Curiosidades de Copenhague, capital da Dinamarca
Acabo de passar uma semana em Copenhague, e das “top 10” atrações da lista oficial do site de turismo da cidade, eu visitei quatro. Vamos resumir: a estátua da Pequena Sereia é linda, a Torre Redonda tem uma vista maravilhosa do centro histórico, o Castelo Rosenborg oferece mais provas de que é bom ser rei, os restaurantes do porto Nyhavn são caros demais.
Ainda acordado? É que são poucas as cidades que conheço pela primeira vez e volto falando das atrações turísticas. Visitá-las pode dar uma estrutura aos seus dias, mas as lembranças vêm do que acontece entre elas. Como esta foi a primeira cidade que visitei na minha viagem à Escandinávia, não estou pronto ainda para responder às perguntas e dúvidas bem interessantes que os leitores deixaram na lista de comentários da coluna algumas semanas atrás. Mas para mim as quatro atrações de verdade eram as curiosidades da vida na cidade.
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1) A cultura da bicicleta
Quando saí do apê que aluguei em Copenhague, o que menos esperava era me encontrar dirigindo em um engarrafamento. Sobre tudo porque não aluguei um carro. Mas o engarrafamento que encontrei era de bicicleta. A menina cujo apartamento aluguei me emprestou a bike dela, e saí para conhecer a cidade na hora do rush, nem pensando que existe uma hora do rush de bicicletas. E aí me encontrei, esperando atrás de umas 15 outras “magrelas” para o sinal abrir.
Já conheci cidades nos Estados Unidos que dizem que são “bicycle-friendly”. O governo pinta algumas linhas nas ruas para criar faixas só para bicicletas e botam placas avisando aos motoristas a respeitar os ciclistas, o que parece fazer uma pequena diferença.
Mas em Copenhague foi outra história. As faixas não são pintadas, são ELEVADAS. Ou seja, mais baixa do que a calçada, mais alta do que a rua. Inacreditável. Os faróis para carros são normais, como os de qualquer país, mas também há faróis para bicicletas, que são versões em miniatura, como em uma casa de bonecas. Fofas, com certeza, mas que também funcionam.
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E regras, regras, regras. A interação entre pedestres, ciclistas e motoristas em três níveis de rua parece complicada? Pois ainda tem mais uma categoria: os passageiros de ônibus. Quando o ônibus para ao lado da rua, os ciclistas param também para esperar os passageiros descerem, atravessarem a faixa de bicicletas, e entrarem na calçada. Bom, quase todos os ciclistas menos um – eu. Quem sabia? Quase atropelei uma senhora idosa, mas ela me viu com tempo.
O interessante é que já sabia que Copenhague era conhecida pela cultura de bicicletas. Mas é como qualquer viagem: você pode ler matérias, ouvir histórias, se preparar mentalmente, mas, ao final, é preciso viajar para acreditar.
Conclusão para quem pensa em ir para Copenhague: o ser humano precisa de algumas coisas básicas para sobreviver: comida, água, oxigênio. E, em Copenhague, falta mais uma: a bicicleta.
2) O sanduíche incompleto
Eu, americano, e você, brasileiro, talvez não concordemos em tudo, mas estamos 100 % unidos, pelo menos, em nossa resposta à pergunta: quantos pedaços de pão são necessários para fazer um sanduíche. Dois, né? Até quem está na dieta Atkins e há anos não come pão lembra disso. Pois na Dinamarca um sanduíche leva um pedaço só. Fica embaixo, às vezes tão coberto que nem se sabe que ele está lá até que se ataque os outros ingredientes com garfo e faca.
Chama-se smørrebrød, e é quase o prato nacional. Nem me pergunte como pronunciar esse “o” com a barra. Eu tentei mil vezes aprender com os dinamarqueses e não consegui nem chegar perto.
O pão, normalmente um pedaço fino de pão de centeio bem denso, é coberto por manteiga ou lardo (lardo! De porco!). Depois recebe carne de porco, salmão, camarões ou outra coisa, seguidos de uma variedade de outros ingredientes, que podem ser cebolas cruas, fritas, alface, alcaparras, molho de curry, molho de endro, ou muito mais. Um ótimo lugar tradicional para provar é o restaurante Schønnemann, com um cardápio variado, garçons acostumados aos turistas e prontos para ajudar com as opções que chegam com os ingredientes para você armar na mesa.
Outro, mais frequentados por jovens e “semijovens” como café ou bar é o Dyrehaven (onde existe cardápio só em dinamarquês). Eles servem várias versões, das quais a melhor pode ser a mais simples: smørrebrød com batatas e cebolas. É, smørrebrød com batatas… parece sanduíche de arroz. Mas é muito melhor, e faz muitos dinamarqueses lembrarem da comida preparada pela mãe quando eram crianças.
Boa notícia para quem não aguenta a ideia de um sanduíche com apenas um pedaço de pão. Pode ir para o McDonald’s sem medo. O cheeseburguer ainda tem pão em cima e em baixo, e até agora, não existe tal coisa como um McSmørrebrød.
3) A lição linguística
No meu país e no seu há muitas desculpas para quem não consegue aprender idiomas estrangeiros. “Ele não é bom com idiomas”, dizemos em inglês. Pode ter um elemento de verdade nisso: algumas pessoas têm mais talento do que outras. Mas a Dinamarca é a prova de que ser bilingue não é resultado de sorte. Lá todo mundo fala inglês. Aprendem desde a escola primária, assistem a programas de TV e filmes com legendas, não dublados. A frase mais inútil em dinamarquês é “Taler du engelsk?”, ou seja, “Você fala inglês?”. Porque a resposta automática é que sim. (Outra pergunta quase tão inútil: “Taler du portugisisk?”. A resposta é quase certa de que não.)
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4) O conto de fadas e o monstro
Conheci um dinamarquês durante meu primeiro dia na cidade e mencionei que estava muito impressionado com a organização e eficiência da cidade. Ele me disse que todo mundo chega à Dinamarca e acha que entrou em um conto de fadas, de tão perfeito que tudo parece. Concordei. Parece assim mesmo.
Mas ele me disse que é importante lembrar que em todo conto de fada há sempre um monstro. É muito tentador achar tudo tão perfeito, e voltar para casa deprimido porque a sua cidade ou país não é assim. Mas até Copenhague tem seu lado escuro. Passei uma noite com um amigo, Sune Lolk, e andamos muito de bicicleta. Quando passamos por algumas ruas da cidade, ele me contou dos assaltos e até os assassinatos que ocorreram ali recentemente. Também tem problemas de drogas. Sune contou que no bairro onde ele foi criado já há muito mais pobreza e dificuldade do que no passado.
Por exemplo, quem sabe o que acontece durante o inverno? Como tem poucas horas de sol por dia, é normal que as pessoas fiquem deprimidas. Andar de bicicleta na neve e na escuridão também não parece conto de fadas mesmo.
Ver uma sociedade como turista é quase sempre ver só a melhor parte. Lembra um pouco a visão que se tem de alguém só observando seu perfil no Facebook. A versão pública, editada. Assim deve ser com o turista. Mas é bom lembrar de não ficar com tanta inveja quando você “curtir” a página de Copenhague. Para quem vive lá, nos bastidores, sempre há alguns monstros.
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Autor: Seth Kugel Tags: copenhague, dinamarca





