Um passeio por dentro da história em Oxford
Quando um brasileiro que conhece as melhores faculdades do Brasil (a USP, por exemplo) visita uma das melhores universidades dos Estados Unidos (a Harvard, por exemplo) fica deslumbrado e invejoso com um campus tão lindo e antigo que parece ser cenário de filmes. (Eu sei, porque já levei vários brasileiros para conhecer).
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Quando um norte-americano que conhece as melhores universidades dos Estados Unidos viaja para Inglaterra e visita Oxford, fica deslumbrado e invejoso com o campus tão mais lindo e tão mais antigo que não só parece cenário de filmes, como de fato é. De Harry Potter, por exemplo. (Eu sei, porque acabo de passar quatro dias na cidade, que também é nome da universidade anglófona mais antiga do mundo).
Neste assunto, nós, norte-americanos, e vocês, brasileiros, estamos no mesmo barco: as nossas coisas “antigas” são muito mais novas que as coisas antigas – sem aspas – da Europa. Você acredita que Oxford tem prédios do século 13 – que ainda são usados hoje? Não só é verdade, como eu estou falando só dos bares. Existem outros até mais antigos: há uma torre no centro que data de 1040.
Ou seja, nós do Novo Mundo estudamos a história; os de Oxford estudam dentro da história. A biblioteca Bodleian, inaugurada em 1602, é tão velha que quando quiseram filmar uma cena de Harry Potter procurando livros de feitiços, não precisaram produzir nada: simplesmente usaram os livros antigos que já estavam nas estantes.
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Uma visita em Oxford, que fica a menos de uma hora de trem de Londres, é uma escolha óbvia para quem quer ver algo de Inglaterra fora de Londres, mas não tem muito tempo disponível.
Se a biblioteca atrai muitos fãs de Harry Potter, a Christ Church College, uma das 38 “faculdades” que formam parte da universidade, atrai mais ainda. O restaurante da Christ Church (que parece mais igreja do que restaurante) serviu como restaurante de Hogwarts, a escola de magia de Harry Potter. Mas se você, como eu, nunca leu nem viu nem liga para a saga escrita pela J. K. Rowling, a Christ Church talvez interesse mais por ser o lugar que inspirou o Coelho Branco de Alice no País de Maravilhas. É que o reitor da Christ Church, Henry Liddell, sempre saiu do restaurante depois das refeições descendo por uma escada em caracol que se chamava “a toca de coelho”. No livro, Alice segue o Coelho Branco e cai no País de Maravilhas pela toca dele. (O autor, Lewis Carroll, um professor da Christ Church, inventou a história de Alice para a filha do reitor, que se chamava – pode adivinhar? – Alice)
Mas essa é só um dos “colleges”, e você pode visitar vários (alguns pagos, e outros de graça). A melhor parte é que, diferentemente dos castelos ou ruínas de civilizações antigas, eles estão, ainda hoje, em uso: lotados de alunos andando com livros e muitas vezes usando gravata, algo que quase não se vê no meu país nem no seu.
E apesar de não poder estudar com eles, você pode pelo menos beber com eles. Os bares (que se chamam pubs – de “public houses” ou “casas públicas” no inglês de Inglaterra) conseguem misturar turistas com alunos sem causar nenhuma guerra nuclear.
Eu fiz um tour dos pubs com um novo amigo, o Louis Spiteri, que conheci pelo CouchSurfing e que mora há décadas em Oxford. (Tinha escrito para ele e vários outros membros do site pedindo dicas, uma ótima ideia para quem quer a visão de uma pessoa local, mas não conhece ninguém na área) Começamos no Kings Arms, talvez o mais famoso dos pubs, aberto em 1607 e que até 1973 reservou um espaço só para homens, o último que existia em Oxford. Vive lotado, mas para nós não foi difícil pedir um “pint” de cerveja – nem pense em reclamar que não é gelada nem que falta colarinho e aprecie o sabor mais sofisticado e complexo das cervejas inglesas.
Íamos comer em outro lugar, mas como eu quase nunca perco uma oportunidade de comer frituras quando estou viajando, pedimos também uma porção de “pork crackling” (torresmo) e um Scotch egg (um ovo cozido coberto com linguiça e migalhas de pão e frito). É, já reservei uma cama no hospital para quando eu sofrer o inevitável ataque de coração.
Passamos pelo Turf Tavern, que foi o favorito de Bill Clinton quando estudou em Oxford e que tem tetos muito baixos, presumivelmente porque os ingleses de 800 anos atrás, quando o lugar abriu, não eram tão altos quanto são agora. Também fomos ao White Horse e ao Lamb and Flag, até chegar ao Eagle and Child, onde o J.R.R. Tolkien e o C.S. Lewis se reuniam. Mas nós não fomos pela história – fomos para comer o “lamb shank pie”, uma espécies de empada de canela de cordeiro, com molho de cabernet sauvignon e groselha.
No dia seguinte ganhei a companhia de uma amiga jornalista que este ano está estudando em Londres, a Paola de Salvo. Foi com ela que fiz o tour da biblioteca Boudleian. Mas não foi a sala de leitura (datada de 1488) que nos interessou mais, mas o que ela continha. Havia uma exposição que se chamava “Tesouros da Boudleian”, que mostrava alguns exemplos extraordinários do que existe dentro das suas coleções. Alguns exemplos:
1) O esboço do romance Frankenstein, por Mary Shelley, aberto na página na qual o monstro ganha vida.
2) Uma cópia da Carta Magna, de 1217. (Pode reclamar, se quiser, que não tem uma cópia de 1215, ano em que foi escrita)
3) Um antigo texto de matemática que tem o primeiro exemplo conhecido do símbolo =. (Imagine que fácil a aula de matemática foi antes disso?)
4) Uma cópia da Divina Comédia de Dante do século 14.
A exposição acabou, mas você ainda pode ver muitos dos tesouros online.
Paola e eu alugamos bicicletas da Summertown Cycles para fazer duas excursões, as duas inesquecíveis – mas por razões bem diferentes.
A primeira foi maravilhosa – saindo do centro de Oxford pelo lado do Oxford Canal, passando por famílias passeando com crianças e cachorros, pelas casas de tijolo, pelos salgueiros com ramos pendurados sobre a água, pelos patos que procuravam algo de comer. Foi um dia lindo, com sol, apesar do frio do inverno, e chegamos à aldeia pitoresca de Wolvercote – onde a ideia era deixar o canal e voltar pelo Rio Tâmisa que corre mais ou menos paralelo. Compramos fish-and-chips baratos em um restaurante chinês (e foi muito bom!) e fomos comer ao lado do rio, perto das ruínas do Godstow Nunnery, um convento do século 12. Daí era voltar por paisagens lindas até parar no pub The Perch onde tomamos um mulled wine – vinho aquecido e condimentado com açúcar e especiarias.
Tudo o que eu tinha feito até aquele momento tinha sido mais ou menos barato. A entrada na Christ Church College custa 8 libras (R$ 23), um “pint” de cerveja é 3 libras ou 4 libras, os “fish and chips”, 4,20 libras. Mas os planos para o dia seguinte, um domingo, eram um pouco mais caros: almoçar no Nut Tree Inn, um restaurante que possui uma estrela no Guia Michelin, uma honra que significa (pelo menos no meu dicionário particular): Seth não come aqui porque deve ser muito caro.
O restaurante fica a 25 quilômetros meio montanhosos de Oxford, e não é acessível por transporte público. Assim que a escolha era taxi ou pegar as bicicletas de novo.
Óbvio que escolhemos a segunda opção, perfeita para gastar calorias no caminho para justificar uma sobremesa (ou duas). O problema era escolher a rota, e cometi o erro de depender do Google Maps, normalmente o melhor amigo do viajante. Ele nos mandou seguir pelo caminho mais direito – que tinha uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem: passamos por lindas paisagens bucólicas – com ovelhas, prados, casas com telhados de palha. A desvantagem: quase ao final, quando só queríamos chegar e comer, o Google nos levou por um caminho que rapidamente virou lamacento e impossível para bicicletas (carros nem pensar!). Depois descobrimos: era um caminho para cavalos. Ou seja, não era possível usar a bicicleta, e continuamos à pé. No caminho, ouvimos tiros de rifle bem pertinho, e a Paola tinha certeza que algum caçador ia pensar que éramos coelhos ou raposas e nos matar de vez. Chegamos tarde para a reserva, cansadíssimos, e cobertos de lama. Mas vivos.
Tudo bem, o esforço valeu a pena, e almoçamos bem – foie gras, vieiras com salada de maçã e molho hollandaise, carne de veado com molho bourguignon, um croquete de salmão (“salmon cake”) defumado na casa, e um suflê de pistache com sorvete de chocolate. Custo, com vinho: 95 libras.
Na hora de voltar para casa, desistimos do Google Maps e decidimos usar um sistema de navegação que existe nesta região antes mesmo da fundação da universidade, uns 900 anos atrás: pedimos direções para outro ser humano.




