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quinta-feira, 12 de abril de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:46

Fiji é o paraíso, mas combine isso com a meteorologia antes

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Fiji é o tipo de lugar exótico que você talvez viu na televisão, mas pensa que nunca vai conhecer

Fiji, nação de 300 ilhas no meio do Oceano Pacífico – é o tipo de lugar exótico que você talvez viu na televisão, mas pensa que nunca na vida vai conhecer. E como que eu, que nem te conheço, pretendo saber o que você está pensando? Porque eu também nunca imaginava que ia chegar a um lugar tão longe – a 14.000 quilômetros do Rio de Janeiro. E olha que eu viajo 200 dias por ano. A lua? Talvez. Fiji? Lá no meio do nada? Nunca.

Outras viagens: Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia

(Detalhe: Não costumo usar “no meio do nada”, uma frase meio-ofensiva, porque se eu falasse assim sobre um vilarejo no sertão, alguém do próximo vilarejo me escreveria para reclamar que não está no meio do nada, está ao lado da casa dele. Mas no caso de Fiji, vou me arriscar: o “nada” é o vasto oceano Pacífico e os únicos que poderiam reclamar são os peixes, poucos dos quais leem esta coluna)

Pessoal do Botaira toca música para os hóspedes que chegam em barco

Mas, incrivelmente, até a quarta-feira passada estive em Fiji. Por quê? Porque como talvez você já tenha lido por aqui, estava na Nova Zelândia e na Austrália, e quando pesquisei sobre a viagem com um amigo neozelandês, ele me mencionou que os turistas daqueles países vão muito para Fiji e outras nações longe-pra-caramba para nós (mas, não para eles), tipo Samoa e Tonga e Taiti.

Da Nova Zelândia é só pagar uns R$ 600 por uma passagem e ir tranquilamente de Auckland para Nadi, em Fiji, em três horas. (Tranquilamente só se você não for fã do seriado Lost. Sendo fã, como eu, você olha pela janela as águas do Pacífico e acha que o avião vai quebrar em dois pedaços e te depositar numa ilha com um monstro de fumaça e ursos polares). Eu planejei passar uns seis dias, onde iria conhecer Yasawa, um arquipélago de pequenas ilhas onde nos últimos anos se abriu uma série de resorts a preços razoáveis, e depois conhecer uma ilha maior, com floresta e praia, a Taveuni.

Ou seja, seis dias para testar se Fiji é mesmo o paraíso que todos nós imaginamos.

Dias 1 e 2
O barco amarelo “Yasawa Flyer” é um mal necessário para turistas de verba limitada. Um catamarã amarelo que serve para levar para os resorts turistas sem dinheiro para pagar por uma viagem de hidroavião ou tempo para pegar carona com um pescador. (Boa dica é de comprar um “Bula Pass” por alguns dias, que permite ir de um resort a outro sem pagar passagens adicionais).

O resort fica na ilha Naviti, rodeada de morros baixos e uma franja de areia amarelada traçando a costa

Por que um mal necessário? 1) Nunca é bom estar em um grupo enorme de turistas. 2) Pior ainda se muitos desses turistas forem jovens indo aos resorts só para ficar na praia e beber noite e dia. Nada contra, mas porque ir tão longe, para ilhas tão preciosas, e fazer o que se pode fazer na praia local? 3) O pessoal do barco, que ajuda a reservar os resorts, é meio antipático. Eu também seria se tivesse que aguentar as demandas de mil turistas por dia.

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Eu nem tinha feito reserva em um resort antes de subir a bordo – apesar do perigo de ficar sem lugar para dormir, eu sempre acho melhor pesquisar ao vivo, com inteligência humana, ao invés de buscas cibernéticas. Desta vez, mais uma vez, deu certo. Conheci a Helen, uma inglesa residente há 15 anos em Fiji e consultora de turismo sustentável que estava levando um grupo de jovens alunos universitários norte-americanos para estudar turismo ao vivo. Superssimpática e com muito conhecimento da área, me contou quais eram os resorts dos bêbedos que não respeitavam a cultura local, e quais eram os mais calmos. O melhor resort, segundo ela, era o Botaira, cujo dono é das ilhas e tem boas relações com os povoados tradicionais do local.  Era lá que ela estava levando os alunos. “Você é bem-vindo”, me disse.

Equipe do Botaira apresenta dança típica

Eu não ia poder pagar por um “burê”, uma das casas tradicionais, que custa mais de R$ 400 por noite, e o pessoal do barco falou que os dormitórios reservados para mochileiros não estavam disponíveis. Mas Helen (que não tinha ideia de que eu era jornalista) me apresentou para o Jerry, um fijiano grande, mas calmo, com uma voz afável, e perguntei se tinha um lugar para um pobre viajante que não queria ficar com os jovens bêbedos. Ele me deu uma cama no dormitório por aproximadamente R$120 por dia, incluindo as três refeições.

Fomos deixando turistas em várias ilhas, cada uma mais perfeita do que a anterior, mas nenhuma mais do que a Naviti, onde ficava o Botaira. Um barco menor nos pegou no grande catamarã amarelo e nos levou para uma pequena baía rodeada de morros baixos e verdes e uma franja de areia amarelada traçando a costa. A única construção visível era uma estrutura tradicional de madeira com uma varanda. E nela, um grupo do resort cantava uma música tradicional para nos dar as boas-vindas. Na chegada, a palavra mais ouvida nas ilhas de Fiji: “Bula!”. Ou seja, “Olá!” ou “Tudo bem?”, “E aí?”. Só que não dá para falar fraco, tem que quase gritar com alegria: BULA!

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Apareceram sucos tropicais para todo mundo; o meu era de goiaba. Cada uma das pessoas se apresentou, todos de cor negra, como a maioria dos fijianos. (Também há uma minoria de indianos, mas eles moram nas ilhas principais e não nessas pequenininhas) “Acho que seria impossível estarmos mais felizes do que estamos nesse momento”, disse uma aluna de 18 anos, a Emily.

No Botaira, o sol se põe precisamente no centro do horizonte

Difícil não concordar. Os alunos – divididos em quatro por burê –, correram para botar roupa de praia e entrar na água. Eu fui para o meu dormitório muito básico – só beliches, com privada externa – mas era só para mim, porque o resort tinha sido reservado só para os alunos (eles nem anunciam no site o dormitório que fiquei). Apesar dos alunos serem muito simpáticos, eu os evitei a maior parte do dia e aproveitei os momentos que tinham aula com Helen para ter o resort todo para mim. Um paraíso particular? Isso mesmo, pelo menos algumas hora por dia.

Remei até o centro da baía em um caiaque em um dia, fiz snorkeling em outro, e a poucos metros da praia vi um arco-íris de peixes tropicais no recife de coral quase tão colorido quanto os peixes. Não vi tubarões (alguns dos outros resorts tinham mais), mas fiquei fascinado pelas ostras-gigantes, moluscos absolutamente enormes, cada um com uma coloração diferente e, apesar de parecerem imóveis, estavam prontos a fechar a “boca” quando algum inimigo (ou um braço humano) se aproximasse. (Se eu assistisse Bob Esponja, eu te contaria que lembrava muito o episódio no qual uma ostra-gigante tenta comer a Sandy e, tentando resgatá-la, Bob Esponja fica preso dentro da ostra. Depois, Sandy tem que… Ah, esquece, como falei, nem assisto).

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Maioria da equipe do resort mora no pequeno vilarejo de Soso

Também aproveitei a oportunidade de visitar o vilarejo de Soso, onde mora a maioria do pessoal do resort. Era só pedir um guia da administração (me deram o Chris, estagiário de chef), subir um pequeno morro, descer até a praia do outro lado, e andar mais dez minutos pela praia. No vilarejo, que parecia uma comunidade ribeirinha da Amazônia – só que as casas não eram de palafitas –, dava para visitar a igreja e a escola, onde os alunos só falam inglês, o idioma dos colonizadores que se tornou um idioma oficial depois de Fiji ficar independente em 1970.

Em Botaira (como em vários outros resorts) fazem um esforço que me parecia bem sincero de mostrar costumes fijianos para os hóspedes. O mais popular, de longe, é o uso da “kava”, uma bebida feita de uma raiz que (te dizem) tem efeitos sedativos e relaxantes. Pessoalmente, eu não senti nada, mas pelo menos o sabor não era tão ruim como muitas bebidas “tradicionais” ao redor do mundo. A kava não se bebe à vontade, tem toda um sistema formal, batendo palmas e falando palavras em fijiano depois de beber de um recipiente comum. O Gerry nos explicou que só recentemente havia kava suficiente para todo mundo tomar. Antigamente era preparada nas bocas das meninas virgens, que mastigavam a raiz e a depositavam diretamente na boca dos caciques. Ah, os bons e velhos tempos.

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Mas o mais especial foi o pôr-do-sol.  Como a baía dava perfeitamente para o ocidente, o sol se punha precisamente no centro do horizonte, e com um drama impressionante. O sol caiu. Fez uma pausa. E do nada, parecia que latas celestiais de tintas cor-de-rosa e laranja explodiram no céu. Foi o Knox, o barman, que me contou que Botaira, em fijiano, significa pôr-do-sol.

Dias 3 a 8 (É, 8 mesmo)
Depois de dois dias, decidi que já era hora de testar os outros resorts e talvez conhecer a floresta de Taveuni.

O tempo, porém, tinha outra ideia: deixou-me subir novamente no barco amarelo e chegar, sob chuva forte, em um barco lotado de turistas enjoados, no resort Blue Lagoon. Mas daí em diante não deixou fazer mais nada. Um ciclone tropical tinha se acercado a Fiji, e a chuva e o vento quase não pararam por cinco dias.

Um ciclone tropical tinha se acercado a Fiji, e a chuva e o vento quase não pararam por cinco dias

Eu poderia chorar por ter perdido a oportunidade de conhecer outros resorts, ficar os outros quatro dias dentro do dormitório e do restaurante do resort lendo, jogando Monopoly com outros hóspedes e ligando para as linhas aéreas para tentar remarcar os meus voos, e passar o oitavo dia no aeroporto internacional, esperando um voo superatrasado. Mas com cinco mortos e milhares de fijianos sem casa em outras partes do país, achei que seria melhor não reclamar. O que posso dizer com certeza: o Blue Lagoon é um resort bem organizado e muito profissional, e conseguiram nos alimentar e nos entreter (mais ou menos) apesar das chuvas até que fosse possível sair. Conclusão: Fiji é um paraíso mesmo, mas é um paraíso sujeito a cancelamento por ciclones tropicais.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quinta-feira, 22 de março de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:57

Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia

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Forgotten-World-Highway-Nova-Zelândia

Uma ponte típica - com ovelhas atrás, algo ainda mais típico - da Estrada do Mundo Esquecido

O nome parece mentira, ou no mínimo uma atração da Disney: A Estrada do Mundo Esquecido. Mas assim se chama a Rota 43 da Nova Zelândia, 151 quilômetros de caminho extremamente sinuoso e bem verde, passando por povoados com nomes tipo Kohuratahi e Whagamomomona, e com muitas vezes mais ovelhas e vacas do que gente. E apesar do nome ser, para mim, irresistível, tem muito poucos turistas. É um mundo esquecido mesmo.

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A Nova Zelândia se divide em duas ilhas principais, a do Norte e a do Sul, e estava fazendo uma viagem pela Ilha do Norte em “campervan”, um furgão compacto dentro do qual – nem sei como – tem uma minicozinha com fogão e geladeira e uma cama inesperadamente confortável para duas pessoas. É uma forma de viajar muito comum naquele país, e muito econômica: eu paguei 64 dólares nova-zelandeses por dia, o equivalente de R$ 98.

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

Comecei na neblina das 8h em Tamarunui, onde peguei um mapa das atrações da estrada no i-SITE (o centro de informações turísticas). Fácil, pensei. Ia percorrer os 151 quilômetros em três ou quatro horas e chegar ao Parque Nacional Mount Egmont, que estava no fim das estrada, para fazer uma trilha de três horas, à tarde.

Mas com cinco minutos de estrada soube que não ia dar tempo para a trilha. Após cada curva, um cenário mais lindo, mais verde, mas pitoresco. E quem sabia que as ovelhas eram tão fotogênicas?  Ovelhas na neblina! Ovelhas no morro! Ovelhas do lado de lá de um rio!

Há décadas sou um fotógrafo chato – é só perguntar para meu irmão como era esperar enquanto eu escrevia os detalhes de cada foto que tirava quando tinha 12 anos.  Mas virei mais chato ainda com essas ovelhas, parando o campervan a cada três minutos. (Sorte que estava sozinho) Até comecei a experimentar como fazer as ovelhas olharem para a máquina. Testei várias formas de atrair sua atenção – apitos, tosses etc. Ao final, o que funcionou foi um beijo. Clarificando – o som de um beijo. E posavam mesmo.

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Os animais não eram as únicas razões para parar.  Tinham prédios tão velhos que pareciam abandonados, mas em condições suficientemente boas para me deixar em dúvida. No “Te Whakarae Community Hall”, um prédio cinzento, que pelo nome deve ter sido (ou ainda era) uma sala de reuniões para a comunidade, fiquei com tanta curiosidade que tentei entrar pela porta. Fechada. Droga.

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Depois de quase 40 quilômetros de estrada, uma decisão: fazer um desvio de dez quilômetros até Ohura, um povoado que, segundo o mapa, tinha um pequeno museu. Fica longe? Talvez seja muito chato. Mas se eu não for e o lugar for muito legal?  Ah, que saco, vamos lá. (É, eu falo assim comigo quando viajo sozinho)

Ohura é um povoado muito sossegado. Ou melhor, MUIIITTO. Na rua principal tinha lojas de dois tipos: fechadas e abandonadas. E era meio-dia de uma sexta-feira. O museu também estava fechado, e um papel na porta indicava para ligar para Charley ou procurar ajuda na loja da esquina. Claro que não tinha sinal no celular e a loja da esquina estava fechada (já há muitos anos, descobri depois). Mas era só perguntar para a primeira pessoa que aparecesse onde morava Charley.

- Noites quentes e dias agitados no inverno da Islândia

O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

Ir para a casa dele – a só um quarteirão do museu – me lembrava muito o sistema existente nas cidades do interior no Brasil.  A chave da igreja histórica sempre fica com uma senhora que mora perto. Chegando à casa, foi a esposa Janet que abriu a porta. Ela era maori, descendente do povo indígena da Nova Zelândia, agora uma minoria importante da população. (Bom, nem tão indígena, só chegaram no século 13, mas mais indígena do que os europeus que chegaram no século 17)

“Quer um café?”, ela me perguntou.

Então, resumindo: não ia ter trilha à tarde. Quem me conhece sabe que nunca vou recusar um convite para cafés.

“Café instantâneo”, disse Charley, aparecendo na cozinha para contradizer a esposa, algo que ele faria (e ela também) várias vezes nos próximos minutos, mas de forma legal. O Charley era um senhor de barba branca, tinha uns 75 anos e estava apaixonado por bicicletas. Tanto que, incluído no tour do museu (ou seja, inevitável antes de escapar da casa dele), estavaum tour na oficina onde ele fazia bicicletas para os netos.

Charley e Janet se mudaram para Ohura há poucos anos; antes moravam na cidade de Hamilton, onde ele era motorista de ônibus. Agora ele cuida do museu e Janet faz parte de vários comitês na cidade, inclusive o do Cosmopolitan Club, um clube social cujo nome parece absurdo numa cidadezinha no meio do nada, onde quase não mora ninguém.

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Por fim, fomos para o museu, e juro que é um dos museus mais interessantes que já vi na vida. Claro que ajudou ter um guia pessoal (o Charley) para me mostrar os objetos, quase todos doados por alguém (ou alguma empresa) da cidade: telefones velhos, máquinas velhas da agência de Correios que fechou há décadas, uma cabana de madeira, livros amarelados com dicas antiquadas para mães sobre como cuidar de bebês, e uma coleção fascinantes de máquinas agrícolas que parecem impossivelmente antigas. Um mundo esquecido mesmo.

Charley e Janet Hedges em Ohura

Charley e Janet Hedges em Ohura

De volta à estrada, não parava de ver coisas curiosas.  Enxerguei o que pareciam caixas de arquivos umas em cima das outras, no meio do pasto. Chegando mais perto, descobri que dentro havia colmeias onde abelhas produziam mel. E, alguns quilômetros depois, tive que parar por causa das centenas de ovelhas que bloqueavam a rua enquanto voltavam para casa (depois de um dia difícil comendo pasto em algum campo vizinho, imaginava. Graças aos cachorros que cuidavam delas (e os humanos que cuidavam dos cachorros), só tive que esperar uns cinco minutos para passar.

A próxima atração era o túmulo de John Morgan, um dos pioneiros da área que morreu em 1895 fazendo um levantamento topográfico, que resultaria na mesma estrada que eu estava percorrendo. Eu prefiro ser cremado, não enterrado, mas se esse fosse o caso, seria legal ficar para sempre em um lugar tão lindo como o de John Morgan, um cantinho tranquilo de floresta ao lado da estrada. (A esposa, que morreu décadas depois, está enterrada com ele)

Já era hora de almoçar, e encontrei o lugar perfeito: um mirante incrível na parte mais alta da estrada, com morros verdes infinitos se estendendo para todos os lados e, para variar, algumas ovelhas também. Na cozinha do campervan, preparei uma salada de espinafre, peras, abacate e brócolis, e comi com biscoitos salgados e queijo cheddar, lá ao sol. (Esqueci de dizer que a neblina tinha sumido horas atrás)

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

E, finalmente, a cidade mais famosa do “mundo esquecido”, Whangamomona. (Para complicar as coisas, o “wh” se pronuncia como “f” em palavras de origem maori) A cidade – agora composta só por alguns prédios históricos e cento e poucos habitantes – é meio famosa no país por ter declarado sua “independência” em 1989. A causa original era uma disputa política, mas agora virou o cartão de visitas da cidade. A cada dois anos, em janeiro, celebram o “Dia da República” e até elegem um presidente.  Dentro do Whangamomona Hotel (onde se pode ficar por 65 dólares nova-zelandeses ou R$ 100 por pessoa, por noite) é possível ler matérias bem engraçadas sobre a história da República. Por exemplo, o primeiro presidente foi nominado sem ele mesmo ser informado, e o segundo presidente foi um bode. Você já tem uma ideia.

Eu parei lá para tomar um café – um letreiro fora do hotel diz que oferece “o melhor café por milhas”, o que é uma piada, já que a única concorrência é o café instantâneo da Janet. Também é o único lugar onde encontrei outros turistas.

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Ao final, cheguei ao parque nacional lá pelas 18h e decidi fazer uma trilha curtinha para não perder totalmente o parque (era o último dia da viagem). Optei pela Kapuni Loop Track, uma trilha de uma hora que chegava à cachoeira Dawson Falls.

Que decepção.  OK, a trilha era linda, bem-cuidada e sossegada, passando por uma floresta densa com árvores velhas e pitorescas. Mas cadê as ovelhas? Cadê os povoados pequeninhos? Cadê a emoção de não saber o que ia aparecer depois da próxima curva? E a cachoeira? Linda, mas linda dessa forma igual-a-todas-as-outras-cachoeiras-lindas-do-mundo, inclusive muitas que já vi no Brasil. Ou seja, totalmente esquecível. Muito diferente da Estrada do Mundo Esquecido, que não vou esquecer nunca.

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Autor: Seth Kugel Tags:

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012 Destinos Internacionais | 06:50

O que os brasileiros me ensinaram sobre Portugal, e a realidade

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Nunca cheguei a um país com tanta expectativa, e tantos preconceitos.

O local: Portugal.
A razão: quase tudo o que eu sabia do lugar antes de chegar veio de uma fonte duvidosa – os brasileiros.

Comecei a estudar português em 2003, visitei o Brasil pela primeira vez em 2004, e, em 2008, passei a morar no Brasil. Francamente, nunca dei muita bola para Portugal, apesar de ser o país que colonizou o Brasil e ser o lugar de origem dos antepassados de muitos brasileiros. Mas sem querer, absorvi muita “informação” sobre Portugal dos brasileiros, sem nem pensar se era verdade, exagero, ou pura mentira.

Vista geral de Coimbra, Portugal

Qualquer país gosta de tirar sarro dos seus ex-colonizadores. O exemplo que conheço melhor é o dos EUA e da Inglaterra. Segundo os norte-americanos, um inglês é alguém que:

  • Tem dentes feios e deteriorados
  • Come comida insípida
  • Toma chá o dia todo, e cerveja quente a noite toda
  • Mas, pelo sotaque elegante, parece tão inteligente e sofisticado e pode falar para um americano que dois mais dois são cinco e o americano vai acreditar.

É muito interessante comparar a imagem do país com a realidade. A última vez que estava na Inglaterra vi pelo menos algumas pessoas com dentes bons, mas ainda não acreditei na quantidade de chá que todos consomem.

Leia também: Passeios gratuitos em Portugal

Agora vamos lá com o que os brasileiros me ensinaram sobre Portugal, e a realidade que encontrei.

- É impossível entender os portugueses, pelo seu sotaque esquisito e suas palavras mais ainda.

Até soube que alguns filmes e algumas novelas portugueses são dublados em “brasileiro” (e vice-versa). E já ouvi vários brasileiros falarem que é mais fácil entender argentinos falarem espanhol do que um portuga falar português.

Vista de Coimbra, Portugal

Já sabia isto, mais ou menos, de algumas experiências com portugueses no Brasil e de alguns clips de futebol do YouTube com apresentadores portugueses (que no começo achei que fossem árabes, sério). Mas nada havia me preparado para o que encontrei em Portugal. Luísa, uma amiga portuguesa que veio me pegar no aeroporto do Porto (o aeroPorto?) me mandou um torpedo, dizendo que estava me esperando “junto à paragem de autocarro”.

Junto a que de quê?

Foi pior quando começamos a falar em português. (Quase sempre tinha falado inglês com ela até esse momento) Tive que prestar muita atenção e me esforçar muito para não rir da total falta de vogais. A pronúncia mais esquisita dela era a palavra “porque”, que juro que pronunciou “pr-q”. E não era só ela – logo percebi que era um país inteiro que parecia falar sem vogais, e alguns parecem nem abrir a boca. Sério. O país deve ter os melhores ventríloquos do mundo.

Saiba mais: Brasil e Portugal, uma saborosa relação

Botei no Twitter: “Acho que quando Dom João VI transferiu a corte real pro Brasil em 1807, levou as vogais consigo!”. (Alguns portugueses que me seguem no @tuitesdo7 não gostaram muito disso. Ms fzr o q, né?)

"Raparigas" nos uniformes da Universidade de Coimbra

No começo, quase não entendi ninguém – quando liguei para uma pousada (desculpa, hospedaria) em Coimbra, o senhor que atendeu me explicou que o quarto era 30 euros “sm peqn almç”. Pedi que repetisse várias vezes, mas até muito depois caiu a ficha: era “sem pequeno almoço”, que no Brasil seria “sem café de manhã”. Pouco a pouco me acostumei, aprendendo que ementa é cardápio e rapariga não é nenhum insulto. (“Rapazes e raparigas” virou minha frase favorita) Só não consegui lembrar de “autocarro”, saiu sempre “ôni-ups-autocarro”.

- Os portugueses tomam tudo o que você fala para eles ao pé da letra.

Parece que cada brasileiro que vai a Portugal volta com a mesma história: chega o elevador e pergunta para o português lá dentro “Tá subindo ou descendo?” e o tadinho do portuga responde “Tá parado”. De tantas vezes que ouvi a história parece que Portugal é o país com mais elevadores do mundo.

Não escutei nada tão absurdo e só uma vez ouvi algo parecido. Quando fui para o ótimo Museu Académico em Coimbra, que fica dentro de um prédio grande da Universidade de Coimbra, a porta estava fechada e tive que abrir para entrar. Perguntei ao senhor na recepção: “O museu está aberto?”. E me respondeu: “Acabas de entrar ou não?”. Nem sei se era piada ou não.

Homem idoso passa em frente do Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra

Mas percebi que os portugueses nem sempre reagiram tão bem à minha atitude meio-abrasileirada de brincar e ser extrovertido com os desconhecidos. Em Coimbra há um parquinho chamado “Jardim da Manga”, que não tem nenhuma mangueira, só laranjeiras. Achando esquisito, entrei no restaurante do lado (que também se chamava Jardim da Manga) e perguntei de muito bom humor o que tinha acontecido com as mangas do Jardim da Manga. Olharam-me como um maluco e em vez de explicar me deram um panfleto que explicava a história do lugar sem mostrarem nem um sorriso. (O nome do jardim deriva de quando o Rei João III passou pelo lugar e, vendo uma área vazia, desenhou um jardim na manga da sua camisa)

- Portugal é um país atrasado e irrelevante.
Bom, é óbvio a todos que as coisas não vão muito bem em Portugal. Mas irrelevante?

Grafite feito por alunos da Universidade de Coimbra mostra a frustração econômica dos portugueses

Minha impressão: comparado com o Brasil, um país em ascensão econômica e geopolítica, está virando meio-irrelevante mesmo, e os portugueses sabem disso. É um contraste grande com a relação entre os Estados Unidos e o Reino Unido, dois países com muito respeito mútuo (não sempre, mas em geral) e muito mais intercâmbio cultural, intelectual e político do que percebi entre Portugal e Brasil.

Foi durante minha estadia que o jornal The Guardian publicou uma matéria mostrando quantos portugueses estavam emigrando para Angola, Brasil e outros lugares. As áreas rurais que visitei eram povoadas quase só por idosos. Um português que conheci me disse com tristeza: “Portugal não produz mais nada”.

- Portugal é a fonte da paixão irracional que os brasileiros sentem pelo bacalhau.

Sempre achei esquisito que os brasileiros adorassem tanto o bacalhau. Segundo minha forma de pensar, bacalhau preservado com sal deve ser coisa do passado, da época das viagens de grande distância em barco.

Açorda de bacalhau no restaurante Ar de Rio

Por isso, é ilógico insistir em bacalhau na sua forma salgada quando se poderia ter bacalhau fresco. É igual a preferir suco de polpa ao suco natural da mesma fruta. (Os leitores são bem-vindos a defender o bacalhau deixando um comentário abaixo)

Bom, nisto minha informação sobre Portugal era certíssima. Se no Brasil o bacalhau é muito popular, em Portugal é venerado.

Admito que preparado bem, o bacalhau pode ser até bom. Luísa me levou a um restaurante chique lá em Vila Nova de Gaia, Ar de Rio, situado na beira do Rio Douro com uma parede de vidro e uma vista dos prédios históricos do Porto do lado de lá do rio. Ela queria que eu provasse a açorda de bacalhau. Admito que o prato parecia maravilhoso: um verdadeiro morro de migalhas de pão em cima do peixe com pequenas batatas ao lado.

E estava delicioso (e bem barato: 17 euros – ou seja R$ 38 – para duas pessoas). Mas não parei de pensar em que delicioso seria se fosse feito com bacalhau fresco.

- Apesar de alguns produtos portugueses (como o fado), o país depende do Brasil para sua cultura popular, como novelas e música.

Acho que nisso eu estava meio-errado. Em vez de encontrar um Portugal fascinado pelas novelas brasileiras, por exemplo, achei os portugueses orgulhosos de estar produzindo as suas próprias novelas e pouco a pouco curando-se do vício das novelas brasileiras.

Mas a música brasileira aparecia muito, desde minha primeira noite no país: eu sentado no restaurante Democrática comendo chanfana (guisado de cabra com molho de vinho tinto) ao lado de um grupo enorme de alunos universitários que começaram a cantar. O quê? “Ai se eu te pego”, óbvio.

O castelo de Bragança: um exemplo dos lugares antigos que não existem no Novo Mundo

Nossa, tudo isso parece tão negativo, acho que não dá para perceber que adorei meu tempo em Portugal. Adorei mesmo. Semana que vem conto mais, mas vamos começar com algumas coisas que são muito melhores em Portugal do que no Brasil. Primeiro, quase tudo é mais barato. Segundo, as cidades históricas, os castelos e as ruínas romanas são incomparáveis com o que tem no Brasil. E que me desculpem todos os paulistanos que adoram o pão “francês”: O pão português, até na sua versão mais simples, tem mil vezes mais substância, mais sabor, mais caráter que o pão comum brasileiro.

Esse pão português é muito bom

Mas o que mais adorei de Portugal? No Brasil, apesar das minhas milhares de horas de esforços para aprender a falar português, nunca passo por brasileiro. É só ouvir meu sotaque em português e percebem rapidamente que sou gringo. Mas muitos portugueses escutaram meu português abrasileirado e a primeira coisa que me falaram foi: “És brasileiro?”.

Ah, portugueses queridos, é só continuar achando que sou brasileiro e eu vou voltar muitas vezes e até comer todo o bacalhau que vocês me derem.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012 Destinos Internacionais, Sem categoria | 06:49

Quais as metas das suas viagens? Uma teoria sobre o turismo

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Os que estudam Turismo na faculdade desfrutam de várias opções profissionais: trabalhar na indústria hoteleira, por exemplo, promover a sua cidade natal em algum conselho de turismo ou até ajudar as cidades-sede da Copa do Mundo a mal administrar os recursos governamentais. Todas legais. Mas existe outra que sempre achei misteriosa: podem virar professores de turismo.

A parte de dar aula até entendo. Mas os professores também pesquisam. Um historiador pode analisar as origens da Revolução Francesa, um biólogo pode trabalhar com células-tronco procurando curas de doenças. Mas o turismólogo investiga o quê? Se o consumo de Matte Leão na praia de Ipanema se correlaciona com as fases da lua?

A escolha de algumas metas da sua viagem podem afetar o bem-estar do viajante, não só durante a viagem, mas também depois - Foto: Tribo Masai, na Tanzânia - Getty Images

Ah, turismólogos, sei, vocês não merecem tal abuso, é ruim suficiente ter que aguentar a palavra absurda “turismólogo”. Mas, sério, para saber o que fazem esses especialistas decidi pesquisar, lendo os jornais acadêmicos deles e entrevistando alguns. Os resultados são interessantíssimos: alguns estudam assuntos como turismo sustentável, outros prestam consultoria para as redes hoteleiras para determinar quais qualidades fazem com que o hóspede volte etc. Mas os melhores são os que avaliam o papel da viagem nas nossas vidas. Se nós, jornalistas, somos os pesquisadores da viagem, esses professores são os nossos filósofos. (E como quase todo mundo, não lhes damos atenção suficiente)

O mais interessante artigo que encontrei foi o trabalho de Joseph Sirgy, um turismólogo na Virginia Tech, uma universidade respeitada nos Estados Unidos. Trata de um dos temas favoritos desses turismólogos: como as viagens afetam o bem-estar e a qualidade de vida do viajante, não só durante a viagem, mas também depois.

A pergunta é muito legal. Gastamos muito dinheiro e muito esforço para empreender uma viagem, e tomamos como certo (até óbvio) que vai melhorar nossa vida, pelo menos temporariamente. Mas às vezes voltamos decepcionados, outras vezes simplesmente cansados precisando das famosas “férias das férias”. E as viagens que vão bem são descansos temporários, ou são capazes de melhorar nossas vidas permanentemente? (Pelo menos, nós que não somos Elizabeth Gilbert, autora de Comer Amar Rezar?)

São, diz o professor Sirgy, que desenvolveu uma teoria de turismo baseada na “teoria das metas” da psicologia. A ideia é usar o que sabemos sobre as metas que criamos para nós mesmos na vida em geral, e ver como aplicar as mesmas ideias para as metas que criamos para nossas viagens.

O trabalho foi considerado o “paper do ano” do Journal of Travel Research em 2010, mas o Sirgy diz que é mais um começo do que um fim – uma primeira tentativa. Ainda assim, achei bem útil – até provocativo – para nos ajudar a pensar por que viajamos e como planejamos as viagens. Antes de ler, pense bem: quais foram as metas das suas últimas três viagens de férias?

Nas suas férias, busque um lugar que tenho o que falta na sua vida - Foto: Lençóis Maranhenses, Maranhão - Getty Images

Nas suas férias, busque um lugar que tenha o que falta na sua vida - Foto: Lençóis Maranhenses, Maranhão - Getty Images

Agora vamos lá. Vou resumir só a parte na qual o Sirgy propõe quais metas funcionam melhor parar afetar muito mais do que a qualidade da sua viagem – podem melhorar a qualidade da sua vida em geral, em áreas como as relações interpessoais, a auto-estima ou o seu conhecimento do mundo.

Mas para fazer isso é preciso escolher:

1) Metas intrínsecas mais do que extrínsecas. Metas intrínsecas têm valor em si. Podem incluir: reparar relações familiares, ajudar as pessoas necessitadas, melhorar a saúde. Metas extrínsecas podem incluir, por exemplo, ganhar muito dinheiro. Ou seja, adeus Las Vegas. Olá levar os filhos para um retiro de ioga.

2) Metas de alto nível e não de baixo nível. Metas de alto nível são mais abstratas, como “quero entender culturas diferentes da minha.” Uma meta de baixo nível é mais concreta: “Quero visitar três museus em cada um de três países”. O interessante é que qualquer meta de alto nível precisa de metas de baixo nível para ser implementada – o importante é reconhecer que o verdadeiro fim é essa meta anterior.

3) Metas que tratam de crescimento pessoal são melhores do que as que satisfazem só necessidades básicas. Ou seja, as férias que valem só para descansar na praia terão menos efeitos duradouros do que as que procuram algo mais pessoal, como explorar a cultura do país de origem dos seus avós. (Se o país de origem dos seus avós tiver praias lindas para descansar nos últimos dias da viagem depois de cumprir a outra meta, melhor ainda)

4) Metas que se cumprem buscando algo positivo mais do que querendo escapar de algo negativo. A viagem que se faz para “deixar de pensar no trabalho”, então, têm menos efeito positivo do que a viagem para “aprender a cozinhar comida italiana”. Mais uma vez, é só mudar a forma de pensar: sua viagem para uma escola de gastronomia em Roma também pode (e deve) servir para escapar do cotidiano. Só que tem consequências duradouras também.

5) Metas que levam em conta o que falta na sua vida diária. Imagine dois casais que vão passar uma semana em uma praia do Caribe – o primeiro mora nas montanhas do interior de Santa Catarina, o outro em Ipanema a dois quarteirões de Posto 9. Qual vai aproveitar mais? Embora essa seja a praia mais sossegada e mais diferente de Ipanema que se possa imaginar, ainda é praia, o que os cariocas já têm. Melhor viajar para as montanhas do Nepal.

6) Metas que você escolha autonomamente. Ou seja, é você que desenha o roteiro. Faça uma viagem independente. Evite os tours organizados com agenda ditada. Determine morte ao pacote!

Para resumir: vale a pena pensar na viagem não como um prêmio depois de ter trabalhado muito, nem como só um descanso, nem como a oportunidade de escapar. Deve fazer parte da narrativa global da sua vida, com metas que deixem você crescer como pessoa, desenvolver novos interesses, aprender algo ou ficar mais saudável. Dentro dessa estrutura, claro, ainda dá para se divertir e descansar e até tomar todo o sorvete que quiser.

As suas viagens atendem às expectativas? Para mim, a resposta é fácil: algumas sim, outras não.

Arquivo pessoal

Viajar com a família da minha aluna Sheyla (na foto, entre suas duas priminhas) para a República Dominicana marcou a minha vida

Entre as “sim” estão as viagens que fiz com meus pais e meu irmão, quando criança, para conhecer a Europa pela primeira vez ou para fazer uma “road trip” pelo meu próprio país. Resultado: uma família fortalecida (e unida até hoje) e um filho que cresceu fascinado pelas culturas diferentes.

Também: o verão, quando era professor de escola primária e desisti de férias normais para aceitar o convite dos pais imigrantes de uma aluna minha para acompanhá-los à República Dominicana. Essa viagem ajudou a entender a cultura dos meus alunos quando voltei e me despertou um interesse na imigração que dura até hoje e faz parte da minha carreira (Contei esta história na minha primeira coluna).  E finalmente, qualquer fim de semana que decido viajar a Washington para visitar meus sobrinhos em vez de fazer o de sempre – sair para jantar ou ir a uma festa ou um bar na cidade onde estiver.

A teoria do Sirgy me convenceu quase totalmente: fiquei com uma dúvida só.  Sabemos que diferentemente dos norte-americanos, muitos brasileiros (e muiiiiitttas brasileiras) viajam com o único propósito de fazer compras no exterior. O porque é óbvio: preços absurdos no Brasil.  Esse tipo de viagem vale para melhorar a qualidade de vida? A evidência, segundo a teoria, é mista: fazer compras não parece ser uma meta intrínseca, nem de alto nível, nem faz muito para o crescimento pessoal.  Mas é uma atividade autônoma e, sem dúvida, é algo que falta na vida diária dos brasileiros: preços razoáveis. E mais ainda: as compras bem feitas têm efeitos duradouros para melhorar sua vida – talvez de forma material, mas ainda assim duram muito mais do que um bronzeado de praia.

Vou escrever para o Professor Sirgy e ver o que ele acha, e dou um retorno para vocês. Até lá, eu apoio provisoriamente suas viagens de compras, pelo menos as que fazem fora de qualquer pacote.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011 Destinos Internacionais, Seth Erros | 05:55

Seth Erros no inverno islandês

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1)   Beber tanto na balada e acordar tarde no dia seguinte: no inverno, não se pode perder nem um minuto de luz.

2)   Perder o Museu Nacional. Esta deve ser a primeira parada no país (até um substituto do Duty Free Shop).

3)   Sentir a obrigação de gastar 100 reais na Blue Lagoon.

4)   Comer carne de baleia sem pesquisar um pouco na internet sobre a polêmica sobre a caça destes animais. São controversos, mas argumentos existem dos dois lados.

5)   Ficar só em Reykjavik. Mas cuidado se nunca dirigiu sob neve antes.

6)   Procurar vida noturna em Reykjavik todas as noites do inverno. Apesar de ser famosa pelas baladas, é um fenômeno de final de semana.

7)   Não provar os doces de alcaçuz, nem a cerveja Viking, nem o Rúgbrauð (pão de centeio, muito denso), nem o skyr (iogurte islandês), nem o tubarão podre.  Ah ok, pode evitar o tubarão podre. E, se alguém perguntar, é só dizer “provei, é nojento.”

Leia também:
Noites quentes e dias agitados no inverno da Islândia

Notas relacionadas:

  1. Seth erros para não fazer se você quiser conhecer a cultura local (na Turquia e no mundo)
  2. Seth erros para evitar no CouchSurfing… e em Istambul
  3. Seth erros dos turistas norte-americanos
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quarta-feira, 5 de outubro de 2011 Destinos Internacionais | 07:55

Península de Yucatán: muito além de Cancún

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Eu adoro Cancún, apesar de nunca ter pisado nas suas praias de areia branca. Ou amarela. Ou roxa com estrelas verdes. Quem sabe? Como eu disse, nunca pisei.

É que estou apaixonado pelo aeroporto de Cancún. Não porque esse é um aeroporto que merece ser a oitava maravilha do mundo, mas por sua localização e seus voos baratos e diretos de muitos lugares, e porque Cancún está situada no lugar ideal para explorar a parte mexicana da península de Yucatán, formada por três Estados mexicanos e 160 mil quilômetros quadrados – grande, mas com estradas decentes e lotadas de sítios arqueológicos, cidades históricas e cochinita pibil (prato tradicional da região que nada mais é do que porco marinado em suco de laranja-azeda e urucum, assado lentamente enrolado em uma folha de bananeira).

Tenho certeza de que a cidade de Cancún é ótima para os que gostam de praia e margaritas servidas na sua mesa de praia e, pelo que sei, a cidade tem bons restaurantes, algumas ruínas maias e até um ótimo museu. E com certeza é um sucesso absoluto: Cancún é uma invenção turística dos anos 70 – a cidade nem existia antes e não aparece nos mapas dos anos 60. Incrível. Mas praia não é minha praia, e as cidades lindas e ruínas sem fim que ficam perto são irresistíveis.

Cancún é mais que belas praias: o local tem bons restaurantes, ruínas maias e até um ótimo museu

LEIA TAMBÉM:

Seth Erros para evitar no México
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Os três Estados, Quintana Roo, Yucatán e Campeche, formam quase um país inteiro – maior do que Portugal, Grécia ou Cuba – e (junto com a Guatemala) é o centro da antiga e gloriosa cultura maia. Se não confia em mim, que fui uma vez só, pode confiar na Unesco, que classificou cinco das suas atrações – três arqueológicas, uma cidade histórica e uma reserva natural – como Patrimônios da Humanidade.

Em uma semana dá para visitar as cinco com um carro alugado no aeroporto de Cancún, e depois ficar mais alguns dias num resort da cidade. A duas horas do aeroporto estão as ruínas de Chichén Itzá, a antiga cidade construída ao longo de séculos pelos maias e toltecas e, de longe, a mais famosa atração da península. Mas cuidado: é insuportável entre as 10h e as 15h, e não só pelo calor. É porque sofre dessa praga de todos os sítios megaturísticos: turistas. Os ônibus começam a chegar dos resorts de Cancún e não param, e grupos enormes (inclusive muitos americanos tão vermelhos que parecem que nem sabem o que é protetor solar) lotam os templos construídos pelos povos maia e tolteca.

Ruínas de Chichén Itzá, antiga cidade construída pelos maias e toltecas

Mais intoleráveis que os turistas, claro, são os vendedores espertos de souvenirs bregas. Quando eu fui para lá, em 2005, para escrever uma matéria sobre a Unesco, conheci um vendedor de souvenirs – Ermenegildo Kahum Kem – que tinha aprendido a dizer “Não vai levar nada para a sogra?” em cinco idiomas.

A solução é fácil: chegar logo no começo do dia – às 8h – ou muito melhor, entre 14h e 15h, quando os ônibus já começam a ir embora. A diferença é incrível. O lugar volta a ser mágico, e um pouco antes das 17h, você estará quase sozinho e pode explorar as ruínas como se você fosse dono do local. E para os fotógrafos, a luz ótima do final da tarde significa que você vai tirar fotos muito melhores do que os camarões americanos que visitaram a antiga cidade suando no meio-dia.

Daí é só chegar à cidade Mérida, capital do Estado de Yucatán, localizada a 120 quilômetros de distância de Chichén Itzá. Apesar de não ser considerada Patrimônio da Humanidade, Mérida é linda e tem um calendário sempre lotado de eventos culturais e restaurantes que servem  a comida tradicional do Estado. Perto da cidade – a 80 quilômetros – estão as ruínas de Uxmal, uma cidade fundada no século 6 (ou antes, não se sabe precisamente) pelos maias. Como Chichén Itzá, é classificada como Patrimônio da Humanidade, mas não fica tão lotada, assim, que dá para conhecer a qualquer hora, e ainda dá para esticar a visita para outras ruínas da região e para as Grutas de Loltún.

O próximo destino é Campeche, meu lugar favorito da península: uma cidade que foi totalmente restaurada e transformada para se candidatar para o status de Patrimônio da Humanidade em 1999. O resultado: um centro encantador, com casas antigas pintadas em tons pastel e uma muralha maravilhosa que foi construída no final do século 17 para proteger a cidade de colonização espanhola contra os ataques constantes dos piratas. Apesar de ser capital do Estado de mesmo nome, o lugar fica bem tranquilo e sem muitos turistas; em outras palavras: é um lugar perfeito para explorar e conhecer as atrações, que são o orgulho da cidade.

Campeche: lugar perfeito para explorar

Agora, a parte mais chata do tour da península: os aproximadamente 300 quilômetros entre Campeche e a próxima parada, a reserva natural e as ruínas de Calakmul, que virou patrimônio só em 2002. Mas a localização isolada tem uma vantagem também: o lugar é pouco visitado. Calakmul foi uma cidade muito importante no passado: ocupou 70 quilômetros quadrados, teve até 60 mil habitantes e existiu por 12 séculos. Incrivelmente, só começou a ser escavada por arqueólogos em 1985. Está dentro de uma “reserva biosférica”, por isso não fique surpreso se, quando você subir os templos, algum macaco te acompanhar pelo caminho (tem onças também, mas elas são menos sociais). Calakmul fica longe de outras cidades, mas se não quiser chegar e sair no mesmo dia, pode ficar dentro da reserva e perto das ruínas no lindo Hotel Puerta Calakmul (ou, opção mais barata: pode acampar).

O próximo patrimônio no caminho de volta para Cancún é a Reserva Biosférica Sian Ka’an. Fica na costa, ao Sul da Riviera Maia, mas é muito mais isolada e tranquila, com estradas de terra e praias desertas (ou pelo menos mais vazias do que as de Cancún). Dentro da reserva dá para pescar, observar 300 espécies de aves, e até fazer um tour de caiaque.

Da cidadezinha de Punta Allen (onde fica a hospedagem da reserva) são só 3 horas para voltar até Cancún. E, se tiver tempo, descansar na praia mais alguns dias. Ou, se não tiver, voltar diretamente para meu lugar favorito, o aeroporto internacional.

Autor: Seth Kugel Tags: , ,