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quinta-feira, 15 de março de 2012 Brasil, Estados Unidos | 06:55

Para inglês entender

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- Veja a resposta da Embratur sobre os erros de tradução em seu site

Há 15 dias, o secretário geral da Fifa, Jerome Valcke, reclamou – de forma não muito diplomática – que o Brasil estava bem atrasado nos preparativos para a Copa do Mundo. Eu não sei falar se Brasil está realmente tão fora dos prazos para a construção dos estádios e da infraestrutura quanto diz o Sr. Valcke, ou se está no caminho certo, como diz o governo. Mas posso dizer, com certeza, que o Brasil – e mais especificamente a Embratur, agência oficial de promoção e marketing do turismo no País – está bem atrasada em outra coisa: o inglês.

Na semana passada, escrevi sobre o profissionalismo dos representantes da Embratur na feira de turismo New York Times Travel Show. Agora, vem a parte chata: a versão virtual, braziltour.com, é muito ruim. No site, que todo o mundo vê como primeira opção quando busca por “visit Brazil” ou “Brazil tourism” no Google, a informação está apresentada em um inglês tão pobre que em muitos casos nem dá para entender o que se quer dizer.  Incluindo a primeira página (home).

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

A Embratur obviamente fez um esforço grande, porque o site é bonito e lotado de fatos, informações e vídeos. Posso até dizer que a versão em português é muito legal. Mas é fato que a versão em inglês é a que importa, porque serve não só os cidadãos dos aproximadamente 60 países do mundo onde o inglês é o idioma oficial ou predominante, mas também outros países como Japão, China e Rússia, que não contam com versões nos idiomas deles.

O site existe também em espanhol, francês, italiano e alemão, mas eu não sei avaliá-los. O que posso dizer é que o inglês é péssimo. Não péssimo tipo “Você visitar Brasil. Brasil ser muita bonita.” Isso é errado, mas pelo menos dá para entender.

Vamos para alguns exemplos. As primeiras mensagens que aparecem são:

“Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup” e depois “Click here and get to know our Cities Selection”.

Li as duas frases pelo menos 20 vezes sem consegui entender nenhuma das duas.  Será que o primeiro significa “As estrelas da seleção brasileira vão estar presente na Copa do Mundo”, pensava. Ou talvez “As estrelas do céu estão alinhadas para a Copa ser maravilhosa”?

A segunda parte também foi difícil. “Cities Selection” significa o quê? Deve ter algo a ver com as cidades que vão receber a Copa, mas o quê exatamente?  Fiquei perplexo.

Rio de Janeiro

O que você entende por: “Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup”, “Click here and get to know our Cities Selection”?

Para resolver, fui para a versão em português.  Ah, “as estrelas” = “os craques”, e os craques, neste caso, são as cidades hospedeiras. Embratur, me permite?

“Brazil has recruited its biggest stars for the 2014 World Cup…”

“Its host cities! Click here to learn all about them.”

O problema é fácil diagnosticar. Já vi em muitos outros sites de empresas brasileiras, sem falar de cardápios em restaurantes e placas nos hotéis. Os que fazem as traduções de português para inglês são brasileiros.

Funciona assim. Para traduzir do inglês para o português, se deve usar brasileiros (ou portugueses, angolanos etc) bilíngues. Para traduzir do português para o inglês, precisa de tradutores bilíngues, que foram criados e educados em inglês. Não quem estudou inglês na faculdade e fez mestrado em Londres. Ou seja, precisa de ingleses, canadenses, norte-americanos, australianos, tanto faz. Podem existir algumas exceções extraordinárias à regra, tradutores brasileiros que conseguem verter profissionalmente para o inglês? Pode. Mas são poucos, caros e claramente não são contratados pela Embratur.

Eu tenho um amigo norte-americano tão fluente em alemão que grandes editoras o contratam para traduzir os best-sellers alemães para o inglês. Já ganhou prêmios por seu trabalho. Mas ele absolutamente se recusa a fazer traduções do inglês para o alemão. Porque sabe que vai ter erros.

(Ah, e claro, eu escrevo esta coluna no meu português imperfeito. Mas não publico nada antes de tê-la revisada e corrigida pela minha editora brasileira. Se quiser ver meu português na versão original, tem que me seguir pelo Twitter no @tuitesdo7.)

Voltando para o site…

O turista que clica sobre “Selection Cities” chega a outra tela. Aparece uma frase: “A cities’ schedule ready to start playing”.

“Humanity Cultural Heritages in Brazil”

“Humanity Cultural Heritages in Brazil” ou “World Heritage Site”

Tenho mais de três décadas de experiência em ler o inglês, mas ainda assim não consegui decifrar esse contrassenso. Procurei na versão em português: “Uma seleção de cidades pronta para entrar em campo”. Gente, speak serious. Nada a ver. Embratur, tome nota: “A great team of cities, ready to take the field”.

Daí dá para “conhecer” as cidades em fatos, fotos e vídeos. Cada qual com erros que variam de ruins a desastrosos. Um vídeo sobre Natal mostra o que parece ser de uma dança tradicional, com a legenda: “Plentiful cultural demonstration”. Sentido? Nenhum. Parecem palavras escolhidas aleatoriamente e colocadas juntas ao acaso.

Mas os erros mais graves ficam na página principal. Se o visitante potencial rola a tela para baixo, quase todas as outras opções têm erros também. (Uma exceção: “Golf” está traduzido corretamente como “Golf”) Mas tem uma que é imperdoável. A tradução de “Patrimônios Culturais da Humanidade no Brasil” é: “Humanity Cultural Heritages in Brazil”.

Desculpe a repetição, mas não faz sentido nenhum. Para quem não sabe, o status de “Patrimônio da Humanidade” é decidido pela UNESCO, agência da ONU. A Embratur sabe disso. Assim que encontrar a tradução correta é muito fácil. Basta ir à página do Wikipédia em português e dar um click em “English”, na coluna de “outras línguas”, do lado esquerdo. Aparecerá a mesma página do Wikipédia, em inglês. Resultado: “World Heritage Site”. Ou faça uma pesquisa por “UNESCO” no Google.com, em inglês. Saem imediatamente duas opções: “World Heritage” e “World Heritage List”.

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Felizmente, alguns erros são mais engraçados do que deprimentes. É só ir na página de Trancoso. A descrição do lugar em português é a seguinte:

“Trancoso é um povoado localizado no sul do Estado da Bahia, é hoje um lugar ideal para fugir da agitação e estresse da cidade.”

E em inglês: “Trancoso is a town on the south region of Bahia. It is now the ideal site to runaway from the effervescence and stress of the city”.

A tradução possui pelo menos cinco erros. Mas é o quinto o mais hilário. Como “agitação” chegou a ser “effervescence”, não sei dizer. “Effervescence”, em inglês, significa “o ato de bolhas de gás escaparem de um líquido”.

Ou seja, Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade. Notem bem, gringos: se vocês gostam da Coca Zero ou da água com gás, melhor escolher outro destino.

Obviamente, ninguém vai desistir de Trancoso por um erro de vocabulário. Mas desistir de um país porque não tem informação legível em seu site oficial? Com tantos outros países de olho nos bilhões de dólares do turista internacional? Isso não só é possível, é provável.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quarta-feira, 7 de março de 2012 Brasil, Estados Unidos | 06:52

A imagem do Brasil no exterior

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Turismo-Brasil-Nova York - New York Times Travel Show

O estande brasileiro no New York Times Travel Show

Promover o Brasil no mundo – pelo menos no mundo do turismo – é uma tarefa complicada. Como você faria? Qual seria o seu slogan, qual seria sua caixa-postal, como seria seu “discurso de elevador” – ou seja, se conhecesse alguém num elevador e tivesse que persuadí-lo a escolher o Brasil como destino turístico nos 30 segundos antes de sair, o que diria?

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Isso foi mais ou menos o trabalho da Embratur – o Instituto Nacional de Turismo – no New York Times Travel Show, uma feira de turismo que aconteceu no fim de semana passado em Manhattan. O Brasil era um dos patrocinadores principais do evento, e teve um dos maiores estandes no Centro de Convenções Javits. Eu fui para participar num painel sobre tecnologia e viagens, e fiquei depois para observar os esforços dos oficiais brasileiros e conversar com os norte-americanos que visitavam o estande sobre suas impressões do Brasil como destino turístico.

Era impossível perder o estande – pendurado no teto, visível de longe, estava o logotipo da Embratur, um tipo de ameba colorida com as palavras “Brasil” e “Sensacional”. Embaixo, atrás dos balcões, fotos enormes do Rio de Janeiro e de Foz de Iguaçu, com as frases “Brasil está te chamando. Celebre a vida aqui”. O estande estava dividido em balcões por região: Rio de Janeiro, Pernambuco, Amazonas, São Paulo, Foz do Iguaçu, Bahia e Mato Grosso de Sul, com representantes locais. E teve um espaço da TAM também, onde eu ganhei uma calculadora solar que vou usar para calcular as calorias que consumo cada vez que pego um monte dessas balas que as aeromoças oferecem no começo de cada voo.

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New York Travel Show-Nova York-Brasil-Turismo

Contraste: no estande brasileiro, representantes explicavam a diversidade do país e davam dicas; no estande da República Dominicana os representantes dançava merengue com os visitantes

A impressão era de uma operação profissional – sorridente, mas séria, com nada de festa como no estande da República Dominicana, onde uma banda tradicional tocava merengue e era difícil uma mulher passar por aí sem ser arrastada para a pista por um dos dançarinos profissionais. Nada de fantasia, como no estande de Malásia, com mulheres em vestidos tradicionais vendendo uma imagem exótica do país. No estande do Brasil, só profissionais conversando e promovendo os destinos individuais, nada de sunga e nada de fantasia de Carnaval. Gostei.

Segundo Carolina Neri, que representava Embratur no evento, foi de propósito. O objetivo principal de passar uma imagem diferente sobre o Brasil, agora, disse, é que, por muito, tempo o Brasil se promovia pelas imagens estereotipadas: praias, futebol, mulheres e samba. Então, a mensagem número 1 é: “Não somos só Carnaval, não somos só futebol de quatro em quatro anos. O Brasil é uma diversidade de pessoas e culturas.”

- Leia também: Explicando o Brasil aos turistas gringos

Ao mesmo tempo, tem que combater a ignorância de muitas pessoas que simplesmente não sabem nada sobre o país. “Tem muita gente que ainda acha que a América Latina é um país só”, me disse. “Tem pessoas querendo visitar que não sabe que aqui, quando é inverno, lá é verão. Ou que, para nós, o norte é mais quente do que o sul, e não vice-versa.”

O Michael Angeles, um fã do país que visitou uma vez e que eu entrevistei depois dele conversar com os representantes baianos, concordou. “Ainda existe certo nível de ignorância sobre o Brasil”, me disse. “Quando digo para as pessoas que fui pro Brasil, eles dizem ‘ah, você fala espanhol?’ e acham que as pessoas comem tacos.

New York Travel Show-Nova York-Brasil-Turismo

Tomassina Cicchini (esq., com a amiga Joyce Mulligan) não gosta do Brasil porque uma mulher brasileira conquistou o homem que ela gostava

Um exemplo era Tomassina Cicchini, que visitou o estande com a amiga Joyce Mulligan. Ela tem uma imagem distorcida do país, causada principalmente por… ciúmes. A culpa: o encanto das mulheres brasileiras. Bom, de uma mulher só. Quando ela pensa no País, só consegue pensar na menina brasileira que conquistou o homem que ela gostava e o levou para o Brasil. “Não amo o Brasil,” me disse, “porque ele seguiu a mulher e mudou para lá. E no fim teve uma desilusão amorosa. Vou falar a verdade: eu conheci a mulher, e não entendi a atração que ele sentiu.”

Ela disse, porém, que gostaria de visitar o país. Mas como ela não fala português, “acho que ficaria no lado onde falam espanhol,” disse. (Eu não fiz nenhum comentário.)

A Joyce fez um comentário interessante. A teoria dela era que as pessoas não sabiam muito do Brasil porque era um país pacífico. Enquanto não tem guerra, não sai muito nas notícias. A ideia não é tão absurda quanto parece: juro que quando era criança, só sabia de Argentina pela Guerra das Malvinas, entre britânicos e argentinos. E eu sabia muito mais sobre Nicarágua e El Salvador pelas guerras civís dos anos 80 do que sobre um país vizinho, tipo Belize. Ideia para promover o turismo no Brasil: invadir o Uruguai. (Tomar Punta del Este também ajudaria a causa…)

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Mas antes de criticar os norte-americanos, vamos lembrar que o mundo é grande e o brasileiro também não o conhece muito bem. A Nigéria, por exemplo, é o maior país da África, com 170 milhões de habitantes, quase igual ao Brasil. Qual é a capital? Quais são os idiomas principais? Ah, e quem é o presidente da China, onde reside um de cada cinco seres humanos do planeta?

É óbvio que reclamar sobre a ignorância não ajuda a atrair turistas: tem que educar.

New York Times Travel Show-Nova York-Turismo

Um turista em potencial aprende sobre Foz doe Iguaçu no New York Times Travel Show

E acho que nisso os representantes brasileiros fizeram um bom trabalho. Era bem interessante ouvir as regiões concorrendo umas com outras. “Amazonas tem natureza, mas é outra paisagem, uma floresta”, disse Alessandra Fernandes, que representava Mato Grosso do Sul e promovia o Pantanal. “Você não consegue visualizar muitos animais. O Pantanal é mais aberto.” A um metro de distância,  Nickolas Cabral dos Anjos, diretor executivo da Amazonastur, tentou convencer os visitantes que Amazonas era o destino ideal.

A Luciana Fernandes, que representava Pernambuco, me disse que explica para os visitantes que a relação custo-benefício de uma viagem para Recife é melhor do que a do Rio. “O Rio é lindo como destino, mas está muito caro”, disse.

Não faltavam visitantes com visões sofisticadas do país. Adorei os Creamer, um casal idoso com um espírito aventureiro que representa o melhor do turista norte-americano e europeu.

Para Janet Creamer, a Europa já perdeu o encanto. “Já fomos muitas vezes”, ela me disse. “É velho. Não só fisicamente, mas culturalmente. Quero visitar os lugares que estão crescendo agora. Fomos recentemente para a China. Dava para perceber: o país estava sendo construido na nossa frente. No Brasil, a cultura está bombando. A economia está bombando.”

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New York Travel Show-Nova York-turismo-Brasil

Jack e Blue Thomas recebem informações sobre o Pantanal com uma representante de Mato Grosso do Sul

Porém, não sabia muito do país. Só conseguiu dar o exemplo do Rio (“uma cidade moderna, muito pitoresca, muita atividade, muita criatividade”) e expressar uma vaga noção sobre sua visita ideal para a floresta. “Quero ver natureza, animais e, claro, viajar por um rio e conhecer as tribos indígenas.” (Nem é tão fácil, senhora) Mas para turistas que sabem o que querem, a apresentação da Embratur foi perfeita.

Blue Thomas, de 34 anos, visitou o estande do Brasil com o marido Jack Thomas. Ela tinha trabalhado como voluntário na favela da Rocinha alguns anos atrás, e ele já tinha visitado o Rio. Conseguiram me explicar uma versão de um Brasil diferente (?)OK que foi a melhor que ouvi. “Você pode visitar várias vezes e ter experiências muito diferentes. Pode ver a cultura afro-brasileira”, disse ela.

“Ou experimentar um resort em alguma ilha”, disse Jack.

“Ou ir à floresta”, disse Blue.

“Ou morar numa favela”, disse Jack.

Mas ainda assim, não faltava esse Brasil de fantasia. O sonho da Blue? “Dormir numa rede, nas árvores, ao lado dos bichos preguiça.”

Talvez não muito realista, mas poderia ter sido pior. Imagine se o marido tivesse pedido para falar comigo a sós procurando boas cantadas em espanhol para usar com as mulatas de topless e descalças, que dançam samba com macacos durante os jogos de futebol que acontecem nas favelas durante o Carnaval. A imagem do país vai melhorando.

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Autor: Seth Kugel Tags: , , ,