Eu não sou travesti, juro. Mas numa tarde de janeiro passado quis muito me vestir de mulher. Para ser específico: mulher muçulmana.
Deixe-me explicar. Foi durante uma viagem a Londres em que tinha decidido visitar Green Street, um bairro de imigrantes em East London. Cheguei em um destes ônibus vermelhos de dois andares e, quando desci, tinha esfriado muito e começava a chover. Pior, eu tinha esquecido meu casaco no hotel. Neste mesmo momento passaram por mim três mulheres vestidas com burcas (essa roupa muçulmana que cobre o corpo inteiro, da cabeça aos pés). Tive dois sentimentos ao mesmo tempo. O primeiro foi o choque maravilhoso do turista de “Cheguei a outro mundo!”. O segundo foi inveja: a roupa pareceu tão prática para um inverno londrino. Queria uma.

Mulheres muçulmanas apreciam vitrine de loja de roupas indianas, na Green Street
Não quero entrar na polêmica sobre burcas e o tratamento dado à mulher no Islã. Mas ver mulheres andarem com burcas durante horas após ficar maravilhado com obras de grandes mestres do Renascimento, na National Gallery, na Trafalgar Square, é um dos prazeres que só acontece nos grandes polos de imigração.
E Londres, como Paris, Nova York e Los Angeles, é um deles (São Paulo também já foi, mas faz tempo que a maioria dos seus sírios, espanhóis, italianos e japoneses foi abrasileirada). Em Londres, Green Street é um dos centros principais de imigração da Índia e de seus vizinhos, esse subcontinente hindu e muçulmano que tem uma história longa e complicada com o Reino Unido, seu ex-colonizador.
Se é só curry (o que em Londres é sinônimo de comida indiana) o que você quer, pode ir a Brick Lane, uma rua pitoresca de prédios velhos com placas em inglês e hindi e ótimos descontos na hora do almoço. (O Aladin é um dos mais populares.)
Mas Green Street é um destino muito mais interessante – precisamente por não ser um destino turístico, mas uma comunidade viva. Minutos depois de ver aquelas mulheres de burca, avistei uma multidão de pessoas na calçada, do lado de fora de uma loja de jornais, a East Side News. Todos estavam lendo, com grande interesse, pedaços de papel pregados na janela.

Anúncios na vitrine da loja East Side News
Fui ler os papéis, óbvio. Alguns exemplos:
“Quarto disponível só para vegetarianos, £55/semana inclui comida e luz”
“Aluga-se quarto duplo com família bangladeshi, apropriado para casal ou duas meninas”
“Quarto duplo. Procuram-se: meninos muçulmanos (indianos, paquistaneses)”.
Eram classificados, na versão vitrine! Fiquei encantado não só pelo cenário que parecia tão anacrônico no mundo virtual, mas também pelos detalhes culturais dos anúncios: “só para vegetarianos”, “procuram-se muçulmanos” etc. Nos Estados Unidos, seriam “só não-fumantes” e “animais de estimação proibidos”. Entrei na loja para perguntar se era um serviço gratuito ou se os anunciantes pagavam. Resposta: pagavam sim, £1.50 (R$ 4) por semana. No verso de cada papel – visível do lado de dentro da loja – estava a data de “vencimento” do anúncio. Fascinante.
Próximo destino: loja de bijuterias. Normalmente não sou o tipo de homem que entra muito em joalherias – para confirmar é só perguntar às minhas ex-namoradas. Mas visitar o bairro indiano e não ver uma bijuteria é como visitar Paris e não comer um pain au chocolat. As lojas são tão exageradamente luminosas e as bijuterias tão brilhantes e cheias de detalhes que é quase impossível resistir.

Família de imigrantes do Sri Lanka escolhem bijuterias para casamento. A noiva é a segunda do lado esquerdo
Dentro da loja, encontrei uma família inteira olhando a mercadoria… e mais ninguém. Nesses momentos, quando você se sente muito fora de lugar, sempre há duas opções: bater um papo com alguém ou ficar com vergonha e fugir. Detsa vez arrumei coragem para conversar e falei um “oi” para um homem com uma expressão de desespero, tipo “homem-esperando-mulher-em-loja-de-sapatos”.
“Quem vai se casar?”, perguntei. Ele apontou para os noivos (que acenaram um “oi”) e nós dois começamos a conversar. Sua família era do Sri Lanka, um país que sofreu uma terrível guerra civil entre tâmeis e cingaleses; sua família foi para a Inglaterra para escapar da violência; só a mãe dele ficou na ilha, localizada perto do subcontinente indiano.
Dei meus parabéns para o casal e fui para o próximo destino imperdível: uma doceria. Adoro os doces indianos (bom, não é surpresa, adoro todos os doces). São feitos à base de leite, têm cores quase néon e, às vezes, vêm embrulhados em papel-alumínio comestível.

Doceria indiana no bairro londrino
Escolhi o Eastern Goods (165 Green Street), onde o balconista reconheceu meu sotaque norte-americano e conversou comigo sobre sua estadia nos Estados Unidos. Quando escolhi doces para levar, ele me presenteou com vários extras.
Só faltava jantar (antes de comer os doces, claro). O homem na loja de joias tinha me explicado que o centro da comunidade do Sri Lanka não se encontrava na Green Street, mas na High Street, a 15 minutos a pé na direção leste e perto da estação de metrô East Ham. Me perdi totalmente e cheguei lá 40 minutos depois (sem a ajuda do meu mapa turístico, que não incluia esta área.)
Em uma loja de comidas importadas do Sri Lanka, pedi dicas de restaurantes. Me mandaram para Thaykam (278 High Street), um self-service onde se come à vontade por £4.99 (R$ 13). A comida era muito parecida com a indiana: curries, grão-de-bico, verduras cozidas. Perguntei para outro cliente qual era a diferença. Mas ele era indiano e brincou: “Não existe tradição culinária no Sri Lanka. Roubaram tudo da gente”. Ri, mas não acreditei.
Green Street e Brick Lane não são os únicos lugares onde se pode aprender sobre os indianos. O museu Victoria & Albert (o “V&A”) reúne peças de arte e móveis de todo o ex-império britânico. Lá estão muitos tesouros da Índia, inclusive um tigre, feito de madeira, dominando um soldado britânico com uma mordida no pescoço. Mas não é apenas uma escultura: uma manivela mexe o braço do homem e a boca do tigre; o homem grita e o tigre ruge. E – li, mas quase não acreditei – no tronco do tigre há um…órgão musical! Pertencia a Tipu Sultan, um líder indiano que (adivinhem só?) era conhecido por ser inimigo dos britânicos.
Só essa obra valeria o preço do ingresso do museu – isso se a entrada fosse cobrada. Em Londres os museus são quase todos de graça. O mesmo preço, por coincidência, de uma caminhada pela Green Street.
SETH ERROS
PARA EVITAR EM UMA VIAGEM A LONDRES
1) Limitar-se ao mapa turístico. A estação do metrô onde se encontra Green Street (Upton Park) fica fora da maioria dos mapas – mas não do Google Maps, claro.
2) Conhecer só a “Londres europeia.”. É uma das cidades mais diversas do mundo.
3) Em Green Street, achar que todos são indianos. Há também imigrantes do Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka.
4) Visitar Green Street de dieta. É só ver os doces indianos no balcão e acabou.
5) Ter medo de perguntar. Não existe guia para te explicar tudo o que acontece em Green Street (apesar deste site em inglês). Você precisa pesquisar com a boca.
6) Sair de Londres sem comer curry – se não for para Green Street, pelo menos visite a Brick Lane.
7) Visitar Green Street no dia de um jogo de futebol do clube West Ham United.