Blog do Vinho, por Roberto Gerosa: harmonização, degustação e dicas – iG

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domingo, 12 de maio de 2013 Blog do vinho, Velho Mundo | 22:15

Vinhos do bem: leilão de rótulos raros da Apae acontece dia 21 de maio

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O tema vinhos caros e raros costuma vir associado a todo tipo de preconceito: esnobismo, exibição de riqueza e desperdício de dinheiro, um fosso – mais um – que se constrói entre os apreciadores assalariados e os degustadores abonados. É inegável, o assunto exerce fascínio e crítica. Mas os rótulos exclusivos são um fetiche de consumo. Ou você se negaria provar um Mouton Rothschild 1995 ou um Cheval Blanc 1961, a despeito do preço e da suas convicções ideológicas?

Mas o tema vinhos raros e caros também pode ser do bem. Neste caso, pela sexta vez, os vinhos de “patrão e de madame” servirão a uma causa nobre.

No 6º Leilão de Vinhos da Apae – Associação de Pais Amigos dos Excepcionais de São Paulo – rótulos diferenciados e reverenciados serão leiloados para arrecadar recursos aos projetos da instituição que beneficiam milhares de pessoas com deficiência mental. Trata-se de uma receita importante para a manutenção de seus projetos. A Apae arrecadou nos anos de 2011 e 2012, com os leilões de vinhos,  2,5 milhões de reais.

O crítico e consultor de vinhos Jorge Lucki é responsável pela curadoria dos rótulos, o que garante a qualidade e procedência dos vinhos, que são checados pessoalmente por ele. Além de ajudar na seleção das garrafas, ele ajuda a angariar algumas joias  raras de importadoras e colecionadores. Entre os vinhos que serão leiloados este ano Lucki  destaca alguns rótulos que já estão fotografados para o catálogo e devem ser motivo de disputa entre os participantes:

Da França

Mouton Rothschild das safras 1995, 1996 e  1976; Petrus 1993; Cheval Blanc 1961;

De Portugal

Barca Velha 1991; magnum de Pintas e de Quinta da Manuela

Da Espanha

Vega Sicilia Único 2002;

Do chile

Double- magnum de Almaviva 2004

Quem quiser se juntar aos empresários e personalidades que participarão do jantar e leilão de vinhos raros da Apae pode entrar em contato pelos telefones e email abaixo. O leilão será dia 21 de maio e ainda há reservas de mesas disponíveis. O evento será conduzido pelos apresentadores globais Carlos Tramontina e Maria Cândida e pelo leiloeiro Renato Moysés.

Você pode ainda ajudar fazendo doções de vinhos de safras raras que eventualmente tenha em casa, ou mesmo indicando quem possa colaborar, contatando Linda Rodrigues ou Paula Garcia pelos telefones (11) 5549-4138 / 5080-7066

O apelo da Apae está impresso em seu convite para reservar sua mesa: “O prazer de degustar com o coração”

SERVIÇO

6º Leilão de Vinhos da Apae

21 de maio, 20h

Espaço JK Iguatemi

Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, Vila Olímpia, São Paulo

Telefone para reserva: (11) 5549-4138/5080-7090/5080-7066

Email: leilaodevinhos@apaesp.org.com

Autor: Beto Gerosa Tags: , ,

quarta-feira, 8 de maio de 2013 Blog do vinho | 09:30

Como escolher o vinho certo para a sua mãe

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Presente para o dia das mães. Perfume? Sapato? Bijuteria? Roupa? Outra vez? Liquidificador, batedeira,  microondas? Nem pensar, é o dia das mães e não da casa da mãe. Ô pensamento machista! Por que não um vinho? Parece presente do dias dos pais? Machista de novo. Só é válido se você ainda vive no século passado, em que um Muro de Berlim separava os homens das mulheres nas festas de casa (as mães na sala e os pais em volta da mesa), nos cargos nas empresas e até na escolha dos presentes (bebidas para eles, perfumes e enfeites para elas).

As mulheres bebem – e muito – vinho. São a maioria em cursos de vinho, selecionam cartas de vinhos de restaurantes, são enólogas famosas, jornalistas especializadas e brindam com suas amigas e amigos com tintos, brancos, espumantes e fortificados tanto quanto os homens: para fechar negócios, para comemorar uma data, para engatar um relacionamento ou apenas por prazer. E mais do que tudo isso, também decidem na boca do caixa qual vinho comprar.

Partindo do princípio que sua mãe é uma mulher, e uma mulher de seu tempo, resta agora descobrir qual o vinho que se encaixa com seu gosto ou sua personalidade. Assim como o Blog do Vinho sugeriu o vinho ideal para seu pai, aqui  vão as dicas para escolher o vinho certo para cada tipo de mãe.

Para todas as mães

Vamos começar por um tipo de vinho que agrada toda mulher: o espumante. As borbulhas são um acerto para todo tipo de mãe. Espumante, champanhe, cava, o que for, é o espírito da bebida, de celebração, que combina com a sua, com a minha, com todas as mães. Se a grana está mais curta, há ótimos espumantes nacionais (Cave Geisse, Salton, Miolo, Casa Valduga, Aurora, Chandon), se sobrou mais grana este mês e você quer agradar a progenitora, o mercado está repleto de champanhes com certificação de qualidade ou cavas com origem de procedência, como a Raventòs, Codorníu e Freixenet.

Para a mãe alternativa

Sua mãe é daqueles que ainda usam uns colares meio estranhos, umas batas coloridas, calças largas de algodão cru e recentemente tatuou uma mandala no punho? Talvez defenda a volta à simplicidade dos campos e apoia qualquer compromisso ambiental e… não fale agora que está na hora da meditação. Vinho não é só bebida, também é alimento natural e pode ser produzido e elaborado sem aditivos químicos, livre da contaminação de pesticidas e sem passar por processos de filtragens ou de qualquer maquiagem. Trata-se de uma agricultura orgânica que respeita o ecossistema. Os vinhos biodinâmicos radicalizam ainda mais a proposta e acreditam na influência das forças cósmicas no processo. Sua mãe terá em um vinho biodinâmico a expressão de sua  filosofia de vida em forma líquida. Os bios são mais puros, uma fruta mais franca, às vezes mais rústicos, mas sempre originais. Você encontra vinhos biodinâmicos de vários países, mas os exemplares mais representativos estão na Europa, em especial na região da Alsácia, na França.

Para a mãe que está começando a se interessar por vinhos

Mamãe começou a se interessar por vinhos. Dizem até que é leitora assídua deste Blog, consulta as cartas de vinho dos restaurantes, fez um curso na ABS de sua cidade, na loja de vinhos e já sabe diferenciar um cabernet sauvignon de um pinot noir. Está esperando o quê? Ele quer mais é ganhar um vinho neste dia das mães para poder exercitar seus novos conhecimentos. A dica aqui é partir para vinhos de preço médio (até 60 reais), que já trazem a tipicidade da uva, a origem de sua região e aromas e sabores mais reconhecíveis. Vinhos da Argentina, Chile, Brasil, Uruguai e até Portugal podem resolver a parada. Procure aquelas vinícolas mais conhecidas, que se não vão surpreender pelo menos vão decepcionar.

Para a mãe conhecedora de vinho

O que parece óbvio – mamãe curte e entende de vinho, vamos dar uma garrafa de presente – nem sempre é fácil. Mãe é mãe e qualquer vinho argentino barato de supermercado – seleção reserva especial do sommelier, por exemplo – será recebido com um amplo sorriso. O mesmo, aliás, que ela usa ao cumprimentar o seu companheiro ou companheira no primeiro encontro. Mas provavelmente não vai usar nem para molho. Vamos ser realistas. Você dispõe de algum dinheiro a mais? Quer gastar menos de 150 reais no vinho? Provavelmente não vai agradar. Dá uma espiada na adega materna, ali há dicas preciosas do tipo de vinho que ela aprecia. Se o padrão for muito alto, esqueça o vinho e parta para um produto relacionado. Um bom livro sobre o tema ou um decanter bacana não vão fazer feio. Mas não vá escolher um daqueles livros com 100 dicas nerds para começar a beber vinho, certo?

Para a mãe superprotetora

É quase um pleonasmo, não? Todas elas são de alguma forma superprotetoras, principalmente as dos tipo anedotários, como as mães judias, as italianas, as do interior e até as armênias de novela. Elas são superlativas em tudo, na preocupação, no carinho, no sofrimento e principalmente na comida. E para harmonizar alimentação em quantidade com vinho em profusão uma boa indicação é uma embalagem de maior volume e preço reduzido. Um bag-in-box – aquelas embalagens de 3 e 6 litros, com um revestimento que preserva o vinho e uma torneira que libera a bebida – é a melhor pedida. Ainda não é muito comum no Brasil – na Austrália seu uso é corriqueiro para o vinho do dia-a-dia – mas há exemplares nacionais (Alto Vale, Dal Pizzol, Casa Valduga, Dom Candido, Miolo), portugueses (Paulo Laureano) e claro australianos (Banrock Station) à venda.

Para a mãe empreendedora

Sua mãe é um símbolo da mulher moderna, o tipo que chegou ao topo das empresas, que se arriscou em carreiras estressantes e que fica dividida entre a família e os negócios. Enfim, é uma negociadora por excelência e uma tomadora de decisões. Ela decide, inclusive, o vinho em um almoço de negócios. Acho que não erra muito quem escolher dois tipos distintos de tintos para este tipo de måe: um clássico da elegância e da finesse, um pinot noir 1er Cru da Borgonha; ou seu concorrente direto mais famoso, um representante dos grandes châteaux de Bordeaux, um  Grand Cru  de estilo potente e intenso.

Para a mãe que será mãe

Atenção maridos, vão se acostumando. Até uma certa idade quem compra o presente do dias das mães da sua mulher é você mesmo. Então, que tal começar agora, que o descendente está na barriga? Escolha um vinho do ano que agrade o casal e principalmente que tenha potencial de guarda. As lojas e os sites especializado saberão indicar. Guarde este vinho em local adequado e quando ela ou ele completar 18 anos, vocês poderão curtir juntos o vinho do ano do nascimento. E se você acha que dezoito anos é muito tempo, vai perceber daqui um tempo que passa voando…

Para a mãe dedicada aos filhos

Ela tinha uma carreira, um emprego e outros objetivos na vida mas resolveu se dedicar aos filhos. Amiga de todas as horas e confidente. Uma mãe 100% mãe. Se o conceito de mãe coragem era aquele da peça de Bertold Brecht, da mãe sofrida que perdia os filhos para a guerra, hoje em dia mãe coragem é aquela que assume o papel de mãe integral pelos filhos sem abandonar seu papel de mulher. Merece uma adega recheada, no mínimo um jogo completo (espumante-branco-tinto-sobremesa). Para começar um bom champanhe rosé, nos brancos um sauvignon blanc aromático da região de Casablanca, no Chile, e um chardonnay mais  com passagem em barrica de Mendoza, na Argentina. Para os tintos, um perfumado e potente touriga nacional do Douro, em Portugal e um merlot da Serra Gaúcha. Para finalizar com um late harvest (colheita tardia) que lembre mel e flores.

Para a mãe heavy metal

Já se sua mãe não abandonou a jaqueta de couro, tem um dragão vermelho tatuado no braço, usa um anel de caveira, curte toda banda alternativa e barulhenta que aparece no Youtube e tem um acesso de fúria quando ouve um sertanejo universitário, tem vinho para ela também. Sua mãe é heavy, merece um tinto idem. Nos Estados Unidos é mais fácil, há rótulos de bandas metal AC/DC, e varietais como o MotorHead Shiraz. Por aqui, mesmo com a carência de rótulos à caráter, sua mãe vai delirar com vinhos mais tânicos,  intensos, quase mastigáveis como um robusto cabernet sauvignon chileno, um shiraz/cabernet australiano, um  malbec bem alcoólico argentino e principalmente um tannat pedreira uruguaio, daqueles que seca a boca. Yeah!

Para a mãe que resolveu sair do armário

Sua mãe começou a dar sinais que aquela amizade com a colega do curso de vinhos era mais intensa que os aromas de um Borgonha e tinha uma pegada mais forte que um Porto Vintage. Vive esgoelando no chuveiro “O canto desta cidade sou euuuu” e finalmente resolveu assumir sua sexualidade plena. Pode ser difícil para você, ou não, depende até da educação que sua própria mãe lhe deu. Mas ela merece um brinde por sua coragem, não? Eu entraria no clima e escolheria um vinho menos usual, de regiões pouco  conhecidas, elaborados com uvas nativas, para celebrar a diversidade também na escolha das uvas. Vinhos da Córsega de uvas autóctones como sciaccarella, niellucciu, ou da Eslovênia, como o branco ribolla gialla ou o tinto da Croácia da uva plavac mali. E viva a diversidade!

Para a mãe que já é avó, para a minha mãe

Vinho do Porto? Que bom, benzinho!

Sua mãe já é avó, já viu de tudo, a idade lhe trouxe a bagagem de uma vida e também algumas limitações que ela enfrenta com sabedoria – e paciência. Se sua mãe é igual à minha, ela sempre tem uma visão otimista da vida, um sorriso nos lábios e uma fé inabalável nas pessoas. Minha mãe. Maria do Rosário, tem 85 anos e, claro, adora um vinhozinho. Tem uma queda pelos fortificados, os portos em especial. Traz lembrança de seu pai – o vinho do Porto já foi muito consumido no Brasil República -, adoça o paladar e esquenta um pouco a alma. É quase um “confortwine”, que acolhe e alegra. Sua visão altruísta é tão forte que se a taça de Porto for derrubada ela prontamente terá duas respostas prontas, precididas de um expressão Poliana “Que bom, benzinho”: a) se era a última dose, era um sinal que estava na hora de parar de beber; b) se há mais Porto na garrafa, era por estava na hora de reforçar a dose. Para sua mãe que já está na terceira idade e para minha mãe que é quase velhinha (como ela diz), o vinho perfeito é o Porto, nas suas versões Ruby, Tawny e Vintage. Pois qualquer que seja sua mãe, igual à minha – ou totalmente diferente –  ela sempre será uma influência que definirá sua existência e merece um brinde no dia das mães, e em todos os outros dias.

Notas relacionadas:

  1. Quinze sugestões para aproveitar melhor o vinho em 2011 (parte 2)
  2. Quinze sugestões para aproveitar melhor o vinho em 2011
  3. Vinho na praia: vende pouco porque é muito caro ou é muito caro porque vende pouco?
Autor: Beto Gerosa Tags: , , , , ,

quarta-feira, 24 de abril de 2013 Degustação, Espumantes, Nacionais, Novo Mundo, Porto, Rosé, Tintos, Velho Mundo | 09:00

Os homens que cospem vinho elegem os onze melhores vinhos da ExpoVinis 2013

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Onde foi parar todo mundo?

Um incauto que invadir uma sala de degustações de um concurso de vinho após uma prova vai deparar com uma visão parecida com a da foto ao lado. Inúmeras taças com bons mililitros de vinho e baldes cheios da bebida. Se tiver a oportunidade de observar, momentos antes, os jurados provando os tintos, brancos, espumantes e fortificados acompanhará um festival de giradas de taça, fungadas, bochechos, caretas de desagrado alternadas com suspiros de aprovação, e finalmente cusparadas leves e elegantes (se é que isso é possível) do vinho em copos de plástico que em seguida serão entornados em baldes maiores. Qual o pensamento que passará por sua cabeça? “Este povo não gosta de vinho!” Na verdade, estão em pleno trabalho Os Homens que Cospem Vinho e sua função nesta sala é escolher os dez melhores vinhos da ExpoVinis 2013– 16º edição da feira mais importante de vinho da América Latina -, no tradicional concurso Top Ten, que tenho a honra de ser convidado pelo sexto ano como jurado (perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem…).

E eles (nós) não bebem todo aquele vinho disponível por um motivo muito simples: são 224 amostras em dois dias, ninguém sobreviveria para contar o final da história. Os doze jurados se reúnem para escolher um vinho de consenso que vai para o trono de cada uma das dez categorias do concurso. Este consenso é resultado das anotações e notas de todos os jurados que somadas chegam a uma média ponderada e ao fermentado campeão.

Este ano os organizadores decidiram dar mais espaço ao vinho nacional e dividiram a categoria “Tintos Nacionais” em duas: os representantes da “Serra Gaúcha”, que produzem cerca de 80% dos tintos do país, e “Outras Regiões”, fruto do potencial de novas áreas vinícolas do Brasil. O Top Ten de 2013, por uma questão de empate na categoria Velho Mundo, acabou elegendo onze vinhos. Abaixo a lista dos vencedores em cada categoria.

Os campeões: 11 vinhos, 12 jurados e nenhum segredo

Vencedores do TOP Ten 2013

ESPUMANTE NACIONAL – total de 13 amostras

Villaggio Grando Espumante Brut Rosé 2012

Região: Água Doce, Santa Catarina

Uvas: pinot noir e merlot

ESPUMANTE IMPORTADO – total de 11 amostras

Aida Maria Rosé Brut Reserva 2007

Região: Douro, Portugal

Uva: touriga nacional

BRANCO NACIONAL – total de 19 amostras

Da’divas Chardonnay 2012, Lidio Carraro

Região: Terras da Encruzilhada do Sul, Rio Grande do Sul

Uva: chardonnay

BRANCO IMPORTADO – total de 30 amostras

Casas Del Bosque Sauvignon Blanc Reserva 2001

Região: Casablanca, Chile

Uva: sauvignon blanc

TINTO NACIONAL  SERRA GAÚCHA – total de 15 amostras

Perini Quatro 2009

Região: Vale do Trentino, Rio Grande do Sul

Uvas: cabernet sauvignon, merlot, tannat, ancellotta

TINTO NACIONAL OUTRAS REGIÕES – total de 14 amostras

Pericó Basaltino Pinot Noir 2012

Região: São Joaquim, Santa Catarina

Uva: pinot noir

ROSÉ – total de 6 amostras

Maquis Rosé 2012

Vale Aconchágua, Chile

Uva: malbec

TINTOS NOVO MUNDO – total de 32 amostras

Vistalba Corte A 2009

Região: Mendoza, Argentina

Uvas: cabernet sauvignon, malbec

TINTO VELHO MUNDO – total de 70 amostras

Santa Vitoria Grande Reserva 2008

Região: Alentejo, Portugal

Uvas: touriga nacional, cabernet sauvignon,  syrah

Sacagliola Sansì Selezione Barbera d’Asti 2009

Região: Piemonte, Itália

Uva: Barbera

DOCES E FORTIFICADOS – total de 14 amostras

Quinta Do Noval Porto Tawny 40 Anos

Região: Porto, Portugal

Uvas: tinta barroca, tinta roriz, touriga francesa, touriga nacional

Todos os vinhos estão expostos na ExpoVinis 2013, que vai abrigar mais de 400 expositores nos dias 24, 25 e 26 de abril no pavilhão azul da Expo Center Norte em São Paulo (veja ficha abaixo)

O nomes dos culpados pela eleição dos onze vinhos acima

Presidentes de mesa

Hector Riquelme – sommelier chileno

Mario Telles Jr -  ABS-SP

Jurados

Jorge Carrara – Prazeres da Mesa

Marcio Pinto – consultor e ABS-MG

Celito  Guerra – Embrapa

Beto Gerosa – Blog do Vinho

Gustavo Andrade de Paulo – ABS-SP

José Luiz Paligliari – Senac

Ricardo Farias – Sbav Rio de Janeiro

José Luis Borges – ABS-SP

Diego Arrebolla  – sommelier grupo Pobre Juan

Manoel Beato – sommelier grupo Fasano

Leia também: Como funcionam as degustações nos concursos

Todas as cores

E os vinhos eram bons?

Quando o painel é tão diverso e com tantas categorias a qualidade varia na mesma proporção do volume oferecido. Vale lembrar que o concurso é sempre às cegas, não sabemos o que estamos bebendo, apenas a categoria. Há grandes disputas entre bons vinhos que se afunilam numa espécie de tira-teima entre os melhores, há categorias que um rótulo se sobressai sobre os demais dada a sua superioridade – um Tawny 40 anos por exemplo é uma covardia – e outras que a média é muito parecida. Em Tintos do Novo Mundo, por exemplo, haviam exemplares com taninos (aquela sensação de adstringência que seca a boca mas é importante na estrutura e envelhecimento dos vinhos) tão agressivos que quase saí da sala e fui abrir um Boletim de Ocorrência. Claro, eram mais de 30 amostras, aparece de tudo. Os tintos nacionais apresentaram uma boa média e sempre surgem novos rótulos que acabam surpreendendo. Estas descobertas são uma das belezas de participar de um concurso desses. Curiosa superioridade dos espumantes rosés no resultado final. Eu gostei da escolha! Os brancos são menos prestigiados pelos produtores e poucos rótulos são enviados, o que prejudica a avaliação. Ah, importante, cada expositor tem direito a enviar dois vinhos na categoria que escolher. São estes os vinhos avaliados e não todos os vinhos da Expovinis, obviamente.

A prova acabou, mas sobrou vinho na taça

Mas dá para avaliar um vinho sem engolir?

Sobre a quantidade de vinho servida para o teste:

Aconselha-se a colocar na boca um volume pequeno de vinho, de cerca de 6 a 10 mililitros. (…) O volume utilizado deve ser sempre o mesmo para cada vinho, caso contrário torna-se impossível qualquer comparação rigorosa. (…) O copo de degustação deve ser simples, com capacidade de cerca de 200 mililitros, sem floreios, de paredes finas, sem cheiro de guardanapo nem de pano de prato. O copo normatizado pelo INAO-AFNOR e suas variantes é muito apropriado. O líquido a um terço de sua capacidade permite leve agitação necessária para liberar as moléculas odoríferas do vinho

Sobre cuspir o vinho nas degustações

Geralmente o degustador, ao longo dos exercícios profissionais, cospe o mais completamente possível o trago de vinho. Não é que a degustação seja melhor quando o vinho é expelido, ao contrário, aliás. Mas, evidentemente, seria impossível para o provador beber sem prejuízo alguns tragos dos dez ou trinta vinhos que frequentemente ele degusta numa mesma seção (…) Algumas pessoas estão convictas de que, se não engolirem, não terão nenhuma sensação; situam na “garganta” o centro da degustação por que, na verdade, elas engolem diretamente mas não degustam.

SERVIÇO

ExpoVinis 2013 – site oficial

DATA
24, 25 e 26 de Abril de 2013

LOCAL
Expo Center Norte – Pavilhão Azul
São Paulo – SP – Brasi

HORÁRIOS
24 de Abril
Profissional → 13h às 21h

25 de Abril
Profissional → 13h às 21h
Consumidor → 17h às 21h

26 de Abril
Profissional → 13h às 20h
Consumidor → 17h às 20h

PREÇOS

Entrada com direito a uma taça de cristal: R$ 70,00 (Valor de 3º lote)
Entrada estudante sem taça: R$ 35,00 (Valor de 3º lote)
Taça Avulso: R$ 30,00

Notas relacionadas:

  1. Os Top Ten da ExpoVinis 2010
  2. Infográfico: como são feitos os vinhos brancos e os vinhos tintos
  3. Concurso elege os dez melhores vinhos da Expovinis 2011
Autor: Beto Gerosa Tags: , , , , , , ,

quarta-feira, 17 de abril de 2013 Degustação, Novo Mundo, ViG | 14:30

Felipe Tosso, o “cozinheiro” dos vinhos chilenos Grey, comemora dez safras, explora novos terrenos e lança rótulos

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Cachos de uva prontos a serem colhidos em Apalta, Vale do Colchagua

É tempo de colheita no Chile. As parreiras estão repletas de cachos de uvas. Felipe Tosso, o enólogo-chefe da Viña Ventisquero, caminha pelos vinhedos da região de Apalta, e seleciona uma uva da variedade syrah de cada planta. São dez frutas que ele traz até a boca e cumpre um ritual:  mastiga sempre doze vezes e assim verifica a qualidade da uva, o tanino, a doçura. Coloca uma gota nas costas da mão e assim checa a coloração. Com este método artesanal, que se repete várias vezes durante o período de colheita, Tosso e seus viticultores acompanham a evolução dos vinhedos e determinam o momento certo para levar as uvas para a adega. A partir daí começa o processo que vai transformar as uvas de uma determinada parcela do terreno no vinho premium chileno Grey, que completa dez safras este ano.

Receita do vinho: pegue 10 uvas de plantas diferentes, mastigue doze vezes e prove

“Fazer vinho é como cozinhar”, ele compara, “eu prefiro provar, ter a experiência  várias vezes e assim estabelecer um padrão de qualidade.” A diferença, segundo Tosso, é que enólogos são chefs de cozinha que elaboram apenas um prato por ano. “Eu faço vinhos desde os 24 anos. Se eu continuar na profissão até os 74 anos no máximo vou trabalhar com 50 safras em minha vida”, calcula. Ou seja, a receita não pode dar errado.

A associação com a culinária continua na avaliação dos melhores terrenos para os vinhedos: “As plantas precisam de oxigenação e encontrar coisas distintas no solo: argila, minerais, pedras, nutrientes, salinidade para produzir vinhos mais complexos.” É o mesmo efeito de uma alimentação variada para nossa saúde. “Um solo simples não é capaz de gerar vinhos complexos, nem uma alimentação pobre satisfaz uma pessoa saudável”, conclui.

E esta é a missão de Tosso: encontrar os solos mais adequados, dividir em parcelas e definir quais as uvas que alcançarão os melhores resultados naquele pedaço de terra. Claro que as escolhas – e principalmente o investimento – não são baseadas apenas provando as uvas no pé. Há muita tecnologia envolvida. Um estudo profundo e um posterior mapeamento por satélite analisam a estrutura do solo, declives e drenagens.  No total, são 905 hectares de vinhedos, distribuídos em várias regiões do Chile, divididas em parcelas específicas pare cada uva, como mostram os mapas abaixo. São elas: Leyda, Apalta, Casablanca, Vale do Colchaga (Lolol), e Trinidad, no Vale do Maipo.

As parcelas, ou lotes, de Apalta

A divisão dos vinhedos de Leyda em block

O início do Grey

A  linha premium da Ventisquero, a Grey, surgiu da percepção da qualidade das uvas colhidas nos vinhedos. Os enólogos decidiram reservar aquelas parreiras e separar em lotes e parcelas,  ou blocks como eles chamam, as uvas cabernet sauvignon, merlot, carmenère e syrah. Este foi o princípio que estabeleceu o conceito que define a linha Grey: as uvas sempre pertencem a uma única parcela, de diferentes regiões, aquelas que apresentam a “melhor alimentação” para cada uva. Nesta busca do melhor terreno, clima e diversificação, Tosso e sua equipe exploram as capacidades de solos adquiridos recentemente, como de Leyda, onde a colheita, em abril, é realizada sob o frio, e a temperatura se altera nos limites do vinhedo – quanto mais próximo do mar (estão a 6 quilômetros do Pacífico) mais frescor.  Para batizar o vinho, enfim,  buscou-se inspiração nas geleiras chilenas da Patagônia, o Glaciar Grey.

A primeira produção dos rótulos Grey foi colocada à venda em 2003. Em 2004, a Ventisquero convida o enólogo australiano John Duval para prestar assessoria à vinícola. Este enólogo premiado foi responsável, por 29 anos, pelos rótulos mais especiais da Penfold’s, como o Grange e Don Ditter, e atualmente está à frente de um projeto próprio em Barossa Valley que leva o seu nome, John Duval Wines.  O australiano e Felipe Tosso cuidam em parceira da criança, desde então. Todos os anos são enviadas em julho amostras de vinho que estagiam 14 meses em barricas novas para a Austrália e Felipe Tosso passa cinco dias em companhia do seu colega para chegar à mescla ideal de cada varietal Grey. Assista ao vídeo abaixo onde Tosso conta esta história.

“A princípio eles eram mais tânicos, crus e com muito corpo, como um vinho chileno tradicional. Mas John e eu fizemos muitas viagens que me permitiram entender melhor a concepção do vinho e aprimorá-lo”, conta Tosso. Também colaborou para a mudança do perfil dos vinhos o nascimento da primeira filha de Felipe Tosso, Florência. “Quando ela nasceu meu paladar mudou”. Provando hoje as primeiras e últimas safras do Grey esta mudança é muito clara e fácil de perceber. Os vinhos foram se alterando, o estilo foi se afinando e Felipe Tosso teve mais três filhas.

A voz do vinho

OS vinhedos de Apalta da Ventisquero

Este colunista teve a oportunidade de provar várias safras da linha Grey na companhia de Felipe Tosso em um cenário que melhora qualquer bebida: em meio aos vinhedos da Ventisquero em Leyda e Apalta. A foto ao lado não me deixa mentir. Degustamos cinco safras de Grey cabernet sauvignon, merlot, carmenère, syrah e provas de tanque de lançamentos mais recentes como chardonnay e pinot noir. Para tirar a prova dos noves reforcei a experiência comprando em lojas brasileiras algumas amostras do Grey 2009 e abri algumas garrafas em casa, num ambiente menos contaminado com o deslumbramento do lugar.

Tosso divide a degustação profissional em dois tipos “Os sommelliers (e críticos) são descritivos, se preocupam em traduzir os aromas e gostos. Já os enólogos, com seu viés profissional, procuram os defeitos no vinho”. Os consumidores, por sua vez, procuram o prazer, que  é o resultado da busca da excelência do enólogo validada pela opinião do sommelier, que acaba ajudando a desenvolver o mercado. É sob este ponto de vista, do prazer, que são baseadas as impressões desta coluna. Mas como é preciso usar palavras para descrevê-los, às vezes a gente cai no lugar comum das frutas maduras, taninos macios e outros dialetos que exprimem alguma boa qualidade, me perdoem.

Aqui começa o trabalho sofrido de provar todos estes vinhos

A prova vertical – quando várias safras de um mesmo vinho são desarrolhadas – é muito didática. A mudança dos vinhos na taça é explicada pelo enólogo Sergio Hormazábal, o homem dos tintos da Ventisquero. “As safras são do mesmo block (ou lotes), mas há quatro fatores fundamentais que determinam as mudanças na taça:  o conceito do enólogo que mudou seu estilo; a idade das parreiras que aumenta a qualidade das uvas; o clima de cada ano que afeta as características da safra e finalmente o tempo de envelhecimento na garrafa.

Primeira constatação: a velha retórica de que a melhores safras do Chile são em anos ímpares já não é mais válida. “Até 2004 eram anos mais frios. Mas a partir de 2006 temos anos pares mais quentes, e de ótima qualidade”, ressalta Tosso. Outra constatação comum a quase todos vinhos: ele perdeu potência e ganhou elegância. O álcool elevado, em torno de 14% a 14,5% nos vinhos, não é percebido sempre. Na média as novas safras  são mais gastronômicas, com bom equilíbrio de acidez e taninos, e prontos e gostosos de beber. Acho que além de uma decisão do enólogo é uma  onda que atende novas demandas do consumidor, após tantos anos de domínio de madeira, potência, fruta muito madura e doce e pouca acidez (toc-toc-toc). Todos os vinhos têm muito tanino, por isso ficam 18 meses no barril. “Não precisava, mas mantemos todo este tempo para chegar na garrafa mais polido, mais pronto, para domar os taninos”, explica Tosso. Por fim, os caldos não passam por filtragem nem clarificação (processos de limpeza dos vinhos), o que os torna mais puros e eventualmente deixam resíduos na garrafa, o que não é nenhum problema.

Carmenère Grey (Glacier) Single Block

Região Trinidad, Vale do Maipo, lote número 5.

No blend atual, predomina a carmenère com mais de 90% na composição. São adicionados toques de cabernet sauvignon e petit verdot que amaciam o vinho e dão estrutura ao bichão.

Passam 18 meses de barrica francesa (33% barricas novas)

Confesso uma coisa. Tenho uma certa implicância com a uva carmenère. Por conta da sua identificação com o Chile é uma variedade explorada sem muita cerimônia e com resultados às vezes tristes. Aqui eu tive uma boa surpresa. Das safras 2004, com aquele pimentão verde, fruta bem madura e uma evolução que aprofundou os aromas, passando pelo suco muito concentrado de 2006 (ano de muito calor), ao clássico de 2007, apareceu um 2009 que era bastante macio na boca, com gostosos aromas de especiarias, amoras, toque herbáceo típico mas sem se sobrepor no nariz e um longo final e ótimo volume de boca. Dá vontade de beber mais um gole.  2010 repete a dose, com um toque mais frutado e mais fresco, mas mantendo as qualidades de boca e nariz e o final longo fica dialogando com você uma agradável conversa de sabores.

Syrah Grey (Glacier) Single Block

Região Viñedo Roblería, Apalta, Vale de Colchagua, lote número 24

85% merlot, 10% syrah, 5% carmenère

18 meses de barrica francesa (33% barricas novas)

Assim como a carmenère chilena me causa desconfiança a syrah me traz esperanças e provo até com mais vontade de me surpreender. Se tiver de eleger um tinto entre toda a linha Grey, o meu preferido é o o syrah single block. Como característica geral a cor bem escura e pimenta negra. As safras iniciais, de 2002 e 2003, são originárias do Maipo. 2003 entrega um chocolate, especiarias de sempre da syrah (pimenta do reino), frutos negros e madurez, 2003 é menos potente na boca, mas ainda assim bastante gostoso. As safras a partir de 2007 são de uvas de Apalta, e vêm com tanino macio, uma espécie de creme brulê no nariz (só eu achei isso, mas como achei vale o risco), fruta madura e bem gastronômico para fazer dupla com uma carne. Em 2009 o vinho cresce em fruta, uma marmelada, o tal do creme tostado do 2007, sua estrutura firme impõe o respeito dos caldos volumosos em boca, tem permanência, aquele aroma reticente que fica no fundo da taça e acompanhou a comida muito bem. 2010 tem características muito parecidas com 2009. Portanto procure beber os 2009 antes, para aproveitar um toque de evolução e deixe o 2010 melhorando na garrafa.

Cabernet Sauvignon Grey (Glacier) Single Block

Região: Trinidad, Vale do Maipo, lote 38

94% cabernet sauvignon e 6% petit verdot.

18 meses de barrica francesa (33% barricas novas)

Cabernet sauvignon é o clássico chileno de vinhos maduros, potentes, com um toque verde, frutas vermelhas expressivas e um tanino macio sem ser enjoativo. Um vinho envelopado na madeira. Os ícones do Chile costumam ser de cabernet sauvigon. O toque de petit verdot a partir de 2009 deu graça e frescor ao vinho. O mais velhinho dos rótulos, 2002, tinha aquela evolução pronunciada, um toque de couro, de húmus, mas me parece que já estava descendo a ladeira. Não deve melhorar com mais tempo na garrafa. 2003 traz mais café e chocolate na napa mas é menos persistente na boca. Já a safra de 2004 remete aos mesmos aromas de café, capucino junto com taninos do bem, na boca uma evolução elegante da fruta. 2007 é um clássico com boa fruta, tipicidade, estrutura, boa persistência, mas mesmo assim não me ganhou. 2009 é bem bacana de ter em casa: fruta madura, mais para o lado dos frutos negros, maior acidez e estrutura tânica (aquela sensação de uma boa adistringência na boca), no geral é mais complexo, tem mais corpo, mais vinho. 2010, a safra que vem por aí promete. Por ser um ano mais frio, tem um belo potencial de crescer em qualidade em cima do 2009, dando mais elegância ao caldo e a mesma complexidade de camadas que surgem na boca e no nariz. Mas ainda é uma promessa e merece ficar aguardando um pouco na garrafa.

Merlot Grey (Glacier) Single Block

Região: Viñedo Robleria, Apalta, Vale do Colchagua, lote número 3

85% merlot, 10% syrah e 5% carmenère

18 meses de barrica francesa (33% barricas novas)

O vinho mais antigo provado, de 2001. Corpo médio, evolução no limite, sofreu muito com o clima seco. 2002 teve mais chuva e frio e traz uma fruta mais ampla, assim como 2004 é mais herbáceo, tem boas especiarias e meio leitoso. 2007, como já se disse, foi um ano clássico, com tanino integrado e macio, fruta mais exuberante e bom final de boca. 2010 puxa mais para a fruta madura, um chocolate, um tanino mais aveludado. O merlot, a bem da verdade, não mereceu grandes interjeições e profundas aspiradas na taça. Entre os tintos, foi o que menos me impressionou ao longo das safras. Talvez 2012 mude isso, já que 50% da safra foi perdida por desidratação e pode ser que as uvas que restaram entreguem mais sabor. A ver…

Pinot Noir Grey (Glacier) Single Block

Região Viñedo Las Terrazas, Vale de Leyda, lote número 22

Pinot noir 100%

12 meses de barricas francesas (15% novas, 30% segundo uso e 55 de terceiro uso)

Este é um lançamento da Ventisquero de 2010. A pinot noir é sempre aquele desafio de trazer uma identidade chilena a uma uva que, não tem jeito, todo mundo compara aos melhores cascos da Borgonha. Cuirioso que nunca se compara aos médios – e ruins – da Borgonha, que são muitos. Este Grey pinot noir 2011 tem aquela pegada de pinot noir chileno, a cor um pouco menos translúcida, a cereja mais doce, um toque tostado, uma lembrança de terra úmida amparada com uma agradável acidez. É de média intensidade na boca. As experiências com os vinhedos de Leyda, com seis camadas de solo, como o doce de mil folhas, estão apenas começando. O refinamento maior é tarefa contínua. E o Chile, na minha modesta opinião, tem produzido belos exemplares da elegância, às vezes traiçoeira, da pinot noir.

Chardonnay Grey (Glacier) Single Block 2011

Região: Tapihue, Vale de Casablanca, lote número 7

100% chardonnay

Para não dizer que não falei dos brancos, vinhos que tenho especial predileção, apesar da cara virada da maioria dos leitores (todos os 17!). A mim me agrada o chardonnay amadeirado, mas sem excesso, que mistura untuosidade e mineralidade. O Chardonnay Grey 2011 passa 13 meses de barrica o que lhá dá mais corpo, tem nos aromas o abacaxi, uma lembrança de mel, e deixa uma passagem mineral e fresca no fim de boca. Boa acidez, produz saliva na medida. Não passa por fermentação malolática, ou seja, não vem com aquele bônus de manteiga exagerada. Só os brasileiros e chilenos têm a oportunidade de prová-los (4.000 garrafas para cada país)

O preço

Por uma decisão de negócio, o preço da linha Grey é unificado, tanto brancos e tintos. A triste constatação  é que o Grey deveria fazer parte daquela linha de qualidade com preço intermediário. No mundo, uma garrafa de Grey vai para a adega por cerca das 25 dólares. No Brasil, não chega à sua taça por menos de 40 dólares. A safra 2009 pode ser encontrada por 80 reais em algumas lojas, mas a safra 2010 deve chegar por cerca de 95 reais. É um vinho de preço intermediário, um degrau acima, vai. A cadeia progressiva de impostos, como sempre, é a vilã do processo.

A novidade

Um novo Grey vem se juntar à turma descrita acima. trata-se do GCM 2012, um blend das uvas garnacha (50%), cariñena (30%)  e mataro (20% – monastrel), com uvas da região La Roblerìa, em Apalta, no Vale do Colchagua e pertecem ao lote 28. É um Grey  com um estilo mediterrâneo, corpo médio, umas notas terrosas, mais refrescante, com final mais leve; o carvalho é de sexto ano de uso, para não se impor e manter as características das uvas. Ideal  para  acompanhar  embutidos e uma conversa. Bom servir um pouco mais fresco, entre 14 e 17 graus. É um vinho que não estava planejado, mas acabou se impondo, segundo Tosso. É muito diferente dos outros caldos da linha, e mesmo tendo seus defensores creio que pode esbarrar justamente na política de uniformização do preço para consumidores acostumados à estrutura dos outros tintos Grey.

Reserva, reservado, premium, superpremium, ícone

O Grey, como se disse, é um vinho premium. Mas o que significa isso, afinal? O Chile costuma carimbar em seus rótulos termos como reservado, reserva, reserva da família, gran reserva e carregar no marketing conceitos como premium, superpremium, ultrapremium e finalmente o ícone. ( a bem da verdade o Brasil  também adota estas categorias). Teoricamente deveriam indicar uma escala de valor. Em alguns casos, como o reservado, não significam nada, já que se tratam de vinhos de combate, com tanta doçura que podem até ser comparados a um demi-sec. Em outros, como do reserva e gran reserva, tomam emprestado a denominação espanhola, da região da Rioja, que tem regras rígidas de tempo de barrica ou de garrafa, mas aqui não se estabelece uma regra fixa. Cada vinícola faz o que bem entende. E o consumidor que procure se  informar

Já o vinho premium geralmente não ostenta este título no rótulo. É mais um conceito. O discurso implica em diferenciações como de manuseio (uvas colhidas e selecionadas manualmente), terroir exclusivo, produção de pequeno volume e algumas medalhas no peito. É o caso da linha Grey. Para efeito de marketing pega muito bem o lançamento de uma linha premium, coloca a vinícola  em outro patamar e puxa para cima  os vinhos da escala  mais baixa da cadeia alimentar. Daí para cima, aparecem o superpremium, ultrapremium e finalmente o ícone, que é o patamar mais alto que se pode alcançar. A Ventisquero, por exemplo, tem seu ícones Pangea, Vertice e Enclave. Afinal,  o Santo Graal do vinho é o valor agregado, que noves fora transforma uva esmagada em dinheiro em caixa.

Toda linha Ventisquero é importada no Brasil pela Cantu.

Autor: Beto Gerosa Tags:

quarta-feira, 27 de março de 2013 Harmonização | 09:10

Bacalhau e vinho: tinto ou branco?

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“Vocês querem bacalhau?”
Bordão do apresentador Abelardo Barbosa, o Chacrinha

Provavelmente você vai encarar um bacalhau nesta sexta-feira santa. E o vinho? Já escolheu? Está em dúvida entre um branco e um tinto?

Saiba que você não está sozinho. Muito gente fica em dúvida sobre qual o vinho que combina com este peixe, que nem parece peixe, pois é um pescado com estrutura mais firme e sabor persistente.

Nem todo bacalhau é igual também. Eles variam de tipo e nível de qualidade: do Cod Gadus Morhua, o mais nobre, ao Gadus macrocephalus, o tipo mais simples. Saiba mais na reportagem “Quinze respostas sobre o bacalhau”

E assim como nunca se vê cabeça de bacalhau, também nunca se chegou a um consenso sobre a combinação ideal entre o pescado e o fruto da videira fermentado.

O escritor português Eça de Queiroz (1845-1900), que entendia da alma lusitana e também se interessava por sua culinária, não tinha dúvidas. “Em Portugal é tradicional acompanhar os pratos de bacalhau com vinho tinto. Este ‘casamento’ feliz explica-se pela ação do tipo de sabores frutados presentes nos vinhos tintos que, dando-nos uma sensação gustativa indireta da doçura, amenizam o gosto ‘oposto’ salgado do bacalhau”, escreve.

De fato, em Portugal é a harmonização mais comum. Os introdutores da bacalhoada na colônia apostam nos tintos com boa estrutura, que dá robustez ao caldo, mas de taninos mais leves e boa acidez para cortar a gordura do azeite, sempre presente nas receitas.

Outros (como eu) preferem brancos mais  encorpados, com passagem em barricas de carvalho, mais maduros, com aquela untuosidade que combina bem com o forte sabor do bacalhau: um não passa em cima do outro. O saudoso critico Saul Galvão era assertivo: “Com um boa posta de bacalhau, preparada com simplicidade para ressaltar o seu sabor, não tenho dúvidas de que um branco encorpado é ótima opção.”

Quem está com a razão? Ambos, eu arriscaria.

Aí está, pois, a boa notícia. Há brancos e tintos que escoltam bem as receitas da bacalhoada, um prato que entrou no cardápio do brasileiro: a semana santa é só uma desculpa a mais para saboreá-lo.

Bacalhau ao forno

Bacalhau ao forno: brancos com madeira e tintos equilibrados

As versões mais consumidas são a clássica ao forno (veja receita), com lascas ou postas grelhadas enriquecidas com tomates, batatas, pimentão, azeitonas, ovos e regado no azeite – aqui não tem erro as escolhas de  brancos encorpados, com estágio em madeira ou tintos de boa fruta e estrutura.

Bacalhau a Bráz

Bacalhau a Bráz, vinhos brancos verdes com madeira

As receitas com consistência mais cremosa, como o bacalhau com natas, bacalhau a Bráz (veja receita), ou brandade de bacalhau pedem um branco mais fresco, como os vinhos verdes da uva alvarinho, de preferência aqueles com passagem em madeira.

Bolinho de bacalhau

Bolinho de bacalhau: para a entrada um espumante vai bem

A versão do bacalhau com broa tostada e uma entrada de bolinho de bacalhau (veja receita) permite uma inovada com espumantes portugueses e espanhois.

Eu costumo iniciar os trabalhos com um belo branco lusitano, das castas arinto e antão vaz, ou ainda com toques de chardonnay –  os brancos amadeirados chilenos, argentinos e nacionais também seguram a onda. Em seguida, desarrolho um tinto também português, agora sem madeira excessiva, mas com muita fruta, equilíbrio e acidez. Evite os tintos muito fortes, que podem passar por cima do prato.

Abaixo, algumas possibilidades  portuguesas e nacionais (sugestões atualizadas em 27 de março de 2013)

Espumantes

Espumante Caves São João Bruto – importadora Vinci, R$ 56,00

Espumante Vertice – importadora Adega Alentejana, R$ 104,00

Freixenet Reserva Real – importadora Qualimpor, R$ 155,00

Raventós Gran Reserva 2006 - importadora Decanter, R$ 169,00


Brancos (vinhos verdes)

Paço de Teixeiró 2009 – Importadora Mistral R$  30,00 (meia garrafa)

Quinta dos Loridos Alvarinho 2008 - importadora Porus Cale, R$ 57,00

Quinta da Aveleda Follies Alvarinho 2011 – importadora Interfood, R$, 68,00

Alvarinho Deu La Deu - importadora Barrinhas, R$ 75,00

Muros de Melgaço 2008  – importdora Decanter, R$ 124,30


Brancos

Prova Régia Premium 2011 – R$ 38,00

Paulo Laureano Premium Branco 2011 – importadora Adega Alentejana, R$ 54,00

Filipa Pato FP Branco 2009 – importadora Casa Flora, R$ 50,00

Esporão Reserva Branco 2011 – importadora Qualimpor, R$ 82,00

Luis Pato vinhas velhas 2009 – importadora Mistral, R$ 68,00


Tintos

Paulo Laureano Clássico Tinto – Importadora Adega Alentejana, R$ 35,00

Marquês de Borba Tinto – importadora Casa Flora, R$ 48,00

Saes tinto 2010 (Quinta da Pellada) –  importadora Mistral, R$ 64,00

Cabriz Reserva, Dão, 2008 – importadora Winebrands R$ 76,00

.Com – importadora Adega Alentejana, R$ 80,00

Quinta do Vallado – importadora Cantu, R$ 80,00

Carm Touriga Nacional SO2 Free 2010 – importadora World Wine, R$ 90,00

Quinta dos Murças Reserva 2008 – importadora Qualimpor, R$ 220,00

BRASIL

Brancos

Aurora Pinto Bandeira Chardonnay 2011 – Aurora, R$ 35,00

Salton Virtude Chardonnay 2011 Salton, R$ 50,00

Chardonnay Gran Reserva 2011 – Casa Valduga, R$ 65,00

Villa Francioni Chardonnay – Lote II – Villa Francioni, R$ 88,00

Respondendo à provocação do Velho Guerreiro à sua plateia:

”Vocês querem bacalhau?”

Queremos sim, mas com vinho!

Notas relacionadas:

  1. Tannat: o tinto uruguaio que combina com churrasco
  2. Vinho e bacalhau: um casamento que dá certo
  3. Peixe com vinho tinto: um casamento diferente que pode dar certo
Autor: Beto Gerosa Tags: , , , ,

terça-feira, 19 de março de 2013 Blog do vinho | 10:00

Você pagaria para ler este blog? E para tomar vinho, se tivesse opção de rótulos gratuitos?

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The news sentimentalists among us savor the best newspapers — their lovely turns of phrase, their bold reportage — as if they were rare and fragile wines. Which, these days, they are.
Jon Fine, BusinessWeek

Se você sabe escolher, não vai gastar mais de 100 dólares para tomar alguns dos melhores vinhos do mundo. Quem gasta mais está interessado em comprar prestígio ou raridade. Robert Parker

Prezado leitor, tenho uma proposta para você aí, do outro lado da tela: topa pagar para ler este blog? Não se irrite, nem siga para a próxima página. Não vai pular uma proposta de pagamento na sua frente. A provocação tem um sentido. Estamos, eu e você, neste momento, em lados diferentes da rede: aquele que produz e aquele consome informação. E lembre-se que hoje em dia os papeis se invertem com grande facilidade.

E se existisse a possibilidade de “baixar” um vinho em casa, e até de graça. Qual o valor que você daria a este produto? Mesmo assim você continuaria a pagar por uma garrafa de vinho?

Tudo que é mídia se desmancha no ar

Há dois temas que me apaixonam e me desafiam: a mídia digital e o vinho. E os dois se encontram nesta coluna de vinhos que  é publicada há quase cinco anos no formato de um blog. E também pelo fato de eu um profissional ligado a projetos de produção e publicação de conteúdos na web e outras plataformas.

Nos últimos anos jornalistas, midiáticos de toda espécie e palpiteiros  de plantão praticam um esporte mórbido pela tese que defendem e desafiador pela solução que buscam: escrever sobre o fim dos jornais, revistas e empresas de mídia (on line ou off line) e teorizar sobra a nova forma de distribuição segmentada e personalizada de conteúdos. Material de subsídio é o que não falta. Com riqueza de detalhes estudos como Post-Industrial Journalism: Adapting to the Present, produzido pela Columbia Journalism School, desmontam o modelo de negócio baseado em publicidade e assinantes do jornalismo praticado no século XX e preveem tempos difíceis, já nesta década,  para as empresas e para os profissionais envolvidos no mundo editorial.

Há uma frenética discussão sobre o tema de conteúdo pago x gratuito na internet, dos modelos de cadastramento e restrições ao acesso de um número limitado de matérias por mês. Também está em pauta em todo o mundo a questão dos direitos autorais e da necessidade de remuneração dos produtores primários de informação pelos distribuidores de conteúdo.

Ao mesmo tempo, a dinâmica do empreendedorismo e as correias do capitalismo se movem. Empresas estabelecidas como o Financial Times, Forbes, New York Times, The Economist (para ficar com exemplos de fora) e sites segmentados de política, tecnologia, moda, comportamento, esportes, gastronomia e turismo estão se preparando para este momento. Eles enxergam oportunidades e testam modelos no momento histórico da ultrapassagem do digital sobre o impresso. Ou seja, a transferência do papel para o tablet, o mobile como fonte primária de informação, a mudança do navegador web para suportes inovadores como Google Glass, da tela grande da TV para as pequenas telas móveis. Em todos estes modelos não se discute a demanda por informação, que é cada vez maior, mas a maneira de rentabilizar o trabalho destes produtos e remunerar os profissionais que lidam com a curadoria e filtro da informação produzida, dentro e fora das redações e produtoras de conteúdo.

Se os jornais e as notícias hoje começam a ser tratados por alguns como vinhos raros e frágeis, como sugere o trecho do artigo da BusinessWeek que abre este texto, é possível então traçar um paralelo imaginário da situação da mídia com o mundo do vinho. Se o valor do melhor vinho não está ligado necessariamente ao seu preço e sim é reflexo de seu valor agregado, como apregoa o crítico Robert Parker, o que aconteceria com o vinho se a tecnologia permitisse uma distribuição além da imaginação como a mostrada no vídeo abaixo? (Mas quem previa os mobiles, tablets anos atrás, e como a internet iria transformar o modelo de negócios e o relacionamento entre as pessoas?). Assista ao vídeo.


“Não existe almoço de graça”, nos ensinam os economistas. Também  não existe produção de conteúdo de qualidade sem investimento e nem de vinho sem lucro. Aqui os dois temas fazem fronteira o que nos trás de volta ao tema principal deste blog e nos permite partir para a próxima provocação.

Do vinho encanado ao vinho de graça

Da mesma maneira que a elaboração e distribuição da informação estava restrita aos detentores das prensas e das estruturas das redações e seus profissionais antes da revolução da internet – que transformou todo cidadão em potencial Publisher -, as vinícolas que detêm os insumos, a tecnologia e contratam enólogos são as responsáveis por entregar a garrafa pronta e rotulada para consumo.

Mas e se o cenário fosse outro? Como o vinho se comportaria diante da mudança do processo de produção e distribuição? O mesmo por que passou e está passando a mídia?

Vamos nos permitir imaginar, em um futuro próximo, alguns modelos disruptivos e uma linha do tempo do vinho distribuído em outros suportes, elaborado em casa e por fim entregue gratuitamente.

1. Alguém descobre um meio de distribuir a bebida por uma rede de encanamentos e os tintos e brancos chegam em sua casa direto pela torneira. O preço é uma espécie de assinatura, como de água, e o vinho verte 24 horas por dia em seu domicílio.

2. Ao mesmo tempo, é criada uma fantástica máquina de custo muito baixo e que permite a fácil e rápida produção de vinho caseiro, o homewine. É um grande sucesso entre enólogos amadores. O sujeito compra cápsulas de uvas e elabora o fermentado em casa, como um café expresso. Ou então começa a plantar suas própria parreiras em casa, em clones previamente comercializados para este fim, para elaborar seu vinho.

3. O vinho com rótulo domiciliar passa a ser distribuído também pela rede de encanamentos secundários. Alguns casos mais raros recebem a consagração de um pequeno séquito e se transformam em cult homewines e chegam até a concorrer com nomes consagrados, mesmo sem contar com a garantia de qualidade e da tradição das grandes vinícolas. As redes sociais tratam de expandir o movimento com a recomendação dos amigos.

4. A profissão de enólogo entra em crise e sofre com a concorrência amadora e domiciliar. Os enólogos, para garantir o sustento, se transformam em personal-enólogos, e são contratados para animar a festa do aniversário de 18 anos do Júnior ou para  comemorar os 80 anos do vovô, sempre criando um vinho exclusivo para cada ocasião.

5. Alguns enólogos tradicionais da velha guarda descobrem, repentinamente, que o modelo anterior de concentração das grandes empresas era nocivo ao vinho e à liberdade de escolha e começam a denunciar suas mazelas enquanto oferecem um vinho puro e de produção caseira, e de uvas representativas da região ou do país, e às vezes são subsidiados por verbas de publicidade do governo.

6. A competição é brava, e em uma tentativa desesperada de sobrevivência alguns produtores tradicionais que ainda distribuem seus vinhos engarrafados em canais de lojas e restaurantes buscam um novo modelo de negócio: o patrocínio. Os rótulos, que antes estampavam só o nome da vinícola, da uva e do país na etiqueta agora veiculam publicidade, como dos jogadores de futebol. Algo assim: “Chablis, fresco e mineral, como o seu creme dental Fresh Tooth.”; “Espumante Brasilis, tanta espuma como do seu sabão em pó MinerOmo”

7. O último prego é batido no mercado tradicional quando finalmente é lançado o vinho gratuito. A conta nem sempre fecha, mas torneiras passam exibir patrocínios em seus metais, os suportes são etiquetados com publicidade e você pode optar entre os vários fornecedores que oferecem sua bebida através de inúmeras redes instaladas. A diversidade é enorme, desde o vinho domiciliar até os de grandes empresas que entram na dança para não perder o público de vez. O sabor, no entanto, é sempre meio parecido.
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8. A maioria dos produtores de qualidade quebra. Os tintos e brancos de boutique e os grandes châteaux ficam com preços proibitivos. Só os ricos, emergentes russos e chineses e colecionadores se mantêm fiéis a rótulos exclusivos e de tradição.

9. Num momento de crise mundial de liquidez – de dinheiro, não do fermentado -, a publicidade fica escassa mas o custo de manutenção da rede permanece o mesmo, fora a mão-de-obra e a matéria-prima. A fragmentação e excesso de vinho compartilhado pelas redes sociais também faz despencar o valor da publicidade paga para sustentar o vinho gratuito. O modelo gratuito patrocinado então também entra em crise.

10. Defensores do bom vinho resolvem ressuscitar a velha fórmula da cobrança e sugerem a manutenção da rede de distribuição de vinhos, mas por meio de micropagamentos, pelo cartão de crédito ou pelo celular. Num conceito literal de degustação, testam o modelo Fremium, que permite o usuário provar o vinho por um determinado período e cobram um valor por mês a partir da fidelidade à marca. Alcançado o objetivo de reter o consumidor, é oferecido então os vinhos de safras mais atingas, de uvas selecionadas de vinhedos mais velhos e vinificados com maior cuidado, o bom e velho modelo de maior valor agregado ao produto. O conceito da qualidade volta a ganhar força.

Que pagar quanto?

A discussão se estabelece. O vinho deve ser cobrado ou gratuito? É possível produzir um bom produto só com patrocínio e publicidade? E um modelo de degustação seguido de cobrança, é viável? Nesta situação imaginária, e delirante:

Você pagaria para beber vinho, mesmo após ter provado o modelo gratuito?

O que nos traz de volta à pergunta inicial. Você pagaria para ler este Blog? E para acessar conteúdos na internet?

Este texto, publicado originalmente em março de 2009, foi reescrito e adaptado em março de 2013 pelo autor.

Notas relacionadas:

  1. Rótulo novo, as mesmas ideias
Autor: beto gerosa Tags:

quinta-feira, 14 de março de 2013 Novo Mundo, Tintos | 08:40

O vinho do papa Francisco é (ou deveria ser) um bonarda!

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A primeira reação ao anúncio do nome do novo papa Francisco, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, veio acompanhado de um muxoxo coletivo no Brasil. Tudo bem o papa não ser brasileiro, mas precisava ser argentino?

A segunda reação, claro, foi de curiosidade a respeito da história deste arcebispo de Buenos Aires, de 76 anos, o primeiro papa jesuíta e latino-americano. Francisco nasceu numa família simples na capital argentina, filho de um trabalhador ferroviário de origem piemontesa e de uma dona de casa. Muito já se noticiou por aí de seus hábitos modestos, como de andar de transporte publico e cozinhar suas refeições. Leia perfil de Bergoglio publicado pelo  iG. A propósito, seu verbete foi rapidamente criado no Wikipedia.

Sob este ponto de vista parece um chefe da Igreja Católica com uma dose de simplicidade e humor, demonstrado já no seu primeiro pronunciamento: “Parece que meus irmãos cardeais foram quase buscar (um novo papa) no fim do mundo.”. Se Bento XVI tinha um certo excesso de acidez, o papa Francisco parece ter um tanino mais macio…

O vinho está ligado, desde a fundação do Cristianismo, aos ritos e à história da Igreja Católica (saiba mais no post Vinho Canônico). Aos jesuítas também cabe uma importante contribuição na história da viticultura da América do Sul, tanto no Brasil como na Argentina. O cruzamento destas informações, de alguma forma, levou a uma associação imediata da uva símbolo da Argentina, a malbec, ao nome de Bergoglio entre os enófilos. Muitos católicos ou simpatizantes postaram em suas contas no twitter, facebook e google+ que brindariam o anúncio de Francisco com uma garrafa desta que é a segunda uva mais plantada no território argentino. Enfim, ficou forte a associação entre o papa argentino Francisco e a malbec.

Este Blog do Vinho, no entanto, se permite a outra associação. Dada a origem italiana do pai do novo papa e sua ordem jesuíta, que introduziu o cultivo das videiras no país, o vinho que melhor representaria Franciso é o da uva bonarda, originalmente conhecida como bonarda piemontese.

A bonarda é a segunda variedade tinta mais cultivada e uma das mais tradicionais do país (ver tabela abaixo). Antes da invasão da malbec, era uma uva abundante e destinada a produzir tintos mais simples, de consumo local. A bonarda tem cor escura, bom corpo e fruta presente e nos exemplares mais simples deve ser consumido jovem. Quando bem tratada desde o cultivo até a vinificação, e envelhecida em barricas de carvalho, mostra potência e maciez. É interessante quando usada em cortes.

Principais uvas tintas produzidas na Argentina

Malbec 34% –  31.047 hectares cultivados

Bonarda 18%- 18.127 hectares cultivados

Cabernet Sauvignon 17% – 16.371 hectares cultivados

(fonte: Wines of Argentina)

Se você nunca provou um vinho da uva bonarda, pode ser esta uma boa desculpa. Não se tratam de vinhos de excelência, repletos de medalhas, com indicações exultantes da crítica especializada, apesar de ter alguns exemplares de alto calibre. Por isso mesmo, representam melhor um papa de origem jesuíta com mais humildade e menos pompa.

O Blog do Vinho traz abaixo uma seleção de alguns rótulos que tratam bem a uva, das garrafas mais simples aos mais elaborados.

Alamos Bonarda 2010

Produtor: Alamos (Catena Zapata)

Região: Mendoza

R$ 38,00

Importadora: Mistral

Porta de entrada  para conhecer a variedade. Simples mas bem feito. Catena sempre confiável.

La Posta – Armando Bonarda 2010

Produtor: La Posta

Região: Mendoza

R$ 48,00

Importadora: Vinci

Bem cotada entre os críticos, e ainda com um bom preço, traz mais fruta madura

Navarro Correas Coleccion Privada Bonarda

Produtor: Navarro Correas

Região: Mendoza

R$ 51,00

Importadora: Interfood

Boa futa, bons taninos, outro belo exemplar da bonarda.

Zuccardi Serie A Bonarda 2011

Produtor: Zuccardi

Região: Mendoza

R$ 58,00

Importador: Ravin

O sempre simpático Zuccardi acertou  em cheio neste Bonarda macio e cheio de fruta, valorizado pela barrica.

Crios de Susana Balbo Syrah-Bonarda 2008

Produtor: Doninio del Plata

Região: Luján de Cuyo, Vale de Uco

Uvas: syrah 50% e bonarda 50%

R$ 42,00

Importadora: Cantu

Único exemplar da lista que não é um bonarda 100%. Mas merece uma citação pois a eficiente enóloga Susana Balbo construiu um belo estilo de vinho em que a picante syrah e potente bonarda  de mais de 36 anos criam uma boa combinação.

Las Perdices Reserva Bonarda 2009

Produtor: Finca las Perdices

Região: Mendoza

R$ 85,00

Importador: Bodegas

Um pouco mais caro, mas com uma bela evolução no carvalho francês. É saboroso na entrada e desce macio.

Bonarda Limited Edition 2007

Produtor: Nieto Senetiner

Região: Luján de Cuyo, Mendoza

R$ 100,00

Importador: Casa Flora

Se você quer conhecer o potencial da bonarda, este é o vinho. Tem bom corpo, personalidade, intensidade e variedade de aromas. Paga-se um preço por isso, mas na minha opinião é o melhor bonarda que já passou pela minha taça.

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Autor: Beto Gerosa Tags: , ,

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013 Novo Mundo, ViG | 18:01

Dois vinhos bons e baratos australianos, uma uva diferente e a incrível história do enólogo que tem alergia a vinho

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Quando você ouve falar de Austrália, qual a primeira ideia que vem à cabeça?

1)   Bichos exóticos como cangurus, coalas e ornitorrincos

2)   Os fogos iluminando a Ópera de Sydney no réveillon

3)   O filme Crocodile Dundee e a atriz Nicole Kidman

4)   A banda de metal AC/DC

5)   Vinho shiraz

Se você optou pelo item número cinco é por que curte e conhece um pouco de vinho.  E sabe da importância do vinho – e da uva símbolo, o shiraz – na terra dos canguros, da Ópera de Sydney, do Crocodilo Dundee, da banda AC/DC e da Nicole Kidman.

Momento enciclopédia

A Austrália é um país-continente com quase 7,7 milhões de quilômetros quadrados, a sexta maior nação do mundo e com um baita deserto ocupando parte de seu território.

O vinho no entanto é um elemento importante de sua economia. A Austrália é sétimo maior produtor de vinho do mundo, com um crescimento de 14% entre 2007 e 2011, e a quarta maior exportadora de tintos (mais estes) e brancos do planeta, ficando atrás apenas da Itália, Espanha e França (dados do Relatório Estatístico da viniticultura Mundial 2012 da OIV – International Organisation of Vine and Wine).

No entanto os vinhos australianos não são tão difundidos no Brasil. No ranking dos vinhos importados divide um sétimo lugar – e pífios 4,13% em volume – com diversas outros países. Mesmo assim não é difícil encontrar rótulos de grande volume como Yellow Tail (a propósito, e não por acaso, a imagem é um canguru),  Jacob’s Creek e Hardys, ou produtores mais conceituados como Lindemans, Penfolds e d’Arenberg. Mesmo assim, a oferta é pequeno e, como consequência, o consumo  idem.

ViG – vinhos indicados pelo Gerosa

Bons e baratos

Pelos números acima, dá para perceber que a Austrália é uma produtora de grandes volumes, mas também é responsável por um padrão constante de qualidade, que se às vezes não surpreende mantém uma segurança na hora da compra. Há no entanto muitos rótulos estrelados que chegam aqui sempre na casa da centena de reais. Entre os bons e baratos (40 reais a garrafa), este Blog do Vinho indica dois exemplares corretíssimos, dignos representantes de suas uvas. São eles

Down Under Chardonnay 2012, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% chardonnay, 14º de álcool – R$ 39,90

Uma belezura de tipicidade da uva chardonnay. Aromático sem exagero, exala uma fruta que lembra pêssego, mas pode ser outra fruta branca mais madura. Os seis meses de carvalho francês estão presentes no adocicado da boca, que é quebrado pela acidez presente que não deixa transparecer o alto teor de álcool. Um chardonnay refrescante e gostoso, pede uma taça a mais.

Down Under Shiraz 2010, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% shiraz, 14º de álcool – R$ 39,90

shiraz é a rainha das tintas na Austrália. Tem como características aromas de especiarias, caldo encorpado, fruta madura. Tem tudo isso aqui e a baunilha do carvalho francês e americano (dormiu seis meses antes de ir para a garrafa). Mas o que mais chama a atenção deste tinto é sua maciez, aveludado. Não é cerveja, mas desce redondo e tem uma persistência que agrada.

Diferente e surpreendente

3 Bridges Durif 2007, região de Reverina, Nova Gales do Sul, 100% durif, 15º de álcool – R$ 128,00

A durif é uma uva de nome estranho (não confundir com a cerveja Duff, dos Simpsons) que chama a atenção do tipo “homens que cospem vinho”. Ela é originária do Vale do Rhone e leva o nome de seu “criador”, doutor Durif. Mas ela atende também se chamada de petit syrah, principalmente nos Estados Unidos. Dizem os entendidos que na Califórnia a petit syrah é uma “mistura” de durif e peloursin. Inclusive no Rhone, em grande parte dos vinhedos, hoje em dia, tem essa composição. “Na Austrália, o CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation), agência científica australiana voltada para o agrobusiness, fez o estudo de DNA e comprovou que a uva é 100% Durif”, ensina a importadora Marli Predebon. E daí? Daí que as características da uva preservadas conferem caldos de “cor negra e concentrada, alta carga tânica e alto teor alcoólico”. ainda segundo explicações da Marli.

Se estas são as características da autêntica durif, esta garrafa entrega a tipicidade da uva. O preço é bem mais salgado (R$ 128,00), mas trata-se de uma bela experiência. Este 3 Bridges Duriff, de 15º de álcool, é bastante concentrado, a cor é escura, impenetrável, a boca mostra uma compota de frutas. Os 18 meses de barrica americana inevitavelmente deixam traços de coco e baunilha (se não, não deixavam tanto tempo o bichão amaciando ali). O álcool tá ali, revelando um tinto quente na boca. Encorpado, com taninos firmes (epa, usei o jargão, clica no link…). Caldo de macho, vinho mais para Crocodilo Dundee e AC/DC do que para coala e Nicole Kidman.

O enólogo que tem alergia a vinho

Todas estas criações são da Westend State, vinícola que fica na região de Nova Gales do Sul, mais especificamente em Riverina, segunda maior produtora de vinhos da Austrália. Aqui, desde 1945 funciona esta adega familiar que elevou os tintos desta região para uma categoria superior. Até aí tudo bem, a apresentação oficial da empresa resume sua história. Mas o que mais surpreende é o seu atual proprietário e enólogo, Bill Calabria, da terceira geração da família.

Bill Calabria carrega uma cruz difícil de suportar, principalmente do ponto de vista de quem gosta e produz vinhos. Ele é portador de uma rara alergia aos ácidos presentes no vinho que o impedem de beber suas criações. Para realizar seu trabalho Calabria adota critérios olfativos e gustativos, sem  jamais engolir os vinhos. Para ele “Não é preciso engolir um vinho para saber se ele é bom ou ruim”. Incrível, não? Faz lembrar o fotógrafo cego Even Bavcar. O desafio é parecido. Mais surpreendente é a qualidade de seus vinhos, dos mais básicos aos topo de linha.

Notem o vídeo abaixo, em que Bill Calabria celebra a décima safra do Duriff – a primeira veio ao mundo no ano 2000. Ele comenta o vinho, balança a taça insistentemente e aproxima o nariz do vinho diversas vezes. Mas jamais bebe o líquido.

O vinhos da Westend são comercializados pela importadora KMM, especializada em rótulos australianos.

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Autor: Beto Gerosa Tags: , ,

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 Degustação | 17:37

O gosto dos críticos de vinho combina com o seu?

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Como você escolhe o seu vinho? Você confia na opinião dos especialistas e segue a pontuação dos críticos na hora de comprar uma garrafa? Afinal são profissionais que provam mais 10.000 vinhos por ano (pelo menos é o que declaram duas das maiores estrelas da degustação, o onipresente americano Robert Parker e sua opositora inglesa Jancis Robinson)! E um vinho com, sei lá,  mais de 90 pontos da crítica é um indicativo poderoso, não é?

O crítico americano Robert Parker: bom ou ruim?

Mas será que a opinião dos experts – que afinal baliza o mercado e até o preço dos rótulos  – bate com o seu gosto? A degustação profissional é absolutamente técnica ou leva em consideração a preferência dos provadores? Se Robert Parker gosta de tintos maduros e potentes e Jancis Robinson prefere os tintos menos alcóolicos e com uma fruta mais fresca, como saber se suas notas combinam com o seu paladar? E as indicações de centenas de blogueiros – incluindo alguns palpites deste que vos escreve – e das publicações especializadas? Dá pra confiar nelas?

Dá. Apenas é preciso separar o bago da casca e colocar as coisas no seu contexto – e encontrar as indicações com maior afinidade com o seu paladar. O gosto é pessoal, mas ele também muda e pode ser moldado pela experiência. É bom lembrar também que o mundo também muda. Você que está aí do outro lado e milhões de outros usuários de redes sociais, aplicativos de vinho e blogs são protagonistas nas escolhas ao compartilhar e discutir suas preferências e escolhas.

Mas eu só quero a indicação de um bom vinho…

Claro que mesmo encontrando sua alma gêmea do vinho, não existe uma unanimidade. Nem em casa, para ser honesto. Alguns vinhos que declamo maravilhas quando tiro da minha adega e coloco na taça às vezes provocam um muxoxo na avaliação da minha mulher. Outros porém são praticamente louvados em uníssono. O crítico, ou especialista, nada mais é do que um consumidor profissional, que por conta de sua atividade, de seus conhecimentos e sua vivência tem mais elementos para julgar um produto, um alimento, uma atividade cultural. O crítico tem acesso ao mesmo produto e provavelmente consome de maneira idêntica, mas tem outras ferramentas para analisá-lo.

Mas é uma questão complicada. Os críticos são uma referência, mas aquilo que os distingue – o conhecimento – é o mesmo que pode distanciar do paladar médio dos consumidores. Um especialista em vinhos prova um oceano de tintos e brancos e não se compraz com um vinho massificado, de grande volume e sem relação com sua região. O crítico está sempre a procura de caldos que expressem um terroir específico, que contenham camadas de aromas infinitos, com a menor interferência tecnológica possível. O mesmo acontece, por exemplo, com o crítico de cinema. Ele assiste a milhares de filmes por ano e está sempre em busca de originalidade, de um roteiro inteligente, de atuações arrebatadoras; raramente consegue ter prazer naquele filme apenas correto ou no blockbuster que tem o objetivo de entreter enquanto se come pipoca. Ou seja, aquilo que os especialistas buscam no vinho – ou nos filmes – não é necessariamente o que o consumidor procura. Muitas vezes o que se quer é apenas a indicação de um vinho bom e barato para comer com a pizza, acompanhando de um filminho divertido. E a gente fica falando dos taninos…

O seu amargor é diferente do meu

Há até algumas explicações científicas que demonstram a diferença de percepção dos especialistas versus a dos consumidores do dia-a-dia. Um estudo realizado em Ontário, no Canadá, “Wine Expertise Predicts Taste Phenotype”, e publicado em março de 2012 no American Journal of Enology and Viticulture, se propôs a avaliar se especialistas e pessoas sem experiência com vinho tinham a mesma percepção ao sabor amargo. Para isso foi utilizada uma substância química inodora, o propylthiouracil, que é testada para medir a reação de uma pessoa ao gosto amargo. Em contato com a substância, participantes do teste que tinham habilidades de degustação identificaram um sabor extremamente amargo, enquanto pessoas com habilidades de degustação normais perceberam um sabor ligeiramente amargo. Ou seja, quando um crítico de vinho identifica um amargor no vinho muito provavelmente o consumidor não terá a mesma percepção, pois não está treinado para isso.

Rankings: o meu, o seu e o nosso

A outra variável é aquilo que poderia ser chamado de vinho 2.0 (apesar do desgaste do termo). As notas nas redes sociais, a indicação via aplicativos e banco de dados e a crítica dos usuários bebedores de vinho estão ajudando a construir uma avaliação coletiva, um ranking formado pela opinião compartilhada. Assim como na preparação de uma viagem é comum pesquisar tanto as informações de publicações especializadas como as avaliações de usuários para tomar uma decisão, no vinho este comportamente tende a se repetir. As notas e avaliações dos especialistas podem ser ou não referendadas e compartilhadas pelos usuários. A curadoria ainda é uma necessidade da indústria do vinho. Mas a rede permite a comparação e a análise a partir de uma massa crítica nunca antes imaginada. O que até ajuda a filtrar e desconsiderar os comentários favoráveis com interesses comerciais ou a “crítica oficial” subsidiada. A discussão é mais democrática, o profissional tem seu espaço e o amador de hoje pode formar uma legião de seguidores amanhã que o qualifique como referência.

A internet, mais uma vez, muda as regras do jogo cria um  padrão digital para um mercado ancestral. Uma amostragem realmente importante que traduz o gosto do consumidores – e uma poderosa ferramenta de marketing para a indústria. Há espaço para a discussão de todas as ideias, de todos as tribos –  dos defensores do vinho mais puro, do ativistas do terroir, do consumidores do custo-benefício, dos mantenedores da tradição das regiões, dos adoradores do vinho amadeirado e por aí vai.

A crítica de vinhos inglesa Jancis Robinson" gosta ou não gosta?

Estamos no momento em que talvez os cardeais do paladar, ou os ditadores do gosto, como querem os mais xiitas, tenham seu poder reduzido. E você dê menos importância a eles. E olhe mais para o que seu vizinho de rede está dizendo e compare o seu paladar com o de vários usuários que tiveram a mesma experiência e também com o ranking do master of wine, sem menosprezar sua experiência, mas também sem se ajoelhar perante sua avaliação. Pode dar um bom caldo. Literalmente.

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Autor: Beto Gerosa Tags: , ,

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013 Blog do vinho | 10:31

Vinho na praia: vende pouco porque é muito caro ou é muito caro porque vende pouco?

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As férias estão acabando mas um fenômeno se repete todo ano: o preço abusivo e a qualidade duvidosa dos vinhos oferecidos em hotéis, resorts ou restaurantes de praia O serviço até que melhorou, as taças são adequadas, as garrafas na temperatura certa – graças a uma espécie de popularização das adegas climatizadas –, mas a lógica dos preços em vez de incentivar o consumo afasta quem poderia se arriscar nos brancos, espumantes e até tintos no seu momento de lazer, praia e mar.

A questão é: estes locais oferecem vinho, montam alguma infraestrutura para isso e aí escorregam na seleção dos rótulos e enlouquecem no valor cobrado. E aí quase ninguém opta pelo vinho – nem um refrescante branco na piscina, muito menos borbulhas na praia ou mesmo tintos nas refeições noturnas. Qual é o objetivo? Faturar muito vendendo pouco? É a inversão do famoso slogan dos biscoitos “vende pouco porque é muito caro ou é muito caro porque vende pouco?”.

Exemplos de arrepiar não faltam. Recentemente estive em praias do sul da Bahia e nos agradáveis restaurantes da Rua Mucugê, em Arraial d’Ajuda. Boa parte das casas oferece carta de vinho. Partindo deste pressuposto: se oferecem é por que há gente interessada, ou então é uma maneira de dar uma camada de sofisticação ao lugar. Ok, a variedade não chega a empolgar, mas os preços…

Vinhos nacionais a 700 e 500 reais

Em um restaurante italiano bem recomendado, por exemplo, o vinho parecia ter um tratamento diferenciado. Os garçons até vestiam aventais com o logotipo da vinícola Miolo. De fato a carta tinha um cuidado maior. Mas topei com preços de fazer corar o Michel Rolland (consultor internacional e contratado da Miolo) e de fazer o novo sócio do grupo, Galvão Bueno, berrar “Epa! pênalti!” O Miolo Reserva saía por 60 reais (29 reais em qualquer supermercado e sites de compra). Mas o grande destaque foi o vinho ícone Sesmarias: ele seria meu se desembolsasse 700 (se-te-cen-tos) reais!  (A safra 2011 é vendida por cerca de 200 reais a garrafa no site da vinícola em venda antecipada em caixa de seis garrafas). O Storia Merlot, outro tinto ícone, este da Casa Valduga, saía por 500 (qui-nhen-tos!) reais (custa em torno de 160 reais nas lojas virtuais). Em compensação, justiça seja feita, havia uma seleção de italianos, talvez importação própria, com uma razoável relação custo-benefício diante deste descalabro. Mas era a exceção ao restante da carta.

Numa churrascaria na mesma rua, tintos argentinos mais comuns alcançavam a fronteira dos 100 reais. Um Terraza Alto del Plata (39 reais nos supermercados) cravava 115 reais na carta sem qualquer cerimônia. Muy amigo… No hotel em que estava hospedado um Concha y Toro Reservado (algo como 25 reais nas gôndolas), o mais baixo escalão da cadeia alimentar da gigante vinícola chilena, era oferecido a 56 reais; ao optar por uma qualidade maior, um Marques de Casa  Concha (80 reais em média), também da Concha y Toro, o cliente desembolsava a bagatela de 180 reais. Espumantes nacionais variavam de 90 a 120 reais.

Nas mesas em quase todos estes restaurantes rara taças cheias de vinho. Volto a perguntar. Qual é a lógica? Vende pouco porque é muito caro ou é muito caro porque vende pouco?

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All inclusive, all garbage

Mas a armadilha pode ser pior. Ao escolher estes resorts all inclusive, você inclui também o risco de contrair uma dor de cabeça danada se for beber o vinho que oferecem nas refeições e os espumantes na piscina. No caso do hotel que fui em outra ocasião, próximo à praia do Forte, os vilões eram rótulos espanhóis – o grupo dono do hotel é espanhol –, provavelmente produzidos exclusivamente para a rede de lazer. Era o que estava incluído no pacote. Se todos os tintos e brancos do mundo se resumissem aquilo lá, eu abdicava desta bebida e ia tentar outra coisa mais prazerosa: milk-shake, por exemplo. Um dia avistei um rótulo diferente nas mãos de um garçom que encheu minha taça no enorme salão que servia de restaurante. Parecia que voltava a provar um caldo fermentado de uvas de verdade e não um extrato de quinta extração. Fui checar e era um syrah mais comum do Terra Nova, um empreendimento da Miolo no Nordeste. Não é nada demais, mas perto do que me ofereciam até então, era tudo de bom. Tudo é relativo nesta vida, não é?

Se você aprecia um vinho é sempre bom questionar ao agente de viagens que tipo de rótulo está incluído no serviço. E lembre-se: não se contente com a informação de que são vinhos importados. A vítima, pode ser você!

No próximo verão… Bem, no proximo verão talvez a solução seja levar o vinho de casa.

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  1. Blog do Vinho: agora no iG
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Autor: Beto Gerosa Tags: ,

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