Razões para encarar a Amazônia de barco
Os amigos paulistanos e cariocas que me perdoem, mas meus brasileiros favoritos não conheci em terra firme. Trata-se de uma família que viajou comigo no ano passado em um barco que navegava de Manaus a Porto Velho. Era um casal rondonense com três filhas entre 3 e 10 anos: Israeli, Isabele e Valéria.
Foi no “Dois Irmãos”, um desses barcos que servem de ônibus fluvial entre cidades de Amazônia que não são ligadas por estrada. Kléber, o marido, me contou que a família tinha passado um ano e pouco em Santarém, cuidando de um parente doente. Voltavam para Porto Velho para retomar a vida que tinham antes. No início, todos iam ficar na casa de um amigo solteiro. “Todos os cinco na casa de um cara?”, perguntei, pensando no meu apartamento em Nova York. “É um amigo muito bom”, respondeu Kléber.
Mas entendi bem rápido por que o amigo seria tão generoso com eles. Essa família era muito unida, generosa e extremamente doce. A menina mais velha, Israeli, passava o tempo fazendo palavras cruzadas e tentando aprender um jogo de cartas com duas senhoras peruanas. Isabele recebia tratamentos no “salão de beleza” de outra vizinha de rede que sabia mexer com cabelos. A menor, Valéria, fazia travessuras e depois sorria de forma tão charmosa que derretia o coração de qualquer um que pensasse em reclamar. “Tem cara de anjo, mas só a cara”, diziam Israeli e Isabele, já acostumadas às malandragens da irmãzinha.
Em que outro tipo de viagem teria sido possível fazer amizade com essa família? Nem sei dizer. Mas durante os quatro dias em que minha rede ficou pendurada perto das deles, teria sido impossível não virarmos amigos.
Além de conversar com os pais, eu dava algumas aulas de inglês a Isabele, jogava cartas com Israeli e as duas senhoras peruanas e recebia visitas de Valéria logo cedo pela manhã (claro que queria reclamar, mas aquele sorriso…). A família cuidava da minha máquina fotográfica e do meu notebook enquanto tomava banho. Conversávamos e jantávamos todos juntos, sentados no chão, em um espaço entre as suas redes.
Acho a Amazônia muito problemática para turistas. Os que querem ver uma grande variedade de bichos exóticos deveriam pensar no Pantanal. Os que querem visitar comunidades indígenas devem saber lidar com grandes distâncias, obstáculos burocráticos e questões éticas. Os que querem ficar em Manaus ou Belém e só fazer roteiros urbanos, tudo bem, mas visitar a Amazônia sem conhecer a natureza não faz muito sentido.
Na minha opinião, a solução ideal é incluir uma viagem de barco dentre os seus planos. Além de fazer amizades e ver a paisagem, você entra em um dos poucos lugares – quase pré-históricos – em que celular não pega e email não chega. E é muito barato.
Já fiz essa viagem três vezes: de Tabatinga a Manaus em 2004 (como mencionei na minha primeira coluna), de Manaus a Porto Velho em 2010 e agora, em fevereiro, de Belém a Santarém. E não vejo a hora de pendurar minha rede de novo.
O custo é mínimo. O preço varia de 30 a 50 reais por dia, valor que pode incluir todas as refeições. Em alguns outros barcos, tem a opção do viajante comprar fichas de almoço e jantar a bordo, que custam entre 5 e 7 reais. É preciso também uma rede, sempre disponível nas cidades de embarque a um valor de 25 a 40 reais.
Em uma viagem normal, fazer amizades com os habitantes locais exige um esforço grande. Mas nesses barcos, nem a pessoa mais tímida pode evitar uma conversa com o “vizinho”. Você vai comer, dormir e até escovar os dentes ao lado dos seus colegas de bordo. É óbvio que vão conversar. E muito.
Conheci muitas pessoas e ouvi muitas histórias em todos os três barcos. Um monte de eletricistas que iam de Manaus a Porto Velho para procurar emprego. Uma jovem que ia visitar o pai no Acre e passou o tempo todo estudando para o concurso da Polícia Militar de Amazonas (claro que, morrendo de curiosidade, peguei o livro e estudei um pouco também – uma boa opção de emprego se caso esta coluna não der certo). Uma menina de 17 anos que estudava em Belém e voltava uma vez por ano para ver os pais numa cidade pequena às margens do Rio Tapajós. Um dentista peruano que se havia se mudado para Manaus em busca de um salário melhor. Uma mulher grávida que fugia do marido que batia nela e que me contou toda a sua história.
Mas você não vai encontrar só amizades a bordo. Tem a paisagem, com um quase sempre inesquecível pôr-do-sol (quando você pensar em esquecê-lo, na próxima tarde, virá outro melhor).
Mas talvez a (outra) melhor parte é conhecer as comunidades ribeirinhas, com casas humildes e pitorescas, e observar os barcos com ou sem motor que os habitantes usam como se fosse carro para fazer compras, visitar os vizinhos, ir para o médico e levar as crianças à escola.
Às vezes, os barcos recebem a visita dos que eu chamo de “piratas”: crianças e adolescentes que se aproximam das grandes embarcações, prendem a canoa ao barco com um gancho, sobem ao convés e vendem comidinhas aos passageiros. Adoro observar quais mercadorias chegam a bordo em cada cidade onde o barco para. Na última viagem, o convés inferior estava todo lotado de cebolas. Pareciam suficientes para dar bafo à Amazônia inteira.
Há também entretenimento a bordo – quer dizer, mais ou menos. O convés superior é a área social. Nos barcos que eu conheci sempre tinha uma televisão com sinal ruim, uns alto-falantes usados exclusivamente para tocar forró e tecno-brega em alto volume e uma lanchonete pequena. É lá também que rolam os romances entre os passageiros.
Mas, mesmo com toda essa atividade, ainda te sobra muito tempo. A melhor opção: ler na rede, sentindo a brisa constante.
Apesar das minhas experiências mágicas a bordo desses barcos, reconheço que não é uma viagem para qualquer turista. Os banheiros são simples e compartilhados por muitas pessoas e, apesar dos esforços da tripulação, nunca chegam a ficar precisamente limpos. Dica: procure os toaletes do convés inferior, perto dos motores: são menos frequentados e, consequentemente, mais limpos.
E, se der o azar de pegar um barco muito lotado, dormir na rede fica mais difícil com um bombeiro aposentado dormindo a um centímetro do seu braço esquerdo e uma mulher grávida a um milímetro do direito.
Quanto à comida – bom, não é gourmet, nem tem pratos exóticos amazônicos, como tacacá e doce de cupuaçu. O cardápio a bordo se resume a duas letras: PF – arroz, feijão, macarrão, farinha e carne ou peixe. Quer frutas? Leve frutas. Quer biscoito? Pode comprar na lanchonete, mas leve para garantir. Alguns barcos têm água filtrada de graça, outros vendem, mas levar uma garrafa de 5 litros é uma boa ideia.
Eu também recomendo levar pimenta, algo que aprendi com o tenente aposentado Isidoro Rebelo Tenório, que viajava de Santarém a Humaitá para ver como ia a construção da sua casa. Ele era generoso em me deixar jogar algumas gotinhas de sua pimenta nesses PFs sem graça.
Infelizmente, as amizades feitas a bordo não sempre são muito duradouras. Gostaria de poder dizer, por exemplo, que ainda mantenho contato com Kléber e sua linda família. Uma vez tentei mandar um email para o endereço que me deram, para dizer que a Valéria saiu num vídeo que tinha feito da viagem. Mas não tive resposta.
Se alguém lá em Porto Velho ler este post e reconhecer a família, mostre essa coluna (e o vídeo) para eles, por favor. E peça para que entrem em contato comigo. Saudades dessa cara de anjo, apesar de ser só a cara.
SETH ERROS
O que NÃO fazer se for viajar de barco
1) Chegar sem verificar a data do embarque. Os barcos não saem todos os dias. Apesar de existir algumas informações no site Navegando e Lendo, tem que confirmar da forma antiga: ligar.
2) Comprar passagem por agência. É mais barato comprar a bordo ou no porto de embarque.
3) Chegar no último minuto. Muitas pessoas chegam de manhã para botar suas redes nos melhores lugares.
4) Colocar a rede perto do motor. Dormir lá é como ter um companheiro que ronca supersonicamente.
5) Viajar de camarote. É como ir a McDonalds e pedir uma McCaviar. No barco se viaja na rede e ponto.
6) Esquecer seus livros e seu iPod. Não dá para conversar o dia todo.
7) Ficar no barco durante as paradas. Nada mais interessante do que passar uma hora numa cidade pequena da Amazônia, comendo sorvete de uxi e observando o ritmo da vida local.
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Autor: Seth Kugel Tags: Amazônia, Brasil, Dica de Viagem, Economia, Viagem barata, viagem de barco












