Lugares imperdíveis. E quando se pode perder
Eu tinha apenas oito anos quando aprendi sobre a cidade de Pompeia, mas ainda me lembro muito bem daquela história macabra: no ano 79 d.C., o vulcão Vesúvio entrou em erupção tão forte que as pessoas não tiveram tempo de fugir e foram queimadas vivas, “petrificadas” no momento de sua morte. A cidade ficou preservada sobre metros de lava até ser redescoberta séculos depois. É o tipo de aula que um menino impressionável não esquece nunca.
Também me lembro muito bem do momento em que ouvi falar de Herculano, outra cidade da mesma região italiana que também sumiu com a erupção de Vesúvio e foi preservada da mesma forma. Só que essa memória é mais recente: foi em maio de 2011, quando um colega que tinha visitado o lugar com sua família me avisou que Herculano é melhor preservada, menos visitada e igualmente impressionante.
Herculano é um lugar bacana, me disse ele. “Nem precisa visitar Pompeia.” Encontrei a mesma dica em vários sites e livros sobre a região. Segundo eles, Pompeia é superlotada de turistas e tão grande e confusa que ver tudo é difícil, entender tudo é impossível. As duas cidades escavadas ficam na mesma linha da ferrovia Circumvesuviana.
Mas como é possível estar em Nápoles (a 35 minutos de trem de Pompeia) ou Sorrento (29 minutos) e não visitar um lugar tão famoso? É que Pompeia cai na categoria de atrações “imperdíveis” junto com a Torre Eiffel, o Taj Mahal e a Estátua da Liberdade. Estando na China, você desistiria de visitar a Grande Muralha só porque um amigo te contou de uma “Maravilhosa Muralha” desconhecida, mas muito melhor?
- Sete erros para as atrações imperdíveis
Essas decisões sempre são difíceis para mim. Quero ser diferente, quero dizer “não me importa se não vou a X, deve ser uma farofa, vou conhecer o desconhecido Y”. Mas logo começam as dúvidas: “Mas todo mundo diz que X é imperdível…”
Então decidi me “sacrificar” e ir aos dois lugares no mesmo dia para poder dizer aos outros se realmente Herculano era um substituto razoável ou se Pompeia era imperdível mesmo.
Como esperado, foi um dia longo, cansativo e corrido, e o que menos recomendo é ver os dois um depois do outro. Primeiro, porque assim não dá para subir no vulcão mesmo, e segundo porque, em geral, sempre é melhor não passar as férias correndo de um lugar para outro e terminar o dia exausto. (Para isso existe sua vida normal.)
Pompeia
Pompeia, tal como eu imaginava, foi toda uma experiência padronizada. O trem chega, você segue a maré de turistas falando uma babel de idiomas, passa pelas barracas de souvenires e pizza e limonada a preços exagerados até chegar na fila interminável para comprar os ingressos. Durante a espera, os guias licenciados tentam te convencer (em várias línguas, mas não em português) a contratá-los. Outras opções: comprar um guia detalhado nas barracas ou alugar um guia em áudio.
Não escolher nenhuma guia é errado, porque as ruínas de Pompeia são vastas mesmo e, apesar de alguns lugares indicarem o nome da casa, prédio ou templo e o número para o guia em áudio, não há explicações adicionais.
Eu optei pelo guia em áudio, porque quando viajo sozinho gosto dessas maquininhas nas quais você digita um código exibido no quadrinho e alguma voz intelectual te explica tudo. Mas naquele dia, em Pompeia, os mapas das ruínas com a rota do guia em áudio tinham acabado, tornando a visita muito mais difícil. O pessoal do site nem pedia desculpas pela falha, simplesmente continuava aceitando os 11 euros (R$ 25) pela entrada e os 6,50 euros (R$ 15) pelo guia em áudio.
Perdi muito tempo procurando os quadrinhos. Quando não encontrei a primeira atração, as “Termas Suburbanas”, decidi ouvir a narração de todo jeito para o que estava perdendo. E entre outras coisas, ouvi o seguinte: “As decorações pintadas nas paredes representam cenas eróticas… podemos observar uma variedade curiosa de posições amorosas…” Cadê?!?! Mais estimulado, procurei as termas de novo.
E encontrei. Mas o problema é que só dava para entrar nessa parte se você tinha reservado antes pela internet. Um desastre. (Mas graças ao meu tempo no Brasil, usei o jeitinho brasileiro e consegui entrar implorando ao cara que cuidava da entrada – e sem mencionar que era jornalista, claro.)
Outro desastre: a multidão. Rebanhos de turistas seguindo pastores-guias usando microfones e erguendo pequenas bandeiras com o nome da empresa ou do cruzeiro para ajudar qualquer ovelha perdida. Foi logo que lembrei – tarde demais – o ótimo conselho que tinham me dado antes de visitar a também “imperdível” cidade maia de Chichén Itzá, no México: chegue à tarde e fique até o final do dia, quando os ônibus já foram embora, o sol não está tão quente e ficam alguns poucos turistas independentes.
Apesar das frustrações, admito: Pompeia teve momentos legais. Em uma das casas, o guia em áudio explicou que os arqueólogos tinham encontrado uma mensagem escrita na parede em latim: “Alugam-se a partir de 1º de julho, no piso superior, apartamentos de luxo. Tratar com Primus”. Adoro visitar sítios antigos e encontrar detalhes que mostram que nós não somos tão diferentes dos nossos antepassados.
Também fiquei impressionado com a parte que mostrava os modelos de pessoas petrificadas no momento da morte. A história é fascinante: os arqueólogos não encontraram os corpos mesmo no século 19 – claro que tinham se decomposto. O que encontraram foram vãos na lava endurecida e eles verteram gesso nos vãos. Quando secou… réplicas quase perfeitas das pessoas no momento da sua morte. Ah, não só pessoas: também havia um cão, a verdadeira estrela da exibição, sobretudo para as crianças. “C’est un chien”, falou uma menina francesa. “Ein Hund”, exclamou um alemãozinho. “Mommy, a dog!”, ouvi gritar um dos meus compatriotas. Nem quero pensar nos pesadelos que tiveram essas crianças.
Herculano
Pouco depois do meio-dia, peguei o trem para Herculano. Uma experiência totalmente diferente. Saindo do trem, não havia essa maré de turistas para seguir. Eram só quadros indicando o caminho aos “scavi” (“escavações” em italiano) com setas. Você caminha 10 minutos pela cidade moderna de Ercolano antes de encontrar a cidade morta com quase o mesmo nome.
Mas recomendo explorar um pouco mais o local. Na rua Pugliano, uma feira acontece todas as manhãs. (Eu perdi por chegar à tarde.) No lugar da pizza feita para turistas com preço exagerado de Pompeia, há uma pizzaria excelente, a Luna Caprese, para comer junto com os cidadãos modernos de Herculano depois do seu tour.
As ruínas eram exatamente como tinham me contado: em melhor estado de preservação e, como o sítio era menor (e ainda havia mapas!), era impossível se perder. Não precisava de reserva por e-mail para entrar nas termas, que eram muito bonitas apesar de não terem desenhos eróticos. Havia muito menos turistas e poucos grupos. E que esquisito ver a cidade velha no que parecia ser um subsolo exposto ao lado da cidade moderna. Das ruínas, dava para olhar pra cima e ver a roupa secando nas varandas dos residentes que ainda vivem na sombra do Vesúvio.
Minha conclusão: Herculano é a melhor experiência de longe (e também abriga o Museu Arqueológico Virtual, que não tive tempo de visitar). Mas se você não acredita, ou se sempre foi seu sonho ver Pompeia, ou se não aguenta estar tão perto sem visitar, eu não vou reclamar. Só peço que, quando voltar, não conte para os amigos que “Pompeia é imperdível!” Porque para os que vão para Herculano, é perdível mesmo.
Notas relacionadas:
Autor: Seth Kugel Tags: Herculano, Itália, Pompeia, vulcão Vesúvio







