Surfando no sofá alheio, em Istambul
Se você for para Istambul, recomendo que fique na casa do seu amigo turco para não gastar dinheiro em um hotel.
Ah, você não tem um amigo turco em Istambul? Pois arrume um já!
É o que eu fiz pelo CouchSurfing, um site que já é hit mundial entre os mochileiros e qualquer outro viajante que prefira não pagar hospedagem e goste de fazer amizades novas. (Só no Brasil tem quase 81 mil membros).
Fiquei na casa do Erol Fazlioglu, 39 anos, engenheiro e conhecedor de capitais mundiais. Ele até me preparou café da manhã turco todos os dias: chá, queijo, verduras e pão tostado.
Como funciona o CouchSurfing? Você cria um perfil no site (de graça), e os outros membros podem entrar em contato com você para ver se seu sofá (ou cama extra, ou rede, ou colchão no chão da sala) estará disponível nas datas que precisa. Você pode fazer o mesmo quando viajar.
À primeira vista, parece um milagre: um tipo de Hoteis.com de graça, com disponibilidade em quase todas as cidades do mundo. Mas aprendi nos últimos meses que não é precisamente tão fácil. Nem deve ser.
As rejeições são comuns para os principiantes (como eu). Um lugar para dormir pode não custar nada de dinheiro, mas custa tempo e criatividade.
Para vocês evitarem os problemas que eu enfrentei, vou compartilhar minhas duas experiências, na França e na Turquia. (CouchSurfers brasileiros, contem as suas nos comentários!)
Buscar um sofá é como se candidatar ao emprego
Cheguei à França – em Nice – no final de maio, pensando em ficar em albergues por cinco noites. Não tinha feito reserva – erro! – e nenhum albergue (nem hotel barato) da cidade tinha disponibilidade no sábado, 28 de maio, um dia antes do Grand Prix de Mônaco. Eu já tinha um perfil no CouchSurfing, mas nunca tinha usado. Era isso, ou dormir na estação de trem.
Busquei Couchsurfers na área e escrevi breves pedidos a cinco ou seis deles. Fui rejeitado por todos. Ah, pensei, seria pela data, ou pelo pedido feito meio em cima da hora. Até receber a resposta negativa de um cara chamado de Yves.
Ele me escreveu: “Como verá no meu perfil (o qual você obviamente não leu) seu pedido está longe de atender aos meus pré-requisitos… assim que não é uma surpresa que minha resposta seja negativa.” Yves ainda me disse que teria sido muito legal se eu tivesse ficado na casa dele – um francês que fala português de Portugal conversando com um americano que fala português do Brasil e bebendo caipirinhas.
Que mala, pensei. Mas quando li o perfil do Yves, no qual ele pede que você escreva exatamente por que você acha que se daria bem e se divertiria com ele, eu mudei de ideia: eu fui o mala. Ele foi até legal de me explicar o que eu havia feito de errado. A lição: buscar um sofá pelo CouchSurfing não é como reservar um hotel online, é como se candidatar para um emprego. Você precisa escolher com cuidado a “empresa” para a qual quer “trabalhar”, e mandar uma “carta” mostrando que você seria o candidato ideal para o “posto”.
Tentei de novo em Istambul. Já tinha colocado mais detalhes no meu perfil, com mais fotos nos quais aparento ser a pessoa mais simpática e confiável possível.
E escrevi para meus possíveis anfitriões. “Adorei sua foto na bicicleta”, disse para um tal de Soner. Rejeitado. Para um italiano de Nápoles que estava morando em Istambul, narrei com detalhes sobre quanto gostava da cidade natal dele. Rejeitado. Etc, etc. Rejeitado, rejeitado. Droga.
Ter referências sempre ajuda
Percebi mais dois problemas. Primeiro, sou homem, e todo mundo prefere (ou confia mais em) mulheres como hóspedes. Esse problema não ia se resolver sem cirurgia. Segundo, o fato de ser principiante no CouchSurfing significava que no meu perfil não tinha referência nenhuma de membros que tinham me recebido em suas casas, nem dos que tinham ficado na minha.

Meu anfitrião, o Erol, se prepara para comer um sanduíche típico (e barato) de Istambul: peixe e verdura
Consegui resolver esse último problema: fiz uma busca no site para encontrar os membros recém-cadastrados em Istambul. Quem não tem referências não pode pedir referências, pensei. E mandei uma mensagem a Erol, que começou com “Você é novato ao CouchSurfing? Eu também!”
Deu certo! Erol falou que tinha adorado o fato de eu ter aprendido todas as capitais mundiais quando eu era criança (algo que está no meu perfil), pois ele tinha feito a mesma coisa. E não foi só isso, ele começou a me mandar mapas de como chegar à casa dele, e me perguntar o que eu queria fazer em Istambul, que ele estaria livre nos dias que eu ia ficar na cidade.
Beleza. Visitamos mesquitas e galerias de arte, comemos lambacun (um tipo de pizza turca) e até fomos a um banho turco onde te lavam, dão massagem e esfoliam uma quantidade nojenta de células da pele morta. Erol me ensinou a palavra mais útil do idioma, “az,” que significa “quero só um pouquinho de açúcar no meu café turco (esse que parece lama).” E fomos tomar “brejas” na rua de Nevizade, que é lotada de bares. (Erol é de família muçulmana, mas não é praticante – assim que não seguia a proibição de álcool do Islã).
Quando nossa conversa foi atingida por um desses momentos de silêncio constrangedor, nós fizemos um jogo sobre as capitais mundiais. (Sim, ele acertou Brasil-Brasília, minha primeira pergunta, óbvio. Nada de Buenos Aires.)
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Aula de cultura turca
A visita às atrações turísticas, até eu poderia ter feito sozinho. Mas o que fizemos no último dia, não. Erol tinha um amigo que morava na ilha de Buyukada, uma das pequenas “Prince’s Islands” que ficam a uma hora da cidade por barco e servem de escape para os moradores de Istambul durante o verão. São lugares bem charmosos e montanhosos, com casas antigas, vista para o mar e, a melhor parte, nenhum veículo motorizado. Os habitantes e turistas circulam a pé, de bicicleta ou nos “táxis” (que são carruagens a cavalo).
O amigo de Erol nos encontrou no porto e nos levou para fazer compras. Depois subimos e subimos e subimos um morro – até chegar ao apartamento dele, com vista panorâmica das outras ilhas, e vista de perto das famílias de gaivotas que moravam nos tetos das casas vizinhas.
Lá Erol e eu ficamos sentados na varanda, tomando raki (um licor turco com sabor de anis) e conversando, enquanto o amigo preparava um jantar de peixe. Comemos com queijo turco, salada russa, e pão, apreciando o pôr-do-sol. Adoraria dizer que conversamos exclusivamente sobre política, filosofia e arte, mas como somos três homens solteiros (e meio infantis), nosso anfitrião também nos mostrou como ele consegue espantar as gaivotas nos tetos vizinhos com um apontador a laser (desses que usam para apresentações). Mas como somos homens sensíveis, não espantamos as gaivotas pais de família, só os solteiros.
Óbvio que conversamos também sobre as mulheres. Expliquei as “regras” de paquerar e namorar nos Estados Unidos e no Brasil, e perguntei como funcionava na Turquia. Decidi tirar minha maior dúvida. “Vocês namorariam uma mulher que usasse véu?”
Esperava palavras politicamente corretas tipo “Seria um pouco diferente, mas claro que dependeria da mulher e da situação. Tudo é possível.”
Mas não foi assim que eles responderam. A verdade é que nem responderam, ficaram aturdidos. Se entreolharam. “É que nunca pensei nisso,” falou um deles – nem lembro qual – e o outro concordou. Não era que o fato de uma mulher usar ou não véu fosse irrelevante. Pelo contrário, era tão longe da realidade deles, que ambos nunca tinham pensado na possibilidade de namorar alguém assim. Seria como se eu tivesse perguntado “você namoraria uma mulher com quatro olhos?”
Existem muitas coisas sobre a sociedade turca que um estrangeiro como eu não consegue entender numa só visita ao país, nem em dez. Mas foi um bom começo descobrir esse abismo que existe entre os turcos religiosos conservadores e os turcos agnósticos liberais, como Erol e seu amigo.
Uma revelação que devo 100% ao CouchSurfing, com um agradecimento especial para o seu membro mais cara-de-pau, o Yves.
- Leia também: Seth erros para evitar no CouchSurfing… e em Istambul
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Autor: Seth Kugel Tags: couchsurfing, Europa, Istambul, Turquia, Viagem barata











