INTERLAGOS | No ano passado, dias antes do GP do Brasil, procurei uma série de pessoas ligadas ao “outro” lado, analistas que poderiam indicar o que astros, números, energias e espíritos zombeteiros diriam sobre a decisão entre Lewis Hamilton sobre Felipe Massa. A única que me atendeu decentemente foi Aparecida Liberato.
A todos que sabem como foi a decisão de 2008, as algumas indicações que a numeróloga apontou são, de fato, surpreendentes. Dados os nomes completos, data de nascimento e dia de realização da corrida, Aparecida funcionou como profetiza.
Por exemplo, a irmã de Gugu disse que “Hamilton não terá sua melhor performance no dia 2″, em referência à prova no início de novembro. “Felipe vive um ano de visibilidade até seu próximo aniversário e em novembro não viverá as dificuldades que teve em outubro, como na China”. Em um embate entre os dois, “vejo que Massa tem 70%, 80% de ser campeão” e que “condições limitadoras vão impedir que Hamilton chegue em uma boa colocação”. Por fim, a conclusão: “Os números de Massa são melhores, considerando sua energia no ano e em novembro. Mas ainda assim não significa que ficará com o título.”
Aparecida também falou que “Vettel terá seu melhor ano em 2009″ e que “uma nova opção se abre para Alonso em um futuro próximo”.
Por isso pedi que novamente Aparecida desse um panorama, antes dos treinos, obviamente, do que os números apontam — e, vale dizer, Rubens Barrichello é apegado a isso. E Liberato analisou que, muito provavelmente, a decisão do campeonato vai para Abu Dhabi.
Barrichello, segundo Aparecida, tem um ano numerológico — que se inicia no dia de nascimento, no caso 23 de maio — com “energia de luz, sucesso e popularidade”, “porém nem o mês de outubro e nem o dia 18 contribuem com energia positiva”. Aparecida apontou que “Há uma série de contradições e obstáculos que vão exigir muita paciência por parte de Rubinho” porque “energia de outubro e do dia 18 estão na mão contrária da energia do seu ano”.
O ano de Jenson Button é “promissor e bastante competitivo, exigindo ajustes o tempo todo”. De acordo com Aparecida, “não é uma energia fácil, pois não poderá perder o foco já que corre o risco de desorganizar”. A avaliação é que “em outubro, e principalmente no dia 18, ele corre riscos de alguma coisa mudar repentinamente. Ele estará mais competitivo do que nunca e tentará o impossível”. E arrebatou: “Sua impulsividade poderá causar acidentes.”
A Vettel, o ano é de “expansão e oportunidades” em que “velhos assuntos dão lugar a novos”. “E a energia do dia 18 não ajuda para que ele seja vencedor da corrida. É um número restritivo”, assegurou.
Como os três não apresentam números bons para este 18 de outubro, perguntei sobre a decisão do título. “O que tem melhor possibilidades é o Button, de acordo com sua energia, porém não posso dizer que ele ganha o título hoje”, falou.
Mencionei, também, três nomes além dos que batalham pela taça. Um fato interessante é o de Lewis Hamilton. “Ele vive o primeiro ano de um ciclo de 9 anos e tem de enfrentar uma nova realidade e condições”, disse Aparecida, que explicou que a energfia do inglês no mês de outubro “é para que ele atue com diplomacia em relação às pessoas, pois elas podem interferir na sua autonomia”, o que remete à McLaren estar tentando tirar seu poder de vetar Kimi Raikkonen para ser seu companheiro no ano que vem. Aparecida também comentou que a data de hoje “não contribui com energia próspera” para Hamilton.
Também colocados os nomes de Raikkonen e Alonso, Aparecida avaliou que “são os que, de acordo com seus números, terão maiores chances de boa classificação durante o GP. Eles serão comentados e receberão a atenção da imprensa.”
SÃO PAULO | Felipe Massa é um cara bom de entrevista. O lado negro da força sentou-se à esquerda de quem entra no espaço reservado ao enche-pança-com-carne e esperou o brasileiro falar à beça ali no outro canto. Depois chegou sorrindo, mesmo sabendo que parte do que houvera falado anteriormente seria repetido à exaustão.
Ainda chama atenção a parte ocular afetada pelo acidente do fim de julho. O olho em si já não está tão fechado; lembra muito quem sofre de miastenia, uma doença que acomete os nervos e se caracteriza pela queda das pálpebras. A olheira é profunda. Sentou e colocou o fino celular na mesa. “Você vem sempre aqui?”, brincamos, e aí o papo fluiu por uns tantos 40 minutos, interrompidos pela vegetariana Vanessa Ruiz e seu afã de falar ao vivo em sua rádio.
E num TOC, respondeu a todos rodando o celular. Primeiro falou da tristeza pela ausência em Interlagos e em Abu Dhabi daqui duas semanas. E depois da tristeza que sentiu pelo caso de Cingapura, pelo envolvimento de Nelsinho Piquet e pelo não cancelamento da corrida.
Massa se sente totalmente apto a correr. Mas foi aconselhado a evitar. Um novo acidente pode trazer sequelas. A prudência falou mais alto. “Estou em condições”, falou umas tantas vezes, num tom de lamentação por não poder estar no carro daqui a dois dias.
O ponto alto, no entanto, foi a contudente declaração de que Fernando Alonso sabia da armação que a Renault aprontou em Cingapura no ano passado. “Não tem como ele não saber. Lógico que ele sabia. Certeza absoluta.”
Massa falou isso numa boa. Uma impressão normal, que segue a linha da grande maioria que tem o mínimo conhecimento do caso — embora a FIA aponte, em sua investigação, que Alonso não soubesse. Mas logo no fim da tarde, a Ferrari expôs em sua página uma espécie de retratação. Alegou que Felipe falou de cabeça quente.
“O que disse é fruto de uma impressão pessoal que não está baseada em qualquer elemento concreto. O Conselho Mundial da FIA estabeleceu que não há nenhuma prova de que Fernando tivesse sido informado do que aconteceria e eu respeito essa decisão. É óbvio que eu tenha ficado desgostoso com o que aconteceu em Cingapura no ano passado. Já manifestei várias vezes minha opinião a respeito do ocorrido; agora é o momento de fecharmos definitivamente essa página e olhar para frente. O que é certo é que aquele episódio não condicionará de forma alguma o relacionamento que terei com Fernando quando formos companheiros de equipe.”
O esclarecimento da Ferrari soa mais incisivo que a própria declaração de Massa. A tentativa de quase desdizer uma opinião que notoriamente era uma impressão pessoal mexeu na ferida que não existia. A Ferrari apareceu com panos quentes agora sujos que já ganham as páginas de todo o mundo. Assumiu a culpa onde não havia culpado.
SÃO PAULO | O assunto do caso que, no fim das contas, mexeu com a disputa do título de 2008 — e que para muitos inverteu o campeão da temporada — ainda perturba Felipe Massa. Ao falar da armação em Cingapura no ano passado, passando por Nelsinho Piquet e chegando a Fernando Alonso, o brasileiro revelou tristeza pelo episódio costurado pela Renault que “alterou o resultado de pelo menos dez carros na corrida”. E garantiu: o espanhol tinha total conhecimento do que aconteceu na noite daquele 28 de setembro.
Durante a entrevista que deu na tarde desta quarta (14), o resgate do tema se iniciou com a pergunta sobre o relacionamento com compatriota. Nada mudou. Já não eram muito chegados antes. “Não tem nenhum problema. Todo problema que aconteceu não foi só culpa do Nelsinho. Ele fez parte da culpa, mas foi da equipe em geral”, declarou Massa. “Eu nunca tive uma amizade grande com ele, mas está normal.”
Nelsinho, nunca é demais lembrar, aceitou — a Renault alega que a ideia partiu dele — bater deliberadamente o carro durante a volta 14 do GP de Cingapura da temporada passada para beneficiar Alonso, que já havia feito parada nos pits, e ajudá-lo, com a entrada de um safety-car, a ganhar posições e consequentemente a corrida.
Perguntei a Massa se havia mágoa ou raiva. “Cheguei a sentir tristeza por tudo que aconteceu”, confessou. “Se você for pensar, foi uma coisa muito grave. É você pensar que ninguém mexeu no roubo da corrida. O resto… mandar o Briatore pra casa, o piloto, o engenheiro, que seja, é outra coisa. Primeiro tinham que ter ido atrás do que foi roubado. E não foram.”
A Ferrari, segundo Felipe, foi atrás para tentar reaver o título. Um dar de ombros mostrou que nada vai mudar. “Mas se você for pensar do jeito que eu penso, não é a Ferrari que tinha que ir atrás, era a FIA que tinha que trabalhar direito”, disse.
Aí mencionaram o provável envolvimento de Alonso. “De todos, ele é o de menos no problema. É mais a equipe e o Nelsinho, mas o Alonso é parte do problema.” Lembrado que o espanhol é parte da Renault, Massa deixou de livrar o futuro companheiro de culpa. ”Ele sabia”, assegurou. “Não tem como ele não saber. Lógico que ele sabia. Certeza absoluta.”
No fundo, Massa não se conforma em não terem anulado a prova. “Se você olhar no esporte, no futebol, cancelaram jogo; na Itália, a Juventus foi para a Série B. Na Olimpíada, se um cara falar que correu dopado, vão cancelar. Aqui estamos falando de uma corrida de 20 carros, e um safety-car pode mudar a corrida de pelo menos dez carros. E na minha opinião, tem que cancelar a corrida.”
E se fosse cancelada, Massa seria campeão. “Isso não interessa no momento.” Não? “Até porque, se me falassem que eu seria campeão depois de tudo isso, de uma coisa tão chata, ia ficar escrito no meu currículo. E seria muito chato.”
SÃO PAULO | Dia corrido, gravação aqui na redação da Paulista em substituição a Gomes, o bocó estava pronto pra falar que a Ferrari ia anunciar Alonso na quinta de manhã no Japão. Aí veio a mudança no roteiro.
Três anos de contrato, diz a Ferrari, embora essa coisa de validade de acordo cada vez menos vale. Vide o próprio Kimi, que se contradisse na própria declaração. Fala em acordo consensual, mas se diz “muito triste” pela saída, que vai guardar muitas memórias, o título, o esqui em Maranello, a aventura no rali. Denota que foi enxotado, coitado.
Alonso vira o 16º piloto da história a ter fechado com McLaren e Ferrari. Kimi está nesta lista.
A verdade é que a vida de Massa está oficialmente complicada. O estilo de Alonso se assemelha ao de Schumacher no que diz respeito a querer ser centro das atenções da equipe, “dono do time”, como mencionou Nelson Piquet na parte da entrevista que não foi ao ar domingo. E, pelo que tem feito nas últimas temporadas, Felipe não merece definitivamente ser relegado ao status de segundo piloto.
Indo Kimi para a McLaren, as duas principais equipes da F1 terão duplas fortíssimas. A Brawn com Jenson Button e Rubens Barrichello ou Nico Rosberg, provavelmente este, também não é de se jogar fora. A Red Bull, mantendo Sebastian Vettel e Mark Webber, vem forte. Mal acabou o bom campeonato de 2009, o 2010 começa a se desenhar extremamente interessante.
SÃO PAULO | A Ferrari, que antes não tinha pressa para anunciar pilotos, baseada na recuperação de Massa, mudou de ideia. Coisas da vida. Quer o quanto antes desvelar ao mundo o que já é certo e sabido há um tempão, que é a chegada de Alonso.
O quanto antes engloba esta semana. A pendenga se encontra em o que fazer com Raikkonen, isto é, como negociar seu ano restante de contrato de forma amigável — já que dificilmente será rentável dada a multa por rescisão. All in all, reuniões importantes vão culminar em sua saída. E Alonso poderia, então, ser anunciado antes do GP do Japão.
Raikkonen deve voltar para a McLaren, que obviamente não acha que trocar um finlandês por outro seja seis por meia dúzia. Kovalainen é bem meia-boca; Kimi, vá lá, é campeão, e a McLaren vai precisar de uma dupla forte para o embate contra Massa e Alonso.
A vaga que se abre na Renault, se esta não empacotar as malas, vai ficar com Kubica. Grosjean é dúvida. É fracote. Di Grassi tem, sim, chances. Ao pobre Kovalainen vai restar a mão dada a Nakajima no limbo. Se bem que sempre tem um sapato velho para um pé cansado.
SÃO PAULO | Mais um dia corrido, e mal tive tempo para algumas postagens. Vamos lá:
_ Fernando Alonso nem quer saber mais do episódio de Cingapura de 2008. Tem dado chilique nas entrevistas. E disse que sua vitória no ano passado foi justa, quase em tom de defesa da Renault. Renault que vai ter menos patrocínios que a Brawn, com a debandada de Mutua Madrileña e ING. E segundo o nasal Fabio Seixas, Alonso pôs a assinatura no papel da Ferrari na última sexta. Demorou, afinal, segundo um minipássaro luso, o espanhol já havia comprado uma casa nos arredores de Maranello tem uns dois meses.
_ Romain Grosjean está com uma disenteria daquelas. O negócio é feio — aliás, cag… diarreia não é nada bonito. Acham, entretanto, que o francês vai conseguir correr, apesar do medo de uma desidratação.
_ Mudanças nos bastidores do pessoal do GP do Brasil: equipe de sinalização, diretor de pista e diretor e equipe de resgate serão outros. Isso se não tirarem, também, o diretor de prova, o ótimo Carlos Montagner.
SÃO PAULO | A notável Barbara Gancia colocou uma informação interessante em seu blog hoje. Citando uma boa fonte — e bota boa nisso —, diz a jornalista que Nelsão Piquet, ao saber do ocorrido em Cingapura, brigou com Nelsinho e ficou dois meses sem falar com o rebento. O original está aqui.
Ou seja, no GP do Brasil, em que Nelsão fez a denúncia para Charlie Whiting — notícia também confirmada pela Barbara — e que “negociou” o fico de Nelsinho na Renault, pai e filho não se falavam.
À medida que as informações vêm à tona, todo esse caso sórdido de armação de resultado vai concentrando a culpa no trio Briatore/Symonds/Nelsinho. Ou num eventual quarteto, com Alonso, que foi chamado às pressas para dar mais declarações antes do julgamento do Conselho da FIA.
O que significa que tem algumas coisinhas ainda meio sem explicação. E Alonso, vale dizer, tem a fichinha suja, com envolvimento no caso de espionagem entre McLaren e Ferrari e da atuação de seu massagista na classificação do GP da Hungria, para atrapalhar Lewis Hamilton na disputa pela pole. É um ponto que a Barbara levantou na conversa que tivemos há pouco.
Alguma punição tem de haver nessa segunda. O caso ficou tão explícito e a sujeira está tão exposta e espalhada que uma multa, módica ou exacerbada, faz a F1 ficar ao nível de um truco, em que o roubo faz parte do jogo.
SÃO PAULO | O presidente da Real Federação de Automobilismo da Espanha, Carlos Gracia, resolveu abrir a boca. Falou que Nelsinho Piquet não serve nem para guiar cegos e que o piloto não deveria ter imunidade no julgamento da próxima segunda no Conselho Mundial.
É bom Carlos não ficar cheio de Gracia. Os Piquet são bons em dar o troco. Aliás, Nelsinho, que dizem que já voltou para Mônaco, é esperado na audiência que vai acontecer na Place da la Concorde.
O que é meio incompreensível é esse ataque do dirigente. Como se já estivesse antevendo que pode sobrar para o piloto filiado à sua entidade.
É jornalista, palmeirense e sempre pensou que ia ter de cobrir futebol antes de chegar ao automobilismo, que acompanha desde os 7 anos. E desde que se formou, está no Grande Prêmio e no iG, isso há 7 anos. Neste tempo, escreveu para “Folha de S.Paulo”, “Lance!” e “Quatro Rodas”, foi repórter da edição brasileira da “F1 Racing”, cobriu F1, Stock Car, as 500 Milhas de Indianápolis e outras categorias ‘in loco’, conheceu cidades como São Luís e Nova Santa Rita, traduziu um livro da Ferrari, além de transformar sua estranha torcida pela Dinamarca em febre. Já pensou em ser ator. “Influência de maus amigos”, explica. Adora comida japonesa, música eletrônica e odeia ovo, ervilha e esperar. “Necessariamente nessa ordem.”