2012 maio | Viagens com Seth Kugel - iG

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Arquivo de maio, 2012

quinta-feira, 31 de maio de 2012 Europa | 06:45

Arrumando a mala – e a pesquisa – para a Escandinávia

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Estou escrevendo esta coluna na terça-feira, seis horas antes de sair para uma viagem de dois meses por quatro países que não conheço: Dinamarca, Noruega, Suécia e Finlândia – os países da Escandinávia. (Tudo isso depois de uma breve estadia em Roma, o tema da coluna da semana que vem).

Alguns jornalistas de viagens gostam de fingir que são especialistas em cada lugar onde desembarcam, mas é quase sempre mentira. Eu prefiro admitir o que eu sou: ignorante e preconceituoso. Mas ao mesmo tempo, muito curioso e com muitas perguntas e dúvidas para resolver.

Leia também: O que levar – ou não – na mala de viagem

O que você sabe sobre Estocolmo, capital da Suécia?

É inevitável ter preconceitos sobre um lugar que não conhecemos, mas o importante é reconhecer que são “pré-conceitos” e fazer muitas perguntas e observar rigorosamente o que encontramos no país desconhecido. Imagino que a grande maioria de vocês também não conhece esses países, assim que hoje espero fazer um ato de jornalismo colaborativo sobre esses dois ingredientes necessários e inevitáveis de qualquer boa viagem: preconceitos e perguntas.

Então, submeto para sua participação as seguintes perguntas sobre a Escandinávia:

1) Quais são seus preconceitos – positivos e negativos – sobre a região?

2) Quais são suas dúvidas sobre a Dinamarca, a Suécia, a Noruega e a Finlândia – ou seja, o que querem saber sobre esses países?

Mais: Como aprender inglês de uma vez por todas

Todo mundo é loiro nos países escandinavos? Vai ser legal ser exótico!

Coloque suas respostas nos comentários, lá embaixo, e eu tentarei responder durante os próximos dois meses, pela coluna e também pelo meu Twitter, @tuitesdo7.

Deixe-me começar com alguns exemplos. Eu, definitivamente, tenho alguns preconceitos em relação à região.

a) Quase todo o mundo é loiro. Sei que agora já existem comunidades de imigrantes por lá – até da África. Mas segundo me dizem o cabelo escuro ainda é exótico. Nossa, vai ser legal ser exótico! Isso se o meu preconceito estiver certo.

b) Tudo é caro demais. Tipo, vou morrer de fome. E mais especificamente, de sede: amigos que já foram dizem que uma lata ou long-neck de cerveja custa até R$ 30 em um bar. Detalhe: meu medo dos preços é tanto que, pela primeira vez, vou levar uma tenda e um saco de dormir para não gastar tanto nos hotéis.

c) Todo mundo é muito obediente às regras e leis. Li que os suecos preferem ficar parados numa chuva intensa a atravessar uma rua com o sinal vermelho, mesmo que não tenha carro nenhum vindo.

Concordam?  Tem mais? Escreva um comentário.

E agora, minhas dúvidas.

1) A região é conhecida por ter um sistema socialista – e que funciona bem. Qual é a visão dos moradores locais sobre os altos impostos que pagam (muito mais altos do que no Brasil e nos Estados Unidos) em relação ao que recebem do governo?

2) É verão agora na Escandinávia, e em algumas regiões o sol passa 18, 20, até 24 horas no céu, e a noite quase não existe. Como isso afeta o ritmo de vida? Como aguentam o inverno, quando o sol quase não aparece?

Leia também: Quais as metas das suas viagens? Uma teoria sobre turismo

Como será que o sol constante durante o verão afeta o ritmo de vida?

3) Come-se mesmo a carne de rena? Se existir uma churrascaria brasileira na região, será que servem rena?

E as suas?

***

Mais uma coisa: faltando só seis horas para sair do aeroporto, chegamos ao momento em que os amigos me ligam ou mandam mensagens para me perguntar “malas prontas?”.

Óbvio que não. Primeiro, é “mala” e não “malas”, viajo sempre com uma só. Segundo, nem pensar: para mim, fazer a mala é coisa de uma hora no máximo. Qual é o segredo? Fácil: começar a fazer a mala quando falta uma hora para sair para o aeroporto.

Na verdade, não é tão simples assim. Uma semana antes da viagem, começo a fazer uma lista de tudo o que preciso comprar e, aos poucos, coloco as coisas que acho que vou esquecer (passaporte, adaptador para tomadas no país de destino, canivete, euros que sobraram da última viagem) em cima da mala. Assim que, no momento de fazer a mala, tenho certeza que não vou esquecer nada.

Porém, sempre esqueço algo. O que será desta vez? Quem dera eu soubesse. Mantenham-se sintonizados…

LEIA NO IG TURISMO:

- Agência de viagem leva turistas para “caçar” auroras boreais

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- Inglaterra muito além de Londres

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quinta-feira, 24 de maio de 2012 Dicas | 06:58

Como aprender inglês

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Leitores, quais entre vocês querem viajar para Estados Unidos ou Inglaterra e voltar falando inglês fluente? A resposta: quase todos, em teoria; na prática, alguns poucos.

É que muitos querem ter um inglês perfeito do mesmo jeito que querem abdominais sarados. De graça. Sem sacrifícios. Dedicar 90 minutos por dia a estudar ou malhar?  Desistir de ler “Caras” e só ler “The Economist” ou desistir de comer doces e só comer verduras?

Aprender um idioma é difícil. Custa tempo. Requer esforço. Mas, como ter o abdominal sarado, vale a pena. (Segundo me dizem. Falo quatro idiomas mas minha barriga está bem mole.)

Qual o destino ideal para você fazer intercâmbio? Faça o teste e descubra

Aprender um idioma é um projeto não de férias, mas de todos os dias do ano

Muitas pessoas que te dizem querer passar um, três ou seis meses em Nova York  ou Londres aprimorando o inglês estão mentindo. Não para você, mas para si mesmos. O que querem, provavelmente, é escapar da rotina por um tempo e se divertir na capital do mundo. E aprender um pouco de inglês no caminho. Mas esta coluna se dedica aos outros. Os que realmente querem viajar e voltar falando bem, muito bem. Ou seja, para os que querem fazer sacrifícios.

Só porque esta é uma coluna de viagens, vamos começar com a viagem. Mas como verão depois, aprender um idioma é um projeto não de férias, mas de todos os dias do ano.

A VIAGEM

Você tem 15 anos e seus pais têm uns R$ 7.000 a R$15.000 para gastar? Perfeito. Hora de fazer um desses intercâmbios de um ano em alguma “high school” dos Estados Unidos. Inglês fluente garantido – mais informações aqui. Mas para a grande maioria de leitores, o caminho é mais complicado. Quando eu comecei a aprender português, em 2003, em Nova York, jurei que passaria as poucas férias que tinha para viajar exclusivamente pelo Brasil e por Portugal. E assim foi pelos cinco anos seguintes. Você deve poupar o seu dinheiro e fazer a mesma coisa nos países que falam inglês.

Antes de embarcar: O que levar – ou não – na mala de viagem

AS AULAS

Vale a pena ter aulas? Vale. Mas, detalhe: quem já fala um inglês razoável não precisa ter aulas de inglês. Pode ser aula em inglês. Eu dei aulas de jornalismo por oito anos na New York University School of Continuing and Professional Studies, onde a metade dos alunos era estrangeira e muitos deles não falavam um inglês perfeito. É que muitas faculdades oferecem cursos de “continuing education” (ensino adulto ou educação continuada), os quais não requerem passar em nenhuma prova. Podem ser aulas de arte, de história, de filosofia ou até um curso de degustação de vinhos. É só buscar  pelo Google na cidade onde vai viajar e terá muitas escolhas, das quais algumas oferecerão ajuda com o visto de estudante.

Fuja de escolas no exterior com grande concentração de brasileiros

Os outros vão querer aulas de inglês. Como escolher? Com CUIDADO. Encontrar uma escola de inglês é fácil. Escolher uma boa é muito complicado. Segundo muitos amigos brasileiros e latino-americanos que estudaram nos Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, muitas escolas são apenas fábricas de vistos de estudante. A qualidade da instrução pode ser péssima. Então, é preciso procurar dicas de amigos que já foram e buscar online as avaliações das escolas.

Mas tem duas dicas adicionais:

Primeiro, é quase sempre mais seguro fazer cursos oferecidos por universidades do que por “escolas de idiomas”. É mais provável que os professores sejam profissionais legítimos que vão levar a sério a tarefa. Mas não só isso. Assistir aulas em um “campus” te dá a oportunidade de conhecer e fazer amizades com estudantes americanos (ou ingleses ou australianos) que fazem outros cursos no mesmo lugar.

Segundo, evite os cursos nos quais tenham muitos inscritos brasileiros. Fato: brasileiro que tem aula de inglês com outros brasileiros vai falar português entrando e saindo da (e às vezes durante a) aula. Como saber? Pergunte! Qualquer escola tem estatísticas sobre as origens dos alunos. Quanto mais diverso, melhor. E, detalhe: cuidado se tiver muitos latinos hispânicos. Você não seria o primeiro a voltar ao Brasil falando mais portunhol do que inglês.

Mais dicas do Seth: Como aproveitar melhor os programas de milhas

Mas estou dando dicas fora de ordem. Primeiro, você precisa escolher uma cidade (e país).

A CIDADE

A parte mais difícil: considerar a possibilidade de NÃO IR para Nova York, nem Londres. Essas cidades são tão lotadas de brasileiros e outros estrangeiros, que é fácil demais se refugiar com os compatriotas. Você acha que não, mas já vi isso acontecer muitas vezes. Todo mundo chega a uma cidade nova pensando que vai fazer amizades com os locais, mas, ao final, muitos acabam ganhando só amigos brasileiros. Lamentável, mas compreensível.  A única forma de evitar: ir onde não tem muitos brasileiros. Sacrifício? É. Vai sentir saudades de arroz e feijão? Vai. Falar inglês o dia todo dá dor de cabeça? Dá. Vale a pena? Só você decide.

Em cidades pequenas, como Savannah, nos EUA, tem menos estrangeiros para conviver

Um exemplo concreto da minha vida: dos idiomas que eu sei, o que falo pior é o francês, apesar de ter estudado desde jovem e ter passado cinco meses da faculdade estudando em Paris. Por quê? Porque estudei EM PARIS. Por que escolhi Paris? Porque era Paris. Mas a cidade estava lotada de americanos, e era quase impossível fazer amizades com os parisienses (como é com os moradores de muitas grandes cidades). Resultado: desisti e passei meu tempo com americanos. Por que não estudei em Lyon, Aix, Perpignan ou Nantes? É uma boa pergunta, que estou me fazendo até hoje.

Nas cidades pequenas, as pessoas normalmente são mais abertas – e mais interessadas em conhecer estrangeiros. Também podem ser menos caras. Mas tem boas aulas de inglês? Pode acreditar – pelo menos nos Estados Unidos, com tantos imigrantes que têm hoje. Só para fazer um teste, fiz uma busca de aulas de inglês na cidade de Savannah, a cidade charmosa de 135.000 sobre a qual escrevi na semana passada. E… a melhor faculdade da cidade, a SCAD, oferece aulas de inglês para estrangeiros, e (segundo dizem) cada professor se formou em “ESL”, ou seja, “inglês como segundo idioma”. Isso você nem sempre vai encontrar em outras escolas. (O preço: US$ 2.500 por 10 semanas de cursos, programa full-time de quatro cursos.)

“Brasileirismos”: Como ser brasileiro – mas não tanto – no exterior

ONDE MORAR

Mais um detalhe: onde morar. Já decidiu estudar na cidade de Gringolândia porque tem poucos brasileiros. Mas, claro, seu primo carioca tem um amigo mato-grossense cujo sobrinho gaúcho mora naquela cidade e conhece um cearense que quer alugar um quarto no seu apartamento. EVITE. Não more com brasileiros. Vai ser mais difícil procurar “roommates” que não são brasileiros? Vai. Vai ser mais arriscado? Vai. Vai valer a pena? VAI. Como fazer? Pergunte na escola onde vai estudar, mas também, dependendo da cidade, pode começar nos classificados craigslist.org.

ANTES DE IR/DEPOIS DE VOLTAR

A viagem é a parte divertida. Mas como eu disse, aprender um idioma é um trabalho de vários anos. Quem chegar na Inglaterra só com o inglês que aprendeu na escola cinco anos atrás corre o risco de poder entrar na conversa só quando se tratar de algum livro que esteja, por acaso, sobre a mesa.

Você pode fazer aulas de inglês na sua cidade, se quiser. Mas existem muitas outras opções. É possível comprar um cursos digital (tipo Rosetta Stone), ou contratar um professor particular pelo Skype, uma opção ótima para quem quer praticar com um nativo e talvez fazer um amigo para visitar quando viaja. (É só consultar seu melhor amigo Google com uma busca de “English lessons” e “Skype”; as aulas normalmente variam entre R$ 30 e R$ 60 e duram entre 25 minutos e uma hora.)

Mas com ou sem aula, a parte mais importante é algo extremamente fácil no mundo de hoje: escute rádio em inglês pela internet. Diariamente.

Ouvir programas de rádio - não músicas - em inglês é essencial

Claro, pode assistir TV americana (sem legendas, por favor), ou ler livros em inglês. Ótimas ideias, para quem tiver tempo. Mas rádio é bem mais fácil e não permite desculpas de “estou ocupado”. Dá para escutar no banheiro, enquanto se veste, tomando café da manhã e até no ônibus/ trem/ carro por “podcast”, esses programas que as pessoas baixam gratuita e legalmente na internet para botar no seu smartphone ou mp3.

Quais programas escolher? Esqueça música. O que você precisa é escutar conversações ou pelo menos o jornal do rádio. O ideal é virar fã de algum programa da manhã. Aprendi espanhol escutando “El Vacilón de la Mañana”, na rádio hispânica de Nova York (antes da época do rádio por internet) e aprendi português escutando o programa de Roberto Canázio, o  Patrulha da Cidade, na Tupi-AM do Rio, pela internet. (Fãs de Roberto Canázio: ainda uso muito a frase: “Moraaaaaal da história…”)

Uma escolha perfeita para melhorar seu inglês é a National Public Radio, a rádio pública nacional dos Estados Unidos, com estações em quase todas as cidades. Por quê? Porque os apresentadores são inteligentes, o conteúdo é interessante e intelectual etc. Mas a melhor parte: falam um inglês devagarzinho e certinho. (Na maioria dos casos. Exceção: os caras do programa CarTalk, dois mecânicos que dão conselhos sobre os carros e sobre a vida, em sotaque forte de Boston.)

Quer escutar ao vivo? É só escolher sua emissora pelo Google (NPR + cidade funciona) e encontrar o site. A minha é WNYC, em Nova York. E os “podcasts” são dos assuntos mais variados, e tem uma lista aqui.  Baixe alguns e escolha qual gosta mais. Não se preocupe se não entender tudo, ou nem 25%, na primeira vez que escutar. Ter o idioma nos seus ouvidos ajuda muito e pouco a pouco irá se acostumando, como mágica.

Tente ler só em inglês também.  Perdi quase todos os bons livros americanos publicados durante os anos 1992-1995 e 2003-2006, porque nessas épocas me dediquei só a ler livros publicados em espanhol e português. Sou maluco? Talvez. Mas um maluco que fala espanhol e português.

LEIA NO IG TURISMO:

- Intercâmbio aos 50 anos

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 17 de maio de 2012 Estados Unidos | 06:45

Fuja das compras em Savannah, uma das cidades mais lindas dos Estados Unidos

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Distintas pessoas reagem às notícias de formas distintas.

Exemplo: o real enfraqueceu e vale R$ 1,97 por dólar.

1)     Os exportadores celebram.

2)     Os importadores choram.

3)     Eu penso na cidade de Savannah, Georgia.

Ou seja, eu penso que, talvez, por fim, os brasileiros me dêem bola quando sugiro irem para Savannah, que é, sem dúvida, uma das cidades mais charmosas dos Estados Unidos.

É que quando o real estava mais forte, vocês brasileiros pensaram nos Estados Unidos como uma espécie de shopping gigantesco. (Sem problema, alguns dos meus compatriotas pensam no Brasil como uma floresta gigantesca.) Mas agora que as compras ficaram um pouco mais caras, pode ser que vocês considerem uma visita a lugares conhecidos pela sua beleza ou valor histórico, e não por sua proximidade dos “outlets” de Woodbury Commons (em Nova York) e Sawgrass Mills (em Miami).

Outras viagens: Um roteiro de compras – para brasileiros – em Nova York

Turistas em carruagem fazem tour no distrito histórico de Savannah.

Savannah seria uma das minhas primeiras sugestões. Uma cidade de apenas 135.000 habitantes, a uma hora de avião ou quatro de carro de Atlanta. A capital do Estado da Geórgia é ainda a cidade mais importante do sudeste do país (com voo direto de São Paulo, pela Delta). Savannah recebe milhões de visitantes por ano que caminham pelo distrito histórico, passando por (e dentro de) casas antigas em belas condições, visitando galerias de arte e comendo a comida tradicional do sul, que eu sempre comparo (culturalmente e “gorduramente”) com a comida mineira.

Charme é o mínimo para descrever o centro histórico, desenhado por James Oglethorpe no século 18. Oglethorpe era britânico e fundador da colônia da Geórgia, quando o que agora é os Estados Unidos era terra disputada entre os ingleses, os espanhóis e os franceses (e os indígenas, claro). A ideia era formar uma cidade dividida em “wards”: pequenos bairros que teriam em seu centro uma praça verde. Ao redor da praça, Oglethorpe reservou espaços para prédios públicos como escolas e igrejas; algumas casas elegantes ficaram também frente à praça, muitas das quais hoje são preservadas como museus. Mas famílias menos ricas também conseguiam morar perto (se não ao lado) das praças, resultando em um plano que se considerava igualitário na época. – Oglethorpe, que deve ter sido um cara legal, também quis proibir não só a escravidão, mas também a presença de advogados (principalmente nos EUA, um mundo sem advogados parece ser o paraíso) na colônia, mas nenhuma dessas duas leis pegaram, infelizmente.

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Praça típica nos "wards" de Savannah (com bastante musgo espanhol)

E tem mil lugares para parar, além das pracinhas: começando com os museus dentro das casas históricas, tais como a Owens-Thomas House, lotada de arte e móveis de 1750-1830, ou a Davenport House, onde se pode reservar uma mesa para o tradicional chá estilo século 19. Além dos museus, tem muitas galerias de arte e lojas de artesanato dentro dos wards, em parte devido à presença da Savannah College of Art and Design, uma faculdade respeitada de arte e desenho. O jornal francês Le Monde chamou a cidade de “a mais bonita dos Estados Unidos”, e os franceses sabem algo de cidades bonitas. O plano físico faz tanto sentido que é difícil andar pelas ruas e não pensar “por que toda cidade não é assim?”.

Mas nem toda cidade poderia ser assim, porque nem toda cidade tem o clima certo para o que mais dá charme à cidade: a onipresença do musgo espanhol, também conhecido em português como “barba de velho”. O musgo, que adora se pendurar nas árvores da região, inspira um sentimento que é difícil de descrever. Eu diria que é parte romance, parte preguiça, parte espanto. (Você, porém, reserva o direito de ter a sua própria reação). Talvez seja difícil acreditar que um musgo possa mudar uma cidade, mas é só dar uma olhada nessa foto.

Veja também: Como ser brasileiro – mas não tanto – no exterior

Musgo espanhol

A história de Savannah é entrelaçada com a indústria do algodão, e o melhor lugar para apreciar isso é na beira do rio, na River Street, com velhos prédios que eram depósitos de algodão (com os escritórios dos exportadores nos últimos andares). Por um tempo, foi a cidade que mais exportava algodão nos Estados Unidos, e o prédio mais importante era a Bolsa do Algodão – que ainda existe. Agora, o pátio próximo ao rio se transformou em parque público e atração turística, e está lotado de lojas e restaurantes.  Dica: quem gosta de comer de graça deve visitar a Peanut Store (Loja de Amendoim) na beira, que oferece amostras grátis de castanhas cobertas de chocolate, entre outras coisas. (Você pode comer muito e ninguém fala nada, pode acreditar, eu fiz a prova).

Há pouca informação escrita em português sobre Savannah – se conseguir encontrar, leia o clássico “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, livro mais famoso (mas não o único) cuja história se passa em Savannah. Mas parece bastante difícil encontrar a versão em português, assim que também vale ver o filme, do diretor Clint Eastwood. Savannah tem fama de ser uma cidade meio assombrada pelos fantasmas do passado, em parte pela fama do livro.

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Tá vendo? Um fantasma na janela? Se não, melhor não perder dinheiro nos Ghost Tours de Savannah.

Para os que se garantem em inglês, vale pegar um dos famosos “Ghost Tours” noturnos de Savannah, inclusive um que leva os clientes em carro funerário. Eu fiz outro e achei um pouco absurdo, mas nem todo mundo concorda sempre comigo. Exemplo: eu não gosto de bacalhau, mas aceito que outras pessoas de boa fé (e mau gosto) podem não concordar.

Onde comer? Savannah tem muitos restaurantes clássicos da comida do Sul, mas também tem lugares que é melhor evitar. Talvez o restaurante mais badalado da cidade seja o The Lady & Sons, de Paula Dean, chef muito conhecida nos EUA pelos programas de TV e livros de receitas que não poupam gordura. The Lady & Sons (que ela administra com os filhos) é o tipo de restaurante que eu nunca visitaria por escolha própria, porque nem vejo os programas da Paula e só quem é fã aguenta os preços e filas.

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Mas só para avisar, não sou sempre contra fenômenos turísticos. Eu posso recomendar, sem reservas, o Mrs. Wilkes Dining Room, onde se serve, de segunda a sexta, das 11h às 14h, um almoço “family-style” onde você se senta numa mesa grande com vários desconhecidos (ou que você acaba de conhecer na fila) e come as comidas mais tradicionais do sul: frango frito, linguiça, guisado de carne, muffins de milho, batata doce, quiabo, feijão verde, couve-galega. Custa US$ 18 (R$ 36) e se come (e bebe chá gelado) à vontade. Nem tão ruim para um lugar turístico. Mas chegue cedo, porque sempre tem fila.

Mais: Nova York a dois

Restaurante Zunzi's

Para quem quer gastar ainda menos, vou recomendar dois lugares. O primeiro por experiência própria: o Zunzi’s, um pequeno lugar que vende sanduíches e pratos de origens tão variados quanto os donos, que são de origem holandesa-suíça- italiana-sul-africana. O segundo vem de experiência alheia: o Angel’s BBQ, onde um sanduíche de pernil desfiado, tradicional da região custa US$ 6. Digo experiência alheia porque quando eu cheguei, às 13h30, já tinham vendido toda a carne do dia e estavam fechando. Lugar que não consegue preparar comida suficiente para durar até o final do almoço é lugar bom.

Daí, só fica o detalhe de onde dormir. As duas vezes que fiquei na cidade, usei o serviço do AirBnB (agora com site em português!), pelo qual residentes locais do mundo inteiro alugam quartos nas casas deles (ou a casa inteira) por preços muito menores do que um hotel. (Savannah tem mais de 90 possibilidades listadas). Nas duas vezes foi um sucesso, com quartos bem cuidados e anfitriões que estão tão acostumados a ter gente em casa que quase parecem pousadas.  Mas para quem tem um pouco mais de dinheiro, um “bed and breakfast” (cama e café) no distrito histórico é a escolha certa. Muitas das pousadas se situam em casas históricas, o que significa que, com sorte, a vista da janela do seu quarto será de árvores cobertas de musgo espanhol.

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quinta-feira, 10 de maio de 2012 Brasil | 06:42

Um teste do aeroporto de Guarulhos antes da invasão dos gringos

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Admiro André Franco Montoro, ex-governador de São Paulo e líder do movimento Diretas Já, não pelas realizações políticas que conseguiu em vida, mas por ter sido tão esperto dois anos após sua morte. Aconteceu em 2001, quando o Congresso Nacional decidiu rebatizar o Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos em sua honra. De algum lugar do céu, o governador declarou “NÃO QUERO!” E, abracadabra, o nome não pegou. Brilhante.

Quem ia querer, de verdade? O aeroporto é feio e sombrio, os pães de queijo são caros e os sanitários nem tão sanitários. Ainda assim, gosto do aeroporto. Eu não sou tão exigente para precisar de um bar de sushi, um trem-bala até o centro da cidade, um terminal cheio de luz e cores; vamos deixar essas coisas para cidades lindas. O concreto cinza e tetos baixos da sala de desembarque são megadeprimentes para quem chega de outro país após dez horas de voo, mas quem nega que representa bem a maioria da arquitetura da cidade? De certa forma, o aeroporto é uma fiel representação de São Paulo.

Outras viagens: Para inglês entender

Em Guarulhos, turistas perdem qualquer bronzeado imediatamente, por falta de luz natural

Mas eu reconheço que minha opinião é minoritária (ou talvez única). Assim que decidi avaliar, de forma objetiva, como seria a experiência de um estrangeiro chegando ao Brasil para uma reunião, umas férias, ou, sim, a Copa de 2014.

Mais: O que você pode levar na mala?

Claro que testar os terminais 1 e 2, ambos construídos nos anos 80, não é completamente justo. O terminal 4, branquinho e novinho, acaba de abrir – mas ainda está meio vazio, usado só para voos da Webjet e quase sem serviços adicionais.  E o terminal 3, que será o maior de todos, entrará logo em construção e, segundo os planos, ficará pronto até o começo da Copa em 2014 (aham). Quem sabe se os terminais 3 e 4 vão transformar Guarulhos em um aeroporto moderno e entre os melhores do mundo (aham, aham), invalidando completamente esta pesquisa?

Terminal 4: branquinho e lindo, mas sem serviços

Bom, o teste inicial foi um sucesso. Cheguei de Nova York no sábado, prestando atenção ao processo de desembarque, imigração e alfândega. Achei tudo bem fácil: apesar de haver um pouco de confusão nos corredores onde os que desembarcam cruzam com os que estão embarcando, não tinha nenhuma fila na imigração, a mala chegou rapidinho e sai da alfândega sem os oficiais perceberem os 18 iPads na minha mala. (Nota para a Receita Federal: estou brincando.) E fui direto para o ônibus secreto que quase ninguém conhece, mas que te leva para o metrô Tatuapé por R$ 4,30.

Mas sei que às vezes há filas enormes, policiais federais que não sabem nada de inglês e falta total de ar condicionado.

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Querendo fazer mais um teste sem sair e voltar ao País, voltei na segunda-feira, simulando não falar nenhuma palavra de português e fingindo ser um gringo recém-chegado e à procura de informação, serviços, comida, transportes e os outros serviços do aeroporto. Vejam o que descobri:

Estrutura
Um aeroporto é a primeira impressão que um turista ou empresário tem da cidade. A cidade é limpa? É bonita? É eficiente? Como já falei, São Paulo não é nenhuma dessas coisas. Imagina passar por um aeroporto supermoderno e chique e depois ficar 90 minutos no trânsito para chegar ao centro de uma cidade cinzenta e suja. Que desilusão.

Mas a diferença é que a cidade é “cool” apesar de ser cinza. O concreto do aeroporto de Guarulhos é só cimento e areia; o concreto da cidade de São Paulo é cimento e areia com suplemento de arte, grafite, toques de beleza, cantinhos secretos.

Mais: Guia para a primeira viagem de avião

Escuro e deprimente... como São Paulo mas sem 'vibe'

O aeroporto tem pouquíssima arte: tem um mural pop de Romero Britto que dá um pouco de cor e, escondido entre os terminais 1 e 2, se encontra o Espaço Cultural Infraero, que deve ser muito lindo, mas estava fechado quando eu passei às 18h30. Mas esculturas, quadros, até exibições de grafite nas áreas públicas ajudariam muito a melhorar. Imagine um Beco de Batman ligando os terminais 1 e 2!

Minha maior queixa, porém, é a tipografia – ou seja, as fontes que usam em todo lugar. Olha as letras aqui:

Veja também: O que fazer se você perder o voo

Desembarque Internacional na "Rodoviária" Internacional de Guarulhos

Parece uma rodoviária nos anos 70. E a tela que mostra as chegadas dos voos? Nunca vi tipografia tão apertada com tanto espaço em branco. Superdifícil ler. E se um passageiro que sai da alfândega e entra na área pública do aeroporto quiser encontrar o banheiro ou informações turísticas? Será difícil, porque colocaram a sinalização – e várias outras coisas – bem atrás da área onde ficam todos os motoristas, com papéis indicando o nome dos passageiros que vieram buscar. E nós que não temos motorista? Como vamos encontrar o banheiro?

Mais: Como aproveitar melhor o programa de milhas

Ajuda ao turista
E que tal o tadinho do turista que chega a Guarulhos sem saber nada sobre o transporte e sem nem um hotel reservado? Boa notícia: os atendentes do balcões de informação da Infraero, da São Paulo Turismo e até da Guarulhos Convention and Visitors Bureau (para quem viajou dez horas para desfrutar das maravilhas da cidade de Guarulhos) falavam inglês e eram bem competentes.

Balcão da Infraero; bom inglês, boa atitude

Testei os três, fingindo não falar português, e pedindo dicas básicas sobre transporte (para Campinas e para o Centro de São Paulo) e hotéis (no Centro e perto do aeroporto). Tudo certo em todos os balcões. O inglês de todo o mundo era perfeito? Não, mas eu não preciso um inglês de Oxford para me contar que o Airport Bus Service fica na segunda porta à esquerda.

Mais: Mantenha as boas maneiras no avião

A informação também não era perfeita. Para a moça que trabalhava no balcão da São Paulo Turismo, perguntei por um hotel barato perto do aeroporto. Recomendou o Matiz, dizendo que era “entre R$ 100 e R$ 300”. Em muitas cidades teriam ligado para o hotel para verificar ou até reservar, mas tudo bem. Ela era simpática. (E o preço, quando liguei, era R$184. Entre R$ 100 e R$ 300 mesmo.)

Sobre o que fazer em São Paulo por um dia, outra jovem entusiástica insistiu que eu precisava ir ao Centro para provar o “very, very big bologna sandwich”, um sanduíche de mortadela muito grande, no Mercado Municipal. E ganhei um panfleto sobre o mercado. Também recomendou a Pinacoteca e a Praça da Sé, mencionando que era necessário tomar cuidado com o celular e a máquina. Boas dicas, mas que tal uma caminhada pela avenida Paulista e uma visita ao MASP também?

O nível de inglês era aceitável. O entusiasmo era mais. É um bom começo.

Veja também: Fiji é o paraíso, apenas combine isso com a meteorologia antes

Culinária
O mínimo que se espera em um aeroporto internacional de cidade grande é que tenha opções variadas, pessoas que falem um pouco de inglês ou cardápios em inglês e um ambiente relaxante. Guarulhos, infelizmente, falha em todos.

Para quem quer um sanduíche, um pão de queijo, um hambúrguer, um quibe, uma pizza medíocre e ter de disputar por uma das poucas mesas disponíveis, tudo ótimo. Mas, hoje em dia, os aeroportos internacionais de grandes cidades oferecem muito mais, em um ambiente mais tranquilo.

Nome em inglês, mas cardápio só em português

E a situação para quem não fala português (ou espanhol, que funciona mais ou menos) é péssima. Ironicamente, o inglês é pior nos restaurantes com nomes em inglês: nem Baked Potato, nem Naturally Fast, por exemplo, têm cardápios em inglês ou pessoal que falava nenhuma palavra na língua quando eu visitei. Lugares como Viena e Balloon Café tinham cardápios em inglês, mas ninguém que falava. Um prêmio para o cara que trabalha no Frango Assado, que apesar de não ter cardápio em inglês, parou para me explicar com precisão o que era um beirute.

Internet
Novidade em Guarulhos: desde abril tem internet de graça para passageiros nas salas de embarque.  Foi impossível testar isso sem comprar uma passagem, assim que subcontratei o teste para o amigo, Rich Yang, que voou de Guarulhos ontem. Ele reportou  – só depois de chegar ao aeroporto de Montevidéu, onde a internet funciona – que, em São paulo, o sistema não aceitou o número do seu boarding pass.

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Eu tive problemas parecidos quando tentei no piso de desembarque. Mas para mim é igualmente importante, ou talvez mais, ter internet nas outras áreas do aeroporto. Para, por exemplo, chegar em um país estrangeiro e pegar os e.mails depois de um voo longo, ou abrir o Skype e ligar para a pessoa que disse que ia te pegar mas não aparece. Ou, antes do check-in, para mandar e-mails da fila interminável ou pegar o número da conta de milhas.

E chegamos a um problema. A rede pública no aeroporto, “Linktel Wifi”, está disponível em todas partes do aeroporto, não só na sala de embarque.  Bom, “disponível” no sentido de “existir”, mas não no sentido de “funcionar”, pelo menos para gringos.

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O preço é bom: R$ 1,99 por uma hora. Só que não tem versão em inglês e sem endereço no Brasil não é possível se cadastrar. Nem cheguei ao ponto de botar um cartão de crédito.

O atendente na mesa da Infraero salvou o dia, me avisando que a loja Digital World, no segundo andar, tinha uma rede de Wi-Fi. Mas precisava estar perto da loja. Você ainda tem a opção de usar os computadores deles, que funcionavam bem. Assim que, apesar de Guarulhos não ter Wi-Fi modelo 2012, chegou pelo menos a 1998.

Tomadas
Precisa de tomadas. Mais tomadas. Meu reino por uma tomada. Quem chega de um voo internacional chega sem bateria, quem chega para um voo internacional precisa carregar. Mas esse problema não é só de Guarulhos, existe ao redor do mundo nos aeroportos mais antigos. Vamos esperar que o terminal 3 seja um paraíso da eletricidade.

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A seleção inteira de livros em inglês disponíveis na LaSelva de Guarulhos

Livraria
A única livraria que encontrei no aeroporto (fora as das salas de embarque, que não pude visitar) foi a LaSelva, que tinha pouquíssimo para o passageiro internacional. Dez títulos de livros em inglês, a maioria sobre vampiros ou algo parecido. Algumas revistas em inglês, francês e italiano, mas nada das revistas que se vê em qualquer outro aeroporto do mundo: Time, The Economist etc. Porém, tinha dezenas de cópias de “Quem Acontece”, com Michel Teló na capa.

Transporte
Quem quer pegar táxi não tem nenhum problema: o sistema, apesar de ser muito caro, funciona e quando eu fiz meu teste, os atendentes falavam um inglês suficiente. O preço é bem alto – mais de R$ 100 para os bairros hoteleiros, mas isso é assim no mundo inteiro. Por isso nunca pego táxi. A opção que me deram nos balcões de informação era o Airport Bus Service, esse ônibus executivo que chega a várias partes da cidade, incluindo Congonhas, por R$ 35. O inglês da jovem que trabalhava lá era muito, muito fraco, mas conseguiu me entender e me mostrar o horário e o preço na tela.

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(Ninguém recomendou o ônibus de R$ 4,30 para o Tatuapé, mas prefiro assim, se pessoas demais ficarem sabendo, todo o mundo vai pegar e eu nunca vou conseguir um assento.)

Também testei o inglês falado nas locadoras de carros, com resultados mistos. Na Localiza, a mera pergunta “Do you speak English” pareceu assustar tanto a tadinha da balconista que nem conseguiu responder com “Sorry”; na LocarAlpha, a mulher me disse “I don’t speak English” com sotaque tão bom que achei que estava mentindo, mas quando perguntei quanto era um carro por uma semana, ficou claro que não falava mesmo. Na Hertz e Unidas falaram bem; a menina da Unidas só não sabia falar “não tem direção hidráulica” em inglês, mas conseguiu explicar usando gestos bem engraçados que qualquer pessoa teria entendido.

Se os aeroportos brasileiros vão sobreviver à Copa, não vai ser com novos terminais e aulas de inglês e quem sabe quais bandas de samba e faixas de “WELCOME!”. Vai ser pelo charme dos brasileiros como a menina da direção hidráulica e o cara do Frango Assado que dedicou seu tempo para me explicar o que era um beirute.

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 3 de maio de 2012 Estados Unidos | 06:56

Planeje a espontaneidade para aproveitar ainda mais a viagem

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Pergunte para 100 viajantes qual é o segredo de uma viagem bem sucedida, e aposto que 99 dizem “planejamento”. (E o 100° não responde porque está de férias.) Em teoria, eu até concordo. Mas na prática, e cada dia mais, a evidência indica o contrário. O segredo é a espontaneidade – ou seja, a disponibilidade de abandonar todos os planos se algo melhor surgir.

Voltei domingo de seis dias na estrada, viajando pelo sul dos Estados Unidos pela rota US-17. O melhor dia, de longe, foi o que começamos em Sunset Beach, North Carolina, saindo cedo com a meta de chegar na hora de almoço em Charleston, South Carolina. Para quem acha que não tem nada entre Washington e Miami, Charleston fica lá no meio, uma dessas cidades históricas que representam o charme dos Estados do sul que se rebelaram contra a União na Guerra de Secessão do século 19.

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(Detalhe: “começamos” porque, pela primeira vez em quase um ano, não viajei sozinho. Estava acompanhado pela Cris Kang, uma carioca residente em Nova York que concordou em me acompanhar e sofrer pelo ritmo frenético e pela verba baixa que marcam minhas viagens – tadinha dela.)

Depois de um desvio no caminho, o dia começa com os 'muffin caps' da Seaside Bakery

A noite anterior, no quarto de um motel em Sunset Beach (outro detalhe: motel nos Estados Unidos é um hotel barato para motoristas), ficamos até tarde planejando o próximo dia nos nossos notebooks, ela deitada em uma das camas e eu na mesa. A lista de coisas para fazer em Charleston era enorme: prédios históricos, museus de arte, de cultura e até da escravidão, restaurantes de comida típica da região (sopa de caranguejo, couve-galega, torta de pêssego, camarões com “grits” – parecido com uma canjiquinha salgada, de origem africana. Muitas coisas para fazer num dia só.

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Mas desde cedo os planos sofreram um desvio, literalmente. Pegamos a estrada errada, onde, precisando de café, encontramos a “Seaside Bakery”, uma padaria grande com uma só pessoa dentro: a dona, Carolyn Wright, é especialista em bolos de casamentos, mas também faz doughnuts recheados de geleia de frutas e “muffin caps” – uns deliciosos muffins sem a parte de baixo. A Carolyn, que deve ter uns 50 e poucos anos, é uma dessas pessoas inspiradoras que deixou uma carreira de escritório para seguir o sonho de fazer bolos, e deu certo; por fim vai contratar uma ajudante – uma das noivas que era cliente.

Cris joga minigolfe pela primeira vez. No fundo: a "montanha de lava fundida"

Saímos com dois muffin caps e dois cafés, e fomos embora para… jogar golfe.

É, passando a divisa entre North e South Carolina, chegamos rápido à cidade litorânea de Myrtle Beach, famosa por suas praias medíocres e campos de golfe. Ou seja, cidade chata onde de jeito nenhum íamos parar. Só que Cris enxergou algo que achou esquisito na beira da estrada – o que parecia uma série de greens de golfe em miniatura, como os que o pai dela usa para praticar os putts (tacadas leves). E assim descobri outra grande diferença entre a infância no Brasil e a infância nos Estados Unidos: vocês quase não têm minigolfe, algo constante nas festas de aniversário e férias na praia para gringuinhos novos.

Óbvio que precisamos parar e jogar uns 18 buracos (que dura uma hora, mais ou menos). Os campos de minigolfe frequentemente têm temas bregas, e dentro de segundos, passamos por um exemplo mais brega do que o normal: o Molten Mountain (Montanha de Lava Fundida), um prédio construído para parecer um vulcão em erupção, com águas cor-de-rosa saindo do “pico” e caindo como cachoeiras pelas ladeiras. Tinha dois campos de 18 buracos – um dentro do vulcão, e um fora –, e uma trilha sonora típica, rock clássico dos anos 50 e 60.

Clientes comem porco (e frango e salada e sobremesas) à vontade por US$ 6,95 no Hog Heaven, em Pawleys Island, à beira da estrada US-17

Seguimos pela rota US-17, que virou rural depois de Myrtle Beach. Muito nada, até aparecer na beira direita da estrada um restaurante simples de “barbecue”, o churrasco tradicional da região, quase sempre de porco. O nome do restaurante, Hog Heaven (“Céu dos Porcos”), indicava que não era exceção. Oferecia almoço à vontade por apenas US$ 6,95 (R$ 13) e comemos à vontade mesmo – pulled pork (pernil desfiado), frango frito, feijão (meio doce, no estilo do sul), salada e, como sobremesa, pudim de banana com “Nilla Wafers”, uma marca de biscoito doce de baunilha que, pela minha experiência, é absolutamente essencial em qualquer pudim de banana.

Então, já era 14h, “bora” para Charleston! Só que poucos quilômetros para frente apareceu exatamente o tipo de loja que adoro no sul: uma “country store” – ou lojinha rural. É mais ou menos uma loja que vende de tudo que já desapareceu das cidades grandes, substituída pelos supermercados e lojas de conveniência.

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Nós estávamos totalmente satisfeitos – até enjoados – de comer tanto, e nem precisávamos de óleo de motor, alimentadores de pássaros, frios para sanduíches, ou nada do que vendiam lá dentro. Mas parei com a desculpa de Cris precisar provar o amendoim fervido, uma especialidade regional extremamente mole e nojenta, mas que insisti que ela provasse só porque era bem tradicional. (É muito chato viajar comigo).

Não era nenhuma loja normal. O dono, David Bilderback, branco e grisalho, conversava com uma senhora negra e idosa que brincava com um cachorro pequeno. Nas estantes tinha todos os produtos normais, mas também itens que deveriam pertencer a um museu: bonecas velhíssimas (da coleção da mãe do David), fotos históricas, uma tábua antiga dessas de lavar roupa, uma boia salva-vidas de um barco de Nova York e até uma geladeira antiga e enorme que cobria parte da parede de trás.

A 'country-store' de David; loja que vende de tudo que já desapareceu das cidades grandes

Acontece que David comprou o prédio – em ruínas – quando mudou de outro Estado para trabalhar em outra coisa. Nem pensou em ter uma loja. “Eu tinha muitas coisas, e parecia um bom lugar para depositá-las”, me disse. Mas o prédio tinha sido loja muitos anos antes, e ele se inspirou a reabri-la.

Disse-nos que também vende ovos e alimentos para galinhas, entre outros produtos, e nos perguntou se tínhamos visto o galinheiro.

Saímos para ver. Não era bem um galinheiro, mas uma Frangolândia do Velho-Oeste. Os frangos do David moravam dentro de uma pequena cidade com escola, igreja, banco, cadeia e até um prédio de dois andares com a taverna no primeiro piso e o bordel no segundo. Quem quiser refazer os filmes de bang-bang com galos e galinhas como xerifes e cowboys, nem precisa construir um cenário, é só ir à Carolina Country Store em Georgetown, South Carolina.

Os frangos do David moravam dentro de uma pequena cidade com escola, igreja, banco e cadeia

OK, agora para Charleston? Claro que não. Dentro da loja, enquanto eu conversava com David, a Cris tinha conhecido o Marcus, um jovem de pele muito mais escura do que a maioria dos afro-americanos, o que nessa área indica que é provavelmente de descendência gullah, uma comunidade de descendentes de escravos que mantém algumas tradições africanas e um dialeto de inglês muito difícil para os outros americanos entenderem.  Reparei que Marcus estava explicando para Cris como armar uma armadilha para um alligator (o jacaré da região), uma conversa não muito comum em Nova York (nem em São Paulo).

O Marcus tinha muita prática em capturar alligators porque trabalhava em uma “plantation”, o termo que se usa no sul para uma fazenda que na época da escravidão vivia do trabalho de escravos africanos, de forma não tão diferente da época da casa grande e senzala no Brasil. Hoje em dia, muitas plantations viraram pousadas, museus, casas particulares, campos de golfe ou condomínios. O Marcus explicou que onde ele trabalhou, a Kinloch Plantation, funcionava como reserva natural e… casa de férias de Ted Turner, fundador da CNN e ex-marido da Jane Fonda. Ah, e nos convidou para conhecer as terras.

Senzalas, versão norte-americana

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O quê? Um convite para ver a propriedade particular de um bilionário, onde dois séculos atrás escravos cultivavam arroz? Obviamente, Charleston podia esperar mais um pouquinho.

(Nota: documentos na internet mostram que Ted Turner é mesmo o dono da Kinloch, mas a empresa de Turner não respondeu à mensagem que mandei para a assessoria de imprensa).

Máquinas do século 19 dentro do moinho de arroz da Kinloch Plantation, propriedade do Ted Turner

Seguimos Marcus, que dirigia uma picape enquanto bebia a cerveja comprada na loja de David, por uma estrada rural até chegar à entrada da Kinloch, que tinha o desenho clássico e formal de várias outras plantations: uma rua longa e estreita orlada por duas filas de árvores majestosas. A primeira parada foi em frente a duas cabanas de madeira antiguíssimas, mas em boas condições. “Senzalas”, nos disse. Muitas plantations da área ainda mantêm as senzalas (e, nas que se tornaram pousadas, às vezes, viram quartos para hóspedes).  Mas ver duas sem nenhuma placa de identificação, explorar os interiores com lareiras feitas de tijolos ingleses importados na época, foi mágico.

O Marcus nos explicou que com detectores de metais, os trabalhadores da Kinloch encontram botões, anéis e até armas da época de escravidão. Dentro das senzalas, lareira de tijolos enormes, que o Marcus explicou que foram fabricados na Inglaterra da época (na primeira metade do século 19).

Depois de parar por um momento para nos mostrar o corpo do javali que ele tinha matado no dia anterior e que tinha guardado em uma geladeira industrial (!), nos levou para conhecer o moinho de arroz que funcionava no século 19 para processar o arroz cultivado, depois transportado em barco (pelo rio do lado do moinho), para ser vendido. O prédio parecia congelado no tempo; ele mostrou o interior, com suas máquinas de rodas dentadas, engrenagens e correias cobertos de pó. Perguntei se historiadores tinha catalogado as máquinas e examinado o prédio, mas não soube me dizer.

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A vista do último andar do moinho de arroz

Perguntei para o Marcus se tinha algum problema em escrever sobre o dia – não queria que ele ficasse com problemas com os chefes – mas ele disse que não (e espero que esteja certo). Ao final, para agradecê-lo, ofereci o melhor tour de Nova York que ele podia esperar. Espero que algum dia apareça.

Barcos de pescadores de camarões em McClellanville

Já era tarde, quase às 17h. Hora de conhecer, por fim, as ruas charmosas de… McClellanville, a meia hora antes de Charleston. Vi uma placa ao lado da estrada chamando as pessoas a visitar o centro histórico de um lugar chamado McClellanville, um vilarejo de pescadores de camarões com uma população de 500 habitantes. Como resistir? Chegando ao centro da cidadezinha, vimos que tinha um evento em uma pequena galeria de arte. Era a festa de abertura de uma exibição com quadros feitos pelos alunos de ensino médio da cidade. Aproveitei para conversar com a professora de artes sobre a influência gullah.

Depois, pela recomendação do diretor do museu da cidade que conhecemos na rua, fomos ver os barcos de pescadores de camarões nas docas antigas de madeira, e por fim, comer camarões grelhados e fritos no T.W. Graham & Company, o pequeno restaurante perto da galeria de arte.

E, depois, Charleston, chegando no momento certo… para dormir.

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