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quarta-feira, 22 de junho de 2011 Europa | 10:21

Lugares imperdíveis. E quando se pode perder

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As estátuas das pessoas no momento da morte é uma grande atração de Pompeia

As estátuas das pessoas no momento da morte é uma grande atração de Pompeia

Eu tinha apenas oito anos quando aprendi sobre a cidade de Pompeia, mas ainda me lembro muito bem daquela história macabra: no ano 79 d.C., o vulcão Vesúvio entrou em erupção tão forte que as pessoas não tiveram tempo de fugir e foram queimadas vivas, “petrificadas” no momento de sua morte. A cidade ficou preservada sobre metros de lava até ser redescoberta séculos depois. É o tipo de aula que um menino impressionável não esquece nunca.

Também me lembro muito bem do momento em que ouvi falar de Herculano, outra cidade da mesma região italiana que também sumiu com a erupção de Vesúvio e foi preservada da mesma forma. Só que essa memória é mais recente: foi em maio de 2011, quando um colega que tinha visitado o lugar com sua família me avisou que Herculano é melhor preservada, menos visitada e igualmente impressionante.

Herculano é um lugar bacana, me disse ele. “Nem precisa visitar Pompeia.” Encontrei a mesma dica em vários sites e livros sobre a região. Segundo eles, Pompeia é superlotada de turistas e tão grande e confusa que ver tudo é difícil, entender tudo é impossível. As duas cidades escavadas ficam na mesma linha da ferrovia Circumvesuviana.

Mas como é possível estar em Nápoles (a 35 minutos de trem de Pompeia) ou Sorrento (29 minutos) e não visitar um lugar tão famoso? É que Pompeia cai na categoria de atrações “imperdíveis” junto com a Torre Eiffel, o Taj Mahal e a Estátua da Liberdade. Estando na China, você desistiria de visitar a Grande Muralha só porque um amigo te contou de uma “Maravilhosa Muralha” desconhecida, mas muito melhor?

- Sete erros para as atrações imperdíveis

Essas decisões sempre são difíceis para mim. Quero ser diferente, quero dizer “não me importa se não vou a X, deve ser uma farofa, vou conhecer o desconhecido Y”. Mas logo começam as dúvidas: “Mas todo mundo diz que X é imperdível…”

Então decidi me “sacrificar” e ir aos dois lugares no mesmo dia para poder dizer aos outros se realmente Herculano era um substituto razoável ou se Pompeia era imperdível mesmo.

Como esperado, foi um dia longo, cansativo e corrido, e o que menos recomendo é ver os dois um depois do outro. Primeiro, porque assim não dá para subir no vulcão mesmo, e segundo porque, em geral, sempre é melhor não passar as férias correndo de um lugar para outro e terminar o dia exausto. (Para isso existe sua vida normal.)

Pompeia

Pompeia, tal como eu imaginava, foi toda uma experiência padronizada. O trem chega, você segue a maré de turistas falando uma babel de idiomas, passa pelas barracas de souvenires e pizza e limonada a preços exagerados até chegar na fila interminável para comprar os ingressos. Durante a espera, os guias licenciados tentam te convencer (em várias línguas, mas não em português) a contratá-los. Outras opções: comprar um guia detalhado nas barracas ou alugar um guia em áudio.

Não faltam turistas em Pompeia

Não faltam turistas em Pompeia

Não escolher nenhuma guia é errado, porque as ruínas de Pompeia são vastas mesmo e, apesar de alguns lugares indicarem o nome da casa, prédio ou templo e o número para o guia em áudio, não há explicações adicionais.

Eu optei pelo guia em áudio, porque quando viajo sozinho gosto dessas maquininhas nas quais você digita um código exibido no quadrinho e alguma voz intelectual te explica tudo. Mas naquele dia, em Pompeia, os mapas das ruínas com a rota do guia em áudio tinham acabado, tornando a visita muito mais difícil. O pessoal do site nem pedia desculpas pela falha, simplesmente continuava aceitando os 11 euros (R$ 25) pela entrada e os 6,50 euros (R$ 15) pelo guia em áudio.

Perdi muito tempo procurando os quadrinhos. Quando não encontrei a primeira atração, as “Termas Suburbanas”, decidi ouvir a narração de todo jeito para o que estava perdendo. E entre outras coisas, ouvi o seguinte: “As decorações pintadas nas paredes representam cenas eróticas… podemos observar uma variedade curiosa de posições amorosas…” Cadê?!?! Mais estimulado, procurei as termas de novo.

E encontrei. Mas o problema é que só dava para entrar nessa parte se você tinha reservado antes pela internet. Um desastre. (Mas graças ao meu tempo no Brasil, usei o jeitinho brasileiro e consegui entrar implorando ao cara que cuidava da entrada – e sem mencionar que era jornalista, claro.)

Morte de um cão, 79 d.C., Pompeia

Morte de um cão, 79 d.C., Pompeia

Outro desastre: a multidão. Rebanhos de turistas seguindo pastores-guias usando microfones e erguendo pequenas bandeiras com o nome da empresa ou do cruzeiro para ajudar qualquer ovelha perdida. Foi logo que lembrei – tarde demais – o ótimo conselho que tinham me dado antes de visitar a também “imperdível” cidade maia de Chichén Itzá, no México: chegue à tarde e fique até o final do dia, quando os ônibus já foram embora, o sol não está tão quente e ficam alguns poucos turistas independentes.

Apesar das frustrações, admito: Pompeia teve momentos legais. Em uma das casas, o guia em áudio explicou que os arqueólogos tinham encontrado uma mensagem escrita na parede em latim: “Alugam-se a partir de 1º de julho, no piso superior, apartamentos de luxo. Tratar com Primus”. Adoro visitar sítios antigos e encontrar detalhes que mostram que nós não somos tão diferentes dos nossos antepassados.

Também fiquei impressionado com a parte que mostrava os modelos de pessoas petrificadas no momento da morte. A história é fascinante: os arqueólogos não encontraram os corpos mesmo no século 19 – claro que tinham se decomposto. O que encontraram foram vãos na lava endurecida e eles verteram gesso nos vãos. Quando secou… réplicas quase perfeitas das pessoas no momento da sua morte. Ah, não só pessoas: também havia um cão, a verdadeira estrela da exibição, sobretudo para as crianças. “C’est un chien”, falou uma menina francesa. “Ein Hund”, exclamou um alemãozinho. “Mommy, a dog!”, ouvi gritar um dos meus compatriotas. Nem quero pensar nos pesadelos que tiveram essas crianças.

Herculano

Pouco depois do meio-dia, peguei o trem para Herculano. Uma experiência totalmente diferente. Saindo do trem, não havia essa maré de turistas para seguir. Eram só quadros indicando o caminho aos “scavi” (“escavações” em italiano) com setas. Você caminha 10 minutos pela cidade moderna de Ercolano antes de encontrar a cidade morta com quase o mesmo nome.

Cena nas ruas de Herculano antigo.

Cena nas ruas de Herculano antigo

Mas recomendo explorar um pouco mais o local. Na rua Pugliano, uma feira acontece todas as manhãs. (Eu perdi por chegar à tarde.) No lugar da pizza feita para turistas com preço exagerado de Pompeia, há uma pizzaria excelente, a Luna Caprese, para comer junto com os cidadãos modernos de Herculano depois do seu tour.

As ruínas eram exatamente como tinham me contado: em melhor estado de preservação e, como o sítio era menor (e ainda havia mapas!), era impossível se perder. Não precisava de reserva por e-mail para entrar nas termas, que eram muito bonitas apesar de não terem desenhos eróticos.  Havia muito menos turistas e poucos grupos. E que esquisito ver a cidade velha no que parecia ser um subsolo exposto ao lado da cidade moderna. Das ruínas, dava para olhar pra cima e ver a roupa secando nas varandas dos residentes que ainda vivem na sombra do Vesúvio.

Minha conclusão: Herculano é a melhor experiência de longe (e também abriga o Museu Arqueológico Virtual, que não tive tempo de visitar). Mas se você não acredita, ou se sempre foi seu sonho ver Pompeia, ou se não aguenta estar tão perto sem visitar, eu não vou reclamar. Só peço que, quando voltar, não conte para os amigos que “Pompeia é imperdível!” Porque para os que vão para Herculano, é perdível mesmo.

Notas relacionadas:

  1. São Paulo ou Nova York: Qual a melhor pizza do mundo?
Autor: Seth Kugel Tags: , , ,

quarta-feira, 15 de junho de 2011 Seth Erros | 11:50

Sete erros para não cometer quando comer uma pizza na viagem

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1) Avaliar como ruim a pizza de outra cidade só por ser diferente. Claro que é diferente. Viva a diferença!

2) Avaliar a pizza paulistana sem provar as melhores, como a da Bráz. (É só ganhar na Mega-Sena primeiro.)

3) Avaliar a pizza de Nova York sem provar as melhores: Joe’s, por exemplo, ou os lugares mencionados nesta matéria do blog Slice.

4) Usar garfo e faca numa pizzaria nova-iorquina…

5) … e não pegar a fatia com guardanapos!

6) Colocar azeite de oliva na sua pizza em Nova York ou Nápoles.

7) Colocar ketchup ou maionese na sua pizza em São Paulo, Nova York ou, pelo amor de Deus, em Nápoles. Uma pizza que precisa de ketchup ou maionese é uma pizza ruim mesmo.

Veja também:

- São Paulo ou Nova York: Qual a melhor pizza do mundo?

Autor: Seth Kugel Tags: , , , , , , ,

Brasil, Estados Unidos, Europa | 08:00

São Paulo ou Nova York: Qual a melhor pizza do mundo?

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Duas fatias de Joe's, estilo nova-iorquino (ou seja, sem nada em cima, e definitivamente sem azeite)

Quando um nova-iorquino se muda para São Paulo é impossível evitar a pergunta: “Qual das duas cidades tem a melhor pizza?”. Ou, mais comum: “A pizza paulistana é a melhor do mundo, né?”.

Uma observação somente: os nova-iorquinos também acham que a pizza deles é a melhor do mundo. E daí temos um problema, porque as pizzas das duas cidades são muito, muito diferentes.

A diferença mais marcante é a grande quantidade de ingredientes que os paulistanos colocam sobre a pizza. Em Nova York, é queijo, tomate e mais um ingrediente (pepperoni, por exemplo), no máximo. Nos meus primeiros meses em São Paulo, quando comi pizza portuguesa, baiana ou vegetariana – com mil ingredientes em cima de cada uma – , minha resposta sempre era: “A pizza de São Paulo é muito boa. Só que não é pizza.”

- Sete erros para não cometer quando comer uma pizza na viagem

Pizza boa e barata em uma pizzeria típica, em Erculano, fora de Nápoles. Massa incrível, tomates frescos.

Pizza boa e barata em uma pizzeria típica, em Erculano, fora de Nápoles

Ou seja, não era a pizza que eu conhecia. É que pizza em Nova York e São Paulo não é só pizza. É cultura. E são culturas tão diferentes que achava impossível comparar as pizzas das duas cidades – até a semana passada, quando estive em Nápoles, Itália.

Lá a pizza não é só cultura. É vida. Da legitimidade da pizza de Nápoles ninguém pode desconfiar. Assim que, entre São Paulo e Nova York, ganha quem tem a pizza que mais se parece com a pizza napolitana. Capisce?

Vamos à comparação:

1 – Ingredientes: Pizza para mim, pelo menos para meu lado nova-iorquino, é massa, molho de tomate e queijo. E, talvez, um ingrediente: pepperoni, por exemplo. Ou um monte de alho picado (hummm). Por outro lado, minha alma paulistana entende que pode colocar mais, sem se esquecer dos elementos básicos. Em Nápoles? Tem a famosa Da Michele (que apareceu no livro Comer, Rezar, Amar) onde só há duas opções: pizza margherita e pizza marinara. Mas na Pizzeria Starita, também muito famosa (o dono até serviu pizza ao Papa João Paulo II), o cardápio é muito variado, como em São Paulo. Empate.

2 – Pizza boa e barata: Nem tudo pode ser perfeito. Quando se bota presunto, azeitona, palmito, catupiry, frango, calabresa, abacaxi, rúcula  e mais ingredientes sobre a pizza, a massa, o molho de tomate e o queijo perdem importância? Em Nova York uma pizzaria de bairro não sobrevive nem uma semana com a massa de cartolina e omolho de baixa qualidade de muitas pizzarias que já provei em São Paulo. Em Nápoles também não. Até pizzas baratíssimas que eu provei – de 3 euros ou 4 euros (R$ 7 a R$ 9) – tinham massa perfeita, tomate fresco e mozzarella de búfala de qualidade. Vantagem: Nova York

Pizza racchetta na Pizzeria Starita em Nápoles: com muitos ingredientes inclusive ricota e cogumelos

Pizza racchetta na Pizzeria Starita em Nápoles: com muitos ingredientes inclusive ricota e cogumelos

3 – Pizza boa e cara: Por fim, descobri onde existem ótimas pizzas em São Paulo: nos lugares caríssimos, como Bráz e Veridiana. Tudo da melhor qualidade. Agora, gente, isso é pizza, a melhor que já provei. Nova York também tem pizzarias “de grife”, tipo Motorino, mas não são tão parte da cultura e é raro encontrar uma pizza por mais de R$ 30. E esses preços paulistanos? Mais de R$ 40, às vezes até R$ 50, por uma pizza? Parece piada, mas só os donos das pizzarias que estão rindo. E muito. Vantagem São Paulo, mas é vitória pírrica.

4 – Forma: É tão comum em Nova York pedir pizza por “slice” (uma fatia) que o melhor blog sobre pizza se chama Slice mesmo. A pizza de São Paulo se pede inteira, com a exceção de poucos lugares, como O Pedaço da Pizza e a ótima ideia de rodízio de pizza (Detalhe: o rodízio de pizza é minha invenção brasileira favorita, muito melhor do que a feijoada ou a bossa nova). Em Nápoles, apesar de poder comprar um pedaço em muitos lugares, a cultura prevalente é pedir uma pizza inteira. Leve vantagem: São Paulo.

5 – Quem serve: Em São Paulo, o garçom chega com a pizza e depois serve as primeiras fatias a todo o mundo. Depois volta para dar as segundas e as terceiras. Uma das minhas atividades favoritas nas pizzarias paulistanas é começar a pegar um pedaço e ver o garçom correr à mesa para me ajudar. Em Nova York, ao pedir uma pizza inteira, você mesmo pega o primeiro pedaço, o segundo e o terceiro (No meu caso, também o quarto e o quinto). Em Nápoles? As pizzas são de tamanho individual e nem chegam divididas em fatias. Ambos estamos errados. Empate.

Em Nova York, pizza se come com a mão

Em Nova York, pizza se come com a mão

6 – Com garfo e faca ou com a mão: Pizza em São Paulo se come com garfo e faca. Muito civilizado. Pizza em NY se come com a mão. Muito fácil. O paulistano, sem dúvida, acha o costume nova-iorquino anti-higiênico. Mas comer com garfo e faca parece tão esquisito em Nova York que, quando o Donald Trump foi filmado comendo pizza assim na Times Square, foi ridicularizado. É só ver a raiva do comediante Jon Stewart neste clip (começa no 4:15) para entender o que os nova-iorquinos acham de comer pizza com garfo e faca (e nem precisa entender o inglês). Também não perca a demonstração de como comer uma “slice” (a 5:30).  Porém, em Nápoles, é com garfo e faca que se come a pizza. Vantagem: São Paulo

7 – Quando?: Em São Paulo, domingo é o dia oficial da pizza. Em Nova York, o dia oficial da pizza é: todos os dias, no almoço ou no jantar, como lanche, ou até para comer antes de sair para um restaurante caro para não gastar demais (Bom, esse último exemplo talvez só eu faça). Nápoles? Pizzarias lotadas o tempo todo também. Vantagem: Nova York.

8 – Quem faz: O cara que faz pizza, em Nova York, se chama “pizzamaker” ou pior, “pizza guy”. Em São Paulo é “pizzaiolo”. Em italiano como deve ser?  Vantagem: São Paulo

9 – Azeitonas: Quem decidiu, em São Paulo, botar azeitonas em qualquer pizza? Não foi um napolitano. Em Nápoles, como em Nova York, a pizza só tem azeitonas se você pede com azeitonas. Vantagem: Nova York

10 – Condimentos: Em São Paulo muitas pessoas colocam azeite de oliva na pizza, algo que me pareceu muito esquisito quando vi pela primeira vez – jogar mais gordura sobre uma comida gordurosa? Em Nova York muitas pessoas botam pimenta calabresa ou queijo parmesão nas “slices”. Você pode usar o mesmo argumento para o queijo: uma comida com queijo precisa de mais queijo? Em Nápoles a pizza é tão boa que ninguém bota nada em cima. Faz sentido. Empate

Fazendo pizzas na Pizzeria Starita em Nápoles 1

Fazendo pizzas na Pizzeria Starita em Nápoles

É óbvio que as tradições das pizzas em São Paulo e Nova York são bem diferentes, que cada uma tem suas qualidades e que, apesar de os dois povos terem suas discordâncias, podemos nos respeitar. Mas só pode haver uma cidade ganhadora. Então, o envelope, por favor. A melhor pizza do mundo é… a de Nápoles.

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