Como aprender inglês
Leitores, quais entre vocês querem viajar para Estados Unidos ou Inglaterra e voltar falando inglês fluente? A resposta: quase todos, em teoria; na prática, alguns poucos.
É que muitos querem ter um inglês perfeito do mesmo jeito que querem abdominais sarados. De graça. Sem sacrifícios. Dedicar 90 minutos por dia a estudar ou malhar? Desistir de ler “Caras” e só ler “The Economist” ou desistir de comer doces e só comer verduras?
Aprender um idioma é difícil. Custa tempo. Requer esforço. Mas, como ter o abdominal sarado, vale a pena. (Segundo me dizem. Falo quatro idiomas mas minha barriga está bem mole.)
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Muitas pessoas que te dizem querer passar um, três ou seis meses em Nova York ou Londres aprimorando o inglês estão mentindo. Não para você, mas para si mesmos. O que querem, provavelmente, é escapar da rotina por um tempo e se divertir na capital do mundo. E aprender um pouco de inglês no caminho. Mas esta coluna se dedica aos outros. Os que realmente querem viajar e voltar falando bem, muito bem. Ou seja, para os que querem fazer sacrifícios.
Só porque esta é uma coluna de viagens, vamos começar com a viagem. Mas como verão depois, aprender um idioma é um projeto não de férias, mas de todos os dias do ano.
A VIAGEM
Você tem 15 anos e seus pais têm uns R$ 7.000 a R$15.000 para gastar? Perfeito. Hora de fazer um desses intercâmbios de um ano em alguma “high school” dos Estados Unidos. Inglês fluente garantido – mais informações aqui. Mas para a grande maioria de leitores, o caminho é mais complicado. Quando eu comecei a aprender português, em 2003, em Nova York, jurei que passaria as poucas férias que tinha para viajar exclusivamente pelo Brasil e por Portugal. E assim foi pelos cinco anos seguintes. Você deve poupar o seu dinheiro e fazer a mesma coisa nos países que falam inglês.
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AS AULAS
Vale a pena ter aulas? Vale. Mas, detalhe: quem já fala um inglês razoável não precisa ter aulas de inglês. Pode ser aula em inglês. Eu dei aulas de jornalismo por oito anos na New York University School of Continuing and Professional Studies, onde a metade dos alunos era estrangeira e muitos deles não falavam um inglês perfeito. É que muitas faculdades oferecem cursos de “continuing education” (ensino adulto ou educação continuada), os quais não requerem passar em nenhuma prova. Podem ser aulas de arte, de história, de filosofia ou até um curso de degustação de vinhos. É só buscar pelo Google na cidade onde vai viajar e terá muitas escolhas, das quais algumas oferecerão ajuda com o visto de estudante.
Os outros vão querer aulas de inglês. Como escolher? Com CUIDADO. Encontrar uma escola de inglês é fácil. Escolher uma boa é muito complicado. Segundo muitos amigos brasileiros e latino-americanos que estudaram nos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, muitas escolas são apenas fábricas de vistos de estudante. A qualidade da instrução pode ser péssima. Então, é preciso procurar dicas de amigos que já foram e buscar online as avaliações das escolas.
Mas tem duas dicas adicionais:
Primeiro, é quase sempre mais seguro fazer cursos oferecidos por universidades do que por “escolas de idiomas”. É mais provável que os professores sejam profissionais legítimos que vão levar a sério a tarefa. Mas não só isso. Assistir aulas em um “campus” te dá a oportunidade de conhecer e fazer amizades com estudantes americanos (ou ingleses ou australianos) que fazem outros cursos no mesmo lugar.
Segundo, evite os cursos nos quais tenham muitos inscritos brasileiros. Fato: brasileiro que tem aula de inglês com outros brasileiros vai falar português entrando e saindo da (e às vezes durante a) aula. Como saber? Pergunte! Qualquer escola tem estatísticas sobre as origens dos alunos. Quanto mais diverso, melhor. E, detalhe: cuidado se tiver muitos latinos hispânicos. Você não seria o primeiro a voltar ao Brasil falando mais portunhol do que inglês.
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Mas estou dando dicas fora de ordem. Primeiro, você precisa escolher uma cidade (e país).
A CIDADE
A parte mais difícil: considerar a possibilidade de NÃO IR para Nova York, nem Londres. Essas cidades são tão lotadas de brasileiros e outros estrangeiros, que é fácil demais se refugiar com os compatriotas. Você acha que não, mas já vi isso acontecer muitas vezes. Todo mundo chega a uma cidade nova pensando que vai fazer amizades com os locais, mas, ao final, muitos acabam ganhando só amigos brasileiros. Lamentável, mas compreensível. A única forma de evitar: ir onde não tem muitos brasileiros. Sacrifício? É. Vai sentir saudades de arroz e feijão? Vai. Falar inglês o dia todo dá dor de cabeça? Dá. Vale a pena? Só você decide.
Um exemplo concreto da minha vida: dos idiomas que eu sei, o que falo pior é o francês, apesar de ter estudado desde jovem e ter passado cinco meses da faculdade estudando em Paris. Por quê? Porque estudei EM PARIS. Por que escolhi Paris? Porque era Paris. Mas a cidade estava lotada de americanos, e era quase impossível fazer amizades com os parisienses (como é com os moradores de muitas grandes cidades). Resultado: desisti e passei meu tempo com americanos. Por que não estudei em Lyon, Aix, Perpignan ou Nantes? É uma boa pergunta, que estou me fazendo até hoje.
Nas cidades pequenas, as pessoas normalmente são mais abertas – e mais interessadas em conhecer estrangeiros. Também podem ser menos caras. Mas tem boas aulas de inglês? Pode acreditar – pelo menos nos Estados Unidos, com tantos imigrantes que têm hoje. Só para fazer um teste, fiz uma busca de aulas de inglês na cidade de Savannah, a cidade charmosa de 135.000 sobre a qual escrevi na semana passada. E… a melhor faculdade da cidade, a SCAD, oferece aulas de inglês para estrangeiros, e (segundo dizem) cada professor se formou em “ESL”, ou seja, “inglês como segundo idioma”. Isso você nem sempre vai encontrar em outras escolas. (O preço: US$ 2.500 por 10 semanas de cursos, programa full-time de quatro cursos.)
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ONDE MORAR
Mais um detalhe: onde morar. Já decidiu estudar na cidade de Gringolândia porque tem poucos brasileiros. Mas, claro, seu primo carioca tem um amigo mato-grossense cujo sobrinho gaúcho mora naquela cidade e conhece um cearense que quer alugar um quarto no seu apartamento. EVITE. Não more com brasileiros. Vai ser mais difícil procurar “roommates” que não são brasileiros? Vai. Vai ser mais arriscado? Vai. Vai valer a pena? VAI. Como fazer? Pergunte na escola onde vai estudar, mas também, dependendo da cidade, pode começar nos classificados craigslist.org.
ANTES DE IR/DEPOIS DE VOLTAR
A viagem é a parte divertida. Mas como eu disse, aprender um idioma é um trabalho de vários anos. Quem chegar na Inglaterra só com o inglês que aprendeu na escola cinco anos atrás corre o risco de poder entrar na conversa só quando se tratar de algum livro que esteja, por acaso, sobre a mesa.
Você pode fazer aulas de inglês na sua cidade, se quiser. Mas existem muitas outras opções. É possível comprar um cursos digital (tipo Rosetta Stone), ou contratar um professor particular pelo Skype, uma opção ótima para quem quer praticar com um nativo e talvez fazer um amigo para visitar quando viaja. (É só consultar seu melhor amigo Google com uma busca de “English lessons” e “Skype”; as aulas normalmente variam entre R$ 30 e R$ 60 e duram entre 25 minutos e uma hora.)
Mas com ou sem aula, a parte mais importante é algo extremamente fácil no mundo de hoje: escute rádio em inglês pela internet. Diariamente.
Claro, pode assistir TV americana (sem legendas, por favor), ou ler livros em inglês. Ótimas ideias, para quem tiver tempo. Mas rádio é bem mais fácil e não permite desculpas de “estou ocupado”. Dá para escutar no banheiro, enquanto se veste, tomando café da manhã e até no ônibus/ trem/ carro por “podcast”, esses programas que as pessoas baixam gratuita e legalmente na internet para botar no seu smartphone ou mp3.
Quais programas escolher? Esqueça música. O que você precisa é escutar conversações ou pelo menos o jornal do rádio. O ideal é virar fã de algum programa da manhã. Aprendi espanhol escutando “El Vacilón de la Mañana”, na rádio hispânica de Nova York (antes da época do rádio por internet) e aprendi português escutando o programa de Roberto Canázio, o Patrulha da Cidade, na Tupi-AM do Rio, pela internet. (Fãs de Roberto Canázio: ainda uso muito a frase: “Moraaaaaal da história…”)
Uma escolha perfeita para melhorar seu inglês é a National Public Radio, a rádio pública nacional dos Estados Unidos, com estações em quase todas as cidades. Por quê? Porque os apresentadores são inteligentes, o conteúdo é interessante e intelectual etc. Mas a melhor parte: falam um inglês devagarzinho e certinho. (Na maioria dos casos. Exceção: os caras do programa CarTalk, dois mecânicos que dão conselhos sobre os carros e sobre a vida, em sotaque forte de Boston.)
Quer escutar ao vivo? É só escolher sua emissora pelo Google (NPR + cidade funciona) e encontrar o site. A minha é WNYC, em Nova York. E os “podcasts” são dos assuntos mais variados, e tem uma lista aqui. Baixe alguns e escolha qual gosta mais. Não se preocupe se não entender tudo, ou nem 25%, na primeira vez que escutar. Ter o idioma nos seus ouvidos ajuda muito e pouco a pouco irá se acostumando, como mágica.
Tente ler só em inglês também. Perdi quase todos os bons livros americanos publicados durante os anos 1992-1995 e 2003-2006, porque nessas épocas me dediquei só a ler livros publicados em espanhol e português. Sou maluco? Talvez. Mas um maluco que fala espanhol e português.
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