Na Croácia, aproveite a hospitalidade natural
“Luka…Luka!!!!” gritou nosso anfitrião Tony, exasperado (mas nem tanto) com o filho de 10 anos, que devia ter feito alguma travessura que não percebi. Tony virou para nós e falou: “É um menino hiperativo. Tem problemas na escola. Estamos preocupados.”
Foi um detalhe íntimo da boca de alguém que meus pais e eu, viajando juntos na Croácia, tínhamos conhecido há bem pouco tempo. Havíamos passado só algumas horas com Tony e sua família desde que tínhamos deixado as malas no apartamento que alugamos, que ficava ao lado da casa dele. Mas durante essas horas, Tony fez todo o possível para que nós nos sentíssemos em casa: nos ofereceu um trago de conhaque de cereja feito em casa, nos convidou para a praia de Dubrovnik com o Luka e um amiguinho dele, e agora, estava nos contando intimidades da família.
Pouco depois, o Luka, um menino de cabelo castanho claro e sorriso doce, saiu da água e falou algo em croata para o pai. Tony lhe deu umas moedas. “Esse menino não vai crescer. Só quer sorvete. Há uma hora tomou sorvete em casa. Agora, na praia, quer mais sorvete.”
“Acabamos de aprender que as crianças do mundo inteiro são iguais”, disse minha mãe. Quando visito um país ou uma cidade nova, sempre tento fazer amizades locais, mas nem sempre isso acontece. A realidade é que todo mundo tem uma vida, e poucos têm tempo para passar com os turistas.
Mas a Croácia é diferente. Qualquer pessoa pode reservar uns dias na casa do Tony (pelo site dele ou pelo Hostels Club) ou em outros milhares de quartos ou apartamentos adjacentes às casas croatas. É só fazer uma busca no Google. É claro que nem todos os anfitriões são tão amáveis e abertos como Tony. E que nem todos os turistas querem ir para uma praia meio sem graça, numa cidade famosa pelo seu centro histórico murado e pelos seus museus, mas, definitivamente, não pelas suas praias medíocres.
A Croácia também tem hotéis tradicionais. Mas os quartos de hotel são minoria. Incrível mas certo: em 2009, segundo o governo croata, havia 149.823 quartos disponíveis para turistas em casas e só 55.702 em hotéis. Ou seja, a Croácia tem criado, talvez sem querer, um sistema nacional para fomentar o contato entre turistas e cidadãos locais.
Parabéns aos croatas e seria bom que todos os países fossem assim. E não é como se a Croácia precisasse de mais uma atração: sua costa no Mar Adriático tem dezenas de ilhas para visitar – uma mais linda que a outra – e também cidades antigas, parques nacionais preciosos e uma história fascinante. Isso sem falar do peixe fresco.
A demanda mundial para experiências além dos hotéis está crescendo. Já existem muitos esforços em diversos países para proporcionar experiências mais íntimas que não são possíveis em hotéis tradicionais. Há os “bed & breakfast” (no Brasil, os poucos se chamam “cama e café”) – e agora há sites como o AirBnB, que tenta criar um sistema mundial mais ou menos como o sistema croata.
Arte de receber bem
Mas os croatas têm algo especial: são anfitriões naturais. Depois do sucesso com Tony, procuramos casas nos nossos outros dois destinos. Em Mljet, ilha preciosa de pinheiros, montanhas, lagos tranquilos e um pouco mais de mil habitantes, ficamos em um apartamento da família Strazicic.
Nosso apartamento era em outro prédio, mas incluía o direito de usar o pátio da casa deles, que ficava ao lado do porto no vilarejo de Polace. O pátio tinha flores de todas cores, em todos lados, que deixavam as borboletas – e os humanos – felizes da vida.
Ane, nossa anfitriã, nos fez um jantar de peixe fresco por aproximadamente R$ 30 por pessoa, servido numa mesa entre as flores e perto do mar. Também conhecemos suas duas filhas, uma adolescente que falava bem o inglês e uma menina de talvez oito anos que se chamava Karla e só falava “good morning” (mas com empenho).
Na ilha de Korcula, nossos anfitriões foram Maria e Zeljko Segedin, que por 60 euros (R$ 136) por noite nos ofereceram um apartamento grande de dois quartos, com cozinha, sala e um balcão com vista para o Estreito de Peljesac, com águas límpidas e montanhas estonteantes. Passeamos pela cidade antiga (onde os moradores – e alguns historiadores – dizem que nasceu Marco Polo) e visitamos Racisce, um vilarejo de pescadores que gostamos até mais do que a cidade antiga.
Mas nosso lugar favorito foi o Gera, um restaurante (e pousada) rural cuja dona é a irmã do Zeljko e produz seus próprios queijo, azeite de oliva, pão, vinho e muito mais. Como chegar? Nem sei – o cunhado do Zeljko nos pegou em casa e nos levou até lá. Teríamos gostado do lugar de todo jeito, mas com a conexão pessoal (e a carona) foi impossível não adorar.
Meus pais adoraram a Maria e um dia ficaram conversando muito tempo com ela. E ficaram escutando a história romântica de como ela tinha conhecido o marido, um pescador que foi trabalhar perto da ilha de Lastovo onde ela foi criada. Maria também deixou minha mãe carregar o bebê dela.
Quer ficar com a família Segedin? Pode, deve, mas nem tente reservar os apês dela em agosto. Há uma família italiana que adora o lugar e ocupa todos os espaços durante o mês inteiro. Até pagam um extra para o Zeljko ir pescar todas as manhãs e Maria cozinhar os peixes à noite.
Mas vou me lembrar mesmo é do Tony e do Luka. Tony não falava muito bem o inglês, mas é uma dessas pessoas que quer tanto se expressar que a falta de vocabulário não é obstáculo. Aprendemos muito sobre o emprego dele – ele trabalha numa padaria comercial a 200 metros da onde exerce o cargo de “commercial man” (“homem-comércio”) uma frase que não significa nada em inglês (nem em português, acho). Mas acho que ele trabalha com vendas, porque nos contou todos os detalhes de como os chefes tinham perdido o maior cliente da empresa e ele tinha que ir falar com o cliente e salvar o dia. Mas o Luka era o assunto número um e nem sei contar quantas vezes ele repreendeu o filho com um “Luka…Luka!!!!”
Hotel, para quê?
É verdade que as casas nem sempre são tão perfeitas quanto os hotéis. Na casa da Maria e do Zeljko, sofremos uma invasão de formiguinhas. Claro que meu pai nem percebeu, mas minha mãe encontrou os insetos até nas malas. E na manhã em que percebemos que não tinha água quente no apartamento que alugamos da família Strazicic, informamos a filha adolescente sobre o problema – porque os pais não estavam em casa – e saímos para passear.
É claro que a filha se esqueceu de contar para a mãe e chegamos mais tarde para encontrar água gelada no chuveiro. (E a solução era tão fácil, só ligar um interruptor.) Mas fazer o quê? Se surpreender porque uma adolescente fez algo irresponsável, para variar?
Quando acabou a semana, comecei a pensar na existência dos hotéis. Para mim, as revistas de viagens gastam palavras demais falando deles, avaliando as camas, os móveis, o serviço de quarto, a arquitetura. Acho que os hotéis, em grande parte, são ambientes falsos onde devemos ficar só para dormir e sair logo para conhecer a cidade ou estado, ou país, ou ilha, ou parque nacional para onde viajamos. E nem me fale dos resorts tudo incluso.
A Croácia é bonita demais para esquecer. Mas as lembranças que vão durar mais, acho, são a minha mãe carregando o bebê da Maria no pátio com vista para o mar e as montanhas; o “good morning” da Karla; o jantar de peixe preparado pela mãe dela; e claro, o “homem-comércio” que se chamava Tony e o filho dele que sempre queria sorvete e se chamava Luka. Quer dizer, Luka!!!!
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