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quarta-feira, 11 de maio de 2011 América Latina, Brasil | 07:30

Razões para encarar a Amazônia de barco

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Os amigos paulistanos e cariocas que me perdoem, mas meus brasileiros favoritos não conheci em terra firme. Trata-se de uma família que viajou comigo no ano passado em um barco que navegava de Manaus a Porto Velho. Era um casal rondonense com três filhas entre 3 e 10 anos: Israeli, Isabele e Valéria.

Foi no “Dois Irmãos”, um desses barcos que servem de ônibus fluvial entre cidades de Amazônia que não são ligadas por estrada. Kléber, o marido, me contou que a família tinha passado um ano e pouco em Santarém, cuidando de um parente doente. Voltavam para Porto Velho para retomar a vida que tinham antes. No início, todos iam ficar na casa de um amigo solteiro. “Todos os cinco na casa de um cara?”, perguntei, pensando no meu apartamento em Nova York. “É um amigo muito bom”, respondeu Kléber.

Fotos Seth Kugel

O barco Dois Irmãos num porto no Rio Madeira

Mas entendi bem rápido por que o amigo seria tão generoso com eles. Essa família era muito unida, generosa e extremamente doce. A menina mais velha, Israeli, passava o tempo fazendo palavras cruzadas e tentando aprender um jogo de cartas com duas senhoras peruanas. Isabele recebia tratamentos no “salão de beleza” de outra vizinha de rede que sabia mexer com cabelos. A menor, Valéria, fazia travessuras e depois sorria de forma tão charmosa que derretia o coração de qualquer um que pensasse em reclamar. “Tem cara de anjo, mas só a cara”, diziam Israeli e Isabele, já acostumadas às malandragens da irmãzinha.

Em que outro tipo de viagem teria sido possível fazer amizade com essa família? Nem sei dizer. Mas durante os quatro dias em que minha rede ficou pendurada perto das deles, teria sido impossível não virarmos amigos.

Fotos Seth Kugel

As irmãs Israeli e Isabele fazem visita ao meu espaço

Além de conversar com os pais, eu dava algumas aulas de inglês a Isabele, jogava cartas com Israeli e as duas senhoras peruanas e recebia visitas de Valéria logo cedo pela manhã (claro que queria reclamar, mas aquele sorriso…). A família cuidava da minha máquina fotográfica e do meu notebook enquanto tomava banho. Conversávamos e jantávamos todos juntos, sentados no chão, em um espaço entre as suas redes.

Acho a Amazônia muito problemática para turistas. Os que querem ver uma grande variedade de bichos exóticos deveriam pensar no Pantanal. Os que querem visitar comunidades indígenas devem saber lidar com grandes distâncias, obstáculos burocráticos e questões éticas. Os que querem ficar em Manaus ou Belém e só fazer roteiros urbanos, tudo bem, mas visitar a Amazônia sem conhecer a natureza não faz muito sentido.

Na minha opinião, a solução ideal é incluir uma viagem de barco dentre os seus planos. Além de fazer amizades e ver a paisagem, você entra em um dos poucos lugares – quase pré-históricos – em que celular não pega e email não chega. E é muito barato.

Fotos Seth Kugel

A querida família de Kléber

Já fiz essa viagem três vezes: de Tabatinga a Manaus em 2004 (como mencionei na minha primeira coluna), de Manaus a Porto Velho em 2010 e agora, em fevereiro, de Belém a Santarém. E não vejo a hora de pendurar minha rede de novo.

O custo é mínimo. O preço varia de 30 a 50 reais por dia, valor que pode incluir todas as refeições. Em alguns outros barcos, tem a opção do viajante comprar fichas de almoço e jantar a bordo, que custam entre 5 e 7 reais. É preciso também uma rede, sempre disponível nas cidades de embarque a um valor de 25 a 40 reais.

Em uma viagem normal, fazer amizades com os habitantes locais exige um esforço grande. Mas nesses barcos, nem a pessoa mais tímida pode evitar uma conversa com o “vizinho”. Você vai comer, dormir e até escovar os dentes ao lado dos seus colegas de bordo. É óbvio que vão conversar. E muito.

Fotos Seth Kugel

Processando vídeos na minha rede

Conheci muitas pessoas e ouvi muitas histórias em todos os três barcos. Um monte de eletricistas que iam de Manaus a Porto Velho para procurar emprego. Uma jovem que ia visitar o pai no Acre e passou o tempo todo estudando para o concurso da Polícia Militar de Amazonas (claro que, morrendo de curiosidade, peguei o livro e estudei um pouco também – uma boa opção de emprego se caso esta coluna não der certo). Uma menina de 17 anos que estudava em Belém e voltava uma vez por ano para ver os pais numa cidade pequena às margens do Rio Tapajós. Um dentista peruano que se havia se mudado para Manaus em busca de um salário melhor. Uma mulher grávida que fugia do marido que batia nela e que me contou toda a sua história.

Mas você não vai encontrar só amizades a bordo. Tem a paisagem, com um quase sempre inesquecível pôr-do-sol (quando você pensar em esquecê-lo, na próxima tarde, virá outro melhor).

Fotos Seth Kugel

Passando por uma comunidade ribeirinha

Mas talvez a (outra) melhor parte é conhecer as comunidades ribeirinhas, com casas humildes e pitorescas, e observar os barcos com ou sem motor que os habitantes usam como se fosse carro para fazer compras, visitar os vizinhos, ir para o médico e levar as crianças à escola.

Às vezes, os barcos recebem a visita dos que eu chamo de “piratas”: crianças e adolescentes que se aproximam das grandes embarcações, prendem a canoa ao barco com um gancho, sobem ao convés e vendem comidinhas aos passageiros. Adoro observar quais mercadorias chegam a bordo em cada cidade onde o barco para. Na última viagem, o convés inferior estava todo lotado de cebolas. Pareciam suficientes para dar bafo à Amazônia inteira.

Fotos Seth Kugel

Prepare-se para ver um belo pôr-do-sol todo o fim de tarde

Há também entretenimento a bordo – quer dizer, mais ou menos. O convés superior é a área social. Nos barcos que eu conheci sempre tinha uma televisão com sinal ruim, uns alto-falantes usados exclusivamente para tocar forró e tecno-brega em alto volume e uma lanchonete pequena. É lá também que rolam os romances entre os passageiros.

Mas, mesmo com toda essa atividade, ainda te sobra muito tempo. A melhor opção: ler na rede, sentindo a brisa constante.

Apesar das minhas experiências mágicas a bordo desses barcos, reconheço que não é uma viagem para qualquer turista. Os banheiros são simples e compartilhados por muitas pessoas e, apesar dos esforços da tripulação, nunca chegam a ficar precisamente limpos. Dica: procure os toaletes do convés inferior, perto dos motores: são menos frequentados e, consequentemente, mais limpos.

Fotos Seth Kugel

O PF no barco custa de R$ 5 a 7

E, se der o azar de pegar um barco muito lotado, dormir na rede fica mais difícil com um bombeiro aposentado dormindo a um centímetro do seu braço esquerdo e uma mulher grávida a um milímetro do direito.

Quanto à comida – bom, não é gourmet, nem tem pratos exóticos amazônicos, como tacacá e doce de cupuaçu. O cardápio a bordo se resume a duas letras: PF – arroz, feijão, macarrão, farinha e carne ou peixe. Quer frutas? Leve frutas. Quer biscoito? Pode comprar na lanchonete, mas leve para garantir. Alguns barcos têm água filtrada de graça, outros vendem, mas levar uma garrafa de 5 litros é uma boa ideia.

Eu também recomendo levar pimenta, algo que aprendi com o tenente aposentado Isidoro Rebelo Tenório, que viajava de Santarém a Humaitá para ver como ia a construção da sua casa. Ele era generoso em me deixar jogar algumas gotinhas de sua pimenta nesses PFs sem graça.

Infelizmente, as amizades feitas a bordo não sempre são muito duradouras. Gostaria de poder dizer, por exemplo, que ainda mantenho contato com Kléber e sua linda família. Uma vez tentei mandar um email para o endereço que me deram, para dizer que a Valéria saiu num vídeo que tinha feito da viagem. Mas não tive resposta.

Se alguém lá em Porto Velho ler este post e reconhecer a família, mostre essa coluna (e o vídeo) para eles, por favor. E peça para que entrem em contato comigo. Saudades dessa cara de anjo, apesar de ser só a cara.

SETH ERROS

O que NÃO fazer se for viajar de barco

1) Chegar sem verificar a data do embarque. Os barcos não saem todos os dias. Apesar de existir algumas informações no site Navegando e Lendo, tem que confirmar da forma antiga: ligar.

2) Comprar passagem por agência. É mais barato comprar a bordo ou no porto de embarque.

3) Chegar no último minuto. Muitas pessoas chegam de manhã para botar suas redes nos melhores lugares.

4) Colocar a rede perto do motor. Dormir lá é como ter um companheiro que ronca supersonicamente.

5) Viajar de camarote. É como ir a McDonalds e pedir uma McCaviar. No barco se viaja na rede e ponto.

6) Esquecer seus livros e seu iPod. Não dá para conversar o dia todo.

7) Ficar no barco durante as paradas. Nada mais interessante do que passar uma hora numa cidade pequena da Amazônia, comendo sorvete de uxi e observando o ritmo da vida local.

Notas relacionadas:

  1. República Dominicana: o Brasil Caribenho
Autor: Seth Kugel Tags: , , , , ,

quarta-feira, 4 de maio de 2011 América Latina | 07:30

República Dominicana: o Brasil Caribenho

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Ano passado, estava lendo o jornal e vi que a CVC estava oferecendo um pacote para a República Dominicana, esse pequeno país hispânico que divide uma ilha caribenha com o Haiti.

“Brasileiros na República Dominicana”, pensei. Que ótima… E péssima ideia.

Fotos Seth Kugel

Playa Encuentro em Cabarete

Ótima porque o país é lindo e verde e tem praias e montanhas de sobra. E o povo dominicano é muito alegre, gentil com os turistas, tem um dom musical, adora dançar e não tolera uma refeição sem arroz e feijão.  Ou seja: são brasileiros caribenhos (e isso sem falar de sua mistura africana-índia-europeia, da história de ditadura militar, da indústria açucareira e de outras mil semelhanças.)

Péssima porque o pacote anunciado te leva para Punta Cana, a região menos “dominicana” da República Dominicana. Há quatro décadas, esta área era praticamente deserta, com praias virgens e poucos habitantes. Nem se chamava Punta Cana. Alguns empresários descobriram esse pequeno paraíso sobrevoando a região de helicóptero –  na época, não existia Google Earth – e começaram a construir resorts. E mais resorts. Tantos resorts que é possível ir do aeroporto de Punta Cana a alguns deles sem enxergar uma só casa habitada por um dominicano. Perfeito, talvez, para um nova-iorquino que quer escapar da neve em quatro horas de voo. Mas vale a pena para um brasileiro viajar mais de 12 horas só para relaxar numa praia bonita? E para que existe Ubatuba, Búzios, Floripa e Costa de Sauípe? Pela mesma quantia é possível ir para Fernando de Noronha, pelo amor de Deus.

A solução, claro, é montar seu próprio itinerário.

Passei o último réveillon na costa norte do país, perto da cidade de Puerto Plata, com três amigos americanos. Ficamos hospedados no Barefoot Beach Pad, vendidos como hotel. Na verdade, são apartamentos limpos e confortáveis à beira-mar que custam menos de R$200 por noite e ficam perto da cidadezinha de Cabarete, conhecida pelo vento e pelo surf. A escolha foi do meu amigo Tom, que queria aprender kitesurfing.

Eu cheguei com outras prioridades: comida, praia e música.

COMIDA

A comida dominicana se parece, à primeira vista, com a cozinha brasileira.  O prato mais típico é carne acompanhada de arroz, feijão e salada. Frutas tropicais como mamão e maracujá são comuns, assim como a mandioca (só que se chama “yuca”). Até os pastéis, que nos outros países hispânicos se chamam  “empanadas”, aqui são “pastelitos”. Fácil, né?

Fotos Seth Kugel

Lagosta, pescado e tostones em Playa Grande

Claro que os temperos são diferentes e há iguarias locais como os “tostones” – bananas-da-terra fritas, prensadas e fritas de novo. Não esqueça o sal e o ketchup, ou, como dizem os dominicanos, “catchú”.
Cabarete é uma cidade muito turística, mas apesar dos restaurantes e lanchonetes que ofereciam desde hamburgueres até sushi, encontramos um lugar simpático, simples e barato de comida dominicana: Sandro’s.

O “prato do dia” no Sandro’s –um guisado de porco acompanhado de arroz, feijão e salada de repolho com abacate – custava cerca de 150 pesos (R$ 6). Vale a pena também pedir uma porção de tostones, claro.

PRAIA

A praia principal de Cabarete é perfeita para a prática de windsurfing de dia e para as baladas à noite. Mas existem outras praias ótimas na região.

Fotos Seth Kugel

Playa Encuentro em Cabarete

Playa Encuentro fica a dez minutos do centro, com escolas de surfing informais e uma extensa faixa de areia onde sempre é possível encontrar um ponto deserto.  As ruínas de um hotel abandonado dão um toque de mistério ao lugar e um restaurante simpático, Chez Arsenio, vende sanduíches para comer sob as palmeiras.

Um pouco mais longe – 45 minutos de carro, na cidade de Rio San Juan – fica Playa Grande. Além de ser grande (óbvio), a praia possui uma associação de vendedores que fazem de tudo: assim que você chega ao local, eles já avisam para não estacionar o carro sob os coqueiros (para evitar danos causados por cocos) e, em seguida, alugam cadeiras (“cheilones”, do francês “chaise longue”). Na hora de almoço, os vendedores oferecem lagostas e peixes grelhados na hora. E a qualquer hora, peça “una verde” – uma cerveja Presidente muuuuuito gelada, em garrafa verde.

MÚSICA

E, por favor, não se deixe seduzir pela  música eletrônica e pop das discotecas da praia de Cabarete (os lugares perfeitos para conhecer mochileiros dinamarqueses com dreadlocks etc.). Vá conhecer a verdadeira música dominicana.

Apesar de contar com uma pequena população de 10 milhões de habitantes, a República Dominicana exerce uma enorme influência musical sobre a América Latina. Os dominicanos são responsáveis por dois dos gêneros mais ouvidos no mundo hispânico: merengue e bachata. Infelizmente, são pouco conhecidos no Brasil, mas há uma bachata famosa que virou um sucesso em sua versão brasileira (lembram do Fagner?).

Vale a pena se familiarizar com os ritmos musicais antes de viajar. E graças ao YouTube, isso é fácil. Para o merengue, procure os clássicos de Juan Luis Guerra e Sergio Vargas, ou a versão urbana do grupo Omega. Na bachata, um gênero mais romântico (e meio brega), há o Joe Veras e a banda Aventura. A banda dominicana é famosa na Europa e eu até ouvi uma de suas músicas em Manaus, mas só os caribenhos sabem dançar corretamente.

Em qualquer cidade da República Dominicana, você pode ir a uma discoteca local para dançar. Mas o país é tão pequeno que não é raro encontrar um show de um músico famoso em algum lugar perto de você. É só prestar atenção nas estradas: sempre tem cartazes simples pregados em árvores ou nos postes.

Fotos Seth Kugel

Dançando no show do Frank Reyes

Lá em Cabarete, saímos duas vezes para ouvir música ao vivo. A primeira vez foi na virada do ano. Seguindo a dica de uma amiga dominicana que mora em Nova York, deixamos os turistas em Cabarate para trás e fomos ao Rancho Típico Puerto Plata. Fomos os únicos estrangeiros entre mais de 500 dominicanos, a maioria sentada em grupos de família, bebendo rum ou refrigerante sob um teto de palha e madeira. A banda tocou merengue típico e dançamos com as tias, filhas e primas da família ao nosso lado.

Pelos cartazes ficamos sabendo que no dia seguinte Frank Reyes (meu bachatero favorito!) daria um show em outro local de Puerto Plata. Convenci meus amigos (que nunca tinham ouvido falar do tal Frank Reyes) que valia a pena pagar 1000 pesos (R$43) para ir ao show. Frank atrasou muito, chegando só depois da 1h, mas assim que ele entrou em cena, a noite foi um espetáculo – não tanto no palco, mas na pista, com o público cantando, gritando, tirando fotos ou dançando os sucessos “Nada de nada” e “Princesa”. Até meu amigo Adam, que não dança nem sob tortura, se animou e dançou algumas músicas com umas dominicanas muito pacientes.

*

Mas você não precisa ir para Cabarete e Puerto Plata.

Vale a pena ficar um dia na capital, Santo Domingo, a única verdadeira metrópole do país, para visitar os museus, as praças e o prédio onde morou o filho de Cristóvão Colombo, Diogo, na época em que ele foi vice-rei das Índias de Castela.

Mas é preciso também sair da cidade e nem pense em se limitar às praias mais próximas. O país é muito pequeno. Recomendo pegar a nova estrada para a península verde de Samaná, com hotéis pequenos e praias lindas. Entre janeiro e março, há excursões para observações de baleias. Outra dica é conhecer as cidades de Constanza e Jarabacao, nas montanhas. Ou sair totalmente do roteiros turísticos e visitar o noroeste do país, onde levei meus três amigos após três dias em Cabarate, em busca de praias desertas e a especialidade da região, chivo picante (cabra apimentada).

Mas onde quer que você esteja, não se esqueça de procurar os cartazes à beira da estrada para saber os melhores lugares para dançar.

SETH ERROS

O que não fazer na sua viagem à Flórida

1) Ir a Punta Cana. A República Dominicana de verdade está em outras partes.

2) Pensar que é caro. Pesquisando na internet, encontrei passagens de R$800 a R$1300 para Santo Domingo, pela TACA ou Avianca.

3)
Ir em agosto ou setembro. É temporada de furacões.

4) Depender do espanhol que aprendeu em Madrid. O espanhol dominicano é falado muito rápido com letras que somem (“¿Cómo estás?” vira “¿Cómo tú tá?”) e possui vocabulário próprio (maracujá é “chinola”, não “maracuyá”).

5) Conversar sobre futebol. Dominicanos jogam beisebol e ponto: mais de 10% dos jogadores das Grandes Ligas de Beisebol dos Estados Unidos são dominicanos.

6) Ir sem ter aprendido um pouco sobre a música dominicana. Pode escutar merengue e bachata 24 horas por dia pela web: www.bachataradio.com.

7) Resistir aos “plátanos”. Fritos ou fervidos, verdes ou doces, essas bananas-da-terra são tão importantes para a cultura dominicana que em Nova York o bairro de imigrantes dominicanos muitas vezes é chamado de Platanolândia.

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

quarta-feira, 27 de abril de 2011 América Latina, Brasil, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio, Ásia | 10:00

Como passei a ganhar a vida viajando

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Existem jornalistas de turismo que passam a vida inteira jantando nos restaurantes mais badalados de Paris, testando tours de helicóptero pelo Rio de Janeiro e provando o serviço de quarto nos hotéis cinco estrelas de Nova York (para ver se o champanhe tem borbulhas suficientes, imagino).

Como é que meus colegas conseguem arrumar esses bicos de luxo e eu não? Sei lá. Meus chefes sempre me mandam fazer coisas bem distintas: provar comidas de rua, testar os ônibus públicos que chegam ao Pão de Açúcar e ficar nos hotéis mais econômicos (com uma verba que inclui até a cervejinha do frigobar).

Tudo bem. Luxo é ótimo, quem nega mente. Mas viajar assim não é conhecer o mundo real. É pular de fantasilândia em fantasilândia, deixando passar os destinos de verdade, as culturas de verdade e as pessoas de verdade.

Na minha nova coluna que estreia hoje no iG, convido o leitor a me acompanhar por este mundo de verdade. Mas isso só começa na próxima semana. Primeiro, gostaria que me acompanhasse em uma pequena viagem ao meu passado, pelas três viagens que mais me marcaram – e me formaram.

Quênia, 1985


Arquivo pessoal

Eu e minha família queniana

Meu amigo Brian e eu tínhamos acabado de chegar na casa dos nossos anfitriões africanos, uma construção simples de barro numa aldeia remota, quando uma aranha tamanho-de-rato caiu do teto e pousou sobre a cabeça dele.

Eu tinha 15 anos e estava passando um mês e meio na África Oriental com mais 11 adolescentes norte-americanos, num intercâmbio organizado pela YMCA. Era a primeira vez que eu viajava sem meus pais. Fomos morar com uma família de agricultores num lugar onde a maioria dos moradores nunca tinha visto pessoas brancas, pelo menos de perto.

Brian achou que a aranha fosse só uma gota d’água e tentou tirá-la com a mão, mas a aranha pousou de novo sobre a camisa dele. Eu gritei. Ele gritou (mais forte ainda) e deu um salto. A aranha-rato caiu no chão e alguém da nossa família africana a matou como se não fosse nada. Para eles, foi nada mesmo. Viver sem geladeira, sem TV, sem água nem luz? Também nada. As mulheres comerem só depois dos homens terminarem? Nada. Lavar as mãos com um jato de urina de vaca? Nada.

Sabe o que os impressionou mais? O pelo nos braços e pernas de nós, gringos. Os quenianos quase não tinham. (As crianças adoraram acariciar nossos braços; os adultos conseguiram se controlar). E nossas mãos: tão macias e delicadas comparadas com as deles. Prova de que nunca tínhamos trabalhado na vida.

Para mim, o mundo nunca seria igual após aquela viagem (ou aquela experiência). Quando voltei aos Estados Unidos, parei de disputar com meu irmão o caderno de esportes do jornal todas as manhãs e comecei a ler o caderno de notícias internacionais, procurando as poucas notícias que chegavam da África. Três anos depois, na faculdade, decidi me especializar em política africana.

República Dominicana, 1993


Arquivo pessoal

Minha aluna Sheyla entre as suas priminhas

Meu primeiro trabalho depois da faculdade foi como professor da rede pública de ensino num programa de serviço social que se chamava Teach For America. (Já existe uma versão brasileira, dê uma olhada.) Dava aula no terceiro ano primário a crianças imigrantes, na Escola Pública 156, na infame região do South Bronx. Adorava ir, todos os dias, do apartamento que dividia com outros dois professores em Manhattan para esta região periférica e pobre de Nova York. Porém, cheia de energia e vida; para mim era como viajar para outro país, mas com bilhete de metrô em vez de passaporte. Falava-se mais espanhol do que inglês no bairro; eu aprendi rápido. (Só não tão rápido como os chineses, cujos restaurantes dependiam dos clientes latinoamericanos.)

Também adorava visitar as casas dos meus alunos – dominicanos na sua maioria – e nunca recusei um convite para jantar um arroz com frango ou um guisado caribenho. Um dia fui convidado para o aniversário da minha aluna Sheyla. Segundo o convite, a festa era no sábado às 15h.

Ainda ignorante em relação à cultura latina, cheguei pontualmente às 15h. Obviamente, a famíla de Sheyla nem tinha começado a arrumar a casa. Sheyla, que completou 8 anos naquele dia, tinha acabado de sair do banho. Ainda de toalha, correu para o quarto, morrendo de vergonha de seu professor.

Quando o próximo convidado chegou, precisamente três horas depois, os pais de Sheyla já tinham me convidado para viajar com eles à República Dominicana nas férias de verão. Claro que aceitei.

Ficamos todos na pequena casa da avó de Sheyla na capital Santo Domingo. Eu tinha que dividir a cama com o irmão de Sheyla, também aluno na Public School 156. (Nos EUA, um professor que compartilha uma cama com um aluno seria preso, mas fazer o quê?) Fiquei um mês por lá, onde aprendi a fazer “tostones” (bananas da terra fritas), a entender telenovelas e a pegar o ônibus público para o centro da cidade, além de lavar roupa à mão. Mas o que era mais difícil era dançar merengue, um requisito básico na cultura dominicana. Me obrigaram a praticar quase todos os dias e sempre chegavam vizinhos para rir do gringo.

Que vergonha. Mas valeu a pena. Devo minha carreira a essa família e a essa viagem. As primeiras matérias que publiquei no New York Times foram crônicas e notícias sobre a comunidade dominicana em Nova York (até hoje o maior grupo de imigrantes da cidade). Minha primeira viagem paga pelo jornal foi à República Dominicana. E 18 anos mais tarde, meu iPod está lotado de música dominicana, meu espanhol tem acento dominicano e quando danço merengue, ninguém mais ri de mim.

Brasil, 2004


Depois de estudar português por um ano, tinha chegado a hora de conhecer o país que, para a grande maioria dos norte-americanos, é um lugar muito misterioso: o Brasil (todos vocês conhecem meu país, ou pelo menos uma versão dele, pelos seriados, filmes e notícias que chegam; nos EUA há poucas reportagens sobre o Brasil e, na sua maioria, sobre favelas, carnaval, futebol…e, às vezes, uma reportagem sobre política de sua “capital”, Buenos Aires.)

Procurando escapar de turistas e conhecer um Brasil de verdade, optei por não visitar as praias cariocas nem passar o carnaval em Salvador. Entrei no Brasil pela fronteira colombiana, em Tabatinga (AM). A ideia era pegar um barco para Manaus – daqueles em que você dorme na rede – e passar quatro dias sem falar nenhuma palavra em inglês, conversando só com meus “vizinhos” e estudando um livro de gramática que tinha levado comigo.

Sem saber, eu peguei um barco de evangélicos, o que tinha duas consequências. A ruim: não vendiam cerveja. A boa: os meus vizinhos de rede me adoraram porque meu nome é inspirado no Velho Testamento. Fiz amizade com meus vizinhos da rede ao lado, um casal muito simpático com dificuldades de leitura. Eles liam a bíblia beeeem devagar. A gente fez uma troca: eu lia os versos bem rápido, em voz alta, e eles corrigiam minha pronúncia horrível.

Minha primeira crônica para um caderno de viagens foi sobre os quatro dias que passei no barco evangélico. E ainda hoje viajo do mesmo jeito: sempre topo uma aventura. Sempre tento evitar os roteiros comuns e triviais. Não gosto dos resorts, odeio as redes hoteleiras internacionais, sempre tento escolher a opção mais regional. E da mesma maneira quando era professor, nunca recuso um convite para jantar na casa de pessoas que conheço durante as minhas viagens, não importa quão pobres sejam ou afastado esteja o local.

As aventuras, os riscos, os desencontros culturais, os lugares, as pessoas, as aranhas…é isso a essência da viagem. É o que vou contar neste blog – junto, claro, com dicas sobre hotéis, restaurantes e outras atrações tradicionais. Cada semana também terá sempre uma seção de “anti-dicas” – o que NÃO fazer, que vou chamar de “Seth Erros”.

Para mim, este blog  é, de certa forma, minha próxima viagem. E como as viagens que gosto, não é de luxo. Pelo contrário. E é talvez o maior desafio da minha carreira: a primeira vez que escrevo em português, a primeira vez que escrevo exclusivamente para um público brasileiro (claro que os portugueses, angolanos, caboverdianos etc. são muito bem-vindos também). Vou depender de você, leitor, para me avisar como estou me saindo. Se gostar de algo, mande um comentário; se não gostar, mande dois. Vou tentar responder, esclarecer e até brigar com você quando for necessário.

SETH ERROS

Na viagem, você não deve…

1) Ter medo. Dos lugares incomuns, das comidas novas, das experiências inéditas.

2) Isolar-se. O viajante que viaja sozinho (como eu) não tem escolha: tem que conversar com desconhecidos. Para os que viajam com o companheiro ou os amigos, talvez isso não pareça tão necessário.  Mas é.  Faça um esforço, converse com desconhecidos no ônibus, no restaurante, na praia, no hotel. Viajar sem fazer amizades novas não tem graça.

3) Reclamar quando algo não é igual. No meu país, por exemplo, comer arroz e feijão nas refeições não é comum e muitos brasileiros reclamam disso. Mas sejam tolerantes conosco.

4) Ficar no roteiro turístico. Desvie um pouco! Entre em ruas pequenas, desça do metrô uma estação antes para se perder um pouco,  peça dicas aos habitantes locais.

5) Deixar os filhos para trás. Eu aprendi a viajar viajando, não ficando em casa com a babá ou com os avós.

6) Planejar demais. Eu sempre faço uma lista de atividades/restaurantes/ atrações que gostaria de conhecer. Mas não são compromissos, são sugestões. Os melhores lugares são os que se descobre no caminho.

7) Não planejar nada. Pelo menos dê um Google no destino para saber um pouco sobre o destino. (Exemplo: Líbia não é um destino tranquilo hoje em dia.)

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