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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012 Destinos Internacionais | 06:50

O que os brasileiros me ensinaram sobre Portugal, e a realidade

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Nunca cheguei a um país com tanta expectativa, e tantos preconceitos.

O local: Portugal.
A razão: quase tudo o que eu sabia do lugar antes de chegar veio de uma fonte duvidosa – os brasileiros.

Comecei a estudar português em 2003, visitei o Brasil pela primeira vez em 2004, e, em 2008, passei a morar no Brasil. Francamente, nunca dei muita bola para Portugal, apesar de ser o país que colonizou o Brasil e ser o lugar de origem dos antepassados de muitos brasileiros. Mas sem querer, absorvi muita “informação” sobre Portugal dos brasileiros, sem nem pensar se era verdade, exagero, ou pura mentira.

Vista geral de Coimbra, Portugal

Qualquer país gosta de tirar sarro dos seus ex-colonizadores. O exemplo que conheço melhor é o dos EUA e da Inglaterra. Segundo os norte-americanos, um inglês é alguém que:

  • Tem dentes feios e deteriorados
  • Come comida insípida
  • Toma chá o dia todo, e cerveja quente a noite toda
  • Mas, pelo sotaque elegante, parece tão inteligente e sofisticado e pode falar para um americano que dois mais dois são cinco e o americano vai acreditar.

É muito interessante comparar a imagem do país com a realidade. A última vez que estava na Inglaterra vi pelo menos algumas pessoas com dentes bons, mas ainda não acreditei na quantidade de chá que todos consomem.

Leia também: Passeios gratuitos em Portugal

Agora vamos lá com o que os brasileiros me ensinaram sobre Portugal, e a realidade que encontrei.

- É impossível entender os portugueses, pelo seu sotaque esquisito e suas palavras mais ainda.

Até soube que alguns filmes e algumas novelas portugueses são dublados em “brasileiro” (e vice-versa). E já ouvi vários brasileiros falarem que é mais fácil entender argentinos falarem espanhol do que um portuga falar português.

Vista de Coimbra, Portugal

Já sabia isto, mais ou menos, de algumas experiências com portugueses no Brasil e de alguns clips de futebol do YouTube com apresentadores portugueses (que no começo achei que fossem árabes, sério). Mas nada havia me preparado para o que encontrei em Portugal. Luísa, uma amiga portuguesa que veio me pegar no aeroporto do Porto (o aeroPorto?) me mandou um torpedo, dizendo que estava me esperando “junto à paragem de autocarro”.

Junto a que de quê?

Foi pior quando começamos a falar em português. (Quase sempre tinha falado inglês com ela até esse momento) Tive que prestar muita atenção e me esforçar muito para não rir da total falta de vogais. A pronúncia mais esquisita dela era a palavra “porque”, que juro que pronunciou “pr-q”. E não era só ela – logo percebi que era um país inteiro que parecia falar sem vogais, e alguns parecem nem abrir a boca. Sério. O país deve ter os melhores ventríloquos do mundo.

Saiba mais: Brasil e Portugal, uma saborosa relação

Botei no Twitter: “Acho que quando Dom João VI transferiu a corte real pro Brasil em 1807, levou as vogais consigo!”. (Alguns portugueses que me seguem no @tuitesdo7 não gostaram muito disso. Ms fzr o q, né?)

"Raparigas" nos uniformes da Universidade de Coimbra

No começo, quase não entendi ninguém – quando liguei para uma pousada (desculpa, hospedaria) em Coimbra, o senhor que atendeu me explicou que o quarto era 30 euros “sm peqn almç”. Pedi que repetisse várias vezes, mas até muito depois caiu a ficha: era “sem pequeno almoço”, que no Brasil seria “sem café de manhã”. Pouco a pouco me acostumei, aprendendo que ementa é cardápio e rapariga não é nenhum insulto. (“Rapazes e raparigas” virou minha frase favorita) Só não consegui lembrar de “autocarro”, saiu sempre “ôni-ups-autocarro”.

- Os portugueses tomam tudo o que você fala para eles ao pé da letra.

Parece que cada brasileiro que vai a Portugal volta com a mesma história: chega o elevador e pergunta para o português lá dentro “Tá subindo ou descendo?” e o tadinho do portuga responde “Tá parado”. De tantas vezes que ouvi a história parece que Portugal é o país com mais elevadores do mundo.

Não escutei nada tão absurdo e só uma vez ouvi algo parecido. Quando fui para o ótimo Museu Académico em Coimbra, que fica dentro de um prédio grande da Universidade de Coimbra, a porta estava fechada e tive que abrir para entrar. Perguntei ao senhor na recepção: “O museu está aberto?”. E me respondeu: “Acabas de entrar ou não?”. Nem sei se era piada ou não.

Homem idoso passa em frente do Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra

Mas percebi que os portugueses nem sempre reagiram tão bem à minha atitude meio-abrasileirada de brincar e ser extrovertido com os desconhecidos. Em Coimbra há um parquinho chamado “Jardim da Manga”, que não tem nenhuma mangueira, só laranjeiras. Achando esquisito, entrei no restaurante do lado (que também se chamava Jardim da Manga) e perguntei de muito bom humor o que tinha acontecido com as mangas do Jardim da Manga. Olharam-me como um maluco e em vez de explicar me deram um panfleto que explicava a história do lugar sem mostrarem nem um sorriso. (O nome do jardim deriva de quando o Rei João III passou pelo lugar e, vendo uma área vazia, desenhou um jardim na manga da sua camisa)

- Portugal é um país atrasado e irrelevante.
Bom, é óbvio a todos que as coisas não vão muito bem em Portugal. Mas irrelevante?

Grafite feito por alunos da Universidade de Coimbra mostra a frustração econômica dos portugueses

Minha impressão: comparado com o Brasil, um país em ascensão econômica e geopolítica, está virando meio-irrelevante mesmo, e os portugueses sabem disso. É um contraste grande com a relação entre os Estados Unidos e o Reino Unido, dois países com muito respeito mútuo (não sempre, mas em geral) e muito mais intercâmbio cultural, intelectual e político do que percebi entre Portugal e Brasil.

Foi durante minha estadia que o jornal The Guardian publicou uma matéria mostrando quantos portugueses estavam emigrando para Angola, Brasil e outros lugares. As áreas rurais que visitei eram povoadas quase só por idosos. Um português que conheci me disse com tristeza: “Portugal não produz mais nada”.

- Portugal é a fonte da paixão irracional que os brasileiros sentem pelo bacalhau.

Sempre achei esquisito que os brasileiros adorassem tanto o bacalhau. Segundo minha forma de pensar, bacalhau preservado com sal deve ser coisa do passado, da época das viagens de grande distância em barco.

Açorda de bacalhau no restaurante Ar de Rio

Por isso, é ilógico insistir em bacalhau na sua forma salgada quando se poderia ter bacalhau fresco. É igual a preferir suco de polpa ao suco natural da mesma fruta. (Os leitores são bem-vindos a defender o bacalhau deixando um comentário abaixo)

Bom, nisto minha informação sobre Portugal era certíssima. Se no Brasil o bacalhau é muito popular, em Portugal é venerado.

Admito que preparado bem, o bacalhau pode ser até bom. Luísa me levou a um restaurante chique lá em Vila Nova de Gaia, Ar de Rio, situado na beira do Rio Douro com uma parede de vidro e uma vista dos prédios históricos do Porto do lado de lá do rio. Ela queria que eu provasse a açorda de bacalhau. Admito que o prato parecia maravilhoso: um verdadeiro morro de migalhas de pão em cima do peixe com pequenas batatas ao lado.

E estava delicioso (e bem barato: 17 euros – ou seja R$ 38 – para duas pessoas). Mas não parei de pensar em que delicioso seria se fosse feito com bacalhau fresco.

- Apesar de alguns produtos portugueses (como o fado), o país depende do Brasil para sua cultura popular, como novelas e música.

Acho que nisso eu estava meio-errado. Em vez de encontrar um Portugal fascinado pelas novelas brasileiras, por exemplo, achei os portugueses orgulhosos de estar produzindo as suas próprias novelas e pouco a pouco curando-se do vício das novelas brasileiras.

Mas a música brasileira aparecia muito, desde minha primeira noite no país: eu sentado no restaurante Democrática comendo chanfana (guisado de cabra com molho de vinho tinto) ao lado de um grupo enorme de alunos universitários que começaram a cantar. O quê? “Ai se eu te pego”, óbvio.

O castelo de Bragança: um exemplo dos lugares antigos que não existem no Novo Mundo

Nossa, tudo isso parece tão negativo, acho que não dá para perceber que adorei meu tempo em Portugal. Adorei mesmo. Semana que vem conto mais, mas vamos começar com algumas coisas que são muito melhores em Portugal do que no Brasil. Primeiro, quase tudo é mais barato. Segundo, as cidades históricas, os castelos e as ruínas romanas são incomparáveis com o que tem no Brasil. E que me desculpem todos os paulistanos que adoram o pão “francês”: O pão português, até na sua versão mais simples, tem mil vezes mais substância, mais sabor, mais caráter que o pão comum brasileiro.

Esse pão português é muito bom

Mas o que mais adorei de Portugal? No Brasil, apesar das minhas milhares de horas de esforços para aprender a falar português, nunca passo por brasileiro. É só ouvir meu sotaque em português e percebem rapidamente que sou gringo. Mas muitos portugueses escutaram meu português abrasileirado e a primeira coisa que me falaram foi: “És brasileiro?”.

Ah, portugueses queridos, é só continuar achando que sou brasileiro e eu vou voltar muitas vezes e até comer todo o bacalhau que vocês me derem.

Notas relacionadas:

  1. Seth Erros no inverno islandês
Autor: Seth Kugel Tags: ,

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011 Destinos Internacionais, Seth Erros | 05:55

Seth Erros no inverno islandês

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1)   Beber tanto na balada e acordar tarde no dia seguinte: no inverno, não se pode perder nem um minuto de luz.

2)   Perder o Museu Nacional. Esta deve ser a primeira parada no país (até um substituto do Duty Free Shop).

3)   Sentir a obrigação de gastar 100 reais na Blue Lagoon.

4)   Comer carne de baleia sem pesquisar um pouco na internet sobre a polêmica sobre a caça destes animais. São controversos, mas argumentos existem dos dois lados.

5)   Ficar só em Reykjavik. Mas cuidado se nunca dirigiu sob neve antes.

6)   Procurar vida noturna em Reykjavik todas as noites do inverno. Apesar de ser famosa pelas baladas, é um fenômeno de final de semana.

7)   Não provar os doces de alcaçuz, nem a cerveja Viking, nem o Rúgbrauð (pão de centeio, muito denso), nem o skyr (iogurte islandês), nem o tubarão podre.  Ah ok, pode evitar o tubarão podre. E, se alguém perguntar, é só dizer “provei, é nojento.”

Leia também:
Noites quentes e dias agitados no inverno da Islândia

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Autor: Seth Kugel Tags: , ,

quarta-feira, 12 de outubro de 2011 Estados Unidos | 07:55

Uma volta ao passado no Bronx

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Vista típica do Bronx

“Mamãe, é um telescópio?”

Baixei minha máquina 7d da Canon (com uma lente zoom não muito telescópica) para ver quem falava. Era uma menina de 5 anos, no máximo, usando uniforme escolar e mochila cor-de-rosa. Ela andava com a mãe, uma mulher negra, alta e magra, vestida com um véu colorido típico das muçulmanas africanas. A mãe não disse nada, então respondi para ela. “É uma máquina fotográfica.” Ela deu um sorriso cheio de dentes, a mãe tomou a mão dela e seguiram caminho.

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Seth erros no Bronx

Estávamos quase na Park Avenue, mas duvido muito que uma menina de 5 anos andando pela Park Avenue de Manhattan – uma das avenidas mais sofisticadas da cidade – não saberia o que era uma máquina fotográfica. Mas estávamos na Park Avenue do Bronx, onde turistas não aparecem nunca e o salário típico dos vizinhos não permite muitas compras de máquinas semiprofissionais como a minha. Ademais, quem quer tirar fotos do Bronx?

Menina "telescópio" com a mãe, uma muçulmana de origem africana

Eu, óbvio. O Bronx ainda sofre de má fama, mas a maioria do “boro”, um dos cinco que formam New York City, não a merece mais. É verdade que nos anos 70 e 80, e até 90, a parte sul (o “South Bronx”) era um desastre, um lugar de narcotráfico, assaltos e assassinatos. A cidade inteira é muito mais segura do que era naquela época, e o Bronx não é exceção.

Mas, segurança à parte, o Bronx parece estar perdido no tempo, e por isso é ótimo para visitar e fotografar. Em Manhattan há muita novidade, o que às vezes é bom (mesas e cadeiras para sentar em Times Square! Faixas de bicicletas!) e às vezes ruim (McDonald’s, Starbucks e H&M substituindo empresas locais). Grande parte da região do Brooklyn mudou muito também – com a saída forçada de Manhattan de muitos profissionais (culpa dos alugueis altos) e a chegada dos “hipsters”, jovens boêmios muitas vezes apoiados financeiramente pelos país. Mas o Bronx, onde trabalhei como professor e funcionário público nos anos 1990, parece quase igual ao que era naquela época.

Nenhum turista deve dedicar todo seu tempo em Nova York ao Bronx, mas passar um dia ou dois para explorar as ruas muito urbanas revelará para o visitante um lado de Nova York que nunca aparecerá em Manhattan. Prédios e mais prédios velhos de apartamentos sem fim, metrô em trilhos elevados que fazem tremer o bairro quando passam, lojas de imigrantes, igrejas evangélicas e mesquitas africanas. Também há muitos exemplos de arquitetura interessante, sobretudo os excelentes nos prédios Art Déco. E vida nas ruas, sobretudo fora das “bodegas” (mercearias, em espanhol nova-iorquino), que ainda servem de centros comunitários informais.

Embaixo dos trilhos elevados da linha 4, fora do restaurante vietnamita

Na quinta-feira passada decidi fazer uma caminhada pelas regiões centro e sul do Bronx, revisitando áreas que conheço há quase duas décadas, mas desta vez do ponto de vista de um turista. Desci do metrô da linha D de manhã, na parada Kingsbridge Road, passei o dia andando em zigue-zague até chegar a Bruckner Boulevard ao final da tarde, uns sete quilômetros ao sul. (Fiz um mapa no Google para vocês visualizarem a rota).


Ver O Bronx num mapa maior

Decidi evitar os lugares mais turísticos da vizinhança, como o Bronx Zoo – o jardim zoológico principal da cidade –, mas agreguei uma lista das atrações principais no Seth Erros desta semana. O meu dia era para andar e explorar. Comecei na Kingsbridge Road porque queria almoçar em World Of Seafood, um restaurante vietnamita na Jerome Avenue, que segundo vários colaboradores do indispensável site Chowhound, era igual ou melhor do que qualquer outro restaurante vietnamita da cidade.

Mas quando saí do metrô, não era hora de almoçar ainda e decidi entrar na St. Lazarus Botánica, na 52 East Kingsbridge Road. Uma “botánica” é um tipo de loja comum nas comunidades caribenhas de Nova York. Vendem ervas, remédios e ícones para os crentes da santería, a religião sincrética afro-caribenha, com muito em comum com o vudu e o candomblé. Lá dentro, mulheres faziam fila para uma consulta ou uma compra. Vendo que eu não era o cliente típico, uma loira que se chamava Sandra se apresentou em inglês com um sotaque bem familiar. Perguntei de onde era.

Refrigerante Country Club sabor laranja, o preferido de São Miguel

“I am from Brazil,” ela explicou. Resposta certa! Começamos a falar em português, e me contou como chegou a uma parte da cidade que quase não tem brasileiros. Fez um minitour comigo pela loja e, mais importante de tudo, me explicou porque, junto com as ervas, velas e estátuas havia várias garrafas do refrigerante Country Club sabor laranja, importado da República Dominicana. Usava-se nas oferendas a São Miguel, claro. “Ele gosta do sabor”, me disse.

"Pho": sopa vietnamita de macarrão e carne

Próxima parada, o restaurante vietnamita. Só que, quando cheguei, vi que não existia mais e que no seu lugar há uma loja de produtos de beleza. Droga! Mas não fiquei surpreso, os restaurantes em Manhattan abrem e fecham bem rápido, no Bronx talvez mais ainda. Mas lá na frente da loja havia outro restaurante vietnamita, o Com Tam Ninh Kieu, um lugar ultrasimples, onde pedi uma entrada de summer rolls (“rolinho verão”, como um rolinho primavera, mas não frito) por US$ 4 e um “pho” – sopa de macarrão com vários tipos de carne (de almôndegas até tripas) por US$ 6,95. Brotos de feijão, limão e folhas frescas de menta e manjericão ao lado para agregar a gosto. Ou seja, comida caseira vietnamita, em quantidade suficiente para duas pessoas, por menos de US$ 11. Preços do Bronx mesmo.

O próximo destino era Arthur Avenue, centro da Little Italy do Bronx. Para chegar, passei pelo parque St. James, onde vários grupos jogavam “handball”, um esporte típico entre jovens do Bronx por décadas. Joga-se quase como o squash, só com uma parede e com a mão em vez da raquete. (Quer saber se dói? Dói) Parei para ver um jogo, depois continuei no meu caminho, passando ao lado de uma escola no momento dos alunos saírem para casa. Bom, depois de comprar um “coco helado” – tipo de sorvete de um dólar vendido na rua, e não só com sabor de coco. Depois desci a Fordham Road, admirando a atividade comercial, sobretudo a de uma loja bem interessante, a “Colombia Jeans Levantapompis”, vendedora de calças jeans “alça-nádegas”, importadas da Colômbia.

Pouco depois cheguei a Arthur Avenue. Em Manhattan, os italianos não moram mais em Little Italy, porque já virou um bairro chinês. A Little Italy do Bronx é diferente, “pero nem tanto”: virou mexicano e albanês. Mas ainda há alguns descendentes de italianos que residem nas ruas, e muitos mais que visitam, compram, socializam e comem na Arthur Avenue; a Little Italy de Manhattan só visitam turistas.

O centro de tudo, o imperdível do bairro, é o Arthur Avenue Retail Market, um quase-mercado municipal no 2344 da Arthur Avenue. E o imperdível do imperdível é a Mike’s Deli, que vende o melhor queijo “parmigiano reggiano”, e também salsichas, presunto de Parma, “soppressatas” (tipo de salame) e todas essas versões de carne que só os italianos sabem fazer. (Pode provar algumas coisas de graça, se é que os que estão atendendo estão de bom humor – e quase sempre estão) Os que não acabaram de comer uma sopa vietnamita podem aproveitar os sanduíches, massas e carnes nas mesas informais do interior do mercado. Ali dentro também há açougues e duas empresas de charutos (feitos ao vivo). Saí do mercado e entrei na Madonia Brothers, uma padaria também na Arthur Avenue, onde comprei uns biscoitos doces de pinhões e um pão de erva-doce com passas para comer depois. (Claro que no momento eu achava que “depois” significava “à noite, em casa”, mas resultou que significava “15 minutos depois, na rua”. É que o cheiro era irresistível).

O Grand Concourse, concebido como o Champs-Elysées do Bronx

Minha ideia era descer pela Grand Concourse, uma avenida bem ampla que foi construída nos primeiros anos do século 20 para ser o Champs-Elysées do Bronx. E virou uma avenida chique, pelo menos para a classe média. Não é tão glamuroso como antes, mas ainda mantém muitos prédios lindos, especialmente os em estilo art déco dos anos 1930. Também ainda existe o cinema clássico Loew’s Paradise, um dos mais famosos da época dos grandes cinemas nos Estados Unidos, e lugar de milhões de primeiros beijos adolescentes entre 1929 e os anos 60, quando o Bronx começou a se deteriorar. O prédio não é mais cinema, mas foi renovado recentemente e serve para concertos e eventos.

Prédio com detalhes art déco, muito comum no Bronx

Caminhar pelo Grand Concourse é ver a vida de Nova York com é vivida agora fora de Manhattan: vizinhos se abraçando, gente voltando cansada do trabalho, jovens sem muito para fazer inventando atividades – a maioria legais e outras nem tanto. Eu, andando com minha máquina pendurado do pescoço, fiquei surpreso com quantas pessoas queriam que eu tirasse uma foto deles; um casal até mandou um beijo para a máquina. Só para se divertir no momento, nem deram seu e.mail para que eu lhes mandasse as fotos.

Também parei para ver uma atividade muito comum entre os hispânicos do Bronx: um jogo de dominó. Isso foi na esquina da Grand Concourse e a East 164th Street, e era muito típico: quatro homens bem concentrados falando o espanhol rápido da República Dominicana, e vários “fãs” observando e comentando.

Passei o Bronx Museum of the Arts e o lindo Bronx County Courthouse (o principal tribunal da região) e o novo estádio dos Yankees, o pior time de beisebol de todos os tempos. (Detalhe: nem todos concordam com minha avaliação, sendo que eu torço pelos Red Sox, rival dos Yankees.)

Continuando pelo Grand Concourse, passei a 156th Street, olhando com nostalgia a escola onde dava aulas, e passei pelo Hostos Community College, uma universidade pública, na 149th, por fim chegando ao final do Grand Concourse, na rua 138.

Meu último destino era a área ao redor da Bruckner Boulevard, uma das poucas áreas do Bronx que tem mudado muito nos últimos anos. Antes, era muito industrial e perigosa, mas nos últimos dez anos virou um pequeno centro de artistas e vendedores de antiguidades. Alguns dos prédios industriais se converteram em apartamentos. O lugar perfeito para terminar a caminhada é o Bruckner Bar and Grill, que serve a Bronx Pale Ale (uma cerveja feita no bairro), saladas, como a de pera com radicchio e parmesão, hambúrgueres e jantares mais completos. O ambiente é acalorado e energético, e o público é uma mistura de jovem e coroa, brancos e negros, artista, funcionário, bombeiro, professor e advogado. Um mix bem Nova York, mas que quase não existe mais em Manhattan.

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Estados Unidos, Sem categoria | 07:50

Seth erros no Bronx

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Nesta semana, os erros são meus: lugares que devem fazer parte da minha matéria sobre o Bronx, mas que não cabem.

Veja também:
Uma volta ao passado no Bronx

1)   City Island – bairro que fica numa ilha a nordeste do Bronx, mas parece mais uma cidadezinha do litoral. Com excursões de barco, restaurantes de peixes, lojas de presentes e sorvete.

2)   New York Botanical Garden – o jardim botânico principal da cidade.

3)   Wave Hill – um jardim público com muitos eventos culturais e vistas ótimas do Rio Hudson.

4)   Orchard Beach – uma praia pública não tão linda, mas muito interessante pela cultura hispânica que predomina nos fins de semana de verão. Nunca falta salsa para dançar.

5)   Bronx Zoo – o mais famoso de Nova York.

6)   Woodlawn Cemetery – lugar de enterro de muitos nova-iorquinos importantes, quase um museu de mausoléus. Ao norte do cemitério, o bairro de Woodlawn é um dos últimos bairros verdadeiramente irlandeses. Os “pubs” são a prova.

7)   Dominick’s – Mais uma experiência do que um restaurante. É o melhor lugar da Arthur Avenue se tiver tempo para sentar e almoçar ou jantar. Você senta em mesas comunitárias e pede o que você quiser – não tem cardápio. Não sabe o que pedir? É só olhar o que estão comendo ao seu lado – quase não há clientes novatos como você, assim que a maioria dos seus vizinhos já sabe bem o que é oferecido no cardápio invisível.

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