Fuja das compras em Savannah, uma das cidades mais lindas dos Estados Unidos
Distintas pessoas reagem às notícias de formas distintas.
Exemplo: o real enfraqueceu e vale R$ 1,97 por dólar.
1) Os exportadores celebram.
2) Os importadores choram.
3) Eu penso na cidade de Savannah, Georgia.
Ou seja, eu penso que, talvez, por fim, os brasileiros me dêem bola quando sugiro irem para Savannah, que é, sem dúvida, uma das cidades mais charmosas dos Estados Unidos.
É que quando o real estava mais forte, vocês brasileiros pensaram nos Estados Unidos como uma espécie de shopping gigantesco. (Sem problema, alguns dos meus compatriotas pensam no Brasil como uma floresta gigantesca.) Mas agora que as compras ficaram um pouco mais caras, pode ser que vocês considerem uma visita a lugares conhecidos pela sua beleza ou valor histórico, e não por sua proximidade dos “outlets” de Woodbury Commons (em Nova York) e Sawgrass Mills (em Miami).
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Savannah seria uma das minhas primeiras sugestões. Uma cidade de apenas 135.000 habitantes, a uma hora de avião ou quatro de carro de Atlanta. A capital do Estado da Geórgia é ainda a cidade mais importante do sudeste do país (com voo direto de São Paulo, pela Delta). Savannah recebe milhões de visitantes por ano que caminham pelo distrito histórico, passando por (e dentro de) casas antigas em belas condições, visitando galerias de arte e comendo a comida tradicional do sul, que eu sempre comparo (culturalmente e “gorduramente”) com a comida mineira.
Charme é o mínimo para descrever o centro histórico, desenhado por James Oglethorpe no século 18. Oglethorpe era britânico e fundador da colônia da Geórgia, quando o que agora é os Estados Unidos era terra disputada entre os ingleses, os espanhóis e os franceses (e os indígenas, claro). A ideia era formar uma cidade dividida em “wards”: pequenos bairros que teriam em seu centro uma praça verde. Ao redor da praça, Oglethorpe reservou espaços para prédios públicos como escolas e igrejas; algumas casas elegantes ficaram também frente à praça, muitas das quais hoje são preservadas como museus. Mas famílias menos ricas também conseguiam morar perto (se não ao lado) das praças, resultando em um plano que se considerava igualitário na época. – Oglethorpe, que deve ter sido um cara legal, também quis proibir não só a escravidão, mas também a presença de advogados (principalmente nos EUA, um mundo sem advogados parece ser o paraíso) na colônia, mas nenhuma dessas duas leis pegaram, infelizmente.
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E tem mil lugares para parar, além das pracinhas: começando com os museus dentro das casas históricas, tais como a Owens-Thomas House, lotada de arte e móveis de 1750-1830, ou a Davenport House, onde se pode reservar uma mesa para o tradicional chá estilo século 19. Além dos museus, tem muitas galerias de arte e lojas de artesanato dentro dos wards, em parte devido à presença da Savannah College of Art and Design, uma faculdade respeitada de arte e desenho. O jornal francês Le Monde chamou a cidade de “a mais bonita dos Estados Unidos”, e os franceses sabem algo de cidades bonitas. O plano físico faz tanto sentido que é difícil andar pelas ruas e não pensar “por que toda cidade não é assim?”.
Mas nem toda cidade poderia ser assim, porque nem toda cidade tem o clima certo para o que mais dá charme à cidade: a onipresença do musgo espanhol, também conhecido em português como “barba de velho”. O musgo, que adora se pendurar nas árvores da região, inspira um sentimento que é difícil de descrever. Eu diria que é parte romance, parte preguiça, parte espanto. (Você, porém, reserva o direito de ter a sua própria reação). Talvez seja difícil acreditar que um musgo possa mudar uma cidade, mas é só dar uma olhada nessa foto.
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A história de Savannah é entrelaçada com a indústria do algodão, e o melhor lugar para apreciar isso é na beira do rio, na River Street, com velhos prédios que eram depósitos de algodão (com os escritórios dos exportadores nos últimos andares). Por um tempo, foi a cidade que mais exportava algodão nos Estados Unidos, e o prédio mais importante era a Bolsa do Algodão – que ainda existe. Agora, o pátio próximo ao rio se transformou em parque público e atração turística, e está lotado de lojas e restaurantes. Dica: quem gosta de comer de graça deve visitar a Peanut Store (Loja de Amendoim) na beira, que oferece amostras grátis de castanhas cobertas de chocolate, entre outras coisas. (Você pode comer muito e ninguém fala nada, pode acreditar, eu fiz a prova).
Há pouca informação escrita em português sobre Savannah – se conseguir encontrar, leia o clássico “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, livro mais famoso (mas não o único) cuja história se passa em Savannah. Mas parece bastante difícil encontrar a versão em português, assim que também vale ver o filme, do diretor Clint Eastwood. Savannah tem fama de ser uma cidade meio assombrada pelos fantasmas do passado, em parte pela fama do livro.
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Para os que se garantem em inglês, vale pegar um dos famosos “Ghost Tours” noturnos de Savannah, inclusive um que leva os clientes em carro funerário. Eu fiz outro e achei um pouco absurdo, mas nem todo mundo concorda sempre comigo. Exemplo: eu não gosto de bacalhau, mas aceito que outras pessoas de boa fé (e mau gosto) podem não concordar.
Onde comer? Savannah tem muitos restaurantes clássicos da comida do Sul, mas também tem lugares que é melhor evitar. Talvez o restaurante mais badalado da cidade seja o The Lady & Sons, de Paula Dean, chef muito conhecida nos EUA pelos programas de TV e livros de receitas que não poupam gordura. The Lady & Sons (que ela administra com os filhos) é o tipo de restaurante que eu nunca visitaria por escolha própria, porque nem vejo os programas da Paula e só quem é fã aguenta os preços e filas.
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Mas só para avisar, não sou sempre contra fenômenos turísticos. Eu posso recomendar, sem reservas, o Mrs. Wilkes Dining Room, onde se serve, de segunda a sexta, das 11h às 14h, um almoço “family-style” onde você se senta numa mesa grande com vários desconhecidos (ou que você acaba de conhecer na fila) e come as comidas mais tradicionais do sul: frango frito, linguiça, guisado de carne, muffins de milho, batata doce, quiabo, feijão verde, couve-galega. Custa US$ 18 (R$ 36) e se come (e bebe chá gelado) à vontade. Nem tão ruim para um lugar turístico. Mas chegue cedo, porque sempre tem fila.
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Para quem quer gastar ainda menos, vou recomendar dois lugares. O primeiro por experiência própria: o Zunzi’s, um pequeno lugar que vende sanduíches e pratos de origens tão variados quanto os donos, que são de origem holandesa-suíça- italiana-sul-africana. O segundo vem de experiência alheia: o Angel’s BBQ, onde um sanduíche de pernil desfiado, tradicional da região custa US$ 6. Digo experiência alheia porque quando eu cheguei, às 13h30, já tinham vendido toda a carne do dia e estavam fechando. Lugar que não consegue preparar comida suficiente para durar até o final do almoço é lugar bom.
Daí, só fica o detalhe de onde dormir. As duas vezes que fiquei na cidade, usei o serviço do AirBnB (agora com site em português!), pelo qual residentes locais do mundo inteiro alugam quartos nas casas deles (ou a casa inteira) por preços muito menores do que um hotel. (Savannah tem mais de 90 possibilidades listadas). Nas duas vezes foi um sucesso, com quartos bem cuidados e anfitriões que estão tão acostumados a ter gente em casa que quase parecem pousadas. Mas para quem tem um pouco mais de dinheiro, um “bed and breakfast” (cama e café) no distrito histórico é a escolha certa. Muitas das pousadas se situam em casas históricas, o que significa que, com sorte, a vista da janela do seu quarto será de árvores cobertas de musgo espanhol.
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