícola Salton, encravada na região de Tuiuti, vizinha a Bento Gonçalves.”E eu nem sabia que prosecco era o nome da uva”, conta Ângelo.

O bisavô de Ângelo veio para o Brasil em 1878. Saiu da comuna italiana de Cison di Valmarino, na região do Vêneto, próximo a Valdobbiadene, o berço dos melhores proseccos do mundo. Instalou-se na colônia italiana de Dona Isabel, atual Bento Gonçalves. Seus sete filhos fundaram, em 1910, a vinícola que foi batizada com o sobrenome da família. Na década de 40, o pai de Ângelo se mudou para São Paulo. O filho nascido aqui há 55 anos foi criado no prédio da Zona Norte onde atualmente funciona outra empresa do grupo, a Conhaque Presidente (20 milhões de litros vendidos ao ano). “Passei a infância no meio daquelas garrafas”, lembra. Engenheiro mecânico formado pelo Mackenzie, Ângelo largou a carreira para ingressar na companhia em 1976. Desde 1986, está na presidência do grupo, que tem um faturamento previsto de 39 milhões de reais para este ano, só com a linha de espumantes. “As mulheres e as festas são as grandes responsáveis por esse sucesso”, diz.

Ângelo, que cultiva a barba desde os tempos de faculdade, tem um jeito bonachão e um vozeirão que fazem lembrar um pouco o ator Orson Welles em seus últimos filmes. É um vendedor nato. Nas feiras de vinho, serve pessoalmente clientes e curiosos. “Defendo a qualidade do vinho nacional, e peço para comprar o meu, claro.” Atualmente, é respeitado pela crítica especializada e está sempre na mídia – pode ser visto com freqüência no Programa Amaury Jr., da Rede TV!. Até chegar a esse ponto, no entanto, teve de quebrar resistências. Certa vez, para chamar a atenção do jornalista e colunista de vinho da rádio CBN Renato Machado, abriu com estardalhaço um espumante. “Ele reclamou da maneira como a garrafa foi aberta, mas experimentou e aprovou a bebida”, afirma. “Não me lembro desse encontro e não tenho conhecimento dos espumantes da Salton para fazer qualquer comentário”, diz Machado. De olho na renovação dos consumidores, Ângelo aposta no lançamento, em fevereiro do ano que vem, do Prosecco Night, em garrafas de 375 e 750 mililitros. “Quando eu tinha 19 anos, só bebia uísque. Hoje, os jovens gostam de espumante”, afirma ele, que só foi trocar o malte escocês pelas borbulhas depois dos 40.

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Autor: beto gerosa Tags: , ,