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quarta-feira, 24 de abril de 2013 Degustação, Espumantes, Nacionais, Novo Mundo, Porto, Rosé, Tintos, Velho Mundo | 09:00

Os homens que cospem vinho elegem os onze melhores vinhos da ExpoVinis 2013

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Onde foi parar todo mundo?

Um incauto que invadir uma sala de degustações de um concurso de vinho após uma prova vai deparar com uma visão parecida com a da foto ao lado. Inúmeras taças com bons mililitros de vinho e baldes cheios da bebida. Se tiver a oportunidade de observar, momentos antes, os jurados provando os tintos, brancos, espumantes e fortificados acompanhará um festival de giradas de taça, fungadas, bochechos, caretas de desagrado alternadas com suspiros de aprovação, e finalmente cusparadas leves e elegantes (se é que isso é possível) do vinho em copos de plástico que em seguida serão entornados em baldes maiores. Qual o pensamento que passará por sua cabeça? “Este povo não gosta de vinho!” Na verdade, estão em pleno trabalho Os Homens que Cospem Vinho e sua função nesta sala é escolher os dez melhores vinhos da ExpoVinis 2013– 16º edição da feira mais importante de vinho da América Latina -, no tradicional concurso Top Ten, que tenho a honra de ser convidado pelo sexto ano como jurado (perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem…).

E eles (nós) não bebem todo aquele vinho disponível por um motivo muito simples: são 224 amostras em dois dias, ninguém sobreviveria para contar o final da história. Os doze jurados se reúnem para escolher um vinho de consenso que vai para o trono de cada uma das dez categorias do concurso. Este consenso é resultado das anotações e notas de todos os jurados que somadas chegam a uma média ponderada e ao fermentado campeão.

Este ano os organizadores decidiram dar mais espaço ao vinho nacional e dividiram a categoria “Tintos Nacionais” em duas: os representantes da “Serra Gaúcha”, que produzem cerca de 80% dos tintos do país, e “Outras Regiões”, fruto do potencial de novas áreas vinícolas do Brasil. O Top Ten de 2013, por uma questão de empate na categoria Velho Mundo, acabou elegendo onze vinhos. Abaixo a lista dos vencedores em cada categoria.

Os campeões: 11 vinhos, 12 jurados e nenhum segredo

Vencedores do TOP Ten 2013

ESPUMANTE NACIONAL – total de 13 amostras

Villaggio Grando Espumante Brut Rosé 2012

Região: Água Doce, Santa Catarina

Uvas: pinot noir e merlot

ESPUMANTE IMPORTADO – total de 11 amostras

Aida Maria Rosé Brut Reserva 2007

Região: Douro, Portugal

Uva: touriga nacional

BRANCO NACIONAL – total de 19 amostras

Da’divas Chardonnay 2012, Lidio Carraro

Região: Terras da Encruzilhada do Sul, Rio Grande do Sul

Uva: chardonnay

BRANCO IMPORTADO – total de 30 amostras

Casas Del Bosque Sauvignon Blanc Reserva 2001

Região: Casablanca, Chile

Uva: sauvignon blanc

TINTO NACIONAL  SERRA GAÚCHA – total de 15 amostras

Perini Quatro 2009

Região: Vale do Trentino, Rio Grande do Sul

Uvas: cabernet sauvignon, merlot, tannat, ancellotta

TINTO NACIONAL OUTRAS REGIÕES – total de 14 amostras

Pericó Basaltino Pinot Noir 2012

Região: São Joaquim, Santa Catarina

Uva: pinot noir

ROSÉ – total de 6 amostras

Maquis Rosé 2012

Vale Aconchágua, Chile

Uva: malbec

TINTOS NOVO MUNDO – total de 32 amostras

Vistalba Corte A 2009

Região: Mendoza, Argentina

Uvas: cabernet sauvignon, malbec

TINTO VELHO MUNDO – total de 70 amostras

Santa Vitoria Grande Reserva 2008

Região: Alentejo, Portugal

Uvas: touriga nacional, cabernet sauvignon,  syrah

Sacagliola Sansì Selezione Barbera d’Asti 2009

Região: Piemonte, Itália

Uva: Barbera

DOCES E FORTIFICADOS – total de 14 amostras

Quinta Do Noval Porto Tawny 40 Anos

Região: Porto, Portugal

Uvas: tinta barroca, tinta roriz, touriga francesa, touriga nacional

Todos os vinhos estão expostos na ExpoVinis 2013, que vai abrigar mais de 400 expositores nos dias 24, 25 e 26 de abril no pavilhão azul da Expo Center Norte em São Paulo (veja ficha abaixo)

O nomes dos culpados pela eleição dos onze vinhos acima

Presidentes de mesa

Hector Riquelme – sommelier chileno

Mario Telles Jr -  ABS-SP

Jurados

Jorge Carrara – Prazeres da Mesa

Marcio Pinto – consultor e ABS-MG

Celito  Guerra – Embrapa

Beto Gerosa – Blog do Vinho

Gustavo Andrade de Paulo – ABS-SP

José Luiz Paligliari – Senac

Ricardo Farias – Sbav Rio de Janeiro

José Luis Borges – ABS-SP

Diego Arrebolla  – sommelier grupo Pobre Juan

Manoel Beato – sommelier grupo Fasano

Leia também: Como funcionam as degustações nos concursos

Todas as cores

E os vinhos eram bons?

Quando o painel é tão diverso e com tantas categorias a qualidade varia na mesma proporção do volume oferecido. Vale lembrar que o concurso é sempre às cegas, não sabemos o que estamos bebendo, apenas a categoria. Há grandes disputas entre bons vinhos que se afunilam numa espécie de tira-teima entre os melhores, há categorias que um rótulo se sobressai sobre os demais dada a sua superioridade – um Tawny 40 anos por exemplo é uma covardia – e outras que a média é muito parecida. Em Tintos do Novo Mundo, por exemplo, haviam exemplares com taninos (aquela sensação de adstringência que seca a boca mas é importante na estrutura e envelhecimento dos vinhos) tão agressivos que quase saí da sala e fui abrir um Boletim de Ocorrência. Claro, eram mais de 30 amostras, aparece de tudo. Os tintos nacionais apresentaram uma boa média e sempre surgem novos rótulos que acabam surpreendendo. Estas descobertas são uma das belezas de participar de um concurso desses. Curiosa superioridade dos espumantes rosés no resultado final. Eu gostei da escolha! Os brancos são menos prestigiados pelos produtores e poucos rótulos são enviados, o que prejudica a avaliação. Ah, importante, cada expositor tem direito a enviar dois vinhos na categoria que escolher. São estes os vinhos avaliados e não todos os vinhos da Expovinis, obviamente.

A prova acabou, mas sobrou vinho na taça

Mas dá para avaliar um vinho sem engolir?

Sobre a quantidade de vinho servida para o teste:

Aconselha-se a colocar na boca um volume pequeno de vinho, de cerca de 6 a 10 mililitros. (…) O volume utilizado deve ser sempre o mesmo para cada vinho, caso contrário torna-se impossível qualquer comparação rigorosa. (…) O copo de degustação deve ser simples, com capacidade de cerca de 200 mililitros, sem floreios, de paredes finas, sem cheiro de guardanapo nem de pano de prato. O copo normatizado pelo INAO-AFNOR e suas variantes é muito apropriado. O líquido a um terço de sua capacidade permite leve agitação necessária para liberar as moléculas odoríferas do vinho

Sobre cuspir o vinho nas degustações

Geralmente o degustador, ao longo dos exercícios profissionais, cospe o mais completamente possível o trago de vinho. Não é que a degustação seja melhor quando o vinho é expelido, ao contrário, aliás. Mas, evidentemente, seria impossível para o provador beber sem prejuízo alguns tragos dos dez ou trinta vinhos que frequentemente ele degusta numa mesma seção (…) Algumas pessoas estão convictas de que, se não engolirem, não terão nenhuma sensação; situam na “garganta” o centro da degustação por que, na verdade, elas engolem diretamente mas não degustam.

SERVIÇO

ExpoVinis 2013 – site oficial

DATA
24, 25 e 26 de Abril de 2013

LOCAL
Expo Center Norte – Pavilhão Azul
São Paulo – SP – Brasi

HORÁRIOS
24 de Abril
Profissional → 13h às 21h

25 de Abril
Profissional → 13h às 21h
Consumidor → 17h às 21h

26 de Abril
Profissional → 13h às 20h
Consumidor → 17h às 20h

PREÇOS

Entrada com direito a uma taça de cristal: R$ 70,00 (Valor de 3º lote)
Entrada estudante sem taça: R$ 35,00 (Valor de 3º lote)
Taça Avulso: R$ 30,00

Notas relacionadas:

  1. Os Top Ten da ExpoVinis 2010
  2. Infográfico: como são feitos os vinhos brancos e os vinhos tintos
  3. Concurso elege os dez melhores vinhos da Expovinis 2011
Autor: Beto Gerosa Tags: , , , , , , ,

quinta-feira, 22 de março de 2012 Nacionais | 14:55

A salvaguarda azedou o mundo do vinho e deve aumentar o preço do importado. Saiba por quê

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A diversidade de rótulos de todo o mundo está ameaçada pela salvaguarda do vinho nacional?

Antes mesmo de aprovada, a salvaguarda do vinho nacional já fez sua primeira vítima: o mundo do vinho brasileiro. Se antes os vinicultores nacionais, os importadores e os profissionais do ramo batalhavam  por um objetivo comum, a cultura do vinho e o crescimento do consumo da bebida, agora guerreiam em campos opostos nas redes sociais, na mídia e nos corredores do governo.

De um lado os produtores nacionais que lançam propostas protecionistas para poder “concorrer em igualdades de condições aos demais partícipes do mercado”; na outra trincheira importadores, profissionais do ramo e principalmente os críticos e especialistas, que estão se insurgindo contra medidas restritivas consideradas um tiro no pé do consumo da bebida – nacional e importada – no país.

Taninos agressivos

A polêmica já produziu casos lamentáveis e o surgimento de patrulhas ideológicas de Baco. Os nacionalistas defendendo o mercado para os rótulos nacionais e acusando críticos de favorecer as importadoras e os especialistas propondo um boicote ao vinho brasileiro. O jornalista e crítico Luiz Horta publicou em sua página no suplemento Paladar, no jornal O Estado de S. Paulo um texto sobre a qualidade do vinho produzido no Vale dos Vinhedos, coincidentemente na mesma semana que estourou a publicação da salvaguarda no Diário Oficial, e foi acusado de ter publicado matéria paga (a propósito, Horta  publicou um artigo contrário ao aumento de impostos). A sommelier Alexandra Corvo, contrária à salvaguarda, foi atacada em sua página do Facebook, com comentários agressivos aparentemente gerados por um perfil falso. Renomados especialistas, como o médico e vice-presidente da ABS (Associação Brasileira de Sommeliers), Mario Teles, que incentivou há vinte anos a qualificação do vinho fino no Brasil, decretou um possível boicote ao vinho nacional caso a medida seja aprovada. Outras seções da ABS espalhadas pelo país soltaram manifestos em desagravo às medidas. A chef Roberta Sudbrack, proprietária do restaurante homônimo, retirou de sua carta de vinho as vinícolas que apoiaram a salvaguarda, como Casa Valduga e Dal Pizzol. E publicou na sua página do Facebook. Também na rede social o colunista Didu Russo, que sempre se posiciona sobre assuntos relativos ao vinho, foi acusado de cobrar por notas. Por fim, blogs e páginas pessoais colocaram uma lente de aumento no tema, e um abaixo-assinado Não ao aumento do imposto de importação para vinhos circulou na rede.

Mas afinal do que se tratam estas medidas protecionistas? Qual o objetivo e as consequências da salvaguarda ao vinho nacional para o mercado e principalmente para o consumidor?

Três medidas protecionistas

Dilma Roussef: práticas comerciais “assimétricas e danosas”

Salvaguarda – A mais recente medida de proteção ao vinho fino nacional, publicada no Diário Oficial no último dia 15 de março estabelece a abertura de uma investigação para aplicação de salvaguarda às importações de vinhos do Brasil. A salvaguarda é um instrumento previsto pela legislação federal e reconhecido pela OMC que tem por objetivo proteger um setor que esteja sofrendo prejuízo ou ameaça grave de prejuízo decorrente do aumento das importações. O documento foi elaborado pela Secex, Secretaria do Comércio Exterior, ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (leia aqui na íntegra). Um detalhe curioso. Atualmente no Brasil apenas a salvaguarda do coco ralado (que encerra em 2012) está em atividade. O coco ralado, e o vinho nacional, “é coisa nossa…”

Se as medidas forem aplicadas – há um prazo de 40 dias de investigação estipulado pelo documento -, o vinho importado pode ser penalizado com um  aumento de taxas ou ter seu volume limitado nos próximos anos por uma política de cotas para cada país. A medida das cotas é mais ampla pois atinge em cheio os tintos e brancos do Chile, que devido ao benefício concedido por um acordo de complementação econômica teve suas taxas de importação reduzidas de 22,4% em 2006 a 0% em 2010. Vale observar que esta diminuição não foi refletida necessariamente na redução dos preços ao consumidor e alguém ficou com esse lucro adicional…

Tarifa Externa Comum  TEC - Mas esta não é a única barreira que os importados estão enfrentando este ano. As entidades que representam os produtores de vinho brasileiro também solicitaram a manutenção da Lista de Exceção à Tarifa Externa Comum  TEC/Mercosul, com um aumento nos porcentuais existentes. Champanhes, espumantes e vinhos fortificados que são taxados a 20%, passariam a pagar 35%. Vinhos finos que hoje já pagam um imposto de importação de parrudos 27% passariam para 55% (o máximo permitido pela OMC). Vale lembrar que o objeto da salvaguarda diz respeito apenas a vinhos finos, aqui o laço é mais amplo e se estende a espumantes e vinhos fortificados.

Alteração de rótulo - Para completar o quadro, também está em curso a exigência de adaptação dos rótulos das garrafas gringas a uma norma verde-amarela, com informações que não constam das etiquetas originais, como por exemplo a inscrição “vinho fino”. Levante a mão quem acreditar que vinhos mais qualificados e de baixa produção da Europa vão alterar seu rótulo apenas para satisfazer o mercado brasileiro…

A reação dos importadores e especialistas

Ciro Lilla, presidente das importadoras Mistral e Vinci

“O amante do vinho precisa reagir contra essa situação. Ou teremos todos que aceitar uma volta ao Brasil de 20 anos atrás, antes da abertura do mercado, com limitação da diversidade”, alerta Ciro Lilla, presidente das importadoras Mistral e Vinci.

Está previsto no processo de investigação “a oportunidade de apresentação de dados e argumentação não apenas aos representantes da indústria doméstica, mas também a outras partes interessadas (exportadores, importadores, etc.)”. Representando o lado dos importadores e comerciantes, três associações Abrabe (Associação Brasileira de Bebidas), Abba (Associação Brasileira dos Importadores e Exportadores de Bebidas e Alimento) e Abras (Associação Brasileira de Supermercados) se uniram para apresentar sua defesa e já constituíram advogados para defender a comercialização do vinho importado. “Mas temos apenas 40 dias corridos, a partir do dia 15 de março para apresentar nossos argumentos”, comenta Lilla, em nome destas três associações.

“Se a decisão for técnica, a salvaguarda não será implantada do jeito que está sendo pedida, mas receio que a decisão será política”, lamenta Jorge Lucki, um dos mais conhecidos e respeitados críticos de vinho do país e colunista do jornal Valor Econômico. Vale ressaltar que a salvaguarda contou com um discurso favorável da presidenta Dilma Roussef durante visita à Festa da Uva de Caxias do Sul, em fevereiro. Dilma prometeu tomar providências previstas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) contra práticas comerciais “assimétricas e danosas” à indústria nacional. Os produtores contam ainda com o apoio do  governador eleito pelo PT, Tarso Genro, do Rio Grande do Sul, que se empenha em convencer o governo a adotar as barreiras de olho no seu eleitorado, como adiantou nota do Poder Econômico de 7 de fevereiro.

Além das medidas legais, os importadores e comerciantes apostam na reação dos consumidores. Ciro Lilla puxa o cordão dos descontentes e além das conversas que mantém com os jornalistas, distribuiu uma carta aos seus clientes reclamando da “proteção sem limites ao vinho nacional” . Ao Blog do Vinho Lilla apontou problemas nos números apresentados na circular da salvaguarda. Cita como exemplo o aumento de 27% no total de importações de 2009 para 2010 uma das justificativas dos produtores e do governo para a adoção das medidas restritivas. “O que não se diz ali é que este crescimento se deu pela antecipação de importação no segundo semestre de 2010 por conta da adoção do selo fiscal em todas as garrafas de vinho fino comercializadas no Brasil.” Ou seja, foi uma reação a implementação da obrigatoriedade do selo (leia post sobre Selo do Vinho), outra briga encampada pelos produtores nacionais

Ciro Lilla também estranha que um setor, como o dos vinhos finos nacionais, que cresceu cerca de 7% em 2011, esteja pleiteando proteção. “Se forem adotadas salvaguardas para um setor que cresceu o triplo do PIB em 2011, que medidas de proteção se poderia esperar então para o restante da economia?”, provoca.

Quanto à modificação dos rótulos, outro profundo conhecedor de vinhos e do mercado, José Osvaldo Amarante, autor do livro Os Segredos do Vinho, garante que se trata de um “tiro no pé”. Os vinhos caros, que não são concorrentes do vinho nacional, vão sair do mercado dada a impossibilidade de alterar a impressão dos rótulos. Já os vinhos de grande volume – mais baratos, e portanto concorrentes dos vinhos nacionais – conseguem se adaptar as novas regras e não serão atingidos pela medida.

A redução da oferta onera não só o consumidor, que provavelmente vai buscar outros caminhos para conseguir sua garrafa, mas a própria cultura do vinho no país. Em recente entrevista à revista Gosto, Lucindo Copat,  diretor técnico e enólogo da vinícola gaúcha Salton, uma das empresas apoiadoras do instrumento da salvaguarda, demonstrou a influência dos importados para a melhoria do vinho nacional: “O vinho brasileiro atingiu o seu melhor nível de qualidade desde que se iniciou o desenvolvimento de produtos de classe. Isso se deve aos novos vinhedos e à tecnologia incorporada e também foi provocada pela concorrência com os bons vinhos importados”.

“Esta atitude vai impedir o desenvolvimento da nossa indústria do vinho a longo prazo”, alerta Dirceu Vianna Junior, o único brasileiro com o título de Master of Wine e que realizou uma ampla pesquisa de campo entre os produtores nacionais ” e foi responsável pela prova em Londres em que o merlot nacional foi destaque. “Apesar dos esforços de marketing para fazer o consumidor acreditar que os vinhos brasileiros são excelentes, eles não são. Melhorias estão sendo implementadas nos últimos anos, mas há muito trabalho ainda a ser realizado”, constata. “Tenho receio que estas barreiras desanimem os produtores de avançar nas melhorias necessárias.”

Para Dirceu estas barreiras vão diminuir o ritmo de evolução do mercado do vinho no Brasil e favorecer a indústria da cerveja, por exemplo, que tem uma legislação mais amigável. “O consumidor vai abandonar o vinho e partir para outro tipo de bebida”, adverte. “É uma ilusão achar que encarecendo o vinho importado o consumidor vai substituí-lo automaticamente pelo vinho nacional”, reforça Lilla.

A visão dos produtores

Carlos Raimundo Paviani, diretor-executivo do Ibravin,

Os produtores nacionais, representados pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), pela União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), pela Federação das Cooperativas do Vinho (Fecovinho) e pelo Sindicato da Indústria do Vinho do Estado do Rio Grande do Sul (Sindivinho), justificam a medida protecionista como forma de garantir igualdade de condições de participação no crescimento do consumo de vinhos finos, tomadas por uma invasão dos importados e concorrência desleal”, e assim garantir o sustento de cerca de 15.000 famílias da cadeia produtiva ligada a esta agroindústria.

“Em 2005, a fatia era de 63,1% e desde lá até 2011 as vendas dos importados saltaram de 37,5 milhões para 72,7 milhões de litros, enquanto o produto nacional recuou de 21,9 milhões para 19,5 milhões de litros”, argumenta o diretor-executivo do Ibravin, Carlos Paviani.

Um dos principais argumentos contidos no documento que estabelece a investigação da salvaguarda é o comportamento das importações de 2010, resultado da crise internacional que propiciou uma queda de renda no bloco dos países consumidores de vinho e consequente aumento de estoques nos países produtores que se viram forçados a desová-los a qualquer preço em países menos afetados pela crise, como o Brasil.

“Dos 91,9 milhões de litros de vinhos finos comercializados em 2011, apenas 21,2% destes são nacionais”, compara Paviani. “O que se espera são medidas temporárias e transitórias que permitam o reequilíbrio do mercado, tais como as cotas – que a União Europeia aplica a inúmeros produtos brasileiros”, complementa. “Todos queremos que o mercado brasileiro de vinhos cresça, apenas estamos buscando garantir que o vinho nacional não desapareça desse mercado”, contrapõe Paviani aos argumentos dos importadores.

“Não temos por objetivo o aumento de impostos! Não pedimos isso”, declarou Paviani ao Blog do Vinho. De fato a salvaguarda só pode determinar uma ação. Ou o aumento de taxas, ou o estabelecimento de cotas. E não está definida. Mas a questão da extensão da TEC, entretanto, trata justamente de um crescimento de impostos, o que contradiz esta afirmação.

Quanto às alterações dos rótulos, Paviani reclama o mesmo tratamento exigido ao vinho nacional. “O vinho elaborado no Brasil tem a obrigação de colocar no rótulo principal um conjunto de informações. Queremos apenas as mesmas regras para todos os vinhos.”

Paviani lembra que a adoção da medida exige uma contrapartida de investimentos do governo. “A salvaguarda não é uma dádiva, pois o setor terá de implantar medidas de ajuste, principalmente estruturantes, ou seja com investimentos, que o auxilie a tornar-se mais competitivo.”

Não seria melhor uma redução tributária?

Ciro Lilla defende uma agenda positiva para o vinho no Brasil como um todo. “Precisamos lutar juntos para que o vinho obtenha o tratamento tributário de um complemento alimentar — como em diversos países da Europa — e não um tratamento punitivo com ocorre aqui, onde o ICMS pago pelo vinho é o mesmo pago por uma arma de fogo!”

Paviani reforça esta tese, mas sob o ponto de vista da produção nacional. “ Estamos trabalhando pela redução de tributos há pelo menos uma década. Graças a estes esforços pelo menos no Rio Grande do Sul temos um ICMS reduzido, mas outros estados não compreendem nossos pleitos”, lamenta.

O Ibravin reclama ainda da guerra fiscal entre os portos e cobra uma posição dos importadores. “Precisamos que se acabe essa guerra fiscal, essa guerra de portos e efetivamente as alíquotas sobre o vinho possam ser diminuídas. Por que os importadores de São Paulo não reclamam das isenções de Santa Catarina e do Espírito Santo? Precisamos de uma atuação conjunta.”

Vale registrar que alguns pequenos produtores do Rio Grande do Sul são contrários à salvaguarda e não assinam embaixo do documento.

Salton retira apoio à salvaguarda

Atualização 23h11: A assessoria de imprensa da Vinícola Salton soltou o seguinte comunicado se posicionando sobre a salvaguarda, que como foi demonstrada acima é parte do problema.

A Vinícola Salton esclarece que são as entidades representativas do setor, Ibravin, Uvibra, Fecovinho e Sindivinho que estão à frente do movimento para salvaguardas dos vinhos nacionais. A Salton, compreendendo que estas medidas podem restringir o livre arbítrio de seus consumidores, encaminhou ao Ibravin um documento informando que não apoiará a causa. Reforçamos ainda que a Salton, uma empresa centenária e brasileira, se preocupa muito com seus clientes e consumidores e que busca constantemente o melhoramento de seus processos e produtos, por meio de investimentos em novas tecnologias e programas de qualidade, para concorrer, de forma justa, com produtos nacionais e importados.

O tamanho do mercado de vinhos no Brasil

O que está em jogo é qual fatia do mercado cabe a cada player deste jogo. A jornalista especializada em vinhos, Suzana Barelli, editora da revista Menu, publicou uma reportagem na IstoÉ Dinheiro, que mostra a composição do mercado total de vinhos no Brasil, incluindo vinhos finos, vinhos de mesa e espumantes. Os dados são do Ibravin. E mostram que de cada 5 garrafas de vinho consumidas no Brasil, entre vinhos finos, espumantes e vinhos produzidos com uvas de mesa, quase 4 (77.4%) já são de vinhos brasileiros

VINHOS FINOS

Importados - 72,7 milhões de litros  = 78,80%

Nacionais – 19,5 milhões de litros = 21%

VINHOS FINOS + VINHOS DE MESA + ESPUMANTES

Nacionais – 265,3 milhões de litros = 77,40%

Importados – 77,6 milhões de litros = 22,60%

Quem paga o pato

O resultado óbvio de todas estas medidas é o aumento no preço das garrafas ao consumidor, seja por conta de uma mordida maior nas taxas de importação (calcula-se um impacto entre 20% e 23% no preço da garrafa) seja pela redução de oferta estabelecida pelo controle de cotas. Noves fora: se o vinho já era caro nas lojas e caríssimo nos restaurantes, vai pesar ainda mais no bolso. A outra consequência será a diminuição de opções de rótulos, principalmente das pequenas produções importadas que não conseguirão se adaptar às normas dos rótulos ou vão ficar inacessíveis ao consumidor. O pior de tudo é que estas medidas não vão necessariamente aumentar a fatia de consumo do vinho fino nacional. Aqueles rótulos de boa qualidade que conquistaram mercado pela meritocracia costumam ter sua comercialização garantida e não têm capacidade de crescer em volume de uma hora para a outra. Quem pago o pato, portanto, somos nós, os consumidores e amantes do vinho.

Houston, temos problemas. De fato os importados invadiram nossa praia, mas o consumo cresceu no todo e isso é bom para todo o ciclo do vinho. O Brasil domina o mercado de vinhos de mesa e dos espumantes, que têm qualificação reconhecida. Perde feio em relação aos vinhos finos, onde também avança na elaboração de melhores uvas, investimentos em tecnologia, etc. Se a questão é abrir espaço no mercado, negociações com distribuidores, reduções ficais e outros temas poderiam fazer parte da abordagem. O problema é em pleno ano 2012 apelar-se para a tutela do Estado tentando obrigar o consumidor a escolher o tinto e branco nacionais por asfixia na oferta de importados. O Brasil já passou desta fase, e melhorou muito com o fim das barreiras.

O vinho de amanhã pode ser um retrato da informática dos anos 80. Quem tem mais de 30 anos se lembra das restrições ao computadores importados e suas nefastas consequências. A lei de reserva de informática teve apoio dos setores nacionais e atrasou o país em alguns anos na sua evolução tecnológica e foi o paraíso dos contrabandistas. O vinho pode estar trilhando este mesmo e perigoso caminho. Vamos aguardar os próximos capítulos desta história.

O debate esta aberto com a sociedade. Dê sua opinião.

Notas relacionadas:

  1. Bons, básicos, baratos e brasileiros
  2. O merlot brasileiro é o melhor do mundo?
  3. Salton completa 100 anos e lança um tinto e um espumante para comemorar
Autor: Beto Gerosa Tags: , , , , ,

segunda-feira, 23 de agosto de 2010 Nacionais | 10:54

Salton completa 100 anos e lança um tinto e um espumante para comemorar

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A Vinícola Salton completa 100 anos no dia 25 de agosto de 2010. Uma empresa brasileira cravar 100 anos de existência já é um ponto fora da curva, uma indústria do vinho em um país sem a tradição na bebida alcançar este feito, então, é um assombro.

Um estudo realizado por uma empresa japonesa, Tokyo Shoko Research, fundada em 1892, pesquisou 1.975,260 cadastros em seu banco de dados e encontrou 21.660 empresas com mais de 100 anos no mundo. Entre elas, há inúmeras vinícolas ainda atuantes, 76 para ser mais exato. Fundada no ano 1000, o Château de Goulaine, localizado no Vale do Loire, é a vinícola mais antiga ainda em funcionamento e a oitava empresa mais antiga da lista. A italiana Ricasoli, de 1141, uma verdadeira dinastia do Chianti na Toscana, é a vigésima da lista. As únicas representantes nacionais são o Banco do Brasil, fundado em 1808, e a distilaria Ypioca, criada em 1846.

A lista pode ser até imprecisa, mas 100 anos, como se vê, merecem festa e pompa. Para comemorar o centenário, dois vinhos foram cuidadosamente elaborados pelo principal enólogo da vinícola, Lucindo Copat. Um tinto e um espumante. O primeiro, o Salton 100 anos, é uma espécie de evolução do Talento, o top de linha da empresa lançado em 2004, um assemblage com 50% de cabernet sauvignon, 40% de merlot e 10% de cabernet franc que permaneceu 16 meses em carvalho novo francês antes de ir para a garrafa. Um tinto intenso, a madeira batendo continência, camadas de frutas, pedindo um decanter ou algum tempo a mais de garrafa. Já o Salton Espumante Nature 100 anos, elaborado pelo método tradicional (champenoise), é composto por 70% de pinot noir e 30% de chardonnay e permaneceu três anos em contato com as leveduras. Resultado: nariz de champanhe, espuma abundante e sabor rico. Top espumante nacional, digno de um selo 100 anos. Se precisasse escolher uma das duas bebidas para brindar, eu ficaria com esta. A 13 mil garrafas dos vinhos, em edição limitada para os padrões da vinícola, estarão à venda a partir de 26 de agosto, um dia após o centenário. O Brandy 100 anos que aparece na foto acima será exclusivo para comemorações da empresa.

Angelo

O vinho Salton consumido hoje guarda poucos laços com 100 anos de tradição. Os produtos atualmente engarrafados na moderna vinícola de Tuiuty, em Bento Gonçalves – as linhas Classic, Volpi, os espumantes Évidence, Reserva Ouro, e os tops Talento, Desejo (tintos) e Virtude (branco) – são fruto de uma revolução dos últimos 10 anos da empresa. Um dos principais engenheiros desta guinada, no entanto, não vai estar presente na festa. Em fevereiro de 2009 o então presidente da empresa, Angelo Salton, em uma dessas trapaças do destino, faleceu, vítima de um infarte fulminante.

Pessoalmente, Angelo lembrava o ator e diretor Orson Welles dos últimos anos. De grande estatura e jeito bonachão, abria um sorriso enorme cada vez que oferecia, com seu vozeirão, uma taça de vinho a quem quer que passasse à sua frente em feiras e degustações: “Este é um espumante da mais alta qualidade, brasileiro, é da Salton. Você vai provar, gostar e comprar mais no supermercado”. Bingo, mais um cliente conquistado. Claro, Angelo não comandava uma ONG, mas uma empresa, e estava comprometido com o crescimento da Salton e a divulgação de seus produtos. Mas fazia isso com um entusiasmo raro.  Em 2006, ele deu uma entrevista a este colunista que revista anos depois traduz o homem e seu projeto. E demonstram uma visão que extrapolou o regionalismo e deu o rumo desses últimos 10 anos da vinícola, que completa 100 anos com boa musculatura. Alguns trechos, abaixo:

Mudança
O foco, a filosofia e a cultura da Salton mudaram nos últimos três anos. O que ajudou muito é que eu mudei muito como presidente da empresa. Eu passei a vivenciar os vinhos junto com enólogos, até hoje faço isso.

A empresa
A Salton tem 94 anos (em 2006). Nós temos uma estrutura de indústria muito forte. O Conhaque Presidente e outros vinhos populares geram um lucro que nos permite investir. É este lucro que bancou a construção da nova adega, em Tuiuty. Você não pode falar em vinhos e espumantes finos devendo no banco.

ABS, Sbav e confrarias
Essas associações estão totalmente ligadas ao mundo do vinho brasileiro. São formadas por especialistas que tomam de 20 a 30 rótulos importados por dia. Eles têm uma boca superior à do enólogo que só toma vinho brasileiro. Por isso eu dizia para o pessoal do Sul: “Respeitem esta turma, vamos aproveitar esta capacidade, esta crítica para nos ajudar.” E foi o que aconteceu nesses anos, com esse tipo de contato.

O choque dos importados
Nós não tínhamos a cobrança de fazer vinhos finos, como o Talento, o mercado não exigia isso. A concorrência do importado fez a indústria se mexer, esta é a verdade. Por que até não ter estes 30 milhões de litros importados, 40 milhões de garrafas, a vinícola brasileira estava meio tranquila.

Vinho popular
A Salton não vai viver só do vinho fino. Ela vai viver também do vinho popular. Mas vamos fazer o melhor popular que tem. Vamos deixar de fazer o Chalise? Vamos cortar as parreiras de uva isabel? Acho que não. Temos um mercado que é o Brasil real. A uva isabel custa 30 centavos e a cabernet sauvignon, 2 reais. O dia que tiver cabernet sauvignon a 30 centavos, a gente corta o resto! Mas vai demorar.

As bandeirinhas
O Volpi nasceu em 2000. Uma idéia que tivemos de trazer um rótulo mais sofisticado. Fizemos um grande lançamento do Salton Volpi Chardonnay, no restaurante D.O.M. A Salton começou ali a engatinhar rumo às coisas mais refinadas.

O caminho para chegar aos restaurantes
Atualmente eu não admito um restaurante em São Paulo que não tenha vinho Salton. O Talento, por exemplo, está na carta de vinhos dos melhores restaurantes da cidade. Mas no começo, há quatro anos, foi um processo lento. Fui visitar o Fasano umas oito vezes até convencer o sommelier da casa, Manoel Beato, que o nosso vinho tinha qualidade para entrar na carta de vinhos do restaurante.

Enochatos
Se o cara começa a descrever cheiro de borracha queimada e aroma de frutas exóticas que ninguém conhece fora do meio dele, pode passar por ridículo. É o risco. De vez em quando eu escuto umas pessoas comentar as características de um vinho, e falo: “Olha, eu não estou sentido nada disso.” Aí tem um pouquinho de marketing de quem faz o show.

Degustação
Eu sei que eu não sou um grande degustador. Mas hoje o meu padrão está com o Salton Talento. Se eu provo um vinho inferior, do dia-a-dia, já noto que falta tipicidade, aroma, intensidade. Estou também virando um chato…

Os 100 anos sem Angelo, mas com seu legado

A ausência de Angelo ao brinde dos 100 anos da Salton provoca um travo amargo. Afinal, a finitude inesperada é uma dessas armadilhas que interrompem uma vida cheia de expectativas. Mas também pode ser encarada com um último recado do empresário que dedicou 28 anos de sua carreira profissional à Salton e que nos últimos anos defendia o crescimento do mercado do vinho nacional pela qualificação do produto – sem perder o olho no mercado de grande volume. Ele não vai estar na festa, uma pena, mas seus vinhos sobreviveram a sua marcante personalidade. Missão cumprida.

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sexta-feira, 20 de agosto de 2010 Nacionais | 18:03

#enche a taça Galvão!

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Galvão Bueno ao lado da mulher e do humorista e apresentador Jô Soares: de taça cheia e rindo à toa

Bueno Paralelo 31 é o vinho do Galvão, o locutor mais assistido e comentado da TV brasileira e agora do twitter. Ok, isso não é notícia. Este Blog mesmo relatou o lançamento da vinícola na Expovinis em nota de 29 de abril deste ano. A novidade é que as garrafas já estão à venda no site da Miolo, parceira de Galvão, e disponíveis em  restaurantes e lojas de vinho. Ou seja, agora os apreciadores podem discutir o vinho, e não o personagem. São 14.000 garrafas comercializadas nesta temporada.

A Bueno Bellavista Estate (bacana, hein?) ainda é um projeto. O terreno, localizado na Campanha Gaúcha, vizinha das parreiras de outro projeto da família Miolo, a Seival Estate (opa!), ainda está em sua primeira infância. As parreiras têm seu tempo de maturação. Demoram cerca de cinco anos para começar a dar frutos em condições de fermentar e virar vinho. Mas Galvão Bueno é acelerado. E os primeiros vinhos da sua empreitada são dos terrenos vizinhos do Seival, no caso do tinto, e do Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, para o espumante Bueno Cuvée Prestige. Nestas primeiras safras a assinatura no rótulo é do Galvão, mas as uvas ainda são de terceiros.

#enche a taça Galvão

Galvão Bueno não se incomoda com o sucesso. Se alimenta dele e é feliz com isso, o que é raro em um país em que o sucesso é motivo de desgosto em público e júbilo no particular. Discorre sobre seu vinho com paixão. Não comemora como um gol, mas narra como uma boa partida, e deixa claro que entrou com o coração. Os enólogos (Adriano Miolo e Michel Rolland) com a técnica e o conhecimento. Ergue a taça, fala de um produto com alma e lança o conceito do paralelo 31 do vinho nacional – aquela mesma faixa do globo em que brilham algumas regiões vitivinícolas da Austrália, da Nova Zelândia, da África do Sul, da Argentina e do Chile. Uma estratégia mirando o mercado exterior. Galvão vive parte de seu tempo em Mônaco, e pretende levar seus rótulos embaixo do braço para mostrar para seus amigos em restaurantes estrelados que frequenta na Europa.

E, para aqueles que julgam o vinho baseado em opiniões preconcebidas, este blog pode decepcionar. Degustado agora com mais vagar, em um restaurante, sem a pressa das feiras e alguns meses a mais na garrafa, o Paralelo 31 surpreendeu mais do que da primeira vez. O padrão da dupla Adriano/Rolland se confirma (ver nota anterior), e a escolha por um assemblage não muito habitual por aqui – mistura das uvas cabernet sauvignon (60%), merlot (30%) e petit verdot (30%) –  mostrou seu valor na taça.

Classudo como um bom assemblage tem de ser, com um tostado bacana, frutas maduras e macio na boca, é um bom representante da região. Não sobrou na taça, critério número um de aceitação. Confesso que os tintos da Miolo da região do Seival são os que mais me atraem, em especial o rótulo Castas Portuguesas. O espumante é correto, passa 18 meses em contato com as leveduras, conferindo mais consistência de boca e alguma elegância, mas não se distingue – é muito parecido com outra linha da Miolo. Na mesma faixa de preço, atende uma visão mercadológica da Bueno Estate, o tal mercado externo.

Um sauvignon blanc no ano que vem

Galvão enche a taça, todos à sua volta fazem o mesmo, e já anuncia que no próximo ano o sonho é produzir um sauvignon blanc com a mesma qualidade dos países do paralelo 31, mirando em especial os rótulos dos brancos da Nova Zelândia e da África do Sul. Sugere o uso da barrica. Faz uma consulta aos jornalistas e críticos à sua volta. Todos votam em um branco sem uso da madeira (incluindo o enólogo e sócio Adriano Miolo). Adriano adianta que a safra do ano que vem do Paralelo tinto terá maior participação da petit verdot, que mostrou qualidade excepcional. Galvão concorda e sugere diminuir um pouco mais o cabernet para aumentar a proporção da petit verdot. O negócio do vinho entrou de vez na vida do locutor.

Celebridades não são novidade no mundo do vinho, os exemplos são muitos ao redor do planeta dos ricos e famosos. Alguns realizam um sonho, caso do Galvão – que confessou que não tinha muita intimidade com os caldos nacionais, mas agora defende até a questão dos tributos protecionistas -, do cineasta Francis Ford Coppola  e do ator Gérard Depardieu -, outros emprestam o nome como mais uma oportunidade de ganhar dinheiro. Para o negócio do vinho, é mídia espontânea – olha eu aqui falando do Bueno Estate – e expansão de marca e de mercado. Para o consumidor, uma isca para se aproximar dos tintos e brancos. Aos conhecedores e bebedores com maior litragem, a oportunidade de enfim fazer a prova da taça. E aí sim, julgar o vinho pela degustação, pelo gosto.

Depois de fazer furor no twitter, Galvão corre o risco de frequentar a rede social mais ligada ao vinho com novas rashtags: #enche a taça a galvao para aqueles que gostaram do vinho ou manter o #cala a boca galvao no topo se o julgamento continuar negativo. O veredito, como sempre, é do cliente.

# baixa o preço Galvão

Bom, mas aí chega a hora de pagar a conta. O Parelelo 31 deve chegar entre 80 a 100 reais para o consumidor final nas lojas e um pouco mais barato se encomendado direto na vinícola em caixas de seis garrafas. É aí que começam as comparacões por similares importados do mesmo preço. Talvez seja o caso de criar uma terceira rashtag no twitter: # baixa o preço Galvao

Bueno Paralelo 31 Safra, 2008, Campanha, Rio Grande do Sul
60% cabernet sauvignon, 30% merlot, 10% petit verdot
1 ano de barril de carvalho
R$ 75,00 no site da miolo (seis garrafas)

Bueno Cuvée Prestige, Vale dos Vinhedos Rio Grande do Sul
50% chardonnay, 50% pinot noir
18 meses sobre ação leveduras
R$ 59,00 no site da miolo (seis garrafas)

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Autor: Beto Gerosa Tags: , , , , ,

terça-feira, 17 de agosto de 2010 Nacionais | 11:45

O merlot brasileiro é o melhor do mundo?

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No dia 5 de março de 2008 quarenta degustadores se reuniram na Embaixada Brasileira de Londres para uma prova às cegas de 27 vinhos da uva merlot.  Dezessete garrafas eram brasileiras e outras dez representavam outras regiões do mundo. O critério de escolha foi o preço dos exemplares no mercado inglês no período, entre 15 e 45 reais.

O grupo de provadores era da maior competência, quinze deles ostentavam o diploma de Master of Wine – um titulo só concedido após exaustivos e rigorosos testes de conhecimento. Apenas 280 profissionais em todo o mundo têm este privilégio, o paranaense Dirceu Vianna Junior é um eles – e o único  brasileiro. O restante do grupo era composto de jornalistas especializados, sommeliers, enólogos e negociantes do mercado inglês de vinho. A prova era parte fundamental da tese de Dirceu Vianna. Seu objetivo era responder à seguinte questão: os vinhos nacionais do Vale dos Vinhedos poderiam competir num ambiente tão disputado como o mercado inglês?

O ranking de Londres
O resultado foi muito favorável ao vinho brasileiro. Os tintos verde-amarelos ficaram à frente de rótulos conhecidos – e de valor similar em Londres – do Chile, da Itália e da França! “Foi uma surpresa”, contou Dirceu Vianna, que reside e trabalha em Londres, ao Blog do Vinho. “O meu objetivo era de que um ou talvez dois vinhos brasileiros se saíssem bem e demonstrassem o potencial da região.” A partir daí o que era para ser um estudo sobre a viabilidade do vinho nacional no mercado britânico tornou-se em peça de propaganda do merlot nacional. A associação que representa o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha, no estado do Rio Grande do Sul, divulgou os resultados com estardalhaço, com a seguinte pegada: “Ranking dos 10 melhores merlot do mundo tem oito vinhos brasileiros”. Curioso? Eis o ranking:

Miolo Teroir1º Miolo Merlot Terroir 2005 – Brasil
2º Thelema Merlot 2005 – África do Sul
3º Pizzato Single Vineyard Merlot 2005- Brasil
4º Vallontano Merlot Reserva 2005 – Brasil
5º Concha Y Toro Casillero del Diablo Merlot 2006 – Chile
6º Larentis Reserva Especial Merlot 2004 – Brasil
7º Don Laurindo Merlot Reserva 2005 – Brasil
8º Cavalleri Pecato Merlot Reserva 2005 – Brasil

9º Michelle Carraro Merlot 2005 – Brasil
10º Milantino Merlot Reserva 2004 – Brasil

Completam a lista os seguintes rótulos – alguns bem conhecidos do consumidor nacional

11º Capucho Merlot Ribatejo, Portugal
12º Planeta Merlot 2004, Itália
13º Montana Merlot Reserva 2005, Nova Zelândia
14º Berri States Merlot 2006, Austrália
15º Norton Barrel Select Merlot 2004, Argentina
16º Gallo Merlot 2004, Estados Unidos
17º Reserve Mouton Cadet St Émillion 2005, France

Nota: só entraram na avaliação merlots da regiões delimitada do Vale dos Vinhedos. Rótulos como por exemplo da Vinícola Salton ou da região de Santa Catarina ou de  Pernambuco ficaram de fora.

Os melhores merlot do mundo?
Palmas para a evolução do vinho nacional. Mas será que esta degustação pode nos colocar no patamar dos melhores do mundo? Com a palavra Dirceu Vianna, o autor do projeto: “É legal comunicar os aspectos positivos desse estudo, pois a indústria realmente deveria orgulhar-se disso, mas por outro lado a outra metade dos produtores ficaram entre os últimos dez no ranking”. Well, o que é bom a gente mostra, o que não é a gente esconde, não é mesmo? “Comprar um vinho produzido nessa região, para quem não conhece, ainda é  arriscado, pois não há consistência de um produtor a outro”, alerta Vianna.

O que o estudo conclui, e isso é muito bom, mas está longe de colocar o merlot nacional no pódio mundial, é que é “os vinhos brasileiros são capazes de competir em termos de qualidade com outros países no mercado britânico”. O estudo relativiza, porém, os resultados: “Levando-se em conta a proporção de vinhos do Brasil e do resto do mundo provados na degustação, os oito melhores colocados representam 47% do total  de rótulos nacionais contra 20% de exemplares de outros países”. Vale lembrar ainda que na avaliação geral, nenhum rótulo foi considerado excepcional (outstanding) pelos degustadores. Ou seja, a qualidade geral não era de recordistas mundiais, mas de medalhistas regionais, até pelo corte de preço.

Avaliação detalhada
O fundamentado estudo de Vianna contou ainda com uma avaliação técnica da degustação que revelou tanto as qualidades como as fragilidades do produto nacional. Alguns pontos  levantados pelo estudo:

1. Pelo menos quatro vinícolas produzem vinhos de boa qualidade.

2. Os vinhos  foram considerados de boa estrutura, altos níveis de acidez e álcool moderado. São fáceis de beber, sem excesso de frutas, e complexidade moderada, mais semelhante a um estilo europeu do que do novo mundo. (Comentário deste Blog: O que demonstra que temos uma identidade, que merece ser respeitada pelos vinicultores…)

3. Altos níveis de acidez foram detectados na maioria dos exemplares.  Em alguns casos a acidez foi avaliada como refrescante e balanceada. Na sua maioria, porém, foi considerada excessivamente elevada.

4. Na média foi apontado um mau uso da barrica, com problemas de higiene, qualidade da madeira ou ainda detectado excesso de exposição do vinho aos seus efeitos.  O uso da madeira no atual estágio da viniculura nacional foi comparado ao dos vinhos da Rioja (Espanha) e de Chianti (Itália) de vinte anos atrás.

5. o estudo identificou sete pontos principais que merecem a atenção dos produtores do Vale dos Vinhedos: escurecimento precoce do vinho, falta de maturação e  pouca concentração de fruta, elevados índices de acidez, problemas de manuseio de sulfito, excesso de extração e mau uso de barricas.

Por que merlot e não espumantes?
Cabe a pergunta, certo? Nossos espumantes afinal não conquistam medalhas para lá e para cá em diversos concursos internacionais? Para Vianna a decisão foi pragmática: “Haviam duas alternativas: fazer algo relacionado aos vinhos espumantes ou vinhos da variedade merlot. Como o consumidor brasileiro parece ter preferência por tintos, e também pelos benefícios à saúde, decidi seguir esse caminho.” Vale acrescentar que a merlot é a uva mais plantada entre as variedades de vitis vinifera do Vale dos Vinhedos (dados da Aprovale, 2008)

Merlot  112,5 ha
Cabernet Sauvignon 106, 3 ha
Cabernet Franc 42,2 ha
Chardonnay   31,4 ha
Riesling Itálico 26 ha
Tannat  24 ha

A escolha da merlot significa que esta é a uva com maior potencial no Brasil?
Muitos enólogos e entendidos apostam na merlot como “a uva” nacional, incluindo o consultor globalizado Michel Rolland. Mais uma vez, Vianna pondera: “Eu acho que essa resposta vai levar décadas para  ser respondida com convicção”. E em seguida coloca o dedo na ferida: “Se o produtor tiver força de vontade, determinação e disciplina eu acho que é possível fazer vinhos de boa qualidade, mas eles devem diminuir o rendimento para no máximo 1.5 quilo por planta”. Vianna, no entanto, identificou dificuldades no processo após visitar grande parte dos produtores em três longas viagens ao Vale do Vinhedos. “Não é fácil mudar a mentalidade dos produtores nesse sentido”.

Noves fora?
O estudo de Dirceu Vianna traz uma ótima notícia para o vinho nacional, mas o caminho ainda é longo, exige investimentos e mudança de mentalidade. Mesmo superando rótulos conhecidos do Chile e da Argentina na tabulação final da degustação, Vianna acha  difícil, por exemplo, o vinho brasileiro conseguir disputar de igual para igual o mercado internacional – e seu estudo tinha este objetivo, avaliar as possibilidades de nosso produto no mercado inglês, é sempre bom lembrar. “Tanto o Chile quanto a Argentina avançaram a passos largos nas últimas duas décadas. Um dos motivos foi a ajuda de consultores com experiência internacional. As vinícolas brasileiras deveriam seguir o exemplo – a Miolo é uma exceção. Eu não sei se é timidez, arrogância ou o fato de não querer investir, mas de qualquer forma é uma falsa economia”. A avaliação é seguida de uma previsão. Vianna não tem dúvidas: “Eu tenho certeza que o mercado de vinho no Brasil vai crescer muito nos próximos anos.”

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Autor: Beto Gerosa Tags: , ,

quinta-feira, 8 de julho de 2010 Nacionais | 18:49

O vinho do padre

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Muita gente se pergunta qual é o vinho usado pelos padres no sacramento da eucaristia, aquele momento da missa em que o religioso ergue o cálice aos céus e celebra o pão como o corpo e o vinho como o sangue de Jesus Cristo, um fenômeno chamado de transubstanciação pela Igreja Católica. Não se trata, claro, de qualquer vinho – muito menos de uma bebida que vá agradar um apreciador de bons tintos. Mas é vinho – chamado sacramental ou canônico –, e segue instruções rígidas do Vaticano.

O artigo de número 50 do documento Redemptionis Sacramentum, lançado em 2004 pelo papa João Paulo II, estabelece: “O vinho que se utiliza na celebração do santo Sacrifício eucarístico deve ser natural, do fruto da videira, puro e dentro da validade, sem mistura de substâncias estranhas. (…) Está totalmente proibido utilizar um vinho de quem se tem dúvida quanto ao seu caráter genuíno ou à sua procedência, pois a Igreja exige certeza sobre as condições necessárias para a validade dos sacramentos. Não se deve admitir sob nenhum pretexto outras bebidas de qualquer gênero, que não constituem uma matéria válida.”

Vinho de missa

O vinho canônico costuma ser uma bebida licorosa e doce que recebe adição de álcool etílico. O elevado teor alcoólico e a grande concentração de açúcar cumprem a função de conservar o produto por mais tempo, já que o vinho tem um consumo lento – um pequeno volume a cada missa -, e precisa durar mais tempo na garrafa.

No Brasil, entre os rótulos mais conhecidos destacam-se o Frei Fabiano e o Vinho Canônico, este último produzido e comercializado pela Vinícola Salton, que começou a vinificar vinhos para missa há mais de 70 anos. Os primeiros exemplares foram feitos sob encomenda de um padre espanhol que solicitou à empresa, localizada em Bento Gonçalves, que produzisse um vinho de missa semelhante ao que ele estava acostumado a usar na Europa (ou seja, mais licoroso e doce ).

O Vinho Canônico da Salton começou a ser feito pela empresa em 1940 e, atualmente, atende a igrejas de todo o país, com autorização da Cúria Metropolitana. São produzidos mais de 300 mil garrafas por ano – 80% são comercializados para as igrejas. O restante pode ser comprado pelo consumidor comum, aquele que aprecia este tipo de vinho mais doce, e custa em torno de R$ 11,00. Para sua vinificação são usadas as variedades moscato (50%), saint-emilion (40%) e isabel (10%), o resultado é um vinho licoroso e rosado com uma graduação alcoólica de 16º GL.

Momento Wikipédia: vinho e cristianismo

Fundamental para o sacramento da eucaristia, o vinho está ligado, desde sua fundação, à história e aos ritos da Igreja Católica. Não é à toa que em sua primeira declaração aos católicos, o papa Bento XVI usou a vinha como metáfora para explicar sua missão na Igreja. “Depois do grande papa João Paulo II, os senhores cardeais me elegeram, um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor” Muitas são as referências e analogias do vinho no cristianismo. Assim como Jesus, que foi crucificado, morto e ressuscitou no terceiro dia, a videira também remete seu ciclo de vida a uma simbologia do sagrado: ela perde sua folhagem e hiberna no inverno — como se estivesse morta — e renasce na primavera para dar o fruto que será fermentado e transformado em vinho. A Bíblia, não por acaso, é recheada de alusões a esta bebida secular. Noé, logo ao descer no Monte Ararat, plantou uma videira para fazer vinho e embriagar-se. O primeiro milagre de Jesus, segundo os Evangelhos, foi transformar água em vinho em uma festa de casamento em Caná, na Galiléia. Na santa ceia, por fim, Cristo celebra o pão como seu corpo e o vinho como seu sangue – “Este é o cálice da Nova Aliança no meu sangue derramado por vós.” -, ritual que é repetido em toda a missa para celebrar a nova aliança do Senhor com os homens.

Outra aliança que se forma entre a civilização ocidental, o cristianismo e o vinho é histórica, e tem início com a conversão do império romano a esta corrente religiosa. O resultado prático é que grandes e tradicionais produtores do vinho, como a França, Portugal, Espanha e Itália, que sofreram influência do Império Romano, são países de forte tradição cristã. Papas já foram proprietários de grandes vinhedos na França – o mais famoso dele, o Châteauneuf-du-Pape. Os grandes enólogos da idade média eram monges cistercienses que cultivaram os melhores terrenos da Borgonha, que produzem vinhos de alta qualidade até os dias de hoje — Beaune, Pommard, Vosne, Nuits, Corton, Clos de Vougeot — e os cercaram de muros (por isso denominados de “clos”). E ainda é atribuído a um monge beneditino, Don Pérignon, a invenção do Champagne (Faça o teste Nem tudo que borbulha é champanhe )

No Brasil, no princípio era o vinho

A história brasileira também está marcada, desde o descobrimento, pela necessidade do cultivo das videiras em função das missas que os jesuítas celebravam no início da colonização. Carlos Cabral, estudioso sobre o assunto, informa em seu livro Presença do Vinho no Brasil. “Na frota de Cabral se rezava missa todos os dias. Tinha que ter vinho. O Brasil foi colonizado por católicos fervorosos. Para isso era preciso ter vinho sempre. E assim a bebida foi sendo implantada na terra dos tupiniquins.”

Autor: Beto Gerosa Tags: ,

sexta-feira, 4 de junho de 2010 Nacionais | 14:56

Bons, básicos, baratos e brasileiros

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Os vinhos de grande volume das principais vinícolas são a base da pirâmide do consumo. Uma espécie de “Caminho Suave” dos tintos e brancos, uma cartilha por onde o iniciante começa a experimentar e gostar de vinho, o reincidente tem a opção do dia-a-dia e aqueles felizardos que são recomendados pelos médicos a tomar uma dose diária de um tinto têm uma alternativa segura.

Vinhos de linhas mas simples de empresas como Almadén, Aurora e Salton fazem parte de um segmento que poderia muito bem ser chamado de BBB do vinho nacional: bons, básicos e baratos. Sim, eles existem, são simples e descomplicados. E o crescimento do mercado de vinho fino nacional (veja abaixo) está produzindo boas novidades no setor: investimentos, qualificação da bebida e até modernização visual dos rótulos.

Agora, em nova embalagem

E se além de bons e baratos estes vinhos mais básicos fossem também bonitos? Almadén e Aurora apostaram em mudanças visuais em seus rótulos. Eles ficaram mais limpos e fáceis de identificar nas prateleiras de supermercado, em ambos os casos cada uva tem uma cor. A Salton mantém seu rótulo mais escuro para a linha Classic, mas também adota a diferenciação de uvas pela cor.

Almadén

Não é à toa que a Miolo Wine Group adquiriu a Almadén em outubro de 2009, e  mexeu com a fórmula dos vinhos produzidos na região de Livramento em um investimento de 2 milhões de reais em melhorias nos processos de vinificação. O resultado foi apresentado oficialmente na última ExpoVinis – feira internacional de vinhos de São Paulo. Primeira boa novidade: diminuiu-se o teor de açúcar. Todos os varietais (vinho de uma única uva) da Almadén estão mais leves, frutados e refrescantes e sem aquele docinho enjoativo que caracterizava a linha. Confesso que fui provar a bebida com um pé atrás, pois a memória gustativa eram daquela bebida demi-sec, acrescida de açúcar. Não era discurso, mudou-se a fórmula. Provei toda a linha: os brancos chardonnay, sauvignon blanc e riesling (safra 2010), o rosé cabernet sauvignon (2010) e os tintos cabernet sauvignon, merlot e tannat (safra 2009). A bela surpresa, para este blog, foram o branco chardonnay, sem madeira, bastante refrescante, boa fruta e características da varietal evidentes e o tinto merlot, macio na entrada, também com fruta fresca e fácil de beber. Preço médio: R$ 15,00.

Aurora

A linha varietal da Aurora é composta de sete rótulos. Os tintos cabernet sauvignon, merlot, pinot noir e carmenère; os brancos chardonnay e gewurztraminer e ainda um rosé de merlot. O cabernet sauvignon, envelhecido em barris de carvalho e um pouco mais encorpado, é o meu preferido: tem um bom corpo e creta presença na boca. Preço médio: R$ 17,00.

Salton

Na lista de bons e baratos já elaborada por este blog em outubro de 2008 o Salton Classic Tannat já merecia destaque. Correto, bem vinificado. Seu preço é imbatível (volta e meia está em ofertas em grandes lojas e supermercados), seus taninos  melhoram se acompanhados de um churrasquinho informal no clube. Em recente viagem à vinícola, a prova dos varietais merlot, cabernet sauvigon e tannat (ainda são comercializadas as brancas riesling e chardonnay) ratificou a preferência por esta uva emblemática do uruguai – de longe o mais prazeroso rótulo da linha. Preço médio: R$ 13,00

O que é bom para o Chile é bom para o Brasil

A aposta na qualificação destes vinhos básicos é importante e necessária para a indústria e para o incremento do consumo do vinho nacional. As gigantes chilenas Concha y Toro, Santa Rita e Santa Helena, por exemplo, têm no seu portfólio desde vinhos para grande massa até premiadíssimos rótulos badalados pela critica e disputados entre os especialistas. Da base para o topo, a qualificação é a melhor propaganda. Até por que, vamos combinar, elaborar vinho caro e bom é até uma obrigação. Prova dos noves é manter qualidade em larga escala e ainda tascar o nome no rótulo…

Crescimento em vendas

No Brasil, o mercado interno de vinho finos – aquele feito de uvas viníferas – vem ganhando musculatura e reagindo ao fraco desempenho dos dois últimos anos. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) apontam para uma retomada da indústria vitivinícola, com um crescimento de 26% no primeiro trimestre de 2010, ou seja não precisava da obrigação do selo fiscal, né? Só no Rio Grande do Sul –  cerca de 90% da produção nacional – foram comercializados 2,32 milhões de litros, o maior volume desde 2007.  Fica claro que é da base da pirâmide que virá esta alavancagem no consumo. Tanto melhor se a qualidade do que se bebe for melhor. Até por que, quem foi fisgado pelo mundo do vinho sabe muito bem, qualidade é um caminho sem volta, tanto para o consumidor como para a indústria.

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quinta-feira, 29 de abril de 2010 Nacionais | 12:51

Bem, amigos, agora Galvão Bueno também é vinho

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Galvão Bueno e Adriano Miolo no lançamento do Paralelo 31, na ExpoVinis: sucesso na feira

Galvão Bueno, o locutor mais assistido e comentado da TV brasileira, agora tem um vinho para chamar de seu. Para ser mais preciso, uma vinícola inteira. Trata-se da Bellavista Estate Bueno, localizada na região de Campanha, no extremo Sul do Rio Grande do Sul. A base do projeto está plantada, os vinhedos crescendo, o perfil do vinho definido, mas, como ele mesmo comentou, não dava para esperar cinco anos até que os primeiros frutos estivessem maduros e só então começar a colar seu nome em uma garrafa.”  O apresentador acalentava este sonho há muito tempo mas há cinco anos resolveu tocar a sério o projeto, e com auxílio de Adriano Miolo, enólogo e proprietário da vinícola de mesmo nome, encontrou o terreno, próximo dos vinhedos da Fortaleza do Seival, em Campanha.

Os primeiros rótulos lançados, o tinto Bueno Paralelo 31 e o espumante Bueno Couvée Prestige, são resultado de uma associação de sua incipiente vinícola com a consolidada Miolo Wine Group. O espumante usa as tradicionais chardonnay e pinot noir. O tinto é um corte de cabernet sauvignon (60%), merlot (30%) e petit verdot (10%). Galvão define esta parceria com uma frase de efeito: “O Adriano Miolo diz que se trata de um vinho elaborado a seis mãos: as minhas, as dele e a do consultor Michel Rolland. Mas eu digo que na verdade são quatro mãos, a dos dois enólogos profissionais, e um coração, o meu”.

Olá, amigos! Vai um vinho aÍ?

E como é o vinho afinal?

Quem tem acompanhado a assinatura Michel Rolland na Miolo já sabe o que vai encontrar. Cor bem escura, fruta madura, macio, toque de madeira. Um estilo novo mundo fácil de gostar, bem cuidado, um padrão atual dos vinhos de mais alta gama da Miolo.  Este é um caminho que o tinto nacional vem trilhando: uma bebida pronta e com um toque mais doce -  às vezes falta aquela acidez que era uma característica local, mas que também em excesso era um problema que deixava a bebida menos amigável.

Galvão Bueno apresentou seu vinho no estande da Miolo na terça-feira, 27 de abril, na feira internacional da ExpoVinis. Desnecessário dizer que ele roubou a festa. Era um gole do vinho e uma foto com os amigos, e inimigos, da Rede Globo. Galvão é um profissional da comunicação. Degusta um vinho como quem descreve uma musa. No lugar de frutas e flores traça paralelos com perfis femininos.

“Um merlot eu defino assim”, demonstra após tomar um pequeno gole do vinho: “Espetacular, uma beleza clássica, sensual, encantadora, mas no final da noite rende um mero suspiro.”

Já um cabernet sauvignon em sua visão teria a seguinte narrativa: “Esfuziante, agressiva, marcante, e, depois de 10 minutos, já está arranhando suas costas e falando no seu ouvido…”

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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 Nacionais | 14:54

Vinho de garrafão ou de mesa. Você já tomou?

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Você aí que hoje em dia não vive sem os seus tintos franceses, chilenos, italianos e brasileiros de boa cepa, já tomou um vinho nacional de garrafão, não é? Aposto que sim.

Atire a primeira rolha, ou tampinha de plástico, quem nunca provou um vinho de garrafão na vida. Mesmo que tenho sido nos tempos de grana e paladar curtos. Ele está presente em festas juninas (ou você acha que vinho quente é feito do quê?), misturado nas batidas com abacaxi na praia ou mesmo em reuniões estudantis, onde é servido no  gargalo e compartilhado como um cachimbo da paz. O fígado e o estômago na juventude são valentes.

Este é o vinho que o brasileiro bebe. Os números são claros. A produção de vinhos comuns no Brasil em 2008 foi de 287,44 milhões de litros, enquanto a de vinhos finos não passou de 47,33 milhões de litros. Para muitos consumidores o vinho de mesa é a porta de entrada – e frequentemente de saída – deste mundo. Vinho de mesa têm sua legião de apreciadores, que devem ser respeitados – vide as multidões que são arrastadas para grandes feiras temáticas no interior paulista e os vários comentários postados neste blog enaltecendo suas qualidades -, mas isso não significa que o vinho fino é uma evolução do vinho comum. Trata-se de outro patamar de fermentado de uva.

O Brasil não é exatamente um país com uma cultura de vinho estabelecida, com exceção de regiões como Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, onde algumas famílias produtoras trouxeram no século XIX a tradição do vinho. A identidade do vinho para o consumidor brasileiro, portanto, é mais um conhecimento e um gosto adquirido do que uma herança cultural e familiar. Um cenário diferente de partes da Europa, por exemplo.

Se existe algum arremedo de tradição e conhecimento genérico do vinho, ele se dá por sua vertente mais popular, barata e portanto acessível. O tal vinho de mesa também conhecido como suave. No popular, o vinho de garrafão, que a propósito já é vendido em versão tetrapack.  E aí, você já tomou? Vai encarar, já encarou?

É como água e vinho

A legislação brasileira classifica os vinhos nacionais em dos tipos: de mesa e fino. E eles são muito diferentes, apesar de levar o mesmo nome.

O vinho fino só pode ser produzido a partir das uvas da família Vitis vinifera, cepas geralmente de origem europeia – aquelas manjadas cabernet sauvignon, merlot, chardonnay, etc. Estas frutas são menores e com cascas mais duras que suas primas híbridas. São espécies mais exigentes e se comportam de maneira diferenciada de acordo com o terreno, clima, etc. Também exigem um cuidado maior em todas as etapas de produção, desde o plantio e colheita da uva até a guarda, o transporte e comercialização. Seu controle é mais rigoroso. Como a uva é a alma do vinho, quanto maior sua qualidade mais rico é o fermentado.

Já o vinho de mesa, ou suave, é elaborado com as chamadas uvas americanas, ou híbridas, da variedade Vitis labrusca ou Vitis bourquina. As mais conhecidas são isabel para as tintas e niágara para as brancas. O vinho de mesa parece um suco de uva que tomou um porre, um pouco enjoativo já no primeiro gole. É muito doce, e tem aroma de uva (no vinho fino esta é uma característica rara, encontrada em alguns fermentados da variedade moscatel). Além da diferença da família da uva, o tempo de fermentação é menor, seu suco não é envelhecido e o controle alcoólico é mais simples. Vinhos comuns normalmente não passam por avaliação de denominação de origem ou indicação de procedência, ou seja, têm menos controle de qualidade. A produção de cachos também é abundante. O resultado é um fermentado simples, um primo pobre e adolescente do vinho que não desenvolve potencialidades aromáticas e gustativas e tem dificuldades de se adaptar com o passar dos anos.

Vinho nacional não é só o de garrafão

Uma questão importante. Tratar o vinho brasileiro só pela régua do vinho de mesa, no entanto, é um jeito torto e preconceituoso de medir a qualidade dos tintos e brancos nacionais. A produção de vinhos finos no Brasil, apesar da predominância dos fermentados mais simples, surfou na onda da qualificação desde a década de 90, acompanhando um tendência do mercado mundial de substituição de uvas comuns por cepas viníferas, além de mudanças promovidas nas técnicas de plantio que impactam drasticamente na qualidade do que é engarrafado.

Vinho de mesa, di tavola e de table

Um esclarecimento final. Com certeza estas nomenclaturas podem gerar alguma confusão no consumidor habituado a rótulos de vários países. Afinal, há vinhos de mesa de outras procedências. É bom deixar claro que os homônimos vino di tavola, italiano, ou vin de table, francês, não pertencem à mesma família do vinho de mesa nacional. Esta classificação está na base da pirâmide dos vinhos destes dois países, mas eles são elaborados com uvas viníferas e podem ser boas opções para o dia a dia. Em alguns casos, podem até surpreender. Uma curiosidade: o cultuado Sassicaia, um supertoscano premiado e caríssimo (a safra 1996 pode chegar a 1.300 reais a garrafa!), tem associado ao seu nome no rótulo a classificação Vino di Tavola, uma provocação de seus produtores, já que o blend do vinho não obedece as regras de origem da região da Toscana, na Itália. Ou seja, não há nenhuma relação direta com uma classificação de origem ou de qualidade.

Pois é, nem tudo é o que parece ser no mundo do vinho…

Autor: Beto Gerosa Tags: , , ,

sexta-feira, 24 de abril de 2009 Nacionais, Novo Mundo, Tintos | 20:28

Churchill engarrafado

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Estou sempre disposto a aprender,
mas nem sempre gosto que me ensinem.

Winston Churchill

Um tinto elaborado com a uva cabernet franc, engarrafado num vasilhame de formato bordalês, etiquetado com um rótulo idêntico ao Romanée-Conti, elaborado por um americano no Brasil e com nome de estadista inglês. Contando assim,  parece mentira. Mas este vinho existe. Trata-se do Churchill Cabernet Franc 2006, um vinho potente,  amadeirado, com um tostado no estilo dos tintos do Napa Valley, da Califórnia, com muita fruta madura e de baixíssima produção (só 600 garrafas).

Propagada de forma viral, a safra de 2006 foi bastante comentada entre os poucos que tomaram seus goles. 2007 não teve. Para 2008 serão cerca de 1500 garrafas. Ainda é um universo pequeno, mas são estes achados que fazem o charme dos caçadores de novidades brancas e tintas. Para quem está sempre aberto a aprender, mas ao contrário do Churchill estadista aceita um sugestão com gosto, é uma boa aposta. Principalmente se o perfil dos tintos californianos for a sua praia.

Para apresentar a criatura, nada melhor do que o criador. O Blog do Vinho, depois de provar o vinho, foi ouvir o produtor. Com a palavra, Mr. Nathan J. Churchill:

Como surgiu a ideia de produzir um vinho no Brasil?
A ideia de investir no vinho brasileiro surgiu pelo contato e amizade com a Valmarino, eles têm um produto excelente, e ofereceram um pouco de seu vinho para eu experimentar com o uso de barricas.

Por que escolheu a uva cabernet franc?
O cabernet franc é uma uva tinta que se dá bem no Brasil, principalmente em Bento Gonçalves e particularmente em Pinto Bandeira, onde fica a vinícola Valmarino, do meu amigo e colaborador Marco Antônio Salton. Tive acesso a este vinho, estava muito bom, e achei que seria diferente. A uva já foi mais comum no Brasil, e acho que deveria ser mais explorada. Os cabernet franc da Valmarino consistentemente recebem as melhores notas no Brasil.

Quantas garrafas você produziu?
Foram produzidas duas barricas de vinho, portanto 600 garrafas. 2006 foi o primeiro ano. Ainda restam umas 200 garrafas (em São Paulo é vendida pela Enoteca Saint VinSaint). 2007 não houve. Para 2008 aumentei a produção para cinco barricas (1500 garrafas). O Churchill 2008 está há dois meses na barrica e está evoluindo bem, com bastante café e toffee. As barricas do 2008 são de 36 meses de secagem enquanto as do 2006 foram de 24 meses. A tostagem foi a mesma. A uva também. A nova vinificação do Marco Antônio, porém, proporcionou mais fruta.

Como funciona sua parceria com a Valmarino?
O Marco Antônio faz o vinho e me cede uma quantidade para elaborar nas minhas barricas. Eu não participo no cultivo. O processo de vinificação é feito na Valmarino. Para a safra 2006 o Marco Antônio adquiriu um novo tipo de tanque fermentador (de alta tecnologia) que dá resultados ainda melhores. Toda esta parte é feito pelo Marco.

O uso da madeira é muito marcante no Churchill. Era esta mesma a intenção?
O vinho Churchill surgiu de duas coisas. A primeira era minha frustração com o uso de barricas pelas vinícolas no Brasil. Minha empresa representa umas das mais conceituadas tonelarias do mundo, a Taransaud, e como vendedor de barricas eu sabia quanto agrega a barrica ao vinho. Em termos simples, a barrica aumenta exponencialmente a complexidade e qualidade do vinho. Por isso, praticamente todos vinhos top a nível mundial passam por barricas novas. Porém, no Brasil a prática de usar barricas novas não é usual – são sempre poucas barricas, misturadas com as de vários usos, para muito vinho. Eu queria ver pessoalmente se a barrica usada de forma “correta” faria também uma grande diferença no vinho brasileiro. Fiquei feliz em comprovar que a barrica faz a sua mágica aqui também.

A segunda coisa que eu queria comprovar ou verificar era o uso do carvalho americano no vinho. A Taransaud tem uma subsidiaria, a Canton, em Kentucky, EUA, que fabrica barricas exclusivamente com carvalho americano. A Canton usa a mesma técnica tradicional de secagem da madeira que a matriz na França (36 meses ao ar livre). O que se descobre é que o carvalho americano, que é mal visto no Brasil, quando bem trabalhado proporciona excelentes resultados (a um custo muito menor, diga-se de passagem).

O senhor esperava a crítica positiva que o vinho teve?
Quando provei a primeira garrafa eu achava que o vinho era bom. Fiquei muito surpreso e feliz com o entusiasmo nas degustações na SBAV (Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho) e depois em outras aonde o Churchill foi considerado o melhor vinho. Tenho muita sorte de trabalhar com o Marco Antônio, que me dá um excepcional vinho base para fazer a élevage nas minhas barricas.

É inegável que o rótulo do Churchill é uma referência à etiqueta do Romanée-Conti (veja fotos acima). Foi proposital?
Pois é… a ideia original era usar uma arte de um designer, porém ele estava com a agenda cheia e não pôde fazer um desenho para mim. Portanto, tive de fazer eu, e como sempre admirei os rótulos da Romanée-Conti, La Tache e seus companheiros (leia entrevista com o produtor Aubert de Villaine ), resolvi fazer algo parecido. Para 2008 o rótulo vai mudar um pouco. Para melhor, espero.

O Churchill é um vinho de  guarda?
Pergunta difícil.  Preparei o vinho para ser guardado. Como eu não sabia se iria vender ou se ficaria com 600 garrafas para meu próprio consumo, utilizei uma rolha especial para vinhos de guarda: a rolha francesa Diam (100% isento de TCA). Gostaria de ter utilizado o screw-cap de alumínio, porém não existem garrafas no Brasil para esta embalagem.
A evolução depois de 15 meses na garrafa tem sido muito positiva. O veredicto sobre a guarda do cabernet franc é dividido. Alguns franceses melhoram, enquanto uns californianos nem tanto. Eu não recomendaria guardar o Churchill por muito tempo em altas temperaturas (fora de uma adega climatizada), porém, a uns 14 graus acredito que vai continuar melhorando até 2012. O tempo dirá. O vinho está muito bom agora. Se fizer um churrasco, recomendo tomar em vez de guardar.

Por que o preço inicial da garrafa, 32 reais, aumentou para cerca de 68 reais?
Gostaria que o preço fosse mais baixo, porém se tivesse deixado no preço original teria vendido todas as 600 garrafas na primeira semana.

Qual sua avaliação do vinho nacional?
O Brasil é um lugar ideal para produzir vinhos excepcionais e únicos, exatamente por ser fora da rota de exportação de vinhos globalizados.  Como nós não exportamos muito, não temos sofrido pressão para fazer um vinho que agrada ao consumidor americano, inglês ou holandês. É um dos poucos lugares aonde ainda existem vinhos autênticos. E temos também o nosso terroir. O produtores brasileiros são verdadeiros heróis, pois os insumos custam o dobro do preço mundial, fora outras complicações de todo tipo.
Há excelentes vinhos aqui, principalmente aqueles de Bento Gonçalves e da serra Santa Catarinense. Gosto dos vinhos da Valmarino, Salton, Villa Francioni. Acho que o 130 da Valduga é o melhor espumante nacional.

O espumante é mesmo o melhor vinho brasileiro?
O Brasil tem uma vocação natural para espumantes. O clima favorece tanto a produção das uvas como o consumo do vinho em si. A meu ver, os espumantes do Brasil só perdem para os franceses (champagne).
É uma oportunidade fantástica. O espumante pode ser tomado no calor que é muito refrescante, e já existe o hábito do balde de gelo à mesa com a cerveja.Com um pouco de marketing tem tudo para crescer muito.

E os tintos verde-amarelos?
Quanto aos tintos, não é fácil. Algumas safras são boas e outras mais complicadas. As boas estão se tornando mais comuns, talvez pelas mudanças climáticas.

Conte-me um pouco sobre o senhor.
Sou norte-americano e resido continuamente no Brasil desde 1987. O nome Churchill vem da Inglaterra, porém minha família está há 13 gerações nos EUA. Antes de chegarem na Inglaterra, os Churchills vieram da França. Conheço razoavelmente bem Napa (Califórnia) devido a alguns projetos que tive lá.  Admiro muito o vinho americano. Embora caro, a qualidade é alta.

Seu amigos americanos já provaram o Churchill?
Sim, meus amigos e família já provaram o Churchill.  Quase todos gostaram, com a exceção da minha mãe.
(Nota deste blog: espero que a safra 2008 agrade a mãe de Nathan Churchill: crítica negativa de mãe ninguém merece, não é não?)

Notas relacionadas:

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Autor: beto gerosa Tags: , ,

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