Nova York longe do óbvio
Para o prêmio de Melhores Turistas de 2011, eu indico a Karen Tavenner Acosta e a Breana Bauman.
As duas amigas de Guadalajara, México, ambas de 19 anos, ficaram no colchão de ar da minha casa em Nova York por quatro dias neste mês. Me encontraram pelo CouchSurfing, o site de intercâmbio de hospedagem. (Já escrevi sobre a minha experiência com o CouchSurfing em Istambul, e agora foi minha vez de receber pessoas no meu “sofá”).
Imaginei que as meninas iam querer fazer o roteiro típico de primeira-vez-em-Nova-York: subir no Empire State Building, visitar a Estátua da Liberdade, ver arte moderna no MoMA, e comprar roupa na Century 21 e notebooks na Apple Store. Ah, e tirar fotos em frente ao prédio onde moravam os “Friends” e comer cupcakes na padaria frequentada pelas amigas de “Sex and the City”.
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Eu estava enganado. Completamente enganado. A maioria dos meus amigos que visitam Nova York e escutam minhas dicas sobre os cantinhos desconhecidos da cidade fala “Thank you!” e vai direto para o museu de cera da Madame Tussaud e depois andam pela Quinta Avenida. Acho que devem sentir medo de voltar para casa e enfrentar as críticas dos amigos: “Você foi para Nova York e não tirou fotos na Times Square? Não viu um show de Broadway? Não me trouxe um iPad?”

O filme "Breakfast at Tiffany's" -- e a vista de Manhattan -- em Brooklyn Bridge Park - Fotos: Karen Tavenner Acosta
Mas Karen e Breana não só aproveitaram as minhas dicas, mas também descobriram muitos outros lugares e eventos bacanas pela internet, ou simplesmente por sorte. “A primeira coisa que fazemos quando chegamos em uma cidade é andar sem destino,” disse Breana. Isso sempre dá resultados.
Ao final, apesar de ficarem na cidade só quatro dias, Karen e Breana já conhecem Nova York mil vezes melhor do que quem visita a cidade de pacote, cem vezes melhor do que um turista típico e dez vezes melhor do que muitos nova-iorquinos. E tudo isso sem nem pisar nas calçadas da famosa Times Square.
Esse é o roteiro delas, caso você queira aproveitá-lo.
Dia 1: Downtown (e não Midtown)
Midtown – ou seja, Manhattan entre as ruas 34 e 59, aproximadamente – é território quase exclusivo dos turistas (e de segunda à sexta, dos trabalhadores dos arranha-céus que odeiam os turistas porque andam muito devagar, obstruindo as calçadas). Por isso, Karen e Breana evitaram Midtown e foram direito para downtown, onde os bairros não são desconhecidos pelos turistas mas também não são dominados por eles. Saíram do metrô na parada West 4th Street e passaram o dia batendo perna pelos bairros mais chiques de Manhattan: Village, SoHo, Tribeca. Comeram bagels (Karen pediu com tofu em vez do típico “cream cheese”, e adorou.) De Tribeca chegaram ao distrito financeiro (onde fica Wall Street) e viram o novo prédio – One World Trade Center – que vai substituir as torres gêmeas. E a melhor parte: se depararam com um show de salsa de graça em uma praça onde dançaram salsa com alguns colombianos.
Dia 2: Nova York latino-americana, indiana e chinesa
Os leitores fieis de viagens sabem que eu moro em Jackson Heights, bairro de imigrantes de inúmeros países. No segundo dia, Karen e Breana começaram o dia no meu bairro, almoçando por US$ 6 (R$ 9,60) cada uma no Thakali Kitchen, um restaurante nepalês, e depois comprando doces indianos na 74th Street, de sobremesa.

Almoço especial de $6 no Thakali Kitchen, restaurante nepalês de Jackson Heights - Fotos: Karen Tavenner Acosta
Daí pegaram o trem 7 até a última parada, onde “mergulharam” no mundo asiático de Flushing. A Chinatown de Manhattan é bem conhecida, mas Flushing é outra coisa: um mundo totalmente asiático (principalmente chinês, taiwanês e coreano). As meninas me contaram que todo mundo olhava para elas como se elas fossem extraterrestres. “Foi um choque cultural,” disse Karen. “Não tinha certeza se ainda estávamos nos Estados Unidos. Não vimos nenhum outro turista.”
Elas entraram em um supermercado que vendia muitas frutas exóticas que elas não conheciam, e foram a uma das muitas lojas de “bubble tea” (ou chá de bolhas), um chá gelado taiwanês com bolhas de tapioca embaixo. Gostaram da bebida, mas ficaram mais impressionadas com a forma como os vendedores chineses selaram os copos: não com uma tampa normal mas com uma máquina que sela a bebida com plástico como se saísse de uma fábrica. “Foi tão legal,” disse Karen. “Nunca tínhamos visto isso antes.”
Ri muito quando ouvi isso, porque eu tive exatamente a mesma reação quando eu provei meu primeiro chá de bolhas em Flushing.
Depois de passar o dia inteiro em Queens, a decisão óbvia seria ir para Manhattan para sair à noite. Mas claro que elas tiveram outra ideia: tinham descoberto na internet que, durante o verão, no Brooklyn Bridge Park (no Brooklyn), são organizadas sessões de filmes semanais que são projetados em uma tela enorme, com os arranha-céus de Manhattan ao fundo. O filme? “Breakfast at Tiffany’s”, um clássico nova-iorquino. O público? Quase todos clássicos nova-iorquinos.
Dia 3: Praia e Nova York russa
Na manhã seguinte, elas me contaram que iam para Brighton Beach, Brooklyn – o bairro russo que fica ao lado da praia. É, tem praia em Nova York, não sabia? A cada ano, as areias de Brighton Beach são mais frequentadas, é só ler esta matéria que saiu recentemente no New York Times para confirmar.
Brighton Beach fica muito, muito longe da minha casa. Com sorte, dá para chegar de metrô em 90 minutos. Mas elas não reclamaram.
A ideia era ir direito para a praia, mas quando saíram do metrô, elas se viram num mundo totalmente russo. “Ficamos surpresas – eram russos de verdade,” disse Breana. Karen ficou fascinada por um anúncio de trabalho com requisito de ser bilingue em inglês e russo.“A gente nem se sentiu nos Estados Unidos,” me contaram de novo. Mas meninas, é isso mesmo: os Estados Unidos são um país de imigrantes, e nenhuma parte mais do que Nova York. Um bairro de imigrantes onde ninguém fala inglês na rua é o lugar mais nova-iorquino imaginável.
Depois, elas foram para a praia, onde ficaram impressionadas não tanto pela areia (é normal), nem pela água (um pouco fria), mas pelo vendedor de água e cerveja que cantava músicas enquanto vendia seus produtos. Também não acreditaram que os banheiros estavam tão limpos. Outra novidade para o mundo: Nova York não só tem praia, mas detalhe: com banheiro limpo! Nem eu imaginava.
De lá, voltaram para Manhattan para passar o resto do dia no Central Park.
Dia 4: Alto Manhattan e Harlem
Chegou o último dia de Karen e Breana em Nova York, e elas decidiram passar o dia nas alturas de Manhattan, começando em Fort Tryon Park, lá pela 190th Street. Lá está o Heather Garden, um jardim de flores com uma vista maravilhosa do Rio Hudson, e os Cloisters, a pouca conhecida divisão medieval do Metropolitan Museum of Art, localizado dentro de um prédio construído com elementos de vários monastérios (e outros prédios) importados da Europa.
Do parque, elas foram para o bairro dominicano que fica ao lado – é, Nova York tem entre 500 mil e 1 milhão de imigrantes da República Dominicana (e seus descendentes). No almoço, conheceram dois meninos que ficaram muito surpresos (e felizes) de encontrar duas turistas lindas tão longe da Times Square. Convidaram Karen e Breana para uma festa no Harlem.
Claro que eu não recomendo que duas turistas de 19 anos aceitem qualquer convite que recebem de homens desconhecidos, mas Karen e Breana são espertas – e eu não sou pai delas. E tudo deu certo. Ficaram na festa até tarde, tipo 3 horas da manhã, e voltaram para casa. Poucas horas depois, pegaram um trem e deixaram a cidade.
O que podemos aprender com as meninas mexicanas? Não é que você é chato se visitar os lugares mais famosos da cidade. É que você não precisa visitar todos. Nem imagino quantos turistas que nem gostam de museus se sentem obrigados a visitar o MoMA e o Met, quando o que adorariam fazer é explorar um mundo chinês ou apreciar a vista do Rio Hudson de um jardim escondido.
Se duas meninas de 19 anos podem resistir à pressão, por que não você?
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