Nem Lisboa, nem Porto: fugindo do roteiro comum em Portugal
“Mas eu não falo a língua!” Esse, imagino, deve ser o medo de muitos brasileiros que viajam para o exterior pela primeira vez e querem viajar independentemente, explorar a cultural local, fazer amizades com o povo, voltar com histórias de aventura. Mas ao final optam por ficar com roteiros típicos, dos tours em grupo e dos resorts isolados.
Claro que é possível ser um viajante independente sem falar o idioma local – a prova está na minha experiência naquela cidadezinha turca no ano passado. Mas a verdade é que eu também tenho medo de viajar se não falo a língua local do país. E se me perco? E se não encontro um hotel? E se for picado por uma cobra e não souber explicar ao médico? Isso se tiver médico…
Para o viajante iniciante, então, existe uma solução óbvia: Portugal. Nada contra uma viagem a Lisboa, ao Porto e ao Algarve, mas, para os aventureiros, é uma oportunidade perdida. Em Portugal você tem liberdade total! Sei, esse povo fala bem engraçado, mas os sotaques são uma parte da aventura.
Como talvez você já tenha lido na coluna da semana passada, em dezembro, visitei Portugal pela primeira vez. Não fui a Lisboa e só passei um dia no Porto por necessidade. Meu destino principal foi uma região que se chama Trás-os-Montes, uma zona rural no extremo nordeste do país.
Já ouviu falar? Duvido. Eu também nunca tinha ouvido falar desse lugar antes de uma amiga portuguesa, Luísa Pinto, que conheci em Madri no ano passado, me contar. (Mais uma razão para fugir dos grandes grupos quando viaja: assim, você conhece pessoas que te contam segredos do país delas)
Bastou a Luísa me dizer o nome da região (Trás-os-Montes, parece um lugar mágico da Disney) e da aldeia onde os pais dela foram criados (“Gostei”, gostou?). Os pais criaram a Luísa no Porto, mas sempre mantiveram uma casa em Gostei e ainda passam muito tempo lá, trabalhando a terra, comendo as frutas, castanhas e verduras que cultivam, e passando tempo com a família. (Das 50 pessoas que moram em Gostei, Luísa estima que a metade são parentes)
A cidade principal da região é Bragança, que tem um castelo maravilhoso do século 15 e mais algumas atrações. Mas para mim a atração principal da região é a zona rural e suas aldeias, que infelizmente estão ficando, a cada ano, mais vazias, algumas abandonadas por quase todos, menos os idosos.
Luísa me levou para Gostei, mas só pôde ficar um dia, assim que me deixou nas mãos dos pais e de um primo dela, Luis.
Essas aldeias, apesar de algumas serem meio abandonadas, são maravilhas. Não maravilhas como as cidadezinhas medievais da França, onde tudo está tão bonitinho para os turistas que visitam para comprar lembranças nas lojas e tomar algo nos cafés charmosos demais para serem reais. Aqui é tudo meio decaído, é como, literalmente, voltar ao passado. A roupa de uma mulher que vi parecia ter saído diretamente do século 18, só que naquela época era bem pouco comum andar com abóboras dentro de uma sacola da Zara.
Gostei ainda tem sua igrejinha e lá fora o pelourinho. Perto, uma ponte romana. Na casa dos pais da Luísa fazem o próprio vinho com uvas plantadas nas suas próprias terras; e o vinho é bom mesmo. Na casa dos tios, a família (como muitas outras da região) faz todos os anos as alheiras, embutindo uma mistura de várias carnes e pão dentro do intestino de porco e pendurando em cima da chaminé para serem defumadas.
Luísa tinha me avisado para chegar no inverno, época em que, além da tradição pré-natalina de fazer alheiras, há outra igualmente famosa: as matanças de porco. Fomos para uma em uma aldeia não tão longe de Gostei chamada Quinta do Vilar.
Eu estava com medo de ficar com tanto nojo do processo que viraria vegetariano. Não foi o caso. De jeito nenhum. Mas para os que não foram criados nas zonas rurais, o processo é meio forte. Para levar a porca de 125 quilos até o banco de madeira onde ela seria sacrificada foi necessária a força de até seis homens – que bom que não faltava mão de obra, porque eu estava ocupado tirando fotos); pouco depois, foi preciso dar várias punhaladas para acertar o coração do animal. E bastante tempo se passou entre vê-la pela primeira vez e presenciar sua morte. Depois era hora de queimar o pelo com um maçarico de mão (“Barba feita”, proclamou o homem que fez o serviço), abrir a pele e tirar as partes que não davam para comer (poucas) e outras que davam (muitas). Um cachorro perneta e um gato meio vampírico esperavam lá embaixo do banco para comer qualquer gota de sangue ou órgão que caía.
Não foram os momentos mais prazerosos das minhas viagens, e seria mais difícil ainda para alguns vegetarianos, acho. Mas era bem mais interessante do que fazer um tour em uma catedral.
Onde matam porcos, também os comem, óbvio. Pouco depois da matança fomos comer butelo no restaurante o Careto, na aldeia de Varge. Butelo é um embutido enorme e redondo, feito com pedaços de porco, incluindo gordura e ossos, defumado e depois fervido. Algo que eu comeria em casa? Não. Algo que eu pedira de um cardápio? Nunca. Mas algo que experimentaria quando oferecido pelo tio de uma amiga? Sempre.
Para um turista qualquer, sem a conexão pessoal com a região que eu tinha, seria difícil encontrar matanças de porco ou lugares onde comer butelo. É provável que ele também vá precisar de dicas de alojamento rural, já que não tem amigos em Gostei para se hospedar. Por isso recomendo a Anda D’I Incoming Service, uma empresa turística que pode ajudar a planejar umas férias na região, com ou sem matança, mas sem botar você em um grupo chato. Ou você pode simplesmente explorar a região com um mapa e deixar a sorte te levar. Sempre uma boa ideia também.
Depois de quase três dias na região, aluguei um carro (a única forma de se locomover na área), e fui para o Planalto Mirandês, do outro lado de Trás-os-Montes. Por que? Porque tinha ficado fascinado quando me contaram que nessa parte da região falavam mirandês, o pouco conhecido segundo idioma de Portugal.
É, é verdade, te falei que Portugal era legal porque falam o mesmo idioma que você, e agora anuncio que falam outro idioma. Mas não se preocupe, todo mundo que fala mirandês fala português também. Isso é apenas um exemplo das coisas fascinantes que você encontra quando sai fora do roteiro típico.
Na área, fiquei em um restaurante residencial (ou seja, restaurante e pousada) chamado Gabriela, o lugar perfeito. O que é uma pousada perfeita para mim? Vamos lá:
1) O custo foi de 25 euros por noite (R$ 57) por um quarto bastante moderno, limpo, bem-cuidado e com Wi-fi.
2) Eu era o único hóspede da pousada e cliente do restaurante, o que significava que a família/ dona do local me convidou para comer com eles na cozinha e não sozinho no restaurante.
3) O restaurante era ótimo, e até afirma que foi lá que foi inventado o prato mais famoso da região, a posta mirandesa, um corte de vitela grelhado sobre o fogo aberto e servido no prato com um molho vinagrete.
4) Um membro da família, Altino Martins, é apaixonado pelo mirandês e passamos horas na cozinha conversando.
Adorei aprender um pouco de mirandês – um idioma bem fácil de ler porque é uma mistura de português e espanhol, mas a melhor parte são as expressões, por exemplo, a forma de distinguir entre os dois avós: o avô é “l’abó de las calças” e a avó é “l’abó de la saia”.
Mas o que mais adorei foi andar de carro pelas pequenas aldeias e tentar ver se alguém falava mirandês comigo. Na aldeia de Constantim vi cinco idosos conversando e parei o carro para conversar com eles. (Você faria isso em um país onde não falava o idioma?) Em outra parte da aldeia, conheci dois garotos de 6 ou 7 anos; fiz um teste para eles, que conseguiram traduzir do espanhol para o português e depois para o mirandês e depois tudo de volta. Aprovados!
E no dia seguinte, na aldeia de Malhadas essa senhora com a sacola de Zara gritou-me de longe em mirandês, achando que eu trabalhava para a companhia de energia e estava lá para ler os relógios da luz. Depois a gente conversou por um bom tempo (em português, claro).
Em Lisboa, Orlando, Paris ou Tóquio você consegue entrar na conversa de um grupo de idosos, parar garotos na rua e lhes dar um teste de tradução, ou ser confundido com o cara do relógio de luz?














