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quarta-feira, 23 de novembro de 2011 Estados Unidos | 07:45

Nossos imigrantes são melhores do que os seus

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Não é que não aprecio o grande número de alemães, italianos, libaneses e japoneses, entre outros, que chegaram ao Brasil no último século e meio e contribuíram com seu trabalho e sua inteligência para construir um país moderno. E nem podemos esquecer as contribuições imensas dos milhões de imigrantes forçados, os africanos.

Dá para encontrar comida de todo mundo nos Estados Unidos, como a pupusa mista na Taquería Guerrero

Dá para encontrar comida de todo mundo nos Estados Unidos, como a pupusa mista, na Taquería Guerrero, em Lake Worth

É que como jornalista de viagens, e mais especificamente de viagens baratas, às vezes sou muito superficial. Estou falando de restaurantes, e pontualmente de restaurantes de imigrantes recentes, onde chefs recém-chegados cozinham para compatriotas recém-chegados, produzindo comida barata e o mais parecida possível com a do país de origem, dadas as limitações dos ingredientes locais.

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E onde quer que vá nos Estados Unidos, você nunca está longe desse tipo de restaurante. Centro-americanos, tailandeses, filipinos, indianos, senegaleses – é só procurar os bairros onde eles moram, e você pode comer muito bem. (Infelizmente, nos últimos anos não chegaram suficientes imigrantes ao Brasil para gerar o mesmo fenômeno)

O exterior do Sheila's

O exterior do Sheila's

Já escrevi sobre o meu bairro em Nova York, da incrível diversidade que existe. Mas isso é Nova York, e a gente espera maravilhas assim da nossa cidade cosmopolita.

Mas quase não as esperava na noite que passei, sem querer, na cidade de Lake Worth, Flórida, um lugar de 35.000 habitantes ao lado de Palm Beach, uma das cidades mais ricas dos EUA.

Fui a Palm Beach para fazer uma dessas matérias tipo “como visitar um lugar caro sem gastar muito”, mas cometi um erro básico: reservei um hotel em Lake Worth que, apesar de estar oficialmente dentro dos limites da cidade, estava tão longe do centro que nem dava para chegar. A pé, claro, porque minha verba não permitia alugar um carro.

No dia seguinte, mudaria de hotel. Mas nessa primeira noite, cheguei às 19h e com fome. Eu podia ter pedido uma pizza, é certo, mas procurando na internet, encontrei um lugar que parecia interessante: Sheila’s Famous Conch, BBQ and More. Era um restaurante bahamense, com especialidade em “conch”, a carne de um molusco do tipo que vive nestas cascas bonitas. Acho que na minha vida nunca tinha ido a um restaurante bahamense. E era muito barato.

O ambiente do Sheila's é quase barraca de praia

O ambiente do Sheila's é quase barraca de praia

Estava a 3 km do hotel, mas como a Flórida não é precisamente famosa pela pizza e não tinha mais nada para fazer, botei os tênis e fui.

Passei pela rua principal de Lake Worth, uma dessas Main Streets típicas de cidades pequenas nos Estados Unidos, com lojas fechando as portas depois de um dia de trabalho e restaurantes e bares começando a receber clientes. Até agora, nenhuma evidência de imigrantes. Saí do centro, virei à esquerda na South Dixie Highway, uma estrada meio deserta, com oficinas mecânicas e alguns strip-malls, esses shoppings ao ar livre sem graça nenhuma e já com as lojas todas fechadas.

Quase todas. Lá,dentro de um shopping quase abandonado, um restaurante pequeno ainda estava aberto. E na vitrine, dois cardápios com os títulos seguintes:


- Menu catracho
- Menu salvadoreño

Eu não sabia o que era comida catracha, mas quando eu tinha 8 anos aprendi de cor todas as bandeiras do mundo, um exercício que ainda é útil (só que não ajuda com países que não existiam na época, como Eslovênia e Timor-Leste).  Das bandeiras na janela, era óbvio que “catracho” significava “hondurenha”.

Os cardápios "catracho" e salvadorenho do restaurante

Os cardápios catracho e salvadorenho do restaurante

Pensei: dá para jantar duas vezes – neste lugar salvadorenho-hondurenho e no lugar bahamense? Venho tentando não comer demais, mas também ando com desculpas prontas quando quero comer algo. Neste caso: “meus leitores merecem saber se o lugar é bom”.

Leitores: é bom. Pequenininho, com três ou quatro mesas e sem ambiente, obviamente um lugar para pedir para viagem e comer no carro (que eu não tinha) ou em casa (que estava a meia hora de caminho). Mas, detalhe: havia uma televisão passando vídeos velhos de um tipo de música que adoro: merengue dominicano. Quando cheguei, era uma música de Eddy Herrera que sei de cor, Ajena. Fiquei feliz. (Só não a ponto de cantar em voz alta)

A Tasty Bakery, padaria-restaurante haitiano em Lake Worth, Florida.

A Tasty Bakery, padaria-restaurante haitiano em Lake Worth, Florida.

Sendo países vizinhos na América Central, El Salvador e Honduras têm comidas parecidas, mas cada um também tem seu prato nacional. Em El Salvador, se chama pupusa, uma tortilha grossa de farinha de milho com uma camada fina de recheio dentro (normalmente de porco, queijo ou misto). Serve-se com um tipo de salada de repolho (“curtido”) e um molho de tomate, e come-se tudo junto com a mão: você tira um pedaço da pupusa, pega um pouco do curtido e bota molho. Pedi uma só, mista.

E também uma baleada, um prato tradicional de Honduras. Uma baleada se parece um pouco com um burrito mexicano: uma tortilha fina de farinha com várias coisas em cima – entre elas sempre carne, feijão e creme – e depois a tortilha dobrada em cima do recheio. Neste caso eu pedi uma com tudo:  choriço, ovo, carne, creme, alface e o que mais fosse possível. Feitas na hora, a pupusa e a baleada não tinham como não serem boas. E que barato: com uma água com gás, a conta deu só US$ 8 (ou R$ 14).

Escutando música dominicana em um restaurante salvadorenho-hondurenho, fiquei curioso. Perguntei em espanhol à garçonete, que parecia pura indígena maia: “Estou muito confuso! Vejo um cardápio hondurenho e outro salvadorenho, vocês são de onde?” E ela respondeu com a única resposta possível:

“Sou guatemalteca.” Claro.

“Os donos são mexicanos.” Óbvio.

Doces de amendoim, $1.25 na Tasty Bakery

Doces de amendoim, US$ 1,25 na Tasty Bakery

Depois conheci um dos donos, que me explicou tudo: quando comprou o lugar, os donos eram salvadorenhos mas a cozinheira, hondurenha. Agora, servem comida mexicana também (só que ainda não tem cardápio), mas ele vai deixar alguns pratos salvadorenhos e catrachos na lista para não perder a clientela tradicional. O lugar, que não tem letreiro, se chama Taqueria Guerrero.

Desejei sorte para eles e continuei o caminho em direção ao restaurante bahamense. Só que pouco depois, em outro strip-mall com quase tudo fechado, tinha uma luz ligada num lugar que parecia uma padaria. Curioso, entrei.

Era um restaurante de comida haitiana, Tasty Bakery. Muitas letras do cardápio que estava fixado da parede tinham caído, mas era fácil escolher: tinha acabado quase tudo. Ainda tinham “chicken patties”, quase-pastéis delicados, cozidos no forno com recheio de frango. Por só US$ 0,85 . Pedi um. Me deram dois. 42.5 centavos de dólar cada um. Não resisti e comprei alguns doces de amendoim, que pensei comer como sobremesa depois de visitar o restaurante bahamense.

Não deu certo. Comi tudo no caminho, chegando ao bahamense com pouca vontade de comer mais. Decidi me sacrificar para os leitores.

O cardápio da Tasty Bakery

O cardápio da Tasty Bakery

Sheila’s Famous Conch, BBQ and More era um lugar pequeno que quase parecia uma barraca de praia. Sheila, a dona, estava ocupada dando conselhos amorosos a uma funcionária em uma das mesas, assim que fui atendido no balcão pelo filho dela, um menino de 8 anos, “quase nove”. Pedi um “crack conch”, a especialidade bahamanse que era a especialidade da casa, e também umas costelas. Ele falou que não sabia se tinha mais costelas, e não podia interromper a mãe, já que ela estava ocupada. Outra funcionária, uma senhora simpática, falou para ele que tudo bem, quando se tratava de um cliente, podia perguntar. Tinha sim, mas só sem ossos. Pedi um sanduíche de costela.

Paguei a conta, US$ 12, com um cartão de crédito, e botei uma gorjeta de US$ 2 para ele. Não é muito, falei. Ele respondeu, “para uma criança é sim!”.

Claro que não tinha fome, mas comi. Fazer o quê? O conch era uma dessas frituras perfeitas: frescas e macias e, ao mesmo tempo, nem um pouco gordurosas. Resultado da noite: nem dava para me sentir mal por haver comido três jantares. Ah, com o sanduíche, quatro.

Há muitos americanos que reclamam da imigração, que dizem ser ruim para a economia. Eu nunca concordei. Mas agora quero reclamar também. Pare a imigração! Se continuar, eu vou engordar demais.

Notas relacionadas:

  1. As redes de restaurantes que valem a pena. E as que você deve fugir
  2. São Paulo ou Nova York: Qual a melhor pizza do mundo?
Autor: Seth Kugel Tags: , , ,

quarta-feira, 1 de junho de 2011 Estados Unidos | 07:03

As redes de restaurantes que valem a pena. E as que você deve fugir

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Já aconteceu tantas vezes que nem consigo contar. Um brasileiro me pergunta: “qual é a verdadeira comida americana?” Hambúrguer do McDonald’s, né? Pizza do Domino’s, né? Café e muffin tipo Starbucks, né?”

Não é, não é, e não é.

Fotos Seth Kugel

Deixe para ir ao McDonald's na volta ao Brasil

Um outro dia falarei do peru com molho de cranberry do jantar de Ação de Graça e dos sanduíches estilo americano tipo Subway, mas mil vezes melhor são a comida caseira do Sul que me lembra a comida mineira, os queijos de Wisconsin que não me lembram em nada o queijo mineiro e o burrito de San Francisco que não é, nem de longe, uma invenção mexicana.

Hoje vou me limitar a um erro grave cometido por turistas pelo mundo inteiro: comer em redes internacionais.

Me dá muita pena entrar no McDonald’s lá na Times Square e encontrar tantos turistas falando tantos idiomas diferentes (quando suas bocas não estão cheias de batatas fritas). Quanto dinheiro eles gastaram para vir a Nova York só para comer num lugar que existe no seu país também? E todos os turistas no Starbucks, essa rede de cafés tão medíocre. Em muitas cidades americanas onde existem tantos outros cafés simpáticos, o Starbucks tem só três razões para existir: cafeína de emergência, internet de emergência, banheiro de emergência.

Não é que toda rede seja ruim. Por alguma razão viraram redes, né? Em algum momento o primeiro restaurante fez tanto sucesso que inauguraram mais um, e mais outro, e mais outro. Olha o primeiro McDonald’s, parece até bom mesmo.

Minha regra para turistas, então, é a seguinte: pode comer numa rede, mas só se ela não existir onde você mora.

Levante a mão se você mora perto de um McDonalds. OK, está proibido de comer no McDonald’s quando viajar. Agora, levante a mão se você mora perto de um Five Guys ou de um In-n-Out Burger.

Não existem no Brasil, mas são duas redes regionais nos Estados Unidos que servem hambúrgueres de verdade e têm milhares de devotos. Um dos maiores fãs do Five Guys é o Obama, que uma vez saiu da Casa Branca para ir até lá e voltar com cheeseburgueres para seus assessores. O In-n-Out Burger é uma rede da Califórnia conhecida por seu “cardápio secreto” que só os devotos conhecem.

Fotos Getty Images

Se quiser fast food, busque por redes internacionais que não existam próximas a sua casa. Foto: Getty Images

Minha regra não aplica só aos Estados Unidos, claro. Quando fiz uma matéria em Londres sobre os lugares favoritos dos alunos universitários, pesquisei entre os estudantes para ver onde se comia bem e barato. Quase 100% mencionaram o Nando’s, uma rede lendária entre eles pelo “frango peri-peri,” frango grelhado e servido com molho apimentado com origem moçambicana. A rede nem é inglesa, mas já virou parte da cultura londrina. Fui, adorei e recomendo como parte imperdível duma visita a Londres.

E se não houver alternativa às redes proibidas? Não custa verificar as opções. Já pesquisou no Google Maps? (A busca “Restaurants near xxx”, onde “xxx” é o endereço onde você está, funciona muito bem). Também tem Urbanspoon.com (fácil até para os que não entendem muito inglês), Chowhound.com, Yelp.com e TripAdvisor.com. Para Nova York, nymag.com/restaurants é o melhor, e de longe.

Mas e em uma viagem de estrada, nessas paradas onde só existem redes? Resposta 1: pegue uma saída qualquer da estrada, dirija até a cidadezinha mais perto e procure um restaurante local. Resposta 2: se não quiser ousar, veja se há uma rede não conhecida na sua parada e pergunte qual é a comida mais típica deles. Coma o frango saudável do Boston Market, por exemplo, e depois vá ao Cinnabon para pedir o cinnamon roll mais gostoso de todos os tempos. Com 880 calorias e 36 gramas de gordura, é para dividir. (Ok, tem Cinnabon no Brasil, mas se você não mora perto de uma franquia, pode experimentar durante sua viagem aos Estados Unidos).

 

Fotos Getty Images

A lendária rede Waffle House é uma boa opção para o café da manhã

Às vezes existem redes locais ou regionais que valem a pena até procurar. Quando fui à Flórida recentemente, quis muito tomar café de manhã num Waffle House, uma rede quase lendária que não existe em Nova York (nem no Brasil). Não gostei, mas pelo menos matei a curiosidade. Outro exemplo é o Friendly’s, uma rede de lanchonetes e sorveterias popular nas pequenas cidades no Nordeste dos Estados Unidos. Eu fui criado nessa região e, para mim, o Friendly’s tem uma forte ligação com a infância. Se você for, não perca o sorvete de black raspberry (framboesa negra). É ótimo. Bom, pelo menos foi ótimo nos anos 80 – preciso voltar lá para me atualizar.

A minha regra se aplica também às redes brasileiras? Claro. Eu gosto do Habib’s, principalmente porque é muito barato. Mas no ano passado, quando fui a Maceió, meu hotel ficava muito perto de um Habib’s sempre lotado. Fui? Claro que não – em frente ao Habib’s, na beira-mar, uns camelôs vendiam as melhores tapiocas que já provei na vida. No Nordeste, eu como comida nordestina, lógico.

Da mesma forma, eu aceito que um turista gringo visite o Habib’s quando estiver no Brasil. Óbvio que ele não vai encontrar as melhores esfirras do mundo, mas vai conhecer um lugar bem brasileiro. Claro que seria inaceitável para esse turista concluir: “Assim é a comida árabe no Brasil.”

Da mesma forma, o hambúrguer do McDonalds não é comida típica americana. Se você quiser se empanturrar com sanduíches cheios de calorias e gorduras, tudo bem. Mas economize o custo da passagem e faça isso no Brasil.

SETH ERROS

PARA EVITAR AO ESCOLHER UM RESTAURANTE NA VIAGEM

1) Comer em um restaurante de rede se a mesma rede existe perto da sua casa ou se já experimentou em outro lugar.

2) Tomar café no Starbucks (procure um café local. Alguns exemplos nova-iorquinos: em Manhattan, Grounded, Think Coffee, Ninth Street Coffee, Joe, e no Brooklyn, o Tea Lounge.)

3) Desistir das redes totalmente (Muitas redes locais e regionais são ótimas.)

4) Usar como desculpa “Mas não sabia aonde ir”. Procure, pesquise, pergunte.

5) Perder a oportunidade de comer seu primeiro Cinnabon.

6) Comer seu segundo Cinnabon. Como saltar de pára-quedas, Cinnabon é coisa de uma vez na vida.

7) Me dizer que o McDonald’s é comida americana. Só é se o Bob’s for comida brasileira.

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,