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quarta-feira, 30 de novembro de 2011 Estados Unidos | 05:59

Em 2012, arranje um convite para comemorar o Thanksgiving

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Peru oficial de Ação de Graça dos Kugel, 2011

Peru oficial de Ação de Graça dos Kugel, 2011

O feriado norte-americano que mais intriga meus amigos brasileiros é o Dia de Ação de Graças, ou seja, o Thanksgiving.

O feriado brasileiro que mais intriga meus amigos norte-americanos é o Carnaval.

Impossível imaginar duas festas tão diferentes. Algumas diferenças são óbvias: nos Estados Unidos seria malvisto chegar à casa dos avós para comer o tradicional peru vestido de abadá (e seria impensável ir fantasiada como Scheila Carvalho).

Mas para nós, viajantes, a maior diferença não é essa.

É que o Carnaval é uma festa pública, celebrada nas ruas (e sambódromos), e todos os anos chegam turistas do mundo inteiro para assistir e participar da folia.

O Thanksgiving, pelo contrário, é uma festa íntima, de família, e por isso é muito difícil para alguém de fora entrar de penetra.

- Leia também: Seth erros no Thanksgiving

Na quinta-feira passada (24/11) foi o Thanksgiving nos Estados Unidos, e eu, como sempre, fui para a casa dos meus pais em Boston. Mas sendo o meu primeiro Thanksgiving com esta coluna, me ocorreu que é muito chato que a festa mais típica e mais legal do país seja praticamente fechada para os turistas. Por isso, hoje vou apresentar várias estratégias para participar dos Thanksgivings futuros.

Além de tudo, Thanksgiving é feriado de família. Na foto: minha cunhada Katrina, meu sobrinho Grady, minha mãe

Além de tudo, Thanksgiving é feriado de família. Na foto: minha cunhada Katrina, meu sobrinho Grady e minha mãe

Mas primeiro, o básico do dia, é que a data é celebrada sempre na quarta quinta-feira de novembro, para os que não lembram os episódios especiais de Thanksgiving dos seriados norte-americanos (por exemplo, quando Brad Pitt jantou na casa dos “Friends” em 2001).

A explicação tradicional é que o Thanksgiving começou com um jantar em 1621 entre os Peregrinos que acabavam de chegar à América do Norte e os Índios Wampanoag para celebrar a colheita (e agradecer o apoio dos nativos que tinham ajudado aos recém-chegados). Claro que há dúvidas sobre onde foi realmente o primeiro Thanksgiving, e há sempre comentários sobre a ironia dos peregrinos agradecerem um povo que nos séculos seguintes seria praticamente exterminado pelos seus descendentes.

Mas essa história nos dá só a estrutura superficial da festa: cores de outono, comidas tradicionais que existiam antes da chegada dos brancos (peru, cranberries, abóbora). E a filosofia do dia, da qual é muito difícil discordar: que devemos dar graças pelo que temos. Não há nenhum elemento religioso (como no Natal), nada de patriotismo (como o 4 de Julho, dia da independência). Quase não há comercialização, porque não se dá presentes. Talvez o setor da população mais excluído é o vegetariano, mas eles têm uma boa desculpa para comer mais sobremesa.

Então, o primeiro método para você experimentar no Thanksgiving é também o mais difícil: conseguir um convite à casa de uma família americana. Não é tão difícil quanto conseguir um convite ao Oscar, mas você vai precisar trabalhar um pouco. Funciona melhor se você é um pouco cara de pau.

Um prato com peru, molho de cranberry, batata doce e mais na casa dos Kugel

Um prato com peru, molho de cranberry, batata doce e mais na casa dos Kugel

Se já tem amigos nos Estados Unidos, ou contatos, ou amigos de amigos, ou contatos de contatos etc, fica mais fácil. Qualquer conexão funciona: talvez seu filho tenha feito intercâmbio um tempo atrás, ou você fez faculdade com um cara que se casou com uma americana cuja família mora na Flórida, quem sabe. Tem que aproveitar a fraqueza do americano: ouvir que alguém não tem lugar para ir no Thanksgiving nos comove o suficiente para esquecermos o detalhe que você é brasileiro e não celebra a data.

Se você não tiver a intimidade necessária para simplesmente dizer que você vai para os Estados Unidos e adoraria conhecer um Thanksgiving tradicional, pode ser mais esperto. Faltando um mês para o Thanksgiving, escreva para eles dizendo que você vai passar pela sua cidade ao final de novembro e gostaria muito de combinar algo com eles. (Claro que você nem admite saber o que é Thanksgiving)

Não deu certo?  Hora de subir o cara-de-pau-ômetro. Escreva de volta falando que se deu conta de que é Thanksgiving, e queria saber se eles acham melhor mudar a viagem para outra data porque tudo deve estar fechado.

Se tentasse com minha família, funcionaria quase com certeza. É que essa é uma das tradições na casa dos meus pais. Há muitos anos convidamos alunos estrangeiros da faculdade onde minha mãe trabalha, assim, temos sempre um ambiente internacional. (Agora, você conhece alguém que conhece alguém que conhece alguém da minha família?)

Não conhece nenhum americano? Tudo bem. Também tem uma versão de Thanksgiving público.

Desfile da Macy's já é tradição em Nova York

Desfile da Macy's já é tradição em Nova York - Foto: Getty Images

O evento mais óbvio é o desfile de Macy’s em Nova York, com personagens famosos tipo Bob Esponja feitos de balões infláveis que passam pelas ruas. Mas muitas outras cidades também têm desfiles. E até mais tradicional, pode assistir a um jogo de futebol americano do nível de escola secundária. Em muitos estados os times jogam sempre contra os grandes rivais – até tem uma página de Wikipédia dedicada aos jogos de Thanksgiving que indica muitas das possibilidades.

Quando é hora de jantar – normalmente quinta-feira à tarde, na minha casa mais ou menos às 17h – você pode comer com a minoria de famílias americanas (e grupos de amigos que moram longe e não conseguiram viajar) que vão para restaurantes. Em Nova York (onde muitas pessoas têm cozinhas tão pequenas que preparar um jantar para uma família grande é quase impossível), existem muitas opções. Uma lista está aqui.  (E para outros locais, o site OpenTable sempre bota listas para as outras grandes cidades)

O pai/avô sempre deve cortar o

O pai/avô sempre deve cortar o peru

Dê preferência a um restaurante especializado em comida típica norte-americana. Por exemplo, o Bubby’s, em Nova York. Este ano ofereceram um jantar tradicional de Thanksgiving, com peru “free-range” (ou seja aves não confinadas, até serem confinadas no seu forno), batata-doce com marshmallows (outra tradição), e as “pies” conhecidas do lugar. (A pumpkin pie, uma torta feita dessas mesmas abóboras que usamos para decorar as casas no Halloween, é a mais tradicional do dia)

O preço? O que você quiser pagar. Mas a ideia não é pagar pouco, é pagar extra: grande parte do seu pagamento vai diretamente a ONGs que trabalham com os sem-teto da cidade.

A última opção e talvez a melhor: ser voluntário para ajudar a preparar um jantar tradicional para famílias pobres. É uma opção tão popular que tem que fazer reserva só para trabalhar de voluntário – não deixe para o último minuto. Como encontrar? Só botar “volunteer”, “Thanksgiving” e a cidade onde vai estar no Google e encontrará muitas oportunidades.

Parece esquisito ajudar aos pobres durante as suas férias, mais ainda se nem são os pobres do seu próprio país? Não deveria ser. Cresce a cada dia o número de pessoas que dedicam as férias inteiras para trabalhos voluntários em outros paises – é um setor crescente da indústria turística e por uma razão excelente: você não só ajuda, mas aprende muito da experiência. Garanto que será uma experiência diferente, e que fará amizades com os co-voluntários e, espero, com os que você ajuda.

Foto oficial da família Kugel, tirada na quinta-feira passada

Foto oficial da família Kugel, tirada na quinta-feira passada

Admito, eu nunca fiz. Porque meus Thanksgivings, desde os anos 70, acontecem com o peru cortado pelo meu pai e o molho de cranberry feito segundo a receita da minha mãe. Como a gente não tem muitos parentes que moram perto da casa onde eu cresci, nos primeiros anos combinamos a celebração com duas outras famílias que eram quase como primos. Depois chegaram os alunos estrangeiros, e agora agregamos os filhos e a esposa do meu irmão. Sempre há futebol americano na TV antes do jantar (é, é uma tradição sexista — homens vendo futebol e mulheres cozinhando), e também futebol americano ao vivo no quintal. E agora a minha cunhada agregou uma tradição da família dela: o “jarro de agradecimento”. Cada pessoa tem que escrever as coisas pelas quais está agradecida nesse ano em pedaços de papel, e botar dentro de um jarro de vidro. Antes da sobremesa, lemos todos os papéis em voz alta. Os meus sobrinhos, que são pequenos, normalmente agradecem a existência da pizza, do chocolate e do futebol. Nós adultos somos mais sentimentais.

E talvez, quem sabe, no ano que vem estaremos agradecendo a presença de algum amigo brasileiro cara de pau que procurou no Facebook, descobriu que é amigo de um amigo de um amigo meu, e escreveu para avisar que vai para Boston em novembro e precisa de dicas de restaurantes. Espero sinceramente que sim.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

Seth Erros | 05:40

Seth erros no Thanksgiving

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1) Achar que você não gosta de peru porque não gosta de sanduíche de peito de peru no Brasil, parabéns, a gente concorda. Carne de peru direita da ave preparada por uma mãe americana e cortada por um pai americano é muito melhor.

2) Comer a carne do peru sem molho de cranberry.

3) Chegar a um jantar de família norte-americana sem levar nada. Vinho, flores, chocolates, qualquer coisa funciona desde que não sejam mãos vazias.

4) Viajar de quarta a domingo na semana de Thanksgiving, os dias com mais trânsito e mais altos preços de passagem no ano, nos Estados Unidos. Chegue ao seu destino na terça ou antes e fique até segunda ou depois.

5) Se preocupar se você não entende o futebol americano, parte da tradição do dia. Boa dica: perguntar “Os Lions estão jogando contra quem este ano?”. É que por razões históricas não muito conhecidas, os Leões de Detroit sempre jogam no dia de Thanksgiving.

6) Se esquecer de fazer muitas perguntas sobre o peru. É muito difícil preparar um peru inteiro, e deve-se perguntar ao cozinheiro principal quantas libras (e não quilos) ele pesa, e por quantas horas foi cozido, e, obviamente, dar os parabéns porque está muito gostoso, mesmo que não esteja.

7) Seguir esses conselhos se está de dieta. Thanksgiving é para comer, e muito. Se quer emagrecer, melhor ficar no Brasil.

Autor: Seth Kugel Tags: , ,