Europa | Viagens com Seth Kugel - iG - Part 2

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quarta-feira, 20 de julho de 2011 Europa, Ásia | 08:00

Surfando no sofá alheio, em Istambul

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Se você for para Istambul, recomendo que fique na casa do seu amigo turco para não gastar dinheiro em um hotel.

Ah, você não tem um amigo turco em Istambul? Pois arrume um já!

É o que eu fiz pelo CouchSurfing, um site que já é hit mundial entre os mochileiros e qualquer outro viajante que prefira não pagar hospedagem e goste de fazer amizades novas. (Só no Brasil tem quase 81 mil membros).

A Mesquita Azul

A Mesquita Azul, principal ponto turístico de Istambul

Fiquei na casa do Erol Fazlioglu, 39 anos, engenheiro e conhecedor de capitais mundiais. Ele até me preparou café da manhã turco todos os dias: chá, queijo, verduras e pão tostado.

Como funciona o CouchSurfing? Você cria um perfil no site (de graça), e os outros membros podem entrar em contato com você para ver se seu sofá (ou cama extra, ou rede, ou colchão no chão da sala) estará disponível nas datas que precisa. Você pode fazer o mesmo quando viajar.

À primeira vista, parece um milagre: um tipo de Hoteis.com de graça, com disponibilidade em quase todas as cidades do mundo. Mas aprendi nos últimos meses que não é precisamente tão fácil. Nem deve ser.

Mulher de roupa ultraconservadora brinca com crianças em Istambul

Mulher de roupa ultraconservadora brinca com crianças em Istambul

As rejeições são comuns para os principiantes (como eu). Um lugar para dormir pode não custar nada de dinheiro, mas custa tempo e criatividade.

Para vocês evitarem os problemas que eu enfrentei, vou compartilhar minhas duas experiências, na França e na Turquia. (CouchSurfers brasileiros, contem as suas nos comentários!)

Buscar um sofá é como se candidatar ao emprego

Cheguei à França – em Nice – no final de maio, pensando em ficar em albergues por cinco noites. Não tinha feito reserva – erro! – e nenhum albergue (nem hotel barato) da cidade tinha disponibilidade no sábado, 28 de maio, um dia antes do Grand Prix de Mônaco. Eu já tinha um perfil no CouchSurfing, mas nunca tinha usado. Era isso, ou dormir na estação de trem.

Pescadores em Istambul

Pescadores em Istambul

Busquei Couchsurfers na área e escrevi breves pedidos a cinco ou seis deles. Fui rejeitado por todos. Ah, pensei, seria pela data, ou pelo pedido feito meio em cima da hora. Até receber a resposta negativa de um cara chamado de Yves.

Ele me escreveu: “Como verá no meu perfil (o qual você obviamente não leu) seu pedido está longe de atender aos meus pré-requisitos… assim que não é uma surpresa que minha resposta seja negativa.” Yves ainda me disse que teria sido muito legal se eu tivesse ficado na casa dele – um francês que fala português de Portugal conversando com um americano que fala português do Brasil e bebendo caipirinhas.

Que mala, pensei. Mas quando li o perfil do Yves, no qual ele pede que você escreva exatamente por que você acha que se daria bem e se divertiria com ele, eu mudei de ideia: eu fui o mala. Ele foi até legal de me explicar o que eu havia feito de errado. A lição: buscar um sofá pelo CouchSurfing não é como reservar um hotel online, é como se candidatar para um emprego. Você precisa escolher com cuidado a “empresa” para a qual quer “trabalhar”, e mandar uma “carta” mostrando que você seria o candidato ideal para o “posto”.

Abajures à venda no Grand Bazaar em Istambul

Abajures à venda no Grand Bazaar em Istambul

Tentei de novo em Istambul. Já tinha colocado mais detalhes no meu perfil, com mais fotos nos quais aparento ser a pessoa mais simpática e confiável possível.

E escrevi para meus possíveis anfitriões. “Adorei sua foto na bicicleta”, disse para um tal de Soner. Rejeitado. Para um italiano de Nápoles que estava morando em Istambul, narrei com detalhes sobre quanto gostava da cidade natal dele. Rejeitado. Etc, etc. Rejeitado, rejeitado. Droga.

Ter referências sempre ajuda

Percebi mais dois problemas. Primeiro, sou homem, e todo mundo prefere (ou confia mais em) mulheres como hóspedes. Esse problema não ia se resolver sem cirurgia. Segundo, o fato de ser principiante no CouchSurfing significava que no meu perfil não tinha referência nenhuma de membros que tinham me recebido em suas casas, nem dos que tinham ficado na minha.

Meu anfitrião, o Erol, se prepara para comer um sanduíche típico (e barato) de Istambul: peixe e verdura

Meu anfitrião, o Erol, se prepara para comer um sanduíche típico (e barato) de Istambul: peixe e verdura

Consegui resolver esse último problema: fiz uma busca no site para encontrar os membros recém-cadastrados em Istambul. Quem não tem referências não pode pedir referências, pensei. E mandei uma mensagem a Erol, que começou com “Você é novato ao CouchSurfing? Eu também!”

Deu certo! Erol falou que tinha adorado o fato de eu ter aprendido todas as capitais mundiais quando eu era criança (algo que está no meu perfil), pois ele tinha feito a mesma coisa. E não foi só isso, ele começou a me mandar mapas de como chegar à casa dele, e me perguntar o que eu queria fazer em Istambul, que ele estaria livre nos dias que eu ia ficar na cidade.

Beleza. Visitamos mesquitas e galerias de arte, comemos lambacun (um tipo de pizza turca) e até fomos a um banho turco onde te lavam, dão massagem e esfoliam uma quantidade nojenta de células da pele morta. Erol me ensinou a palavra mais útil do idioma, “az,” que significa “quero só um pouquinho de açúcar no meu café turco (esse que parece lama).” E fomos tomar “brejas” na rua de Nevizade, que é lotada de bares. (Erol é de família muçulmana, mas não é praticante – assim que não seguia a proibição de álcool do Islã).

Quando nossa conversa foi atingida por um desses momentos de silêncio constrangedor, nós fizemos um jogo sobre as capitais mundiais. (Sim, ele acertou Brasil-Brasília, minha primeira pergunta, óbvio. Nada de Buenos Aires.)

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Aula de cultura turca

A visita às atrações turísticas, até eu poderia ter feito sozinho. Mas o que fizemos no último dia, não. Erol tinha um amigo que morava na ilha de Buyukada, uma das pequenas “Prince’s Islands” que ficam a uma hora da cidade por barco e servem de escape para os moradores de Istambul durante o verão. São lugares bem charmosos e montanhosos, com casas antigas, vista para o mar e, a melhor parte, nenhum veículo motorizado. Os habitantes e turistas circulam a pé, de bicicleta ou nos “táxis” (que são carruagens a cavalo).

A vista da mesa de jantar em Buyukada

A vista da mesa de jantar em Buyukada

O amigo de Erol nos encontrou no porto e nos levou para fazer compras. Depois subimos e subimos e subimos um morro – até chegar ao apartamento dele, com vista panorâmica das outras ilhas, e vista de perto das famílias de gaivotas que moravam nos tetos das casas vizinhas.

Lá Erol e eu ficamos sentados na varanda, tomando raki (um licor turco com sabor de anis) e conversando, enquanto o amigo preparava um jantar de peixe. Comemos com queijo turco, salada russa, e pão, apreciando o pôr-do-sol. Adoraria dizer que conversamos exclusivamente sobre política, filosofia e arte, mas como somos três homens solteiros (e meio infantis), nosso anfitrião também nos mostrou como ele consegue espantar as gaivotas nos tetos vizinhos com um apontador a laser (desses que usam para apresentações). Mas como somos homens sensíveis, não espantamos as gaivotas pais de família, só os solteiros.

Óbvio que conversamos também sobre as mulheres. Expliquei as “regras” de paquerar e namorar nos Estados Unidos e no Brasil, e perguntei como funcionava na Turquia. Decidi tirar minha maior dúvida. “Vocês namorariam uma mulher que usasse véu?”

Café de manhã turco, preparado pelo Erol

Café de manhã turco, preparado pelo Erol

Esperava palavras politicamente corretas tipo “Seria um pouco diferente, mas claro que dependeria da mulher e da situação. Tudo é possível.”

Mas não foi assim que eles responderam. A verdade é que nem responderam, ficaram aturdidos. Se entreolharam. “É que nunca pensei nisso,” falou um deles – nem lembro qual – e o outro concordou. Não era que o fato de uma mulher usar ou não véu fosse irrelevante. Pelo contrário, era tão longe da realidade deles, que ambos nunca tinham pensado na possibilidade de namorar alguém assim. Seria como se eu tivesse perguntado “você namoraria uma mulher com quatro olhos?”

Existem muitas coisas sobre a sociedade turca que um estrangeiro como eu não consegue entender numa só visita ao país, nem em dez. Mas foi um bom começo descobrir esse abismo que existe entre os turcos religiosos conservadores e os turcos agnósticos liberais, como Erol e seu amigo.

Uma revelação que devo 100% ao CouchSurfing, com um agradecimento especial para o seu membro mais cara-de-pau, o Yves.


- Leia também: Seth erros para evitar no CouchSurfing…  e em Istambul

Notas relacionadas:

  1. O lado multicultural de Londres
  2. Minha viagem incrível para Sanliurfa (sem chegar a Sanliurfa)
Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

quarta-feira, 13 de julho de 2011 Europa, Ásia | 07:45

Minha viagem incrível para Sanliurfa (sem chegar a Sanliurfa)

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Depois de três dias apurando uma matéria sobre pistaches em Gaziantep (cidade turca famosa pelo produto), decidi que seria uma pena estar no Sudeste da Turquia sem visitar a cidade histórica de Sanliurfa, com seu bazar famoso, seu centro antigo e a caverna onde supostamente nasceu o profeta Abraão. No caminho, passaria por uma zona rural cheia de pés de pistaches, perfeita para tirar algumas fotos para a reportagem.

Então, na sexta-feira passada, parti para Sanliurfa de manhã. Mas nunca cheguei ao meu destino.

Meu Peugeot alugado faz pose ao lado do pomar de pistache

Meu Peugeot alugado faz pose ao lado do pomar de pistache

É que tenho um vício. Me bota num carro de aluguel e me dá um mapa que mostra estradas rurais pequenas e tortuosas que passam por povoados com nomes exóticos marcados com pontinhos pretos – de jeito nenhum que vou seguir pela estrada principal.

Foi assim que minha viagem pela estrada moderna de 145 quilômetros entre Gaziantep e Sanliurfa acabou, depois de 50 quilômetros, na cidadezinha de Dutlu, onde peguei uma estrada velha e empoeirada que ia até lugares chamados Baglica, Guzelkoy e Gulkaya. Até havia uma placa indicando que a estrada era ruim. Perfeito.

- Leia mais dicas de viagens no iG Turismo

Não sei o que acontece comigo, mas quando saio de uma estrada moderna, anônima e lotada de caminhões e entro numa estrada estreita, ruim e praticamente vazia me sinto liberado. Cinquenta metros depois de sair da estrada principal, duas crianças de bicicleta passaram por mim. Bom sinal. Nos dois lados, pés de pistaches, perfeitos para fotos. E em pouco tempo, cheguei ao primeiro pontinho preto do mapa, Baglica.

Impossível não virar à direita

Impossível não virar à direita

Gostaria que Baglica fosse um vilarejo pitoresco, com casas tradicionais e alguns homens com cabelos brancos tomando chá num café que existisse desde o século 17. Não foi bem esse o caso. Baglica era um lugar feio, com casas de cimento e maquinário agrícola enferrujado. Tudo bem. O mundo não produz cenários fotogênicos sempre. O importante, pensei, era conhecer as pessoas que moram nesse lugar. Só que não tinha ninguém na rua, e nenhuma loja ou café para bater papo com o dono.

A segunda cidade, Guzelkoy, era igualmente feia, mas pelo menos havia uma pessoa viva na rua. Saí do carro para tirar fotos do lugar e ele me lançou um olhar esquisito. Sorri, falei um “oi” e tentei usar minhas poucas palavras em turco (“turist”, “fotograf makina”, “Amerikan”) para me comunicar. Ele não respondeu, mas anotou o número da placa do carro num bloco como se eu fosse um espião. Tchau.

Difícil acreditar que, num país onde não tem guerra nem guerrilha, nem muito crime, todos os residentes de uma zona rural sejam tão antipáticos. Imaginei que, por azar, tinha encontrado a pessoa mais mal-humorada da região e decidi seguir em frente.

E minha sorte mudou no pontinho preto seguinte do mapa, Intepe. É uma cidadezinha um pouquinho maior (500 habitantes!) e um pouquinho menos feia (mas não muito!). Saí do carro para tirar fotos de um bando de gansos – não porque eu gosto de gansos, mas porque eu queria sair do carro. Alguns segundos depois, um senhor de cabelos brancos chegou e me virei para cumprimentá-lo.

A cidadezinha de Intepe

A cidadezinha de Intepe

“Olá!”, falei em inglês, mostrando um sorriso largo. “Não falo turco! Turista! Fotografia! Pistaches!”

E começou uma dessas conversas que era ele falar turco com sinais e eu falar inglês com sinais e ninguém entender as palavras, mas os dois entenderem o sentido. Tradução:

“O que você faz aqui? Em Intepe?”

“É que estava indo a Sanliurfa e vi no mapa essas cidades e queria ver e tirar fotos.”

“Entendo! Está com fome? Quer visitar minha casa?”

Hmmm, deixa eu pensar. Visitar a casa de uma família muçulmana na Turquia rural? Ver onde, como e com quem eles vivem? Compartilhar uma refeição com eles? Fazer novas amizades?

0,000000001 segundo depois, respondi: “Claro que quero!” (A pessoa que, no meu lugar, respondesse “não” está proibida de ler minha coluna para sempre.)

Perihan serve meu almoço. Também na foto, Nuveram e o neto Abdullah

Perihan serve meu almoço. Também na foto, Nuveram e o neto Abdullah

Nuveram Danaoglu (o nome do meu novo amigo turco) e eu passamos por seu jardim bem cuidado, com pés de romãs e videiras e uma rede para descansar. Em seguida, entramos em uma dessas salas que você sempre vê nos filmes e noticiários sobre o mundo muçulmano: sem móveis, com tapetes no chão e almofadas nas paredes. Foi assim que descobri que dentro de uma cidade feia estava escondida uma casa linda.

Conversamos sobre a comida turca (contei tudo o que tinha comido – praticamente as únicas palavras em turco que sabia falar) e falamos das cidades no meu mapa. Pouco a pouco, chegaram outros membros da família Danaoglu – a mulher dele, Perihan, com véu e roupa tradicional, e filhos e netos em roupa ocidental, que começaram a fazer as perguntas que todos os turcos aprendem no primeiro dia da aula de inglês.

“Qual é seu nome”

“De onde você é?”

“Que idade você tem?”

Música de baglama, um instrumento tradicional turco

Música de baglama, um instrumento tradicional turco

Só faltava “The book is on the table”, mas acho que na Turquia não aprendem isso porque em casas tradicionais, como a do Nuveram, não tem mesa.

Depois, “conversamos” sobre outros assuntos internacionais: futebol, por exemplo. Eles disseram o nome de alguns jogadores (Messi, Ronaldinho), eu dei minha opinião (e ensinei como pronunciar “Ronaldinho” em português). Também mostrei as fotos que tinha tirado em Gaziantep.

O Abdullah, 12 anos, até falou um pouco de inglês mesmo e uma menina que se chamava Nur, 11, foi procurar seu caderno escolar de inglês, que eles usaram como dicionário. Alguns dos adultos me filmaram com celulares. Eu, claro, tirei muitas fotos.

Gringo Come Comida Turca

A família ficava mais simpática a cada minuto. Um dos meninos só falava duas coisas em inglês: “Perfect!” (“Perfeito”) e “I love you”. Mas ele usou as duas expressões de forma muito criativa. Tipo, “Intepe, perfect?”. “Evet, evet!”, respondi, “sim” em turco. E depois, apontando para mim, perguntou “Turkey I love you?”. “Evet, evet,” respondi. E ele: “America I love you. Seth I love you.”

O show começa: americano come, turcos observam

O show começa: americano come, turcos observam

E chegou o momento esperado: a comida. Um prato cheio de arroz em estilo turco, frango grelhado e pão muito fino que servia como talher. Uma salada de tomates e pepinos. E dois pratos de pimentas verdes (apimentadas, como todas as pimentas da região). Fiz um sinal do tipo: “vamos comer todos!” Só que todos os outros indicaram que já tinham comido. Era tudo para mim.

O show começou. Ao vivo, de Intepe: Gringo Come Comida Turca. Vai gostar? Vai conseguir comer tudo? Tentei ser muito cortês, pausando cada minuto para dizer para a Perihan que toda comida era muito gostosa (e era). Também fiz uma piada, falando “Turquia, frango, salada, pistaches, eu…” e apontando para minha barriga que estava crescendo rápido. Todos riram. (Acho que o turista que não fala o idioma local e consegue fazer até a pior piada ganha risos automáticos pelo seu esforço.)

Depois, eles me levaram para a casa vizinha, onde morava o lado musical da família. Nos sentamos no tapete da sala, de novo, e o pai (filho do Nuveram e Perihan, pelo que entendi) começou a tocar o baglama, um tipo de violão turco. Os filhos dele, Haluc e Nur, também tocavam e cantavam. Fique emocionado pensando na sorte que tive de participar de um algo tão especial, tão longe do meu país.

Tour pela "cidade"

Tour pela "cidade"

Depois um grupo de meninos me levou para caminhar pela cidade e pelos pomares. Foi legal, mas o sol estava bem forte e, segundo eles, havia perigo de cobras. Fiquei feliz quando voltamos.

Já era quase 18h quando parti de Intepe. Recebi vários abraços fortes, alguns beijos no rosto (dos meninos), e vários “I love you”s, claro. Das meninas e mulheres, só um “prazer” e um tchau com a mão. Fiquei pensando como teria sido se eu fosse mulher. Teriam me convidado para a casa? Teria conseguido falar mais com as mulheres? Ou menos? E se tivesse chegado como parte de um casal? Teria sido diferente? Obviamente, tinha muito para aprender sobre a sociedade turca.

Mas apesar das perguntas sem respostas, saí de Intepe pensando em quão incrível havia sido minha experiência, algo que vou lembrar por muitos anos e que vou contar para muitas pessoas. Qual foi a melhor parte? Tenho quase certeza de que o Nuveram, a Perihan, os filhos e os netos também vão lembrar por muitos anos, e contar para muitas pessoas, do turista que chegou ao seu pontinho preto no mapa e passou a tarde com eles.

Quanto à cidade de Sanliurfa? Deve ser maravilhosa, e algum dia espero chegar lá.

Continue lendo:

Seth erros para não fazer se você quiser conhecer a cultura local


Autor: Seth Kugel Tags: , ,

terça-feira, 5 de julho de 2011 Estados Unidos, Europa | 20:00

Não há desculpa para não viajar

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Existem muitas desculpas para as pessoas que têm medo de viajar. Aceito somente três, e só na forma temporária:

1) Não tenho dinheiro (agora).
2) O consulado não me deu visto (desta vez).
3) Meus filhos são muito pequenos (ainda).

Ah, ok, “estou na cadeia” também funciona. Difícil mesmo viajar. Mas qualquer outra desculpa – sou velho demais, tenho dieta restringida, nunca fiz antes, tenho medo etc, nem me fale.

Meus pais em lua-de-mel em Antígua

Meus pais em lua-de-mel em Antígua

A contraprova, para mim, são meus pais, Peter e Judy Kugel, que me levaram nas minhas primeiras viagens quando eu era criança – e eles ainda podiam fazer tudo. E agora que estão mais maduros (81 anos e 73 anos, respectivamente) e têm vários problemas de saúde (meu pai, por exemplo, tem mal de Parkinson, e minha mãe não pode ingerir nem um miligrama de glúten sem que isso cause complicações)? Ainda fazem quase tudo.

Não acredita? É só ver as fotos deles o ano passado comigo na Nicarágua: meu pai ajudando a empurrar o carro que ficou atolado na lama em uma Zona Rural sem sinal de celular para pedir ajuda, ou minha mãe comendo “quesillos” nicaraguenses numa barraca simples que ficava em uma estrada rural. Eles podem e você não? Credo.

Na semana passada, escrevi sobre nossa viagem recente à Croácia. Fiquei impressionado (mais uma vez) com a flexibilidade e habilidade dos dois como viajantes e decidi fazer uma entrevista com eles por telefone da Turquia, onde estou agora. A ideia original era entrevistar minha mãe primeiro, e depois meu pai. Só que minha mãe ficou na linha durante a segunda entrevista e não resistiu: teve de interromper meu pai. Para variar.

Primeira viagem de verão em família, em Wyoming, EUA (nem sei quem é o cara no lado direito)

Primeira viagem de verão em família, em Wyoming, EUA (nem sei quem é o cara no lado direito)

Seth Kugel: Mãe, você pode explicar sua doença?
Judy Kugel:
Faz muuuuito tempo que estou viajando, mas há 11 anos fui diagnosticada com a doença celíaca, o que significa que não posso comer nada com glúten. E muitas coisas contêm glúten: pão, por exemplo, assim como qualquer receita feita com farinha de trigo, centeio, cevada ou aveia. [Uma observação: Faz mais de uma década que minha mãe não toma uma cerveja. Tadinha.
Seth Kugel:
Por isso, em Cambridge [cidade dos Estados Unidos onde moram], vocês quase nunca comem em restaurantes. Na viagem, isso é impossível de evitar. Como isso te afeta?
Judy Kugel: Nunca vou parar de viajar, mas é verdade que tudo fica mais complicado. Você chega a um restaurante e no primeiro momento eles trazem à mesa um pão maravilhoso com azeite de oliva fino. Aí você fica pensando: “Tô morrendo de fome e não posso comer nada ainda.” Mas isso não é razão para não viajar. Às vezes é só um ajuste – adoro sorvete, mas não posso pedir uma casquinha. Às vezes é mais difícil. Quando estou na França, é extremamente difícil não comer um croissant.

Seth Kugel: Precisa levar comida com você?
Judy Kugel: Sempre viajo com alguma proteína e algo que contém ferro, normalmente um pacote grande de amendoim com uvas passas. Quando volto para casa nem posso olhar um amendoim por um mês. Mas na viagem isso me sustenta.

Família em viagem pela Croácia

Família em viagem pela Croácia

Seth Kugel: E o idioma? Como explica para os garçons uma situação tão perigosa se eles não falam o mesmo idioma que você?
Judy Kugel: Existem cartões na internet que explicam a doença em muitos idiomas. Quando visito um país, sempre imprimo o cartão do no idioma local. Mas acontece que em alguns países é até mais fácil para um celíaco comer que nos Estados Unidos. Em muitos países da América Latina o milho é a matéria-prima para cozinhar, e isso eu posso comer. Quando te visitamos no Brasil, adorei aquele pão impossível de pronunciar [pão de queijo] feito com farinha de mandioca. Agora encontramos um mercado brasileiro perto da casa que vende esse pão congelado e fazemos em casa.

Seth Kugel: Em algum momento a doença interfere na escolha dos destinos?
Judy Kugel: Eu não desconsidero nenhum país, mas é verdade que quase sempre que viajo perco peso porque não corro riscos. Existe um clube de viagens para celíacos, mas nunca pensei em viajar com eles. A verdade é que nunca deixaria de viajar por isso porque as viagens enriquecem minha vida mais que qualquer outra coisa.

Seth Kugel: Qualquer outra coisa?
Judy Kugel: Exceto meus filhos.

A família Kugel em Zimbabue

A família Kugel em Zimbábue

Seth Kugel: Boa resposta. Pai, eu acho que apesar do mal de Parkinson e das outras doenças que você tem, você está melhor do que a maioria dos homens de 81 anos. Mas, ainda assim, isso deve causar problemas na hora de viajar, né?
Peter Kugel: Sim. Devido à apneia de sono preciso viajar com uma máquina que se chama CPAP. É um incômodo porque é difícil passar pela segurança no aeroporto. Quando fomos para Cuba, me pararam na alfândega e fui o último do grupo a sair. Quase perdi o ônibus porque nunca tinham visto aquele aparelho. Além disso, em qualquer quarto de hotel sempre preciso de uma tomada ao lado da cama. Em casa eu sempre durmo do lado direito da cama; e na viagem às vezes preciso trocar de lugar com sua mãe. Mas são só pequenos obstáculos.

Seth Kugel: E o mal de Parkinson?
Peter Kugel:
Afeta muito minha mobilidade. Antes sua mãe e eu sempre andávamos de 30 km a 40 km de bicicleta por dia. Agora não podemos mais. Eu sempre era o mais forte do grupo e, de um dia para outro, deixei de ser.
Judy Kugel:
Aos 77 anos ainda era. Aos 78 não.
Peter Kugel:
Na Croácia, tive problemas no caminho para uma caverna por causa das pequenas pedras soltas. E para chegar a uma das casas onde ficamos, em Dubrovnik, era preciso subir muitas escadas. Isso foi difícil.
Judy Kugel:
Seu pai está exagerando. Ele lida muito bem com as situações e acho que nunca desistiríamos de uma viagem por causa de sua incapacidade.
Peter Kugel: É verdade, nenhum problema me impede de fazer algo. Só fica um pouco mais difícil.

Meus pais e meu irmão em Bariloche

Meus pais e meu irmão em Bariloche

Seth Kugel: E sua companheira da viagem?
Peter Kugel: Ajuda muito. Nos damos muito bem, mas nós discutimos às vezes por bobagens (ou pequenas coisas), segundo meus filhos.

Seth Kugel: Então, muita coisa mudou nas suas viagens por causa de doenças ou idade?
Judy Kugel:
Em geral, não. Viajamos muito bem, e acho que nosso estilo não mudou muito.
Peter Kugel:
Algum dia, nem sei quando, vamos ter que começar a viajar em cruzeiros ou outras alternativas, onde cuidam mais de você.
Judy Kugel: Mas não somos o tipo de viajante que gosta de ficar no ônibus com um monte de velhinhos, porque não nos consideramos velhos. Adoramos as pessoas jovens e achamos que nos damos bem com eles.

Meus durante a última viagem feita à Croácia

Meus pais durante a última viagem feita à Croácia

Seth Kugel: Mas em algum momento vocês ficam preocupados por estar longe dos seus médicos se acontecer algo?
Peter Kugel:
Quando viajamos com você para a Nicarágua, poderíamos ter contratado um seguro de saúde que incluía o transporte por helicóptero se algo acontecesse conosco. Mas não fizemos isso. Hoje em dia os serviços médicos do mundo todo estão melhores que nunca e sempre podemos ligar para nossos médicos nos Estados Unidos.
Judy Kugel: Tudo que você faz na vida envolve algum risco. Se tivéssemos medo de viajar e ficássemos em casa, sem dúvida alguma, o telhado cairia sobre nós.


- Não deixe de ler:  Seth erros de quem vive arrumando desculpa para não viajar

Autor: Seth Kugel Tags: ,

terça-feira, 28 de junho de 2011 Europa | 17:41

Seth erros para não cometer na Croácia

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1) Ir para a Croácia e ficar num hotel. É fácil encontrar quartos ou apartamentos no Google, e seria uma pena perder a oportunidade de conhecer uma família croata.

2) Esquecer as palavras mais importantes em croata: “sobe” (“quartos”) e “apartmani” (“apartamentos”). Basta colocar no Google junto com a cidade ou ilha da Croácia que quer visitar e voilà.

3) Ficar dias demais em Dubrovnik, até mesmo na casa do Tony. A cidade antiga é bela, mas as ilhas são as melhores atrações do país.

4) Visitar a ilha de Mljet num dia só. A visita-padrão ao Parque Nacional é maravilhosa e é possível voltar a Dubrovnik no mesmo dia, mas vale a pena ficar a noite.

5) Entrar em pânico se você não fez reserva para um apartamento. Quase sempre é possível encontrar um lugar para ficar na hora ao chegar a uma nova ilha ou cidade.

6) Recusar um convite do anfitrião. Ir para a praia com Tony e Luka foi muito mais divertido do que ver qualquer museu, por exemplo.

7) Procurar anfitriões só nas cidades principais das ilhas croatas. Até os menores vilarejos têm famílias que alugam “sobe” ou “apartmani” e sempre se oferecem para te pegar no porto onde o barco aporta. Recomendo a vila de Racisce, na ilha de Korcula.

- Veja mais notícias de turismo no iG Turismo

Autor: Seth Kugel Tags:

Europa | 16:24

Na Croácia, aproveite a hospitalidade natural

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Tony (de regata verde) leva eu e meus pais para a praia

Tony (de regata verde) nos leva para a praia

“Luka…Luka!!!!” gritou nosso anfitrião Tony, exasperado (mas nem tanto) com o filho de 10 anos, que devia ter feito alguma travessura que não percebi. Tony virou para nós e falou: “É um menino hiperativo. Tem problemas na escola. Estamos preocupados.”

Foi um detalhe íntimo da boca de alguém que meus pais e eu, viajando juntos na Croácia, tínhamos conhecido há bem pouco tempo. Havíamos passado só algumas horas com Tony e sua família desde que tínhamos deixado as malas no apartamento que alugamos, que ficava ao lado da casa dele. Mas durante essas horas, Tony fez todo o possível para que nós nos sentíssemos em casa: nos ofereceu um trago de conhaque de cereja feito em casa, nos convidou para a praia de Dubrovnik com o Luka e um amiguinho dele, e agora, estava nos contando intimidades da família.

Pouco depois, o Luka, um menino de cabelo castanho claro e sorriso doce, saiu da água e falou algo em croata para o pai. Tony lhe deu umas moedas. “Esse menino não vai crescer. Só quer sorvete. Há uma hora tomou sorvete em casa. Agora, na praia, quer mais sorvete.”

Meus pais no elegante restaurante Kasar, perto de Dubrovnik. (Tony nos deu carona, claro.)

Meus pais no elegante restaurante Kasar, perto de Dubrovnik. (Tony nos deu carona, claro)

“Acabamos de aprender que as crianças do mundo inteiro são iguais”, disse minha mãe. Quando visito um país ou uma cidade nova, sempre tento fazer amizades locais, mas nem sempre isso acontece. A realidade é que todo mundo tem uma vida, e poucos têm tempo para passar com os turistas.

Mas a Croácia é diferente. Qualquer pessoa pode reservar uns dias na casa do Tony (pelo site dele ou pelo Hostels Club) ou em outros milhares de quartos ou apartamentos adjacentes às casas croatas. É só fazer uma busca no Google. É claro que nem todos os anfitriões são tão amáveis e abertos como Tony. E que nem todos os turistas querem ir para uma praia meio sem graça, numa cidade famosa pelo seu centro histórico murado e pelos seus museus, mas, definitivamente, não pelas suas praias medíocres.

A Croácia também tem hotéis tradicionais. Mas os quartos de hotel são minoria. Incrível mas certo: em 2009, segundo o governo croata, havia 149.823 quartos disponíveis para turistas em casas e só 55.702 em hotéis. Ou seja, a Croácia tem criado, talvez sem querer, um sistema nacional para fomentar o contato entre turistas e cidadãos locais.

Nas ilhas croatas, até o ceu é mais lindo

Parabéns aos croatas e seria bom que todos os países fossem assim. E não é como se a Croácia precisasse de mais uma atração: sua costa no Mar Adriático tem dezenas de ilhas para visitar – uma mais linda que a outra – e também cidades antigas, parques nacionais preciosos e uma história fascinante. Isso sem falar do peixe fresco.

A demanda mundial para experiências além dos hotéis está crescendo. Já existem muitos esforços em diversos países para proporcionar experiências mais íntimas que não são possíveis em hotéis tradicionais. Há os “bed & breakfast” (no Brasil, os poucos se chamam “cama e café”) – e agora há sites como o AirBnB, que tenta criar um sistema mundial mais ou menos como o sistema croata.

Arte de receber bem

Um lago no Parque Nacional Mljet, na ilha de Mljet

Um lago no Parque Nacional Mljet, na ilha de Mljet

Mas os croatas têm algo especial: são anfitriões naturais. Depois do sucesso com Tony, procuramos casas nos nossos outros dois destinos. Em Mljet, ilha preciosa de pinheiros, montanhas, lagos tranquilos e um pouco mais de mil habitantes, ficamos em um apartamento da família Strazicic.

Nosso apartamento era em outro prédio, mas incluía o direito de usar o pátio da casa deles, que ficava ao lado do porto no vilarejo de Polace. O pátio tinha flores de todas cores, em todos lados, que deixavam as borboletas – e os humanos – felizes da vida.

Ane, nossa anfitriã, nos fez um jantar de peixe fresco por aproximadamente R$ 30 por pessoa, servido numa mesa entre as flores e perto do mar. Também conhecemos suas duas filhas, uma adolescente que falava bem o inglês e uma menina de talvez oito anos que se chamava Karla e só falava “good morning” (mas com empenho).

O pátio florido do Andro e da Ane, em Mljet

O pátio florido do Andro e da Ane, em Mljet

Na ilha de Korcula, nossos anfitriões foram Maria e Zeljko Segedin, que por 60 euros (R$ 136) por noite nos ofereceram um apartamento grande de dois quartos, com cozinha, sala e um balcão com vista para o Estreito de Peljesac, com águas límpidas e montanhas estonteantes. Passeamos pela cidade antiga (onde os moradores – e alguns historiadores – dizem que nasceu Marco Polo) e visitamos Racisce, um vilarejo de pescadores que gostamos até mais do que a cidade antiga.

Mas nosso lugar favorito foi o Gera, um restaurante (e pousada) rural cuja dona é a irmã do Zeljko e produz seus próprios queijo, azeite de oliva, pão, vinho e muito mais. Como chegar? Nem sei – o cunhado do Zeljko nos pegou em casa e nos levou até lá. Teríamos gostado do lugar de todo jeito, mas com a conexão pessoal (e a carona) foi impossível não adorar.

Meus pais adoraram a Maria e um dia ficaram conversando muito tempo com ela. E ficaram escutando a história romântica de como ela tinha conhecido o marido, um pescador que foi trabalhar perto da ilha de Lastovo onde ela foi criada. Maria também deixou minha mãe carregar o bebê dela.

O porto de Prozurska Luka, em Mljet

O porto de Prozurska Luka, em Mljet

Quer ficar com a família Segedin? Pode, deve, mas nem tente reservar os apês dela em agosto. Há uma família italiana que adora o lugar e ocupa todos os espaços durante o mês inteiro. Até pagam um extra para o Zeljko ir pescar todas as manhãs e Maria cozinhar os peixes à noite.

Mas vou me lembrar mesmo é do Tony e do Luka. Tony não falava muito bem o inglês, mas é uma dessas pessoas que quer tanto se expressar que a falta de vocabulário não é obstáculo. Aprendemos muito sobre o emprego dele – ele trabalha numa padaria comercial a 200 metros da onde exerce o cargo de “commercial man” (“homem-comércio”) uma frase que não significa nada em inglês (nem em português, acho). Mas acho que ele trabalha com vendas, porque nos contou todos os detalhes de como os chefes tinham perdido o maior cliente da empresa e ele tinha que ir falar com o cliente e salvar o dia. Mas o Luka era o assunto número um e nem sei contar quantas vezes ele repreendeu o filho com um “Luka…Luka!!!!”

Hotel, para quê?

A cidade antiga de Korcula, 20 minutos (a pé) da casa dos Segedin

A cidade antiga de Korcula, 20 minutos (a pé) da casa dos Segedin

É verdade que as casas nem sempre são tão perfeitas quanto os hotéis. Na casa da Maria e do Zeljko, sofremos uma invasão de formiguinhas. Claro que meu pai nem percebeu, mas minha mãe encontrou os insetos até nas malas. E na manhã em que percebemos que não tinha água quente no apartamento que alugamos da família Strazicic, informamos a filha adolescente sobre o problema – porque os pais não estavam em casa – e saímos para passear.

É claro que a filha se esqueceu de contar para a mãe e chegamos mais tarde para encontrar água gelada no chuveiro. (E a solução era tão fácil, só ligar um interruptor.) Mas fazer o quê? Se surpreender porque uma adolescente fez algo irresponsável, para variar?

Quando acabou a semana, comecei a pensar na existência dos hotéis. Para mim, as revistas de viagens gastam palavras demais falando deles, avaliando as camas, os móveis, o serviço de quarto, a arquitetura. Acho que os hotéis, em grande parte, são ambientes falsos onde devemos ficar só para dormir e sair logo para conhecer a cidade ou estado, ou país, ou ilha, ou parque nacional para onde viajamos. E nem me fale dos resorts tudo incluso.

A Croácia é bonita demais para esquecer. Mas as lembranças que vão durar mais, acho, são a minha mãe carregando o bebê da Maria no pátio com vista para o mar e as montanhas; o “good morning” da Karla; o jantar de peixe preparado pela mãe dela; e claro, o “homem-comércio” que se chamava Tony e o filho dele que sempre queria sorvete e se chamava Luka. Quer dizer, Luka!!!!

Não deixe de ler: Seth erros para não cometer na Croácia

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quarta-feira, 22 de junho de 2011 Europa, Seth Erros | 10:30

Sete erros para as atrações imperdíveis

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1) Seguir só a rota das atrações “imperdíveis”.

2) Tentar ir a muitos lugares imperdíveis em pouco tempo. Porque o Louvre, em Paris, realmente é imperdível. Mas se só visitou o museu por 30 minutos, o perdeu.

3) Ir para um lugar só para dizer: “Estive lá”. Viagens são para você, não para contar para os demais. (A verdade: os demais nem querem saber.)

4) No caso de Pompeia e Herculano, pagar o preço inteiro. Compre um ArteCard.

5) Tentar visitar Pompeia e Herculano num dia só. Escolha um e se quiser suba no vulcão Vesúvio também.

6) Ficar mudo quando seus filhos chegam da escola te contando de Pompeia. Mencione Herculano também!

7) Contar com mapas, panfletos e guias em áudio sempre. Boa ideia: imprimir informação detalhada dos lugares “imperdíveis” antes de visitar, sobretudo se você não fala o idioma do país onde se encontra.

Notas relacionadas:

  1. O lado multicultural de Londres
  2. Sete erros para não cometer quando comer uma pizza na viagem
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Europa | 10:21

Lugares imperdíveis. E quando se pode perder

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As estátuas das pessoas no momento da morte é uma grande atração de Pompeia

As estátuas das pessoas no momento da morte é uma grande atração de Pompeia

Eu tinha apenas oito anos quando aprendi sobre a cidade de Pompeia, mas ainda me lembro muito bem daquela história macabra: no ano 79 d.C., o vulcão Vesúvio entrou em erupção tão forte que as pessoas não tiveram tempo de fugir e foram queimadas vivas, “petrificadas” no momento de sua morte. A cidade ficou preservada sobre metros de lava até ser redescoberta séculos depois. É o tipo de aula que um menino impressionável não esquece nunca.

Também me lembro muito bem do momento em que ouvi falar de Herculano, outra cidade da mesma região italiana que também sumiu com a erupção de Vesúvio e foi preservada da mesma forma. Só que essa memória é mais recente: foi em maio de 2011, quando um colega que tinha visitado o lugar com sua família me avisou que Herculano é melhor preservada, menos visitada e igualmente impressionante.

Herculano é um lugar bacana, me disse ele. “Nem precisa visitar Pompeia.” Encontrei a mesma dica em vários sites e livros sobre a região. Segundo eles, Pompeia é superlotada de turistas e tão grande e confusa que ver tudo é difícil, entender tudo é impossível. As duas cidades escavadas ficam na mesma linha da ferrovia Circumvesuviana.

Mas como é possível estar em Nápoles (a 35 minutos de trem de Pompeia) ou Sorrento (29 minutos) e não visitar um lugar tão famoso? É que Pompeia cai na categoria de atrações “imperdíveis” junto com a Torre Eiffel, o Taj Mahal e a Estátua da Liberdade. Estando na China, você desistiria de visitar a Grande Muralha só porque um amigo te contou de uma “Maravilhosa Muralha” desconhecida, mas muito melhor?

- Sete erros para as atrações imperdíveis

Essas decisões sempre são difíceis para mim. Quero ser diferente, quero dizer “não me importa se não vou a X, deve ser uma farofa, vou conhecer o desconhecido Y”. Mas logo começam as dúvidas: “Mas todo mundo diz que X é imperdível…”

Então decidi me “sacrificar” e ir aos dois lugares no mesmo dia para poder dizer aos outros se realmente Herculano era um substituto razoável ou se Pompeia era imperdível mesmo.

Como esperado, foi um dia longo, cansativo e corrido, e o que menos recomendo é ver os dois um depois do outro. Primeiro, porque assim não dá para subir no vulcão mesmo, e segundo porque, em geral, sempre é melhor não passar as férias correndo de um lugar para outro e terminar o dia exausto. (Para isso existe sua vida normal.)

Pompeia

Pompeia, tal como eu imaginava, foi toda uma experiência padronizada. O trem chega, você segue a maré de turistas falando uma babel de idiomas, passa pelas barracas de souvenires e pizza e limonada a preços exagerados até chegar na fila interminável para comprar os ingressos. Durante a espera, os guias licenciados tentam te convencer (em várias línguas, mas não em português) a contratá-los. Outras opções: comprar um guia detalhado nas barracas ou alugar um guia em áudio.

Não faltam turistas em Pompeia

Não faltam turistas em Pompeia

Não escolher nenhuma guia é errado, porque as ruínas de Pompeia são vastas mesmo e, apesar de alguns lugares indicarem o nome da casa, prédio ou templo e o número para o guia em áudio, não há explicações adicionais.

Eu optei pelo guia em áudio, porque quando viajo sozinho gosto dessas maquininhas nas quais você digita um código exibido no quadrinho e alguma voz intelectual te explica tudo. Mas naquele dia, em Pompeia, os mapas das ruínas com a rota do guia em áudio tinham acabado, tornando a visita muito mais difícil. O pessoal do site nem pedia desculpas pela falha, simplesmente continuava aceitando os 11 euros (R$ 25) pela entrada e os 6,50 euros (R$ 15) pelo guia em áudio.

Perdi muito tempo procurando os quadrinhos. Quando não encontrei a primeira atração, as “Termas Suburbanas”, decidi ouvir a narração de todo jeito para o que estava perdendo. E entre outras coisas, ouvi o seguinte: “As decorações pintadas nas paredes representam cenas eróticas… podemos observar uma variedade curiosa de posições amorosas…” Cadê?!?! Mais estimulado, procurei as termas de novo.

E encontrei. Mas o problema é que só dava para entrar nessa parte se você tinha reservado antes pela internet. Um desastre. (Mas graças ao meu tempo no Brasil, usei o jeitinho brasileiro e consegui entrar implorando ao cara que cuidava da entrada – e sem mencionar que era jornalista, claro.)

Morte de um cão, 79 d.C., Pompeia

Morte de um cão, 79 d.C., Pompeia

Outro desastre: a multidão. Rebanhos de turistas seguindo pastores-guias usando microfones e erguendo pequenas bandeiras com o nome da empresa ou do cruzeiro para ajudar qualquer ovelha perdida. Foi logo que lembrei – tarde demais – o ótimo conselho que tinham me dado antes de visitar a também “imperdível” cidade maia de Chichén Itzá, no México: chegue à tarde e fique até o final do dia, quando os ônibus já foram embora, o sol não está tão quente e ficam alguns poucos turistas independentes.

Apesar das frustrações, admito: Pompeia teve momentos legais. Em uma das casas, o guia em áudio explicou que os arqueólogos tinham encontrado uma mensagem escrita na parede em latim: “Alugam-se a partir de 1º de julho, no piso superior, apartamentos de luxo. Tratar com Primus”. Adoro visitar sítios antigos e encontrar detalhes que mostram que nós não somos tão diferentes dos nossos antepassados.

Também fiquei impressionado com a parte que mostrava os modelos de pessoas petrificadas no momento da morte. A história é fascinante: os arqueólogos não encontraram os corpos mesmo no século 19 – claro que tinham se decomposto. O que encontraram foram vãos na lava endurecida e eles verteram gesso nos vãos. Quando secou… réplicas quase perfeitas das pessoas no momento da sua morte. Ah, não só pessoas: também havia um cão, a verdadeira estrela da exibição, sobretudo para as crianças. “C’est un chien”, falou uma menina francesa. “Ein Hund”, exclamou um alemãozinho. “Mommy, a dog!”, ouvi gritar um dos meus compatriotas. Nem quero pensar nos pesadelos que tiveram essas crianças.

Herculano

Pouco depois do meio-dia, peguei o trem para Herculano. Uma experiência totalmente diferente. Saindo do trem, não havia essa maré de turistas para seguir. Eram só quadros indicando o caminho aos “scavi” (“escavações” em italiano) com setas. Você caminha 10 minutos pela cidade moderna de Ercolano antes de encontrar a cidade morta com quase o mesmo nome.

Cena nas ruas de Herculano antigo.

Cena nas ruas de Herculano antigo

Mas recomendo explorar um pouco mais o local. Na rua Pugliano, uma feira acontece todas as manhãs. (Eu perdi por chegar à tarde.) No lugar da pizza feita para turistas com preço exagerado de Pompeia, há uma pizzaria excelente, a Luna Caprese, para comer junto com os cidadãos modernos de Herculano depois do seu tour.

As ruínas eram exatamente como tinham me contado: em melhor estado de preservação e, como o sítio era menor (e ainda havia mapas!), era impossível se perder. Não precisava de reserva por e-mail para entrar nas termas, que eram muito bonitas apesar de não terem desenhos eróticos.  Havia muito menos turistas e poucos grupos. E que esquisito ver a cidade velha no que parecia ser um subsolo exposto ao lado da cidade moderna. Das ruínas, dava para olhar pra cima e ver a roupa secando nas varandas dos residentes que ainda vivem na sombra do Vesúvio.

Minha conclusão: Herculano é a melhor experiência de longe (e também abriga o Museu Arqueológico Virtual, que não tive tempo de visitar). Mas se você não acredita, ou se sempre foi seu sonho ver Pompeia, ou se não aguenta estar tão perto sem visitar, eu não vou reclamar. Só peço que, quando voltar, não conte para os amigos que “Pompeia é imperdível!” Porque para os que vão para Herculano, é perdível mesmo.

Notas relacionadas:

  1. São Paulo ou Nova York: Qual a melhor pizza do mundo?
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quarta-feira, 15 de junho de 2011 Brasil, Estados Unidos, Europa | 08:00

São Paulo ou Nova York: Qual a melhor pizza do mundo?

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Duas fatias de Joe's, estilo nova-iorquino (ou seja, sem nada em cima, e definitivamente sem azeite)

Quando um nova-iorquino se muda para São Paulo é impossível evitar a pergunta: “Qual das duas cidades tem a melhor pizza?”. Ou, mais comum: “A pizza paulistana é a melhor do mundo, né?”.

Uma observação somente: os nova-iorquinos também acham que a pizza deles é a melhor do mundo. E daí temos um problema, porque as pizzas das duas cidades são muito, muito diferentes.

A diferença mais marcante é a grande quantidade de ingredientes que os paulistanos colocam sobre a pizza. Em Nova York, é queijo, tomate e mais um ingrediente (pepperoni, por exemplo), no máximo. Nos meus primeiros meses em São Paulo, quando comi pizza portuguesa, baiana ou vegetariana – com mil ingredientes em cima de cada uma – , minha resposta sempre era: “A pizza de São Paulo é muito boa. Só que não é pizza.”

- Sete erros para não cometer quando comer uma pizza na viagem

Pizza boa e barata em uma pizzeria típica, em Erculano, fora de Nápoles. Massa incrível, tomates frescos.

Pizza boa e barata em uma pizzeria típica, em Erculano, fora de Nápoles

Ou seja, não era a pizza que eu conhecia. É que pizza em Nova York e São Paulo não é só pizza. É cultura. E são culturas tão diferentes que achava impossível comparar as pizzas das duas cidades – até a semana passada, quando estive em Nápoles, Itália.

Lá a pizza não é só cultura. É vida. Da legitimidade da pizza de Nápoles ninguém pode desconfiar. Assim que, entre São Paulo e Nova York, ganha quem tem a pizza que mais se parece com a pizza napolitana. Capisce?

Vamos à comparação:

1 – Ingredientes: Pizza para mim, pelo menos para meu lado nova-iorquino, é massa, molho de tomate e queijo. E, talvez, um ingrediente: pepperoni, por exemplo. Ou um monte de alho picado (hummm). Por outro lado, minha alma paulistana entende que pode colocar mais, sem se esquecer dos elementos básicos. Em Nápoles? Tem a famosa Da Michele (que apareceu no livro Comer, Rezar, Amar) onde só há duas opções: pizza margherita e pizza marinara. Mas na Pizzeria Starita, também muito famosa (o dono até serviu pizza ao Papa João Paulo II), o cardápio é muito variado, como em São Paulo. Empate.

2 – Pizza boa e barata: Nem tudo pode ser perfeito. Quando se bota presunto, azeitona, palmito, catupiry, frango, calabresa, abacaxi, rúcula  e mais ingredientes sobre a pizza, a massa, o molho de tomate e o queijo perdem importância? Em Nova York uma pizzaria de bairro não sobrevive nem uma semana com a massa de cartolina e omolho de baixa qualidade de muitas pizzarias que já provei em São Paulo. Em Nápoles também não. Até pizzas baratíssimas que eu provei – de 3 euros ou 4 euros (R$ 7 a R$ 9) – tinham massa perfeita, tomate fresco e mozzarella de búfala de qualidade. Vantagem: Nova York

Pizza racchetta na Pizzeria Starita em Nápoles: com muitos ingredientes inclusive ricota e cogumelos

Pizza racchetta na Pizzeria Starita em Nápoles: com muitos ingredientes inclusive ricota e cogumelos

3 – Pizza boa e cara: Por fim, descobri onde existem ótimas pizzas em São Paulo: nos lugares caríssimos, como Bráz e Veridiana. Tudo da melhor qualidade. Agora, gente, isso é pizza, a melhor que já provei. Nova York também tem pizzarias “de grife”, tipo Motorino, mas não são tão parte da cultura e é raro encontrar uma pizza por mais de R$ 30. E esses preços paulistanos? Mais de R$ 40, às vezes até R$ 50, por uma pizza? Parece piada, mas só os donos das pizzarias que estão rindo. E muito. Vantagem São Paulo, mas é vitória pírrica.

4 – Forma: É tão comum em Nova York pedir pizza por “slice” (uma fatia) que o melhor blog sobre pizza se chama Slice mesmo. A pizza de São Paulo se pede inteira, com a exceção de poucos lugares, como O Pedaço da Pizza e a ótima ideia de rodízio de pizza (Detalhe: o rodízio de pizza é minha invenção brasileira favorita, muito melhor do que a feijoada ou a bossa nova). Em Nápoles, apesar de poder comprar um pedaço em muitos lugares, a cultura prevalente é pedir uma pizza inteira. Leve vantagem: São Paulo.

5 – Quem serve: Em São Paulo, o garçom chega com a pizza e depois serve as primeiras fatias a todo o mundo. Depois volta para dar as segundas e as terceiras. Uma das minhas atividades favoritas nas pizzarias paulistanas é começar a pegar um pedaço e ver o garçom correr à mesa para me ajudar. Em Nova York, ao pedir uma pizza inteira, você mesmo pega o primeiro pedaço, o segundo e o terceiro (No meu caso, também o quarto e o quinto). Em Nápoles? As pizzas são de tamanho individual e nem chegam divididas em fatias. Ambos estamos errados. Empate.

Em Nova York, pizza se come com a mão

Em Nova York, pizza se come com a mão

6 – Com garfo e faca ou com a mão: Pizza em São Paulo se come com garfo e faca. Muito civilizado. Pizza em NY se come com a mão. Muito fácil. O paulistano, sem dúvida, acha o costume nova-iorquino anti-higiênico. Mas comer com garfo e faca parece tão esquisito em Nova York que, quando o Donald Trump foi filmado comendo pizza assim na Times Square, foi ridicularizado. É só ver a raiva do comediante Jon Stewart neste clip (começa no 4:15) para entender o que os nova-iorquinos acham de comer pizza com garfo e faca (e nem precisa entender o inglês). Também não perca a demonstração de como comer uma “slice” (a 5:30).  Porém, em Nápoles, é com garfo e faca que se come a pizza. Vantagem: São Paulo

7 – Quando?: Em São Paulo, domingo é o dia oficial da pizza. Em Nova York, o dia oficial da pizza é: todos os dias, no almoço ou no jantar, como lanche, ou até para comer antes de sair para um restaurante caro para não gastar demais (Bom, esse último exemplo talvez só eu faça). Nápoles? Pizzarias lotadas o tempo todo também. Vantagem: Nova York.

8 – Quem faz: O cara que faz pizza, em Nova York, se chama “pizzamaker” ou pior, “pizza guy”. Em São Paulo é “pizzaiolo”. Em italiano como deve ser?  Vantagem: São Paulo

9 – Azeitonas: Quem decidiu, em São Paulo, botar azeitonas em qualquer pizza? Não foi um napolitano. Em Nápoles, como em Nova York, a pizza só tem azeitonas se você pede com azeitonas. Vantagem: Nova York

10 – Condimentos: Em São Paulo muitas pessoas colocam azeite de oliva na pizza, algo que me pareceu muito esquisito quando vi pela primeira vez – jogar mais gordura sobre uma comida gordurosa? Em Nova York muitas pessoas botam pimenta calabresa ou queijo parmesão nas “slices”. Você pode usar o mesmo argumento para o queijo: uma comida com queijo precisa de mais queijo? Em Nápoles a pizza é tão boa que ninguém bota nada em cima. Faz sentido. Empate

Fazendo pizzas na Pizzeria Starita em Nápoles 1

Fazendo pizzas na Pizzeria Starita em Nápoles

É óbvio que as tradições das pizzas em São Paulo e Nova York são bem diferentes, que cada uma tem suas qualidades e que, apesar de os dois povos terem suas discordâncias, podemos nos respeitar. Mas só pode haver uma cidade ganhadora. Então, o envelope, por favor. A melhor pizza do mundo é… a de Nápoles.

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quarta-feira, 25 de maio de 2011 Europa | 08:00

O lado multicultural de Londres

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Eu não sou travesti, juro. Mas numa tarde de janeiro passado quis muito me vestir de mulher. Para ser específico: mulher muçulmana.

Deixe-me explicar. Foi durante uma viagem a Londres em que tinha decidido visitar Green Street, um bairro de imigrantes em East London. Cheguei em um destes ônibus vermelhos de dois andares e, quando desci, tinha esfriado muito e começava a chover. Pior, eu tinha esquecido meu casaco no hotel. Neste mesmo momento passaram por mim três mulheres vestidas com burcas (essa roupa muçulmana que cobre o corpo inteiro, da cabeça aos pés). Tive dois sentimentos ao mesmo tempo. O primeiro foi o choque maravilhoso do turista de “Cheguei a outro mundo!”. O segundo foi inveja: a roupa pareceu tão prática para um inverno londrino. Queria uma.

Fotos Seth Kugel

Mulheres muçulmanas apreciam vitrine de loja de roupas indianas, na Green Street

Não quero entrar na polêmica sobre burcas e o tratamento dado à mulher no Islã. Mas ver mulheres andarem com burcas durante horas após ficar maravilhado com obras de grandes mestres do Renascimento, na National Gallery, na Trafalgar Square, é um dos prazeres que só acontece nos grandes polos de imigração.

E Londres, como Paris, Nova York e Los Angeles, é um deles (São Paulo também já foi, mas faz tempo que a maioria dos seus sírios, espanhóis, italianos e japoneses foi abrasileirada). Em Londres, Green Street é um dos centros principais de imigração da Índia e de seus vizinhos, esse subcontinente hindu e muçulmano que tem uma história longa e complicada com o Reino Unido, seu ex-colonizador.

Se é só curry (o que em Londres é sinônimo de comida indiana) o que você quer, pode ir a Brick Lane, uma rua pitoresca de prédios velhos com placas em inglês e hindi e ótimos descontos na hora do almoço. (O Aladin é um dos mais populares.)

Mas Green Street é um destino muito mais interessante – precisamente  por não ser um destino turístico, mas uma comunidade viva. Minutos depois de ver aquelas mulheres de burca, avistei uma multidão de pessoas na calçada, do lado de fora de uma loja de jornais, a East Side News. Todos estavam lendo, com grande interesse, pedaços de papel pregados na janela.

Fotos Seth Kugel

Anúncios na vitrine da loja East Side News

Fui ler os papéis, óbvio. Alguns exemplos:

“Quarto disponível só para vegetarianos, £55/semana inclui comida e luz”

“Aluga-se quarto duplo com família bangladeshi, apropriado para casal ou duas meninas”

“Quarto duplo. Procuram-se: meninos muçulmanos (indianos, paquistaneses)”.

Eram classificados, na versão vitrine! Fiquei encantado não só pelo cenário que parecia tão anacrônico no mundo virtual, mas também pelos detalhes culturais dos anúncios: “só para vegetarianos”, “procuram-se muçulmanos” etc. Nos Estados Unidos, seriam “só não-fumantes” e “animais de estimação proibidos”. Entrei na loja para perguntar se era um serviço gratuito ou se os anunciantes pagavam. Resposta: pagavam sim, £1.50 (R$ 4) por semana. No verso de cada papel – visível do lado de dentro da loja – estava a data de “vencimento” do anúncio.  Fascinante.

Próximo destino: loja de bijuterias. Normalmente não sou o tipo de homem que entra muito em joalherias – para confirmar é só perguntar às minhas ex-namoradas. Mas visitar o bairro indiano e não ver uma bijuteria é como visitar Paris e não comer um pain au chocolat. As lojas são tão exageradamente luminosas e as bijuterias tão brilhantes e cheias de detalhes que é quase impossível resistir.

Fotos Seth kUGEL

Família de imigrantes do Sri Lanka escolhem bijuterias para casamento. A noiva é a segunda do lado esquerdo

Dentro da loja, encontrei uma família inteira olhando a mercadoria… e mais ninguém. Nesses momentos, quando você se sente muito fora de lugar, sempre há duas opções: bater um papo com alguém ou ficar com vergonha e fugir. Detsa vez arrumei coragem para conversar e falei um “oi” para um homem com uma expressão de desespero, tipo “homem-esperando-mulher-em-loja-de-sapatos”.

“Quem vai se casar?”, perguntei. Ele apontou para os noivos (que acenaram um “oi”) e nós dois começamos a conversar. Sua família era do Sri Lanka, um país que sofreu uma terrível guerra civil entre tâmeis e cingaleses; sua família foi para a Inglaterra para escapar da violência; só a mãe dele ficou na ilha, localizada perto do subcontinente indiano.

Dei meus parabéns para o casal e fui para o próximo destino imperdível: uma doceria. Adoro os doces indianos (bom, não é surpresa, adoro todos os doces). São feitos à base de leite, têm cores quase néon e, às vezes, vêm embrulhados em papel-alumínio comestível.

Fotos Seth Kugel

Doceria indiana no bairro londrino

Escolhi o Eastern Goods (165 Green Street), onde o balconista reconheceu meu sotaque norte-americano e conversou comigo sobre sua estadia nos Estados Unidos. Quando escolhi doces para levar, ele me presenteou com vários extras.

Só faltava jantar (antes de comer os doces, claro). O homem na loja de joias tinha me explicado que o centro da comunidade do Sri Lanka não se encontrava na Green Street, mas na High Street, a 15 minutos a pé na direção leste e perto da estação de metrô East Ham. Me perdi totalmente e cheguei lá 40 minutos depois (sem a ajuda do meu mapa  turístico, que não incluia esta área.)

Em uma loja de comidas importadas do Sri Lanka, pedi dicas de restaurantes. Me mandaram para Thaykam (278 High Street), um self-service onde se come à vontade por £4.99 (R$ 13). A comida era muito parecida com a indiana: curries, grão-de-bico, verduras cozidas. Perguntei para outro cliente qual era a diferença. Mas ele era indiano e brincou: “Não existe tradição culinária no Sri Lanka. Roubaram tudo da gente”.  Ri, mas não acreditei.

Green Street e Brick Lane não são os únicos lugares onde se pode aprender sobre os indianos. O museu Victoria & Albert (o “V&A”) reúne peças de arte e móveis de todo o ex-império britânico. Lá estão muitos tesouros da Índia, inclusive um tigre, feito de madeira, dominando um soldado britânico com uma mordida no pescoço. Mas não é apenas uma escultura: uma manivela mexe o braço do homem e a boca do tigre; o homem grita e o tigre ruge. E – li, mas quase não acreditei – no tronco do tigre há um…órgão musical! Pertencia a Tipu Sultan, um líder indiano que (adivinhem só?) era conhecido por ser inimigo dos britânicos.

Só essa obra valeria o preço do ingresso do museu – isso se a entrada fosse cobrada. Em Londres os museus são quase todos de graça.  O mesmo preço, por coincidência, de uma caminhada pela Green Street.

SETH ERROS

PARA EVITAR EM UMA VIAGEM A LONDRES

1) Limitar-se ao mapa turístico. A estação do metrô onde se encontra Green Street (Upton Park) fica fora da maioria dos mapas – mas não do Google Maps, claro.

2) Conhecer só a “Londres europeia.”. É uma das cidades mais diversas do mundo.

3) Em Green Street, achar que todos são indianos.  Há também imigrantes do Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka.

4) Visitar Green Street de dieta.  É só ver os doces indianos no balcão e acabou.

5) Ter medo de perguntar.  Não existe guia para te explicar tudo o que acontece em Green Street (apesar deste site em inglês). Você precisa pesquisar com a boca.

6) Sair de Londres sem comer curry – se não for para Green Street, pelo menos visite a Brick Lane.

7) Visitar Green Street no dia de um jogo de futebol do clube West Ham United.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011 América Latina, Brasil, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio, Ásia | 10:00

Como passei a ganhar a vida viajando

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Existem jornalistas de turismo que passam a vida inteira jantando nos restaurantes mais badalados de Paris, testando tours de helicóptero pelo Rio de Janeiro e provando o serviço de quarto nos hotéis cinco estrelas de Nova York (para ver se o champanhe tem borbulhas suficientes, imagino).

Como é que meus colegas conseguem arrumar esses bicos de luxo e eu não? Sei lá. Meus chefes sempre me mandam fazer coisas bem distintas: provar comidas de rua, testar os ônibus públicos que chegam ao Pão de Açúcar e ficar nos hotéis mais econômicos (com uma verba que inclui até a cervejinha do frigobar).

Tudo bem. Luxo é ótimo, quem nega mente. Mas viajar assim não é conhecer o mundo real. É pular de fantasilândia em fantasilândia, deixando passar os destinos de verdade, as culturas de verdade e as pessoas de verdade.

Na minha nova coluna que estreia hoje no iG, convido o leitor a me acompanhar por este mundo de verdade. Mas isso só começa na próxima semana. Primeiro, gostaria que me acompanhasse em uma pequena viagem ao meu passado, pelas três viagens que mais me marcaram – e me formaram.

Quênia, 1985


Arquivo pessoal

Eu e minha família queniana

Meu amigo Brian e eu tínhamos acabado de chegar na casa dos nossos anfitriões africanos, uma construção simples de barro numa aldeia remota, quando uma aranha tamanho-de-rato caiu do teto e pousou sobre a cabeça dele.

Eu tinha 15 anos e estava passando um mês e meio na África Oriental com mais 11 adolescentes norte-americanos, num intercâmbio organizado pela YMCA. Era a primeira vez que eu viajava sem meus pais. Fomos morar com uma família de agricultores num lugar onde a maioria dos moradores nunca tinha visto pessoas brancas, pelo menos de perto.

Brian achou que a aranha fosse só uma gota d’água e tentou tirá-la com a mão, mas a aranha pousou de novo sobre a camisa dele. Eu gritei. Ele gritou (mais forte ainda) e deu um salto. A aranha-rato caiu no chão e alguém da nossa família africana a matou como se não fosse nada. Para eles, foi nada mesmo. Viver sem geladeira, sem TV, sem água nem luz? Também nada. As mulheres comerem só depois dos homens terminarem? Nada. Lavar as mãos com um jato de urina de vaca? Nada.

Sabe o que os impressionou mais? O pelo nos braços e pernas de nós, gringos. Os quenianos quase não tinham. (As crianças adoraram acariciar nossos braços; os adultos conseguiram se controlar). E nossas mãos: tão macias e delicadas comparadas com as deles. Prova de que nunca tínhamos trabalhado na vida.

Para mim, o mundo nunca seria igual após aquela viagem (ou aquela experiência). Quando voltei aos Estados Unidos, parei de disputar com meu irmão o caderno de esportes do jornal todas as manhãs e comecei a ler o caderno de notícias internacionais, procurando as poucas notícias que chegavam da África. Três anos depois, na faculdade, decidi me especializar em política africana.

República Dominicana, 1993


Arquivo pessoal

Minha aluna Sheyla entre as suas priminhas

Meu primeiro trabalho depois da faculdade foi como professor da rede pública de ensino num programa de serviço social que se chamava Teach For America. (Já existe uma versão brasileira, dê uma olhada.) Dava aula no terceiro ano primário a crianças imigrantes, na Escola Pública 156, na infame região do South Bronx. Adorava ir, todos os dias, do apartamento que dividia com outros dois professores em Manhattan para esta região periférica e pobre de Nova York. Porém, cheia de energia e vida; para mim era como viajar para outro país, mas com bilhete de metrô em vez de passaporte. Falava-se mais espanhol do que inglês no bairro; eu aprendi rápido. (Só não tão rápido como os chineses, cujos restaurantes dependiam dos clientes latinoamericanos.)

Também adorava visitar as casas dos meus alunos – dominicanos na sua maioria – e nunca recusei um convite para jantar um arroz com frango ou um guisado caribenho. Um dia fui convidado para o aniversário da minha aluna Sheyla. Segundo o convite, a festa era no sábado às 15h.

Ainda ignorante em relação à cultura latina, cheguei pontualmente às 15h. Obviamente, a famíla de Sheyla nem tinha começado a arrumar a casa. Sheyla, que completou 8 anos naquele dia, tinha acabado de sair do banho. Ainda de toalha, correu para o quarto, morrendo de vergonha de seu professor.

Quando o próximo convidado chegou, precisamente três horas depois, os pais de Sheyla já tinham me convidado para viajar com eles à República Dominicana nas férias de verão. Claro que aceitei.

Ficamos todos na pequena casa da avó de Sheyla na capital Santo Domingo. Eu tinha que dividir a cama com o irmão de Sheyla, também aluno na Public School 156. (Nos EUA, um professor que compartilha uma cama com um aluno seria preso, mas fazer o quê?) Fiquei um mês por lá, onde aprendi a fazer “tostones” (bananas da terra fritas), a entender telenovelas e a pegar o ônibus público para o centro da cidade, além de lavar roupa à mão. Mas o que era mais difícil era dançar merengue, um requisito básico na cultura dominicana. Me obrigaram a praticar quase todos os dias e sempre chegavam vizinhos para rir do gringo.

Que vergonha. Mas valeu a pena. Devo minha carreira a essa família e a essa viagem. As primeiras matérias que publiquei no New York Times foram crônicas e notícias sobre a comunidade dominicana em Nova York (até hoje o maior grupo de imigrantes da cidade). Minha primeira viagem paga pelo jornal foi à República Dominicana. E 18 anos mais tarde, meu iPod está lotado de música dominicana, meu espanhol tem acento dominicano e quando danço merengue, ninguém mais ri de mim.

Brasil, 2004


Depois de estudar português por um ano, tinha chegado a hora de conhecer o país que, para a grande maioria dos norte-americanos, é um lugar muito misterioso: o Brasil (todos vocês conhecem meu país, ou pelo menos uma versão dele, pelos seriados, filmes e notícias que chegam; nos EUA há poucas reportagens sobre o Brasil e, na sua maioria, sobre favelas, carnaval, futebol…e, às vezes, uma reportagem sobre política de sua “capital”, Buenos Aires.)

Procurando escapar de turistas e conhecer um Brasil de verdade, optei por não visitar as praias cariocas nem passar o carnaval em Salvador. Entrei no Brasil pela fronteira colombiana, em Tabatinga (AM). A ideia era pegar um barco para Manaus – daqueles em que você dorme na rede – e passar quatro dias sem falar nenhuma palavra em inglês, conversando só com meus “vizinhos” e estudando um livro de gramática que tinha levado comigo.

Sem saber, eu peguei um barco de evangélicos, o que tinha duas consequências. A ruim: não vendiam cerveja. A boa: os meus vizinhos de rede me adoraram porque meu nome é inspirado no Velho Testamento. Fiz amizade com meus vizinhos da rede ao lado, um casal muito simpático com dificuldades de leitura. Eles liam a bíblia beeeem devagar. A gente fez uma troca: eu lia os versos bem rápido, em voz alta, e eles corrigiam minha pronúncia horrível.

Minha primeira crônica para um caderno de viagens foi sobre os quatro dias que passei no barco evangélico. E ainda hoje viajo do mesmo jeito: sempre topo uma aventura. Sempre tento evitar os roteiros comuns e triviais. Não gosto dos resorts, odeio as redes hoteleiras internacionais, sempre tento escolher a opção mais regional. E da mesma maneira quando era professor, nunca recuso um convite para jantar na casa de pessoas que conheço durante as minhas viagens, não importa quão pobres sejam ou afastado esteja o local.

As aventuras, os riscos, os desencontros culturais, os lugares, as pessoas, as aranhas…é isso a essência da viagem. É o que vou contar neste blog – junto, claro, com dicas sobre hotéis, restaurantes e outras atrações tradicionais. Cada semana também terá sempre uma seção de “anti-dicas” – o que NÃO fazer, que vou chamar de “Seth Erros”.

Para mim, este blog  é, de certa forma, minha próxima viagem. E como as viagens que gosto, não é de luxo. Pelo contrário. E é talvez o maior desafio da minha carreira: a primeira vez que escrevo em português, a primeira vez que escrevo exclusivamente para um público brasileiro (claro que os portugueses, angolanos, caboverdianos etc. são muito bem-vindos também). Vou depender de você, leitor, para me avisar como estou me saindo. Se gostar de algo, mande um comentário; se não gostar, mande dois. Vou tentar responder, esclarecer e até brigar com você quando for necessário.

SETH ERROS

Na viagem, você não deve…

1) Ter medo. Dos lugares incomuns, das comidas novas, das experiências inéditas.

2) Isolar-se. O viajante que viaja sozinho (como eu) não tem escolha: tem que conversar com desconhecidos. Para os que viajam com o companheiro ou os amigos, talvez isso não pareça tão necessário.  Mas é.  Faça um esforço, converse com desconhecidos no ônibus, no restaurante, na praia, no hotel. Viajar sem fazer amizades novas não tem graça.

3) Reclamar quando algo não é igual. No meu país, por exemplo, comer arroz e feijão nas refeições não é comum e muitos brasileiros reclamam disso. Mas sejam tolerantes conosco.

4) Ficar no roteiro turístico. Desvie um pouco! Entre em ruas pequenas, desça do metrô uma estação antes para se perder um pouco,  peça dicas aos habitantes locais.

5) Deixar os filhos para trás. Eu aprendi a viajar viajando, não ficando em casa com a babá ou com os avós.

6) Planejar demais. Eu sempre faço uma lista de atividades/restaurantes/ atrações que gostaria de conhecer. Mas não são compromissos, são sugestões. Os melhores lugares são os que se descobre no caminho.

7) Não planejar nada. Pelo menos dê um Google no destino para saber um pouco sobre o destino. (Exemplo: Líbia não é um destino tranquilo hoje em dia.)

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

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