Catorze: Dois por Seth em Beirute
Quase nunca estou de férias. Eu sei que parece um absurdo para os que consideram minha vida de viajante profissional uma folga eterna, mas é verdade. Apesar de vocês não acreditarem, as viagens, por mais maravilhosas que sejam, não deixam de ser trabalho também. Tem as horas e horas de pesquisa, a monotonia de esperar nos aeroportos e dormir nos ônibus, a correria de uma viagem de poucos dias para fazer muitas coisas, a tarefa de separar o bom do ruim para os leitores exigentes, o estresse dos deadlines e os chefes que pedem demais e pagam de menos. (Estou falando dos chefes do passado. Os meus chefes de agora são perfeitos, claro.)
Até nos dias que consigo tirar para mim para fazer algo divertido, sempre fico pensando “serve para uma matéria?” e escrevendo notas e tirando fotos. O único destino onde me libero totalmente é a casa dos meus pais, porque ninguém quer saber se a cama do meu antigo quarto é tão confortável quanto era anos atrás ou se os brownies da minha mãe ainda são os melhores do mundo. (Uma obs: é e são.)
Mas milagres acontecem e, ao final de mais de dois meses de viagem pelo Mediterrâneo, estava em Beirute com dois dias livres e nenhuma matéria para fazer. Eu não sabia absolutamente nada da capital do Líbano – quer dizer, na verdade só sabia que durante minha infância inteira esse foi um lugar de eterna guerra e nos tempos de paz tinha virado chique. Mas depois de passar 65 dias seguidos pesquisando e planejando cada momento, nem queria pensar no que fazer.
Por sorte, estava hospedado na casa de um dos melhores guias de Beirute que existe: meu amigo e xará Seth Sherwood, também jornalista de viagens. Ele passa todos os verões em Beirute, conhece a cidade muito bem e fala árabe suficiente para negociar com taxistas e brincar com garçons e também sabe ler letreiros. Eu me deixei nas mãos dele.
Para ver as primeiras atrações da cidade, nem precisávamos sair do apartamento dele, era só sair para a sacada. É que o prédio dele tem uma vista do antigo Holiday Inn, um prédio de 26 andares que está em ruínas, após ser atingido por bombas, granadas e balas em uma batalha que ocorreu em – inacreditável – 1976. (Há até árvores saindo das janelas do andar mais alta…como isso aconteceu eu nem imagino.)
Isso é Beirute: entre os prédios modernos e novinhos existem outros que foram destruídos durante a guerra civil (que durou de 1975 até 1990) e estão lá como uma lembrança macabra do horror desses anos. Os libaneses cristãos e muçulmanos vivem, trabalham, se divertem e têm uma vida mais ou menos normal em meio à destruição.
A vista da sacada não é só ruínas. Em frente ao prédio há um hotel moderno, e se os hóspedes decidem deixar as cortinas abertas, dá para sentar no balcão, tomar uma cerveja e ver o que eles fazem dentro de seus quartos. E vimos algo bem interessante. (Não se preocupe, não é o que você está pensando.)
Dois homens entraram no quarto e começaram a tirar a roupa. (Sério, não é o que você está pensando, de verdade.) Colocaram outra roupa mais confortável, e se sentaram de joelhos no chão… para rezar. Os muçulmanos rezam cinco
vezes por dia, claro, e se não dá tempo para ir a uma mesquita, fazem sua oração onde quer que estejam. Para o outro Seth, não era esquisito ver isso – ele me disse que nos restaurantes é comum ver muçulmanos pararem de comer, colocarem um tapete no chão e rezarem no meio das outras mesas. Mas para mim era uma novidade.
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Nessa mesma cidade com ruínas de guerra e muçulmanos que rezam cinco vezes por dia, existem clubes de praia que parecem Florianópolis. Um dia meu xará Seth me levou ao Riviera Hotel, que fica de frente para a praia e a apenas 20 minutos da casa dele. Você paga 20 dólares para entrar na área da piscina e de repente está num mundo que parece uma festa de verão da MTV: a piscina com um bar dentro, um DJ tocando as músicas que todo o mundo sabe de memória como “Empire State of Mind” de Jay Z e Alicia Keyes, e mulheres e homens incrivelmente sarados dançando e bebendo. Alguns bebiam drinques coletivos de copos gigantescos com canudos enormes e múltiplos. No Oriente Médio, me disse o outro Seth, você só vê isso em Beirute e Dubai.
Mas nosso primeiro objetivo era sair à noite e conhecer a famosa vida noturna da cidade, principalmente no bairro de Gemmayzeh. Seguindo a dica de um amigo do Seth que tínhamos encontrado num café, fomos para uma festa no Behind the Green Door, uma espécie de bar e boate com nome inspirado em um filme pornô clássico de 1972. (“Atrás da Porta Verde” em português, para os leitores que estão fingindo nunca terem ouvido falar do filme.) Isso aconteceu poucos dias depois da morte de Amy Winehouse e cada pessoa que entrava na boate recebia uma máscara da Amy. O lugar estava lotado com jovens bebendo e dançando à músicas como “Rehab” e falando a mistura típica de inglês, francês e árabe que serve de idioma oficial da juventude da cidade.
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Fomos também a outros lugares mais tranquilos: o bar do restaurante Momo at the Souks (a versão libanesa do famoso Momo de Londres), o Coop d’Etat, no terraço do Saifi Urban Gardens, um lugar que é albergue, centro cultural, escola de árabe e bar – tudo junto – , e o bar Demo, um dos favoritos do Seth, um lugar mais boêmio com “mesas” feitas de cartões de cerveja.
Para agradecer o Seth por sua hospitalidade, claro que tinha que convidá-lo para jantar. Ele escolheu o Abdel Wahab, no bairro de Ashrafiyeh, um lugar de comida libanesa tradicional em um ambiente de luxo. Como o restaurante fica no lado cristão da cidade, dava para tomar bebidas alcoólicas (algo mais raro – mas não impossível – nos bairros muçulmanos). A gente pediu uma pequena garrafa de arak, o licor com sabor de anis que fica leitoso quando você coloca água.
Pedimos muitas coisas típicas (o homus, o baba ganush, a linguiça libanesa). Mas o Seth insistiu para provar um prato chamado simplesmente “Birds”. Como o jantar era de agradecimento, concordei.
Comer “birds” – “pássaros” em inglês – no Abdel Wahab é um desses momentos que divide os verdadeiros carnívoros da comunidade VVS (Veganos, Vegetarianos e Simpatizantes). O prato consiste em seis pequenos passarinhos – como as aves fofinhas que cantam nas árvores e que seu filho de 5 anos desenha na escola e você coloca na porta da geladeira. Só que eles chegam sem cabeça, preparados em óleo na frigideira e servidos em molho de romã e suco de limão. Você come de um bocado só, mastigando forte para quebrar os ossos.
Talvez eu seja uma pessoa cruel, mas eu gostei da experiência. O sabor era mais ou menos – como todas as aves que você prova pela primeira vez, parecia frango. Depois, chegou a sobremesa, e fumamos um narguilé, um desses cachimbos de água que se usa para fumar tabaco com sabores doces. O nosso era de uva.
Foi difícil deixar Beirute e voltar para a rotina. Mas fiquei feliz de haver passado alguns dias de férias de verdade, com guia pessoal e sem me preocupar em anotar tudo o que acontecia no meu bloco e tirar fotos a todo momento, sabendo que nunca ia ter que escrever sobre essa experiência.
Ops.
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Autor: Seth Kugel Tags: Beirute, Líbano





