11/11/2009 - 13:18
SÃO PAULO | A mochila estava nas costas, e a conversa se dava com o amigo quando às 10 e poucos da noite a academia começou a piscar, aguentando uns 50 segundos mais, com erro para mais ou para menos, do que as casas ao lado e as ruas. Ali teve até quem pensasse que o piscar da luz que lembrava aqueles filmes em que o alarme das usinas denotava a iminência de uma catástrofe podia ser algo até parecido com isso, trocando o som da sirene pelos gritos dos bombados que não largaram os pesos ou os supinos. Vieram as piadas normais de que a conta não havia sido paga, e o gerente da academia, figura da mais agradáveis, aproveitou as pouquíssimas luzes que sobreviveram por causa do gerador para sair cantando “I Don’t Want Nobody, I Don’t Want Nobody Baby”, trocando o “but you” que se seguia por um “tchu-tchu”, e o pessoal ficou lá, esperando que aquilo se tratasse de algo momentâneo, tanto o apagão quanto a apresentação de balada do gerente.
Vieram as primeiras informações de que a zona setentrional da cidade estava às escuras, das redondezas à Freguesia do Ó. Consegui fazer uma ligação, para casa, mas ninguém atendeu. Depois o celular morreu. Ligação, só emergencial. Em vão, então, minha tentativa de twittar. Insisti, ainda. Fui à sacada, tentei tirar uma foto com o celular, mas todas saíram escuras, sem flash. Celular de merda, pensei, e fiquei uns dez minutos tentando descobrir onde regulava o flash daquela porcaria, então me dando conta que dez minutos importantes haviam passado, e niente de luce.
Tinha uma moça cuja silhueta não era das mais magras ainda em cima da esteira e um cara que ainda usava a ergométrica. Outros dois aproveitavam o feixe daquela luz de gerador para ver onde pegar o peso apropriado, o gerente, naquele humor que só ele tem, pedia desculpa aos alunos que ainda mantinham esperança, uns até falavam em pular na piscina, e a vida passava, mais de meia hora passava, e aquele breu que se estendia por toda São Paulo denotava já uma série de pensamentos, até mais avançados, políticos, literários e filosóficos.
Primeiro porque tivemos de dar importância unicamente para a rádio. A rádio, hoje, é um veículo quase tão relegado quanto os jornais impressos, nestes tempos de “fast food”, de consumo rápido de notícias, o teaser e a impressão de que se sabe por completo do que aconteceu, tempos de internet e TV. Ambos dependentes de megawatts ou quilowatts, e a rádio lá, Bandeirantes, Jovem Pan, Globo, reunindo até jornalistas esportivos que passaram a ancorar suas equipes em torno do apagão que já se alastrava pelo sudeste tupiniquim e outros tantos ouvintes, em torno de um aparelho, como se os anos 50 e 60 materializassem um longo flashback daquelas famílias que ficavam à sala para acompanhar o programa de áudio preferido. Qualquer rádio de notícia ontem deve ter batido recorde de audiência.
Na saída da academia até o carro, a cena destoante. Alguém deixava o rapaz de camiseta regata na porta da academia, e ele descia atônito, olhando para o espaço incrédulo, lançando um quase olhar de indignação pela ausência de luminosidade. Abriu os braços, o bocó, ainda segurando a garrafa com proteína na mão direita. Ficou um minuto lá, o bocó, esperando que num estalar de dedos a luz voltasse só para que ele fizesse a sequência de tríceps e peito, sendo que bastava ele exercitar a mente. Mas a mente, enfim, deu um estalo, e o bocó voltou para o carro e foi embora. Creio que, neste momento, o bocó há de entender a situação, do contrário é muito mais do que bocó.
Nos sete ou oito minutos até a casa, a rádio do carro cantava a situação do caos, relembrando aquele apagão de uma década, buscando as causas e as consequências. Depois, sem ligar ou tirar fotos com flash, ao menos o celular sintonizou na frequência modulada, e a fome bateu, e bateu forte. As quatro velas que já estavam de prontidão serviram para preparar um jantar, e a mãe cozinhava o arroz enquanto eu preparava o molho com queijo para aquele risoto esperto, e o pai chegava do trabalho, contando que havia ficado preso no metrô, mas sorte dele que estava parado justamente na estação. Foi à geladeira e achou a lata de cerveja que já não estava no ponto ideal, abriu e começou a espremer laranja para complemento da refeição improvisada quase à meia-noite.
E lembrei de Saramago. Saramago ensaiou uma vida onde todos eram cegos, mas bem que podia escrever um complemento em que a luz deixasse de ser presente. Imaginei o caos, aí, sim, que seria neste momento de nossa existência regredir uns tantos séculos se a transmissão de energia elétrica acabasse, assim, sem avisar. Homens da idade das cavernas tendo de se readaptar a um novo mundo, buscando alternativas, e sem a internet e a TV, que se tornariam, na verdade, coisas supérfluas diante da necessidade prioritária de alimentação, após nosso lindo povo saquear os supermercados e terminar com sua comida em estoque. O arroz pronto me fez encerrar o pensamento que ia longe. Sentei no chão, mesmo, sei lá por que, talvez por ter me revestido do espírito de um australopitecus, e mandei ver. Mãe e pai cortavam em cubos o que restou do provolone, e lá estava a família reunida como nos últimos anos não esteve.
Lavei a louça e me deitei no sofá com o celular do lado. Falavam as autoridades, o prefeito, o diretor da ANEEL, o representante de Itaipu via comunicado, o jornalista que é mais que a notícia, e peguei no sono, mas aquele sono em que ainda se consegue prestar atenção no que se ouve; o cérebro da gente é uma maravilha, diria minha avó, se eu a tivesse conhecido. Uma hora e tanto depois, passando calor e desconfortável, me preparava para o sono completo. Foi quando a luz voltou.
Diferente do que pensei, a cidade voltou em silêncio. Desci, abri a porta, olhei ao redor. Duas ou três pessoas ali no prédio faziam o mesmo. Tinha gente até ali na praça, conversando. O computador saía do stand-by, a internet e a TV de volta, o programa do Jô que mostrava justamente a entrevista com Ronaldo, os parcos negos no MSN, o Twitter só atualizado de quem estava lá pra cima, quase nenhum e-mail na caixa. Os sites, todos, manchetando em letras garrafais o apagão, e enfim a noção de que havia um certo apavoramento por parte de alguns, iniciada até pelo jornalista que é mais que a notícia, desesperado no caminho para um encontro de negócios, e nego até falando que hackers invadiram Itaipu, e um amigo me contando que a esposa de um outro jornalista reclamava deste por conta do plantão extraordinário, e ele explicando o óbvio da profissão, e ela não entendendo, achando provavelmente que se tratava de uma desculpa. E eu logo vi que horinhas sem luz levam a uma ausência de raciocínio, quase uma lobotomia, porque a grande maioria das pessoas se acomodou na confortabilidade e na rotina do mundo e passa mais o tempo a reclamar do que fazer, a ser o passivo, esperando que o mundo faça o que deveria ser feito por elas.
No fim das contas, o apagão mostrou que muitos apagam junto, por simbiose. Saramago bem que podia traduzir naquele seu modo peculiar esse novo enredo da vida moderna.
Autor: Victor - Categoria(s): Outros
Tags: Apagão, José Saramago, luz, São Paulo
26/10/2009 - 11:15
SÃO PAULO | Giorno a todos. A BMW passa por sério contratempo financeiro, e seus últimos atos comprovam que enxugar os gastos tem sido mais do que necessário. O anúncio da saída da F1 foi seguido pela decisão de acabar com a F-BMW nos EUA e na Ásia.
Durante o GP do Brasil, Augusto Farfus Jr. comentou que a situação também poderia afetar a presença da BMW no WTCC, embora quisesse continuar vinculado à montadora — até apontando uma ida para os EUA em 2010.
Ao que me falou uma coruja esguia, a BMW resolveu que vai permanecer no Mundial, com operação reduzida — e isso envolve investimento e até carros cortados. Da mesma forma que a SEAT, por exemplo, que hoje vai diminuir de cinco para três o número de veículos de competição na categoria.
Autor: Victor - Categoria(s): Outros
Tags: Augusto Farfus Jr., BMW, SEAT, WTCC
02/10/2009 - 16:44
SÃO PAULO | E foi o Rio.
E confesso que gostei. E não é preciso repetir todo um discurso que já tá mais do que maçante, aquele de que não é torcer contra, mas que, ao que o histórico de nossos gloriosos dirigentes e aspones aponta, os eventos são meros panos de fundo de desvio financeiro. É legal quando literalmente a gente se torna o centro do mundo. Justamente pelo que Lula falou após o anúncio da sede, algo na linha de que não nos sentimos colônias e que chegamos ao topo.
Copa e Olimpíada. Os dois maiores acontecimentos esportivos no espaço de três anos. Goste-se ou não de Lula, é uma vitória pessoal e história de um político muito mal visto por parte da população por sua origem humilde, que não aceita sua ascensão à presidência por um preconceito do qual todos têm ciência. A simbologia de ter ganhado de Barack Obama é a confirmação de sua influência no cenário mundial, principalmente por ter mantido o país relativamente no eixo diante da crise mundial. Tivesse o Brasil sofrido consequências devastadoras, o resultado de hoje teria sido diferente.
Não que uma eventual derrota teria resultado diferente, mas o 2 de outubro é a eutanásia do grandioso autódromo de Jacarepaguá, relegado pela própria CBA, na gestão anterior, de Paulo Scaglione, e assim mantido pela atual (?), a de Cleyton Pinteiro. Aliás, Pinteiro e seus asseclas andam meio perdidos, e por isso seus vices na entidade não andam muito contentes. E quase todos estão bem descontentes com outras pessoas que acharam que ganharam poder. Todos coniventes, enfim, com o fim de uma história de três décadas daquele que para muitos era a grande praça do automobilismo nacional. Canalhas.
O resto do dia vai em no ritmo de feriado. Depois, é trabalho. Principalmente nosso. Para fiscalizar aqueles que há tempos acham atalhos rumo às caixas fortes da vida.
Autor: Victor - Categoria(s): Outros
Tags: Jacarepaguá, Olimpíadas 2016, Rio de Janeiro
28/09/2009 - 11:17
SÃO PAULO | Adoro o Rio. Mesmo. E isso vale muito para quem não vê São Paulo muito bem, como eu. São ambas duas polis problemáticas, entregues a questões burocráticas e políticas que se enraízam por todo o país. Se eu tivesse de escolher, iria pra lá só pela praia e pra me livrar do sacal trânsito paulistano. E justamente porque São Paulo e Rio funcionam nesse modus operandi em que os fins representam lucros a poucos é que é inaceitável que um evento da grandeza de uma Olimpíada seja realizado no Brasil.
Até segunda-feira que vem, acompanharemos no noticiário que o Rio é a melhor praça do mundo desde que o mundo era a Pangeia. O resto do mundo, que se resume a três cidades, é desprezível. Chicago é quase um cacófato, Tóquio é um poço de terremotos e Madri é o epicentro de uma guerra civil que não explode entre as etnias espanholas. Ninguém faz chacota ao falar Rio, não há terremoto no Rio e o máximo de conflito que pode haver no Rio são com dois ou três membros de facções ligadas ao tráfico que se comportam quando competições esportivas surgem, vide o Pan.
E pró-Rio, vale tudo.
Não tem muito tempo, foi amplamente noticiado que os moradores de Chicago haviam criado um site porque não queriam que os Jogos fossem realizados lá, promovendo uma torcida ao Rio.
Pois o site foi feito no Rio. Só conferir clicando aqui.
E não acharia estranho ou escabroso, um despautério ou um descalabro, saber que foi preparado por gente que está envolvida na candidatura do Rio. Porque para vencer, a gente já viu em outras situações e em outros esportes, vale tudo. O tempo apaga depois os erros.
Autor: Victor - Categoria(s): Outros
Tags: Jogos Olímpicos, Rio de Janeiro
23/09/2009 - 10:52
SÃO PAULO | No Grande Prêmio, costumamos ter um espaço que se chama Tamanho Real, para realçar uma foto marcante de um fim de semana ou de um fato expressivo. No começo desta semana, foi colocada uma imagem de um fiscal com uma roda solta do carro de Alex Brundle durante uma das provas da F2 em Ímola.
O assessor da categoria, Simon Melluish, entrou em contato para fazer uma observação. “A foto está em nosso site, mas faz parte de uma sequência, que mostra que o cabo funcionou bem. Ele foi cortado pelos fiscais como parte do processo de recuperação”, disse.
“Não é uma questão grande”, adiantou Melluish”, mas a foto poderia sugerir que a roda foi perdida como parte de um acidente, e isso pode às vezes levar a uma incorreção, particularmente depois dos tristes acontecimentos desta temporada.”
Henry Surtees morreu em decorrência da gravidade do choque de uma roda que se soltou do acidente de Jack Clarke em Brands Hatch, há dois meses. Abaixo, a sequência de fotos:
Autor: Victor - Categoria(s): Outros
Tags: Alex Brundle, F2, fotos
21/09/2009 - 13:26
SÃO PAULO | A A1GP, categoria lançada por aquele xeque árabe, o Maktoum Hasher com mais 712 Maktoums, divulgou hoje seu calendário. E tá lá, bonitão, o Brasil.
Data de realização da prova da tal categoria das nações: 14/3.
14/3 marca a abertura da temporada da F1, no Bahrein. Mais: 14/3 é a data de abertura da Indy.
Daquela prova no Brasil.
O circuito, bem como acontece na Indy, não foi divulgado. Marcus Lellis falou há pouco com Chico Rosa, administrador de Interlagos, que lhe confessou que a data está reservada para a A1GP.
É de se coçar o queixo e soltar um longo hum…
Autor: Victor - Categoria(s): F1, Outros
Tags: 14 de março, A1GP, calendário 2010, F1, Indy