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31/10/2009 - 12:55

O homem das pistas sem vida

TilkeSÃO PAULO | Um belo dia em 1984, Hermann Tilke, que teve passagens breves pelo automobilismo, resolveu que deveria ter uma empresa em seu nome em prol do esporte onde não teve sucesso como piloto. Colocou o nome sugestivo de Tilke Engineering e escreveu no currículo e nos classificados da época que se especializaria em obras em que pudesse unir seu expertise em arquitetura, engenharia civil e eletrônica. Começou pelas beiradas e chamou atenção por construir uma estrada para levar os fãs ao periférico autódromo de Nürburgring. Chamou atenção, na verdade, de Bernie Ecclestone, isso já lá no meio dos anos 90.

Aí Bernie convidou Tilke para uma conversinha, e dela saiu um acordo, meio que em tom experimental, para que o arquiteto revitalizasse o velho autódromo da Áustria, o Österrichring. As longas e lindas curvas e retas foram reduzidas a uma pista de pouco mais de 4 km. Bernie adorou, oh!, e a recompensa de incluir o que passaram a chamar de Zeltweg no calendário da F1 a partir de 1997 funcionou como trampolim para a carreira de Tilke.

A sanha financeira de Bernie, seu “Go-East”, encontrou seu braço direito. A Malásia apareceu na vida do manda-chuva da F1, e lá foi Tilke conceber Sepang. A China achou magnífico, “quelemos colida”, e aí Tilke foi lá agradá-los usando um logograma do alfabeto local como base para o circuito que nasceu em Xangai. Os árabes tinham de enfiar seu dinheiro na F1, Bernie um dia pensou, e aí foi no inóspito Bahrein que Tilke fez um circuito no deserto.  

Os tilkódromos já delineavam suas características: retas longas e freadas bruscas. Era uma ou outra curva ali que trazia emoção e alta velocidade. Os autódromos em si eram mais bonitos pela forma do que pelo conteúdo, obras parnasianas do automobilismo.

Daí mostraram para Tilke um projeto em Kurtkoy, uma cidade contígua a Istambul, cheia de aclives, para mais uma praça que deveria receber a F1. Iluminado, fez uma pista que agradou todo mundo. A tal curva 8, de quatro pernas, foi comparada à Eau Rouge belga quando feita com carros com os motores V10 e V12. Ao arquiteto, finalmente, tiraram o chapéu de forma unânime.  

Outros começaram a ver no arquiteto a única solução do esporte a motor e deram-lhe o desafio de desenhar pistas de rua. Os chineses o chamaram para bolar o traçado de Pequim. Uau!, e Tilke virava também um ótimo rabiscador urbano. Bernie deu Cingapura e Valência em sua mão, enquanto a Indonésia pediu que se encarregasse de fazer um circuito na capital Jacarta. Neste espaço de tempo, entre 2006 e 2008, Tilke também foi o responsável pelo autódromo de Bucareste, na Romênia.

Hoje, qualquer um que pense em erguer uma praça onde ronquem motos ou carros, tem de pensar em Tilke. A Cidade do Cabo, na África do Sul da Copa do Mundo, a Coreia que vai receber a F1 no ano que vem, a Rússia que não quer ficar de fora e vai fazer uma pista para ter a MotoGP e depois a F1, até o Cazaquistão e a Venezuela, e a Índia.

E Tilke fez Abu Dhabi. O dinheiro dos Emirados Árabes é imenso, como se nota. Dubai há muito tempo deixou de ser um polo petrolífero para se transformar talvez na maior cidade que vive de turismo no mundo. É espetacular. Abu, como capital do país, começa a seguir os mesmos passos. O complexo do circuito à beira da marina construída neste ano é um primor, uma excelência. O único pecado é justamente o que deveria ser mais importante, a pista. É a pior que Tilke fez em todos estes anos como o único homem que o mundo considera para tal atividade. É uma expressão máxima e extremista de sua preferência, a de botar o motor ao máximo e usar o freio para reduzir quatro ou cinco marchas violentamente.

Os dois dias de treinos da F1 lá, no crepúsculo dos dias, são mais válidos pelo cenário. Bastou reparar na preocupação que a direção de TV teve em mostrar os barcos e a tal marina, o sol se pondo, os ricos empresários árabes com seus alvos turbantes, o parque da Ferrari, o latifúndio de areia ali perto e o hotel com cobertura colorida. Os carros na pista, também porque a corrida em si pouco vale, eram quase mera consequência de um acordo que movimentou bilhões.

Então o novo automobilismo vai se tornando algo insosso, resultado de uma cabeça que um dia Bernie achou brilhante. Não é nenhum pouco à toa que os fãs fazem apologia a Spa, acharam um absurdo a mutilação de Hockenheim — que resedenhou aquela titica diminuta —, adoram até mesmo à atual configuração de Interlagos e se empolgam com as corridas e decisões daqui. Estas pistas todas aí, tirando a da Turquia e, passando na recuperação Sepang, não têm personalidade.  As pistas novas não têm vida, e logo hão de se transformar em elefantes brancos quando der o estalo em alguém ou quando Bernie vir a deixar este brinquedo todo.

Aquele belo dia em 1984, ao fim e ao cabo, não foi tão belo assim.

Autor: Victor - Categoria(s): F1 Tags: , , , ,

54 comentários para “O homem das pistas sem vida”

  1. Eduardo Azeredo disse:

    Vou ficar com o que disse o Mark Webber na Sexta-Feira – “Não é nenhuma Spa, mas também nenhum Barein”. É uma pista plana, mas é interessante. O problema são as áreas de escape grandes (que para os padrões atuais são até pequenas) e quase sempre asfaltadas.

    Pras pistas, hoje em dia, é melhor que a F1 passe longe. Pois as reformas só tem piorado as pistas. Culpa da FIA e dos próprios pilotos.

    • Marcus Lins disse:

      Concordo contigo…

      Esse excesso de segurança vai transformar a F1 em autorama. Se os pilotos não querem riscos, que joguem video game, ou corram de bicicleta!

      A única coisa boa de Abu Dhabi foi o novo muro absorvedor de impacto plus… se trouxermos os muros pra mais perto da pista, acaba esse baile por fora dela… Malditas áreas de escape asfaltadas!

  2. Carlos disse:

    Olha não sou muito fã desse blog mas gostei bastante das matérias. Realmente tirando Sepang e a excelente Turquia, todos os outros autodromos feitos por ele são iguais: reta curta, reta oposta longa e traçado travado. Parece que adotou um modelo no computador, achou que deu certo e usou para todas as pistas. Assim, qualquer um faz…..

    Tenho saudades de hockenheim antigo (tudo bem, a questão da segurança pesou)….

  3. veber disse:

    eu não concordo,, acho que estamos sendo muito exigentes,, não se esqueca que pedem algo para Tilke,, tipo a pista tem que passar pelo hotel,, então o cara tem que fazer,, a única alteração que eu aconselharia a fazer é diminuir a extensão das pistas,, deixar sempre entre 4 km até 4,5 km,, isto porque está provado que pistas mais curtas são melhores para os espetaculos e para o publico,, alem do mais os carros andam mais próximos,, no mais vejam,, nenhum piloto bateu em muro algum,, ninguem se machucou e isso a imprensa não fala,,

    • Marcus Lins disse:

      Contudo, veber, não bateram pq os erros não são “punidos”… com áreas de escape asfaltadas, perde-se muito pouco ao se exceder o limite. Contudo, perde-se o suficiente para não ser possível ultrapassar por meios pouco ortodoxos (além da punição certa que se toma).

      Com o excesso de segurança, daqui a pouco a F1 fica igual à Fórmula SAE… se um carro estiver mais rápido, sai de lado e deixa passar pra evitar batidas.

      F1 não é autorama! NInguém bater no muro é sinal de pista condescendente com erros dos pilotos…

  4. Joseni Gouvea disse:

    Este cara está matando a F1.Nos circuitos projetados por ele é proibido ultrapassagens.Quando veremos novamente o drible de Mansel em Piquet no GP da inglaterra/1997, no rapido e histórico circuito de Silvestone.Esse cara acabou com Hockenheim e também com o belo circuito da Áustria.
    Graças a “DEUS” ele não colocou a mão em Interlagos.Ímola após a modificação da TAMBURELLO, também perdeu a graça.Quem não se lembra dos pegas incríveis de Senna/Prost, Senna/Mansel, Bergue/Mansel, na sequencia maravilhosa da Tamburello e a Toza.Infelismente após a morte de Senna, acabaram também com Ímola, que junto com Spa são os verdadeiros grandes circuitos para que gosta de F1.Velhas lembranças.

    • Marcus Lins disse:

      Com as tais novas barreiras de proteção de Abu Dhabi, bem que poderiam refazer a Tamburello.

      E nunca entendi direito o estupro que fizeram em Hockenhein… as árvores já não estavam ali a anos, toda a natureza já tinha se adaptado àquelas circunstâncias… aí vem um bando de ecochatos e comete uma atrocidade daquelas…

  5. Victor Targino disse:

    CONCORDO 100% COM O TEXTO

    vcs assistem as corridas? comparem as das pistas do tilke, com pistas de verdade, como Spa, Suzuka, Interlagos, Monza, Melbourne e vejam qual que tem mais ultrapassagens.

    FORA TILKE, PARE DE SUJAR A F1

  6. Verde disse:

    Sakhir tem ultrapassagens. Passo na recuperação também.

    O problema não é exatamente técnico, na verdade. Sakhir, Shanghai e Sepang costumam apresentar os maiores números de ultrapassagem por temporada. Na verdade, o que pega é a falta absoluta de uma cara esportiva à pistas.

    Sim, isso é importante. Spa, Interlagos, Monza, todas essas pistas, com sua velocidade e seu cenário belo e natural, foram as responsáveis por atrair milhões de fãs para esse esporte tão distante conhecido como automobilismo. O “coliseu” para que isso tudo aconteça deve trazer a sensação de velocidade e competitividade para pilotos e espectadores. E não é com petrodinheiro infinito que se consegue isso.

    As pistas, em si, são até melhores do que muitas feitas nos anos 80 e 90. Eu prefiro muito mais Abu Dhabi a Dijon, Jarama, Jerez, Estoril, Detroit, Dallas, Caesar’s Palace, Anderstorp, até mesmo Jacarepaguá. O problema é a cara insuportável de pista emergente e estúpida feita para gente emergente e estúpida.

  7. Marcus Lins disse:

    É hora de, ao menos, tentarmos agir.

    Não encontrei um contato adequado com a FIA ou a FOM, mas achei o email da FOTA. Mandei um pra lá dizendo, entre outras coisas que “não adianta as equipes gastarem milhões com alterações nos carros buscando aumentar as ultrapassagens, sem alterar certos circuitos”.

    Se quiserem tentar, segue o mail: info@teamsassociation.org

    Amplexos!

  8. Rodrigo Martins disse:

    Muito bom o post.
    As pistas de atualmente não tem a menor graça.
    Hoje em dia os circuitos são feitos todos quase que “totalmente planos”, sem subidas ou descidas, como Spa, Interlagos e outros circuitos antigos. Sem curvas cegas ou em descida, sem retas em aclives e declives. Circuitos planos e sem graça.
    Uma pena…
    Que bom seria ter Le Mans e Donington Park na F1!!!

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