Publicidade

Arquivo da Categoria Tintos

sexta-feira, 3 de abril de 2009 Nacionais, Novo Mundo, Tintos | 19:01

Marco Danielle: da tormenta ao prelúdio

Compartilhe: Twitter

Você conhece Marco Danielle? Quem frequenta a esquina virtual onde os aficionados dos tintos e brancos se encontram, os blogs, fóruns e redes sociais sobre o tema, certamente já ouviu falar dos vinhos Tormentas e Minimus Anima, e de seu autor, Marco Danielle. Desde 2005 ele batalha pela divulgação de seus tintos naturais, de produção reduzida e preço elevado. Danielle defende a baixa intervenção no vinhedo e é refratário a qualquer adição química na vinificação, principalmente de sulfitos.

A novidade é que agora ele está trabalhando um novo rótulo, Prelúdio, um vinho que  mantém o mesmo estilo mas dá uma trégua no preço. Odiado ou amado, o fato é que seu discurso sempre provoca faísca. E Danielle não é muito aderente a críticas, seja lá quais forem, e defende com unhas, dentes, ancinhos e, muita teoria, seus vinhos naturais. Daí a faísca invariavelmente provoca fogo.

Para o músico e ex-colaborador de Veja.com, Ed Motta, o Minimus Anima de 2005, por exemplo, é “o tinto brasileiro de maior personalidade” que já degustou. “No nariz, rara elegância, com uma nota salgada e apimentada que lembra os vinhos do Rhône e Languedoc, na França. Brilhante”, complementa. O enocineasta John Nossiter e os críticos do site Notas de Degustação também se somam aos entusiastas das experiências naturais de Danielle. Já boa parte da crítica tradicional olha desconfiada para o projeto, para seus proclamas e seus caldos. O crítico Marcelo Copello,  atualmente editor da revista Adega, comentando uma degustação às cegas de seus rótulos, disparou o seguinte petardo há alguns anos: “Algumas pessoas realmente não gostaram do vinho, achando-o desagradável”, sentenciou. “Os defeitos principais comentados foram aromas cozidos e concentrados de mais, de uvas excessivamente maduras ou concentradas posteriormente de alguma forma.”

Tudo isso é bossa-nova, tudo é muito natural
Seus vinhos, no entanto, a despeito de qualquer crítica, a favor ou contra, são extratos naturais, como os rios. Há quem goste das águas correntes, há quem prefira a platitude das represas ou o conforto das piscinas, quimicamente tratadas. Gosto é um valor subjetivo.

Provar um dos rubros criados no ateliê de Danielle - é assim que ele chama seu espaço de elaboração de vinhos artesanais – é de fato uma experiência diferente. O perfil dos tintos está mais próximo ao estilo do velho mundo, onde Danielle ganhou o pão como fotógrafo. No lugar da fruta em compota na taça, e do envelhecimento em madeira, a pureza da fruta. Apesar do termo desgastado, diria que é um vinho bossa-nova, que no princípio causa estranheza mas que esconde uma harmonia rica por atrás de sua aparente simplicidade.

Seus tintos não usam conservantes, leveduras industriais ou sofrem qualquer intervenção química na vinificação. O desengace dos cachos é manual e muitos de seus rótulos não contém, ou contém porções reduzidíssimas, de SO2, um conservante muito utilizado na elaboração de vinhos. Os caldos também não são filtrados ou estabilizados artificialmente. Muito  técnico, meio chato, né? Mas e daí, você deve estar se perguntando?

Daí que esta escolha resulta em um vinho diferente no paladar, que explora mais a verdade do vinhedo e a potencialidade da fruta; daí que o sabor, a cor e a palheta de aromas fogem do modelo tradicional – o que nem sempre pode agradar e nem %C

Notas relacionadas:

  1. Um sonho engarrafado
  2. Bordeaux em três rótulos
  3. Danielle, artista, vinhateiro ou ambos?
Autor: beto gerosa Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 26 de março de 2009 Nacionais, Tintos | 23:42

O Beaujolais brasileiro tá na área?

Compartilhe: Twitter

Todo dia 15 de novembro o tinto francês Beaujolais Noveau chega, ao mesmo tempo, em vários pontos de venda do planeta com um jargão já conhecido pelos enófilos: Le Beaujolais Noveau est arrivé! É uma festa! O Beaujolais é um vinho descomplicado, leve, frutado, de pouca extração de cor, feito para ser consumido assim que é lançado, de preferência quase gelado. O rótulo costuma ser bem colorido, com uma aparência moderna e divertida, bem no espírito do vinho. A uva é sempre a mesma: a gamay, a única variedade tinta permitida na Borgonha além da pinot noir.

No Brasil, a Miolo é uma das raras vinícolas a ter um gamay em seu catálogo. “É um tinto jovem e leve que se identifica muito com o nosso clima tropical”, avalia o diretor-superintendente da empresa, Adriano Miolo. É por que acredita no potencial de um vinho mais descompromissado, mas com qualidade, que a Miolo resolveu repaginar seu gamay.

Marionnet quem?
Para isso trouxe da França um dos mais conceituados conhecedores da uva gamay, o  produtor francês Henry Marionnet. Curiosamente o novo parceiro para este projeto é um vinicultor de Touraine, no Vale do Loire, e não da Borgonha. Seu nome estará colado à  campanha de lançamento da safra 2009 como sinônimo de aposta na qualidade. Até aí, tudo bem, o problema é que será necessária uma outra campanha, para explicar quem raios é Marionnet. No intuito de colaborar com a cultura do vinho no país, este Blog do Vinho, vai contar aqui quem é ele.

Henry Marionnet é proprietário da  Domaine de La Charmoise, e é considerado pelo crítico americano Robert Parker, no seu Guia Parker des Vins de France, como um dos melhores viticultores da França. A vinificação da gamay é uma de suas maiores especialidades. Em entrevista à revista francesa Le Revue du Vin ele declarou que desde a primeira colheita da variedade, em 1973 “o resultado ultrapassou todas as minhas expectativas”. Ali é produzido o vinho top de linha Domaine de La Charmoise, o Le Cépages Oubliet, que será comercializado no Brasil pela Miolo. Faz parte do acordo. Em contrapartida, nós vamos invadir o bistrô deles, e o gamay 2009 da Miolo será distribuído por Marionnet na Europa.

O dedo de Marionnet
Adriano e Marionnet se conheceram em outubro de 2008 em Paris, durante a Sial, Salon International de l’Agroalimentaire International. Foi lá que eles iniciaram o acerto da atual parceria. Seus palpites se limitaram ao processo de produção. Mas a mudança começou nas parreiras. A uva gamay deixou de ser produzida no Vale dos Vinhedos e passou a ser cultivada no Projeto Fortaleza do Seival Vineyards, na região da Campanha do Rio Grande do Sul: “As uvas ali apresentam melhor maturação”, comenta Adriano. A Miolo deixou de desengaçar as frutas para colocá-las junto com os cachos no tanque. Elas são prensadas após sete dias e a fermentação só ocorre neste momento. Pra que saber tudo isso? Por que este processo torna o vinho mais fresco e frutado. “É algo como um vinho branco com fruta”, compara Adriano. O vinho deve ser servido gelado, entre 10 a 12 graus.

O gamay nas prateleiras
O lançamento será na semana que vem, no Rio de Janeiro, com a presença de Marionnet, que agora você já sabe quem é. Serão 200 mil garrafas distribuídas nas prateleiras, além de uma prática embalagem de bag in box, de 5 litros. É um vinho acessível, entre 20 (no site da Miolo) e 24 reais. Adriano promete fazer uma campanha nos moldes do Beaujolais francês. Este blog traz sua contribuição sugerindo uma carnavalização no jargão: “O Beaujolais brasileiro tá na área!”

Resta conferir se o consumidor vai comprar a ideia e se ideia na taça vai cumprir a promessa de qualidade para um vinho de verão. A conferir.

Domaine de La Charmoise
Miolo

Notas relacionadas:

  1. Deu zebra no ranking de espumantes da Playboy
  2. Férias, praia e espumante fresco
  3. Dois espumantes nacionais em dois estilos: nature e brut
Autor: beto gerosa Tags: , , , ,

quarta-feira, 25 de março de 2009 Saúde, Tintos | 10:34

Vinho tinto aumenta o desejo sexual feminino

Compartilhe: Twitter

O consumo moderado de vinho tinto, já foi comprovado, é eficaz para as coronárias, faz bem para a saúde em geral e até para a  libido do homens (leia coluna). Agora, os cientistas capricharam: segundo estudo realizado pelo hospital Santa Maria Annunziata, em Florença, na Itália, o consumo de uma ou duas taças diárias de vinho tinto aumenta a libido feminina. Foram pesquisadas 789 mulheres entre 18 e 50 anos, moradoras na região de Chianti, próxima ao hospital. Bom, aí também não vale, além de tinto é Chianti, não precisa muito esforço  para o vinho fazer parte do dia-a-dia. Mas vamos em frente.

Apresentado em março na IX Semana da Prevenção Andrológica, promovida pela Società Italiana di Andrologia (SIA), o estudo foi baseado no questionário Fsfi – Female sexual function índex -, que avalia a sexualidade feminina por dezenove questões distribuídas nos seguintes critérios: do desejo ao interesse, da lubrificação ao orgasmo e da satisfação à dor.

O resultado quem conta é Nicola Mondaini, dirigente do hospital Santa Maria Annunziata e responsável pela  pesquisa: “Este estudo mostrou que as mulheres que consomem um a dois copos de vinho tinto por dia (11%) têm uma sexualidade melhor do que o grupo de mulheres abstêmias (35%) ou até mesmo aquelas que bebem ocasionalmente”. Não sou eu quem diz, mas o cientista italiano. Bravo! Bravíssimo!

Os louros de uma vida sexual mais plena se devem aos nossos amigos polifenóis, são mais de 300 tipos encontrados no vinho tinto, que a pesquisa mostra agora ter uma ação sobre alguns componentes hormonais femininos, em particular o estrogênio. O chocolate, que é rico em antioxidantes, é sabido também que estimula a sexualidade feminina. O que sugere que a dupla vinho & chocolate tem o efeito de uma bomba afrodisíaca…

O estudo é sério, minha gente, resultará até na publicação de um livro: “Bacco e Venere, ovvero vino ed eros nella vita dell’uomo”, que tem lançamento, na Itália, previsto para outubro pela editora Giunti. Como de costume, é sempre bom alertar, estes estudos recomendam um consumo contínuo, mas moderado. Alcoolismo é coisa séria, não é disso que trata este blog, muito menos os estudos científicos e pesquisas.

Em compensação…
O mesmo estudo, conduzido pelo mesmo hospital de S. Maria Annunziata di Firenze, alerta que a dieta vegetariana tem efeito negativo sobre a libido. Segundo Nicola Mondaini, a dieta vegetariana pode afetar negativamente o desejo sexual devido a uma “deficiência de zinco, associada à redução de testosterona”.

O que nos remete à coluna abaixo deste blog, que combina o grelhado com o um tinto repleto de polifenóis, o tannat uruguaio.

Notas relacionadas:

  1. Lei Seca: os números inéditos da queda de acidentes nas capitais. Está dando certo?
  2. Bom pra diabo!
  3. Vinho pode prevenir impotência masculina
Autor: beto gerosa Tags: , , ,

quarta-feira, 11 de março de 2009 Tintos, Velho Mundo | 23:06

Pêra-Manca: o vinho que descobriu o Brasil

Compartilhe: Twitter

Trouxeram-lhes vinho por uma taça, mal lhe puseram assim a boca
e não gostaram dele nada, nem o quiseram mais.

sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500
Pero Vaz de Caminha

Quem conhece um pouco de vinho talvez já tenha ouvido falar do tinto português Pêra-Manca. A fama se deve um pouco ao nome insólito – que significa pedra manca, ou oscilante, e é uma característica de uma formação granítica de blocos arredondados soltos sobre uma rocha firme (muita gente boa achava que era um defeito na pata do cavalo do rótulo…) -, outro tanto pela tradição, já que seria este o vinho trazido pela nau de Pedro Álvares Cabral. A verdade é que a fama do vinho se deve à soma das curiosidades anteriores aliada a alta qualidade da bebida.

No primeiro teste em terras brasileiras, o vinho não foi lá um sucesso. No relato de sete folhas enviado por Pero Vaz de Caminha com suas primeiras impressões desta terra, os primeiros críticos – aquele povo que “andava nu, sem nenhuma cobertura” – detestaram o Pêra-Manca de antanho, como se lê na reprodução do trecho da carta que abre este post.

O Pêra-Manca é herdeiro de uma marca reconhecida desde a idade média, que teve seu apogeu no século XIX, a extinção no começo do século XX pela praga da filoxera e por fim o renascimento em grande estilo, em 1990, quando a Fundação Eugénio de Almeida passou a adotar o nome no rótulo de seus vinho mais importante.

Para ficar mais claro, o rubro e o branco que é o tema da coluna de hoje tem apenas 19 anos, somente nove safras lançadas, a primeira em 1990, mas não se exime de exibir sua rica história para justificar ainda mais sua posição de vinho ícone do Alentejo, com uma forte presença em terras brasileiras.

Rótulo mais “moderno”

Outra característica marcante do vinho, que eu achava sensacional, era o rótulo colorido, meio kitsh, que foi modernizado e simplificado, buscando, segundo a empresa “uma imagem intemporal que garantisse uma constante leitura contemporânea”, seja lá o que isso signifique. Para mim ficou mais sem graça e menos característico, só isso. Na imagem acima as etiquetas de 2001 e 2003 e as mudanças.

Lançamento exclusivo

Bom, se muitos ouviram falar do Pêra-Manca, poucos provaram – aí entra o valor de sua garrafa (R$ 648,00, a safra 2005). Raros felizardos então tiveram a oportunidade de degustar cinco safras do vinho: 1997, 1998, 2001, 2003 e 2005. A Fundação Eugènio Almeida, que administra a Adega Cartuxa, produtora do vinho, fez este agrado a alguns clientes da importadora do vinho e formadores de opinião.

A razão é simples, o Brasil é hoje o principal mercado de exportação dos rótulos do Pêra-Manca branco e tinto e o país foi escolhido para o lançamento da safra 2005 e 2007 (do branco), antes mesmo que em Portugal, que só vai desarrolhar as garrafas das novas safras em abril deste ano.

O Pêra-Manca tinto é sempre elaborado com duas castas, as portuguesas trincadeira e aragonês (lembrando, aragonês é o mesmo que tinta roriz no Douro e tempranillo, na Espanha). As vinhas, localizadas na região do Alentejo, mais precisamente em Évora, têm mais de 25 anos (a idade das vinhas é sempre mencionada pois é um sinal de qualidade; as plantas mais velhas possuem raízes mais profundas que trazem mais nutrientes para as uvas) e só viram mosto para o Pêra-Manca em safras consideradas excepcionais pela Adega Cartuxa. A bebida estagia por 18 meses em barricas de 3.000 litros e mais um ano na garrafa antes de chegar ao mercado. O perfil comum dos vinhos é sua força, intensidade de sabores e aromas, o toque da madeira bem integrada as frutas mais para compota e a longevidade. Como bom representante do Alentejo, são vinhos quentes.

Todo este cuidado, mais a fama de ícone do Alentejo = preço elevado. Lembrando, R$ 648,00 a garrafa. O que não afugenta os apreciadores, diga-se de passagem, já que safras anteriores estão todas vendidas. A explicação dos preços altos é aborrecidamente igual para todos os grandes vinhos. O Pêra-Manca não é exceção. Segue então a pergunta de sempre: vale o investimento? Vale comprar? A resposta, para ficar no universo lusitano, poderia ser: “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”, e o bolso é cheio, eu acrescentaria.

1997 a 2005

Uma prova vertical como esta – o mesmo vinho de diferentes safras – , é uma experiência didática. Quem ainda duvida da variação que um mesmo rótulo – afinal de contas elaborado com as mesmas uvas, de um mesmo vinhedo – pode atingir, deveria participar de uma experiência dessas e checar com seu próprio nariz e paladar.

Em rápidas pinceladas, minhas anotações da sequência.
1997 – parecia já estar atravessando o cabo da boa esperança, um chá preto, uma lembrança de porto vintage me deixou a impressão de uma evolução meio exagerada;
1998 - para mim o melhor das cinco provas, tinha evolução das frutas passas com grande intensidade, um vinho rico, com bom corpo e fino, que ficou exibindo novas camadas a cada gole;
2001 – pareceu mais magro e delicado no nariz e no paladar, um ano mais fresco na região, um outro estilo que eu não esperava de um Pêra-Manca;
2003 – o ano que os velhinhos morreram de calor na Europa tinha um perfil semelhante ao 98, mas mais novo, com menos complexidade, mas muito macio e envolvente na boca;
por fim 2005 - que é o que interessa pois é o Pêra-Manca que está no mercado: também agradou, tem o DNA de potência, riqueza, perfil aromático do Pêra-Manca, um toque mentolado. Começou bem, nem precisa esperar tantos anos na garrafa para agradar, efeito talvez da consultoria de Michel Rolland. Mas comparado aos outros ainda tem muito chão para revelar sua riqueza de sabores e aromas e justificar o preço. Algo na linha, é um Pêra-Manca até já te deixa contente, mas felicidade mesmo só daqui uns 5 anos, quando completar seu ciclo na garrafa.

Grana curta? Prova uma taça…

Para quem ficou salivando, não rasga dinheiro e mora em São Paulo, há uma alternativa. No Empório Santa Maria, na fabulosa máquina italiana de vinhos em taça, a Enomatic, com capacidade para 48 rótulos, uma tulipa de 30 mililitros de Pêra-Manca tinto sai por cerca de 29 reais. “São consumidas duas garrafas por semana”, informa um dos sócios do espaço, Bernardo José de Ouro Preto Santos.

Serviço

Adega Alentejana – importadora do Pera Manca no Brasil

Empório Santa Maria – Avenida Cidade Jardim, 790. Itaim, São Paulo

Notas relacionadas:

  1. Brancos, bons e nem sempre baratos
Autor: beto gerosa Tags: , , , ,

quarta-feira, 15 de outubro de 2008 Novo Mundo, Tintos | 23:57

Bom pra diabo!

Compartilhe: Twitter

“Deus come escondido, e o Diabo sai por
toda a parte lambendo o prato”
Guimarães Rosa, em Grande Sertão, Veredas

Tenho uma notícia ótima, outra boa e uma terceira nem tanto para quem gosta de vinhos chilenos.

A ótima: a safra de 2007 dos tintos reserva e topo de linha que começam a chegar ao mercado está  excelente. Uma conjunção dos astros e uma mãozinha da natureza produziram esta que está sendo considerada com uma das melhores safras dos últimos anos! Há depoimentos nesse sentido de enólogos de diferentes casas como Pablo Morandé (Morandé), Aurélio Montes (Viña Montes) e Henrique Tirado (Dom Melchor, Concha y Toro).

A boa: a sempre acessível e constante linha Casillero del Diablo já colocou nas gôndolas o seu cabernet sauvignon 2007. São produzidas inacreditáveis 1,5 milhão de caixas deste vinho que é distribuído em todo o planeta. Na cápsula, a propaganda oficial: “SAFRA HISTÓRICA – a melhor safra de vinhos tintos reserva”.

A má: com certeza as linhas mais “topo de linha e premium”, à medida que as safras forem lançadas e bem pontuadas, vão ter seus preços remarcados. Pode apostar! Mas o nosso papo aqui é vinho acessível. E, por enquanto, o preço não mexeu!

Onde mora o diabo
A marca Casillero del Diablo é tão forte que nem todo mundo se dá conta que pertence à gigante Concha y Toro. Os caras são craques em construir tintos e brancos de sucesso. E são talentosos também no tal do marketing. O timaço de enólogos canta, dança e sapateia. É dura a vida do profissional das uvas hoje em dia. Não basta elaborar um bom vinho, é preciso saber vendê-lo. E dá-lhe vídeo destes senhores entre as parreiras, na adega, olhares esperançosos para frente, a sensação de domínio da natureza, as frases bem decoradas, a estratégia muito bem definida. E, claro, as viagens e encontros com a imprensa.

Marcio Ramírez, enólogo do Casillero del Diablo, cumpriu esta tarefa por aqui, mostrando cinco tintos da linha 2007. Além do cabernet, também apresentou os varietais merlot, malbec, carmenère e shiraz (que começam a ser vendidas entre novembro e dezembro). A malbec do demo é novidade por aqui. A produção é limitada e os vinhedos têm mais de 50 anos. Curioso como de repente brotaram plantas de malbec com mais de 50 anos no Chile…

Mas quer saber? Se na taça todos têm suas qualidades evidentes, o encanto fica com a malhada merlot do filme Sideways. A propósito, alguém lembra? O merlot do tinhoso 2007 é na minha percepção a melhor escolha dos tintos desta safra. Pronto para a taça e direto para a boca. Cor intensa, suave, macio, frutas frescas no nariz e no paladar, um vinho que combina com massas, aves e até na pizza do domingo. Vai bem num vôo solo também, o corpo médio e o frescor convidam a mais uma taça.

Outro tinto da casa do diabo tentador? O shiraz. Vai mais para o estilo da potência, com seu tostado mais marcante (todos os tintos do Casillero passam por 8 a 9 meses de barrica), uma fruta vermelha mais confitada, a especiaria de sempre da shiraz e um final mais longo. Fiquei imaginando com uma carne mal passada… O melhor de tudo? Você tem tudo isso por cerca de 30 reais. É ou não é coisa do demo?

Notas relacionadas:

  1. Um bate-papo com Chadwick
  2. Um sonho engarrafado
  3. Três goles de três vinhos de três países…
Autor: beto gerosa Tags: , ,

segunda-feira, 6 de outubro de 2008 Brancos, Tintos | 20:48

Bons, baratos e prazerosos

Compartilhe: Twitter

Sugerir vinhos caros é fácil e, em certo sentido, inútil. Quem compra rótulos de primeira linha, afinal, não precisa de muito conselho ou tem quem o faça pessoalmente. Difícil é descobrir as boas garrafas, ou as ofertas, entre os rótulos mais acessíveis que inundam as prateleiras de lojas e supermercados. E, acredite, há muitas oportunidades à disposição.

Mas até mesmo uma seleção de boas garrafas que não pesam no bolso precisa ser fruto de uma experiência pessoal para não se tornar numa simples listagem de “best buys”. Aqui vai a  minha lista que, como qualquer lista, está sujeita a críticas e correções. O critério foi o de tintos e brancos (deixei de fora os espumantes) até 35 reais. É claro que não se tratam de vinhos hedonistas, que primam pela profusão de aromas, pela intensidade marcante ou final prolongado. Mas podem, sim, tornar o seu dia-a-dia mais feliz.

TINTOS

Salton Classic Tannat
Rio Grande do Sul, Brasil - de R$ 11,00 a R$ 15,00
Da linha mais simples da Salton. Correto, bem vinificado. Seu preço é imbatível, seus taninos  melhoram se acompanhados de um churrasquinho informal no clube.

Pupilla Carmenère
Vale Colchagua, Chile – R$ 16,00
A uva-símbolo do Chile, seja lá o que isso queira dizer, num dos tintos de melhor custo-benefício da paróquia, produto da bodega Luis Felipe Edwards. Taninos bem resolvidos, frutas vermelhas e uma especiaria de leve. Resolve a vida e se encontra fácil em supermercados.

Rio Sol Cabernet Sauvignon/Syrah 2006
Vale do São Francisco, Pernambuco, Brasil - R$ 18,90
Este tinto nacional foi escolhido pelo júri da última Expovinis (feira de vinho realizada anualmente em São Paulo), em uma degustação às cegas, como o melhor tinto nacional. Concorreu com outros 39 rótulos, a maioria de preço mais elevado. Sou co-responsável: participei do júri. Tem uma fruta muito madura, típica de uma região ensolarada como aquela, mas um bom equilíbrio e acidez presente. Um achado de Pernambuco, uma região pouco provável alguns anos atrás.

Cono Sur Bicicleta Pinot Noir 2006
Vale Central, Chile – de R$ 21,00 a R$ 24,00
Vinícola com preocupações ambientais e certificada pela agricultura orgânica. Difícil recomendar um pinot noir do dia-a-dia, mas a correta linha bicicleta tem varietais que primam pela qualidade. Agradável,  corpo médio (como se espera de um pinot) aromas leve de cereja. Outra dica da mesma linha é o branco da uva riesling.

Emiliana, Cabernet Sauvignon
Valle Rapel, Chile – de R$ 21,00 a R$ 24,00
Esta vinícola também alia vinhedos orgânicos com rótulos de grande produção. Tinto com um nariz mais presente que a boca, que é mais ralinha, mas agradável. Um cabernet sauvignon mais para o lado da juventude, da fruta fresca. Se ajeitou bem com uma massa com molho de carne.

Periquita 2004
Terras do Sado, Portugal – R$ 24,00
O tinto português mais vendido no país. Desde a safra de 2001 modernizou seu corte e ficou mais macio e fácil de beber. Resultado da adição de uma porcentagem maior das castas aragonês e trincadeira à tradicional uva castelão (a periquita), que dá a grande personalidade deste vinho.

Don Roman Tempranillo 2005
Rioja, Espanha – R$ 29,90
Este espanhol está sempre presente em listas de vinhos de bons preços. Mais que correto, tem um bom volume na boca, aromas presentes de especiarias e tostados gostosos. Nos restaurantes do chef e proprietário do La Vecchia Cucina e La Pasta Gialla, Sergio Arno, são servidos com o nome de Arno no rótulo. Foi escolhido por Veja São Paulo como boa opção de custo-qualidade entre os  rótulos personalizados dos restaurantes da cidade.

.com 2005
Alentejo, Portugal – R$ 29,90
Com este nome no rótulo, não podia faltar nesta lista do blog do vinho. Uma mistura das cepas portuguesas trincadeira e aragonez com a francesa cabernet sauvignon e a “francesa de alma lusitana”  alicante bouschet. O produtor Monte dos Cabaços (é isso mesmo, gente, não errei) faz um vinho moderno, quente, ao gosto do consumidor atual.

Los Vascos Cabernet Sauvignon
Vale Colchagua, Chile – R$ 30,00
Frutado e bem feito cabernet chileno com boa acidez, álcool controlado e aquele toque amentolado chileno. Um estilo que não muda. Sempre um boa pedida e, além do mais, sempre dá para dizer que está diante de um Barons de Rothschild.

Los Cardos Malbec 2006
Luján de Cuyo, Argentina – R$ 30,00
Tinto da vinícola Doña Paula que abriu a coleção de livros Vinhos do Mundo, Adega VEJA, da qual ajudei a selecionar: macio, bom de nariz, redondo na boca, nem um pouco enjoativo, como às vezes acontece com a malbec.

Le Bateaux Syrah 2006
Languedoc, França – R$ 35,00
Raro tinto francês na linha bom e barato. Best buy da revista americana Wine Spectator. Não é à toa, tem aquela perceptível especiaria da syrah com frutas bem maduras e a chancela da Domaines François Lurton.

Trio Merlot, Carmenère, Cabernet Sauvignon 2007
Valle Central, Chile – de R$ 37,00 R$ 39,90
Esta linha da gigante Concha y Toro é sempre resultado da mistura de três variedades (daí o nome), a primeira domina o corte, no caso aqui, a merlot. Apesar do preço fora da proposta inicial foi incluído só para chamar atenção de um pequeno detalhe. Muitas vezes, estes cortes  por preço (no caso até 35 reais) em uma lista de v
inhos deixam de fora rótulos bem bacanas. Por 2 ou 4 reais a mais, você tem na taça um tinto saboroso, macio, com notas de chocolate – resultado de um trabalho criterioso do enólogo. Pense nisso também na hora da compra, para menos e para mais

BRANCOS

Casillero del Diablo Sauvignon Blanc 2006
Vale Central, Chile – R$ 26,50
Tem larga distribuição em supermercados e lojas. Boa acidez e frescor. Um toque cítrico que agrada; um aroma de maracujá facilmente perceptível, muito encontrado em sauvignon blanc. Uma recomendação sem medo de errar. Faz um sucesso danado com uma pescadinha lá em casa.

Pizzato Chardonnay
Rio Grande do Sul, Brasil – R$ 27,00
Este não é um chardonnay para quem gosta daquele estilo mais intenso com as notas de barrica, meio amanteigado. Este exemplar nacional aposta na linha contrária, não passa pelo carvalho e tem uma acidez mais presente. Uma opção de chardonnay mais para o frescor.

Villa Montes Sauvignon Blanc 2006
Vale Central, Chile – R$ 31,00
A sempre confiável Viña Montes produz este ótimo e fresco sauvignon blanc, de pureza varietal e cítrico, como é comum nesta uva no Chile. Provei a primeira vez junto a produtores, num agradável almoço, e ficou sempre na lembrança como uma boa opção de branco, que repito sempre que posso.

Borba Antão Vaz & Arinto 2005
Alentejo, Portugal - R$ 31,00
A mistura dessas duas castas típicas portuguesas resultam num branco de aromas cítricos, boa estrutura e com toques de baunilha, resultado da fermentação realizada em barricas de carvalho. Há sempre uma boa discussão sobre qual a melhor harmonização com o bacalhau. Eu, por exemplo, prefiro brancos mais estruturados. Em Portugal os tintos têm a preferência. Provei este Borba com um bacalhau grelhado, em meio a tintos muito mais caros e famosos, e este se encaixou melhor no meu radar de harmonização. Quando soube do preço, então, a felicidade foi maior.

Alamos Chardonnay 2007
Mendoza, Argentina – R$ 32,15
Branco premiado mais básico da linha Catena. Passa seis meses no barril de carvalho o que aquele  sensação cremosa de um chardonnay mais encorpadão, mais recomendado para peixes mais fortes e aves. Bastante elogiado pelos bacanas do vinho de todas as estirpes: a lista começa em Robert Parker, passa pela rival britânica Jancis Robinson e ainda pela revista americana Wine Spectator.

Os leitores deste blog podem contribuir com suas recomendações e tornar esta lista mais rica, completa e diversificada, aí embaixo, nos comentários.

Preços coletados entre os dias 3 e 6 de outubro de 2008  nos sites daslojas Mistral, Expand, Zahil, Rei dos Whisky’s & Vinhos VIP, Imigrantes Bebidas, Pão de Açúcar e Bom Marché

Notas relacionadas:

  1. Um sonho engarrafado
  2. Bordeaux em três rótulos
  3. Três goles de três vinhos de três países…
Autor: beto gerosa Tags: , , , , , , , , , ,

quinta-feira, 25 de setembro de 2008 Brancos, Novo Mundo, Tintos, Velho Mundo | 17:24

Três goles de três vinhos de três países…

Compartilhe: Twitter

…de um mesmo produtor: O. Fournier. Algumas impressões:

O Centauri Sauvignon Blanc 2007 (Chile, Vale de Leyda, San Antonio, U$38,50) vem da primeira safra do projeto do O. Fournier no Chile. Tem ótimo frescor e aquele nariz meio cítrico e de ataque que se espera de um sauvignon blanc do novo mundo.

O tinto Alfa Crux Blend 2002 (Argentina, Mendoza, La consulta, U$ 75,50), como revela o nome, é uma mistura de três uvas: tempranillo (60%), malbec (35%) e merlot (5%). Se tiver de optar, eu costumo preferir os cortes. O produtor Ortega Gil-Forunier também. Neste tipo de vinho o trabalho do enólogo é mais exigido, pois ele pode extrair o melhor de cada uva e reunir num único rótulo. Vinho delicioso, pronto e macio na boca, aromas de frutas mais maduras e flores, tudo isso prolongado por um final longo.

Alfa Spiga 2003 (Espanha, Ribera del Duero 2004, U$ 129,50). Trata-se de um puro-sangue: 100% tempranillo (tinta del país, como é conhecida a uva na região). Ortega Gil-Fournier aposta, e torce, na vocação da tempranillo como uma uva internacional, e cita experiências na Austrália e nos Estados Unidos. E, só para contrariar minha predileção por misturas, mencionada acima, este vinho conquistou de primeira, mas exige um investimento mais alto. O Alfa Spiga, antes de virar garrafa, hiberna 20 meses em barricas novas de carvalho, que dá aquele tempero ibérico e um caldo potente, de cor intensa e fruta madura. Que a tempranillo se espalhe pelo mundo, então.

Site oficial: O. Fournier
Onde encontrar: Importadora Vinci (preços com cotação do dólar do dia)

Notas relacionadas:

  1. Família Vega-Sicilia
  2. Um sonho engarrafado
  3. Bordeaux em três rótulos
Autor: beto gerosa Tags: , , , , , ,

terça-feira, 9 de setembro de 2008 Tintos, Velho Mundo | 14:37

Bordeaux em três rótulos

Compartilhe: Twitter

Os melhores perfumes podem até estar nos menores frascos. Mas os melhores vinhos, certamente não. Um Château Pichon-Lalande 2004 (R$ 597,00), um Bordeaux da subregião de Pauillac, em garrafa tradicional de 750 ml, já é um luxo. O mesmo rótulo numa magnun (1,5 litro), e um pouco mais envelhecido, da safra de 2001, é uma benção numa segunda-feira nublada. Foram essas garrafas que o francês Gildas d’Ollone, diretor-geral do Château Pichon-Longueville Comtesse de Lalande, ofereceu para um pequeno grupo em um almoço recente em São Paulo.

Na intrincada classificação do Médoc, de 1885 (é, lá as coisas duram), cabe ao Pichon-Lalande a categoria de Deuxièmes Crus Classé, algo como o segundo time entre os seis superfantásticos. Mas mesmo entre os segundos, ele se distancia, pela qualidade e consistência de suas safras, dos vinhos da mesma categoria. Daí inventaram a designação de “supersegundo”. Para Robert Parker, as safras posteriores aos anos 80 podem “rivalizar facilmente com os três famosos Premiers Crus Classé da comuna: Lafite-Rotschild, Latour, Margaux. A propósito, o übercrítico deu 100 pontos para a safra 1982, que ele jura ter provado pelo menos meia-dúzia de vezes em 2002 e que classifica como “tanto de reflexão como hedonista”.

Reserve de La Comtesse
Os “segundos” também têm seus segundos vinhos. No caso, o Réserve de La Comtesse (R$ 239,00), um sucesso de vendas em sua categoria; só na importadora World Wine são 5.000 garrafas ao ano (os rótulos do Pichon-Lalande, como de costume em Bordeaux, não têm representação exclusiva de importadores no Brasil). Este ano chegarão ao mercado vasilhames fora do padrão usual, de 500 ml, ou seja, nem é uma meia garrafa nem uma garrafa inteira. Uma boa solução para restaurantes e para quem tem nessa medida seu consumo e não quer arriscar de guardar o vinho depois de desarrolhado. “O Réserve mantém o mesmo estilo do Lalande”, garante Gildas. “Mas como menos concentração.” O que os difere é o resultado obtido após a segunda fermentação de cada uva que entra na composição – cabernet sauvignon, merlot, cabernet franc e petit verdot -, realizada em barricas separadas. “Após a prova de cada barrica, selecionamos quais vão para cada rótulo”, explica Gildas.

Château Bernadotte
Mas quem disse também que os rótulos mais caros são os que mais surpreendem? No caso, secondo me, brilhou forte a estrela de um rótulo que começa a ser mais trabalhado agora no Brasil e é uma opção muito mais interessante de sabor, maciez e aromas – e sempre com aquele teor alcoólico mais baixo de Bordeaux que convida para mais um gole. Trata-se do Château Bernadotte 2004 (59 % cabernet sauvignon, 36 % merlot, 3% cabernet franc, 2 % petit verdot), localizado na subregião do Haut-Médoc, praticamente vizinho ao Lalande – só alguns quilômetros separam os dois vinhedos. Por 115 reais, você ganha em prazer e sabor, uma boa amostra do que um bom Bordeaux pode oferecer. Tem bastante rótulo do novo mundo mais pobre de espírito e elegância com preço muito mais elevado. Bordeaux não precisa ser, necessariamente, uma bebida para milionários. Faz assim, junta a grana de dois argentino médios e faça um investimento no velho mundo. Depois me diga se não vale a pena variar.

Notas relacionadas:

  1. Caro, muito caro, mas exclusivo
  2. Um sonho engarrafado
Autor: beto gerosa Tags: , , , , ,

domingo, 7 de setembro de 2008 Novo Mundo, Tintos | 02:11

Um sonho engarrafado

Compartilhe: Twitter


Eduardo Chadwick vem com uma certa regularidade ao Brasil para apresentar novas safras, fazer seu marketing e, claro, aparecer na mídia. Dá certo, esta nota é um exemplo. Na sexta-feira, 5 de setembro, ele desarolhou o Seña 2005 e aproveitou para compará-lo às safras de 2003 e 2004, todas elas a 348 reais a garrafa. O Seña 2005 sai pronto da garrafa, com uma complexidade e intensidade que qualquer mortal com pupilas gustativas e um nariz capaz de distinguir aromas é capaz de perceber. Na receita  do enólogo misturaram-se 57% de cabernet sauvignon, 25% de merlot, 9% de carmenère, 6% de cabernet franc e 3% de petit verdot: mais bordalês impossível! É o Chile derrotando a França com as mesmas armas dos gauleses! Aromas de frutas e tabaco, um bom corpo na boca, e um delicioso chocolate no final, sempre intenso. Chadwick comentou que os taninos ainda podem amaciar, eu juro que não sinto necessidade. O 2005 é muito semelhante ao perfil do 2003, com a diferença dos dois anos que o separam. Mas creio que o 2005 tem uma pegada mais sedutora. Os incríveis 14,5% de álcool registrados na etiqueta passam  ao largo. Muita gente reclama dos vinhos muito alcoólico, que se tornam pesados e enjoativos. No Seña, o equilíbrio de seus elementos encobrem este álcool todo. Além da minivertical de Seña, um bônus track: um Chadwick (R$ 480,00, um dos rótulos mais caros do Chile) da difícil safra de 2004. A linha Chadwick é de estilo mais clássico, um pouco mais velho mundo do que o Seña – não tem tanta doçura e a acidez é mais preponderante. Por essas e outras que Eduardo monta, junto com Steven Spurrier seu show às cegas com tops de Bordeaux. O estilo é o mesmo, e, já se disse aquí, degustação às cegas é a prova dos noves. Sempre. Para finalizar, foi servido um refrescante  Arboleda Chardonnay 2005 (R$ 85,00).
Por que um branco no final? Foi aí que começaram a ser servidos os pratos. À medida que o almoço foi avançando tivemos a difícil tarefa de retomar aos tintos cima, agora acompanhados de comida, por ironia ou provocação, francesa. Ficou sensacional. Seña é o vinho de todos os dias do importador Otávio Piva de Albuquerque. Ok, ele pode. Mas também pode ser aquele vinho para você em um momento especial. Não tem erro. Seña, a propósito, não significa sonho, e sim “rasgo de distinción” ou “firma personal”, mas bem que poderia.

Notas relacionadas:

  1. Um bate-papo com Chadwick
Autor: beto gerosa Tags: , , , , , ,

quarta-feira, 30 de julho de 2008 Brancos, Tintos, Velho Mundo | 22:53

Família Vega-Sicilia

Compartilhe: Twitter

Repare nas imagens acima. Há uma certa semelhança entre os dois retratados, não? O sujeito da direita é o ator James Gandolfine, que interpreta Tony Soprano, o chefe mafioso em crise da série de TV Família Soprano. Na esquerda quem comparece é Pablo Alvarez, proprietário das Bodegas Vega-Sicilia, a mítica vinícola espanhola fincada em Ribera del Duero, na Espanha, que esteve em São Paulo, com o filho e enólogos, para compartilhar com uma série de convidados o seu próprio vinho. Curiosa semelhança entre os dois, não me saía da cabeça durante o encontro. O sujeito sentado no meio de uma grande mesa. Sicília, máfia, família, o mesmo jeitão… muita coincidência. Se ele sacasse, nem que fosse um charuto do bolso, eu caía fora!

Bobagem! Pablo Alvarez é um empresário calado e tímido, é o antimarketing em pessoa. Ao contrário da maioria dos produtores e enólogos, que pousam por aqui munidos de apresentações em power point, catálogos caprichados e discursos irritantemente didáticos (e não há mais quem agüente o batido discurso de que “não se faz bom vinho com uva ruim”), Don Pablo parece implorar para não ser instado a falar. Inundado de perguntas, suas respostas são curtas e diretas. Uma definição para o Vega-Sicília Único? Elegância. Qual o melhor dos seus vinhos? O melhor ainda está para ser feito. A região de Toro, onde tem uma propriedade (dali sai o Pintia), pode um dia alcançar a qualidade de Ribeira del Duero? Não, não tem o mesmo clima e o solo encontrados em Ribera del Duero. Questionado sobre as experiências de um branco com o selo Vega-Sicilia, Don Pablo assumiu seu lado Família Soprano, se fechou em copas e negou com veemência. Seu enólogo, um pouco mais falastrão, anunciou, em particular, o lançamento para 2013, da safra 2010. Depois indagou, dissimulado: “Você não é da imprensa, é?”

Don Pablo, como se vê, não é de teorizar muito sobre seus rótulos. Seus vinhos falam por si. Mito espanhol, o Vega-Sicília Único Gran Reserva só é produzido nos melhores anos. Para se ter uma idéia, a safra que está no mercado é a de 1996. É o primeiro vinho da casa, sem dúvida alguma, mas tenho de confessar que o Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2002 me agradou mais, estava mais pronto e às cegas eu o teria eleito em primeiro lugar, apesar de ser o segundo vinho da casa  – e que segundo! Clássico, elegante, potente, floral no primeiro ataque e com várias camadas de aromas após um tempo na taça. Foi ótimo com um kobe beef, mas vai bem com tudo, mesmo sozinho. Um Armani dos tintos (inclusive no preço), com pinta de Bordeaux e tempero Espanhol.

As estrelas da noite, pela ordem de entrada, foram:
Tokaji Furmint Mandolás 2005 (um branco seco de boa acidez da Hungria, U$ 39,90); Pintia 2004 (um tinto potente e um pouco alcoólico da região de Toro, U$ 126.50); Alión 2003 (240.000 garrafas produzidas ao ano, um clássico da uva tempranillo, U$ 145,50); Vega-Sicilia Valbuena 5º Año Reserva 2002 (180.000 garrafas/ano, clássico, elegante e pronto para beber, US$ 319,50); Vega-Sicilia Único Gran Reserva 1996 (80 a 110.000 garrafas/ano, caldo intenso, muita fruta, mas ainda vai melhorar na garrafa, U$ 749,50), os três últimos da região de Ribera del Duero. Para finalizar um prazeroso vinho doce de sobremesa da Hungria, Tokaji Aszú 5 Puttonyos 2000, U$ 127,50. Nada aqui é barato. Qualidade e reconhecimento têm preço. Mas o que mata são esses 50 cents no valor de tabela, né não?

Todos os vinhos fazem parte do catálogo da Mistral. Os preços da importadora são tabelados pelo dólar do dia.
Bodegas Vega-Sicilia: site oficial

Autor: beto gerosa Tags: , ,

  1. Primeira
  2. 1
  3. 2
  4. Última