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quinta-feira, 10 de maio de 2012 Brasil | 06:42

Um teste do aeroporto de Guarulhos antes da invasão dos gringos

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Admiro André Franco Montoro, ex-governador de São Paulo e líder do movimento Diretas Já, não pelas realizações políticas que conseguiu em vida, mas por ter sido tão esperto dois anos após sua morte. Aconteceu em 2001, quando o Congresso Nacional decidiu rebatizar o Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos em sua honra. De algum lugar do céu, o governador declarou “NÃO QUERO!” E, abracadabra, o nome não pegou. Brilhante.

Quem ia querer, de verdade? O aeroporto é feio e sombrio, os pães de queijo são caros e os sanitários nem tão sanitários. Ainda assim, gosto do aeroporto. Eu não sou tão exigente para precisar de um bar de sushi, um trem-bala até o centro da cidade, um terminal cheio de luz e cores; vamos deixar essas coisas para cidades lindas. O concreto cinza e tetos baixos da sala de desembarque são megadeprimentes para quem chega de outro país após dez horas de voo, mas quem nega que representa bem a maioria da arquitetura da cidade? De certa forma, o aeroporto é uma fiel representação de São Paulo.

Outras viagens: Para inglês entender

Em Guarulhos, turistas perdem qualquer bronzeado imediatamente, por falta de luz natural

Mas eu reconheço que minha opinião é minoritária (ou talvez única). Assim que decidi avaliar, de forma objetiva, como seria a experiência de um estrangeiro chegando ao Brasil para uma reunião, umas férias, ou, sim, a Copa de 2014.

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Claro que testar os terminais 1 e 2, ambos construídos nos anos 80, não é completamente justo. O terminal 4, branquinho e novinho, acaba de abrir – mas ainda está meio vazio, usado só para voos da Webjet e quase sem serviços adicionais.  E o terminal 3, que será o maior de todos, entrará logo em construção e, segundo os planos, ficará pronto até o começo da Copa em 2014 (aham). Quem sabe se os terminais 3 e 4 vão transformar Guarulhos em um aeroporto moderno e entre os melhores do mundo (aham, aham), invalidando completamente esta pesquisa?

Terminal 4: branquinho e lindo, mas sem serviços

Bom, o teste inicial foi um sucesso. Cheguei de Nova York no sábado, prestando atenção ao processo de desembarque, imigração e alfândega. Achei tudo bem fácil: apesar de haver um pouco de confusão nos corredores onde os que desembarcam cruzam com os que estão embarcando, não tinha nenhuma fila na imigração, a mala chegou rapidinho e sai da alfândega sem os oficiais perceberem os 18 iPads na minha mala. (Nota para a Receita Federal: estou brincando.) E fui direto para o ônibus secreto que quase ninguém conhece, mas que te leva para o metrô Tatuapé por R$ 4,30.

Mas sei que às vezes há filas enormes, policiais federais que não sabem nada de inglês e falta total de ar condicionado.

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Querendo fazer mais um teste sem sair e voltar ao País, voltei na segunda-feira, simulando não falar nenhuma palavra de português e fingindo ser um gringo recém-chegado e à procura de informação, serviços, comida, transportes e os outros serviços do aeroporto. Vejam o que descobri:

Estrutura
Um aeroporto é a primeira impressão que um turista ou empresário tem da cidade. A cidade é limpa? É bonita? É eficiente? Como já falei, São Paulo não é nenhuma dessas coisas. Imagina passar por um aeroporto supermoderno e chique e depois ficar 90 minutos no trânsito para chegar ao centro de uma cidade cinzenta e suja. Que desilusão.

Mas a diferença é que a cidade é “cool” apesar de ser cinza. O concreto do aeroporto de Guarulhos é só cimento e areia; o concreto da cidade de São Paulo é cimento e areia com suplemento de arte, grafite, toques de beleza, cantinhos secretos.

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Escuro e deprimente... como São Paulo mas sem 'vibe'

O aeroporto tem pouquíssima arte: tem um mural pop de Romero Britto que dá um pouco de cor e, escondido entre os terminais 1 e 2, se encontra o Espaço Cultural Infraero, que deve ser muito lindo, mas estava fechado quando eu passei às 18h30. Mas esculturas, quadros, até exibições de grafite nas áreas públicas ajudariam muito a melhorar. Imagine um Beco de Batman ligando os terminais 1 e 2!

Minha maior queixa, porém, é a tipografia – ou seja, as fontes que usam em todo lugar. Olha as letras aqui:

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Desembarque Internacional na "Rodoviária" Internacional de Guarulhos

Parece uma rodoviária nos anos 70. E a tela que mostra as chegadas dos voos? Nunca vi tipografia tão apertada com tanto espaço em branco. Superdifícil ler. E se um passageiro que sai da alfândega e entra na área pública do aeroporto quiser encontrar o banheiro ou informações turísticas? Será difícil, porque colocaram a sinalização – e várias outras coisas – bem atrás da área onde ficam todos os motoristas, com papéis indicando o nome dos passageiros que vieram buscar. E nós que não temos motorista? Como vamos encontrar o banheiro?

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Ajuda ao turista
E que tal o tadinho do turista que chega a Guarulhos sem saber nada sobre o transporte e sem nem um hotel reservado? Boa notícia: os atendentes do balcões de informação da Infraero, da São Paulo Turismo e até da Guarulhos Convention and Visitors Bureau (para quem viajou dez horas para desfrutar das maravilhas da cidade de Guarulhos) falavam inglês e eram bem competentes.

Balcão da Infraero; bom inglês, boa atitude

Testei os três, fingindo não falar português, e pedindo dicas básicas sobre transporte (para Campinas e para o Centro de São Paulo) e hotéis (no Centro e perto do aeroporto). Tudo certo em todos os balcões. O inglês de todo o mundo era perfeito? Não, mas eu não preciso um inglês de Oxford para me contar que o Airport Bus Service fica na segunda porta à esquerda.

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A informação também não era perfeita. Para a moça que trabalhava no balcão da São Paulo Turismo, perguntei por um hotel barato perto do aeroporto. Recomendou o Matiz, dizendo que era “entre R$ 100 e R$ 300”. Em muitas cidades teriam ligado para o hotel para verificar ou até reservar, mas tudo bem. Ela era simpática. (E o preço, quando liguei, era R$184. Entre R$ 100 e R$ 300 mesmo.)

Sobre o que fazer em São Paulo por um dia, outra jovem entusiástica insistiu que eu precisava ir ao Centro para provar o “very, very big bologna sandwich”, um sanduíche de mortadela muito grande, no Mercado Municipal. E ganhei um panfleto sobre o mercado. Também recomendou a Pinacoteca e a Praça da Sé, mencionando que era necessário tomar cuidado com o celular e a máquina. Boas dicas, mas que tal uma caminhada pela avenida Paulista e uma visita ao MASP também?

O nível de inglês era aceitável. O entusiasmo era mais. É um bom começo.

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Culinária
O mínimo que se espera em um aeroporto internacional de cidade grande é que tenha opções variadas, pessoas que falem um pouco de inglês ou cardápios em inglês e um ambiente relaxante. Guarulhos, infelizmente, falha em todos.

Para quem quer um sanduíche, um pão de queijo, um hambúrguer, um quibe, uma pizza medíocre e ter de disputar por uma das poucas mesas disponíveis, tudo ótimo. Mas, hoje em dia, os aeroportos internacionais de grandes cidades oferecem muito mais, em um ambiente mais tranquilo.

Nome em inglês, mas cardápio só em português

E a situação para quem não fala português (ou espanhol, que funciona mais ou menos) é péssima. Ironicamente, o inglês é pior nos restaurantes com nomes em inglês: nem Baked Potato, nem Naturally Fast, por exemplo, têm cardápios em inglês ou pessoal que falava nenhuma palavra na língua quando eu visitei. Lugares como Viena e Balloon Café tinham cardápios em inglês, mas ninguém que falava. Um prêmio para o cara que trabalha no Frango Assado, que apesar de não ter cardápio em inglês, parou para me explicar com precisão o que era um beirute.

Internet
Novidade em Guarulhos: desde abril tem internet de graça para passageiros nas salas de embarque.  Foi impossível testar isso sem comprar uma passagem, assim que subcontratei o teste para o amigo, Rich Yang, que voou de Guarulhos ontem. Ele reportou  – só depois de chegar ao aeroporto de Montevidéu, onde a internet funciona – que, em São paulo, o sistema não aceitou o número do seu boarding pass.

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Eu tive problemas parecidos quando tentei no piso de desembarque. Mas para mim é igualmente importante, ou talvez mais, ter internet nas outras áreas do aeroporto. Para, por exemplo, chegar em um país estrangeiro e pegar os e.mails depois de um voo longo, ou abrir o Skype e ligar para a pessoa que disse que ia te pegar mas não aparece. Ou, antes do check-in, para mandar e-mails da fila interminável ou pegar o número da conta de milhas.

E chegamos a um problema. A rede pública no aeroporto, “Linktel Wifi”, está disponível em todas partes do aeroporto, não só na sala de embarque.  Bom, “disponível” no sentido de “existir”, mas não no sentido de “funcionar”, pelo menos para gringos.

Mais: A imagem do Brasil no exterior

O preço é bom: R$ 1,99 por uma hora. Só que não tem versão em inglês e sem endereço no Brasil não é possível se cadastrar. Nem cheguei ao ponto de botar um cartão de crédito.

O atendente na mesa da Infraero salvou o dia, me avisando que a loja Digital World, no segundo andar, tinha uma rede de Wi-Fi. Mas precisava estar perto da loja. Você ainda tem a opção de usar os computadores deles, que funcionavam bem. Assim que, apesar de Guarulhos não ter Wi-Fi modelo 2012, chegou pelo menos a 1998.

Tomadas
Precisa de tomadas. Mais tomadas. Meu reino por uma tomada. Quem chega de um voo internacional chega sem bateria, quem chega para um voo internacional precisa carregar. Mas esse problema não é só de Guarulhos, existe ao redor do mundo nos aeroportos mais antigos. Vamos esperar que o terminal 3 seja um paraíso da eletricidade.

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A seleção inteira de livros em inglês disponíveis na LaSelva de Guarulhos

Livraria
A única livraria que encontrei no aeroporto (fora as das salas de embarque, que não pude visitar) foi a LaSelva, que tinha pouquíssimo para o passageiro internacional. Dez títulos de livros em inglês, a maioria sobre vampiros ou algo parecido. Algumas revistas em inglês, francês e italiano, mas nada das revistas que se vê em qualquer outro aeroporto do mundo: Time, The Economist etc. Porém, tinha dezenas de cópias de “Quem Acontece”, com Michel Teló na capa.

Transporte
Quem quer pegar táxi não tem nenhum problema: o sistema, apesar de ser muito caro, funciona e quando eu fiz meu teste, os atendentes falavam um inglês suficiente. O preço é bem alto – mais de R$ 100 para os bairros hoteleiros, mas isso é assim no mundo inteiro. Por isso nunca pego táxi. A opção que me deram nos balcões de informação era o Airport Bus Service, esse ônibus executivo que chega a várias partes da cidade, incluindo Congonhas, por R$ 35. O inglês da jovem que trabalhava lá era muito, muito fraco, mas conseguiu me entender e me mostrar o horário e o preço na tela.

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(Ninguém recomendou o ônibus de R$ 4,30 para o Tatuapé, mas prefiro assim, se pessoas demais ficarem sabendo, todo o mundo vai pegar e eu nunca vou conseguir um assento.)

Também testei o inglês falado nas locadoras de carros, com resultados mistos. Na Localiza, a mera pergunta “Do you speak English” pareceu assustar tanto a tadinha da balconista que nem conseguiu responder com “Sorry”; na LocarAlpha, a mulher me disse “I don’t speak English” com sotaque tão bom que achei que estava mentindo, mas quando perguntei quanto era um carro por uma semana, ficou claro que não falava mesmo. Na Hertz e Unidas falaram bem; a menina da Unidas só não sabia falar “não tem direção hidráulica” em inglês, mas conseguiu explicar usando gestos bem engraçados que qualquer pessoa teria entendido.

Se os aeroportos brasileiros vão sobreviver à Copa, não vai ser com novos terminais e aulas de inglês e quem sabe quais bandas de samba e faixas de “WELCOME!”. Vai ser pelo charme dos brasileiros como a menina da direção hidráulica e o cara do Frango Assado que dedicou seu tempo para me explicar o que era um beirute.

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 15 de março de 2012 Brasil, Estados Unidos | 06:55

Para inglês entender

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- Veja a resposta da Embratur sobre os erros de tradução em seu site

Há 15 dias, o secretário geral da Fifa, Jerome Valcke, reclamou – de forma não muito diplomática – que o Brasil estava bem atrasado nos preparativos para a Copa do Mundo. Eu não sei falar se Brasil está realmente tão fora dos prazos para a construção dos estádios e da infraestrutura quanto diz o Sr. Valcke, ou se está no caminho certo, como diz o governo. Mas posso dizer, com certeza, que o Brasil – e mais especificamente a Embratur, agência oficial de promoção e marketing do turismo no País – está bem atrasada em outra coisa: o inglês.

Na semana passada, escrevi sobre o profissionalismo dos representantes da Embratur na feira de turismo New York Times Travel Show. Agora, vem a parte chata: a versão virtual, braziltour.com, é muito ruim. No site, que todo o mundo vê como primeira opção quando busca por “visit Brazil” ou “Brazil tourism” no Google, a informação está apresentada em um inglês tão pobre que em muitos casos nem dá para entender o que se quer dizer.  Incluindo a primeira página (home).

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

A Embratur obviamente fez um esforço grande, porque o site é bonito e lotado de fatos, informações e vídeos. Posso até dizer que a versão em português é muito legal. Mas é fato que a versão em inglês é a que importa, porque serve não só os cidadãos dos aproximadamente 60 países do mundo onde o inglês é o idioma oficial ou predominante, mas também outros países como Japão, China e Rússia, que não contam com versões nos idiomas deles.

O site existe também em espanhol, francês, italiano e alemão, mas eu não sei avaliá-los. O que posso dizer é que o inglês é péssimo. Não péssimo tipo “Você visitar Brasil. Brasil ser muita bonita.” Isso é errado, mas pelo menos dá para entender.

Vamos para alguns exemplos. As primeiras mensagens que aparecem são:

“Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup” e depois “Click here and get to know our Cities Selection”.

Li as duas frases pelo menos 20 vezes sem consegui entender nenhuma das duas.  Será que o primeiro significa “As estrelas da seleção brasileira vão estar presente na Copa do Mundo”, pensava. Ou talvez “As estrelas do céu estão alinhadas para a Copa ser maravilhosa”?

A segunda parte também foi difícil. “Cities Selection” significa o quê? Deve ter algo a ver com as cidades que vão receber a Copa, mas o quê exatamente?  Fiquei perplexo.

Rio de Janeiro

O que você entende por: “Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup”, “Click here and get to know our Cities Selection”?

Para resolver, fui para a versão em português.  Ah, “as estrelas” = “os craques”, e os craques, neste caso, são as cidades hospedeiras. Embratur, me permite?

“Brazil has recruited its biggest stars for the 2014 World Cup…”

“Its host cities! Click here to learn all about them.”

O problema é fácil diagnosticar. Já vi em muitos outros sites de empresas brasileiras, sem falar de cardápios em restaurantes e placas nos hotéis. Os que fazem as traduções de português para inglês são brasileiros.

Funciona assim. Para traduzir do inglês para o português, se deve usar brasileiros (ou portugueses, angolanos etc) bilíngues. Para traduzir do português para o inglês, precisa de tradutores bilíngues, que foram criados e educados em inglês. Não quem estudou inglês na faculdade e fez mestrado em Londres. Ou seja, precisa de ingleses, canadenses, norte-americanos, australianos, tanto faz. Podem existir algumas exceções extraordinárias à regra, tradutores brasileiros que conseguem verter profissionalmente para o inglês? Pode. Mas são poucos, caros e claramente não são contratados pela Embratur.

Eu tenho um amigo norte-americano tão fluente em alemão que grandes editoras o contratam para traduzir os best-sellers alemães para o inglês. Já ganhou prêmios por seu trabalho. Mas ele absolutamente se recusa a fazer traduções do inglês para o alemão. Porque sabe que vai ter erros.

(Ah, e claro, eu escrevo esta coluna no meu português imperfeito. Mas não publico nada antes de tê-la revisada e corrigida pela minha editora brasileira. Se quiser ver meu português na versão original, tem que me seguir pelo Twitter no @tuitesdo7.)

Voltando para o site…

O turista que clica sobre “Selection Cities” chega a outra tela. Aparece uma frase: “A cities’ schedule ready to start playing”.

“Humanity Cultural Heritages in Brazil”

“Humanity Cultural Heritages in Brazil” ou “World Heritage Site”

Tenho mais de três décadas de experiência em ler o inglês, mas ainda assim não consegui decifrar esse contrassenso. Procurei na versão em português: “Uma seleção de cidades pronta para entrar em campo”. Gente, speak serious. Nada a ver. Embratur, tome nota: “A great team of cities, ready to take the field”.

Daí dá para “conhecer” as cidades em fatos, fotos e vídeos. Cada qual com erros que variam de ruins a desastrosos. Um vídeo sobre Natal mostra o que parece ser de uma dança tradicional, com a legenda: “Plentiful cultural demonstration”. Sentido? Nenhum. Parecem palavras escolhidas aleatoriamente e colocadas juntas ao acaso.

Mas os erros mais graves ficam na página principal. Se o visitante potencial rola a tela para baixo, quase todas as outras opções têm erros também. (Uma exceção: “Golf” está traduzido corretamente como “Golf”) Mas tem uma que é imperdoável. A tradução de “Patrimônios Culturais da Humanidade no Brasil” é: “Humanity Cultural Heritages in Brazil”.

Desculpe a repetição, mas não faz sentido nenhum. Para quem não sabe, o status de “Patrimônio da Humanidade” é decidido pela UNESCO, agência da ONU. A Embratur sabe disso. Assim que encontrar a tradução correta é muito fácil. Basta ir à página do Wikipédia em português e dar um click em “English”, na coluna de “outras línguas”, do lado esquerdo. Aparecerá a mesma página do Wikipédia, em inglês. Resultado: “World Heritage Site”. Ou faça uma pesquisa por “UNESCO” no Google.com, em inglês. Saem imediatamente duas opções: “World Heritage” e “World Heritage List”.

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Felizmente, alguns erros são mais engraçados do que deprimentes. É só ir na página de Trancoso. A descrição do lugar em português é a seguinte:

“Trancoso é um povoado localizado no sul do Estado da Bahia, é hoje um lugar ideal para fugir da agitação e estresse da cidade.”

E em inglês: “Trancoso is a town on the south region of Bahia. It is now the ideal site to runaway from the effervescence and stress of the city”.

A tradução possui pelo menos cinco erros. Mas é o quinto o mais hilário. Como “agitação” chegou a ser “effervescence”, não sei dizer. “Effervescence”, em inglês, significa “o ato de bolhas de gás escaparem de um líquido”.

Ou seja, Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade. Notem bem, gringos: se vocês gostam da Coca Zero ou da água com gás, melhor escolher outro destino.

Obviamente, ninguém vai desistir de Trancoso por um erro de vocabulário. Mas desistir de um país porque não tem informação legível em seu site oficial? Com tantos outros países de olho nos bilhões de dólares do turista internacional? Isso não só é possível, é provável.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quarta-feira, 7 de março de 2012 Brasil, Estados Unidos | 06:52

A imagem do Brasil no exterior

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Turismo-Brasil-Nova York - New York Times Travel Show

O estande brasileiro no New York Times Travel Show

Promover o Brasil no mundo – pelo menos no mundo do turismo – é uma tarefa complicada. Como você faria? Qual seria o seu slogan, qual seria sua caixa-postal, como seria seu “discurso de elevador” – ou seja, se conhecesse alguém num elevador e tivesse que persuadí-lo a escolher o Brasil como destino turístico nos 30 segundos antes de sair, o que diria?

- Faça o teste no iG Turismo: Você conhece o Brasil?

Isso foi mais ou menos o trabalho da Embratur – o Instituto Nacional de Turismo – no New York Times Travel Show, uma feira de turismo que aconteceu no fim de semana passado em Manhattan. O Brasil era um dos patrocinadores principais do evento, e teve um dos maiores estandes no Centro de Convenções Javits. Eu fui para participar num painel sobre tecnologia e viagens, e fiquei depois para observar os esforços dos oficiais brasileiros e conversar com os norte-americanos que visitavam o estande sobre suas impressões do Brasil como destino turístico.

Era impossível perder o estande – pendurado no teto, visível de longe, estava o logotipo da Embratur, um tipo de ameba colorida com as palavras “Brasil” e “Sensacional”. Embaixo, atrás dos balcões, fotos enormes do Rio de Janeiro e de Foz de Iguaçu, com as frases “Brasil está te chamando. Celebre a vida aqui”. O estande estava dividido em balcões por região: Rio de Janeiro, Pernambuco, Amazonas, São Paulo, Foz do Iguaçu, Bahia e Mato Grosso de Sul, com representantes locais. E teve um espaço da TAM também, onde eu ganhei uma calculadora solar que vou usar para calcular as calorias que consumo cada vez que pego um monte dessas balas que as aeromoças oferecem no começo de cada voo.

- No iG Turismo: 30 praias para curtir o verão

New York Travel Show-Nova York-Brasil-Turismo

Contraste: no estande brasileiro, representantes explicavam a diversidade do país e davam dicas; no estande da República Dominicana os representantes dançava merengue com os visitantes

A impressão era de uma operação profissional – sorridente, mas séria, com nada de festa como no estande da República Dominicana, onde uma banda tradicional tocava merengue e era difícil uma mulher passar por aí sem ser arrastada para a pista por um dos dançarinos profissionais. Nada de fantasia, como no estande de Malásia, com mulheres em vestidos tradicionais vendendo uma imagem exótica do país. No estande do Brasil, só profissionais conversando e promovendo os destinos individuais, nada de sunga e nada de fantasia de Carnaval. Gostei.

Segundo Carolina Neri, que representava Embratur no evento, foi de propósito. O objetivo principal de passar uma imagem diferente sobre o Brasil, agora, disse, é que, por muito, tempo o Brasil se promovia pelas imagens estereotipadas: praias, futebol, mulheres e samba. Então, a mensagem número 1 é: “Não somos só Carnaval, não somos só futebol de quatro em quatro anos. O Brasil é uma diversidade de pessoas e culturas.”

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Ao mesmo tempo, tem que combater a ignorância de muitas pessoas que simplesmente não sabem nada sobre o país. “Tem muita gente que ainda acha que a América Latina é um país só”, me disse. “Tem pessoas querendo visitar que não sabe que aqui, quando é inverno, lá é verão. Ou que, para nós, o norte é mais quente do que o sul, e não vice-versa.”

O Michael Angeles, um fã do país que visitou uma vez e que eu entrevistei depois dele conversar com os representantes baianos, concordou. “Ainda existe certo nível de ignorância sobre o Brasil”, me disse. “Quando digo para as pessoas que fui pro Brasil, eles dizem ‘ah, você fala espanhol?’ e acham que as pessoas comem tacos.

New York Travel Show-Nova York-Brasil-Turismo

Tomassina Cicchini (esq., com a amiga Joyce Mulligan) não gosta do Brasil porque uma mulher brasileira conquistou o homem que ela gostava

Um exemplo era Tomassina Cicchini, que visitou o estande com a amiga Joyce Mulligan. Ela tem uma imagem distorcida do país, causada principalmente por… ciúmes. A culpa: o encanto das mulheres brasileiras. Bom, de uma mulher só. Quando ela pensa no País, só consegue pensar na menina brasileira que conquistou o homem que ela gostava e o levou para o Brasil. “Não amo o Brasil,” me disse, “porque ele seguiu a mulher e mudou para lá. E no fim teve uma desilusão amorosa. Vou falar a verdade: eu conheci a mulher, e não entendi a atração que ele sentiu.”

Ela disse, porém, que gostaria de visitar o país. Mas como ela não fala português, “acho que ficaria no lado onde falam espanhol,” disse. (Eu não fiz nenhum comentário.)

A Joyce fez um comentário interessante. A teoria dela era que as pessoas não sabiam muito do Brasil porque era um país pacífico. Enquanto não tem guerra, não sai muito nas notícias. A ideia não é tão absurda quanto parece: juro que quando era criança, só sabia de Argentina pela Guerra das Malvinas, entre britânicos e argentinos. E eu sabia muito mais sobre Nicarágua e El Salvador pelas guerras civís dos anos 80 do que sobre um país vizinho, tipo Belize. Ideia para promover o turismo no Brasil: invadir o Uruguai. (Tomar Punta del Este também ajudaria a causa…)

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Mas antes de criticar os norte-americanos, vamos lembrar que o mundo é grande e o brasileiro também não o conhece muito bem. A Nigéria, por exemplo, é o maior país da África, com 170 milhões de habitantes, quase igual ao Brasil. Qual é a capital? Quais são os idiomas principais? Ah, e quem é o presidente da China, onde reside um de cada cinco seres humanos do planeta?

É óbvio que reclamar sobre a ignorância não ajuda a atrair turistas: tem que educar.

New York Times Travel Show-Nova York-Turismo

Um turista em potencial aprende sobre Foz doe Iguaçu no New York Times Travel Show

E acho que nisso os representantes brasileiros fizeram um bom trabalho. Era bem interessante ouvir as regiões concorrendo umas com outras. “Amazonas tem natureza, mas é outra paisagem, uma floresta”, disse Alessandra Fernandes, que representava Mato Grosso do Sul e promovia o Pantanal. “Você não consegue visualizar muitos animais. O Pantanal é mais aberto.” A um metro de distância,  Nickolas Cabral dos Anjos, diretor executivo da Amazonastur, tentou convencer os visitantes que Amazonas era o destino ideal.

A Luciana Fernandes, que representava Pernambuco, me disse que explica para os visitantes que a relação custo-benefício de uma viagem para Recife é melhor do que a do Rio. “O Rio é lindo como destino, mas está muito caro”, disse.

Não faltavam visitantes com visões sofisticadas do país. Adorei os Creamer, um casal idoso com um espírito aventureiro que representa o melhor do turista norte-americano e europeu.

Para Janet Creamer, a Europa já perdeu o encanto. “Já fomos muitas vezes”, ela me disse. “É velho. Não só fisicamente, mas culturalmente. Quero visitar os lugares que estão crescendo agora. Fomos recentemente para a China. Dava para perceber: o país estava sendo construido na nossa frente. No Brasil, a cultura está bombando. A economia está bombando.”

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New York Travel Show-Nova York-turismo-Brasil

Jack e Blue Thomas recebem informações sobre o Pantanal com uma representante de Mato Grosso do Sul

Porém, não sabia muito do país. Só conseguiu dar o exemplo do Rio (“uma cidade moderna, muito pitoresca, muita atividade, muita criatividade”) e expressar uma vaga noção sobre sua visita ideal para a floresta. “Quero ver natureza, animais e, claro, viajar por um rio e conhecer as tribos indígenas.” (Nem é tão fácil, senhora) Mas para turistas que sabem o que querem, a apresentação da Embratur foi perfeita.

Blue Thomas, de 34 anos, visitou o estande do Brasil com o marido Jack Thomas. Ela tinha trabalhado como voluntário na favela da Rocinha alguns anos atrás, e ele já tinha visitado o Rio. Conseguiram me explicar uma versão de um Brasil diferente (?)OK que foi a melhor que ouvi. “Você pode visitar várias vezes e ter experiências muito diferentes. Pode ver a cultura afro-brasileira”, disse ela.

“Ou experimentar um resort em alguma ilha”, disse Jack.

“Ou ir à floresta”, disse Blue.

“Ou morar numa favela”, disse Jack.

Mas ainda assim, não faltava esse Brasil de fantasia. O sonho da Blue? “Dormir numa rede, nas árvores, ao lado dos bichos preguiça.”

Talvez não muito realista, mas poderia ter sido pior. Imagine se o marido tivesse pedido para falar comigo a sós procurando boas cantadas em espanhol para usar com as mulatas de topless e descalças, que dançam samba com macacos durante os jogos de futebol que acontecem nas favelas durante o Carnaval. A imagem do país vai melhorando.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2011 Brasil | 07:59

Descobrindo Brasília

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Não existem cidades chatas, só viajantes tacanhos. Por isso, não acreditei quando contei para os amigos que ia para Brasília, para criar um roteiro legal para algum veículo gringo, e a grande maioria quis saber por que diabos um norte-americano visitaria uma cidade tão sem graça.

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Planalto pode ser visitado aos domingos

OK, alunos, vamos rever a lição número 1 das viagens: não existem cidades sem graça. Há cidades sujas, cidades sem monumentos históricos, cidades perigosas, cidades feias. (E, note bem, Brasília não é nenhuma dessas.) Existem cidades antipedestres, cidades quentes, secas e confusas demais. (Brasília é todas essas.) Mas qualquer cidade também tem uma cultura única para descobrir, lugares para conhecer, bairros para explorar, sítios culturais para visitar. E até se existisse no mundo uma cidade sem absolutamente nada para fazer – “bora”! –, seria uma ótima pauta: “O que fazer na cidade sem nada para fazer”.

E Brasília tem muito para descobrir, conhecer, explorar e visitar. Pode parecer um lugar chato quando está lotada de políticos e lobistas durante a semana. Mas no final de semana todos eles vão embora e deixam para trás duas coisas legais: os próprios brasilienses, e muitas vagas para estacionar.

Ainda não acreditam? Vou fazer uma lista.

1) Brasília tem história

Em 1960, quando foi inaugurada, Brasília era uma cidade totalmente do futuro. Mas já se passaram 51 anos, e tem história em todas as partes. Como no bar Beirute, estabelecido em 1966 e ponto de encontros políticos por décadas, inclusive durante o movimento das Diretas Já. Lá conheci uma mesa de jovens profissionais, todos recém-concursados pelo governo federal que haviam acabado de chegar à cidade.

Em outra mesa, conheci um grupo de coroas que me contaram que há décadas se reúnem na mesma mesa do bar. Indiquei a mesa de jovens para eles e comentei que era muito interessante estar em um lugar onde dois grupos tão diferentes podiam se reunir. Um deles me corrigiu e disse: “Nós não somos diferentes. Na verdade, somos muito parecidos. Só que eles são o que nós éramos há 30 anos, quando chegamos a Brasília. E daqui a 30 anos eles provavelmente serão como nós, agora, sentados na mesma mesa onde eles estão nesse momento”.

2) Brasília tem samba

Fui testar dois sambas no mesmo sábado à tarde. O primeiro foi o famoso Calaf, o samba no endereço menos sensual na história dos sambas: Setor Bancário Sul, Quadra 2, Loja 51/57. Escondido lá no meio dos bancos abandonados no final de semana está o Calaf, que só dá para encontrar seguindo o som da música. Tem samba ao vivo, cerveja gelada e um ambiente muito legal. (Pelo menos, tão legal quanto se pode esperar num setor bancário.) Outro lugar que visitei é o samba do momento, Cadê Tereza, (no endereço também supersexy de CLS 201 Bloco B Loja 1). A fila era enorme, o que é chato para todos os clientes; as mulheres não pagam, o que é chato para a metade deles, mas o lugar está bombando, o que não é chato para ninguém.


Os belos vitrais azuis do Santuário Dom Bosco

3) Brasília tem a igreja mais azul na história das igrejas

Eu visito tantas igrejas nas minhas viagens que já virou uma rotina. Notre Dame de Paris, St. Paul’s em Nova York, tanto faz: entro. Dou uma volta. Tiro uma foto. Vou embora. O Santuário Dom Bosco em Brasília quebrou a rotina. Fiquei paralisado com os infinitos vitrais azuis. Tirei centenas de fotos, tentando captar a incrível luz azul que entra. Fui embora bem depois.

 

 
4) Brasília tem pôr-do-sol

 

Brasília tem pôr-do-sol laranja, escarlate, cor-de-rosa, cor de lavanda, cor de fogo ou todas juntas

Não gosta da luz azul? Que tal laranja, escarlate, cor-de-rosa, cor de lavanda, cor de fogo, todas juntas? Normalmente, eu sou um cético quanto aos pores-do-sol, principalmente se estou viajando sozinho (ou pior, com algum amigo homem). Mas em Brasília, a vista da Ermida Dom Bosco impressiona até um viajante solitário. Ok, não estava precisamente sozinho – essa noite, enquanto eu admirava a vista, havia inclusive uma noiva de vestido de casamento posando para fotos. O pôr-do-sol era tão romântico que eu quase teria me casado lá mesmo com ela, se ela quisesse.

 

 
5) Brasília tem motoristas educados

 

Se você já dirige em outras grandes cidades brasileiras, alugar um carro e dirigir em Brasília é uma experiência inesquecível. Não tanto para você, mas mais para os pedestres que você poderia matar. Juro, os pedestres brasilienses pisam na rua sem nenhum sinal vermelho e todos os carros param de vez. Bom, quase todos: eu não. Pelo menos nas primeiras vezes, porque nem sabia o que acontecia. Por sorte, não atropelei ninguém.

6) Brasília tem lésbicas em motocicleta

OK, todas as grandes cidades têm, provavelmente. Mas em Brasília elas são mais legais – pelo menos o casal que eu conheci no bar Libanus. Sexta à noite o bar estava lotado e eu estava tirando fotos. Pedi licença para fotografar o casal (que eu achava que fossem irmãs), e elas me chamaram para sentar na mesa delas. Falamos da situação GLS em Brasília (elas acham uma cidade bem tolerante), da tolerância das famílias delas em Goiás, e de muitos outros temas que não tinham nada a ver com G nem L nem S.

Depois, me convidaram para uma festa de aniversário de uma amiga no bar Miau Que Mia. De todas as frases que pensei que ia escrever sobre Brasília, nunca imaginei a seguinte: “Entrei no carro para seguir um casal de namoradas goianas em motocicleta para um aniversário no Miau Que Mia”.

7) Brasília tem SUP no Lago Paranoá

A Ponte Juscelino Kubitschek (chamada também de “terceira ponte” porque os brasilienses aparentemente têm dificuldades com nomes de verdade e preferem os números e as siglas) é linda. Mais linda ainda é a vista de lá de baixo em cima de uma prancha de surfe fazendo o SUP. Nunca fez SUP? Nem sabe o que é? Tá, duas coisas para fazer. Assistir a este vídeo, e visitar o Clube do Vento durante sua visita a Brasília. (Só 20 reais!)


8) Brasília tem o escritório da Dilma

Sei, você já sabia. Mas sabia que dá para visitar? Só aos domingos entre 9h30 e 14h30 (de graça). Dá para ver todo o gabinete presidencial, inclusive a sala de reuniões onde se encontram os ministros, a sala de audiência que recebe chefes de Estado e embaixadores, e até o próprio escritório da presidente. Nesta última não pode entrar, só ficar na porta e tirar fotos. Queria muito entrar e deixar uma nota para Dilma sobre a mesa dela, ao lado do computador chique de onde ela dirige o País, ou, quem sabe, enrola no Facebook. Mas eu escreveria o quê? “Oi, Dilma. Tudo bem? Gostei do seu escritório. Boa sorte com isso de ser presidente. Um abraço, Seth”  Acho melhor não ter entrado mesmo.

9) Brasília tem restaurantes

Muitos, e bons. Há, por exemplo, o contemporâneo Zuu a.Z.d.Z, nome ótimo que fica melhor ainda ao lado do seu endereço brasiliense: Zuu a.Z.d.Z, SCLS 210, Bl. C Lj. 38

Infelizmente, o restaurante estava fechado no dia que eu quis almoçar lá. Então, fui ao Quitenete, um dos outros restaurantes da mesma chef, Mara Alcamim. Comi um risoto ótimo e passei muito tempo olhando e fotografando todos os doces e sobremesas.

Também não dá para perder o clássico Mangai, self-service nordestino-chique que fica quase na beira do Lago Paranoá e oferece mais de 80 pratos variados e 40 sobremesas.  OK, dá para perder, mas só se você mora em João Pessoa ou Natal, onde também existem sucursais.

10) Brasília tem outras atrações

Por exemplo, alguns monumentos de um cara chamado Niemeyer. Também vale a pena visitar, se é que dá tempo.

Autor: Seth Kugel Tags:

Brasil | 07:30

Seth erros em Brasília

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Seth erros em Brasília

Leia também: Descobrindo Brasília

1)   Achar a cidade chata se nunca foi ou se só foi a trabalho.

2)   Visitar o Santuário Dom Bosco se você não vê cores. Perder, se você não tem problema algum na visão.

3)   Comer no Mangai se você está de dieta (40 sobremesas, fala sério!)

4)   Fazer SUP (Stand Up Paddle) no Lago Paranoá se você não trouxe protetor solar.

5)   Mesmo que tenha protetor solar, fazer SUP no Lago Paranoá entre as 10h e as 14h. Nesse horário, o sol brasiliense é de rachar!

6)   Sair a pé em Brasília. Não dá para chegar a lugar nenhum, até se parecer pertinho no mapa.

7)   Achar que o Distrito Federal é só Brasília. A feira (supernordestina) de Ceilândia funciona de quarta a domingo, com mocotó e buchada, tabaco maranhense e jabuticaba por quilo.

Autor: Seth Kugel Tags:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011 Brasil | 08:00

Explicando o Brasil aos turistas gringos

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Rio de Janeiro é a minha indicação para quem vem pela primeira vez ao Brasil - Fotos Getty Images

Rio de Janeiro é a minha indicação para quem vem pela primeira vez ao Brasil - Fotos Getty Images

Minha amiga Laura, uma paulistana, se mudou para Nova York em agosto. Como eu estava em Nova York quando ela chegou, me fez infinitas perguntas: em qual bairro morar, se deve usar bicicleta, se pode andar de metrô à noite, que tipo de colchão deve comprar etc. Em muitos casos, meus conselhos contradiziam algum outro que um amigo brasileiro tinha lhe dado.

Óbvio que eu estava certo, falei para ela. Como um brasileiro pode dar dicas sobre a vida nos Estados Unidos? Mas depois caiu a ficha: se os brasileiros são incapazes de dar boas dicas sobre meu país para seus amigos brasileiros, será que eu sou incapaz de dar boas dicas sobre o Brasil para os meus amigos norte-americanos?

- Leia também: Seth erros dos turistas norte-americanos

Fiquei na dúvida e decidi resolver o problema pedindo ajuda a um grupo legal que sempre tem opiniões interessantes: vocês, os leitores do blog.

Então, leitores legais, eu vou deixar vocês entrarem nas conversas privadas que eu tenho com gringos sobre o Brasil. As perguntas seguintes são as que me fazem com mais frequência e as respostas são mais ou menos o que eu digo para os meus amigos. How did I do?*

Aguardo (com um pouco de medo) suas respostas. Ah, mas como a experiência com outra coluna já me ensinou, seria bom vocês lembrarem: o iG não pode aprovar comentários com palavrões em português nem em inglês. Assim que, se você quiser me xingar, tenha a gentileza de fazer de forma sutil e sofisticada.

- Seth, morro de vontade de conhecer Brasil, mas não quero morrer no Brasil. O País é perigoso demais para visitar?

Será que o único filme brasileiro que você viu na vida é “Cidade de Deus”? Se alguém te perguntasse “Os Estados Unidos são um país perigoso?” você nem saberia o que responder. O Brasil é enorme, e como qualquer país grande, tem algumas regiões perigosas e muitas áreas tranquilas. Não se preocupe, você corre pouco risco de levar um tiro em um campo de soja no Mato Grosso ou em um resort em Trancoso.

Nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, porém, ocorrem assaltos. Assim que, quando você estiver em uma cidade grande, pergunte sempre se a zona que vai visitar é segura. E de toda forma, leve só um pouco de dinheiro, só um cartão de crédito, uma cópia do passaporte e só. Leve a máquina fotográfica se quiser, mas já sabendo o risco. Eu sempre ando de ônibus, mas se você preferir, pegue um táxi. A boa notícia é que, no Rio, algumas favelas perto das áreas turísticas já foram “pacificadas” e o turista pode até visitá-las. Mas como um comandante da polícia carioca me contou, o risco verdadeiro para os turistas não é andar em bairros pobres, é ser assaltado nas zonas turísticas mesmo.

Mas pelo amor de Deus, não precisa agir como a norte-americana que entrevistei no calçadão de Copacabana que tinha recebido o conselho de nunca ficar parada na rua nem por um segundo. Ela só concordou em me dar a entrevista se eu caminhasse ao lado dela, escrevendo e andando ao mesmo tempo. Absurdo.

- É minha primeira visita ao Brasil. Quais lugares recomenda? Rio ou São Paulo?

Eu amo São Paulo, mas admito que a cidade é grande, feia, difícil, confusa e nem tão interessante para os turistas. Se você não tem experiência nenhuma no Brasil, vai preferir ficar dentro de uma área bem pequena – Jardins principalmente – onde vai encontrar os preços absurdos e a atitude mais absurda ainda da classe AAA. Locomover-se pela cidade por transporte público é confuso. Deixe para outra visita.

Ao invés de São Paulo, vá para o Rio de Janeiro e Minas Gerais. O Rio é o cartão-postal do Brasil, e merece ser. É deslumbrante. Eu fico chateado com praticamente qualquer pessoa que diz que não aguenta sobreviver fora da cidade onde foi criada – que coisa chata –, mas faço uma exceção para os cariocas. Mas conhecer só o Rio e dizer que conhece o Brasil é tão absurdo quanto só visitar Nova York e dizer que conhece os Estados Unidos.

Por isso, deixe alguns dias para visitar também o interior de Minas Gerais, onde existe tudo menos praia: cachoeiras e natureza, cidadezinhas coloniais, história importante, cozinha típica e minha parte favorita: passeios em estrada de terra.

Para a segunda visita, Bahia e Amazônia. E só na terceira, São Paulo, e talvez o Sul e o Pantanal.

- Eu não falo nada de português, mas nos aeroportos, hotéis e táxis as pessoas devem falar inglês, né? E com certeza os museus e monumentos devem ter boas traduções.

Até mesmo nos aeroportos, muitos funcionários não falam inglês - Foto: Agência Estado

Hahahahahahahaha, essa foi boa! Os brasileiros são anfitriões ótimos, muito hospitaleiros, sempre com um sorriso, e muito dispostos a ajudar qualquer turista. Em português. Bom, muitos profissionais e estudantes falam inglês – só que não trabalham com turismo. No mundo turístico só nos melhores hotéis e restaurantes das grandes cidades e nos resorts chiques você vai encontrar uma pessoa que fale um inglês decente. E nem sempre.

Até nos aeroportos fica difícil. Meu amigo Adam, que vem frequentemente ao Brasil – mas só fala algumas frases de português (“crédito ou débito”, “caipirinha de jabuticaba”) –, ficou bem frustrado com um oficial da Polícia Federal que estava atendendo a fila de imigração em Guarulhos e nem sabia como falar “visto” em inglês. E quando fomos para Belém do Pará, até eu fiquei chocado que, no balcão de atendimento da Secretaria de Estado de Turismo no aeroporto, os atendentes nem sabiam falar “Hello.” Eu aproveitei para perguntar por quê. “É que somos concursados,” me disse um deles. E o concurso não incluiu um teste de inglês? “Não.”

Mas amigo, um conselho: não reclame do fato de eles não falarem inglês, porque eles vão responder que o norte-americano também não aprende outros idiomas. E se a vida fosse justa, isso seria certo. Mas a realidade é que um país que quer aumentar o turismo (e ser anfitrião de Copas do Mundo e Olimpíadas) precisa falar inglês.

- Mas eu falo espanhol. Dá para nos entendermos, né?

Ajuda com os táxis e os cardápios e até dá para conversar um pouco. Mas não adianta para conhecer a história da vida de alguém nem bater papo no bar. Também é muito comum o brasileiro entender seu espanhol, mas você não vai entender o português dele, já que o português é um idioma mais foneticamente complexo. E claro, cuidado com os falsos cognatos: se alguém pedir uma borracha, não está a fim de uma mulher bêbada. Está querendo apagar algo que escreveu com lápis.

- E as mulheres brasileiras, são todas gostosas, exatamente como as meninas da Victoria’s Secret?

Mulheres brasileiras são lindas, assim como francesas, russas, colombianas - Foto: Getty Images

Eu SABIA que é por isso que você quer ir ao Brasil. Que gringo típico. Olha, claro que muitas mulheres brasileiras são lindas. Muitas francesas, russas, colombianas, canadenses, vietnamitas e quenianas são lindas também. Porém a ideia de que as brasileiras são, de certa forma, geneticamente mais bonitas é absurda: acho que você está passando tempo demais buscando “praia” e “Rio de Janeiro” no Google Imagens. No geral, pode descobrir que a mulher brasileira é mais dedicada à beleza e à moda – cuidando das unhas, andando de salto alto etc – do que a norte-americana e a europeia. Mas como qualquer país, o Brasil é um país de mulheres humanas, não super-humanas como as pessoas acham.

- Deve ser muito fácil pegar uma delas, né?

Ah, mais um gringo que cai nessa. As minhas amigas brasileiras sempre reclamam que os estrangeiros acham elas fáceis, e agora você virou parte do problema. Algumas sim, algumas não, como em qualquer lugar. Mas o amigo norte-americano que chega da viagem ao Rio de Janeiro contando de todas as mulheres brasileiras que conquistou provavelmente está falando de prostitutas e de mulheres interesseiras (eu até diria semiprostitutas) que aceitam jantares e roupas e uma relação de “base económica” em troca de sexo. Seu amigo ficou em um hotel de Copacabana, né? Eu sabia!

Agora, olha como funciona de verdade. Claro que você pode conhecer uma mulher em qualquer lugar, mas o mais comum é isso acontecer nos bares, boates e festas onde depois de certa hora rola uma coisa que se chama “pegação”.  Não, nem tente pronunciar, nossa, seu português é um desastre! Olha o que precisa fazer: invente alguma coisa para falar e chegue na mulher. Reze para que ela entenda inglês e não lembre muito o Presidente Bush. Converse um pouco. Dance se puder. E, se as coisas caminharem bem, tente um beijo. É. Lá mesmo. Na pista, na rua, no bar, na mesa. Se não rolar, não se preocupe, espere um pouco e tente de novo ou até ela decidir “ir pro banheiro”. Só que um beijo não significa que você vai levar a moça pro seu hotel, e até pode nem significar que ela queira te ver de novo.

Se conseguir arrumar uma namoradinha, cuidado, não funciona como nos Estados Unidos. Se você não demonstrar muito carinho para ela em público – andar de mãos dadas, fazer cafuné, tocar a perna –,  você está ferrado. O quê? Você quer ir numa festa e conversar com seus amigos e deixar ela falar com as dela longe de você? Hahahahahaha – você acha que você está namorando uma norte-americana, né? De jeito nenhum: fique ao seu lado o tempo tudo. Eu recomendo o sistema do “braço brasileiro”. Tudo bem se o resto do seu corpo fica americano, mas treine seu braço para agir como se fosse um apêndice brasileiro para tocar a namorada constantemente. Com um pouco de prática, vira instinto, e parabéns: seu braço já virou brasileiro.

- Mas minha irmã vai comigo. Ela vai ser assediada por homens brasileiros?

Os homens brasileiros não enrolam ao chegar em uma mulher

Os homens brasileiros não enrolam ao chegar em uma mulher - Foto: Getty Images

É bem possível. Eu admiro muito a coragem do brasileiro típico que chega em qualquer mulher sem nem ficar nervoso. Não entendo muito bem o que eles falam, acho que é só alguma besteira tipo “você é muito gostosa”, “ah que cheirosa você tá” ou sei lá. Segundo minhas amigas brasileiras, em ocasiões infrequentes até falam algo inteligente. Se a sua irmã decidir falar ou dançar com ele, que não fique surpreso se depois de dois minutos ele tentar dar um beijo nela. Não é como os norte-americanos que enrolam a noite inteira e depois só pedem o telefone.

Mas alguma dica?

Duas.

1) O Brasil é ótimo. Você vai adorar.

2) “Visa” em português é “visto.” VEE-sto. Pode ser útil quando você chegar em Guarulhos e precisar se comunicar com a Polícia Federal.

Notas relacionadas:

  1. Razões para encarar a Amazônia de barco
Autor: Seth Kugel Tags: , ,

quarta-feira, 31 de agosto de 2011 Brasil | 08:00

Deixe a piscina de lado e descubra o Pantanal

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Perguntei para Zelia Perfeito, a matriarca da família que é dona da pousada Pouso Alegre no Pantanal matogrossense, se muitos brasileiros visitam sua fazenda de 11 mil hectares cheios de tuiuiús e tamanduás, jaguatiricas e jacarés.

“Poucos”, me diss dona Zelia, que faz um creme de abacaxi delicioso, que é devorado pelos hóspedes em apenas alguns minutos. E depois, pensou de novo. “Não, na verdade, nenhum. Os brasileiros gostam de piscina. E aqui não temos piscina.”

Tuiuiús, a ave-símbolo do Pantanal

Tuiuiú, a ave-símbolo do Pantanal

Fiquei pensando. Um gringo paga milhares de dólares ou euros e passa 12 horas no avião para ver uma das maravilhas naturais do mundo, mas um brasileiro não pega um voo de duas horas que custa R$ 300 porque na pousada não tem piscina?

- Veja ainda: Seth erros no Pantanal

É uma caricatura dos fatos, obviamente. Há pousadas com piscinas no Pantanal, e há brasileiros que visitam: um deles é o documentarista Haroldo Palo, que estava na Pouso Alegre durante os mesmos dias que eu, filmando jacarés devorando capivaras e tuiuiús tirando o cadáver de um filhote morto do ninho. É claro que um ou outro turista brasileiro aparece também. Mas não muitos.

Por quê? Será que os mesmos brasileiros que reclamam quando os gringos dizem que no Brasil há macacos nas ruas não querem admitir que em algumas ruas do Brasil há macacos mesmo? E quatis e capivaras e cutias também?

O meu quarto na Pouso Alegre

O meu quarto na Pouso Alegre

Estou brincando. Mas acho que, na verdade, a explicação está em um tipo de “filosofia nacional” de viagens. É que há duas categorias gerais de férias: as de “Tem piscina?” e as de “Tem tamanduá?” E o brasileiro típico favorece as “tem piscina?” (férias para relaxar, tirar o estresse e talvez ir às compras), mais do que as “tem tamanduá?” (férias para explorar, aprender e conhecer o mundo).

Não é dizer que não dá para misturar as duas – até no tour mais intelectual pode-se programa uma massagem, e no resort mais luxuoso da Côte d’Azur dá para fazer uma análise antropológica das praias com topless.

Mas acho que é só dar uma olhada nos pacotes da CVC para ver que o típico turista brasileiro está mais interessado em luxo e relaxamento do que em explorar e aprender. As fotos e os pacotes destacam os hotéis e as praias (e a obsessão esquisita com o acesso à sala VIP em Guarulhos) mais do que as atrações culturais ou naturais. Os europeus e norte-americanos que conheci na Pouso Alegre não se importavam com os quartos pequenos, estavam mais preocupados com seus binóculos e suas máquinas fotográficas, e com a leitura dos livros sobre a fauna do Brasil. Nem reclamavam (muito) quando o guia anunciava que tinham que acordar às 4h30 para sair para observar o nascer do sol e a orquestra de aves ao amanhecer.

Capivaras tentando se esconder...sem muito sucesso

Capivaras podem ser facilmente encontradas

Obviamente, minha preferência pessoal é para as férias do tipo “tem tamanduá?”. Mas isso não significa que são melhores, nem que eu sou contra as férias para relaxar. Quem trabalha muito e fica estressado precisa escapar da rotina da vida e merece sua piscina, seus coquetéis sob o guarda-sol e o relaxamento total. (E podem me convidar!) Só pergunto se não tem espaço no mercado nacional para mais empresas que vendem viagens para brasileiros como a Cheesemans’ Ecology Safaris oferece para norte-americanos. Doug e Gail Cheeseman estavam lá na Pouso Alegre comigo, acompanhando um pequeno grupo de turistas. Quando jantei com alguns integrantes do grupo, eles falaram maravilhas da viagem e do professor Cheeseman (que, apesar do seu sobrenome, não dá aulas sobre queijos: é um zoologista aposentado), que leva amantes da natureza para lugares exóticos como Antártica, África…e Pantanal. É só olhar a descrição da sua viagem (e comparar com o pacote no Pantanal que oferece a CVC) para entender o estilo diferente.

“Este tour emocionante ao Pantanal é criado para maximizar o tempo em campo para observar e fotografar a fauna diversa nesta região famosa…Os rios, pântanos, lagos e córregos que alimentam a área provêem uma combinação de ecossistemas, hospedagem e atividades que aumentam nossos encontros com a fauna silvestre. Grandes surpresas nos esperam: possivelmente o tamanduá-bandeira, a onça, o lobo-guará, a ariranha e a anta, todos mamíferos raros que são difíceis de encontrar. As araras azuis e muitas outras aves serão um prazer avistar. A cada dia vivencie a fauna magnífica do Pantanal!

Um dos aproximadamente 80.000.000.000.000.000.000.000 jacarés no Pantanal

Um dos aproximadamente 80.000.000.000.000.000.000.000 jacarés no Pantanal

Claro que existem empresas no Brasil que oferecem algo parecido, como a EcoAdventures Travel, que atende brasileiros e estrangeiros também. Mas há mil empresas com a dos Cheesemans na Europa e na América do Norte. Muitas faculdades – Yale e Harvard são dois exemplos – oferecem viagens para ex-alunos com a companhia de professores especialistas em arte, história ou natureza da região. A PUC já faz isso, oferecendo algumas viagens que parecem interessantes, e gostaria de ver mais.

Mas a verdade é que você não precisa de pacote nenhum para visitar o Pantanal. Na semana passada passei quatro dias no Pantanal por um total de R$ 1.200, com voo e carro incluídos. Fiquei em duas pousadas: na Rio Clarinho paguei R$ 150 por noite (é R$ 280 por casal) por um quarto bem básico, com três refeições diárias e um guia pessoal para explorar a região. O muito amável Tuca – que foi criado no Pantanal e conhece as aves e animais e sabe encontrá-los – me levou para caminhada, passeio a cavalo, passeio de barco (no qual vimos muitas ariranhas) e focagem noturna (na qual encontramos uma jaguatirica).

Admito que os quartos da Rio Clarinho são um pouco rústicos, assim que talvez a melhor opção para casais seja a pousada Pouso Alegre, onde o casal paga só R$ 340 por um quarto muito mais confortável e moderno (com refeições inclusas). (Solteiros pagam R$ 240, mas eu consegui um desconto para R$ 180 – sem mencionar que era jornalista, claro.)

Meu quarto na Pousada Rio Clarinho

Meu quarto na Pousada Rio Clarinho

Lá, com sorte, talvez o próprio Luiz Vicente Campos Filho, herpetólogo e filho da Dona Zelia, te acompanhe em caminhadas ou te leve em sua picape, dando uma amostra de seu conhecimento infinito sobre a fauna que habita a fazenda da família.

Nos dois lugares, a atividade principal – não, a atividade única – é observar a fauna. Você pode ver uma centena de espécies de aves, milhares de jacarés, quantas capivaras e quantos macacos quiser, e, se tiver sorte, meu favorito, o tamanduá-bandeira com seu nariz alongado para invadir os formigueiros e o seu rabo enorme e cheio de pelos que parece um espanador. Admito que queria levar um para morar comigo em São Paulo, só que 1) isso é ilegal e 2) nem sei onde conseguiria os até 30 mil cupins e formigas por dia para ele comer.

Os tamanduás-bandeira são difíceis de encontrar (eu vi dois, e só à noite). Mas também fiquei apaixonado pelas onipresentes capivaras, uns bichos meio sem noção que acham que se ficarem imóveis você não consegue enxergá-las. (Se você chegar muito perto, elas correm para se “esconder” sob a vegetação ou na água rasa. Tadinhas. Os jacarés e as onças nunca vão passar fome enquanto houver capivaras por perto).

Tamanduá-mirim. Não tão interessante quanto o tamanduá-bandeira, mas muito mais fácil de encontrar

Tamanduá-mirim. Não tão interessante quanto o tamanduá-bandeira, mas muito mais fácil de encontrar

Falando das onças, se você quiser ver uma, a possibilidade é muito maior se você ficar em uma pousada que faça excursões de barco. Uma opção é a Jaguar Ecological Reserve, que cobra R$ 500 por dia por um passeio de barco, perfeito para um grupo de dois a quatro pessoas (mas caro demais para mim, sozinho, infelizmente). Só um pequeno problema: apesar de o dono da Jaguar ser brasileiro, e o Pantanal estar no Brasil, o website nem tem versão em português. Isso é ainda mais triste do que ver uma capivara devorada por um jacaré.

- Leia tambem: Guia completo para explorar o Pantanal


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quarta-feira, 27 de julho de 2011 Brasil | 07:58

SETH ERROS: EDIÇÃO ESPECIAL – Como ser brasileiro, mas não demais, no exterior

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É bem difícil um turista chegar ao Brasil e não se apaixonar pela paisagem, pela música, pela comida. Mas é o povo que deixa a melhor impressão. Vocês são charmosos, otimistas, sorridentes, hospitaleiros. E as qualidades são contagiantes. O estrangeiro chega e entra na mentalidade brasileira. Como dizem, quando em Roma, faça como os romanos…

Mas o que acontece quando o romano sai de Roma? Ou seja, agora que muitos brasileiros estão viajando pela primeira vez para o exterior é preciso pensar em quais “brasilidades” funcionam, e quais não, além das fronteiras brasileiras.

Sorrir muito e ter uma atitude positiva são qualidades que sempre ajudam

Sorrir muito e ter uma atitude positiva sempre vão dar certo. Outros costumes… nem tanto. Seguindo a tradição da coluna, fiz uma lista de sete, ou seja Seth, erros para o brasileiro evitar no exterior. (Um esclarecimento para o leitor. Deve ser irônico receber conselhos de comportamento de alguém dos Estados Unidos, país que produz talvez o turista mais chato e irritante do mundo – o famoso “ugly American”. Mas é que meu povo já é um caso perdido. Há séculos que nós viajamos pelo planeta fazendo besteiras, e cachorro velho não aprende truques novos. Para vocês, ainda há tempo.)

1) FALAR COM O POLEGAR. É talvez a “brasilidade” mais comentada pelos americanos que visitam o seu país pela primeira vez: esse sinal de levantar o polegar (ou até os dois) para dizer “ok”, ou “não tem problema”, ou “de nada”, ou “pode passar” ou até simplesmente “bom dia”. O brasileiro não inventou o “thumbs up” (como se diz em inglês), mas é de longe o país que mais usa. Por exemplo, tenho um amigo que cada vez que viaja ao Brasil conta quantos “thumbs up” recebe por dia. Dois polegares ao mesmo tempo valem dois, óbvio.

Tudo bem dentro do Brasil. Mas em muitos outros países, é esquisito – até brega – fazer isso. (E em alguns países é vulgar: Bangladesh, por exemplo.) Para nós, nos Estados Unidos, é coisa do passado. Lembra muito o personagem “The Fonz” do seriado “Happy Days”, um cara cool demais… só que nos anos 50.


2) TOMAR BANHO. E OUTRO. E MAIS UM.
Os brasileiros são, sem dúvida, o povo mais limpo do mundo. Às vezes acho que nos dias mais quentes do verão vocês passam mais tempo debaixo do chuveiro do que fora. Eu não admito aos amigos brasileiros que nem sempre tomo banho antes de dormir, por medo de perder a amizade ou talvez até meu visto.

Mas quando for viajar, lembre que o Brasil tem 14% da água doce do mundo, e só 3% da população do planeta. Em muitos países a água é escassa, em outros o custo para aquecê-la é alto. Quando eu estudava em Paris, hospedado com uma família francesa, minha “mãe” reclamava muito quando eu passava mais de cinco minutos no chuveiro. Num hotel, pelo menos, ninguém vai saber que você está gastando demais os recursos naturais do país. Mas se você ficar na casa de amigos, tente se limitar a um banho curto por dia. Não se preocupe: que eu saiba ninguém nunca morreu por ficar pouco tempo no banho, nem mesmo na França.

Em muitos países, o tamanho dos biquínis brasileiros vão atrair olhares estranhos

3) USAR SUNGAS E BIQUÍNIS BRASILEIROS. Não é que não pode. É que você só deve ficar ciente das repercussões. Queridas brasileiras, eu conheço vocês, e vocês adoram comentar quando uma gringa aparece na praia de Ipanema com um desses biquínis feios que cobrem a bunda toda. Agora se preparem para uma revanche. Se vocês andarem com um biquíni brasileiro ­– desses que tapam talvez 10% da sua bunda – em muitos países vão atrair alguns olhares estranhos das mulheres locais. (Os homens vão gostar, com certeza, mas só porque o biquíni lembra um pouco a roupa de uma stripper.)

Quanto à sunga, em alguns países, tudo bem. Em outros, como é o caso do meu, se considera bem esquisito e meio vulgar. Exemplo: num episódio do programa americano Curb Your Enthusiasm, o personagem principal (o comediante Larry David) enxerga o psiquiatra dele na praia… de sunga. Fica horrorizado e decide desistir da terapia.


4) LIXO NO LIXO.
O mundo está dividido em duas partes: a que tem sistema de esgotos que permite jogar o papel higiênico na privada, e a que não tem. E, desculpe a intimidade, mas no mundo com sistema de esgotos que permite, se considera muito nojento jogar papel usado no lixo.

Fora do Brasil as pessoas não costumam se beijar tão apaixonadamente em público

5) BEIJAR À VONTADE. O problema do beijo de cumprimento é bem documentado, não vou perder seu tempo falando de quantas vezes se beija em cada cidade do mundo. O problema é o beijo na boca, que no Brasil é muito mais aceitável em público do que em outros países. Ou seja: nas ruas, nos parques, nas mesas de bares e restaurantes, até na fila para entrar no cinema. Por isso eu sempre digo que o lema oficial do Brasil deveria ser “Get a room!”. Essa frase, que em tradução livre seria algo como “Arrume um motel!”,  é o que se fala quando um casal está expressando sua afeição de forma… exagerada.

Juro que em nenhum outro país do mundo (que eu conheça) os casais se beijam tão aberta e apaixonadamente em público quanto no Brasil. E pior, ao lado dos amigos. Eu não estou contra, e até faço também quando a situação se justifica… no Brasil. Mas em outros países, na maioria das situações, é preciso se controlar para não constranger os outros. Existem exceções: no cinema, até pode, mas pelo amor de Deus só se estiverem sozinhos, e não ao lado de um casal de amigos. Na balada ou numa festa, ok, não precisa arrumar um motel para se beijar. Mas arrume um cantinho escuro pelo menos.

Cheque no guia de viagem quanto se deve dar de gorjeta em cada país, mas nunca deixe de dar

6) ESQUECER A GORJETA. Em Nova York, os garçons odeiam os estrangeiros. Por quê? Porque um garçom nos EUA não ganha quase nada de salário – recebe até menos de um salário mínimo, porque vive das gorjetas. Até os estrangeiros que sabem disso acham justo deixar 10% ou 12%. Não é. É 15% se você é chato (ou se o garçom foi chato) e 18% ou 20% se não. E sem reclamar. Em outros países, a gorjeta varia muito, por isso você sempre deve dar uma olhada no sua guia de viagem ou procurar na internet. (Eu não conheço um bom site em português mas em inglês existem muitos – bota “tipping by country” no Google.

7) PEDIR CERVEJA COMO SE ESTIVESSE NO BRASIL. Uma vez fui jantar em Nova York com uma família de brasileiros. O pai acabava de chegar ao país e tentou explicar à garçonete (em português, que ela não entendia) que queria a cerveja com dois dedos de colarinho. Quando a bebida chegou sem espuma nenhuma, ele reclamou e tentou explicar de novo. A garçonete falou para nós: “Explique para ele que entendo o que ele quer, mas o negócio do chope não funciona assim.” E é verdade: colarinho na cerveja é um fenômeno brasileiro que é difícil de encontrar na maioria de países (fora a cerveja Guinness).

Não espere cerveja muito gelada em todos os países. A baixa temperatura não ajuda a sentir o sabor

Quanto à cerveja gelada, o mundo está mais dividido. Normalmente, pessoas de países tropicais gostam de cervejas fracas e bem geladas, para se refrescar num dia quente. Esse é o caso do Brasil. Mas em muitos outros países se acredita que o sabor é mais importante, e é fato que cerveja muito gelada perde o sabor. Um dia, na Bolívia, eu estava jantando com um casal de brasileiros que reclamou à garçonete que a cerveja estava quente. Tentei explicar para eles: “não vai ter mais gelada, aqui se toma assim.”

Nossa, já chegamos a sete? Então preciso colocar um bônus especial para meus queridos paulistanos:

7 – B) MATAR PEDESTRES À VONTADE. Não sou advogado, mas segundo observo nas ruas de São Paulo,  a lei local determina que um motorista que vê um pedestre atravessar a rua e não tenta matá-lo vai preso. Mas quando você alugar um carro em outro país, preste atenção: o pedestre tem algo que se chama “direitos.” Em alguns países da Europa, da Ásia e estados dos Estados Unidos, a lei até exige parar o carro quando alguém pisa na faixa de pedestres.

Agora, a boa notícia. O brasileiro é tão querido no mundo – pelos jogadores de futebol, pela música, pela atitude – que até pode cometer os erros e ninguém vai reclamar. Bom, talvez o pedestre, se é que ele sobrevive.

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Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

quarta-feira, 15 de junho de 2011 Brasil, Estados Unidos, Europa | 08:00

São Paulo ou Nova York: Qual a melhor pizza do mundo?

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Duas fatias de Joe's, estilo nova-iorquino (ou seja, sem nada em cima, e definitivamente sem azeite)

Quando um nova-iorquino se muda para São Paulo é impossível evitar a pergunta: “Qual das duas cidades tem a melhor pizza?”. Ou, mais comum: “A pizza paulistana é a melhor do mundo, né?”.

Uma observação somente: os nova-iorquinos também acham que a pizza deles é a melhor do mundo. E daí temos um problema, porque as pizzas das duas cidades são muito, muito diferentes.

A diferença mais marcante é a grande quantidade de ingredientes que os paulistanos colocam sobre a pizza. Em Nova York, é queijo, tomate e mais um ingrediente (pepperoni, por exemplo), no máximo. Nos meus primeiros meses em São Paulo, quando comi pizza portuguesa, baiana ou vegetariana – com mil ingredientes em cima de cada uma – , minha resposta sempre era: “A pizza de São Paulo é muito boa. Só que não é pizza.”

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Pizza boa e barata em uma pizzeria típica, em Erculano, fora de Nápoles. Massa incrível, tomates frescos.

Pizza boa e barata em uma pizzeria típica, em Erculano, fora de Nápoles

Ou seja, não era a pizza que eu conhecia. É que pizza em Nova York e São Paulo não é só pizza. É cultura. E são culturas tão diferentes que achava impossível comparar as pizzas das duas cidades – até a semana passada, quando estive em Nápoles, Itália.

Lá a pizza não é só cultura. É vida. Da legitimidade da pizza de Nápoles ninguém pode desconfiar. Assim que, entre São Paulo e Nova York, ganha quem tem a pizza que mais se parece com a pizza napolitana. Capisce?

Vamos à comparação:

1 – Ingredientes: Pizza para mim, pelo menos para meu lado nova-iorquino, é massa, molho de tomate e queijo. E, talvez, um ingrediente: pepperoni, por exemplo. Ou um monte de alho picado (hummm). Por outro lado, minha alma paulistana entende que pode colocar mais, sem se esquecer dos elementos básicos. Em Nápoles? Tem a famosa Da Michele (que apareceu no livro Comer, Rezar, Amar) onde só há duas opções: pizza margherita e pizza marinara. Mas na Pizzeria Starita, também muito famosa (o dono até serviu pizza ao Papa João Paulo II), o cardápio é muito variado, como em São Paulo. Empate.

2 – Pizza boa e barata: Nem tudo pode ser perfeito. Quando se bota presunto, azeitona, palmito, catupiry, frango, calabresa, abacaxi, rúcula  e mais ingredientes sobre a pizza, a massa, o molho de tomate e o queijo perdem importância? Em Nova York uma pizzaria de bairro não sobrevive nem uma semana com a massa de cartolina e omolho de baixa qualidade de muitas pizzarias que já provei em São Paulo. Em Nápoles também não. Até pizzas baratíssimas que eu provei – de 3 euros ou 4 euros (R$ 7 a R$ 9) – tinham massa perfeita, tomate fresco e mozzarella de búfala de qualidade. Vantagem: Nova York

Pizza racchetta na Pizzeria Starita em Nápoles: com muitos ingredientes inclusive ricota e cogumelos

Pizza racchetta na Pizzeria Starita em Nápoles: com muitos ingredientes inclusive ricota e cogumelos

3 – Pizza boa e cara: Por fim, descobri onde existem ótimas pizzas em São Paulo: nos lugares caríssimos, como Bráz e Veridiana. Tudo da melhor qualidade. Agora, gente, isso é pizza, a melhor que já provei. Nova York também tem pizzarias “de grife”, tipo Motorino, mas não são tão parte da cultura e é raro encontrar uma pizza por mais de R$ 30. E esses preços paulistanos? Mais de R$ 40, às vezes até R$ 50, por uma pizza? Parece piada, mas só os donos das pizzarias que estão rindo. E muito. Vantagem São Paulo, mas é vitória pírrica.

4 – Forma: É tão comum em Nova York pedir pizza por “slice” (uma fatia) que o melhor blog sobre pizza se chama Slice mesmo. A pizza de São Paulo se pede inteira, com a exceção de poucos lugares, como O Pedaço da Pizza e a ótima ideia de rodízio de pizza (Detalhe: o rodízio de pizza é minha invenção brasileira favorita, muito melhor do que a feijoada ou a bossa nova). Em Nápoles, apesar de poder comprar um pedaço em muitos lugares, a cultura prevalente é pedir uma pizza inteira. Leve vantagem: São Paulo.

5 – Quem serve: Em São Paulo, o garçom chega com a pizza e depois serve as primeiras fatias a todo o mundo. Depois volta para dar as segundas e as terceiras. Uma das minhas atividades favoritas nas pizzarias paulistanas é começar a pegar um pedaço e ver o garçom correr à mesa para me ajudar. Em Nova York, ao pedir uma pizza inteira, você mesmo pega o primeiro pedaço, o segundo e o terceiro (No meu caso, também o quarto e o quinto). Em Nápoles? As pizzas são de tamanho individual e nem chegam divididas em fatias. Ambos estamos errados. Empate.

Em Nova York, pizza se come com a mão

Em Nova York, pizza se come com a mão

6 – Com garfo e faca ou com a mão: Pizza em São Paulo se come com garfo e faca. Muito civilizado. Pizza em NY se come com a mão. Muito fácil. O paulistano, sem dúvida, acha o costume nova-iorquino anti-higiênico. Mas comer com garfo e faca parece tão esquisito em Nova York que, quando o Donald Trump foi filmado comendo pizza assim na Times Square, foi ridicularizado. É só ver a raiva do comediante Jon Stewart neste clip (começa no 4:15) para entender o que os nova-iorquinos acham de comer pizza com garfo e faca (e nem precisa entender o inglês). Também não perca a demonstração de como comer uma “slice” (a 5:30).  Porém, em Nápoles, é com garfo e faca que se come a pizza. Vantagem: São Paulo

7 – Quando?: Em São Paulo, domingo é o dia oficial da pizza. Em Nova York, o dia oficial da pizza é: todos os dias, no almoço ou no jantar, como lanche, ou até para comer antes de sair para um restaurante caro para não gastar demais (Bom, esse último exemplo talvez só eu faça). Nápoles? Pizzarias lotadas o tempo todo também. Vantagem: Nova York.

8 – Quem faz: O cara que faz pizza, em Nova York, se chama “pizzamaker” ou pior, “pizza guy”. Em São Paulo é “pizzaiolo”. Em italiano como deve ser?  Vantagem: São Paulo

9 – Azeitonas: Quem decidiu, em São Paulo, botar azeitonas em qualquer pizza? Não foi um napolitano. Em Nápoles, como em Nova York, a pizza só tem azeitonas se você pede com azeitonas. Vantagem: Nova York

10 – Condimentos: Em São Paulo muitas pessoas colocam azeite de oliva na pizza, algo que me pareceu muito esquisito quando vi pela primeira vez – jogar mais gordura sobre uma comida gordurosa? Em Nova York muitas pessoas botam pimenta calabresa ou queijo parmesão nas “slices”. Você pode usar o mesmo argumento para o queijo: uma comida com queijo precisa de mais queijo? Em Nápoles a pizza é tão boa que ninguém bota nada em cima. Faz sentido. Empate

Fazendo pizzas na Pizzeria Starita em Nápoles 1

Fazendo pizzas na Pizzeria Starita em Nápoles

É óbvio que as tradições das pizzas em São Paulo e Nova York são bem diferentes, que cada uma tem suas qualidades e que, apesar de os dois povos terem suas discordâncias, podemos nos respeitar. Mas só pode haver uma cidade ganhadora. Então, o envelope, por favor. A melhor pizza do mundo é… a de Nápoles.

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Autor: Seth Kugel Tags: , , , , , , ,

quarta-feira, 11 de maio de 2011 América Latina, Brasil | 07:30

Razões para encarar a Amazônia de barco

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Os amigos paulistanos e cariocas que me perdoem, mas meus brasileiros favoritos não conheci em terra firme. Trata-se de uma família que viajou comigo no ano passado em um barco que navegava de Manaus a Porto Velho. Era um casal rondonense com três filhas entre 3 e 10 anos: Israeli, Isabele e Valéria.

Foi no “Dois Irmãos”, um desses barcos que servem de ônibus fluvial entre cidades de Amazônia que não são ligadas por estrada. Kléber, o marido, me contou que a família tinha passado um ano e pouco em Santarém, cuidando de um parente doente. Voltavam para Porto Velho para retomar a vida que tinham antes. No início, todos iam ficar na casa de um amigo solteiro. “Todos os cinco na casa de um cara?”, perguntei, pensando no meu apartamento em Nova York. “É um amigo muito bom”, respondeu Kléber.

Fotos Seth Kugel

O barco Dois Irmãos num porto no Rio Madeira

Mas entendi bem rápido por que o amigo seria tão generoso com eles. Essa família era muito unida, generosa e extremamente doce. A menina mais velha, Israeli, passava o tempo fazendo palavras cruzadas e tentando aprender um jogo de cartas com duas senhoras peruanas. Isabele recebia tratamentos no “salão de beleza” de outra vizinha de rede que sabia mexer com cabelos. A menor, Valéria, fazia travessuras e depois sorria de forma tão charmosa que derretia o coração de qualquer um que pensasse em reclamar. “Tem cara de anjo, mas só a cara”, diziam Israeli e Isabele, já acostumadas às malandragens da irmãzinha.

Em que outro tipo de viagem teria sido possível fazer amizade com essa família? Nem sei dizer. Mas durante os quatro dias em que minha rede ficou pendurada perto das deles, teria sido impossível não virarmos amigos.

Fotos Seth Kugel

As irmãs Israeli e Isabele fazem visita ao meu espaço

Além de conversar com os pais, eu dava algumas aulas de inglês a Isabele, jogava cartas com Israeli e as duas senhoras peruanas e recebia visitas de Valéria logo cedo pela manhã (claro que queria reclamar, mas aquele sorriso…). A família cuidava da minha máquina fotográfica e do meu notebook enquanto tomava banho. Conversávamos e jantávamos todos juntos, sentados no chão, em um espaço entre as suas redes.

Acho a Amazônia muito problemática para turistas. Os que querem ver uma grande variedade de bichos exóticos deveriam pensar no Pantanal. Os que querem visitar comunidades indígenas devem saber lidar com grandes distâncias, obstáculos burocráticos e questões éticas. Os que querem ficar em Manaus ou Belém e só fazer roteiros urbanos, tudo bem, mas visitar a Amazônia sem conhecer a natureza não faz muito sentido.

Na minha opinião, a solução ideal é incluir uma viagem de barco dentre os seus planos. Além de fazer amizades e ver a paisagem, você entra em um dos poucos lugares – quase pré-históricos – em que celular não pega e email não chega. E é muito barato.

Fotos Seth Kugel

A querida família de Kléber

Já fiz essa viagem três vezes: de Tabatinga a Manaus em 2004 (como mencionei na minha primeira coluna), de Manaus a Porto Velho em 2010 e agora, em fevereiro, de Belém a Santarém. E não vejo a hora de pendurar minha rede de novo.

O custo é mínimo. O preço varia de 30 a 50 reais por dia, valor que pode incluir todas as refeições. Em alguns outros barcos, tem a opção do viajante comprar fichas de almoço e jantar a bordo, que custam entre 5 e 7 reais. É preciso também uma rede, sempre disponível nas cidades de embarque a um valor de 25 a 40 reais.

Em uma viagem normal, fazer amizades com os habitantes locais exige um esforço grande. Mas nesses barcos, nem a pessoa mais tímida pode evitar uma conversa com o “vizinho”. Você vai comer, dormir e até escovar os dentes ao lado dos seus colegas de bordo. É óbvio que vão conversar. E muito.

Fotos Seth Kugel

Processando vídeos na minha rede

Conheci muitas pessoas e ouvi muitas histórias em todos os três barcos. Um monte de eletricistas que iam de Manaus a Porto Velho para procurar emprego. Uma jovem que ia visitar o pai no Acre e passou o tempo todo estudando para o concurso da Polícia Militar de Amazonas (claro que, morrendo de curiosidade, peguei o livro e estudei um pouco também – uma boa opção de emprego se caso esta coluna não der certo). Uma menina de 17 anos que estudava em Belém e voltava uma vez por ano para ver os pais numa cidade pequena às margens do Rio Tapajós. Um dentista peruano que se havia se mudado para Manaus em busca de um salário melhor. Uma mulher grávida que fugia do marido que batia nela e que me contou toda a sua história.

Mas você não vai encontrar só amizades a bordo. Tem a paisagem, com um quase sempre inesquecível pôr-do-sol (quando você pensar em esquecê-lo, na próxima tarde, virá outro melhor).

Fotos Seth Kugel

Passando por uma comunidade ribeirinha

Mas talvez a (outra) melhor parte é conhecer as comunidades ribeirinhas, com casas humildes e pitorescas, e observar os barcos com ou sem motor que os habitantes usam como se fosse carro para fazer compras, visitar os vizinhos, ir para o médico e levar as crianças à escola.

Às vezes, os barcos recebem a visita dos que eu chamo de “piratas”: crianças e adolescentes que se aproximam das grandes embarcações, prendem a canoa ao barco com um gancho, sobem ao convés e vendem comidinhas aos passageiros. Adoro observar quais mercadorias chegam a bordo em cada cidade onde o barco para. Na última viagem, o convés inferior estava todo lotado de cebolas. Pareciam suficientes para dar bafo à Amazônia inteira.

Fotos Seth Kugel

Prepare-se para ver um belo pôr-do-sol todo o fim de tarde

Há também entretenimento a bordo – quer dizer, mais ou menos. O convés superior é a área social. Nos barcos que eu conheci sempre tinha uma televisão com sinal ruim, uns alto-falantes usados exclusivamente para tocar forró e tecno-brega em alto volume e uma lanchonete pequena. É lá também que rolam os romances entre os passageiros.

Mas, mesmo com toda essa atividade, ainda te sobra muito tempo. A melhor opção: ler na rede, sentindo a brisa constante.

Apesar das minhas experiências mágicas a bordo desses barcos, reconheço que não é uma viagem para qualquer turista. Os banheiros são simples e compartilhados por muitas pessoas e, apesar dos esforços da tripulação, nunca chegam a ficar precisamente limpos. Dica: procure os toaletes do convés inferior, perto dos motores: são menos frequentados e, consequentemente, mais limpos.

Fotos Seth Kugel

O PF no barco custa de R$ 5 a 7

E, se der o azar de pegar um barco muito lotado, dormir na rede fica mais difícil com um bombeiro aposentado dormindo a um centímetro do seu braço esquerdo e uma mulher grávida a um milímetro do direito.

Quanto à comida – bom, não é gourmet, nem tem pratos exóticos amazônicos, como tacacá e doce de cupuaçu. O cardápio a bordo se resume a duas letras: PF – arroz, feijão, macarrão, farinha e carne ou peixe. Quer frutas? Leve frutas. Quer biscoito? Pode comprar na lanchonete, mas leve para garantir. Alguns barcos têm água filtrada de graça, outros vendem, mas levar uma garrafa de 5 litros é uma boa ideia.

Eu também recomendo levar pimenta, algo que aprendi com o tenente aposentado Isidoro Rebelo Tenório, que viajava de Santarém a Humaitá para ver como ia a construção da sua casa. Ele era generoso em me deixar jogar algumas gotinhas de sua pimenta nesses PFs sem graça.

Infelizmente, as amizades feitas a bordo não sempre são muito duradouras. Gostaria de poder dizer, por exemplo, que ainda mantenho contato com Kléber e sua linda família. Uma vez tentei mandar um email para o endereço que me deram, para dizer que a Valéria saiu num vídeo que tinha feito da viagem. Mas não tive resposta.

Se alguém lá em Porto Velho ler este post e reconhecer a família, mostre essa coluna (e o vídeo) para eles, por favor. E peça para que entrem em contato comigo. Saudades dessa cara de anjo, apesar de ser só a cara.

SETH ERROS

O que NÃO fazer se for viajar de barco

1) Chegar sem verificar a data do embarque. Os barcos não saem todos os dias. Apesar de existir algumas informações no site Navegando e Lendo, tem que confirmar da forma antiga: ligar.

2) Comprar passagem por agência. É mais barato comprar a bordo ou no porto de embarque.

3) Chegar no último minuto. Muitas pessoas chegam de manhã para botar suas redes nos melhores lugares.

4) Colocar a rede perto do motor. Dormir lá é como ter um companheiro que ronca supersonicamente.

5) Viajar de camarote. É como ir a McDonalds e pedir uma McCaviar. No barco se viaja na rede e ponto.

6) Esquecer seus livros e seu iPod. Não dá para conversar o dia todo.

7) Ficar no barco durante as paradas. Nada mais interessante do que passar uma hora numa cidade pequena da Amazônia, comendo sorvete de uxi e observando o ritmo da vida local.

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Autor: Seth Kugel Tags: , , , , ,

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