Nossos imigrantes são melhores do que os seus
Não é que não aprecio o grande número de alemães, italianos, libaneses e japoneses, entre outros, que chegaram ao Brasil no último século e meio e contribuíram com seu trabalho e sua inteligência para construir um país moderno. E nem podemos esquecer as contribuições imensas dos milhões de imigrantes forçados, os africanos.

Dá para encontrar comida de todo mundo nos Estados Unidos, como a pupusa mista, na Taquería Guerrero, em Lake Worth
É que como jornalista de viagens, e mais especificamente de viagens baratas, às vezes sou muito superficial. Estou falando de restaurantes, e pontualmente de restaurantes de imigrantes recentes, onde chefs recém-chegados cozinham para compatriotas recém-chegados, produzindo comida barata e o mais parecida possível com a do país de origem, dadas as limitações dos ingredientes locais.
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E onde quer que vá nos Estados Unidos, você nunca está longe desse tipo de restaurante. Centro-americanos, tailandeses, filipinos, indianos, senegaleses – é só procurar os bairros onde eles moram, e você pode comer muito bem. (Infelizmente, nos últimos anos não chegaram suficientes imigrantes ao Brasil para gerar o mesmo fenômeno)
Já escrevi sobre o meu bairro em Nova York, da incrível diversidade que existe. Mas isso é Nova York, e a gente espera maravilhas assim da nossa cidade cosmopolita.
Mas quase não as esperava na noite que passei, sem querer, na cidade de Lake Worth, Flórida, um lugar de 35.000 habitantes ao lado de Palm Beach, uma das cidades mais ricas dos EUA.
Fui a Palm Beach para fazer uma dessas matérias tipo “como visitar um lugar caro sem gastar muito”, mas cometi um erro básico: reservei um hotel em Lake Worth que, apesar de estar oficialmente dentro dos limites da cidade, estava tão longe do centro que nem dava para chegar. A pé, claro, porque minha verba não permitia alugar um carro.
No dia seguinte, mudaria de hotel. Mas nessa primeira noite, cheguei às 19h e com fome. Eu podia ter pedido uma pizza, é certo, mas procurando na internet, encontrei um lugar que parecia interessante: Sheila’s Famous Conch, BBQ and More. Era um restaurante bahamense, com especialidade em “conch”, a carne de um molusco do tipo que vive nestas cascas bonitas. Acho que na minha vida nunca tinha ido a um restaurante bahamense. E era muito barato.
Estava a 3 km do hotel, mas como a Flórida não é precisamente famosa pela pizza e não tinha mais nada para fazer, botei os tênis e fui.
Passei pela rua principal de Lake Worth, uma dessas Main Streets típicas de cidades pequenas nos Estados Unidos, com lojas fechando as portas depois de um dia de trabalho e restaurantes e bares começando a receber clientes. Até agora, nenhuma evidência de imigrantes. Saí do centro, virei à esquerda na South Dixie Highway, uma estrada meio deserta, com oficinas mecânicas e alguns strip-malls, esses shoppings ao ar livre sem graça nenhuma e já com as lojas todas fechadas.
- Quase todas. Lá,dentro de um shopping quase abandonado, um restaurante pequeno ainda estava aberto. E na vitrine, dois cardápios com os títulos seguintes:
- Menu catracho
- Menu salvadoreño
Eu não sabia o que era comida catracha, mas quando eu tinha 8 anos aprendi de cor todas as bandeiras do mundo, um exercício que ainda é útil (só que não ajuda com países que não existiam na época, como Eslovênia e Timor-Leste). Das bandeiras na janela, era óbvio que “catracho” significava “hondurenha”.
Pensei: dá para jantar duas vezes – neste lugar salvadorenho-hondurenho e no lugar bahamense? Venho tentando não comer demais, mas também ando com desculpas prontas quando quero comer algo. Neste caso: “meus leitores merecem saber se o lugar é bom”.
Leitores: é bom. Pequenininho, com três ou quatro mesas e sem ambiente, obviamente um lugar para pedir para viagem e comer no carro (que eu não tinha) ou em casa (que estava a meia hora de caminho). Mas, detalhe: havia uma televisão passando vídeos velhos de um tipo de música que adoro: merengue dominicano. Quando cheguei, era uma música de Eddy Herrera que sei de cor, Ajena. Fiquei feliz. (Só não a ponto de cantar em voz alta)
Sendo países vizinhos na América Central, El Salvador e Honduras têm comidas parecidas, mas cada um também tem seu prato nacional. Em El Salvador, se chama pupusa, uma tortilha grossa de farinha de milho com uma camada fina de recheio dentro (normalmente de porco, queijo ou misto). Serve-se com um tipo de salada de repolho (“curtido”) e um molho de tomate, e come-se tudo junto com a mão: você tira um pedaço da pupusa, pega um pouco do curtido e bota molho. Pedi uma só, mista.
E também uma baleada, um prato tradicional de Honduras. Uma baleada se parece um pouco com um burrito mexicano: uma tortilha fina de farinha com várias coisas em cima – entre elas sempre carne, feijão e creme – e depois a tortilha dobrada em cima do recheio. Neste caso eu pedi uma com tudo: choriço, ovo, carne, creme, alface e o que mais fosse possível. Feitas na hora, a pupusa e a baleada não tinham como não serem boas. E que barato: com uma água com gás, a conta deu só US$ 8 (ou R$ 14).
Escutando música dominicana em um restaurante salvadorenho-hondurenho, fiquei curioso. Perguntei em espanhol à garçonete, que parecia pura indígena maia: “Estou muito confuso! Vejo um cardápio hondurenho e outro salvadorenho, vocês são de onde?” E ela respondeu com a única resposta possível:
“Sou guatemalteca.” Claro.
“Os donos são mexicanos.” Óbvio.
Depois conheci um dos donos, que me explicou tudo: quando comprou o lugar, os donos eram salvadorenhos mas a cozinheira, hondurenha. Agora, servem comida mexicana também (só que ainda não tem cardápio), mas ele vai deixar alguns pratos salvadorenhos e catrachos na lista para não perder a clientela tradicional. O lugar, que não tem letreiro, se chama Taqueria Guerrero.
Desejei sorte para eles e continuei o caminho em direção ao restaurante bahamense. Só que pouco depois, em outro strip-mall com quase tudo fechado, tinha uma luz ligada num lugar que parecia uma padaria. Curioso, entrei.
Era um restaurante de comida haitiana, Tasty Bakery. Muitas letras do cardápio que estava fixado da parede tinham caído, mas era fácil escolher: tinha acabado quase tudo. Ainda tinham “chicken patties”, quase-pastéis delicados, cozidos no forno com recheio de frango. Por só US$ 0,85 . Pedi um. Me deram dois. 42.5 centavos de dólar cada um. Não resisti e comprei alguns doces de amendoim, que pensei comer como sobremesa depois de visitar o restaurante bahamense.
Não deu certo. Comi tudo no caminho, chegando ao bahamense com pouca vontade de comer mais. Decidi me sacrificar para os leitores.
Sheila’s Famous Conch, BBQ and More era um lugar pequeno que quase parecia uma barraca de praia. Sheila, a dona, estava ocupada dando conselhos amorosos a uma funcionária em uma das mesas, assim que fui atendido no balcão pelo filho dela, um menino de 8 anos, “quase nove”. Pedi um “crack conch”, a especialidade bahamanse que era a especialidade da casa, e também umas costelas. Ele falou que não sabia se tinha mais costelas, e não podia interromper a mãe, já que ela estava ocupada. Outra funcionária, uma senhora simpática, falou para ele que tudo bem, quando se tratava de um cliente, podia perguntar. Tinha sim, mas só sem ossos. Pedi um sanduíche de costela.
Paguei a conta, US$ 12, com um cartão de crédito, e botei uma gorjeta de US$ 2 para ele. Não é muito, falei. Ele respondeu, “para uma criança é sim!”.
Claro que não tinha fome, mas comi. Fazer o quê? O conch era uma dessas frituras perfeitas: frescas e macias e, ao mesmo tempo, nem um pouco gordurosas. Resultado da noite: nem dava para me sentir mal por haver comido três jantares. Ah, com o sanduíche, quatro.
Há muitos americanos que reclamam da imigração, que dizem ser ruim para a economia. Eu nunca concordei. Mas agora quero reclamar também. Pare a imigração! Se continuar, eu vou engordar demais.
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