Existem muitas desculpas para as pessoas que têm medo de viajar. Aceito somente três, e só na forma temporária:
1) Não tenho dinheiro (agora).
2) O consulado não me deu visto (desta vez).
3) Meus filhos são muito pequenos (ainda).
Ah, ok, “estou na cadeia” também funciona. Difícil mesmo viajar. Mas qualquer outra desculpa – sou velho demais, tenho dieta restringida, nunca fiz antes, tenho medo etc, nem me fale.

Meus pais em lua-de-mel em Antígua
A contraprova, para mim, são meus pais, Peter e Judy Kugel, que me levaram nas minhas primeiras viagens quando eu era criança – e eles ainda podiam fazer tudo. E agora que estão mais maduros (81 anos e 73 anos, respectivamente) e têm vários problemas de saúde (meu pai, por exemplo, tem mal de Parkinson, e minha mãe não pode ingerir nem um miligrama de glúten sem que isso cause complicações)? Ainda fazem quase tudo.
Não acredita? É só ver as fotos deles o ano passado comigo na Nicarágua: meu pai ajudando a empurrar o carro que ficou atolado na lama em uma Zona Rural sem sinal de celular para pedir ajuda, ou minha mãe comendo “quesillos” nicaraguenses numa barraca simples que ficava em uma estrada rural. Eles podem e você não? Credo.
Na semana passada, escrevi sobre nossa viagem recente à Croácia. Fiquei impressionado (mais uma vez) com a flexibilidade e habilidade dos dois como viajantes e decidi fazer uma entrevista com eles por telefone da Turquia, onde estou agora. A ideia original era entrevistar minha mãe primeiro, e depois meu pai. Só que minha mãe ficou na linha durante a segunda entrevista e não resistiu: teve de interromper meu pai. Para variar.

Primeira viagem de verão em família, em Wyoming, EUA (nem sei quem é o cara no lado direito)
Seth Kugel: Mãe, você pode explicar sua doença?
Judy Kugel: Faz muuuuito tempo que estou viajando, mas há 11 anos fui diagnosticada com a doença celíaca, o que significa que não posso comer nada com glúten. E muitas coisas contêm glúten: pão, por exemplo, assim como qualquer receita feita com farinha de trigo, centeio, cevada ou aveia. [Uma observação: Faz mais de uma década que minha mãe não toma uma cerveja. Tadinha.
Seth Kugel: Por isso, em Cambridge [cidade dos Estados Unidos onde moram], vocês quase nunca comem em restaurantes. Na viagem, isso é impossível de evitar. Como isso te afeta?
Judy Kugel: Nunca vou parar de viajar, mas é verdade que tudo fica mais complicado. Você chega a um restaurante e no primeiro momento eles trazem à mesa um pão maravilhoso com azeite de oliva fino. Aí você fica pensando: “Tô morrendo de fome e não posso comer nada ainda.” Mas isso não é razão para não viajar. Às vezes é só um ajuste – adoro sorvete, mas não posso pedir uma casquinha. Às vezes é mais difícil. Quando estou na França, é extremamente difícil não comer um croissant.
Seth Kugel: Precisa levar comida com você?
Judy Kugel: Sempre viajo com alguma proteína e algo que contém ferro, normalmente um pacote grande de amendoim com uvas passas. Quando volto para casa nem posso olhar um amendoim por um mês. Mas na viagem isso me sustenta.

Família em viagem pela Croácia
Seth Kugel: E o idioma? Como explica para os garçons uma situação tão perigosa se eles não falam o mesmo idioma que você?
Judy Kugel: Existem cartões na internet que explicam a doença em muitos idiomas. Quando visito um país, sempre imprimo o cartão do no idioma local. Mas acontece que em alguns países é até mais fácil para um celíaco comer que nos Estados Unidos. Em muitos países da América Latina o milho é a matéria-prima para cozinhar, e isso eu posso comer. Quando te visitamos no Brasil, adorei aquele pão impossível de pronunciar [pão de queijo] feito com farinha de mandioca. Agora encontramos um mercado brasileiro perto da casa que vende esse pão congelado e fazemos em casa.
Seth Kugel: Em algum momento a doença interfere na escolha dos destinos?
Judy Kugel: Eu não desconsidero nenhum país, mas é verdade que quase sempre que viajo perco peso porque não corro riscos. Existe um clube de viagens para celíacos, mas nunca pensei em viajar com eles. A verdade é que nunca deixaria de viajar por isso porque as viagens enriquecem minha vida mais que qualquer outra coisa.
Seth Kugel: Qualquer outra coisa?
Judy Kugel: Exceto meus filhos.

A família Kugel em Zimbábue
Seth Kugel: Boa resposta. Pai, eu acho que apesar do mal de Parkinson e das outras doenças que você tem, você está melhor do que a maioria dos homens de 81 anos. Mas, ainda assim, isso deve causar problemas na hora de viajar, né?
Peter Kugel: Sim. Devido à apneia de sono preciso viajar com uma máquina que se chama CPAP. É um incômodo porque é difícil passar pela segurança no aeroporto. Quando fomos para Cuba, me pararam na alfândega e fui o último do grupo a sair. Quase perdi o ônibus porque nunca tinham visto aquele aparelho. Além disso, em qualquer quarto de hotel sempre preciso de uma tomada ao lado da cama. Em casa eu sempre durmo do lado direito da cama; e na viagem às vezes preciso trocar de lugar com sua mãe. Mas são só pequenos obstáculos.
Seth Kugel: E o mal de Parkinson?
Peter Kugel: Afeta muito minha mobilidade. Antes sua mãe e eu sempre andávamos de 30 km a 40 km de bicicleta por dia. Agora não podemos mais. Eu sempre era o mais forte do grupo e, de um dia para outro, deixei de ser.
Judy Kugel: Aos 77 anos ainda era. Aos 78 não.
Peter Kugel: Na Croácia, tive problemas no caminho para uma caverna por causa das pequenas pedras soltas. E para chegar a uma das casas onde ficamos, em Dubrovnik, era preciso subir muitas escadas. Isso foi difícil.
Judy Kugel: Seu pai está exagerando. Ele lida muito bem com as situações e acho que nunca desistiríamos de uma viagem por causa de sua incapacidade.
Peter Kugel: É verdade, nenhum problema me impede de fazer algo. Só fica um pouco mais difícil.

Meus pais e meu irmão em Bariloche
Seth Kugel: E sua companheira da viagem?
Peter Kugel: Ajuda muito. Nos damos muito bem, mas nós discutimos às vezes por bobagens (ou pequenas coisas), segundo meus filhos.
Seth Kugel: Então, muita coisa mudou nas suas viagens por causa de doenças ou idade?
Judy Kugel: Em geral, não. Viajamos muito bem, e acho que nosso estilo não mudou muito.
Peter Kugel: Algum dia, nem sei quando, vamos ter que começar a viajar em cruzeiros ou outras alternativas, onde cuidam mais de você.
Judy Kugel: Mas não somos o tipo de viajante que gosta de ficar no ônibus com um monte de velhinhos, porque não nos consideramos velhos. Adoramos as pessoas jovens e achamos que nos damos bem com eles.

Meus pais durante a última viagem feita à Croácia
Seth Kugel: Mas em algum momento vocês ficam preocupados por estar longe dos seus médicos se acontecer algo?
Peter Kugel: Quando viajamos com você para a Nicarágua, poderíamos ter contratado um seguro de saúde que incluía o transporte por helicóptero se algo acontecesse conosco. Mas não fizemos isso. Hoje em dia os serviços médicos do mundo todo estão melhores que nunca e sempre podemos ligar para nossos médicos nos Estados Unidos.
Judy Kugel: Tudo que você faz na vida envolve algum risco. Se tivéssemos medo de viajar e ficássemos em casa, sem dúvida alguma, o telhado cairia sobre nós.
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