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quinta-feira, 24 de maio de 2012 Dicas | 06:58

Como aprender inglês

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Leitores, quais entre vocês querem viajar para Estados Unidos ou Inglaterra e voltar falando inglês fluente? A resposta: quase todos, em teoria; na prática, alguns poucos.

É que muitos querem ter um inglês perfeito do mesmo jeito que querem abdominais sarados. De graça. Sem sacrifícios. Dedicar 90 minutos por dia a estudar ou malhar?  Desistir de ler “Caras” e só ler “The Economist” ou desistir de comer doces e só comer verduras?

Aprender um idioma é difícil. Custa tempo. Requer esforço. Mas, como ter o abdominal sarado, vale a pena. (Segundo me dizem. Falo quatro idiomas mas minha barriga está bem mole.)

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Aprender um idioma é um projeto não de férias, mas de todos os dias do ano

Muitas pessoas que te dizem querer passar um, três ou seis meses em Nova York  ou Londres aprimorando o inglês estão mentindo. Não para você, mas para si mesmos. O que querem, provavelmente, é escapar da rotina por um tempo e se divertir na capital do mundo. E aprender um pouco de inglês no caminho. Mas esta coluna se dedica aos outros. Os que realmente querem viajar e voltar falando bem, muito bem. Ou seja, para os que querem fazer sacrifícios.

Só porque esta é uma coluna de viagens, vamos começar com a viagem. Mas como verão depois, aprender um idioma é um projeto não de férias, mas de todos os dias do ano.

A VIAGEM

Você tem 15 anos e seus pais têm uns R$ 7.000 a R$15.000 para gastar? Perfeito. Hora de fazer um desses intercâmbios de um ano em alguma “high school” dos Estados Unidos. Inglês fluente garantido – mais informações aqui. Mas para a grande maioria de leitores, o caminho é mais complicado. Quando eu comecei a aprender português, em 2003, em Nova York, jurei que passaria as poucas férias que tinha para viajar exclusivamente pelo Brasil e por Portugal. E assim foi pelos cinco anos seguintes. Você deve poupar o seu dinheiro e fazer a mesma coisa nos países que falam inglês.

Antes de embarcar: O que levar – ou não – na mala de viagem

AS AULAS

Vale a pena ter aulas? Vale. Mas, detalhe: quem já fala um inglês razoável não precisa ter aulas de inglês. Pode ser aula em inglês. Eu dei aulas de jornalismo por oito anos na New York University School of Continuing and Professional Studies, onde a metade dos alunos era estrangeira e muitos deles não falavam um inglês perfeito. É que muitas faculdades oferecem cursos de “continuing education” (ensino adulto ou educação continuada), os quais não requerem passar em nenhuma prova. Podem ser aulas de arte, de história, de filosofia ou até um curso de degustação de vinhos. É só buscar  pelo Google na cidade onde vai viajar e terá muitas escolhas, das quais algumas oferecerão ajuda com o visto de estudante.

Fuja de escolas no exterior com grande concentração de brasileiros

Os outros vão querer aulas de inglês. Como escolher? Com CUIDADO. Encontrar uma escola de inglês é fácil. Escolher uma boa é muito complicado. Segundo muitos amigos brasileiros e latino-americanos que estudaram nos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, muitas escolas são apenas fábricas de vistos de estudante. A qualidade da instrução pode ser péssima. Então, é preciso procurar dicas de amigos que já foram e buscar online as avaliações das escolas.

Mas tem duas dicas adicionais:

Primeiro, é quase sempre mais seguro fazer cursos oferecidos por universidades do que por “escolas de idiomas”. É mais provável que os professores sejam profissionais legítimos que vão levar a sério a tarefa. Mas não só isso. Assistir aulas em um “campus” te dá a oportunidade de conhecer e fazer amizades com estudantes americanos (ou ingleses ou australianos) que fazem outros cursos no mesmo lugar.

Segundo, evite os cursos nos quais tenham muitos inscritos brasileiros. Fato: brasileiro que tem aula de inglês com outros brasileiros vai falar português entrando e saindo da (e às vezes durante a) aula. Como saber? Pergunte! Qualquer escola tem estatísticas sobre as origens dos alunos. Quanto mais diverso, melhor. E, detalhe: cuidado se tiver muitos latinos hispânicos. Você não seria o primeiro a voltar ao Brasil falando mais portunhol do que inglês.

Mais dicas do Seth: Como aproveitar melhor os programas de milhas

Mas estou dando dicas fora de ordem. Primeiro, você precisa escolher uma cidade (e país).

A CIDADE

A parte mais difícil: considerar a possibilidade de NÃO IR para Nova York, nem Londres. Essas cidades são tão lotadas de brasileiros e outros estrangeiros, que é fácil demais se refugiar com os compatriotas. Você acha que não, mas já vi isso acontecer muitas vezes. Todo mundo chega a uma cidade nova pensando que vai fazer amizades com os locais, mas, ao final, muitos acabam ganhando só amigos brasileiros. Lamentável, mas compreensível.  A única forma de evitar: ir onde não tem muitos brasileiros. Sacrifício? É. Vai sentir saudades de arroz e feijão? Vai. Falar inglês o dia todo dá dor de cabeça? Dá. Vale a pena? Só você decide.

Em cidades pequenas, como Savannah, nos EUA, tem menos estrangeiros para conviver

Um exemplo concreto da minha vida: dos idiomas que eu sei, o que falo pior é o francês, apesar de ter estudado desde jovem e ter passado cinco meses da faculdade estudando em Paris. Por quê? Porque estudei EM PARIS. Por que escolhi Paris? Porque era Paris. Mas a cidade estava lotada de americanos, e era quase impossível fazer amizades com os parisienses (como é com os moradores de muitas grandes cidades). Resultado: desisti e passei meu tempo com americanos. Por que não estudei em Lyon, Aix, Perpignan ou Nantes? É uma boa pergunta, que estou me fazendo até hoje.

Nas cidades pequenas, as pessoas normalmente são mais abertas – e mais interessadas em conhecer estrangeiros. Também podem ser menos caras. Mas tem boas aulas de inglês? Pode acreditar – pelo menos nos Estados Unidos, com tantos imigrantes que têm hoje. Só para fazer um teste, fiz uma busca de aulas de inglês na cidade de Savannah, a cidade charmosa de 135.000 sobre a qual escrevi na semana passada. E… a melhor faculdade da cidade, a SCAD, oferece aulas de inglês para estrangeiros, e (segundo dizem) cada professor se formou em “ESL”, ou seja, “inglês como segundo idioma”. Isso você nem sempre vai encontrar em outras escolas. (O preço: US$ 2.500 por 10 semanas de cursos, programa full-time de quatro cursos.)

“Brasileirismos”: Como ser brasileiro – mas não tanto – no exterior

ONDE MORAR

Mais um detalhe: onde morar. Já decidiu estudar na cidade de Gringolândia porque tem poucos brasileiros. Mas, claro, seu primo carioca tem um amigo mato-grossense cujo sobrinho gaúcho mora naquela cidade e conhece um cearense que quer alugar um quarto no seu apartamento. EVITE. Não more com brasileiros. Vai ser mais difícil procurar “roommates” que não são brasileiros? Vai. Vai ser mais arriscado? Vai. Vai valer a pena? VAI. Como fazer? Pergunte na escola onde vai estudar, mas também, dependendo da cidade, pode começar nos classificados craigslist.org.

ANTES DE IR/DEPOIS DE VOLTAR

A viagem é a parte divertida. Mas como eu disse, aprender um idioma é um trabalho de vários anos. Quem chegar na Inglaterra só com o inglês que aprendeu na escola cinco anos atrás corre o risco de poder entrar na conversa só quando se tratar de algum livro que esteja, por acaso, sobre a mesa.

Você pode fazer aulas de inglês na sua cidade, se quiser. Mas existem muitas outras opções. É possível comprar um cursos digital (tipo Rosetta Stone), ou contratar um professor particular pelo Skype, uma opção ótima para quem quer praticar com um nativo e talvez fazer um amigo para visitar quando viaja. (É só consultar seu melhor amigo Google com uma busca de “English lessons” e “Skype”; as aulas normalmente variam entre R$ 30 e R$ 60 e duram entre 25 minutos e uma hora.)

Mas com ou sem aula, a parte mais importante é algo extremamente fácil no mundo de hoje: escute rádio em inglês pela internet. Diariamente.

Ouvir programas de rádio - não músicas - em inglês é essencial

Claro, pode assistir TV americana (sem legendas, por favor), ou ler livros em inglês. Ótimas ideias, para quem tiver tempo. Mas rádio é bem mais fácil e não permite desculpas de “estou ocupado”. Dá para escutar no banheiro, enquanto se veste, tomando café da manhã e até no ônibus/ trem/ carro por “podcast”, esses programas que as pessoas baixam gratuita e legalmente na internet para botar no seu smartphone ou mp3.

Quais programas escolher? Esqueça música. O que você precisa é escutar conversações ou pelo menos o jornal do rádio. O ideal é virar fã de algum programa da manhã. Aprendi espanhol escutando “El Vacilón de la Mañana”, na rádio hispânica de Nova York (antes da época do rádio por internet) e aprendi português escutando o programa de Roberto Canázio, o  Patrulha da Cidade, na Tupi-AM do Rio, pela internet. (Fãs de Roberto Canázio: ainda uso muito a frase: “Moraaaaaal da história…”)

Uma escolha perfeita para melhorar seu inglês é a National Public Radio, a rádio pública nacional dos Estados Unidos, com estações em quase todas as cidades. Por quê? Porque os apresentadores são inteligentes, o conteúdo é interessante e intelectual etc. Mas a melhor parte: falam um inglês devagarzinho e certinho. (Na maioria dos casos. Exceção: os caras do programa CarTalk, dois mecânicos que dão conselhos sobre os carros e sobre a vida, em sotaque forte de Boston.)

Quer escutar ao vivo? É só escolher sua emissora pelo Google (NPR + cidade funciona) e encontrar o site. A minha é WNYC, em Nova York. E os “podcasts” são dos assuntos mais variados, e tem uma lista aqui.  Baixe alguns e escolha qual gosta mais. Não se preocupe se não entender tudo, ou nem 25%, na primeira vez que escutar. Ter o idioma nos seus ouvidos ajuda muito e pouco a pouco irá se acostumando, como mágica.

Tente ler só em inglês também.  Perdi quase todos os bons livros americanos publicados durante os anos 1992-1995 e 2003-2006, porque nessas épocas me dediquei só a ler livros publicados em espanhol e português. Sou maluco? Talvez. Mas um maluco que fala espanhol e português.

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 17 de maio de 2012 Estados Unidos | 06:45

Fuja das compras em Savannah, uma das cidades mais lindas dos Estados Unidos

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Distintas pessoas reagem às notícias de formas distintas.

Exemplo: o real enfraqueceu e vale R$ 1,97 por dólar.

1)     Os exportadores celebram.

2)     Os importadores choram.

3)     Eu penso na cidade de Savannah, Georgia.

Ou seja, eu penso que, talvez, por fim, os brasileiros me dêem bola quando sugiro irem para Savannah, que é, sem dúvida, uma das cidades mais charmosas dos Estados Unidos.

É que quando o real estava mais forte, vocês brasileiros pensaram nos Estados Unidos como uma espécie de shopping gigantesco. (Sem problema, alguns dos meus compatriotas pensam no Brasil como uma floresta gigantesca.) Mas agora que as compras ficaram um pouco mais caras, pode ser que vocês considerem uma visita a lugares conhecidos pela sua beleza ou valor histórico, e não por sua proximidade dos “outlets” de Woodbury Commons (em Nova York) e Sawgrass Mills (em Miami).

Outras viagens: Um roteiro de compras – para brasileiros – em Nova York

Turistas em carruagem fazem tour no distrito histórico de Savannah.

Savannah seria uma das minhas primeiras sugestões. Uma cidade de apenas 135.000 habitantes, a uma hora de avião ou quatro de carro de Atlanta. A capital do Estado da Geórgia é ainda a cidade mais importante do sudeste do país (com voo direto de São Paulo, pela Delta). Savannah recebe milhões de visitantes por ano que caminham pelo distrito histórico, passando por (e dentro de) casas antigas em belas condições, visitando galerias de arte e comendo a comida tradicional do sul, que eu sempre comparo (culturalmente e “gorduramente”) com a comida mineira.

Charme é o mínimo para descrever o centro histórico, desenhado por James Oglethorpe no século 18. Oglethorpe era britânico e fundador da colônia da Geórgia, quando o que agora é os Estados Unidos era terra disputada entre os ingleses, os espanhóis e os franceses (e os indígenas, claro). A ideia era formar uma cidade dividida em “wards”: pequenos bairros que teriam em seu centro uma praça verde. Ao redor da praça, Oglethorpe reservou espaços para prédios públicos como escolas e igrejas; algumas casas elegantes ficaram também frente à praça, muitas das quais hoje são preservadas como museus. Mas famílias menos ricas também conseguiam morar perto (se não ao lado) das praças, resultando em um plano que se considerava igualitário na época. – Oglethorpe, que deve ter sido um cara legal, também quis proibir não só a escravidão, mas também a presença de advogados (principalmente nos EUA, um mundo sem advogados parece ser o paraíso) na colônia, mas nenhuma dessas duas leis pegaram, infelizmente.

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Praça típica nos "wards" de Savannah (com bastante musgo espanhol)

E tem mil lugares para parar, além das pracinhas: começando com os museus dentro das casas históricas, tais como a Owens-Thomas House, lotada de arte e móveis de 1750-1830, ou a Davenport House, onde se pode reservar uma mesa para o tradicional chá estilo século 19. Além dos museus, tem muitas galerias de arte e lojas de artesanato dentro dos wards, em parte devido à presença da Savannah College of Art and Design, uma faculdade respeitada de arte e desenho. O jornal francês Le Monde chamou a cidade de “a mais bonita dos Estados Unidos”, e os franceses sabem algo de cidades bonitas. O plano físico faz tanto sentido que é difícil andar pelas ruas e não pensar “por que toda cidade não é assim?”.

Mas nem toda cidade poderia ser assim, porque nem toda cidade tem o clima certo para o que mais dá charme à cidade: a onipresença do musgo espanhol, também conhecido em português como “barba de velho”. O musgo, que adora se pendurar nas árvores da região, inspira um sentimento que é difícil de descrever. Eu diria que é parte romance, parte preguiça, parte espanto. (Você, porém, reserva o direito de ter a sua própria reação). Talvez seja difícil acreditar que um musgo possa mudar uma cidade, mas é só dar uma olhada nessa foto.

Veja também: Como ser brasileiro – mas não tanto – no exterior

Musgo espanhol

A história de Savannah é entrelaçada com a indústria do algodão, e o melhor lugar para apreciar isso é na beira do rio, na River Street, com velhos prédios que eram depósitos de algodão (com os escritórios dos exportadores nos últimos andares). Por um tempo, foi a cidade que mais exportava algodão nos Estados Unidos, e o prédio mais importante era a Bolsa do Algodão – que ainda existe. Agora, o pátio próximo ao rio se transformou em parque público e atração turística, e está lotado de lojas e restaurantes.  Dica: quem gosta de comer de graça deve visitar a Peanut Store (Loja de Amendoim) na beira, que oferece amostras grátis de castanhas cobertas de chocolate, entre outras coisas. (Você pode comer muito e ninguém fala nada, pode acreditar, eu fiz a prova).

Há pouca informação escrita em português sobre Savannah – se conseguir encontrar, leia o clássico “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, livro mais famoso (mas não o único) cuja história se passa em Savannah. Mas parece bastante difícil encontrar a versão em português, assim que também vale ver o filme, do diretor Clint Eastwood. Savannah tem fama de ser uma cidade meio assombrada pelos fantasmas do passado, em parte pela fama do livro.

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Tá vendo? Um fantasma na janela? Se não, melhor não perder dinheiro nos Ghost Tours de Savannah.

Para os que se garantem em inglês, vale pegar um dos famosos “Ghost Tours” noturnos de Savannah, inclusive um que leva os clientes em carro funerário. Eu fiz outro e achei um pouco absurdo, mas nem todo mundo concorda sempre comigo. Exemplo: eu não gosto de bacalhau, mas aceito que outras pessoas de boa fé (e mau gosto) podem não concordar.

Onde comer? Savannah tem muitos restaurantes clássicos da comida do Sul, mas também tem lugares que é melhor evitar. Talvez o restaurante mais badalado da cidade seja o The Lady & Sons, de Paula Dean, chef muito conhecida nos EUA pelos programas de TV e livros de receitas que não poupam gordura. The Lady & Sons (que ela administra com os filhos) é o tipo de restaurante que eu nunca visitaria por escolha própria, porque nem vejo os programas da Paula e só quem é fã aguenta os preços e filas.

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Mas só para avisar, não sou sempre contra fenômenos turísticos. Eu posso recomendar, sem reservas, o Mrs. Wilkes Dining Room, onde se serve, de segunda a sexta, das 11h às 14h, um almoço “family-style” onde você se senta numa mesa grande com vários desconhecidos (ou que você acaba de conhecer na fila) e come as comidas mais tradicionais do sul: frango frito, linguiça, guisado de carne, muffins de milho, batata doce, quiabo, feijão verde, couve-galega. Custa US$ 18 (R$ 36) e se come (e bebe chá gelado) à vontade. Nem tão ruim para um lugar turístico. Mas chegue cedo, porque sempre tem fila.

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Restaurante Zunzi's

Para quem quer gastar ainda menos, vou recomendar dois lugares. O primeiro por experiência própria: o Zunzi’s, um pequeno lugar que vende sanduíches e pratos de origens tão variados quanto os donos, que são de origem holandesa-suíça- italiana-sul-africana. O segundo vem de experiência alheia: o Angel’s BBQ, onde um sanduíche de pernil desfiado, tradicional da região custa US$ 6. Digo experiência alheia porque quando eu cheguei, às 13h30, já tinham vendido toda a carne do dia e estavam fechando. Lugar que não consegue preparar comida suficiente para durar até o final do almoço é lugar bom.

Daí, só fica o detalhe de onde dormir. As duas vezes que fiquei na cidade, usei o serviço do AirBnB (agora com site em português!), pelo qual residentes locais do mundo inteiro alugam quartos nas casas deles (ou a casa inteira) por preços muito menores do que um hotel. (Savannah tem mais de 90 possibilidades listadas). Nas duas vezes foi um sucesso, com quartos bem cuidados e anfitriões que estão tão acostumados a ter gente em casa que quase parecem pousadas.  Mas para quem tem um pouco mais de dinheiro, um “bed and breakfast” (cama e café) no distrito histórico é a escolha certa. Muitas das pousadas se situam em casas históricas, o que significa que, com sorte, a vista da janela do seu quarto será de árvores cobertas de musgo espanhol.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quinta-feira, 10 de maio de 2012 Brasil | 06:42

Um teste do aeroporto de Guarulhos antes da invasão dos gringos

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Admiro André Franco Montoro, ex-governador de São Paulo e líder do movimento Diretas Já, não pelas realizações políticas que conseguiu em vida, mas por ter sido tão esperto dois anos após sua morte. Aconteceu em 2001, quando o Congresso Nacional decidiu rebatizar o Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos em sua honra. De algum lugar do céu, o governador declarou “NÃO QUERO!” E, abracadabra, o nome não pegou. Brilhante.

Quem ia querer, de verdade? O aeroporto é feio e sombrio, os pães de queijo são caros e os sanitários nem tão sanitários. Ainda assim, gosto do aeroporto. Eu não sou tão exigente para precisar de um bar de sushi, um trem-bala até o centro da cidade, um terminal cheio de luz e cores; vamos deixar essas coisas para cidades lindas. O concreto cinza e tetos baixos da sala de desembarque são megadeprimentes para quem chega de outro país após dez horas de voo, mas quem nega que representa bem a maioria da arquitetura da cidade? De certa forma, o aeroporto é uma fiel representação de São Paulo.

Outras viagens: Para inglês entender

Em Guarulhos, turistas perdem qualquer bronzeado imediatamente, por falta de luz natural

Mas eu reconheço que minha opinião é minoritária (ou talvez única). Assim que decidi avaliar, de forma objetiva, como seria a experiência de um estrangeiro chegando ao Brasil para uma reunião, umas férias, ou, sim, a Copa de 2014.

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Claro que testar os terminais 1 e 2, ambos construídos nos anos 80, não é completamente justo. O terminal 4, branquinho e novinho, acaba de abrir – mas ainda está meio vazio, usado só para voos da Webjet e quase sem serviços adicionais.  E o terminal 3, que será o maior de todos, entrará logo em construção e, segundo os planos, ficará pronto até o começo da Copa em 2014 (aham). Quem sabe se os terminais 3 e 4 vão transformar Guarulhos em um aeroporto moderno e entre os melhores do mundo (aham, aham), invalidando completamente esta pesquisa?

Terminal 4: branquinho e lindo, mas sem serviços

Bom, o teste inicial foi um sucesso. Cheguei de Nova York no sábado, prestando atenção ao processo de desembarque, imigração e alfândega. Achei tudo bem fácil: apesar de haver um pouco de confusão nos corredores onde os que desembarcam cruzam com os que estão embarcando, não tinha nenhuma fila na imigração, a mala chegou rapidinho e sai da alfândega sem os oficiais perceberem os 18 iPads na minha mala. (Nota para a Receita Federal: estou brincando.) E fui direto para o ônibus secreto que quase ninguém conhece, mas que te leva para o metrô Tatuapé por R$ 4,30.

Mas sei que às vezes há filas enormes, policiais federais que não sabem nada de inglês e falta total de ar condicionado.

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Querendo fazer mais um teste sem sair e voltar ao País, voltei na segunda-feira, simulando não falar nenhuma palavra de português e fingindo ser um gringo recém-chegado e à procura de informação, serviços, comida, transportes e os outros serviços do aeroporto. Vejam o que descobri:

Estrutura
Um aeroporto é a primeira impressão que um turista ou empresário tem da cidade. A cidade é limpa? É bonita? É eficiente? Como já falei, São Paulo não é nenhuma dessas coisas. Imagina passar por um aeroporto supermoderno e chique e depois ficar 90 minutos no trânsito para chegar ao centro de uma cidade cinzenta e suja. Que desilusão.

Mas a diferença é que a cidade é “cool” apesar de ser cinza. O concreto do aeroporto de Guarulhos é só cimento e areia; o concreto da cidade de São Paulo é cimento e areia com suplemento de arte, grafite, toques de beleza, cantinhos secretos.

Mais: Guia para a primeira viagem de avião

Escuro e deprimente... como São Paulo mas sem 'vibe'

O aeroporto tem pouquíssima arte: tem um mural pop de Romero Britto que dá um pouco de cor e, escondido entre os terminais 1 e 2, se encontra o Espaço Cultural Infraero, que deve ser muito lindo, mas estava fechado quando eu passei às 18h30. Mas esculturas, quadros, até exibições de grafite nas áreas públicas ajudariam muito a melhorar. Imagine um Beco de Batman ligando os terminais 1 e 2!

Minha maior queixa, porém, é a tipografia – ou seja, as fontes que usam em todo lugar. Olha as letras aqui:

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Desembarque Internacional na "Rodoviária" Internacional de Guarulhos

Parece uma rodoviária nos anos 70. E a tela que mostra as chegadas dos voos? Nunca vi tipografia tão apertada com tanto espaço em branco. Superdifícil ler. E se um passageiro que sai da alfândega e entra na área pública do aeroporto quiser encontrar o banheiro ou informações turísticas? Será difícil, porque colocaram a sinalização – e várias outras coisas – bem atrás da área onde ficam todos os motoristas, com papéis indicando o nome dos passageiros que vieram buscar. E nós que não temos motorista? Como vamos encontrar o banheiro?

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Ajuda ao turista
E que tal o tadinho do turista que chega a Guarulhos sem saber nada sobre o transporte e sem nem um hotel reservado? Boa notícia: os atendentes do balcões de informação da Infraero, da São Paulo Turismo e até da Guarulhos Convention and Visitors Bureau (para quem viajou dez horas para desfrutar das maravilhas da cidade de Guarulhos) falavam inglês e eram bem competentes.

Balcão da Infraero; bom inglês, boa atitude

Testei os três, fingindo não falar português, e pedindo dicas básicas sobre transporte (para Campinas e para o Centro de São Paulo) e hotéis (no Centro e perto do aeroporto). Tudo certo em todos os balcões. O inglês de todo o mundo era perfeito? Não, mas eu não preciso um inglês de Oxford para me contar que o Airport Bus Service fica na segunda porta à esquerda.

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A informação também não era perfeita. Para a moça que trabalhava no balcão da São Paulo Turismo, perguntei por um hotel barato perto do aeroporto. Recomendou o Matiz, dizendo que era “entre R$ 100 e R$ 300”. Em muitas cidades teriam ligado para o hotel para verificar ou até reservar, mas tudo bem. Ela era simpática. (E o preço, quando liguei, era R$184. Entre R$ 100 e R$ 300 mesmo.)

Sobre o que fazer em São Paulo por um dia, outra jovem entusiástica insistiu que eu precisava ir ao Centro para provar o “very, very big bologna sandwich”, um sanduíche de mortadela muito grande, no Mercado Municipal. E ganhei um panfleto sobre o mercado. Também recomendou a Pinacoteca e a Praça da Sé, mencionando que era necessário tomar cuidado com o celular e a máquina. Boas dicas, mas que tal uma caminhada pela avenida Paulista e uma visita ao MASP também?

O nível de inglês era aceitável. O entusiasmo era mais. É um bom começo.

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Culinária
O mínimo que se espera em um aeroporto internacional de cidade grande é que tenha opções variadas, pessoas que falem um pouco de inglês ou cardápios em inglês e um ambiente relaxante. Guarulhos, infelizmente, falha em todos.

Para quem quer um sanduíche, um pão de queijo, um hambúrguer, um quibe, uma pizza medíocre e ter de disputar por uma das poucas mesas disponíveis, tudo ótimo. Mas, hoje em dia, os aeroportos internacionais de grandes cidades oferecem muito mais, em um ambiente mais tranquilo.

Nome em inglês, mas cardápio só em português

E a situação para quem não fala português (ou espanhol, que funciona mais ou menos) é péssima. Ironicamente, o inglês é pior nos restaurantes com nomes em inglês: nem Baked Potato, nem Naturally Fast, por exemplo, têm cardápios em inglês ou pessoal que falava nenhuma palavra na língua quando eu visitei. Lugares como Viena e Balloon Café tinham cardápios em inglês, mas ninguém que falava. Um prêmio para o cara que trabalha no Frango Assado, que apesar de não ter cardápio em inglês, parou para me explicar com precisão o que era um beirute.

Internet
Novidade em Guarulhos: desde abril tem internet de graça para passageiros nas salas de embarque.  Foi impossível testar isso sem comprar uma passagem, assim que subcontratei o teste para o amigo, Rich Yang, que voou de Guarulhos ontem. Ele reportou  – só depois de chegar ao aeroporto de Montevidéu, onde a internet funciona – que, em São paulo, o sistema não aceitou o número do seu boarding pass.

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Eu tive problemas parecidos quando tentei no piso de desembarque. Mas para mim é igualmente importante, ou talvez mais, ter internet nas outras áreas do aeroporto. Para, por exemplo, chegar em um país estrangeiro e pegar os e.mails depois de um voo longo, ou abrir o Skype e ligar para a pessoa que disse que ia te pegar mas não aparece. Ou, antes do check-in, para mandar e-mails da fila interminável ou pegar o número da conta de milhas.

E chegamos a um problema. A rede pública no aeroporto, “Linktel Wifi”, está disponível em todas partes do aeroporto, não só na sala de embarque.  Bom, “disponível” no sentido de “existir”, mas não no sentido de “funcionar”, pelo menos para gringos.

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O preço é bom: R$ 1,99 por uma hora. Só que não tem versão em inglês e sem endereço no Brasil não é possível se cadastrar. Nem cheguei ao ponto de botar um cartão de crédito.

O atendente na mesa da Infraero salvou o dia, me avisando que a loja Digital World, no segundo andar, tinha uma rede de Wi-Fi. Mas precisava estar perto da loja. Você ainda tem a opção de usar os computadores deles, que funcionavam bem. Assim que, apesar de Guarulhos não ter Wi-Fi modelo 2012, chegou pelo menos a 1998.

Tomadas
Precisa de tomadas. Mais tomadas. Meu reino por uma tomada. Quem chega de um voo internacional chega sem bateria, quem chega para um voo internacional precisa carregar. Mas esse problema não é só de Guarulhos, existe ao redor do mundo nos aeroportos mais antigos. Vamos esperar que o terminal 3 seja um paraíso da eletricidade.

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A seleção inteira de livros em inglês disponíveis na LaSelva de Guarulhos

Livraria
A única livraria que encontrei no aeroporto (fora as das salas de embarque, que não pude visitar) foi a LaSelva, que tinha pouquíssimo para o passageiro internacional. Dez títulos de livros em inglês, a maioria sobre vampiros ou algo parecido. Algumas revistas em inglês, francês e italiano, mas nada das revistas que se vê em qualquer outro aeroporto do mundo: Time, The Economist etc. Porém, tinha dezenas de cópias de “Quem Acontece”, com Michel Teló na capa.

Transporte
Quem quer pegar táxi não tem nenhum problema: o sistema, apesar de ser muito caro, funciona e quando eu fiz meu teste, os atendentes falavam um inglês suficiente. O preço é bem alto – mais de R$ 100 para os bairros hoteleiros, mas isso é assim no mundo inteiro. Por isso nunca pego táxi. A opção que me deram nos balcões de informação era o Airport Bus Service, esse ônibus executivo que chega a várias partes da cidade, incluindo Congonhas, por R$ 35. O inglês da jovem que trabalhava lá era muito, muito fraco, mas conseguiu me entender e me mostrar o horário e o preço na tela.

Mais: Como economizar em viagens

(Ninguém recomendou o ônibus de R$ 4,30 para o Tatuapé, mas prefiro assim, se pessoas demais ficarem sabendo, todo o mundo vai pegar e eu nunca vou conseguir um assento.)

Também testei o inglês falado nas locadoras de carros, com resultados mistos. Na Localiza, a mera pergunta “Do you speak English” pareceu assustar tanto a tadinha da balconista que nem conseguiu responder com “Sorry”; na LocarAlpha, a mulher me disse “I don’t speak English” com sotaque tão bom que achei que estava mentindo, mas quando perguntei quanto era um carro por uma semana, ficou claro que não falava mesmo. Na Hertz e Unidas falaram bem; a menina da Unidas só não sabia falar “não tem direção hidráulica” em inglês, mas conseguiu explicar usando gestos bem engraçados que qualquer pessoa teria entendido.

Se os aeroportos brasileiros vão sobreviver à Copa, não vai ser com novos terminais e aulas de inglês e quem sabe quais bandas de samba e faixas de “WELCOME!”. Vai ser pelo charme dos brasileiros como a menina da direção hidráulica e o cara do Frango Assado que dedicou seu tempo para me explicar o que era um beirute.

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 3 de maio de 2012 Estados Unidos | 06:56

Planeje a espontaneidade para aproveitar ainda mais a viagem

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Pergunte para 100 viajantes qual é o segredo de uma viagem bem sucedida, e aposto que 99 dizem “planejamento”. (E o 100° não responde porque está de férias.) Em teoria, eu até concordo. Mas na prática, e cada dia mais, a evidência indica o contrário. O segredo é a espontaneidade – ou seja, a disponibilidade de abandonar todos os planos se algo melhor surgir.

Voltei domingo de seis dias na estrada, viajando pelo sul dos Estados Unidos pela rota US-17. O melhor dia, de longe, foi o que começamos em Sunset Beach, North Carolina, saindo cedo com a meta de chegar na hora de almoço em Charleston, South Carolina. Para quem acha que não tem nada entre Washington e Miami, Charleston fica lá no meio, uma dessas cidades históricas que representam o charme dos Estados do sul que se rebelaram contra a União na Guerra de Secessão do século 19.

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(Detalhe: “começamos” porque, pela primeira vez em quase um ano, não viajei sozinho. Estava acompanhado pela Cris Kang, uma carioca residente em Nova York que concordou em me acompanhar e sofrer pelo ritmo frenético e pela verba baixa que marcam minhas viagens – tadinha dela.)

Depois de um desvio no caminho, o dia começa com os 'muffin caps' da Seaside Bakery

A noite anterior, no quarto de um motel em Sunset Beach (outro detalhe: motel nos Estados Unidos é um hotel barato para motoristas), ficamos até tarde planejando o próximo dia nos nossos notebooks, ela deitada em uma das camas e eu na mesa. A lista de coisas para fazer em Charleston era enorme: prédios históricos, museus de arte, de cultura e até da escravidão, restaurantes de comida típica da região (sopa de caranguejo, couve-galega, torta de pêssego, camarões com “grits” – parecido com uma canjiquinha salgada, de origem africana. Muitas coisas para fazer num dia só.

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Mas desde cedo os planos sofreram um desvio, literalmente. Pegamos a estrada errada, onde, precisando de café, encontramos a “Seaside Bakery”, uma padaria grande com uma só pessoa dentro: a dona, Carolyn Wright, é especialista em bolos de casamentos, mas também faz doughnuts recheados de geleia de frutas e “muffin caps” – uns deliciosos muffins sem a parte de baixo. A Carolyn, que deve ter uns 50 e poucos anos, é uma dessas pessoas inspiradoras que deixou uma carreira de escritório para seguir o sonho de fazer bolos, e deu certo; por fim vai contratar uma ajudante – uma das noivas que era cliente.

Cris joga minigolfe pela primeira vez. No fundo: a "montanha de lava fundida"

Saímos com dois muffin caps e dois cafés, e fomos embora para… jogar golfe.

É, passando a divisa entre North e South Carolina, chegamos rápido à cidade litorânea de Myrtle Beach, famosa por suas praias medíocres e campos de golfe. Ou seja, cidade chata onde de jeito nenhum íamos parar. Só que Cris enxergou algo que achou esquisito na beira da estrada – o que parecia uma série de greens de golfe em miniatura, como os que o pai dela usa para praticar os putts (tacadas leves). E assim descobri outra grande diferença entre a infância no Brasil e a infância nos Estados Unidos: vocês quase não têm minigolfe, algo constante nas festas de aniversário e férias na praia para gringuinhos novos.

Óbvio que precisamos parar e jogar uns 18 buracos (que dura uma hora, mais ou menos). Os campos de minigolfe frequentemente têm temas bregas, e dentro de segundos, passamos por um exemplo mais brega do que o normal: o Molten Mountain (Montanha de Lava Fundida), um prédio construído para parecer um vulcão em erupção, com águas cor-de-rosa saindo do “pico” e caindo como cachoeiras pelas ladeiras. Tinha dois campos de 18 buracos – um dentro do vulcão, e um fora –, e uma trilha sonora típica, rock clássico dos anos 50 e 60.

Clientes comem porco (e frango e salada e sobremesas) à vontade por US$ 6,95 no Hog Heaven, em Pawleys Island, à beira da estrada US-17

Seguimos pela rota US-17, que virou rural depois de Myrtle Beach. Muito nada, até aparecer na beira direita da estrada um restaurante simples de “barbecue”, o churrasco tradicional da região, quase sempre de porco. O nome do restaurante, Hog Heaven (“Céu dos Porcos”), indicava que não era exceção. Oferecia almoço à vontade por apenas US$ 6,95 (R$ 13) e comemos à vontade mesmo – pulled pork (pernil desfiado), frango frito, feijão (meio doce, no estilo do sul), salada e, como sobremesa, pudim de banana com “Nilla Wafers”, uma marca de biscoito doce de baunilha que, pela minha experiência, é absolutamente essencial em qualquer pudim de banana.

Então, já era 14h, “bora” para Charleston! Só que poucos quilômetros para frente apareceu exatamente o tipo de loja que adoro no sul: uma “country store” – ou lojinha rural. É mais ou menos uma loja que vende de tudo que já desapareceu das cidades grandes, substituída pelos supermercados e lojas de conveniência.

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Nós estávamos totalmente satisfeitos – até enjoados – de comer tanto, e nem precisávamos de óleo de motor, alimentadores de pássaros, frios para sanduíches, ou nada do que vendiam lá dentro. Mas parei com a desculpa de Cris precisar provar o amendoim fervido, uma especialidade regional extremamente mole e nojenta, mas que insisti que ela provasse só porque era bem tradicional. (É muito chato viajar comigo).

Não era nenhuma loja normal. O dono, David Bilderback, branco e grisalho, conversava com uma senhora negra e idosa que brincava com um cachorro pequeno. Nas estantes tinha todos os produtos normais, mas também itens que deveriam pertencer a um museu: bonecas velhíssimas (da coleção da mãe do David), fotos históricas, uma tábua antiga dessas de lavar roupa, uma boia salva-vidas de um barco de Nova York e até uma geladeira antiga e enorme que cobria parte da parede de trás.

A 'country-store' de David; loja que vende de tudo que já desapareceu das cidades grandes

Acontece que David comprou o prédio – em ruínas – quando mudou de outro Estado para trabalhar em outra coisa. Nem pensou em ter uma loja. “Eu tinha muitas coisas, e parecia um bom lugar para depositá-las”, me disse. Mas o prédio tinha sido loja muitos anos antes, e ele se inspirou a reabri-la.

Disse-nos que também vende ovos e alimentos para galinhas, entre outros produtos, e nos perguntou se tínhamos visto o galinheiro.

Saímos para ver. Não era bem um galinheiro, mas uma Frangolândia do Velho-Oeste. Os frangos do David moravam dentro de uma pequena cidade com escola, igreja, banco, cadeia e até um prédio de dois andares com a taverna no primeiro piso e o bordel no segundo. Quem quiser refazer os filmes de bang-bang com galos e galinhas como xerifes e cowboys, nem precisa construir um cenário, é só ir à Carolina Country Store em Georgetown, South Carolina.

Os frangos do David moravam dentro de uma pequena cidade com escola, igreja, banco e cadeia

OK, agora para Charleston? Claro que não. Dentro da loja, enquanto eu conversava com David, a Cris tinha conhecido o Marcus, um jovem de pele muito mais escura do que a maioria dos afro-americanos, o que nessa área indica que é provavelmente de descendência gullah, uma comunidade de descendentes de escravos que mantém algumas tradições africanas e um dialeto de inglês muito difícil para os outros americanos entenderem.  Reparei que Marcus estava explicando para Cris como armar uma armadilha para um alligator (o jacaré da região), uma conversa não muito comum em Nova York (nem em São Paulo).

O Marcus tinha muita prática em capturar alligators porque trabalhava em uma “plantation”, o termo que se usa no sul para uma fazenda que na época da escravidão vivia do trabalho de escravos africanos, de forma não tão diferente da época da casa grande e senzala no Brasil. Hoje em dia, muitas plantations viraram pousadas, museus, casas particulares, campos de golfe ou condomínios. O Marcus explicou que onde ele trabalhou, a Kinloch Plantation, funcionava como reserva natural e… casa de férias de Ted Turner, fundador da CNN e ex-marido da Jane Fonda. Ah, e nos convidou para conhecer as terras.

Senzalas, versão norte-americana

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O quê? Um convite para ver a propriedade particular de um bilionário, onde dois séculos atrás escravos cultivavam arroz? Obviamente, Charleston podia esperar mais um pouquinho.

(Nota: documentos na internet mostram que Ted Turner é mesmo o dono da Kinloch, mas a empresa de Turner não respondeu à mensagem que mandei para a assessoria de imprensa).

Máquinas do século 19 dentro do moinho de arroz da Kinloch Plantation, propriedade do Ted Turner

Seguimos Marcus, que dirigia uma picape enquanto bebia a cerveja comprada na loja de David, por uma estrada rural até chegar à entrada da Kinloch, que tinha o desenho clássico e formal de várias outras plantations: uma rua longa e estreita orlada por duas filas de árvores majestosas. A primeira parada foi em frente a duas cabanas de madeira antiguíssimas, mas em boas condições. “Senzalas”, nos disse. Muitas plantations da área ainda mantêm as senzalas (e, nas que se tornaram pousadas, às vezes, viram quartos para hóspedes).  Mas ver duas sem nenhuma placa de identificação, explorar os interiores com lareiras feitas de tijolos ingleses importados na época, foi mágico.

O Marcus nos explicou que com detectores de metais, os trabalhadores da Kinloch encontram botões, anéis e até armas da época de escravidão. Dentro das senzalas, lareira de tijolos enormes, que o Marcus explicou que foram fabricados na Inglaterra da época (na primeira metade do século 19).

Depois de parar por um momento para nos mostrar o corpo do javali que ele tinha matado no dia anterior e que tinha guardado em uma geladeira industrial (!), nos levou para conhecer o moinho de arroz que funcionava no século 19 para processar o arroz cultivado, depois transportado em barco (pelo rio do lado do moinho), para ser vendido. O prédio parecia congelado no tempo; ele mostrou o interior, com suas máquinas de rodas dentadas, engrenagens e correias cobertos de pó. Perguntei se historiadores tinha catalogado as máquinas e examinado o prédio, mas não soube me dizer.

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A vista do último andar do moinho de arroz

Perguntei para o Marcus se tinha algum problema em escrever sobre o dia – não queria que ele ficasse com problemas com os chefes – mas ele disse que não (e espero que esteja certo). Ao final, para agradecê-lo, ofereci o melhor tour de Nova York que ele podia esperar. Espero que algum dia apareça.

Barcos de pescadores de camarões em McClellanville

Já era tarde, quase às 17h. Hora de conhecer, por fim, as ruas charmosas de… McClellanville, a meia hora antes de Charleston. Vi uma placa ao lado da estrada chamando as pessoas a visitar o centro histórico de um lugar chamado McClellanville, um vilarejo de pescadores de camarões com uma população de 500 habitantes. Como resistir? Chegando ao centro da cidadezinha, vimos que tinha um evento em uma pequena galeria de arte. Era a festa de abertura de uma exibição com quadros feitos pelos alunos de ensino médio da cidade. Aproveitei para conversar com a professora de artes sobre a influência gullah.

Depois, pela recomendação do diretor do museu da cidade que conhecemos na rua, fomos ver os barcos de pescadores de camarões nas docas antigas de madeira, e por fim, comer camarões grelhados e fritos no T.W. Graham & Company, o pequeno restaurante perto da galeria de arte.

E, depois, Charleston, chegando no momento certo… para dormir.

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 26 de abril de 2012 Dicas | 06:35

Como aproveitar melhor o programa de milhas

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Como eu disse na semana passada, não gosto dos programas de milhagem das linhas aéreas. Ou talvez eu tenha dito que odeio e que o mundo seria um lugar melhor sem eles, não lembro exatamente.

Mas o mundo também seria um lugar melhor se pudéssemos ficar magros comendo chocolate e batatas fritas o dia todo. Mas, ainda assim, comemos frutas e verduras. E também devemos fazer todo o possível para aproveitar as milhas. As seguintes 11 dicas são um bom começo.

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Troque Paris por uma meta mas fácil de ser alcançada, como uma viagem pelo nordeste

1 – Se você não é um homem de negócios tipo o George Clooney em “Amor sem Escalas” ou este cara que tem 10 milhões de milhas, você não vai poder levar sua família inteira para Paris em classe executiva. Como alternativa, pense em uma meta razoável: um feriadão no nordeste, por exemplo.

2 – Organize as milhas que já tem. Se está acostumado a usar a internet em inglês, recomendo o AwardWallet, um site grátis que guarda os detalhes das suas contas de fidelidade e mostra seus balanços em milhas. Mais conveniente ainda, também contém links para entrar diretamente na sua conta sem ter que lembrar a senha de novo. Eu não encontrei nenhum site que faça o mesmo em português (se existir, alguém bote nos comentários, por favor), mas nem precisa de um site para isso. Basta fazer uma lista no seu smartphone ou em um papel guardado em sua carteira para sempre levar com você. Nem imagino quantas milhas se perdem porque o passageiro não encontra o número da conta quando faz a reserva, jura que vai colocar quando faz o check-in no aeroporto e depois se esquece de levar o número de novo. Ah, e nunca é preciso levar os cartões emitidos pelas companhias aéreas, é só o número o que importa.

3 – Nunca acumule milhas em duas companhias que sejam parceiras. Ou seja, se você tem conta com a Gol, não abra conta com a Delta também. Se viajar de Delta, peça para colocar as milhas na Gol, o que ajudará a concentrar milhas para chegar ao valor de um voo. Seja só com milhas da Gol ou só da Delta. Se você acumular 10.000 com a Gol e outros 10.000 com a Delta, e o voo custar 20.000, não será possível juntar. Confira uma lista das principais alianças. Faltam, no entanto, parcerias independentes como a da Delta com a Gol.

4 – Escolha a companhia que mais usa e voe com ela (e as parceiras) sempre que seja possível. Poucas milhas em muitas empresas não valem nada.

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Coloque no papel quanto vale cada milha

5 – A parte mais complicada, mas mais importante: calcule quanto vale cada milha para você. Faça o seguinte: pense em uma viagem que faz com alguma frequência (ou que gostaria de fazer se tivesse o dinheiro: que tal Rio de Janeiro – Roma?). Investigue quantas milhas custará cada voo da viagem. Pela minha experiência, já digo que é difícil conseguir esta informação nos sites das companhias aéreas e às vezes é preciso ligar. Agora, calcule quanto custaria esses voos em dinheiro. Divida o custo em dinheiro pelo custo em milhas. Exemplo: você mora em Porto Alegre e seus pais moram em Belo Horizonte. Você acumula milhas da Gol e, lá, a viagem de ida e volta para Belo Horizonte sai (nem sei se está certo) 16.000 milhas. O preço típico da viagem é (vamos dizer) R$ 385. Daí é preciso descontar as taxas que se pagaria na viagem com milhas; vamos dizer que são R$ 50. R$ 335 divididos por 16.000, o que dá R$ 0,02 por milha. Eu sugiro testar pelo menos três voos diferentes e tomar a média dos valores, e depois descontar um pouco (talvez 15%), por várias razões chatas que não vou enumerar aqui, mas que incluem o fato de que as milhas podem vencer ou se desvalorizar.

6 – Já sabendo (aproximadamente) quanto vale uma milha para você, será mais fácil decidir quando tiver de escolher entre dois voos: o mais caro com sua linha preferida e o mais barato, em outra, onde não acumula milhas com frequencia.
Qual é a diferença? R$ 50? Qual o valor das milhas que ganharia do voo? R$ 16? Então, não vale pegar o voo mais caro.

7 – Usar um cartão de crédito para acumular milhas não é uma decisão tão simples. Pense profundamente. Depende, por exemplo, da taxa anual do cartão e da probabilidade de você usar as milhas. Para algumas pessoas, vale a pena usar um cartão que não acumule milhas ou simplesmente ficar com cartões de débito ou dinheiro mesmo. (Ou, ainda, procurar um cartão que dê dinheiro de volta em vez de milhas).

8 – As milhas se encontram em muitos outros lugares do mundo além dos hotéis e aviões. Acabo de alugar um carro em Washington e perguntei se era possível me darem milhas da United (novo parceiro da Avianca) por isso. Ganhei 50 milhas por dia, ou 350 no total.

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9 – Cadastre-se para receber todos os e-mails promocionais do seu programa de milhagem. É verdade que o Smiles vai te mandar muitos e-mails oferecendo voos por 1.000 e que são impossíveis redimir, mas sempre é bom ficar atento. Se for planejar uma viagem para fora do País, pense em “comprar” os voos entre dois países que não sejam o Brasil lá fora, usando as milhas das companhias brasileiras. Às vezes as milhas valem mais nas outras empresas parceiras.

10 – Quando, por fim, você estiver a bordo de um voo comprado com milhas, não celebre o fato de estar voando de graça. Óbvio que não foi. Ao invés de fazer isso, dê “parabéns” para você mesmo por ter aproveitado de um sistema que não foi desenhado para pessoas como você.

11 – Se você tiver mais alguma dica sobre milhas, escreva aí nos comentários. E se você não costuma ler os comentários das matérias, dessa vez pode valer a pena…

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 19 de abril de 2012 Dicas | 06:38

Pelo fim das milhas de viagem

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Neste momento, eu possuo 7.150 milhas da Gol, 27.465 da United, 2.561 da Delta, e 31.258 da British Airways. Em fevereiro usei 60.000 milhas para viajar de São Paulo a Nova York. E acabo de voltar de outra viagem – da Nova Zelândia– após gastar 105.000 milhas. Mas se eu controlasse o universo, o que infelizmente não é o caso, desistiria de todas as milhas de viagens em troca da eliminação total dos programas de fidelidade.

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Por quê? Porque, a existência dos programas é ruim para o turista típico. Só para citar uma das muitas razões: estudos econômicos concluem que os preços médios das passagens são mais altas do que seriam se os programas deixassem de existir.

Executivos e outros que viajam a trabalho são os mesmos que nunca pagam nada quando vão de férias

Claro que há muitos beneficiários das milhagens: os executivos e outros profissionais que ganham muitas milhas viajando por conta da empresa, sem gastar nenhum centavo; os obcecados por milhas que passam a vida pesquisando formas de ganhar mais (como cobrar cada Paçoquinha no cartão de crédito para ganhar mais meia-milha); e os que têm agendas tão flexíveis que sempre podem encontrar uma forma de usar suas milhas.

Quem perde são todos os outros. TODOS, até quem nunca pisou num avião na vida mas que comprou um pão de queijo na padaria da esquina hoje de manhã. É, pelo menos teoricamente, esse pão quentinho ficou mais caro pela existência dos programas de milhas. Mas vai ter que ler até o final para saber o por quê.

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O primeiro passo é entender que as milhas não são de graça. Quem pensa o contrário é como a criança que acha que o brinquedo do McLanche Feliz é de graça. Sinto muito, minha filha, mas dentro no preço que sua mãe pagou pelo hambúrguer e as fritas estão incluídos alguns centavos para produzir, empacotar e transportar essa sua Barbie que veio “de brinde”. E por isso, é lógico, o preço subiu (ou a refeição incluiu menos batatas fritas, ou algo equivalente). Conhece o ditado “não existe almoço grátis”? Pois é. Também não existe Barbie grátis, nem com o almoço pago.

O sistema de milhas, porém, não é tão simples quanto o McLanche Feliz. Mas o básico é igual: as milhas têm um valor monetário, e nenhuma empresa dá de presente.

Muitas milhas são perdidas por falta de uso

Quem paga, porém, não é tão óbvio. Às vezes é você mesmo. Quando uma passagem da Gol custa R$ 500 e a mesma rota pela TAM custa R$ 550, mas você decide pela TAM porque é com eles que você acumula milhas e quase tem o suficiente para ir nessas férias para Fernando de Noronha, você pagou R$ 50 pelas milhas.

Mas, às vezes, mesmo o consumidor que viaja não é quem paga. E assim chegamos à primeira verdade infeliz do sistema de milhas:

1 – Quem viaja a negócios com passagem paga pela empresa não desembolsa nada e ganha muito. Difícil negar que os executivos e outros que viajam a trabalho (seja só uma ponte aérea semanal ou São Paulo-Hong Kong três vezes por ano) são os mesmos que nunca pagam nada quando vão de férias. Porque acumulam milhões de milhas em passagens pagas pela empresa. É, essencialmente, um bônus não merecido. (E, detalhe, livre de impostos.) Pior, as milhas deles rendem mais, porque os clientes favoritos e mais frequentes das linhas ganham milhas mais rápido e prêmios maiores do que o turista casual. Sem falar dos executivos que insistem em sempre viajar por sua linha “preferida” – ou seja, a que eles usam para acumular milhas – embora outra linha ofereça um preço melhor.

2 – Também leva vantagem quem tem uma agenda mais flexível. Trocar suas milhas por uma passagem pode ser muito frustrante se você precisa viajar numa data específica, ou seja nas férias acadêmicas ou para ir a um casamento. Quem já tentou comprar um voo com milhas sabe que é quase impossível encontrar a viagem que se quer, ou, quando ainda existe essa possibilidade, custa muito mais milhas do que você pensou. Quem clica num e.mail promocional da Gol que diz “Viaje por apenas 4.000 milhas Smiles!” aprende rápido que a possibilidade pegar a viagem que quer com só 4.000 milhas é quase impossível.

Preciso contar os bastidores da minha viagem para a Nova Zelândia. A ideia era aproveitar a parceria entre a British Airways e a Qantas e usar minhas milhas para viajar de Nova York para Auckland pela empresa australiana. A passagem tem um custo oficial de 80.000 milhas e eu tinha mais de 120.000 na conta e uma agenda aberta. Mas apesar de eu tentar reservar com cinco meses de antecedência (em outubro, para voar em março), foi absolutamente impossível encontrar um voo disponível no site.

Leva vantagem no programa de milhas quem tem agenda flexível

Frustrado, liguei e expliquei para a atendente que o site não estava funcionando. “Estou disposto a viajar de Nova York para Auckland QUALQUER dia do mês de março e ficar QUALQUER prazo entre 15 e 30 dias.” Muito difícil imaginar um pedido mais fácil. A atendente (muito simpática, a propósito) procurou, procurou e… não conseguiu nada. Me ofereceu uma alternativa: ida de Nova York para Auckland, e volta só até Los Angeles. Daí, eu podia esperar quatro dias e pagar mais 25.000 milhas para pegar outro voo (pela American, também parceira) para Nova York. Para mim, tudo bem, eu tinha as milhas e podia aproveitar para fazer uma matéria sobre a Califórnia. Mas para o turista típico (ou com só 80.000 milhas na poupança)? Impossível.

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3 – Muitas milhas são perdidas por falta de uso. Imagina: se eu te desse R$ 1.000 em notas de R$ 50, você ficaria anos sem gastá-los e depois devolveria o dinheiro para mim? Duvido. Mas é isso que acontece com as milhas. Ou a pessoa tenta gastar e não consegue em nenhum voo, ou não tem oportunidade de viajar durante o prazo, ou esquece totalmente da existência das milhas. As milhas ficam sem uso, e depois de alguns anos, vencem. “Vencer” é uma forma simpática de dizer “o valor das milhas volta para a empresa aérea”. Assim BILHÕES de milhas ficam sem uso. E as empresas aéreas lhes agradecem pela gentileza.

4 – Quem aproveita mais é quem passa muito tempo se atualizando no mundo das milhas e pesquisando as melhores ofertas. O mundo das milhas é perversamente complicado, e quem viaja pouco precisa ficar muito atento para poder aproveitar. Eu peguei essas milhas pela British Airways porque leio um blog em inglês, The Points Guy (“O Cara dos Pontos”) que me avisou de um cartão de crédito que dava 100.000 milhas quase de graça. (Detalhe: o blog mais parecido em português é o absolutamente essencial MelhoresDestinos.) E depois eu passei horas tentando resgatar as milhas.

Custo dos programas de fidelidade é repassado, ainda que indiretamente, ao passageiro

5 – Os programas de fidelidade têm custo para as empresas aéreas. Óbvio que sim: tem que ter chefes e escritores, programadores e designers gráficos, escritórios e computadores. Alguém tem que pagar por tudo isto. E sabe quem é esse “alguém”? Você, claro. Mas talvez não da forma que você acha. E já chegamos ao capítulo mais surpreendente desta triste história.

Parece que o departamento de milhas de uma empresa aérea deve perder dinheiro (como qualquer departamento de marketing), porque só gasta e não recebe. Mas na pesquisa feita para esta coluna, aprendi que para muitas empresas aéreas o departamento mais lucrativo é justamente o de milhas. Como? Vamos lá. Muitos de vocês devem ganhar milhas com o Mastercard Bradesco Smiles, ou TAM Fidelidade Itaucard. E como que é que a Master, a Visa e os bancos têm as milhas para dar? Eles compram das companhias aéreas, claro, e nem sai barato. As empresas aéreas ganham duas vezes: quando os bancos compram as milhas e quando os consumidores não usam milhões delas.

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Mas os bancos também não são tão generosos para comprar milhas e dar de presente para os clientes. Eles vêem como incentivo não só para atrair mais clientes e subir o preço anual do cartão, mas também para que os clientes comprem TUDO com cartão e nunca mais usem dinheiro.

E funciona. Quem vai pagar com dinheiro na padaria se podem pagar com cartão e ganhar milhas? Óbvio que os bancos adoram os juros da porção de clientes que não pagam as faturas pontualmente, mas isso só faz parte. Os comerciantes também pagam. Você já perguntou na sua padaria quanto eles perdem quando você paga com cartão de crédito em vez de dinheiro? Vá lá e pergunte. 3%, 4%, 5%. Ou seja, se um pão de queijo e um café custam R$ 2, até R$ 0,10 podem ir para os bancos, que mandam parte para as linhas aéreas pelas milhas.

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Ou seja: por ridículo que pareça, o pão de queijo da esquina fica mais caro pela existência de programas de fidelidade das linhas aéreas.

A parte mais frustrante é que você não pode escapar do sistema. Se você decide viajar sem se cadastrar nos programas de milhagem, perdeu. Se você pagar em dinheiro no lugar de cartão? Bom, as linhas aéreas, os bancos e a Visa perdem um pouquinho, e o padeiro te agradece. Mas você ainda perdeu: ganhou um pão de queijo só, e as pessoas antes e depois de você na fila ganharam um pão de queijo… mais umas milhas.

As lojas poderiam recusar os cartões de crédito, o que algumas fazem, ou dar desconto para quem pagar com dinheiro, o que fazem outras. Mas as duas estratégias causam problemas e a batalha vai além disso. Alguém quer organizar um protesto massivo contra o sistema? Eu topo. Que tal um “Ocupa Smiles”? OK, mas mais um problema: não é culpa da Gol. A TAM fez primeiro, e como é que a Gol não vai fazer também? E a TAM teve que fazer porque a concorrência internacional estava fazendo. Etc. Etc.

E assim chegamos à minha triste conclusão. A melhor saída, apesar de imperfeita, é: se não pode vencê-los, junte-se a eles. Assim, que na próxima semana, a coluna dará dicas de como aproveitar dos programas de milhagem… e ainda ter tempo de levar seus filhos para o zoológico.

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quinta-feira, 12 de abril de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:46

Fiji é o paraíso, mas combine isso com a meteorologia antes

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Fiji é o tipo de lugar exótico que você talvez viu na televisão, mas pensa que nunca vai conhecer

Fiji, nação de 300 ilhas no meio do Oceano Pacífico – é o tipo de lugar exótico que você talvez viu na televisão, mas pensa que nunca na vida vai conhecer. E como que eu, que nem te conheço, pretendo saber o que você está pensando? Porque eu também nunca imaginava que ia chegar a um lugar tão longe – a 14.000 quilômetros do Rio de Janeiro. E olha que eu viajo 200 dias por ano. A lua? Talvez. Fiji? Lá no meio do nada? Nunca.

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(Detalhe: Não costumo usar “no meio do nada”, uma frase meio-ofensiva, porque se eu falasse assim sobre um vilarejo no sertão, alguém do próximo vilarejo me escreveria para reclamar que não está no meio do nada, está ao lado da casa dele. Mas no caso de Fiji, vou me arriscar: o “nada” é o vasto oceano Pacífico e os únicos que poderiam reclamar são os peixes, poucos dos quais leem esta coluna)

Pessoal do Botaira toca música para os hóspedes que chegam em barco

Mas, incrivelmente, até a quarta-feira passada estive em Fiji. Por quê? Porque como talvez você já tenha lido por aqui, estava na Nova Zelândia e na Austrália, e quando pesquisei sobre a viagem com um amigo neozelandês, ele me mencionou que os turistas daqueles países vão muito para Fiji e outras nações longe-pra-caramba para nós (mas, não para eles), tipo Samoa e Tonga e Taiti.

Da Nova Zelândia é só pagar uns R$ 600 por uma passagem e ir tranquilamente de Auckland para Nadi, em Fiji, em três horas. (Tranquilamente só se você não for fã do seriado Lost. Sendo fã, como eu, você olha pela janela as águas do Pacífico e acha que o avião vai quebrar em dois pedaços e te depositar numa ilha com um monstro de fumaça e ursos polares). Eu planejei passar uns seis dias, onde iria conhecer Yasawa, um arquipélago de pequenas ilhas onde nos últimos anos se abriu uma série de resorts a preços razoáveis, e depois conhecer uma ilha maior, com floresta e praia, a Taveuni.

Ou seja, seis dias para testar se Fiji é mesmo o paraíso que todos nós imaginamos.

Dias 1 e 2
O barco amarelo “Yasawa Flyer” é um mal necessário para turistas de verba limitada. Um catamarã amarelo que serve para levar para os resorts turistas sem dinheiro para pagar por uma viagem de hidroavião ou tempo para pegar carona com um pescador. (Boa dica é de comprar um “Bula Pass” por alguns dias, que permite ir de um resort a outro sem pagar passagens adicionais).

O resort fica na ilha Naviti, rodeada de morros baixos e uma franja de areia amarelada traçando a costa

Por que um mal necessário? 1) Nunca é bom estar em um grupo enorme de turistas. 2) Pior ainda se muitos desses turistas forem jovens indo aos resorts só para ficar na praia e beber noite e dia. Nada contra, mas porque ir tão longe, para ilhas tão preciosas, e fazer o que se pode fazer na praia local? 3) O pessoal do barco, que ajuda a reservar os resorts, é meio antipático. Eu também seria se tivesse que aguentar as demandas de mil turistas por dia.

Mais: 11 razões para ir ao Texas

Eu nem tinha feito reserva em um resort antes de subir a bordo – apesar do perigo de ficar sem lugar para dormir, eu sempre acho melhor pesquisar ao vivo, com inteligência humana, ao invés de buscas cibernéticas. Desta vez, mais uma vez, deu certo. Conheci a Helen, uma inglesa residente há 15 anos em Fiji e consultora de turismo sustentável que estava levando um grupo de jovens alunos universitários norte-americanos para estudar turismo ao vivo. Superssimpática e com muito conhecimento da área, me contou quais eram os resorts dos bêbedos que não respeitavam a cultura local, e quais eram os mais calmos. O melhor resort, segundo ela, era o Botaira, cujo dono é das ilhas e tem boas relações com os povoados tradicionais do local.  Era lá que ela estava levando os alunos. “Você é bem-vindo”, me disse.

Equipe do Botaira apresenta dança típica

Eu não ia poder pagar por um “burê”, uma das casas tradicionais, que custa mais de R$ 400 por noite, e o pessoal do barco falou que os dormitórios reservados para mochileiros não estavam disponíveis. Mas Helen (que não tinha ideia de que eu era jornalista) me apresentou para o Jerry, um fijiano grande, mas calmo, com uma voz afável, e perguntei se tinha um lugar para um pobre viajante que não queria ficar com os jovens bêbedos. Ele me deu uma cama no dormitório por aproximadamente R$120 por dia, incluindo as três refeições.

Fomos deixando turistas em várias ilhas, cada uma mais perfeita do que a anterior, mas nenhuma mais do que a Naviti, onde ficava o Botaira. Um barco menor nos pegou no grande catamarã amarelo e nos levou para uma pequena baía rodeada de morros baixos e verdes e uma franja de areia amarelada traçando a costa. A única construção visível era uma estrutura tradicional de madeira com uma varanda. E nela, um grupo do resort cantava uma música tradicional para nos dar as boas-vindas. Na chegada, a palavra mais ouvida nas ilhas de Fiji: “Bula!”. Ou seja, “Olá!” ou “Tudo bem?”, “E aí?”. Só que não dá para falar fraco, tem que quase gritar com alegria: BULA!

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Apareceram sucos tropicais para todo mundo; o meu era de goiaba. Cada uma das pessoas se apresentou, todos de cor negra, como a maioria dos fijianos. (Também há uma minoria de indianos, mas eles moram nas ilhas principais e não nessas pequenininhas) “Acho que seria impossível estarmos mais felizes do que estamos nesse momento”, disse uma aluna de 18 anos, a Emily.

No Botaira, o sol se põe precisamente no centro do horizonte

Difícil não concordar. Os alunos – divididos em quatro por burê –, correram para botar roupa de praia e entrar na água. Eu fui para o meu dormitório muito básico – só beliches, com privada externa – mas era só para mim, porque o resort tinha sido reservado só para os alunos (eles nem anunciam no site o dormitório que fiquei). Apesar dos alunos serem muito simpáticos, eu os evitei a maior parte do dia e aproveitei os momentos que tinham aula com Helen para ter o resort todo para mim. Um paraíso particular? Isso mesmo, pelo menos algumas hora por dia.

Remei até o centro da baía em um caiaque em um dia, fiz snorkeling em outro, e a poucos metros da praia vi um arco-íris de peixes tropicais no recife de coral quase tão colorido quanto os peixes. Não vi tubarões (alguns dos outros resorts tinham mais), mas fiquei fascinado pelas ostras-gigantes, moluscos absolutamente enormes, cada um com uma coloração diferente e, apesar de parecerem imóveis, estavam prontos a fechar a “boca” quando algum inimigo (ou um braço humano) se aproximasse. (Se eu assistisse Bob Esponja, eu te contaria que lembrava muito o episódio no qual uma ostra-gigante tenta comer a Sandy e, tentando resgatá-la, Bob Esponja fica preso dentro da ostra. Depois, Sandy tem que… Ah, esquece, como falei, nem assisto).

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Maioria da equipe do resort mora no pequeno vilarejo de Soso

Também aproveitei a oportunidade de visitar o vilarejo de Soso, onde mora a maioria do pessoal do resort. Era só pedir um guia da administração (me deram o Chris, estagiário de chef), subir um pequeno morro, descer até a praia do outro lado, e andar mais dez minutos pela praia. No vilarejo, que parecia uma comunidade ribeirinha da Amazônia – só que as casas não eram de palafitas –, dava para visitar a igreja e a escola, onde os alunos só falam inglês, o idioma dos colonizadores que se tornou um idioma oficial depois de Fiji ficar independente em 1970.

Em Botaira (como em vários outros resorts) fazem um esforço que me parecia bem sincero de mostrar costumes fijianos para os hóspedes. O mais popular, de longe, é o uso da “kava”, uma bebida feita de uma raiz que (te dizem) tem efeitos sedativos e relaxantes. Pessoalmente, eu não senti nada, mas pelo menos o sabor não era tão ruim como muitas bebidas “tradicionais” ao redor do mundo. A kava não se bebe à vontade, tem toda um sistema formal, batendo palmas e falando palavras em fijiano depois de beber de um recipiente comum. O Gerry nos explicou que só recentemente havia kava suficiente para todo mundo tomar. Antigamente era preparada nas bocas das meninas virgens, que mastigavam a raiz e a depositavam diretamente na boca dos caciques. Ah, os bons e velhos tempos.

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Mas o mais especial foi o pôr-do-sol.  Como a baía dava perfeitamente para o ocidente, o sol se punha precisamente no centro do horizonte, e com um drama impressionante. O sol caiu. Fez uma pausa. E do nada, parecia que latas celestiais de tintas cor-de-rosa e laranja explodiram no céu. Foi o Knox, o barman, que me contou que Botaira, em fijiano, significa pôr-do-sol.

Dias 3 a 8 (É, 8 mesmo)
Depois de dois dias, decidi que já era hora de testar os outros resorts e talvez conhecer a floresta de Taveuni.

O tempo, porém, tinha outra ideia: deixou-me subir novamente no barco amarelo e chegar, sob chuva forte, em um barco lotado de turistas enjoados, no resort Blue Lagoon. Mas daí em diante não deixou fazer mais nada. Um ciclone tropical tinha se acercado a Fiji, e a chuva e o vento quase não pararam por cinco dias.

Um ciclone tropical tinha se acercado a Fiji, e a chuva e o vento quase não pararam por cinco dias

Eu poderia chorar por ter perdido a oportunidade de conhecer outros resorts, ficar os outros quatro dias dentro do dormitório e do restaurante do resort lendo, jogando Monopoly com outros hóspedes e ligando para as linhas aéreas para tentar remarcar os meus voos, e passar o oitavo dia no aeroporto internacional, esperando um voo superatrasado. Mas com cinco mortos e milhares de fijianos sem casa em outras partes do país, achei que seria melhor não reclamar. O que posso dizer com certeza: o Blue Lagoon é um resort bem organizado e muito profissional, e conseguiram nos alimentar e nos entreter (mais ou menos) apesar das chuvas até que fosse possível sair. Conclusão: Fiji é um paraíso mesmo, mas é um paraíso sujeito a cancelamento por ciclones tropicais.

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quinta-feira, 5 de abril de 2012 Oceania | 06:04

Segurança e limpeza fazem parte das atrações turísticas na Nova Zelândia

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Eu andava no meu Nissan Sunny alugado pela Rota 6 da Ilha Sul da Nova Zelândia, quando me deu um sono forte, do tipo dormir-no-volante. Pensei o que sempre penso nessas situações (o que minha mãe teria orgulho de saber se lesse português): “Vou parar e descansar. Seria ruim me matar e, pior ainda, matar outro motorista e sua família inocente.“

Dirigir na Nova Zelândia é frequentemente uma atividade solitária

Dirigir na Nova Zelândia é frequentemente uma atividade solitária

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Só que essa lógica não funciona muito bem na Rota 6, porque nesse pedaço de asfalto bucólico e pitoresco não há quase mais ninguém para matar. Eu não tinha visto outro carro, nem outro ser humano, há muito tempo. Se eu fosse matar alguém, as vítimas mais prováveis teriam sido as infinitas ovelhas que ficavam saboreando o pasto ao lado da estrada, como alvos num videogame macabro.

Mas ainda assim parei na pousada mais próxima: a Castle Hill Lodge, do casal ultrassimpático Mark e Sharon Ford, com quatro quartos numa casa térrea, simples mas moderna, ao pé do morro “Castle Hill” e ao lado de um pasto de (só para confirmar o óbvio) ovelhas.

Foi na Nova Zelândia que filmaram a trilogia “O Senhor dos Anéis”. Filme é filme, mas às vezes a Nova Zelândia real parece de fantasia também. E, detalhe, muito menos violento do que o mundo inventado por J.R.R. Tolkien. A taxa de crimes é mínima – o índice de assassinatos é muito menor do que o dos Estados Unidos e muito, muito, muito menor do que o do Brasil. Outros crimes também não são frequentes e em 99% do país o risco de ser assaltado é inexistente. E há uma eficiência impressionante dos serviços públicos: os ônibus urbanos chegam quase sempre no minuto programado e os neozelandeses (pelo menos os que conheci) se declararam muito satisfeitos com o sistema público de saúde.

Não faltam reservas naturais na Nova Zelândia

Não faltam reservas naturais na Nova Zelândia

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Um exemplo: a polêmica da qual mais ouvi falar durante os meus 10 dias no país era sobre umas novas regras de trânsito que acabam de entrar em vigor. Uma delas, se consigo explicar, tratava de quem tem o direito de seguir primeiro num cruzamento em forma de T quando um carro chega do lado esquerdo querendo virar à direita e outro carro chega na rua de baixo querendo virar à direita. Não entende? Eu também não – para mim já foi difícil demais lembrar de ficar do lado esquerdo da rua, como na Inglaterra. (A Rainha Elizabeth II ainda aparece nas moedas neozelandesas e os carros ainda dirigem do lado esquerdo. Não sei qual me pareceu mais absurdo)

Mas é pouca a possibilidade de um cidadão neozelandês não entender: cada casa recebeu um panfleto pelo correio explicando as novas regras, e o governo fez até um site e abriu um número com ligação gratuita para quem tivesse dúvidas. Ah, também tinha um jingle que rima: “Top of the T goes before me.” (Ou seja, o carro no topo do T vai primeiro) Vamos inventar uma rima que ajudaria o trânsito paulistano ou carioca a funcionar melhor? Que tal “Não sequestre, ou mate pedestres?”.

Mark e Shannon não são neozelandeses. São ingleses que se mudaram para a Nova Zelândia em busca de calma depois de os dois trabalharem um tempo como policiais na cidade inglesa de Kent. A Shannon gerencia a pousada, e o Mark foi recrutado a trabalhar como policial na região. Claro que perguntei para ele quais eram os crimes mais comuns que ele encontra. “Quase não tem”, me disse. “As chamadas mais comuns são para acidentes de trânsito. Tipicamente, turistas do seu país dirigindo do lado errado da rua.”

Ovelhas, ovelhas e ovelhas podem ser vistas na paisagem da Nova Zelândia

Ovelhas, ovelhas e ovelhas podem ser vistas na paisagem da Nova Zelândia

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Um país ser tranquilo e funcionar bem e ter muitas ovelhas não significa que é perfeito. Os maori, o povo polinésio de cor negra que chegou na ilha uns 350 anos antes do primeiro explorador branco, vive a mesma praga que afeta povos indígenas em outras partes do mundo: alcoolismo, pobreza, educação inferior. Uma atração turística é visitar um povoado maori e ver as danças tradicionais, blábláblá, mas é só desviar um pouco do tour para enxergar maoris jovens e sem emprego sentados do lado de fora da casa bebendo cerveja. Tem outros pobres também. Quando visitei uma comunidade de imigrantes em Auckland (a maior cidade do país), mendigos na rua me pediram dinheiro de forma não tão diferente do que nas ruas do Rio.

Mas o sentido de sossego e tranquilidade é inegável, em parte o resultado de só 4,4 milhões de pessoas habitarem um país desenvolvido do tamanho do Equador (que tem 15 milhões de habitantes). Tem tantas “Reservas Naturais” demarcadas que vira até cômico: comecei a pensar que o governo pouparia muito dinheiro se, em vez de colocar placas em cada “Reserva Natural”, erguessem placas de “Não-Reserva Inatural” nos poucos lugares que não o são.

Mas era uma piada de inveja. Tantas belezas naturais que quase nem dá para anotar todas as que vi, nem falar das muitas que não davam tempo de ver. Vou dar só três exemplos com fotos.

O fiorde Milford Sound produz centenas de cachoeiras temporárias

O fiorde Milford Sound produz centenas de cachoeiras temporárias

Milford Sound – só descoberto pelo homem branco em 1812, Milford Sound é um fiorde – uma entrada do mar esculpida dramaticamente nas montanhas por atividade glacial. Um dos lugares mais molhados do mundo, a área recebe quase sete metros de chuva por ano, o que produz centenas de cachoeiras temporárias cada vez que chove e às quais os turistas podem visitar em cruzeiros de uma hora ou até um dia. Por isso é bom visitar num dia de chuva, e melhor ainda (e mais seco) num dia ensolarado pouco depois da chuva.

Na Hot Water Beach, basta escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas

Na Hot Water Beach, basta escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas

Coromandel Peninsula – lá na Ilha Norte tem uma península pequena que quase nem é tão dramática quanto o Milford Sound, mas ganha em charme o que perde em grandeza. Pode-se comer os melhores (e maiores) mexilhões que já provei no Coromandel Mussel Kitchen ou visitar cidades históricas criadas durante as corridas do ouro do século 19, mas eu gostei mais de dois lugares com belezas naturais. Um deles é a Hot Water Beach, uma praia onde é só escavar a areia com um pá de criança por cinco minutos para surgir águas de fontes geotérmicas e criar um Jacuzzi natural ao lado do mar frio. (A melhor parte não é descansar nas águas quentes mas ver tantos adultos brincando com pá de criança) A apenas só nove quilômetros dali tem (mais) uma reserva natural que, se estacionar o carro e andar a pé por uns 40 minutos, chega-se à praia mágica de Cathedral Cove, um semicírculo de areia esculpido nos rochedos, um processo que quem-sabe-como deixou uma rocha no meio que parece uma esfinge. Numa praia tão linda e nem tão longe da maior cidade do país devem chegar muitas pessoas, né? Não na Nova Zelândia: a tarde em que eu fui estava totalmente vazia até eu chegar; quando eu estava indo embora uma família descia as escadas para me substituir. “A praia é toda sua”, lhes disse.

O trem TraNZalpino, que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch, é principalmente uma atração turística

O trem TraNZalpino, que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch, é principalmente uma atração turística

Trem “TranNZalpino” por Arthurs Pass – Apesar de ser oficialmente mais uma rota dos sistema de trens nacionais, o trem que percorre as “Alpes do Sul” de Greymouth até Christchurch é principalmente uma atração turística. (Os neozelandeses que tomam o trem porque precisam chegar de uma cidade para a outra até existem, mas são poucos) Foi lá no trem que vi mais um exemplo da falta de medo do crime que existe no país. Dois turistas confiavam tanto nos outros passageiros que deixaram suas Canons (que valiam pelo menos R$ 5 mil cada) na mesa quando foram, sei lá, ao toalete ou comprar algo para comer. O momento me pareceu tão extraordinário que eu tirei fotos.

Até a “grande” cidade de Auckland, com mais de um milhão de habitantes chama a atenção com detalhes inesperados. O exemplo que mais me surpreendeu: as ruas da grande cidade de Auckland são tão limpas que boa parte dos residentes sai de casa sem sapatos. É, sem sapatos. Sem chinelo. Sem meias. Ou seja, descalços – e não para ir para praia com fazem alguns poucos surfistas no Rio. Para fazer compras no supermercado. Para comer em um restaurante. Para sair com amigos.

 Tente isso no Brasil deixe duas máquinas de valor de R$5000 cada no trem e ver o que acontece

Tente isso no Brasil: deixe duas máquinas no valor de R$ 5 mil cada no trem para ver o que acontece

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Isso me deixou pensando: tudo bem que não tem lixo, nem vidro, nem nada nas ruas. Mas, ainda assim, não dá para não sujar os pés… Será que quando uma criança chega em casa a mãe grita “Calce os sapatos antes de entrar”, em vez do contrário?

Ah, e que tal um país onde os cidadãos admiram e respeitam a polícia como uma organização eficiente e incorruptível? Pois a pesquisa anual da revista “New Zealand Management” aponta que, há vários anos consecutivos, a polícia nacional é o departamento mais “respeitável” do governo.

Uma noite, na pousada rural Berwicks Hill (onde paguei só 70 dólares neozelandeses – ou seja R$ 107 – por noite), eu estava jantando com os donos Eileen e Roger Berwick e um casal de ingleses que também estava hospedado lá quando o inglês, que tinha trabalhado por muito tempo na Índia, começou a contar sobre as propinas que teve de pagar à polícia indiana em várias ocasiões. Eu contei algumas histórias parecidas do México e da República Dominicana. O Roger, um conselheiro de saúde mental aposentado, que agora cria vacas e ovelhas numas terras lindas ao lado do mar, nos olhou incrédulo, como se fosse impossível imaginar um policial corrupto.

Roger Berwick, à esq., dono (com a esposa) da pousada Berwicks Hill, quase não acreditou as histórias da corrupção na polícia de outros paises que a gente contou durante o jantar

Então, para quem procura uma terra sossegada, segura e linda para tirar umas férias, seria difícil pensar em melhor escolha do que a Nova Zelândia. Mas não sei como seria mudar para Nova Zelândia. Mais seguro, mais tranquilo, mais lindo, com certeza. Mas talvez mais chato também. No mínimo, seria necessário ter de se acostumar a rir menos, dançar menos, e comer menos arroz e feijão do que no Brasil. Nenhum país é perfeito, e imagino que a grande maioria dos brasileiros, se fossem viver na Nova Zelândia, mudariam de volta dentro de alguns anos. As ovelhas brasileiras, porém, passariam o resto dos seus dias muito felizes.

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  1. Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia
Autor: Seth Kugel Tags: ,

quinta-feira, 22 de março de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:57

Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia

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Forgotten-World-Highway-Nova-Zelândia

Uma ponte típica - com ovelhas atrás, algo ainda mais típico - da Estrada do Mundo Esquecido

O nome parece mentira, ou no mínimo uma atração da Disney: A Estrada do Mundo Esquecido. Mas assim se chama a Rota 43 da Nova Zelândia, 151 quilômetros de caminho extremamente sinuoso e bem verde, passando por povoados com nomes tipo Kohuratahi e Whagamomomona, e com muitas vezes mais ovelhas e vacas do que gente. E apesar do nome ser, para mim, irresistível, tem muito poucos turistas. É um mundo esquecido mesmo.

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A Nova Zelândia se divide em duas ilhas principais, a do Norte e a do Sul, e estava fazendo uma viagem pela Ilha do Norte em “campervan”, um furgão compacto dentro do qual – nem sei como – tem uma minicozinha com fogão e geladeira e uma cama inesperadamente confortável para duas pessoas. É uma forma de viajar muito comum naquele país, e muito econômica: eu paguei 64 dólares nova-zelandeses por dia, o equivalente de R$ 98.

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

Comecei na neblina das 8h em Tamarunui, onde peguei um mapa das atrações da estrada no i-SITE (o centro de informações turísticas). Fácil, pensei. Ia percorrer os 151 quilômetros em três ou quatro horas e chegar ao Parque Nacional Mount Egmont, que estava no fim das estrada, para fazer uma trilha de três horas, à tarde.

Mas com cinco minutos de estrada soube que não ia dar tempo para a trilha. Após cada curva, um cenário mais lindo, mais verde, mas pitoresco. E quem sabia que as ovelhas eram tão fotogênicas?  Ovelhas na neblina! Ovelhas no morro! Ovelhas do lado de lá de um rio!

Há décadas sou um fotógrafo chato – é só perguntar para meu irmão como era esperar enquanto eu escrevia os detalhes de cada foto que tirava quando tinha 12 anos.  Mas virei mais chato ainda com essas ovelhas, parando o campervan a cada três minutos. (Sorte que estava sozinho) Até comecei a experimentar como fazer as ovelhas olharem para a máquina. Testei várias formas de atrair sua atenção – apitos, tosses etc. Ao final, o que funcionou foi um beijo. Clarificando – o som de um beijo. E posavam mesmo.

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Os animais não eram as únicas razões para parar.  Tinham prédios tão velhos que pareciam abandonados, mas em condições suficientemente boas para me deixar em dúvida. No “Te Whakarae Community Hall”, um prédio cinzento, que pelo nome deve ter sido (ou ainda era) uma sala de reuniões para a comunidade, fiquei com tanta curiosidade que tentei entrar pela porta. Fechada. Droga.

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Depois de quase 40 quilômetros de estrada, uma decisão: fazer um desvio de dez quilômetros até Ohura, um povoado que, segundo o mapa, tinha um pequeno museu. Fica longe? Talvez seja muito chato. Mas se eu não for e o lugar for muito legal?  Ah, que saco, vamos lá. (É, eu falo assim comigo quando viajo sozinho)

Ohura é um povoado muito sossegado. Ou melhor, MUIIITTO. Na rua principal tinha lojas de dois tipos: fechadas e abandonadas. E era meio-dia de uma sexta-feira. O museu também estava fechado, e um papel na porta indicava para ligar para Charley ou procurar ajuda na loja da esquina. Claro que não tinha sinal no celular e a loja da esquina estava fechada (já há muitos anos, descobri depois). Mas era só perguntar para a primeira pessoa que aparecesse onde morava Charley.

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O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

Ir para a casa dele – a só um quarteirão do museu – me lembrava muito o sistema existente nas cidades do interior no Brasil.  A chave da igreja histórica sempre fica com uma senhora que mora perto. Chegando à casa, foi a esposa Janet que abriu a porta. Ela era maori, descendente do povo indígena da Nova Zelândia, agora uma minoria importante da população. (Bom, nem tão indígena, só chegaram no século 13, mas mais indígena do que os europeus que chegaram no século 17)

“Quer um café?”, ela me perguntou.

Então, resumindo: não ia ter trilha à tarde. Quem me conhece sabe que nunca vou recusar um convite para cafés.

“Café instantâneo”, disse Charley, aparecendo na cozinha para contradizer a esposa, algo que ele faria (e ela também) várias vezes nos próximos minutos, mas de forma legal. O Charley era um senhor de barba branca, tinha uns 75 anos e estava apaixonado por bicicletas. Tanto que, incluído no tour do museu (ou seja, inevitável antes de escapar da casa dele), estavaum tour na oficina onde ele fazia bicicletas para os netos.

Charley e Janet se mudaram para Ohura há poucos anos; antes moravam na cidade de Hamilton, onde ele era motorista de ônibus. Agora ele cuida do museu e Janet faz parte de vários comitês na cidade, inclusive o do Cosmopolitan Club, um clube social cujo nome parece absurdo numa cidadezinha no meio do nada, onde quase não mora ninguém.

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Por fim, fomos para o museu, e juro que é um dos museus mais interessantes que já vi na vida. Claro que ajudou ter um guia pessoal (o Charley) para me mostrar os objetos, quase todos doados por alguém (ou alguma empresa) da cidade: telefones velhos, máquinas velhas da agência de Correios que fechou há décadas, uma cabana de madeira, livros amarelados com dicas antiquadas para mães sobre como cuidar de bebês, e uma coleção fascinantes de máquinas agrícolas que parecem impossivelmente antigas. Um mundo esquecido mesmo.

Charley e Janet Hedges em Ohura

Charley e Janet Hedges em Ohura

De volta à estrada, não parava de ver coisas curiosas.  Enxerguei o que pareciam caixas de arquivos umas em cima das outras, no meio do pasto. Chegando mais perto, descobri que dentro havia colmeias onde abelhas produziam mel. E, alguns quilômetros depois, tive que parar por causa das centenas de ovelhas que bloqueavam a rua enquanto voltavam para casa (depois de um dia difícil comendo pasto em algum campo vizinho, imaginava. Graças aos cachorros que cuidavam delas (e os humanos que cuidavam dos cachorros), só tive que esperar uns cinco minutos para passar.

A próxima atração era o túmulo de John Morgan, um dos pioneiros da área que morreu em 1895 fazendo um levantamento topográfico, que resultaria na mesma estrada que eu estava percorrendo. Eu prefiro ser cremado, não enterrado, mas se esse fosse o caso, seria legal ficar para sempre em um lugar tão lindo como o de John Morgan, um cantinho tranquilo de floresta ao lado da estrada. (A esposa, que morreu décadas depois, está enterrada com ele)

Já era hora de almoçar, e encontrei o lugar perfeito: um mirante incrível na parte mais alta da estrada, com morros verdes infinitos se estendendo para todos os lados e, para variar, algumas ovelhas também. Na cozinha do campervan, preparei uma salada de espinafre, peras, abacate e brócolis, e comi com biscoitos salgados e queijo cheddar, lá ao sol. (Esqueci de dizer que a neblina tinha sumido horas atrás)

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

E, finalmente, a cidade mais famosa do “mundo esquecido”, Whangamomona. (Para complicar as coisas, o “wh” se pronuncia como “f” em palavras de origem maori) A cidade – agora composta só por alguns prédios históricos e cento e poucos habitantes – é meio famosa no país por ter declarado sua “independência” em 1989. A causa original era uma disputa política, mas agora virou o cartão de visitas da cidade. A cada dois anos, em janeiro, celebram o “Dia da República” e até elegem um presidente.  Dentro do Whangamomona Hotel (onde se pode ficar por 65 dólares nova-zelandeses ou R$ 100 por pessoa, por noite) é possível ler matérias bem engraçadas sobre a história da República. Por exemplo, o primeiro presidente foi nominado sem ele mesmo ser informado, e o segundo presidente foi um bode. Você já tem uma ideia.

Eu parei lá para tomar um café – um letreiro fora do hotel diz que oferece “o melhor café por milhas”, o que é uma piada, já que a única concorrência é o café instantâneo da Janet. Também é o único lugar onde encontrei outros turistas.

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Ao final, cheguei ao parque nacional lá pelas 18h e decidi fazer uma trilha curtinha para não perder totalmente o parque (era o último dia da viagem). Optei pela Kapuni Loop Track, uma trilha de uma hora que chegava à cachoeira Dawson Falls.

Que decepção.  OK, a trilha era linda, bem-cuidada e sossegada, passando por uma floresta densa com árvores velhas e pitorescas. Mas cadê as ovelhas? Cadê os povoados pequeninhos? Cadê a emoção de não saber o que ia aparecer depois da próxima curva? E a cachoeira? Linda, mas linda dessa forma igual-a-todas-as-outras-cachoeiras-lindas-do-mundo, inclusive muitas que já vi no Brasil. Ou seja, totalmente esquecível. Muito diferente da Estrada do Mundo Esquecido, que não vou esquecer nunca.

Mais dicas de viagens no iG Turismo:

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 15 de março de 2012 Brasil, Estados Unidos | 06:55

Para inglês entender

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- Veja a resposta da Embratur sobre os erros de tradução em seu site

Há 15 dias, o secretário geral da Fifa, Jerome Valcke, reclamou – de forma não muito diplomática – que o Brasil estava bem atrasado nos preparativos para a Copa do Mundo. Eu não sei falar se Brasil está realmente tão fora dos prazos para a construção dos estádios e da infraestrutura quanto diz o Sr. Valcke, ou se está no caminho certo, como diz o governo. Mas posso dizer, com certeza, que o Brasil – e mais especificamente a Embratur, agência oficial de promoção e marketing do turismo no País – está bem atrasada em outra coisa: o inglês.

Na semana passada, escrevi sobre o profissionalismo dos representantes da Embratur na feira de turismo New York Times Travel Show. Agora, vem a parte chata: a versão virtual, braziltour.com, é muito ruim. No site, que todo o mundo vê como primeira opção quando busca por “visit Brazil” ou “Brazil tourism” no Google, a informação está apresentada em um inglês tão pobre que em muitos casos nem dá para entender o que se quer dizer.  Incluindo a primeira página (home).

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

A Embratur obviamente fez um esforço grande, porque o site é bonito e lotado de fatos, informações e vídeos. Posso até dizer que a versão em português é muito legal. Mas é fato que a versão em inglês é a que importa, porque serve não só os cidadãos dos aproximadamente 60 países do mundo onde o inglês é o idioma oficial ou predominante, mas também outros países como Japão, China e Rússia, que não contam com versões nos idiomas deles.

O site existe também em espanhol, francês, italiano e alemão, mas eu não sei avaliá-los. O que posso dizer é que o inglês é péssimo. Não péssimo tipo “Você visitar Brasil. Brasil ser muita bonita.” Isso é errado, mas pelo menos dá para entender.

Vamos para alguns exemplos. As primeiras mensagens que aparecem são:

“Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup” e depois “Click here and get to know our Cities Selection”.

Li as duas frases pelo menos 20 vezes sem consegui entender nenhuma das duas.  Será que o primeiro significa “As estrelas da seleção brasileira vão estar presente na Copa do Mundo”, pensava. Ou talvez “As estrelas do céu estão alinhadas para a Copa ser maravilhosa”?

A segunda parte também foi difícil. “Cities Selection” significa o quê? Deve ter algo a ver com as cidades que vão receber a Copa, mas o quê exatamente?  Fiquei perplexo.

Rio de Janeiro

O que você entende por: “Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup”, “Click here and get to know our Cities Selection”?

Para resolver, fui para a versão em português.  Ah, “as estrelas” = “os craques”, e os craques, neste caso, são as cidades hospedeiras. Embratur, me permite?

“Brazil has recruited its biggest stars for the 2014 World Cup…”

“Its host cities! Click here to learn all about them.”

O problema é fácil diagnosticar. Já vi em muitos outros sites de empresas brasileiras, sem falar de cardápios em restaurantes e placas nos hotéis. Os que fazem as traduções de português para inglês são brasileiros.

Funciona assim. Para traduzir do inglês para o português, se deve usar brasileiros (ou portugueses, angolanos etc) bilíngues. Para traduzir do português para o inglês, precisa de tradutores bilíngues, que foram criados e educados em inglês. Não quem estudou inglês na faculdade e fez mestrado em Londres. Ou seja, precisa de ingleses, canadenses, norte-americanos, australianos, tanto faz. Podem existir algumas exceções extraordinárias à regra, tradutores brasileiros que conseguem verter profissionalmente para o inglês? Pode. Mas são poucos, caros e claramente não são contratados pela Embratur.

Eu tenho um amigo norte-americano tão fluente em alemão que grandes editoras o contratam para traduzir os best-sellers alemães para o inglês. Já ganhou prêmios por seu trabalho. Mas ele absolutamente se recusa a fazer traduções do inglês para o alemão. Porque sabe que vai ter erros.

(Ah, e claro, eu escrevo esta coluna no meu português imperfeito. Mas não publico nada antes de tê-la revisada e corrigida pela minha editora brasileira. Se quiser ver meu português na versão original, tem que me seguir pelo Twitter no @tuitesdo7.)

Voltando para o site…

O turista que clica sobre “Selection Cities” chega a outra tela. Aparece uma frase: “A cities’ schedule ready to start playing”.

“Humanity Cultural Heritages in Brazil”

“Humanity Cultural Heritages in Brazil” ou “World Heritage Site”

Tenho mais de três décadas de experiência em ler o inglês, mas ainda assim não consegui decifrar esse contrassenso. Procurei na versão em português: “Uma seleção de cidades pronta para entrar em campo”. Gente, speak serious. Nada a ver. Embratur, tome nota: “A great team of cities, ready to take the field”.

Daí dá para “conhecer” as cidades em fatos, fotos e vídeos. Cada qual com erros que variam de ruins a desastrosos. Um vídeo sobre Natal mostra o que parece ser de uma dança tradicional, com a legenda: “Plentiful cultural demonstration”. Sentido? Nenhum. Parecem palavras escolhidas aleatoriamente e colocadas juntas ao acaso.

Mas os erros mais graves ficam na página principal. Se o visitante potencial rola a tela para baixo, quase todas as outras opções têm erros também. (Uma exceção: “Golf” está traduzido corretamente como “Golf”) Mas tem uma que é imperdoável. A tradução de “Patrimônios Culturais da Humanidade no Brasil” é: “Humanity Cultural Heritages in Brazil”.

Desculpe a repetição, mas não faz sentido nenhum. Para quem não sabe, o status de “Patrimônio da Humanidade” é decidido pela UNESCO, agência da ONU. A Embratur sabe disso. Assim que encontrar a tradução correta é muito fácil. Basta ir à página do Wikipédia em português e dar um click em “English”, na coluna de “outras línguas”, do lado esquerdo. Aparecerá a mesma página do Wikipédia, em inglês. Resultado: “World Heritage Site”. Ou faça uma pesquisa por “UNESCO” no Google.com, em inglês. Saem imediatamente duas opções: “World Heritage” e “World Heritage List”.

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Felizmente, alguns erros são mais engraçados do que deprimentes. É só ir na página de Trancoso. A descrição do lugar em português é a seguinte:

“Trancoso é um povoado localizado no sul do Estado da Bahia, é hoje um lugar ideal para fugir da agitação e estresse da cidade.”

E em inglês: “Trancoso is a town on the south region of Bahia. It is now the ideal site to runaway from the effervescence and stress of the city”.

A tradução possui pelo menos cinco erros. Mas é o quinto o mais hilário. Como “agitação” chegou a ser “effervescence”, não sei dizer. “Effervescence”, em inglês, significa “o ato de bolhas de gás escaparem de um líquido”.

Ou seja, Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade. Notem bem, gringos: se vocês gostam da Coca Zero ou da água com gás, melhor escolher outro destino.

Obviamente, ninguém vai desistir de Trancoso por um erro de vocabulário. Mas desistir de um país porque não tem informação legível em seu site oficial? Com tantos outros países de olho nos bilhões de dólares do turista internacional? Isso não só é possível, é provável.

- Veja a resposta da Embratur sobre os erros de tradução em seu site

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