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quinta-feira, 12 de abril de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:46

Fiji é o paraíso, mas combine isso com a meteorologia antes

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Fiji é o tipo de lugar exótico que você talvez viu na televisão, mas pensa que nunca vai conhecer

Fiji, nação de 300 ilhas no meio do Oceano Pacífico – é o tipo de lugar exótico que você talvez viu na televisão, mas pensa que nunca na vida vai conhecer. E como que eu, que nem te conheço, pretendo saber o que você está pensando? Porque eu também nunca imaginava que ia chegar a um lugar tão longe – a 14.000 quilômetros do Rio de Janeiro. E olha que eu viajo 200 dias por ano. A lua? Talvez. Fiji? Lá no meio do nada? Nunca.

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(Detalhe: Não costumo usar “no meio do nada”, uma frase meio-ofensiva, porque se eu falasse assim sobre um vilarejo no sertão, alguém do próximo vilarejo me escreveria para reclamar que não está no meio do nada, está ao lado da casa dele. Mas no caso de Fiji, vou me arriscar: o “nada” é o vasto oceano Pacífico e os únicos que poderiam reclamar são os peixes, poucos dos quais leem esta coluna)

Pessoal do Botaira toca música para os hóspedes que chegam em barco

Mas, incrivelmente, até a quarta-feira passada estive em Fiji. Por quê? Porque como talvez você já tenha lido por aqui, estava na Nova Zelândia e na Austrália, e quando pesquisei sobre a viagem com um amigo neozelandês, ele me mencionou que os turistas daqueles países vão muito para Fiji e outras nações longe-pra-caramba para nós (mas, não para eles), tipo Samoa e Tonga e Taiti.

Da Nova Zelândia é só pagar uns R$ 600 por uma passagem e ir tranquilamente de Auckland para Nadi, em Fiji, em três horas. (Tranquilamente só se você não for fã do seriado Lost. Sendo fã, como eu, você olha pela janela as águas do Pacífico e acha que o avião vai quebrar em dois pedaços e te depositar numa ilha com um monstro de fumaça e ursos polares). Eu planejei passar uns seis dias, onde iria conhecer Yasawa, um arquipélago de pequenas ilhas onde nos últimos anos se abriu uma série de resorts a preços razoáveis, e depois conhecer uma ilha maior, com floresta e praia, a Taveuni.

Ou seja, seis dias para testar se Fiji é mesmo o paraíso que todos nós imaginamos.

Dias 1 e 2
O barco amarelo “Yasawa Flyer” é um mal necessário para turistas de verba limitada. Um catamarã amarelo que serve para levar para os resorts turistas sem dinheiro para pagar por uma viagem de hidroavião ou tempo para pegar carona com um pescador. (Boa dica é de comprar um “Bula Pass” por alguns dias, que permite ir de um resort a outro sem pagar passagens adicionais).

O resort fica na ilha Naviti, rodeada de morros baixos e uma franja de areia amarelada traçando a costa

Por que um mal necessário? 1) Nunca é bom estar em um grupo enorme de turistas. 2) Pior ainda se muitos desses turistas forem jovens indo aos resorts só para ficar na praia e beber noite e dia. Nada contra, mas porque ir tão longe, para ilhas tão preciosas, e fazer o que se pode fazer na praia local? 3) O pessoal do barco, que ajuda a reservar os resorts, é meio antipático. Eu também seria se tivesse que aguentar as demandas de mil turistas por dia.

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Eu nem tinha feito reserva em um resort antes de subir a bordo – apesar do perigo de ficar sem lugar para dormir, eu sempre acho melhor pesquisar ao vivo, com inteligência humana, ao invés de buscas cibernéticas. Desta vez, mais uma vez, deu certo. Conheci a Helen, uma inglesa residente há 15 anos em Fiji e consultora de turismo sustentável que estava levando um grupo de jovens alunos universitários norte-americanos para estudar turismo ao vivo. Superssimpática e com muito conhecimento da área, me contou quais eram os resorts dos bêbedos que não respeitavam a cultura local, e quais eram os mais calmos. O melhor resort, segundo ela, era o Botaira, cujo dono é das ilhas e tem boas relações com os povoados tradicionais do local.  Era lá que ela estava levando os alunos. “Você é bem-vindo”, me disse.

Equipe do Botaira apresenta dança típica

Eu não ia poder pagar por um “burê”, uma das casas tradicionais, que custa mais de R$ 400 por noite, e o pessoal do barco falou que os dormitórios reservados para mochileiros não estavam disponíveis. Mas Helen (que não tinha ideia de que eu era jornalista) me apresentou para o Jerry, um fijiano grande, mas calmo, com uma voz afável, e perguntei se tinha um lugar para um pobre viajante que não queria ficar com os jovens bêbedos. Ele me deu uma cama no dormitório por aproximadamente R$120 por dia, incluindo as três refeições.

Fomos deixando turistas em várias ilhas, cada uma mais perfeita do que a anterior, mas nenhuma mais do que a Naviti, onde ficava o Botaira. Um barco menor nos pegou no grande catamarã amarelo e nos levou para uma pequena baía rodeada de morros baixos e verdes e uma franja de areia amarelada traçando a costa. A única construção visível era uma estrutura tradicional de madeira com uma varanda. E nela, um grupo do resort cantava uma música tradicional para nos dar as boas-vindas. Na chegada, a palavra mais ouvida nas ilhas de Fiji: “Bula!”. Ou seja, “Olá!” ou “Tudo bem?”, “E aí?”. Só que não dá para falar fraco, tem que quase gritar com alegria: BULA!

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Apareceram sucos tropicais para todo mundo; o meu era de goiaba. Cada uma das pessoas se apresentou, todos de cor negra, como a maioria dos fijianos. (Também há uma minoria de indianos, mas eles moram nas ilhas principais e não nessas pequenininhas) “Acho que seria impossível estarmos mais felizes do que estamos nesse momento”, disse uma aluna de 18 anos, a Emily.

No Botaira, o sol se põe precisamente no centro do horizonte

Difícil não concordar. Os alunos – divididos em quatro por burê –, correram para botar roupa de praia e entrar na água. Eu fui para o meu dormitório muito básico – só beliches, com privada externa – mas era só para mim, porque o resort tinha sido reservado só para os alunos (eles nem anunciam no site o dormitório que fiquei). Apesar dos alunos serem muito simpáticos, eu os evitei a maior parte do dia e aproveitei os momentos que tinham aula com Helen para ter o resort todo para mim. Um paraíso particular? Isso mesmo, pelo menos algumas hora por dia.

Remei até o centro da baía em um caiaque em um dia, fiz snorkeling em outro, e a poucos metros da praia vi um arco-íris de peixes tropicais no recife de coral quase tão colorido quanto os peixes. Não vi tubarões (alguns dos outros resorts tinham mais), mas fiquei fascinado pelas ostras-gigantes, moluscos absolutamente enormes, cada um com uma coloração diferente e, apesar de parecerem imóveis, estavam prontos a fechar a “boca” quando algum inimigo (ou um braço humano) se aproximasse. (Se eu assistisse Bob Esponja, eu te contaria que lembrava muito o episódio no qual uma ostra-gigante tenta comer a Sandy e, tentando resgatá-la, Bob Esponja fica preso dentro da ostra. Depois, Sandy tem que… Ah, esquece, como falei, nem assisto).

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Maioria da equipe do resort mora no pequeno vilarejo de Soso

Também aproveitei a oportunidade de visitar o vilarejo de Soso, onde mora a maioria do pessoal do resort. Era só pedir um guia da administração (me deram o Chris, estagiário de chef), subir um pequeno morro, descer até a praia do outro lado, e andar mais dez minutos pela praia. No vilarejo, que parecia uma comunidade ribeirinha da Amazônia – só que as casas não eram de palafitas –, dava para visitar a igreja e a escola, onde os alunos só falam inglês, o idioma dos colonizadores que se tornou um idioma oficial depois de Fiji ficar independente em 1970.

Em Botaira (como em vários outros resorts) fazem um esforço que me parecia bem sincero de mostrar costumes fijianos para os hóspedes. O mais popular, de longe, é o uso da “kava”, uma bebida feita de uma raiz que (te dizem) tem efeitos sedativos e relaxantes. Pessoalmente, eu não senti nada, mas pelo menos o sabor não era tão ruim como muitas bebidas “tradicionais” ao redor do mundo. A kava não se bebe à vontade, tem toda um sistema formal, batendo palmas e falando palavras em fijiano depois de beber de um recipiente comum. O Gerry nos explicou que só recentemente havia kava suficiente para todo mundo tomar. Antigamente era preparada nas bocas das meninas virgens, que mastigavam a raiz e a depositavam diretamente na boca dos caciques. Ah, os bons e velhos tempos.

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Mas o mais especial foi o pôr-do-sol.  Como a baía dava perfeitamente para o ocidente, o sol se punha precisamente no centro do horizonte, e com um drama impressionante. O sol caiu. Fez uma pausa. E do nada, parecia que latas celestiais de tintas cor-de-rosa e laranja explodiram no céu. Foi o Knox, o barman, que me contou que Botaira, em fijiano, significa pôr-do-sol.

Dias 3 a 8 (É, 8 mesmo)
Depois de dois dias, decidi que já era hora de testar os outros resorts e talvez conhecer a floresta de Taveuni.

O tempo, porém, tinha outra ideia: deixou-me subir novamente no barco amarelo e chegar, sob chuva forte, em um barco lotado de turistas enjoados, no resort Blue Lagoon. Mas daí em diante não deixou fazer mais nada. Um ciclone tropical tinha se acercado a Fiji, e a chuva e o vento quase não pararam por cinco dias.

Um ciclone tropical tinha se acercado a Fiji, e a chuva e o vento quase não pararam por cinco dias

Eu poderia chorar por ter perdido a oportunidade de conhecer outros resorts, ficar os outros quatro dias dentro do dormitório e do restaurante do resort lendo, jogando Monopoly com outros hóspedes e ligando para as linhas aéreas para tentar remarcar os meus voos, e passar o oitavo dia no aeroporto internacional, esperando um voo superatrasado. Mas com cinco mortos e milhares de fijianos sem casa em outras partes do país, achei que seria melhor não reclamar. O que posso dizer com certeza: o Blue Lagoon é um resort bem organizado e muito profissional, e conseguiram nos alimentar e nos entreter (mais ou menos) apesar das chuvas até que fosse possível sair. Conclusão: Fiji é um paraíso mesmo, mas é um paraíso sujeito a cancelamento por ciclones tropicais.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quinta-feira, 5 de abril de 2012 Oceania | 06:04

Segurança e limpeza fazem parte das atrações turísticas na Nova Zelândia

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Eu andava no meu Nissan Sunny alugado pela Rota 6 da Ilha Sul da Nova Zelândia, quando me deu um sono forte, do tipo dormir-no-volante. Pensei o que sempre penso nessas situações (o que minha mãe teria orgulho de saber se lesse português): “Vou parar e descansar. Seria ruim me matar e, pior ainda, matar outro motorista e sua família inocente.“

Dirigir na Nova Zelândia é frequentemente uma atividade solitária

Dirigir na Nova Zelândia é frequentemente uma atividade solitária

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Só que essa lógica não funciona muito bem na Rota 6, porque nesse pedaço de asfalto bucólico e pitoresco não há quase mais ninguém para matar. Eu não tinha visto outro carro, nem outro ser humano, há muito tempo. Se eu fosse matar alguém, as vítimas mais prováveis teriam sido as infinitas ovelhas que ficavam saboreando o pasto ao lado da estrada, como alvos num videogame macabro.

Mas ainda assim parei na pousada mais próxima: a Castle Hill Lodge, do casal ultrassimpático Mark e Sharon Ford, com quatro quartos numa casa térrea, simples mas moderna, ao pé do morro “Castle Hill” e ao lado de um pasto de (só para confirmar o óbvio) ovelhas.

Foi na Nova Zelândia que filmaram a trilogia “O Senhor dos Anéis”. Filme é filme, mas às vezes a Nova Zelândia real parece de fantasia também. E, detalhe, muito menos violento do que o mundo inventado por J.R.R. Tolkien. A taxa de crimes é mínima – o índice de assassinatos é muito menor do que o dos Estados Unidos e muito, muito, muito menor do que o do Brasil. Outros crimes também não são frequentes e em 99% do país o risco de ser assaltado é inexistente. E há uma eficiência impressionante dos serviços públicos: os ônibus urbanos chegam quase sempre no minuto programado e os neozelandeses (pelo menos os que conheci) se declararam muito satisfeitos com o sistema público de saúde.

Não faltam reservas naturais na Nova Zelândia

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Um exemplo: a polêmica da qual mais ouvi falar durante os meus 10 dias no país era sobre umas novas regras de trânsito que acabam de entrar em vigor. Uma delas, se consigo explicar, tratava de quem tem o direito de seguir primeiro num cruzamento em forma de T quando um carro chega do lado esquerdo querendo virar à direita e outro carro chega na rua de baixo querendo virar à direita. Não entende? Eu também não – para mim já foi difícil demais lembrar de ficar do lado esquerdo da rua, como na Inglaterra. (A Rainha Elizabeth II ainda aparece nas moedas neozelandesas e os carros ainda dirigem do lado esquerdo. Não sei qual me pareceu mais absurdo)

Mas é pouca a possibilidade de um cidadão neozelandês não entender: cada casa recebeu um panfleto pelo correio explicando as novas regras, e o governo fez até um site e abriu um número com ligação gratuita para quem tivesse dúvidas. Ah, também tinha um jingle que rima: “Top of the T goes before me.” (Ou seja, o carro no topo do T vai primeiro) Vamos inventar uma rima que ajudaria o trânsito paulistano ou carioca a funcionar melhor? Que tal “Não sequestre, ou mate pedestres?”.

Mark e Shannon não são neozelandeses. São ingleses que se mudaram para a Nova Zelândia em busca de calma depois de os dois trabalharem um tempo como policiais na cidade inglesa de Kent. A Shannon gerencia a pousada, e o Mark foi recrutado a trabalhar como policial na região. Claro que perguntei para ele quais eram os crimes mais comuns que ele encontra. “Quase não tem”, me disse. “As chamadas mais comuns são para acidentes de trânsito. Tipicamente, turistas do seu país dirigindo do lado errado da rua.”

Ovelhas, ovelhas e ovelhas podem ser vistas na paisagem da Nova Zelândia

Ovelhas, ovelhas e ovelhas podem ser vistas na paisagem da Nova Zelândia

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Um país ser tranquilo e funcionar bem e ter muitas ovelhas não significa que é perfeito. Os maori, o povo polinésio de cor negra que chegou na ilha uns 350 anos antes do primeiro explorador branco, vive a mesma praga que afeta povos indígenas em outras partes do mundo: alcoolismo, pobreza, educação inferior. Uma atração turística é visitar um povoado maori e ver as danças tradicionais, blábláblá, mas é só desviar um pouco do tour para enxergar maoris jovens e sem emprego sentados do lado de fora da casa bebendo cerveja. Tem outros pobres também. Quando visitei uma comunidade de imigrantes em Auckland (a maior cidade do país), mendigos na rua me pediram dinheiro de forma não tão diferente do que nas ruas do Rio.

Mas o sentido de sossego e tranquilidade é inegável, em parte o resultado de só 4,4 milhões de pessoas habitarem um país desenvolvido do tamanho do Equador (que tem 15 milhões de habitantes). Tem tantas “Reservas Naturais” demarcadas que vira até cômico: comecei a pensar que o governo pouparia muito dinheiro se, em vez de colocar placas em cada “Reserva Natural”, erguessem placas de “Não-Reserva Inatural” nos poucos lugares que não o são.

Mas era uma piada de inveja. Tantas belezas naturais que quase nem dá para anotar todas as que vi, nem falar das muitas que não davam tempo de ver. Vou dar só três exemplos com fotos.

O fiorde Milford Sound produz centenas de cachoeiras temporárias

O fiorde Milford Sound produz centenas de cachoeiras temporárias

Milford Sound – só descoberto pelo homem branco em 1812, Milford Sound é um fiorde – uma entrada do mar esculpida dramaticamente nas montanhas por atividade glacial. Um dos lugares mais molhados do mundo, a área recebe quase sete metros de chuva por ano, o que produz centenas de cachoeiras temporárias cada vez que chove e às quais os turistas podem visitar em cruzeiros de uma hora ou até um dia. Por isso é bom visitar num dia de chuva, e melhor ainda (e mais seco) num dia ensolarado pouco depois da chuva.

Na Hot Water Beach, basta escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas

Na Hot Water Beach, basta escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas

Coromandel Peninsula – lá na Ilha Norte tem uma península pequena que quase nem é tão dramática quanto o Milford Sound, mas ganha em charme o que perde em grandeza. Pode-se comer os melhores (e maiores) mexilhões que já provei no Coromandel Mussel Kitchen ou visitar cidades históricas criadas durante as corridas do ouro do século 19, mas eu gostei mais de dois lugares com belezas naturais. Um deles é a Hot Water Beach, uma praia onde é só escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas e criar um Jacuzzi natural ao lado do mar frio. (A melhor parte não é descansar nas águas quentes mas ver tantos adultos brincando com pá de criança) A apenas só nove quilômetros dali tem (mais) uma reserva natural que, se estacionar o carro e andar a pé por uns 40 minutos, chega-se à praia mágica de Cathedral Cove, um semicírculo de areia esculpido nos rochedos, um processo que quem-sabe-como deixou uma rocha no meio que parece uma esfinge. Numa praia tão linda e nem tão longe da maior cidade do país devem chegar muitas pessoas, né? Não na Nova Zelândia: a tarde em que eu fui estava totalmente vazia até eu chegar; quando eu estava indo embora uma família descia as escadas para me substituir. “A praia é toda sua”, lhes disse.

O trem TraNZalpino, que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch, é principalmente uma atração turística

O trem TraNZalpino, que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch, é principalmente uma atração turística

Trem “TranNZalpino” por Arthurs Pass – Apesar de ser oficialmente mais uma rota dos sistema de trens nacionais, o trem que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch é principalmente uma atração turística. (Os neozelandeses que tomam o trem porque precisam chegar de uma cidade para a outra até existem, mas são poucos) Foi lá no trem que vi mais um exemplo da falta de medo do crime que existe no país. Dois turistas confiavam tanto nos outros passageiros que deixaram suas Canons (que valiam pelo menos R$ 5 mil cada) na mesa quando foram, sei lá, ao toalete ou comprar algo para comer. O momento me pareceu tão extraordinário que eu tirei fotos.

Até a “grande” cidade de Auckland, com mais de um milhão de habitantes chama a atenção com detalhes inesperados. O exemplo que mais me surpreendeu: as ruas da grande cidade de Auckland são tão limpas que boa parte dos residentes sai de casa sem sapatos. É, sem sapatos. Sem chinelo. Sem meias. Ou seja, descalços – e não para ir para praia com fazem alguns poucos surfistas no Rio. Para fazer compras no supermercado. Para comer em um restaurante. Para sair com amigos.

 Tente isso no Brasil deixe duas máquinas de valor de R$5000 cada no trem e ver o que acontece

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Isso me deixou pensando: tudo bem que não tem lixo, nem vidro, nem nada nas ruas. Mas, ainda assim, não dá para não sujar os pés… Será que quando uma criança chega em casa a mãe grita “Calce os sapatos antes de entrar”, em vez do contrário?

Ah, e que tal um país onde os cidadãos admiram e respeitam a polícia como uma organização eficiente e incorruptível? Pois a pesquisa anual da revista “New Zealand Management” aponta que, há vários anos consecutivos, a polícia nacional é o departamento mais “respeitável” do governo.

Uma noite, na pousada rural Berwicks Hill (onde paguei só 70 dólares neozelandeses – ou seja R$ 107 – por noite), eu estava jantando com os donos Eileen e Roger Berwick e um casal de ingleses que também estava hospedado lá quando o inglês, que tinha trabalhado por muito tempo na Índia, começou a contar sobre as propinas que teve de pagar à polícia indiana em várias ocasiões. Eu contei algumas histórias parecidas do México e da República Dominicana. O Roger, um conselheiro de saúde mental aposentado, que agora cria vacas e ovelhas numas terras lindas ao lado do mar, nos olhou incrédulo, como se fosse impossível imaginar um policial corrupto.

Roger Berwick, à esq., dono (com a esposa) da pousada Berwicks Hill, quase não acreditou as histórias da corrupção na polícia de outros paises que a gente contou durante o jantar

Então, para quem procura uma terra sossegada, segura e linda para tirar umas férias, seria difícil pensar em melhor escolha do que a Nova Zelândia. Mas não sei como seria mudar para Nova Zelândia. Mais seguro, mais tranquilo, mais lindo, com certeza. Mas talvez mais chato também. No mínimo, seria necessário ter de se acostumar a rir menos, dançar menos, e comer menos arroz e feijão do que no Brasil. Nenhum país é perfeito, e imagino que a grande maioria dos brasileiros, se fossem viver na Nova Zelândia, mudariam de volta dentro de alguns anos. As ovelhas brasileiras, porém, passariam o resto dos seus dias muito felizes.

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  1. Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia
Autor: Seth Kugel Tags: ,

quinta-feira, 22 de março de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:57

Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia

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Forgotten-World-Highway-Nova-Zelândia

Uma ponte típica - com ovelhas atrás, algo ainda mais típico - da Estrada do Mundo Esquecido

O nome parece mentira, ou no mínimo uma atração da Disney: A Estrada do Mundo Esquecido. Mas assim se chama a Rota 43 da Nova Zelândia, 151 quilômetros de caminho extremamente sinuoso e bem verde, passando por povoados com nomes tipo Kohuratahi e Whagamomomona, e com muitas vezes mais ovelhas e vacas do que gente. E apesar do nome ser, para mim, irresistível, tem muito poucos turistas. É um mundo esquecido mesmo.

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A Nova Zelândia se divide em duas ilhas principais, a do Norte e a do Sul, e estava fazendo uma viagem pela Ilha do Norte em “campervan”, um furgão compacto dentro do qual – nem sei como – tem uma minicozinha com fogão e geladeira e uma cama inesperadamente confortável para duas pessoas. É uma forma de viajar muito comum naquele país, e muito econômica: eu paguei 64 dólares nova-zelandeses por dia, o equivalente de R$ 98.

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

Comecei na neblina das 8h em Tamarunui, onde peguei um mapa das atrações da estrada no i-SITE (o centro de informações turísticas). Fácil, pensei. Ia percorrer os 151 quilômetros em três ou quatro horas e chegar ao Parque Nacional Mount Egmont, que estava no fim das estrada, para fazer uma trilha de três horas, à tarde.

Mas com cinco minutos de estrada soube que não ia dar tempo para a trilha. Após cada curva, um cenário mais lindo, mais verde, mas pitoresco. E quem sabia que as ovelhas eram tão fotogênicas?  Ovelhas na neblina! Ovelhas no morro! Ovelhas do lado de lá de um rio!

Há décadas sou um fotógrafo chato – é só perguntar para meu irmão como era esperar enquanto eu escrevia os detalhes de cada foto que tirava quando tinha 12 anos.  Mas virei mais chato ainda com essas ovelhas, parando o campervan a cada três minutos. (Sorte que estava sozinho) Até comecei a experimentar como fazer as ovelhas olharem para a máquina. Testei várias formas de atrair sua atenção – apitos, tosses etc. Ao final, o que funcionou foi um beijo. Clarificando – o som de um beijo. E posavam mesmo.

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Os animais não eram as únicas razões para parar.  Tinham prédios tão velhos que pareciam abandonados, mas em condições suficientemente boas para me deixar em dúvida. No “Te Whakarae Community Hall”, um prédio cinzento, que pelo nome deve ter sido (ou ainda era) uma sala de reuniões para a comunidade, fiquei com tanta curiosidade que tentei entrar pela porta. Fechada. Droga.

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Depois de quase 40 quilômetros de estrada, uma decisão: fazer um desvio de dez quilômetros até Ohura, um povoado que, segundo o mapa, tinha um pequeno museu. Fica longe? Talvez seja muito chato. Mas se eu não for e o lugar for muito legal?  Ah, que saco, vamos lá. (É, eu falo assim comigo quando viajo sozinho)

Ohura é um povoado muito sossegado. Ou melhor, MUIIITTO. Na rua principal tinha lojas de dois tipos: fechadas e abandonadas. E era meio-dia de uma sexta-feira. O museu também estava fechado, e um papel na porta indicava para ligar para Charley ou procurar ajuda na loja da esquina. Claro que não tinha sinal no celular e a loja da esquina estava fechada (já há muitos anos, descobri depois). Mas era só perguntar para a primeira pessoa que aparecesse onde morava Charley.

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O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

Ir para a casa dele – a só um quarteirão do museu – me lembrava muito o sistema existente nas cidades do interior no Brasil.  A chave da igreja histórica sempre fica com uma senhora que mora perto. Chegando à casa, foi a esposa Janet que abriu a porta. Ela era maori, descendente do povo indígena da Nova Zelândia, agora uma minoria importante da população. (Bom, nem tão indígena, só chegaram no século 13, mas mais indígena do que os europeus que chegaram no século 17)

“Quer um café?”, ela me perguntou.

Então, resumindo: não ia ter trilha à tarde. Quem me conhece sabe que nunca vou recusar um convite para cafés.

“Café instantâneo”, disse Charley, aparecendo na cozinha para contradizer a esposa, algo que ele faria (e ela também) várias vezes nos próximos minutos, mas de forma legal. O Charley era um senhor de barba branca, tinha uns 75 anos e estava apaixonado por bicicletas. Tanto que, incluído no tour do museu (ou seja, inevitável antes de escapar da casa dele), estavaum tour na oficina onde ele fazia bicicletas para os netos.

Charley e Janet se mudaram para Ohura há poucos anos; antes moravam na cidade de Hamilton, onde ele era motorista de ônibus. Agora ele cuida do museu e Janet faz parte de vários comitês na cidade, inclusive o do Cosmopolitan Club, um clube social cujo nome parece absurdo numa cidadezinha no meio do nada, onde quase não mora ninguém.

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Por fim, fomos para o museu, e juro que é um dos museus mais interessantes que já vi na vida. Claro que ajudou ter um guia pessoal (o Charley) para me mostrar os objetos, quase todos doados por alguém (ou alguma empresa) da cidade: telefones velhos, máquinas velhas da agência de Correios que fechou há décadas, uma cabana de madeira, livros amarelados com dicas antiquadas para mães sobre como cuidar de bebês, e uma coleção fascinantes de máquinas agrícolas que parecem impossivelmente antigas. Um mundo esquecido mesmo.

Charley e Janet Hedges em Ohura

Charley e Janet Hedges em Ohura

De volta à estrada, não parava de ver coisas curiosas.  Enxerguei o que pareciam caixas de arquivos umas em cima das outras, no meio do pasto. Chegando mais perto, descobri que dentro havia colmeias onde abelhas produziam mel. E, alguns quilômetros depois, tive que parar por causa das centenas de ovelhas que bloqueavam a rua enquanto voltavam para casa (depois de um dia difícil comendo pasto em algum campo vizinho, imaginava. Graças aos cachorros que cuidavam delas (e os humanos que cuidavam dos cachorros), só tive que esperar uns cinco minutos para passar.

A próxima atração era o túmulo de John Morgan, um dos pioneiros da área que morreu em 1895 fazendo um levantamento topográfico, que resultaria na mesma estrada que eu estava percorrendo. Eu prefiro ser cremado, não enterrado, mas se esse fosse o caso, seria legal ficar para sempre em um lugar tão lindo como o de John Morgan, um cantinho tranquilo de floresta ao lado da estrada. (A esposa, que morreu décadas depois, está enterrada com ele)

Já era hora de almoçar, e encontrei o lugar perfeito: um mirante incrível na parte mais alta da estrada, com morros verdes infinitos se estendendo para todos os lados e, para variar, algumas ovelhas também. Na cozinha do campervan, preparei uma salada de espinafre, peras, abacate e brócolis, e comi com biscoitos salgados e queijo cheddar, lá ao sol. (Esqueci de dizer que a neblina tinha sumido horas atrás)

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

E, finalmente, a cidade mais famosa do “mundo esquecido”, Whangamomona. (Para complicar as coisas, o “wh” se pronuncia como “f” em palavras de origem maori) A cidade – agora composta só por alguns prédios históricos e cento e poucos habitantes – é meio famosa no país por ter declarado sua “independência” em 1989. A causa original era uma disputa política, mas agora virou o cartão de visitas da cidade. A cada dois anos, em janeiro, celebram o “Dia da República” e até elegem um presidente.  Dentro do Whangamomona Hotel (onde se pode ficar por 65 dólares nova-zelandeses ou R$ 100 por pessoa, por noite) é possível ler matérias bem engraçadas sobre a história da República. Por exemplo, o primeiro presidente foi nominado sem ele mesmo ser informado, e o segundo presidente foi um bode. Você já tem uma ideia.

Eu parei lá para tomar um café – um letreiro fora do hotel diz que oferece “o melhor café por milhas”, o que é uma piada, já que a única concorrência é o café instantâneo da Janet. Também é o único lugar onde encontrei outros turistas.

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Ao final, cheguei ao parque nacional lá pelas 18h e decidi fazer uma trilha curtinha para não perder totalmente o parque (era o último dia da viagem). Optei pela Kapuni Loop Track, uma trilha de uma hora que chegava à cachoeira Dawson Falls.

Que decepção.  OK, a trilha era linda, bem-cuidada e sossegada, passando por uma floresta densa com árvores velhas e pitorescas. Mas cadê as ovelhas? Cadê os povoados pequeninhos? Cadê a emoção de não saber o que ia aparecer depois da próxima curva? E a cachoeira? Linda, mas linda dessa forma igual-a-todas-as-outras-cachoeiras-lindas-do-mundo, inclusive muitas que já vi no Brasil. Ou seja, totalmente esquecível. Muito diferente da Estrada do Mundo Esquecido, que não vou esquecer nunca.

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