Publicidade

Posts com a Tag Estados Unidos

quinta-feira, 17 de maio de 2012 Estados Unidos | 06:45

Fuja das compras em Savannah, uma das cidades mais lindas dos Estados Unidos

Compartilhe: Twitter

Distintas pessoas reagem às notícias de formas distintas.

Exemplo: o real enfraqueceu e vale R$ 1,97 por dólar.

1)     Os exportadores celebram.

2)     Os importadores choram.

3)     Eu penso na cidade de Savannah, Georgia.

Ou seja, eu penso que, talvez, por fim, os brasileiros me dêem bola quando sugiro irem para Savannah, que é, sem dúvida, uma das cidades mais charmosas dos Estados Unidos.

É que quando o real estava mais forte, vocês brasileiros pensaram nos Estados Unidos como uma espécie de shopping gigantesco. (Sem problema, alguns dos meus compatriotas pensam no Brasil como uma floresta gigantesca.) Mas agora que as compras ficaram um pouco mais caras, pode ser que vocês considerem uma visita a lugares conhecidos pela sua beleza ou valor histórico, e não por sua proximidade dos “outlets” de Woodbury Commons (em Nova York) e Sawgrass Mills (em Miami).

Outras viagens: Um roteiro de compras – para brasileiros – em Nova York

Turistas em carruagem fazem tour no distrito histórico de Savannah.

Savannah seria uma das minhas primeiras sugestões. Uma cidade de apenas 135.000 habitantes, a uma hora de avião ou quatro de carro de Atlanta. A capital do Estado da Geórgia é ainda a cidade mais importante do sudeste do país (com voo direto de São Paulo, pela Delta). Savannah recebe milhões de visitantes por ano que caminham pelo distrito histórico, passando por (e dentro de) casas antigas em belas condições, visitando galerias de arte e comendo a comida tradicional do sul, que eu sempre comparo (culturalmente e “gorduramente”) com a comida mineira.

Charme é o mínimo para descrever o centro histórico, desenhado por James Oglethorpe no século 18. Oglethorpe era britânico e fundador da colônia da Geórgia, quando o que agora é os Estados Unidos era terra disputada entre os ingleses, os espanhóis e os franceses (e os indígenas, claro). A ideia era formar uma cidade dividida em “wards”: pequenos bairros que teriam em seu centro uma praça verde. Ao redor da praça, Oglethorpe reservou espaços para prédios públicos como escolas e igrejas; algumas casas elegantes ficaram também frente à praça, muitas das quais hoje são preservadas como museus. Mas famílias menos ricas também conseguiam morar perto (se não ao lado) das praças, resultando em um plano que se considerava igualitário na época. – Oglethorpe, que deve ter sido um cara legal, também quis proibir não só a escravidão, mas também a presença de advogados (principalmente nos EUA, um mundo sem advogados parece ser o paraíso) na colônia, mas nenhuma dessas duas leis pegaram, infelizmente.

Mais: A classe AAA de Palm Beach

Praça típica nos "wards" de Savannah (com bastante musgo espanhol)

E tem mil lugares para parar, além das pracinhas: começando com os museus dentro das casas históricas, tais como a Owens-Thomas House, lotada de arte e móveis de 1750-1830, ou a Davenport House, onde se pode reservar uma mesa para o tradicional chá estilo século 19. Além dos museus, tem muitas galerias de arte e lojas de artesanato dentro dos wards, em parte devido à presença da Savannah College of Art and Design, uma faculdade respeitada de arte e desenho. O jornal francês Le Monde chamou a cidade de “a mais bonita dos Estados Unidos”, e os franceses sabem algo de cidades bonitas. O plano físico faz tanto sentido que é difícil andar pelas ruas e não pensar “por que toda cidade não é assim?”.

Mas nem toda cidade poderia ser assim, porque nem toda cidade tem o clima certo para o que mais dá charme à cidade: a onipresença do musgo espanhol, também conhecido em português como “barba de velho”. O musgo, que adora se pendurar nas árvores da região, inspira um sentimento que é difícil de descrever. Eu diria que é parte romance, parte preguiça, parte espanto. (Você, porém, reserva o direito de ter a sua própria reação). Talvez seja difícil acreditar que um musgo possa mudar uma cidade, mas é só dar uma olhada nessa foto.

Veja também: Como ser brasileiro – mas não tanto – no exterior

Musgo espanhol

A história de Savannah é entrelaçada com a indústria do algodão, e o melhor lugar para apreciar isso é na beira do rio, na River Street, com velhos prédios que eram depósitos de algodão (com os escritórios dos exportadores nos últimos andares). Por um tempo, foi a cidade que mais exportava algodão nos Estados Unidos, e o prédio mais importante era a Bolsa do Algodão – que ainda existe. Agora, o pátio próximo ao rio se transformou em parque público e atração turística, e está lotado de lojas e restaurantes.  Dica: quem gosta de comer de graça deve visitar a Peanut Store (Loja de Amendoim) na beira, que oferece amostras grátis de castanhas cobertas de chocolate, entre outras coisas. (Você pode comer muito e ninguém fala nada, pode acreditar, eu fiz a prova).

Há pouca informação escrita em português sobre Savannah – se conseguir encontrar, leia o clássico “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, livro mais famoso (mas não o único) cuja história se passa em Savannah. Mas parece bastante difícil encontrar a versão em português, assim que também vale ver o filme, do diretor Clint Eastwood. Savannah tem fama de ser uma cidade meio assombrada pelos fantasmas do passado, em parte pela fama do livro.

Mais: Conheça a Miami da década de 20

Tá vendo? Um fantasma na janela? Se não, melhor não perder dinheiro nos Ghost Tours de Savannah.

Para os que se garantem em inglês, vale pegar um dos famosos “Ghost Tours” noturnos de Savannah, inclusive um que leva os clientes em carro funerário. Eu fiz outro e achei um pouco absurdo, mas nem todo mundo concorda sempre comigo. Exemplo: eu não gosto de bacalhau, mas aceito que outras pessoas de boa fé (e mau gosto) podem não concordar.

Onde comer? Savannah tem muitos restaurantes clássicos da comida do Sul, mas também tem lugares que é melhor evitar. Talvez o restaurante mais badalado da cidade seja o The Lady & Sons, de Paula Dean, chef muito conhecida nos EUA pelos programas de TV e livros de receitas que não poupam gordura. The Lady & Sons (que ela administra com os filhos) é o tipo de restaurante que eu nunca visitaria por escolha própria, porque nem vejo os programas da Paula e só quem é fã aguenta os preços e filas.

Veja também: Filme “Carros” terá atração especial na Disney da Califórnia

Mas só para avisar, não sou sempre contra fenômenos turísticos. Eu posso recomendar, sem reservas, o Mrs. Wilkes Dining Room, onde se serve, de segunda a sexta, das 11h às 14h, um almoço “family-style” onde você se senta numa mesa grande com vários desconhecidos (ou que você acaba de conhecer na fila) e come as comidas mais tradicionais do sul: frango frito, linguiça, guisado de carne, muffins de milho, batata doce, quiabo, feijão verde, couve-galega. Custa US$ 18 (R$ 36) e se come (e bebe chá gelado) à vontade. Nem tão ruim para um lugar turístico. Mas chegue cedo, porque sempre tem fila.

Mais: Nova York a dois

Restaurante Zunzi's

Para quem quer gastar ainda menos, vou recomendar dois lugares. O primeiro por experiência própria: o Zunzi’s, um pequeno lugar que vende sanduíches e pratos de origens tão variados quanto os donos, que são de origem holandesa-suíça- italiana-sul-africana. O segundo vem de experiência alheia: o Angel’s BBQ, onde um sanduíche de pernil desfiado, tradicional da região custa US$ 6. Digo experiência alheia porque quando eu cheguei, às 13h30, já tinham vendido toda a carne do dia e estavam fechando. Lugar que não consegue preparar comida suficiente para durar até o final do almoço é lugar bom.

Daí, só fica o detalhe de onde dormir. As duas vezes que fiquei na cidade, usei o serviço do AirBnB (agora com site em português!), pelo qual residentes locais do mundo inteiro alugam quartos nas casas deles (ou a casa inteira) por preços muito menores do que um hotel. (Savannah tem mais de 90 possibilidades listadas). Nas duas vezes foi um sucesso, com quartos bem cuidados e anfitriões que estão tão acostumados a ter gente em casa que quase parecem pousadas.  Mas para quem tem um pouco mais de dinheiro, um “bed and breakfast” (cama e café) no distrito histórico é a escolha certa. Muitas das pousadas se situam em casas históricas, o que significa que, com sorte, a vista da janela do seu quarto será de árvores cobertas de musgo espanhol.

LEIA NO IG TURISMO:

- Viaje pelo mundo com James Bond

- Hotéis inusitados pelo mundo

- Programe sua viagem para Nova York

- Conheça Miami pelo paladar

Notas relacionadas:

  1. As redes de restaurantes que valem a pena. E as que você deve fugir
  2. Jackson Heights: Nova York como você nunca viu
  3. Em 2012, arranje um convite para comemorar o Thanksgiving
Autor: Seth Kugel Tags: ,

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011 Estados Unidos | 06:54

Observar os exóticos da classe AAA em Palm Beach

Compartilhe: Twitter

Se você entrar pela ponte de Royal Palm Way, é só olhar para cima para saber por que esta ilha da elite no litoral leste da Flórida se chama Palm Beach. E, depois, é só olhar para os lados para ver que as pessoas que moram lá – ou que vão para passar o inverno – têm tanto dinheiro quanto dizem.

Em cima, dominando a rua, estão as palmeiras reais, tão altas que, se caísse um coco, não existiria teto de Rolls-Royce que aguentasse. Pelos lados, prédios de empresas com nomes como Cypress Capital Group e Bessemer Trust. Não reconhece? Bom, então parece que você não é multimilionário, porque são “gerentes de riqueza” que ajudam os mais ricos a ficarem mais ricos ainda. Mas você deve conhecer o Bradesco Prime e o Itaú Personnalité, que atendem os “melhores” clientes dos bancos no Brasil, né? Os bancos de Royal Palm Way são para os que acham os clientes Prime e Personnalité bem povão.

Um Rolls-Royce estacionado na Worth Avenue

Você vira à direita na South Country Road e, daí a pouco, começam as mansões. Nem todas as casas dos residentes da ilha são mansões, claro, assim como nem todos milionários são bilionários. Mas as mansões (pelo menos as que não são ocultadas pelas sebes enormes e tão caras que todos os dias chegam exércitos de imigrantes latinos para cuidar das plantas) parecem de cinema. Dessas que têm portões como se o dono fosse o rei da França e, do lado de fora, um interfone ao nível do motorista para que ele se anuncie sem descer do carro. Quando eu passei uns quatro dias na ilha, em novembro, imaginei que devia haver cachorros ferozes esperando dentro das casas, que seriam soltos no caso de alguém ativar o detector de movimento tentando pular a cerca.

Bom, mas como esta coluna se trata das viagens, e não de roubar dos ricos para dar aos pobres, não tentei pular. Em vez disso, nas mansões que tinham nome oficial em uma placa, procurei no Google para aprender algo sobre a propriedade e seus (ex) residentes. Exemplo: Casa Apava era a residência de Ron Perelman, financeiro que vendeu a propriedade em 2004 por 70 milhões de dólares (ou seja, arredondando, 70 milhões mais do que vale a minha casa).

Uma das mansões de Palm Beach

E Casa del Sud, onde descobri que Jeffry Picower, bilionário e colega de Bernard Madoff, aparentemente se suicidou na piscina, em 2009, pouco depois de Madoff ir para a cadeia por ter fraudado e arruinado muitos investidores.

Nem sei em qual mansão morava Michael Jackson quando ele estava morando na área, nem qual era a casa da família Kennedy, nem a dos Lauder (e.g. Estée), nem dos outros notáveis que moram ou moravam na ilha.

Claro que, em Palm Beach, é impossível fazer minha atividade favorita: procurar um convite para a casa de uma família local. Mas você pode entrar nas lojas onde eles fazem compras. E a maioria se encontra na Worth Avenue, onde há lojas de todas as grifes de luxo que se possa imaginar (Gucci, Chanel, Tiffany & Co.).  Observando os carros estacionados na rua, parece que está acontecendo o Congresso de Donos de B.M.W. e Mercedes. Se você pudesse se “teletransportar” da Worth Avenue diretamente para a Oscar Freire, em São Paulo, seria como entrar na favela.

Então, como é visitar Palm Beach sem muito dinheiro? É como visitar um zoológico para uma espécie exótica de ser humano. O mais indicado seria passar um dia fazendo um tour ou ficar em um dos hotéis de luxo, mas é bem possível — até divertido — ficar na cidade sem gastar muito dinheiro. O único problema é que suas atividades serão um pouco restritas. Você deve comer várias vezes, por exemplo, nos poucos restaurantes menos caros — as duas lanchonetes (ou “diners,” o Hamburger Heaven e a Green’s Pharmacy), por exemplo. Lá até os ricos comem às vezes, por que quem não gosta de batata frita de vez em quando? Claro que sempre existe a opção de atravessar a ponte de novo e voltar a West Palm Beach, a cidade grande ao lado, onde há mil opções.

Clientes no Hamburger Heaven, onde os ricos comem batatas fritas

Jantar por lá vira um pouco problemático porque os restaurantes são chiques e caros. Tentei ir à pizzaria Pizza al Fresco, onde a mais barata era 15 dólares. Só louco paga isso por uma pizza de marguerita (estão me ouvindo, pizzarias paulistanas?). Mas adorei o restaurante Testa’s, que tem cardápio variado e consegue ser antigo (foi estabelecido em 1921) e moderno ao mesmo tempo. O jantar é caro, poucos pratos por menos de 20 dólares, mas oferece o cardápio de almoço durante o jantar, o que me permitiu pedir um sanduíche delicioso de atum grelhado com batatas fritas por 11 dólares.

A verdade é que há várias atividades disponíveis que não são caras. Apesar de muitos trechos de praias serem particulares, há algumas públicas, inclusive uma bem tranquila quase no centro da cidade.

E, apesar de Worth Avenue ter tantos lugares caros, tem também galerias de arte bacanas. Eu entrei em duas. A DTR Modern tinha muitas obras de Hunt Slonem, artista norte-americano aparentemente bem famoso, apesar de eu não ter ouvido falar dele antes. O vendedor foi muito educado comigo, me avisando “qualquer dúvida, é só falar”, mesmo percebendo (tenho certeza) que eu não ia comprar nada, nunca. Entrei também na Gallery Biba, que tinha muitas obras do artista pop Jonathan Stein, como uma escultura de batatas fritas de McDonalds feita de bronze em um recipiente desses vermelhos, mas decorado com cristais Swarovski. Também vi um trabalho do artista brasileiro Vik Muniz e fiquei suficientemente animado para até tirar uma dúvida com uma senhora que trabalhava na galeria. “Desculpe, você terá algo mais de Muniz? É que me fascina a arte contemporânea brasileira.” O que não é totalmente verdade, mas parecia coisa apropriada para falar no momento. Graças a Deus que a senhora não respondeu: “Ah, meu doutorado é sobre arte brasileira, quais são seus artistas favoritos?” (Minha resposta, sem dúvida, seria: “Cadê o toalete”? E depois escaparia pela janela).

O "thrift shop" Goodwill Embassy Boutique, onde roupa de grife se vende em segunda mão

Mas as compras não se fazem somente na Worth Avenue. As “thrift stores” – as lojas que vendem roupas e outros objetos de segunda mão e doam o dinheiro a várias ONGs – são bem legais porque recebem doações dos residentes da ilha, alguns dos quais se desfazem dos sapatos Prada quando os do novo ano são lançados. A melhor é a Goodwill Embassy Boutique, na Sunset Avenue, com preços tão incríveis que até eu comprei duas camisas (10 dólares cada), algo que quase nunca faço durante as viagens. E você pode jogar golfe por 35 dólares à beira-mar (é um campo fácil, mas tudo bem).

Para se hospedar, há até uma pousada em prédio histórico (dizem que em algum momento foi bordel, mas sempre dizem isso) com alguns quartos (em baixa temporada) por menos de 100 dólares por noite, um preço meio absurdo para a localização a dois quarteirões da Worth Avenue e a um da praia. É o  Palm Beach Historic Inn.

Ciclovia de Palm Beach

Mas a melhor parte de qualquer viagem a Palm Beach é andar de bicicleta. O lado Norte da ilha tem caminhos dedicados para bicicletas, mas até as outras ruas são tranquilas, e as distâncias não são grandes (alugue no Palm Beach Bicycle Shop). A única outra opção é alugar um carro. Mas andar em carro japonês pequeninho pode ser difícil para o ego em Palm Beach, visto o que os outros dirigem. É que é muito mais difícil distinguir as bicicletas dos ricos das bicicletas dos pobres, pelo menos a distância. E, de perto, é tarde demais de todo jeito: ninguém vai imaginar que você é residente da ilha, andando com essa bolsa Louis Vuitton que você comprou na loja de roupa de segunda mão. É que é tão primavera de 2010.

Notas relacionadas:

  1. As redes de restaurantes que valem a pena. E as que você deve fugir
  2. Jackson Heights: Nova York como você nunca viu
  3. Em 2012, arranje um convite para comemorar o Thanksgiving
Autor: Seth Kugel Tags: ,

quarta-feira, 30 de novembro de 2011 Estados Unidos | 05:59

Em 2012, arranje um convite para comemorar o Thanksgiving

Compartilhe: Twitter
Peru oficial de Ação de Graça dos Kugel, 2011

Peru oficial de Ação de Graça dos Kugel, 2011

O feriado norte-americano que mais intriga meus amigos brasileiros é o Dia de Ação de Graças, ou seja, o Thanksgiving.

O feriado brasileiro que mais intriga meus amigos norte-americanos é o Carnaval.

Impossível imaginar duas festas tão diferentes. Algumas diferenças são óbvias: nos Estados Unidos seria malvisto chegar à casa dos avós para comer o tradicional peru vestido de abadá (e seria impensável ir fantasiada como Scheila Carvalho).

Mas para nós, viajantes, a maior diferença não é essa.

É que o Carnaval é uma festa pública, celebrada nas ruas (e sambódromos), e todos os anos chegam turistas do mundo inteiro para assistir e participar da folia.

O Thanksgiving, pelo contrário, é uma festa íntima, de família, e por isso é muito difícil para alguém de fora entrar de penetra.

- Leia também: Seth erros no Thanksgiving

Na quinta-feira passada (24/11) foi o Thanksgiving nos Estados Unidos, e eu, como sempre, fui para a casa dos meus pais em Boston. Mas sendo o meu primeiro Thanksgiving com esta coluna, me ocorreu que é muito chato que a festa mais típica e mais legal do país seja praticamente fechada para os turistas. Por isso, hoje vou apresentar várias estratégias para participar dos Thanksgivings futuros.

Além de tudo, Thanksgiving é feriado de família. Na foto: minha cunhada Katrina, meu sobrinho Grady, minha mãe

Além de tudo, Thanksgiving é feriado de família. Na foto: minha cunhada Katrina, meu sobrinho Grady e minha mãe

Mas primeiro, o básico do dia, é que a data é celebrada sempre na quarta quinta-feira de novembro, para os que não lembram os episódios especiais de Thanksgiving dos seriados norte-americanos (por exemplo, quando Brad Pitt jantou na casa dos “Friends” em 2001).

A explicação tradicional é que o Thanksgiving começou com um jantar em 1621 entre os Peregrinos que acabavam de chegar à América do Norte e os Índios Wampanoag para celebrar a colheita (e agradecer o apoio dos nativos que tinham ajudado aos recém-chegados). Claro que há dúvidas sobre onde foi realmente o primeiro Thanksgiving, e há sempre comentários sobre a ironia dos peregrinos agradecerem um povo que nos séculos seguintes seria praticamente exterminado pelos seus descendentes.

Mas essa história nos dá só a estrutura superficial da festa: cores de outono, comidas tradicionais que existiam antes da chegada dos brancos (peru, cranberries, abóbora). E a filosofia do dia, da qual é muito difícil discordar: que devemos dar graças pelo que temos. Não há nenhum elemento religioso (como no Natal), nada de patriotismo (como o 4 de Julho, dia da independência). Quase não há comercialização, porque não se dá presentes. Talvez o setor da população mais excluído é o vegetariano, mas eles têm uma boa desculpa para comer mais sobremesa.

Então, o primeiro método para você experimentar no Thanksgiving é também o mais difícil: conseguir um convite à casa de uma família americana. Não é tão difícil quanto conseguir um convite ao Oscar, mas você vai precisar trabalhar um pouco. Funciona melhor se você é um pouco cara de pau.

Um prato com peru, molho de cranberry, batata doce e mais na casa dos Kugel

Um prato com peru, molho de cranberry, batata doce e mais na casa dos Kugel

Se já tem amigos nos Estados Unidos, ou contatos, ou amigos de amigos, ou contatos de contatos etc, fica mais fácil. Qualquer conexão funciona: talvez seu filho tenha feito intercâmbio um tempo atrás, ou você fez faculdade com um cara que se casou com uma americana cuja família mora na Flórida, quem sabe. Tem que aproveitar a fraqueza do americano: ouvir que alguém não tem lugar para ir no Thanksgiving nos comove o suficiente para esquecermos o detalhe que você é brasileiro e não celebra a data.

Se você não tiver a intimidade necessária para simplesmente dizer que você vai para os Estados Unidos e adoraria conhecer um Thanksgiving tradicional, pode ser mais esperto. Faltando um mês para o Thanksgiving, escreva para eles dizendo que você vai passar pela sua cidade ao final de novembro e gostaria muito de combinar algo com eles. (Claro que você nem admite saber o que é Thanksgiving)

Não deu certo?  Hora de subir o cara-de-pau-ômetro. Escreva de volta falando que se deu conta de que é Thanksgiving, e queria saber se eles acham melhor mudar a viagem para outra data porque tudo deve estar fechado.

Se tentasse com minha família, funcionaria quase com certeza. É que essa é uma das tradições na casa dos meus pais. Há muitos anos convidamos alunos estrangeiros da faculdade onde minha mãe trabalha, assim, temos sempre um ambiente internacional. (Agora, você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém da minha família?)

Não conhece nenhum americano? Tudo bem. Também tem uma versão de Thanksgiving público.

Desfile da Macy's já é tradição em Nova York

Desfile da Macy's já é tradição em Nova York - Foto: Getty Images

O evento mais óbvio é o desfile de Macy’s em Nova York, com personagens famosos tipo Bob Esponja feitos de balões infláveis que passam pelas ruas. Mas muitas outras cidades também têm desfiles. E até mais tradicional, pode assistir a um jogo de futebol americano do nível de escola secundária. Em muitos estados os times jogam sempre contra os grandes rivais – até tem uma página de Wikipédia dedicada aos jogos de Thanksgiving que indica muitas das possibilidades.

Quando é hora de jantar – normalmente quinta-feira à tarde, na minha casa mais ou menos às 17h – você pode comer com a minoria de famílias americanas (e grupos de amigos que moram longe e não conseguiram viajar) que vão para restaurantes. Em Nova York (onde muitas pessoas têm cozinhas tão pequenas que preparar um jantar para uma família grande é quase impossível), existem muitas opções. Uma lista está aqui.  (E para outros locais, o site OpenTable sempre bota listas para as outras grandes cidades)

O pai/avô sempre deve cortar o

O pai/avô sempre deve cortar o peru

Dê preferência a um restaurante especializado em comida típica norte-americana. Por exemplo, o Bubby’s, em Nova York. Este ano ofereceram um jantar tradicional de Thanksgiving, com peru “free-range” (ou seja aves não confinadas, até serem confinadas no seu forno), batata-doce com marshmallows (outra tradição), e as “pies” conhecidas do lugar. (A pumpkin pie, uma torta feita dessas mesmas abóboras que usamos para decorar as casas no Halloween, é a mais tradicional do dia)

O preço? O que você quiser pagar. Mas a ideia não é pagar pouco, é pagar extra: grande parte do seu pagamento vai diretamente a ONGs que trabalham com os sem-teto da cidade.

A última opção e talvez a melhor: ser voluntário para ajudar a preparar um jantar tradicional para famílias pobres. É uma opção tão popular que tem que fazer reserva só para trabalhar de voluntário – não deixe para o último minuto. Como encontrar? Só botar “volunteer”, “Thanksgiving” e a cidade onde vai estar no Google e encontrará muitas oportunidades.

Parece esquisito ajudar aos pobres durante as suas férias, mais ainda se nem são os pobres do seu próprio país? Não deveria ser. Cresce a cada dia o número de pessoas que dedicam as férias inteiras para trabalhos voluntários em outros paises – é um setor crescente da indústria turística e por uma razão excelente: você não só ajuda, mas aprende muito da experiência. Garanto que será uma experiência diferente, e que fará amizades com os co-voluntários e, espero, com os que você ajuda.

Foto oficial da família Kugel, tirada na quinta-feira passada

Foto oficial da família Kugel, tirada na quinta-feira passada

Admito, eu nunca fiz. Porque meus Thanksgivings, desde os anos 70, acontecem com o peru cortado pelo meu pai e o molho de cranberry feito segundo a receita da minha mãe. Como a gente não tem muitos parentes que moram perto da casa onde eu cresci, nos primeiros anos combinamos a celebração com duas outras famílias que eram quase como primos. Depois chegaram os alunos estrangeiros, e agora agregamos os filhos e a esposa do meu irmão. Sempre há futebol americano na TV antes do jantar (é, é uma tradição sexista — homens vendo futebol e mulheres cozinhando), e também futebol americano ao vivo no quintal. E agora a minha cunhada agregou uma tradição da família dela: o “jarro de agradecimento”. Cada pessoa tem que escrever as coisas pelas quais está agradecida nesse ano em pedaços de papel, e botar dentro de um jarro de vidro. Antes da sobremesa, lemos todos os papéis em voz alta. Os meus sobrinhos, que são pequenos, normalmente agradecem a existência da pizza, do chocolate e do futebol. Nós adultos somos mais sentimentais.

E talvez, quem sabe, no ano que vem estaremos agradecendo a presença de algum amigo brasileiro cara de pau que procurou no Facebook, descobriu que é amigo de um amigo de um amigo meu, e escreveu para avisar que vai para Boston em novembro e precisa de dicas de restaurantes. Espero sinceramente que sim.

- Confira dicas de roteiros de viagens no iG Turismo

Notas relacionadas:

  1. As redes de restaurantes que valem a pena. E as que você deve fugir
  2. Jackson Heights: Nova York como você nunca viu
Autor: Seth Kugel Tags: ,

terça-feira, 7 de junho de 2011 Estados Unidos | 16:00

Jackson Heights: Nova York como você nunca viu

Compartilhe: Twitter

Em 2006, comprei um apartamento em Jackson Heights, Queens (um dos cinco “boros” da cidade de Nova York – os outros são Manhattan, The Bronx, Brooklyn e Staten Island). Escolher um bairro para morar em Nova York é uma decisão crucial: a primeira pergunta que outro nova-iorquino faz ao te conhecer é: “onde você mora?”. Não é  para saber quanto dinheiro você tem – para isso perguntam “o que você faz?” ou olham seus sapatos -, mas para saber quem você é.

Eu sou muito Jackson Heights.

Pode ser que eu seja parcial, mas, para mim, quem não conhece Jackson Heights não conhece Nova York. Não me refiro aos museus, ao Central Park, aos restaurantes, à Quinta Avenida… Mas, na última década, Manhattan tem virado, pouco a pouco, um parquinho de diversões para os ricos. Os imigrantes, os artistas, a classe média – as forças vitais da cidade – se mudaram de lá.  No meu bairro todos se misturam, produzindo uma criatividade caótica e uma tolerância admirável. Além disso, é um paraíso para quem ama viajar. Nas ruas, o inglês é o idioma que menos se escuta. Ali, é possível visitar a Colômbia, a Índia, o Uruguai e a Itália em cinco minutos, a pé. (O que é bom, pois quase nenhum nova-iorquino tem carro.)

Fotos Seth Kugel

Os apartamentos "Greystone", num quarteirão considerado um dos 50 melhores de Nova York, pela revista Time Out

Então, escolha um hotel em Manhattan, suba no Empire State quantas vezes quiser, passe um dia inteiro admirando a arte no MoMA, faça suas compras no Century 21, jante no Daniel, saia de madrugada no Meatpacking District. Mas reserve uma tarde para visitar meu bairro. De metrô, você só leva 22 minutos do Empire State à estação Roosevelt Avenue, mais rápido do que ir de Wall Street ao Metropolitan Museum of Art.

Chegando à estação, procure a saída principal e saia na Roosevelt Avenue, embaixo dos trilhos elevados do trem 7. Se não errou, verá dois ou três carrinhos de tacos mexicanos – é óbvio que você vai comer um. Preste atenção: se houver três carrinhos, vá ao do meio. Só dois, vá ao da esquerda. (O terceiro, às vezes, some. Não sei o motivo). No seu melhor sotaque mexicano peça “un taco al pastor”, ou seja, carne de porco com pedacinhos de abacaxi. Se te perguntarem “¿con todo?”, significa cebola, coentro e guacamole. A pimenta do carrinho é super forte, mas não se preocupe, é você quem a coloca.

Um taco custa dois dólares, muito barato, pois não é comida para turista nem para americano: os clientes são os imigrantes mexicanos do bairro, que trabalham muito, ganham pouco e só comem tacos verdadeiros.

Fotos Seth Kugel

Rua 74: Saris, música indiana e filmes de Bollywood

Procure a 74 th Street e vire à direita. Acaba de entrar no bairro indiano. Bijuterias, lojas de saris (a roupa tradicional da mulher indiana) e de DVDs de Bollywood, tudo num só quarteirão. É fundamental entrar no supermercado Patel Brothers. Se você acha que supermercado não é uma atração turística, vai mudar de ideia. Ali, você pode passar uma hora vendo diversos  produtos exóticos. Quando for embora, fale um “oi” para Jadeja Mahendra, vendedor de mangas do Patel. Ele fica o dia inteiro ao lado da saída principal, na rua. Há anos esse cara está aí e suas mangas são as mais baratas de Nova York.

Ainda na 74 th Street, há muitos restaurantes indianos com “buffets” de almoço onde é possível comer à vontade por 8 ou 9 dólares. (Em Manhattan, você paga 8 ou 9 dólares por um drinque.) Outra opção para seu almoço é virar à direita na 37th Avenue e comer no restaurante nepalês Thakali Kitchen (um dos poucos do gênero em Nova  York). Os “momos” -  “dumpling” estilo nepalês – são ótimos. Outra boa opção é a Elmhurst Pizza, que serve pizza em estilo grego. Para entrar no espírito do bairro, peça sua pizza “indo-pak”, com curry, cebola, alho e um monte de pimentas jalapeños. Cuidado: é muito, super, nuclearmente apimentada.

Continue na 37th Avenue. O coração residencial do bairro fica nos quarteirões a sua esquerda. Os prédios históricos de tijolo foram construídos na primeira metade do século 20, como parte do movimento mundial “Cidade Jardim”, uma tentativa de maximizar os espaços verdes em centros urbanos. Se você explorar as ruas da vizinhança (recomendo!), vai ver muitas árvores e flores. Porém, as partes mais verdes ficam escondidas. São os jardins interiores. Eles abrem para o público apenas uma vez por ano, em um domingo de junho. A data está chegando, dia 19. Se, por coincidência, você estiver na cidade, compre seu ingresso por 10 dólares na calçada fora da igreja da 81-10 35th Avenue. Há nove jardins abertos entre 12h e 16h.

Fotos Seth Kugel

Jardim interior do Hampton Court: um dos nove jardins do bairro que abrem ao público apenas uma vez por ano

Voltando à 37th Avenue, ao seu lado esquerdo, há mais um supermercado para visitar, o Trade Fair. Ele vende produtos importados de quase todos os países de imigrantes que moram no bairro. É incrível! Para os equatorianos, cobaia congelada – ao lado da polpa de graviola (sério!). Para os colombianos, arepas. Para os indianos, mil temperos. Ah, e se você não acredita que num país tão avançado como os Estados Unidos seu hotel não tem adoçante líquido para o café, o Trade Fair vende Zero-Cal importado do Brasil. Fica perto do Nescau.

Na 77th Street, no lado direito, há uma escola pública. Se passar por lá entre 14h e 15h, observe a diversidade de pais e mães esperando os filhos na saída. Bangladeshianos, americanos, colombianos… Os pais se reúnem por nacionalidade e idioma, mas pode ter certeza de que dentro da escola seus filhos são amigos, falam inglês entre eles e formam a próxima geração de nova-iorquinos. O produto mais interessante do bairro pode ser a comida. Mas o “produto” mais importante do bairro são os cidadãos americanos.

Nossa, falta muito. Precisa de um banheiro? Há um Starbucks quase chegando à 79th Street (minha rua!), mas não compre nada. (Não leu a coluna da semana passada?) No próximo quarteirão, há o Rudy Volcano, uma lojinha linda. O proprietário, Rudy, importa objetos de arte e roupas da Guatemala, sua terra natal, e vende, principalmente, para clientes americanos. Quase tudo no bairro é barato. Rudy Volcano é a exceção.

Fotos Seth Kugel

"Pandebonos" e "almojábanas": iguarias da padaria colombiana

Agora, você chegou à “Pequena Colômbia”. Em muitas padarias, você pode provar os pães colombianos com queijo (os “pandebonos” ou “panes de queso”), mas vou sugerir outra opção, típica da cidade de Cali: o “tcholado”. Leva frutas, sucos, leite condensado e gelo. Uma delícia, sobretudo no verão sufocante nova-iorquino (que está chegando). Pode comprar seu “tcholado” na pequena La Paisa Bakery, na 82 th Street, muito perto da esquina com a 37 th. Um pouco depois, dê uma olhada na Aroma de Mujer, loja de roupas colombianas no lado esquerdo da 37 th. Muitas imigrantes colombianas não gostam dos cortes dos jeans, calcinhas e biquínis americanos e procuram roupas produzidas no seu próprio país.

O próximo destino é uma padaria uruguaia: La Nueva Bakery, na 86-10 37th Avenue. (Cuidado, também existe um restaurante que se chama La Nueva, dos mesmos donos). Sente-se para tomar um café ou o ótimo refrigerante uruguaio El Paso de los Toros (sabor grapefruit), acompanhado por um genuíno alfajor uruguaio.

Acabou o seu tour. Pode voltar a Manhattan pela linha 7 (a parada mais próxima está na 90 th Street com a Roosevelt Avenue) ou ir a pé para a estação da 74th (andando pela movimentada Roosevelt para pegar a linha E ou a F).

Fotos Seth Kugel

Jantar no La Fusta, restaurante argentino

Claro que você poderia explorar mais o meu bairro e ficar para jantar no La Fusta, um restaurante argentino muito mais barato do que os existentes em Manhattan. Lá, o “bife de chorizo” é perfeito, o vinho é barato, o serviço é ótimo e a sobremesa de “crêpes flambées” com doce de leite é de morrer. Mas não é que tinha algo superimportante e superchique para fazer em Manhattan?

SETH ERROS

para evitar em Nova York e Jackson Heights.

1) Visitar a cidade e ficar só em Manhattan.

2) Desistir de ir para Jackson Heights por achar complicado chegar. Pode ir direto por três linhas do metrô: a E (pela Eighth Avenue), a F (pela Sexta Avenida) e a 7 (pela Rua 42). Se for pela E ou pela F, desça na estação Roosevelt Avenue-Jackson Heights; pela 7 desça na 74th Street-Roosevelt Avenue).

3) Comer antes de ir a Jackson Heights. (O ideal: jejum por três dias. O aceitável: não tomar café de manhã).

4) Preocupar-se com a limpeza dos carrinhos de tacos. São todos inspecionados pela prefeitura. Pode ser que os trabalhadores lá dentro sejam ilegais, mas a comida é legal.

5) Desistir de La Nueva Bakery porque está sem fome. Leve um alfajor coberto de chocolate para viagem e coma no dia seguinte em Manhattan, preferivelmente na calçada, para que os demais turistas morram de inveja.

6) (Só para mulheres) Perder a oportunidade de conversar com a dona colombiana da loja Aroma de Mujer sobre o mau gosto das norte-americanas.

7) Tentar encontrar o restaurante argentino La Fusta sem imprimir este mapa.

Notas relacionadas:

  1. As redes de restaurantes que valem a pena. E as que você deve fugir
Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

quarta-feira, 1 de junho de 2011 Estados Unidos | 07:03

As redes de restaurantes que valem a pena. E as que você deve fugir

Compartilhe: Twitter

Já aconteceu tantas vezes que nem consigo contar. Um brasileiro me pergunta: “qual é a verdadeira comida americana?” Hambúrguer do McDonald’s, né? Pizza do Domino’s, né? Café e muffin tipo Starbucks, né?”

Não é, não é, e não é.

Fotos Seth Kugel

Deixe para ir ao McDonald's na volta ao Brasil

Um outro dia falarei do peru com molho de cranberry do jantar de Ação de Graça e dos sanduíches estilo americano tipo Subway, mas mil vezes melhor são a comida caseira do Sul que me lembra a comida mineira, os queijos de Wisconsin que não me lembram em nada o queijo mineiro e o burrito de San Francisco que não é, nem de longe, uma invenção mexicana.

Hoje vou me limitar a um erro grave cometido por turistas pelo mundo inteiro: comer em redes internacionais.

Me dá muita pena entrar no McDonald’s lá na Times Square e encontrar tantos turistas falando tantos idiomas diferentes (quando suas bocas não estão cheias de batatas fritas). Quanto dinheiro eles gastaram para vir a Nova York só para comer num lugar que existe no seu país também? E todos os turistas no Starbucks, essa rede de cafés tão medíocre. Em muitas cidades americanas onde existem tantos outros cafés simpáticos, o Starbucks tem só três razões para existir: cafeína de emergência, internet de emergência, banheiro de emergência.

Não é que toda rede seja ruim. Por alguma razão viraram redes, né? Em algum momento o primeiro restaurante fez tanto sucesso que inauguraram mais um, e mais outro, e mais outro. Olha o primeiro McDonald’s, parece até bom mesmo.

Minha regra para turistas, então, é a seguinte: pode comer numa rede, mas só se ela não existir onde você mora.

Levante a mão se você mora perto de um McDonalds. OK, está proibido de comer no McDonald’s quando viajar. Agora, levante a mão se você mora perto de um Five Guys ou de um In-n-Out Burger.

Não existem no Brasil, mas são duas redes regionais nos Estados Unidos que servem hambúrgueres de verdade e têm milhares de devotos. Um dos maiores fãs do Five Guys é o Obama, que uma vez saiu da Casa Branca para ir até lá e voltar com cheeseburgueres para seus assessores. O In-n-Out Burger é uma rede da Califórnia conhecida por seu “cardápio secreto” que só os devotos conhecem.

Fotos Getty Images

Se quiser fast food, busque por redes internacionais que não existam próximas a sua casa. Foto: Getty Images

Minha regra não aplica só aos Estados Unidos, claro. Quando fiz uma matéria em Londres sobre os lugares favoritos dos alunos universitários, pesquisei entre os estudantes para ver onde se comia bem e barato. Quase 100% mencionaram o Nando’s, uma rede lendária entre eles pelo “frango peri-peri,” frango grelhado e servido com molho apimentado com origem moçambicana. A rede nem é inglesa, mas já virou parte da cultura londrina. Fui, adorei e recomendo como parte imperdível duma visita a Londres.

E se não houver alternativa às redes proibidas? Não custa verificar as opções. Já pesquisou no Google Maps? (A busca “Restaurants near xxx”, onde “xxx” é o endereço onde você está, funciona muito bem). Também tem Urbanspoon.com (fácil até para os que não entendem muito inglês), Chowhound.com, Yelp.com e TripAdvisor.com. Para Nova York, nymag.com/restaurants é o melhor, e de longe.

Mas e em uma viagem de estrada, nessas paradas onde só existem redes? Resposta 1: pegue uma saída qualquer da estrada, dirija até a cidadezinha mais perto e procure um restaurante local. Resposta 2: se não quiser ousar, veja se há uma rede não conhecida na sua parada e pergunte qual é a comida mais típica deles. Coma o frango saudável do Boston Market, por exemplo, e depois vá ao Cinnabon para pedir o cinnamon roll mais gostoso de todos os tempos. Com 880 calorias e 36 gramas de gordura, é para dividir. (Ok, tem Cinnabon no Brasil, mas se você não mora perto de uma franquia, pode experimentar durante sua viagem aos Estados Unidos).

 

Fotos Getty Images

A lendária rede Waffle House é uma boa opção para o café da manhã

Às vezes existem redes locais ou regionais que valem a pena até procurar. Quando fui à Flórida recentemente, quis muito tomar café de manhã num Waffle House, uma rede quase lendária que não existe em Nova York (nem no Brasil). Não gostei, mas pelo menos matei a curiosidade. Outro exemplo é o Friendly’s, uma rede de lanchonetes e sorveterias popular nas pequenas cidades no Nordeste dos Estados Unidos. Eu fui criado nessa região e, para mim, o Friendly’s tem uma forte ligação com a infância. Se você for, não perca o sorvete de black raspberry (framboesa negra). É ótimo. Bom, pelo menos foi ótimo nos anos 80 – preciso voltar lá para me atualizar.

A minha regra se aplica também às redes brasileiras? Claro. Eu gosto do Habib’s, principalmente porque é muito barato. Mas no ano passado, quando fui a Maceió, meu hotel ficava muito perto de um Habib’s sempre lotado. Fui? Claro que não – em frente ao Habib’s, na beira-mar, uns camelôs vendiam as melhores tapiocas que já provei na vida. No Nordeste, eu como comida nordestina, lógico.

Da mesma forma, eu aceito que um turista gringo visite o Habib’s quando estiver no Brasil. Óbvio que ele não vai encontrar as melhores esfirras do mundo, mas vai conhecer um lugar bem brasileiro. Claro que seria inaceitável para esse turista concluir: “Assim é a comida árabe no Brasil.”

Da mesma forma, o hambúrguer do McDonalds não é comida típica americana. Se você quiser se empanturrar com sanduíches cheios de calorias e gorduras, tudo bem. Mas economize o custo da passagem e faça isso no Brasil.

SETH ERROS

PARA EVITAR AO ESCOLHER UM RESTAURANTE NA VIAGEM

1) Comer em um restaurante de rede se a mesma rede existe perto da sua casa ou se já experimentou em outro lugar.

2) Tomar café no Starbucks (procure um café local. Alguns exemplos nova-iorquinos: em Manhattan, Grounded, Think Coffee, Ninth Street Coffee, Joe, e no Brooklyn, o Tea Lounge.)

3) Desistir das redes totalmente (Muitas redes locais e regionais são ótimas.)

4) Usar como desculpa “Mas não sabia aonde ir”. Procure, pesquise, pergunte.

5) Perder a oportunidade de comer seu primeiro Cinnabon.

6) Comer seu segundo Cinnabon. Como saltar de pára-quedas, Cinnabon é coisa de uma vez na vida.

7) Me dizer que o McDonald’s é comida americana. Só é se o Bob’s for comida brasileira.

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,