Muitos churros com chocolate em Madri
Passei a semana passada em Madri, o destino final da minha viagem de três meses pela Europa e pelo Mediterrâneo. Na quinta-feira, tinha que sair para o aeroporto às 11h30. Normalmente as últimas horas antes de ir ao aeroporto existem para fazer as malas, ou comprar presentes. Mas eu tinha reservado esse tempo para uma atividade muito mais importante: comer churros com chocolate. E muitos.
É que já tinha visitado o Museo Nacional del Prado, visto Guernica (a obra famosa de Picasso) no Centro de Arte Reina Sofia, comido tapas e visitado o mercado El Rastro e o famoso Parque del Buen Retiro. Na minha lista, só faltavam os churros. E o chocolate.
O que acontece é que tenho uma pequena obsessão pelos churros, que tem sua origem ligada a um livro escolar. Deixa eu explicar.
Tinha 16 anos quando comecei a estudar espanhol, e a professora me ofereceu um livro de um curso de primeiro ano para estudar em casa. Chamava-se “Churros y Chocolate”.
Eu não sabia o que eram churros e o que eles tinham a ver com chocolate, até que a professora explicou que eram tubos de massa frita que os espanhóis comiam de manhã, banhados em chocolate quente. Isso não fazia sentido para mim, porque o chocolate quente americano (naquela época) era líquido, e para que fritar a massa se depois vai molhar esse doce crocante e deixar empapado e mole?
Os primeiros churros que comi, anos depois, não ajudaram a resolver o mistério. Encontrei churros simples no México e churros recheados com doce de leite no Chile. Muito bons, óbvio. Quem não gosta de massa frita com doce é oficialmente maluco, na minha opinião. Mas churros com chocolate não vi até viajar com um amigo para a Espanha, quando tinha 30 anos. Depois de dançar até a madrugada em Barcelona, uma espanhola e sua amiga da Guiné Equatorial (o único país africano onde o espanhol é o idioma oficial, sabia?) nos levaram para comer churros às 6h da manhã.
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Quando mergulhei o churro quente dentro da taça de chocolate, entendi. O chocolate estava espesso e denso, não o líquido que minha mãe sempre fazia para mim e meu irmão depois de brincarmos na neve e chegarmos tremendo de frio. Chocolate espesso com fritura crocante, existe melhor combinação? A espanhola e a africana eram bonitas, mas me apaixonei mais pelos churros.
Assim que, de volta à Espanha, agora eu tinha muita vontade de explorar o mundo dos churros. Consegui conhecer só um lugar durante a semana, a famosa e sempre lotada Chocolateria San Gines. Achei medíocre e queria ver se existia algo melhor. Uma pessoa normal não tem o direito de dedicar uma manhã a uma atividade tão absurda e gulosa quanto provar seis pratos de churros com seis taças de chocolate. Mas na minha profissão, isso se chama “pesquisa.”
A ideia era testar todas as casas de churros de minha lista entre as 8h e as 11h da quinta-feira (da semana passada). Quase consegui.
8h - Chocolateria Valor
(Póstigo de San Martin, 7. Preço: 4,30 euros ou R$ 10)
Uma chocolateria em forma de café tradicional com sucursais pela Espanha. O lugar estava vazio quando cheguei. A verdade é que a cidade inteira parecia vazia: os espanhóis não gostam muito de madrugar. Fritaram os churros na hora e eles chegaram quentes demais para comer. Por isso, provei o chocolate primeiro, com colher, pois ele era espesso demais para beber. Tinha um sabor puro e sofisticado de um lugar que conhece chocolate. Com os churros, melhor. Adorei. Ou melhor, teria adorado se não fosse às 8h. Me pareceu perfeito como sobremesa, não para o café da manhã: uma sobremesa para ser saboreada uma vez por mês, num dia de inverno, depois de ir para a academia dez dias seguidos.
8h30 – Cafeteria Los Arcos
(Plaza Mayor, 1. Preço: 3 euros ou R$ 7)
Tinha lido sobre um restaurante que se chamava Los Galayos, na Plaza Mayor, a praça central de Madri. O lugar tinha churros, mas não chocolate. (Os espanhóis também comem churros mergulhados no café, mas eu acho a ideia muito ruim.) Ao lado havia outro lugar com churros e chocolate, e aproveitei a oportunidade. Bom, não aproveitei muito. Os churros estavam frios – acho que nem haviam sido feitos no local – e o chocolate, aguado. O ideal teria sido desistir depois de um bocado, para conservar espaço na barriga. Mas odeio deixar comida no prato porque fico com vergonha quando o garçom chega e pergunta se havia algum problema. (“Tem! Os churros são horríveis!”) Assim, comi um pouco mais até perceber que justo ao lado da minha perna direita existia um cesto de lixo. Ideia! Aproveitei que o garçom não estava olhando e joguei tudo menos um pedacinho de churro no cesto. O garçom pegou o prato com só o pedacinho restante. “Muito bons”, eu disse.
9h - Apesar de haver provado só dois lugares, meu estômago já estava reclamando do chocolate espesso do primeiro e dos churros nojentos do segundo. Achei uma boa ideia comer outra coisa, e fui no mesmo Galayos para um “tostado con tomate”, torrada com tomate. Me senti muito melhor.
9h15 – O terceiro lugar na lista, CH & CH (ou seja, CHocolate e CHurros), na Calle Mayor 54, estava fechado. Reformas. Saco. Com esse nome, tinha que ser bom mesmo.
9h25 – Maestro Churrero
(Plaza Jacinto Benevente, 2. Preço: 2,50 euros ou R$ 5,70)
O restaurante parece uma lanchonete qualquer, mas pela primeira vez encontrei o que procurava. Os churros estavam leves (ok, relativamente leves) e crocantes, e o chocolate razoavelmente saboroso. Apesar de querer conservar espaço na barriga, não resisti: comi todos os cinco churros.
10h – Chocolat
(Calle Santa Maria, 30. Preço: 4,45 euros ou R$ 10)
Esse lugar está no lindo “Barrio de las Letras” – seu nome está ligado a seu passado como um centro literário onde moravam escritores, e ainda hoje é um lugar intelectual e meio boêmio. Chocolat era um desses cafés suficientemente chiques para os artistas chegarem e sentarem no balcão para tomar seu espresso diário, mas também suficientemente confortáveis para um pai levar seus filhos para comer. Por isso conheci o Enrique Uguet, que estava com seus filhos Quique e Luis, no dia do quinto aniversário do primeiro. Todos estavam comendo churros para celebrar a data. Boa ideia e boa escolha de lugar. Depois de conversar com eles, me sentei no balcão e esperei meus churros. O chocolate chegou em uma espécie de cálice – mais um ponto chique! E era espesso, mas não demais, e tinha um sabor forte e não doce demais. Os churros, crocantes e levinhos como os do Maestro Churrero. Comi todos.
10h45 – A última parada tinha que ser a Casa Manolo, um lugar muito tradicional perto do Congreso de los Diputados. Mas o lugar estava em reforma também. (Isto ocorre muito no verão em Madri, quando muita gente está de férias.)
Tudo bem. Eu estava satisfeito. Resultado: dois lugares para comer churros com chocolate para o café da manhã – Chocolat e Mestro Churreiro, os dois muito bons e muito melhores do que Chocolateria San Gines (esse lugar famoso para bêbados às 5h de manhã). Para ocasiões especiais, o Valor. E para evitar: Los Arcos, apesar de receber nota 10 para localização de lixeiras.
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