Flórida além da Disney (e de Miami)
A cada ano aproximadamente 300 bilhões de brasileiros chegam a Orlando, Flórida, para visitar a Disney. Ok, estou exagerando. Mas se a população do Brasil fosse mais numerosa, eles teriam que abrir um consulado dentro do Castelo da Cinderela.
Não estou criticando. A Disney é ótima! Eu visitei quando tinha 6 anos e a foto minha e do meu irmão com o Pluto (não com o Pateta, conforme disse antes) virou um clássico da família (apesar do menino loiro desconhecido que entrou na foto sem a gente perceber).
Mas como para muitos brasileiros a visita à Disney é também a primeira oportunidade de conhecer os Estados Unidos, acho que vale a pena aproveitar e descobrir um pouco do que fica fora do Reino Mágico e de outros parques de diversão. Ou seja, lugares onde o Mickey e a Minnie não andam pelas ruas e uma água sem gás custa menos de R$ 4.
Trata-se de esticar a viagem por só mais dois dias, alugar um carro e explorar a região. (Ah, e visitar Miami – que fica a 365 km de Orlando – é proibido, pois é um lugar quase tão atípico dos Estados Unidos quanto a Disney).
DESTINOS
Existem diversas opções. O roteiro depende do gosto da sua família e do tempo que vocês têm. Eu fui recentemente ao Kennedy Space Center (a 87 km da Disney) e fiquei impressionado com os foguetes de verdade, os filmes Imax e as apresentações multimídia que contam a história da exploração espacial (dentro de alguns anos, vai chegar o ônibus espacial aposentado Atlantis). O Kennedy está preparado para receber os brasileiros com mapas, guias em áudio e site em português.
Para os fãs do automobilismo, existe o tour do Daytona Beach International Speedway de Nascar (a 120 km da Disney). Se você se programar bem, dá para assistir a uma das corridas – a mais famosa é a Daytona 500 em fevereiro.
Um pouco mais longe está a cidade histórica de St. Augustine (a 200 km), fundada pelos espanhóis em 1565. A atração que mais gostei (tirando o Luli’s Cupcakes) foi o ótimo Castelo de São Marcos, uma fortaleza que passou pelas mãos dos espanhóis, ingleses e americanos – lá, dá para ver uma demonstração de canhão feita por “soldados” vestidos com uniformes da época.
Para as crianças, há o museu Ripley’s Believe It Or Not! (em português: “Acredite Se Quiser!”) lotado de coisas bem esquisitas. Lá também você encontra a prova de que entrou numa região conservadora do meu país: no museu existe uma réplica da famosa estátua David, de Michelangelo. Mas ela fica atrás de umas árvores para que os olhos inocentes não fiquem ofendidos pelo corpo nu da obra-prima do mestre italiano. Acredite se quiser!
Mais distante fica Fernandina Beach (a 310 km), uma cidadezinha com quilômetros de praias brancas e um centro histórico de casas vitorianas lindas do século 19. Não esqueça os ótimos cupcakes da Patty Cakes Bakery. (Dá para perceber que não perco a oportunidade de provar um cupcake?)
HOSPEDAGEM
Minha recomendação: fique com sua família em um motel.
Peraí. Preciso me explicar melhor.
Um “motel” em inglês norte-americano é simplesmente um hotel para motoristas (motor + hotel = motel), onde seu carro chega até a porta do seu quarto. É tipicamente mais barato e menos luxuoso que um hotel, mas tem todo o básico: banheiro, TV, ar-condicionado, camas. Camas para dormir, claro, apesar de também estarem disponíveis para outras atividades – como para crianças pularem em cima.
O motel também é um clássico das viagens em família que todos nós gringuinhos aprendemos quando crianças. Papai e mamãe no banco da frente, nós crianças atrás, a cada cinco minutos gritando “Já chegou?”. E, 253 “já chegou?” depois, finalmente chega-se ao motel perto de alguma praia ou algum parque nacional.
Existem vários tipos de motel. As cadeias nacionais, como Days Inn, onde fiquei por duas noites em St. Augustine recentemente, são perfeitamente aceitáveis. Mas é melhor escolher um motel independente, como o Ocean Mist Motel em Ormond Beach, perto de Daytona. Não é nada espetacular, mas quando passei ao lado dele em abril, fiquei impressionado com o estacionamento lotado apesar de ser fora de alta temporada. “Não pode ser tão ruim”, pensei. Pelo contrário. Descobri que aquele era um lugar simples mas limpo e bem cuidado, onde os donos – um americano casado com uma chinesa – cuidam muito bem dos clientes e promovem um clima social.
Mas nem todos os motéis são assim… Há alguns que são sujos. Por isso, você sempre deve pedir para ver um quarto antes de pagar.
COMIDA
Para o café de manhã, tem que ir a um diner, essa clássica lanchonete americana que você já viu nos filmes (lembra a última cena de Pulp Fiction – Tempo de Violência?). A ordem típica seria pancakes, bacon e café. Só não reclame quando o café chega fraquíssimo. Assim é o café de diner: uma experiência cultural.
Para almoço ou jantar procure um “seafood shack”, casas muito informais que servem peixe e frutos do mar fritos ou grelhados. Eu posso recomendar três por experiência própria:
Our Deck Down Under em Port Orange (perto de Daytona Beach) fica quase embaixo de uma ponte que liga uma ilha estreita (“barrier island” em inglês) com o continente e faz tanto sucesso que, de sexta a domingo, a fila fica tão grande que você nem deve tentar. Ok, deve, para pedir um sanduíche de mahi-mahi, camarões frescos ou ostras fritas.
Muito parecido, com mais charme mas menos estrutura é o Singleton’s Seafood Shack em Mayport (perto de Fernandina Beach). E finalmente, há o Archie’s Seabreeze em Fort Pierce, um lugar onde realmente dá para sentir que você está nos EUA. Quando eu fui lá, um guitarrista tocava e cantava ao vivo rock clássico, ao mesmo tempo em que eram servidos camarões feitos no bafo e vendidos pela libra, anéis de cebola e cerveja Budweiser.
E garçonetes que sabem tratar os clientes. Da última vez que estive no Archie’s Seabreeze, estava meio distraído com o celular, escrevendo um e-mail importante para meus chefes em Nova York, quando chegaram meus camarões. Alguns minutos depois, ainda estava escrevendo e a garçonete voltou para dizer docemente: “Os camarões vão esfriar, querido!” Fiquei surpreso. Na Disney, em Miami e em Nova York – três lugares que ficam dentro dos Estados Unidos sem fazer parte dos Estados Unidos – as garçonetes não prestam tanta atenção e não dizem “querido”.
Desliguei o celular e descasquei o primeiro camarão. Ainda estava quente.





