Planeje a espontaneidade para aproveitar ainda mais a viagem
Pergunte para 100 viajantes qual é o segredo de uma viagem bem sucedida, e aposto que 99 dizem “planejamento”. (E o 100° não responde porque está de férias.) Em teoria, eu até concordo. Mas na prática, e cada dia mais, a evidência indica o contrário. O segredo é a espontaneidade – ou seja, a disponibilidade de abandonar todos os planos se algo melhor surgir.
Voltei domingo de seis dias na estrada, viajando pelo sul dos Estados Unidos pela rota US-17. O melhor dia, de longe, foi o que começamos em Sunset Beach, North Carolina, saindo cedo com a meta de chegar na hora de almoço em Charleston, South Carolina. Para quem acha que não tem nada entre Washington e Miami, Charleston fica lá no meio, uma dessas cidades históricas que representam o charme dos Estados do sul que se rebelaram contra a União na Guerra de Secessão do século 19.
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(Detalhe: “começamos” porque, pela primeira vez em quase um ano, não viajei sozinho. Estava acompanhado pela Cris Kang, uma carioca residente em Nova York que concordou em me acompanhar e sofrer pelo ritmo frenético e pela verba baixa que marcam minhas viagens – tadinha dela.)
A noite anterior, no quarto de um motel em Sunset Beach (outro detalhe: motel nos Estados Unidos é um hotel barato para motoristas), ficamos até tarde planejando o próximo dia nos nossos notebooks, ela deitada em uma das camas e eu na mesa. A lista de coisas para fazer em Charleston era enorme: prédios históricos, museus de arte, de cultura e até da escravidão, restaurantes de comida típica da região (sopa de caranguejo, couve-galega, torta de pêssego, camarões com “grits” – parecido com uma canjiquinha salgada, de origem africana. Muitas coisas para fazer num dia só.
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Mas desde cedo os planos sofreram um desvio, literalmente. Pegamos a estrada errada, onde, precisando de café, encontramos a “Seaside Bakery”, uma padaria grande com uma só pessoa dentro: a dona, Carolyn Wright, é especialista em bolos de casamentos, mas também faz doughnuts recheados de geleia de frutas e “muffin caps” – uns deliciosos muffins sem a parte de baixo. A Carolyn, que deve ter uns 50 e poucos anos, é uma dessas pessoas inspiradoras que deixou uma carreira de escritório para seguir o sonho de fazer bolos, e deu certo; por fim vai contratar uma ajudante – uma das noivas que era cliente.
Saímos com dois muffin caps e dois cafés, e fomos embora para… jogar golfe.
É, passando a divisa entre North e South Carolina, chegamos rápido à cidade litorânea de Myrtle Beach, famosa por suas praias medíocres e campos de golfe. Ou seja, cidade chata onde de jeito nenhum íamos parar. Só que Cris enxergou algo que achou esquisito na beira da estrada – o que parecia uma série de greens de golfe em miniatura, como os que o pai dela usa para praticar os putts (tacadas leves). E assim descobri outra grande diferença entre a infância no Brasil e a infância nos Estados Unidos: vocês quase não têm minigolfe, algo constante nas festas de aniversário e férias na praia para gringuinhos novos.
Óbvio que precisamos parar e jogar uns 18 buracos (que dura uma hora, mais ou menos). Os campos de minigolfe frequentemente têm temas bregas, e dentro de segundos, passamos por um exemplo mais brega do que o normal: o Molten Mountain (Montanha de Lava Fundida), um prédio construído para parecer um vulcão em erupção, com águas cor-de-rosa saindo do “pico” e caindo como cachoeiras pelas ladeiras. Tinha dois campos de 18 buracos – um dentro do vulcão, e um fora –, e uma trilha sonora típica, rock clássico dos anos 50 e 60.
Seguimos pela rota US-17, que virou rural depois de Myrtle Beach. Muito nada, até aparecer na beira direita da estrada um restaurante simples de “barbecue”, o churrasco tradicional da região, quase sempre de porco. O nome do restaurante, Hog Heaven (“Céu dos Porcos”), indicava que não era exceção. Oferecia almoço à vontade por apenas US$ 6,95 (R$ 13) e comemos à vontade mesmo – pulled pork (pernil desfiado), frango frito, feijão (meio doce, no estilo do sul), salada e, como sobremesa, pudim de banana com “Nilla Wafers”, uma marca de biscoito doce de baunilha que, pela minha experiência, é absolutamente essencial em qualquer pudim de banana.
Então, já era 14h, “bora” para Charleston! Só que poucos quilômetros para frente apareceu exatamente o tipo de loja que adoro no sul: uma “country store” – ou lojinha rural. É mais ou menos uma loja que vende de tudo que já desapareceu das cidades grandes, substituída pelos supermercados e lojas de conveniência.
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Nós estávamos totalmente satisfeitos – até enjoados – de comer tanto, e nem precisávamos de óleo de motor, alimentadores de pássaros, frios para sanduíches, ou nada do que vendiam lá dentro. Mas parei com a desculpa de Cris precisar provar o amendoim fervido, uma especialidade regional extremamente mole e nojenta, mas que insisti que ela provasse só porque era bem tradicional. (É muito chato viajar comigo).
Não era nenhuma loja normal. O dono, David Bilderback, branco e grisalho, conversava com uma senhora negra e idosa que brincava com um cachorro pequeno. Nas estantes tinha todos os produtos normais, mas também itens que deveriam pertencer a um museu: bonecas velhíssimas (da coleção da mãe do David), fotos históricas, uma tábua antiga dessas de lavar roupa, uma boia salva-vidas de um barco de Nova York e até uma geladeira antiga e enorme que cobria parte da parede de trás.
Acontece que David comprou o prédio – em ruínas – quando mudou de outro Estado para trabalhar em outra coisa. Nem pensou em ter uma loja. “Eu tinha muitas coisas, e parecia um bom lugar para depositá-las”, me disse. Mas o prédio tinha sido loja muitos anos antes, e ele se inspirou a reabri-la.
Disse-nos que também vende ovos e alimentos para galinhas, entre outros produtos, e nos perguntou se tínhamos visto o galinheiro.
Saímos para ver. Não era bem um galinheiro, mas uma Frangolândia do Velho-Oeste. Os frangos do David moravam dentro de uma pequena cidade com escola, igreja, banco, cadeia e até um prédio de dois andares com a taverna no primeiro piso e o bordel no segundo. Quem quiser refazer os filmes de bang-bang com galos e galinhas como xerifes e cowboys, nem precisa construir um cenário, é só ir à Carolina Country Store em Georgetown, South Carolina.
OK, agora para Charleston? Claro que não. Dentro da loja, enquanto eu conversava com David, a Cris tinha conhecido o Marcus, um jovem de pele muito mais escura do que a maioria dos afro-americanos, o que nessa área indica que é provavelmente de descendência gullah, uma comunidade de descendentes de escravos que mantém algumas tradições africanas e um dialeto de inglês muito difícil para os outros americanos entenderem. Reparei que Marcus estava explicando para Cris como armar uma armadilha para um alligator (o jacaré da região), uma conversa não muito comum em Nova York (nem em São Paulo).
O Marcus tinha muita prática em capturar alligators porque trabalhava em uma “plantation”, o termo que se usa no sul para uma fazenda que na época da escravidão vivia do trabalho de escravos africanos, de forma não tão diferente da época da casa grande e senzala no Brasil. Hoje em dia, muitas plantations viraram pousadas, museus, casas particulares, campos de golfe ou condomínios. O Marcus explicou que onde ele trabalhou, a Kinloch Plantation, funcionava como reserva natural e… casa de férias de Ted Turner, fundador da CNN e ex-marido da Jane Fonda. Ah, e nos convidou para conhecer as terras.
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O quê? Um convite para ver a propriedade particular de um bilionário, onde dois séculos atrás escravos cultivavam arroz? Obviamente, Charleston podia esperar mais um pouquinho.
(Nota: documentos na internet mostram que Ted Turner é mesmo o dono da Kinloch, mas a empresa de Turner não respondeu à mensagem que mandei para a assessoria de imprensa).
Seguimos Marcus, que dirigia uma picape enquanto bebia a cerveja comprada na loja de David, por uma estrada rural até chegar à entrada da Kinloch, que tinha o desenho clássico e formal de várias outras plantations: uma rua longa e estreita orlada por duas filas de árvores majestosas. A primeira parada foi em frente a duas cabanas de madeira antiguíssimas, mas em boas condições. “Senzalas”, nos disse. Muitas plantations da área ainda mantêm as senzalas (e, nas que se tornaram pousadas, às vezes, viram quartos para hóspedes). Mas ver duas sem nenhuma placa de identificação, explorar os interiores com lareiras feitas de tijolos ingleses importados na época, foi mágico.
O Marcus nos explicou que com detectores de metais, os trabalhadores da Kinloch encontram botões, anéis e até armas da época de escravidão. Dentro das senzalas, lareira de tijolos enormes, que o Marcus explicou que foram fabricados na Inglaterra da época (na primeira metade do século 19).
Depois de parar por um momento para nos mostrar o corpo do javali que ele tinha matado no dia anterior e que tinha guardado em uma geladeira industrial (!), nos levou para conhecer o moinho de arroz que funcionava no século 19 para processar o arroz cultivado, depois transportado em barco (pelo rio do lado do moinho), para ser vendido. O prédio parecia congelado no tempo; ele mostrou o interior, com suas máquinas de rodas dentadas, engrenagens e correias cobertos de pó. Perguntei se historiadores tinha catalogado as máquinas e examinado o prédio, mas não soube me dizer.
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Perguntei para o Marcus se tinha algum problema em escrever sobre o dia – não queria que ele ficasse com problemas com os chefes – mas ele disse que não (e espero que esteja certo). Ao final, para agradecê-lo, ofereci o melhor tour de Nova York que ele podia esperar. Espero que algum dia apareça.
Já era tarde, quase às 17h. Hora de conhecer, por fim, as ruas charmosas de… McClellanville, a meia hora antes de Charleston. Vi uma placa ao lado da estrada chamando as pessoas a visitar o centro histórico de um lugar chamado McClellanville, um vilarejo de pescadores de camarões com uma população de 500 habitantes. Como resistir? Chegando ao centro da cidadezinha, vimos que tinha um evento em uma pequena galeria de arte. Era a festa de abertura de uma exibição com quadros feitos pelos alunos de ensino médio da cidade. Aproveitei para conversar com a professora de artes sobre a influência gullah.
Depois, pela recomendação do diretor do museu da cidade que conhecemos na rua, fomos ver os barcos de pescadores de camarões nas docas antigas de madeira, e por fim, comer camarões grelhados e fritos no T.W. Graham & Company, o pequeno restaurante perto da galeria de arte.
E, depois, Charleston, chegando no momento certo… para dormir.
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10 comentários | Comentar
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10 Sergio Mantovani 03/05/2012 8:46
Sem nenhuma dúvida, o planejamento é ponto chave para o sucesso de qualquer viajem. Mas uma coisa também crucial é a forma com que voce se dirige ao cidadão do país visitado. Educação é imprescindível. Lembremos que estamos na condição de “visitante” de outro país. Se encontramos algum mau humor no meio do caminho, deixe-o onde está e não o alimente com a tradicional arrogância de alguns brasileiros endinheirados.
Cansei de ouvir de amigos que os argentinos são arrogantes. Depois de um breve questionário cocluimos em todos esses casos que a arrogância partiu do visitante. Já estive na Argentina mais de 40 vezes e sempre fui tratado educadamente.
O dinheiro mais bem gasto é o gasto em viajem. Viajens turisticas servem para descanso e principalmente “aumento de conhecimentos”. Não estraguemos com mau humor.
9 Priscila 03/05/2012 11:07
Como sempre,seus textos são maravilhosos de ler!!Parabéns!
8 Renato 03/05/2012 11:46
Pena que suas colunas não sejam diárias. Obrigado.
7 Márcio Costa 03/05/2012 12:08
Tá namorando a carioca, hein ô malandro?…
De qualquer maneira, adorei seu artigo. Eu o leio mais como ‘crônica’, em vez de lê-lo como uma ‘reportagem’. Invariavelmente, concordo que qualquer viagem só vale a pena quando, simplesmente, ‘deixamo-nos levar’ pelas circunstâncias. Eu já conheci cada ‘figura’ em viagens… que, acredito, permitem entender muito mais o ‘espírito’ de um lugar que certos lugares históricos, um tanto ‘mortos’…
Abraços grande Seth, e que sua coluna continue ótima!
Márcio
6 Neco 03/05/2012 13:27
Muito bom.
Como brasileiro com vontade de andar de carro costa a costa(Miami-LA), esta opção que já é praxe para uma amiga minha (ela faz NY-Orlando todos os anos) ficou mais atraente agora com estes detalhes e as surpresas que somente uma viagem descompromissada pode oferecer.
5 Ananelia Alves 03/05/2012 18:30
Viagem interessante! Roteiros para turistas nunca iriam a estes lugares…
4 Julio 03/05/2012 20:00
Seth,
como sempre um ótimo texto, espero um dia passar por algo parecido. Só faltou uma coisa… uma foto legal da Cris rsrs
Um abraço,
Julio
3 Rosane 03/05/2012 23:18
Oi Seth,
Fiquei encantada com o inusitado da sua viagem, com um pouquinho de inveja tambem, rsrsrsr.
Abs
2 Clodo 04/05/2012 15:18
Espero que tenham visitado Charleston e que você poste seus ótimos comentários aqui. Eu moro em Clemson e dirijo pra Charleston sempre que posso! É meu (e da maioria das pessoas que conheço por aqui) lugar favorito nos States!!!
1 @ujgabry 10/05/2012 23:03
Quando comecei a ler… sabia que vc não chegaria a Charleston.. kkkkkkkkk Fantástico texto… muito bom….