Fiji é o paraíso, mas combine isso com a meteorologia antes
Fiji, nação de 300 ilhas no meio do Oceano Pacífico – é o tipo de lugar exótico que você talvez viu na televisão, mas pensa que nunca na vida vai conhecer. E como que eu, que nem te conheço, pretendo saber o que você está pensando? Porque eu também nunca imaginava que ia chegar a um lugar tão longe – a 14.000 quilômetros do Rio de Janeiro. E olha que eu viajo 200 dias por ano. A lua? Talvez. Fiji? Lá no meio do nada? Nunca.
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(Detalhe: Não costumo usar “no meio do nada”, uma frase meio-ofensiva, porque se eu falasse assim sobre um vilarejo no sertão, alguém do próximo vilarejo me escreveria para reclamar que não está no meio do nada, está ao lado da casa dele. Mas no caso de Fiji, vou me arriscar: o “nada” é o vasto oceano Pacífico e os únicos que poderiam reclamar são os peixes, poucos dos quais leem esta coluna)
Mas, incrivelmente, até a quarta-feira passada estive em Fiji. Por quê? Porque como talvez você já tenha lido por aqui, estava na Nova Zelândia e na Austrália, e quando pesquisei sobre a viagem com um amigo neozelandês, ele me mencionou que os turistas daqueles países vão muito para Fiji e outras nações longe-pra-caramba para nós (mas, não para eles), tipo Samoa e Tonga e Taiti.
Da Nova Zelândia é só pagar uns R$ 600 por uma passagem e ir tranquilamente de Auckland para Nadi, em Fiji, em três horas. (Tranquilamente só se você não for fã do seriado Lost. Sendo fã, como eu, você olha pela janela as águas do Pacífico e acha que o avião vai quebrar em dois pedaços e te depositar numa ilha com um monstro de fumaça e ursos polares). Eu planejei passar uns seis dias, onde iria conhecer Yasawa, um arquipélago de pequenas ilhas onde nos últimos anos se abriu uma série de resorts a preços razoáveis, e depois conhecer uma ilha maior, com floresta e praia, a Taveuni.
Ou seja, seis dias para testar se Fiji é mesmo o paraíso que todos nós imaginamos.
Dias 1 e 2
O barco amarelo “Yasawa Flyer” é um mal necessário para turistas de verba limitada. Um catamarã amarelo que serve para levar para os resorts turistas sem dinheiro para pagar por uma viagem de hidroavião ou tempo para pegar carona com um pescador. (Boa dica é de comprar um “Bula Pass” por alguns dias, que permite ir de um resort a outro sem pagar passagens adicionais).

O resort fica na ilha Naviti, rodeada de morros baixos e uma franja de areia amarelada traçando a costa
Por que um mal necessário? 1) Nunca é bom estar em um grupo enorme de turistas. 2) Pior ainda se muitos desses turistas forem jovens indo aos resorts só para ficar na praia e beber noite e dia. Nada contra, mas porque ir tão longe, para ilhas tão preciosas, e fazer o que se pode fazer na praia local? 3) O pessoal do barco, que ajuda a reservar os resorts, é meio antipático. Eu também seria se tivesse que aguentar as demandas de mil turistas por dia.
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Eu nem tinha feito reserva em um resort antes de subir a bordo – apesar do perigo de ficar sem lugar para dormir, eu sempre acho melhor pesquisar ao vivo, com inteligência humana, ao invés de buscas cibernéticas. Desta vez, mais uma vez, deu certo. Conheci a Helen, uma inglesa residente há 15 anos em Fiji e consultora de turismo sustentável que estava levando um grupo de jovens alunos universitários norte-americanos para estudar turismo ao vivo. Superssimpática e com muito conhecimento da área, me contou quais eram os resorts dos bêbedos que não respeitavam a cultura local, e quais eram os mais calmos. O melhor resort, segundo ela, era o Botaira, cujo dono é das ilhas e tem boas relações com os povoados tradicionais do local. Era lá que ela estava levando os alunos. “Você é bem-vindo”, me disse.
Eu não ia poder pagar por um “burê”, uma das casas tradicionais, que custa mais de R$ 400 por noite, e o pessoal do barco falou que os dormitórios reservados para mochileiros não estavam disponíveis. Mas Helen (que não tinha ideia de que eu era jornalista) me apresentou para o Jerry, um fijiano grande, mas calmo, com uma voz afável, e perguntei se tinha um lugar para um pobre viajante que não queria ficar com os jovens bêbedos. Ele me deu uma cama no dormitório por aproximadamente R$120 por dia, incluindo as três refeições.
Fomos deixando turistas em várias ilhas, cada uma mais perfeita do que a anterior, mas nenhuma mais do que a Naviti, onde ficava o Botaira. Um barco menor nos pegou no grande catamarã amarelo e nos levou para uma pequena baía rodeada de morros baixos e verdes e uma franja de areia amarelada traçando a costa. A única construção visível era uma estrutura tradicional de madeira com uma varanda. E nela, um grupo do resort cantava uma música tradicional para nos dar as boas-vindas. Na chegada, a palavra mais ouvida nas ilhas de Fiji: “Bula!”. Ou seja, “Olá!” ou “Tudo bem?”, “E aí?”. Só que não dá para falar fraco, tem que quase gritar com alegria: BULA!
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Apareceram sucos tropicais para todo mundo; o meu era de goiaba. Cada uma das pessoas se apresentou, todos de cor negra, como a maioria dos fijianos. (Também há uma minoria de indianos, mas eles moram nas ilhas principais e não nessas pequenininhas) “Acho que seria impossível estarmos mais felizes do que estamos nesse momento”, disse uma aluna de 18 anos, a Emily.
Difícil não concordar. Os alunos – divididos em quatro por burê –, correram para botar roupa de praia e entrar na água. Eu fui para o meu dormitório muito básico – só beliches, com privada externa – mas era só para mim, porque o resort tinha sido reservado só para os alunos (eles nem anunciam no site o dormitório que fiquei). Apesar dos alunos serem muito simpáticos, eu os evitei a maior parte do dia e aproveitei os momentos que tinham aula com Helen para ter o resort todo para mim. Um paraíso particular? Isso mesmo, pelo menos algumas hora por dia.
Remei até o centro da baía em um caiaque em um dia, fiz snorkeling em outro, e a poucos metros da praia vi um arco-íris de peixes tropicais no recife de coral quase tão colorido quanto os peixes. Não vi tubarões (alguns dos outros resorts tinham mais), mas fiquei fascinado pelas ostras-gigantes, moluscos absolutamente enormes, cada um com uma coloração diferente e, apesar de parecerem imóveis, estavam prontos a fechar a “boca” quando algum inimigo (ou um braço humano) se aproximasse. (Se eu assistisse Bob Esponja, eu te contaria que lembrava muito o episódio no qual uma ostra-gigante tenta comer a Sandy e, tentando resgatá-la, Bob Esponja fica preso dentro da ostra. Depois, Sandy tem que… Ah, esquece, como falei, nem assisto).
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Também aproveitei a oportunidade de visitar o vilarejo de Soso, onde mora a maioria do pessoal do resort. Era só pedir um guia da administração (me deram o Chris, estagiário de chef), subir um pequeno morro, descer até a praia do outro lado, e andar mais dez minutos pela praia. No vilarejo, que parecia uma comunidade ribeirinha da Amazônia – só que as casas não eram de palafitas –, dava para visitar a igreja e a escola, onde os alunos só falam inglês, o idioma dos colonizadores que se tornou um idioma oficial depois de Fiji ficar independente em 1970.
Em Botaira (como em vários outros resorts) fazem um esforço que me parecia bem sincero de mostrar costumes fijianos para os hóspedes. O mais popular, de longe, é o uso da “kava”, uma bebida feita de uma raiz que (te dizem) tem efeitos sedativos e relaxantes. Pessoalmente, eu não senti nada, mas pelo menos o sabor não era tão ruim como muitas bebidas “tradicionais” ao redor do mundo. A kava não se bebe à vontade, tem toda um sistema formal, batendo palmas e falando palavras em fijiano depois de beber de um recipiente comum. O Gerry nos explicou que só recentemente havia kava suficiente para todo mundo tomar. Antigamente era preparada nas bocas das meninas virgens, que mastigavam a raiz e a depositavam diretamente na boca dos caciques. Ah, os bons e velhos tempos.
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Mas o mais especial foi o pôr-do-sol. Como a baía dava perfeitamente para o ocidente, o sol se punha precisamente no centro do horizonte, e com um drama impressionante. O sol caiu. Fez uma pausa. E do nada, parecia que latas celestiais de tintas cor-de-rosa e laranja explodiram no céu. Foi o Knox, o barman, que me contou que Botaira, em fijiano, significa pôr-do-sol.
Dias 3 a 8 (É, 8 mesmo)
Depois de dois dias, decidi que já era hora de testar os outros resorts e talvez conhecer a floresta de Taveuni.
O tempo, porém, tinha outra ideia: deixou-me subir novamente no barco amarelo e chegar, sob chuva forte, em um barco lotado de turistas enjoados, no resort Blue Lagoon. Mas daí em diante não deixou fazer mais nada. Um ciclone tropical tinha se acercado a Fiji, e a chuva e o vento quase não pararam por cinco dias.
Eu poderia chorar por ter perdido a oportunidade de conhecer outros resorts, ficar os outros quatro dias dentro do dormitório e do restaurante do resort lendo, jogando Monopoly com outros hóspedes e ligando para as linhas aéreas para tentar remarcar os meus voos, e passar o oitavo dia no aeroporto internacional, esperando um voo superatrasado. Mas com cinco mortos e milhares de fijianos sem casa em outras partes do país, achei que seria melhor não reclamar. O que posso dizer com certeza: o Blue Lagoon é um resort bem organizado e muito profissional, e conseguiram nos alimentar e nos entreter (mais ou menos) apesar das chuvas até que fosse possível sair. Conclusão: Fiji é um paraíso mesmo, mas é um paraíso sujeito a cancelamento por ciclones tropicais.
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