Viajar com foco… na corrida
Por que viajo? Para conhecer lugares distantes, apreciar culturas diferentes, ver de perto grandes obras de arte e arquitetura, admirar maravilhas naturais. Aprender a história. Fazer amizades. Comer e beber. Comprar. Ler. Descansar. Ou seja, um pouco de tudo. Ou seja, depende do destino. Ou seja, quem sabe? Viajo para viajar.
Mas, no final de semana passado, em Nova York, aprendi – ou melhor, me dei conta – que nem todo mundo está tão confuso quanto eu.
É que domingo foi a Maratona de Nova York, e milhares de pessoas chegaram para correr. A cidade, já lotada de modeletes magrinhas, lotou mais ainda de atletas magrinhos. (E rodeado por eles, nunca me senti mais gordo. Mas essa é outra história.) Dos 47.000 que participaram da corrida, dois terços não são daqui. Viajaram para correr.
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Entre os participantes, estava o Doug Mollenauer, um amigo da Califórnia que conheço há quase três décadas. É a sua terceira maratona, e a esposa dele, a Andréa, também correu mais duas, assim que os dois viajam juntos para correr. No caso, não só para correr. Doug padece de uma forma de leucemia e o casal faz parte do Team In Training, uma ONG cujos membros correm maratonas arrecadando dinheiro para pesquisar curas para a doença.
Aproveitei a oportunidade para falar com ele – e com vários outros atletas que encontrei quando acompanhei o casal à “Expo”, uma feira de produtos para corredores – sobre como é viajar com um propósito tão definido.
“É uma forma magnífica de conhecer uma cidade”, me disse Doug. “É um ambiente maravilhoso – e seguro – para conhecer gente e fazer amizades. No caso de Nova York, é uma cidade onde as pessoas não ligam para os outros. Mas um dia por ano, todo mundo torce por você.” E, claro, a própria maratona é um tour único pela cidade, passando pelos cinco “boros” (sub-prefeituras) da cidade, por cima de quatro pontes, por bairros ricos e pobres, por parques e zonas industriais.
Aprendi que quase todo mundo consegue aproveitar os lugares que visita apesar de se preparar para a corrida. Nas três semanas que Mark Lewis, um atleta inglês de 32 anos, está passando na cidade, já foi para um jogo de hockey profissional, fez compras na Macy’s, subiu no Empire State Building, comeu no famoso (e caro demais) Carnegie Deli e assistiu a Avenue Q, um musical que também saiu numa versão brasileira. Ah, e a propósito, correu 42 quilômetros.
Até achei uma agência de viagens que existe só para corredores de maratonas: o Marathon Tours & Travel, que oferece viagens para maratonas ao redor do mundo, incluindo a Ilha de Páscoa. “O evento é o catalisador para as pessoas chegarem ao destino,” me disse o Thom Gilligan, dono da empresa. “Mas a corrida é um dia só. Então, dá tempo para explorar.” E, no caso de Julie Hart, se divertir com as amigas.
Encontrei a Julie entre um grupo de dez mulheres – mães de 30 filhos que elas deixaram para trás, aos cuidados dos maridos na Califórnia. Esta não foi a primeira vez que fizeram isso. Elas já participaram das maratonas de Boston, Washington e Chicago, e, no próximo ano, vão para algum lugar da Europa para celebrar o aniversário de 50 anos de uma das integrantes do grupo. O motivo, além de correr, é (óbvio) escapar um pouco da família. “Penso que correr é a forma mais emocionante de viajar”, disse. Além de correr, assistiram ao Book of Mormon – o hit total da temporada na Broadway – e escolheram vários restaurantes ótimos – entre eles Buddakan. Visitaram o Ground Zero, onde estão sendo construídas as torres que substituirão as Torres Gêmeas. E, claro, fizeram muitas amizades: dez mulheres em forma perfeita andando juntas pelas ruas de Nova York chamam a atenção. (Eu, por exemplo, não resisti a conversar com elas)
Conclusão: viajar com um propósito específico dá estrutura e significado às viagens. Quando eu tenho dez dias para passar em Paris, em Buenos Aires ou no Havaí, me dá pânico. Quais restaurantes? Quais museus? Quais concertos? Quais baladas? Qual hotel? Em qual bairro? Vai chover? Vai nevar? A pressão de planejar bem é imensa. Mas agregue uma maratona e a tensão se dissolve. A corrida é o foco: vamos encontrar um bom restaurante para comer massas no dia antes do evento; vamos escolher um museu, um bistrô chique, um bairro para conhecer e lojas para fazer compras, mas se não escolhermos os melhores, não importa: o objetivo é correr e terminar, ou correr e bater o recorde pessoal, ou correr e combater a leucemia. Com essa perspectiva, escolher a pizzaria errada até vira algo insignificante.
É até melhor ser o acompanhante do atleta – que fica com todas as vantagens de viajar para correr, sem a dor dos 42 quilômetros (nem a necessidade de comer bem e deitar cedo). Andrea e os pais de Doug estavam em Nova York com ele, e conseguiram se divertir muito, assistindo a Wicked na Broadway e visitando os museus – até me acompanhando a um restaurante indiano no meu bairro, onde por US$ 10 se almoça à vontade. Doug também chegou, mas não provou todos os pratos como a gente, porque faltavam só dois dias para a corrida e ele precisava se cuidar. Mas o importante foi ver o filho ou o marido correr.
A família já tinha viajado para quatro maratonas: Victoria (Canadá), Fargo, Portland e São Francisco (as três últimas nos EUA). O destino mais esquisito (e assim, mais interessante para mim) foi Fargo, capital do Estado de Dakota do Norte, o Estado menos povoado do país (ou seja, a Roraima dos Estados Unidos). Doug escolheu porque tinha lido que essa é a corrida mais divertida, com um povo muito amigável, que apoia os corredores fortemente no caminho, algo muito importante para quem não pode perder a esperança quando acabam as energias antes do final da corrida. (E sempre acabam)
A esposa concordou. “É o evento mais importante do ano em Fargo,” disse Andrea. “A cidade inteira sai às ruas. Foi como uma festa enorme.” Eles aproveitaram para conhecer o Fargo Air Museum, onde encontraram um piloto veterano da Segunda Guerra Mundial que ainda trabalhava como voluntário no museu apesar dos seus 90-e-poucos anos, e visitaram Mount Rushmore, no Estado vizinho de Dakota do Sul, onde os rostos de quatro ex-presidentes dos Estados Unidos foram esculpidos na face de uma montanha. Lugares que não conheço. Que nem quis conhecer. Até ouvir as muitas histórias deles.
Claro, correr maratonas é um exemplo só de viajar com um propósito específico. No Pantanal eu conheci várias pessoas que viajam para observar aves. Que viajam com telescópios caríssimos para enxergar e fotografar espécies exóticas e livros com milhares de diagramas para distingui-las. Sempre achei ridículas essas pessoas obcecadas por passarinhos, até acompanhá-las. E ficar pensando, nossa, que divertido. E até perguntar como começar. Também conheço pessoas que viajam sempre para navegar de veleiro. Ou para assistir festivais de cinema ao redor do mundo. Ou para degustar vinhos de regiões diferentes.
Nem tem que ser um objetivo tão nobre. O Frank Bruni, ex-crítico de restaurantes do The New York Times e agora colunista, escreveu uma vez que as suas férias ideais “misturam – em alguns dias e somente algumas horas andando de carro – um tempo em uma cidade antiga com uma arquitetura singular, e mais tempo ainda em vilarejos com campos deslumbrantes, tudo isso entremeado por grandes, lentas e inebriantes refeições.” Isso é uma missão que consigo entender sem experimentar.
Mas também fiquei inspirado pela corrida do Doug. A gente encontrou o Doug em três pontos da maratona: aos 13 km, aos 33 km e aos 41 km. (Até isso foi divertido, tentando “correr” de metrô mais rápido do que nosso amigo correu à pé) Vendo a careta de determinação no rosto dele e também nos de milhares de outros, era difícil não pensar: “eu também quero fazer maratonas”.
O sentimento não durou até hoje, três dias depois. Também sumiu o desejo de comprar um telescópio de R$ 10 mil só para ver aves.
Mas vou tentar aprender algo destas pessoas. De focar um pouco mais os temas das minhas viagens. Mas sobre qual tema? Deixa pensar. Os diversos Carnavais do mundo? Chocolates internacionais? Praias do mundo? Métodos de massagens ao redor do mundo?
Ah, são ideias demais para escolher uma só. Admiro muito o Doug (que terminou em 3 horas e 35 minutos), mas não tem jeito: minhas viagens são, e sempre serão, para viajar mesmo.
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