2012 março | Viagens com Seth Kugel - iG

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Arquivo de março, 2012

quinta-feira, 22 de março de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:57

Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia

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Forgotten-World-Highway-Nova-Zelândia

Uma ponte típica - com ovelhas atrás, algo ainda mais típico - da Estrada do Mundo Esquecido

O nome parece mentira, ou no mínimo uma atração da Disney: A Estrada do Mundo Esquecido. Mas assim se chama a Rota 43 da Nova Zelândia, 151 quilômetros de caminho extremamente sinuoso e bem verde, passando por povoados com nomes tipo Kohuratahi e Whagamomomona, e com muitas vezes mais ovelhas e vacas do que gente. E apesar do nome ser, para mim, irresistível, tem muito poucos turistas. É um mundo esquecido mesmo.

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A Nova Zelândia se divide em duas ilhas principais, a do Norte e a do Sul, e estava fazendo uma viagem pela Ilha do Norte em “campervan”, um furgão compacto dentro do qual – nem sei como – tem uma minicozinha com fogão e geladeira e uma cama inesperadamente confortável para duas pessoas. É uma forma de viajar muito comum naquele país, e muito econômica: eu paguei 64 dólares nova-zelandeses por dia, o equivalente de R$ 98.

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

Comecei na neblina das 8h em Tamarunui, onde peguei um mapa das atrações da estrada no i-SITE (o centro de informações turísticas). Fácil, pensei. Ia percorrer os 151 quilômetros em três ou quatro horas e chegar ao Parque Nacional Mount Egmont, que estava no fim das estrada, para fazer uma trilha de três horas, à tarde.

Mas com cinco minutos de estrada soube que não ia dar tempo para a trilha. Após cada curva, um cenário mais lindo, mais verde, mas pitoresco. E quem sabia que as ovelhas eram tão fotogênicas?  Ovelhas na neblina! Ovelhas no morro! Ovelhas do lado de lá de um rio!

Há décadas sou um fotógrafo chato – é só perguntar para meu irmão como era esperar enquanto eu escrevia os detalhes de cada foto que tirava quando tinha 12 anos.  Mas virei mais chato ainda com essas ovelhas, parando o campervan a cada três minutos. (Sorte que estava sozinho) Até comecei a experimentar como fazer as ovelhas olharem para a máquina. Testei várias formas de atrair sua atenção – apitos, tosses etc. Ao final, o que funcionou foi um beijo. Clarificando – o som de um beijo. E posavam mesmo.

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Os animais não eram as únicas razões para parar.  Tinham prédios tão velhos que pareciam abandonados, mas em condições suficientemente boas para me deixar em dúvida. No “Te Whakarae Community Hall”, um prédio cinzento, que pelo nome deve ter sido (ou ainda era) uma sala de reuniões para a comunidade, fiquei com tanta curiosidade que tentei entrar pela porta. Fechada. Droga.

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Depois de quase 40 quilômetros de estrada, uma decisão: fazer um desvio de dez quilômetros até Ohura, um povoado que, segundo o mapa, tinha um pequeno museu. Fica longe? Talvez seja muito chato. Mas se eu não for e o lugar for muito legal?  Ah, que saco, vamos lá. (É, eu falo assim comigo quando viajo sozinho)

Ohura é um povoado muito sossegado. Ou melhor, MUIIITTO. Na rua principal tinha lojas de dois tipos: fechadas e abandonadas. E era meio-dia de uma sexta-feira. O museu também estava fechado, e um papel na porta indicava para ligar para Charley ou procurar ajuda na loja da esquina. Claro que não tinha sinal no celular e a loja da esquina estava fechada (já há muitos anos, descobri depois). Mas era só perguntar para a primeira pessoa que aparecesse onde morava Charley.

- Noites quentes e dias agitados no inverno da Islândia

O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

Ir para a casa dele – a só um quarteirão do museu – me lembrava muito o sistema existente nas cidades do interior no Brasil.  A chave da igreja histórica sempre fica com uma senhora que mora perto. Chegando à casa, foi a esposa Janet que abriu a porta. Ela era maori, descendente do povo indígena da Nova Zelândia, agora uma minoria importante da população. (Bom, nem tão indígena, só chegaram no século 13, mas mais indígena do que os europeus que chegaram no século 17)

“Quer um café?”, ela me perguntou.

Então, resumindo: não ia ter trilha à tarde. Quem me conhece sabe que nunca vou recusar um convite para cafés.

“Café instantâneo”, disse Charley, aparecendo na cozinha para contradizer a esposa, algo que ele faria (e ela também) várias vezes nos próximos minutos, mas de forma legal. O Charley era um senhor de barba branca, tinha uns 75 anos e estava apaixonado por bicicletas. Tanto que, incluído no tour do museu (ou seja, inevitável antes de escapar da casa dele), estavaum tour na oficina onde ele fazia bicicletas para os netos.

Charley e Janet se mudaram para Ohura há poucos anos; antes moravam na cidade de Hamilton, onde ele era motorista de ônibus. Agora ele cuida do museu e Janet faz parte de vários comitês na cidade, inclusive o do Cosmopolitan Club, um clube social cujo nome parece absurdo numa cidadezinha no meio do nada, onde quase não mora ninguém.

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Por fim, fomos para o museu, e juro que é um dos museus mais interessantes que já vi na vida. Claro que ajudou ter um guia pessoal (o Charley) para me mostrar os objetos, quase todos doados por alguém (ou alguma empresa) da cidade: telefones velhos, máquinas velhas da agência de Correios que fechou há décadas, uma cabana de madeira, livros amarelados com dicas antiquadas para mães sobre como cuidar de bebês, e uma coleção fascinantes de máquinas agrícolas que parecem impossivelmente antigas. Um mundo esquecido mesmo.

Charley e Janet Hedges em Ohura

Charley e Janet Hedges em Ohura

De volta à estrada, não parava de ver coisas curiosas.  Enxerguei o que pareciam caixas de arquivos umas em cima das outras, no meio do pasto. Chegando mais perto, descobri que dentro havia colmeias onde abelhas produziam mel. E, alguns quilômetros depois, tive que parar por causa das centenas de ovelhas que bloqueavam a rua enquanto voltavam para casa (depois de um dia difícil comendo pasto em algum campo vizinho, imaginava. Graças aos cachorros que cuidavam delas (e os humanos que cuidavam dos cachorros), só tive que esperar uns cinco minutos para passar.

A próxima atração era o túmulo de John Morgan, um dos pioneiros da área que morreu em 1895 fazendo um levantamento topográfico, que resultaria na mesma estrada que eu estava percorrendo. Eu prefiro ser cremado, não enterrado, mas se esse fosse o caso, seria legal ficar para sempre em um lugar tão lindo como o de John Morgan, um cantinho tranquilo de floresta ao lado da estrada. (A esposa, que morreu décadas depois, está enterrada com ele)

Já era hora de almoçar, e encontrei o lugar perfeito: um mirante incrível na parte mais alta da estrada, com morros verdes infinitos se estendendo para todos os lados e, para variar, algumas ovelhas também. Na cozinha do campervan, preparei uma salada de espinafre, peras, abacate e brócolis, e comi com biscoitos salgados e queijo cheddar, lá ao sol. (Esqueci de dizer que a neblina tinha sumido horas atrás)

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

E, finalmente, a cidade mais famosa do “mundo esquecido”, Whangamomona. (Para complicar as coisas, o “wh” se pronuncia como “f” em palavras de origem maori) A cidade – agora composta só por alguns prédios históricos e cento e poucos habitantes – é meio famosa no país por ter declarado sua “independência” em 1989. A causa original era uma disputa política, mas agora virou o cartão de visitas da cidade. A cada dois anos, em janeiro, celebram o “Dia da República” e até elegem um presidente.  Dentro do Whangamomona Hotel (onde se pode ficar por 65 dólares nova-zelandeses ou R$ 100 por pessoa, por noite) é possível ler matérias bem engraçadas sobre a história da República. Por exemplo, o primeiro presidente foi nominado sem ele mesmo ser informado, e o segundo presidente foi um bode. Você já tem uma ideia.

Eu parei lá para tomar um café – um letreiro fora do hotel diz que oferece “o melhor café por milhas”, o que é uma piada, já que a única concorrência é o café instantâneo da Janet. Também é o único lugar onde encontrei outros turistas.

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Ao final, cheguei ao parque nacional lá pelas 18h e decidi fazer uma trilha curtinha para não perder totalmente o parque (era o último dia da viagem). Optei pela Kapuni Loop Track, uma trilha de uma hora que chegava à cachoeira Dawson Falls.

Que decepção.  OK, a trilha era linda, bem-cuidada e sossegada, passando por uma floresta densa com árvores velhas e pitorescas. Mas cadê as ovelhas? Cadê os povoados pequeninhos? Cadê a emoção de não saber o que ia aparecer depois da próxima curva? E a cachoeira? Linda, mas linda dessa forma igual-a-todas-as-outras-cachoeiras-lindas-do-mundo, inclusive muitas que já vi no Brasil. Ou seja, totalmente esquecível. Muito diferente da Estrada do Mundo Esquecido, que não vou esquecer nunca.

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Autor: Seth Kugel Tags:

quinta-feira, 15 de março de 2012 Brasil, Estados Unidos | 06:55

Para inglês entender

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- Veja a resposta da Embratur sobre os erros de tradução em seu site

Há 15 dias, o secretário geral da Fifa, Jerome Valcke, reclamou – de forma não muito diplomática – que o Brasil estava bem atrasado nos preparativos para a Copa do Mundo. Eu não sei falar se Brasil está realmente tão fora dos prazos para a construção dos estádios e da infraestrutura quanto diz o Sr. Valcke, ou se está no caminho certo, como diz o governo. Mas posso dizer, com certeza, que o Brasil – e mais especificamente a Embratur, agência oficial de promoção e marketing do turismo no País – está bem atrasada em outra coisa: o inglês.

Na semana passada, escrevi sobre o profissionalismo dos representantes da Embratur na feira de turismo New York Times Travel Show. Agora, vem a parte chata: a versão virtual, braziltour.com, é muito ruim. No site, que todo o mundo vê como primeira opção quando busca por “visit Brazil” ou “Brazil tourism” no Google, a informação está apresentada em um inglês tão pobre que em muitos casos nem dá para entender o que se quer dizer.  Incluindo a primeira página (home).

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

Versão em inglês do site de turismo do Brasil (braziltour.com) é de difícil compreensão para estrangeiros

A Embratur obviamente fez um esforço grande, porque o site é bonito e lotado de fatos, informações e vídeos. Posso até dizer que a versão em português é muito legal. Mas é fato que a versão em inglês é a que importa, porque serve não só os cidadãos dos aproximadamente 60 países do mundo onde o inglês é o idioma oficial ou predominante, mas também outros países como Japão, China e Rússia, que não contam com versões nos idiomas deles.

O site existe também em espanhol, francês, italiano e alemão, mas eu não sei avaliá-los. O que posso dizer é que o inglês é péssimo. Não péssimo tipo “Você visitar Brasil. Brasil ser muita bonita.” Isso é errado, mas pelo menos dá para entender.

Vamos para alguns exemplos. As primeiras mensagens que aparecem são:

“Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup” e depois “Click here and get to know our Cities Selection”.

Li as duas frases pelo menos 20 vezes sem consegui entender nenhuma das duas.  Será que o primeiro significa “As estrelas da seleção brasileira vão estar presente na Copa do Mundo”, pensava. Ou talvez “As estrelas do céu estão alinhadas para a Copa ser maravilhosa”?

A segunda parte também foi difícil. “Cities Selection” significa o quê? Deve ter algo a ver com as cidades que vão receber a Copa, mas o quê exatamente?  Fiquei perplexo.

Rio de Janeiro

O que você entende por: “Brazil has scheduled its stars to the 2014 World Cup”, “Click here and get to know our Cities Selection”?

Para resolver, fui para a versão em português.  Ah, “as estrelas” = “os craques”, e os craques, neste caso, são as cidades hospedeiras. Embratur, me permite?

“Brazil has recruited its biggest stars for the 2014 World Cup…”

“Its host cities! Click here to learn all about them.”

O problema é fácil diagnosticar. Já vi em muitos outros sites de empresas brasileiras, sem falar de cardápios em restaurantes e placas nos hotéis. Os que fazem as traduções de português para inglês são brasileiros.

Funciona assim. Para traduzir do inglês para o português, se deve usar brasileiros (ou portugueses, angolanos etc) bilíngues. Para traduzir do português para o inglês, precisa de tradutores bilíngues, que foram criados e educados em inglês. Não quem estudou inglês na faculdade e fez mestrado em Londres. Ou seja, precisa de ingleses, canadenses, norte-americanos, australianos, tanto faz. Podem existir algumas exceções extraordinárias à regra, tradutores brasileiros que conseguem verter profissionalmente para o inglês? Pode. Mas são poucos, caros e claramente não são contratados pela Embratur.

Eu tenho um amigo norte-americano tão fluente em alemão que grandes editoras o contratam para traduzir os best-sellers alemães para o inglês. Já ganhou prêmios por seu trabalho. Mas ele absolutamente se recusa a fazer traduções do inglês para o alemão. Porque sabe que vai ter erros.

(Ah, e claro, eu escrevo esta coluna no meu português imperfeito. Mas não publico nada antes de tê-la revisada e corrigida pela minha editora brasileira. Se quiser ver meu português na versão original, tem que me seguir pelo Twitter no @tuitesdo7.)

Voltando para o site…

O turista que clica sobre “Selection Cities” chega a outra tela. Aparece uma frase: “A cities’ schedule ready to start playing”.

“Humanity Cultural Heritages in Brazil”

“Humanity Cultural Heritages in Brazil” ou “World Heritage Site”

Tenho mais de três décadas de experiência em ler o inglês, mas ainda assim não consegui decifrar esse contrassenso. Procurei na versão em português: “Uma seleção de cidades pronta para entrar em campo”. Gente, speak serious. Nada a ver. Embratur, tome nota: “A great team of cities, ready to take the field”.

Daí dá para “conhecer” as cidades em fatos, fotos e vídeos. Cada qual com erros que variam de ruins a desastrosos. Um vídeo sobre Natal mostra o que parece ser de uma dança tradicional, com a legenda: “Plentiful cultural demonstration”. Sentido? Nenhum. Parecem palavras escolhidas aleatoriamente e colocadas juntas ao acaso.

Mas os erros mais graves ficam na página principal. Se o visitante potencial rola a tela para baixo, quase todas as outras opções têm erros também. (Uma exceção: “Golf” está traduzido corretamente como “Golf”) Mas tem uma que é imperdoável. A tradução de “Patrimônios Culturais da Humanidade no Brasil” é: “Humanity Cultural Heritages in Brazil”.

Desculpe a repetição, mas não faz sentido nenhum. Para quem não sabe, o status de “Patrimônio da Humanidade” é decidido pela UNESCO, agência da ONU. A Embratur sabe disso. Assim que encontrar a tradução correta é muito fácil. Basta ir à página do Wikipédia em português e dar um click em “English”, na coluna de “outras línguas”, do lado esquerdo. Aparecerá a mesma página do Wikipédia, em inglês. Resultado: “World Heritage Site”. Ou faça uma pesquisa por “UNESCO” no Google.com, em inglês. Saem imediatamente duas opções: “World Heritage” e “World Heritage List”.

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade?

Felizmente, alguns erros são mais engraçados do que deprimentes. É só ir na página de Trancoso. A descrição do lugar em português é a seguinte:

“Trancoso é um povoado localizado no sul do Estado da Bahia, é hoje um lugar ideal para fugir da agitação e estresse da cidade.”

E em inglês: “Trancoso is a town on the south region of Bahia. It is now the ideal site to runaway from the effervescence and stress of the city”.

A tradução possui pelo menos cinco erros. Mas é o quinto o mais hilário. Como “agitação” chegou a ser “effervescence”, não sei dizer. “Effervescence”, em inglês, significa “o ato de bolhas de gás escaparem de um líquido”.

Ou seja, Trancoso é um lugar ideal para fugir dos refrigerantes e outras bebidas gasosas da cidade. Notem bem, gringos: se vocês gostam da Coca Zero ou da água com gás, melhor escolher outro destino.

Obviamente, ninguém vai desistir de Trancoso por um erro de vocabulário. Mas desistir de um país porque não tem informação legível em seu site oficial? Com tantos outros países de olho nos bilhões de dólares do turista internacional? Isso não só é possível, é provável.

- Veja a resposta da Embratur sobre os erros de tradução em seu site

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Autor: Seth Kugel Tags: ,

quarta-feira, 7 de março de 2012 Brasil, Estados Unidos | 06:52

A imagem do Brasil no exterior

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Turismo-Brasil-Nova York - New York Times Travel Show

O estande brasileiro no New York Times Travel Show

Promover o Brasil no mundo – pelo menos no mundo do turismo – é uma tarefa complicada. Como você faria? Qual seria o seu slogan, qual seria sua caixa-postal, como seria seu “discurso de elevador” – ou seja, se conhecesse alguém num elevador e tivesse que persuadí-lo a escolher o Brasil como destino turístico nos 30 segundos antes de sair, o que diria?

- Faça o teste no iG Turismo: Você conhece o Brasil?

Isso foi mais ou menos o trabalho da Embratur – o Instituto Nacional de Turismo – no New York Times Travel Show, uma feira de turismo que aconteceu no fim de semana passado em Manhattan. O Brasil era um dos patrocinadores principais do evento, e teve um dos maiores estandes no Centro de Convenções Javits. Eu fui para participar num painel sobre tecnologia e viagens, e fiquei depois para observar os esforços dos oficiais brasileiros e conversar com os norte-americanos que visitavam o estande sobre suas impressões do Brasil como destino turístico.

Era impossível perder o estande – pendurado no teto, visível de longe, estava o logotipo da Embratur, um tipo de ameba colorida com as palavras “Brasil” e “Sensacional”. Embaixo, atrás dos balcões, fotos enormes do Rio de Janeiro e de Foz de Iguaçu, com as frases “Brasil está te chamando. Celebre a vida aqui”. O estande estava dividido em balcões por região: Rio de Janeiro, Pernambuco, Amazonas, São Paulo, Foz do Iguaçu, Bahia e Mato Grosso de Sul, com representantes locais. E teve um espaço da TAM também, onde eu ganhei uma calculadora solar que vou usar para calcular as calorias que consumo cada vez que pego um monte dessas balas que as aeromoças oferecem no começo de cada voo.

- No iG Turismo: 30 praias para curtir o verão

New York Travel Show-Nova York-Brasil-Turismo

Contraste: no estande brasileiro, representantes explicavam a diversidade do país e davam dicas; no estande da República Dominicana os representantes dançava merengue com os visitantes

A impressão era de uma operação profissional – sorridente, mas séria, com nada de festa como no estande da República Dominicana, onde uma banda tradicional tocava merengue e era difícil uma mulher passar por aí sem ser arrastada para a pista por um dos dançarinos profissionais. Nada de fantasia, como no estande de Malásia, com mulheres em vestidos tradicionais vendendo uma imagem exótica do país. No estande do Brasil, só profissionais conversando e promovendo os destinos individuais, nada de sunga e nada de fantasia de Carnaval. Gostei.

Segundo Carolina Neri, que representava Embratur no evento, foi de propósito. O objetivo principal de passar uma imagem diferente sobre o Brasil, agora, disse, é que, por muito, tempo o Brasil se promovia pelas imagens estereotipadas: praias, futebol, mulheres e samba. Então, a mensagem número 1 é: “Não somos só Carnaval, não somos só futebol de quatro em quatro anos. O Brasil é uma diversidade de pessoas e culturas.”

- Leia também: Explicando o Brasil aos turistas gringos

Ao mesmo tempo, tem que combater a ignorância de muitas pessoas que simplesmente não sabem nada sobre o país. “Tem muita gente que ainda acha que a América Latina é um país só”, me disse. “Tem pessoas querendo visitar que não sabe que aqui, quando é inverno, lá é verão. Ou que, para nós, o norte é mais quente do que o sul, e não vice-versa.”

O Michael Angeles, um fã do país que visitou uma vez e que eu entrevistei depois dele conversar com os representantes baianos, concordou. “Ainda existe certo nível de ignorância sobre o Brasil”, me disse. “Quando digo para as pessoas que fui pro Brasil, eles dizem ‘ah, você fala espanhol?’ e acham que as pessoas comem tacos.

New York Travel Show-Nova York-Brasil-Turismo

Tomassina Cicchini (esq., com a amiga Joyce Mulligan) não gosta do Brasil porque uma mulher brasileira conquistou o homem que ela gostava

Um exemplo era Tomassina Cicchini, que visitou o estande com a amiga Joyce Mulligan. Ela tem uma imagem distorcida do país, causada principalmente por… ciúmes. A culpa: o encanto das mulheres brasileiras. Bom, de uma mulher só. Quando ela pensa no País, só consegue pensar na menina brasileira que conquistou o homem que ela gostava e o levou para o Brasil. “Não amo o Brasil,” me disse, “porque ele seguiu a mulher e mudou para lá. E no fim teve uma desilusão amorosa. Vou falar a verdade: eu conheci a mulher, e não entendi a atração que ele sentiu.”

Ela disse, porém, que gostaria de visitar o país. Mas como ela não fala português, “acho que ficaria no lado onde falam espanhol,” disse. (Eu não fiz nenhum comentário.)

A Joyce fez um comentário interessante. A teoria dela era que as pessoas não sabiam muito do Brasil porque era um país pacífico. Enquanto não tem guerra, não sai muito nas notícias. A ideia não é tão absurda quanto parece: juro que quando era criança, só sabia de Argentina pela Guerra das Malvinas, entre britânicos e argentinos. E eu sabia muito mais sobre Nicarágua e El Salvador pelas guerras civís dos anos 80 do que sobre um país vizinho, tipo Belize. Ideia para promover o turismo no Brasil: invadir o Uruguai. (Tomar Punta del Este também ajudaria a causa…)

- Seth Erros: Como ser brasileiro, mas não demais, no exterior

Mas antes de criticar os norte-americanos, vamos lembrar que o mundo é grande e o brasileiro também não o conhece muito bem. A Nigéria, por exemplo, é o maior país da África, com 170 milhões de habitantes, quase igual ao Brasil. Qual é a capital? Quais são os idiomas principais? Ah, e quem é o presidente da China, onde reside um de cada cinco seres humanos do planeta?

É óbvio que reclamar sobre a ignorância não ajuda a atrair turistas: tem que educar.

New York Times Travel Show-Nova York-Turismo

Um turista em potencial aprende sobre Foz doe Iguaçu no New York Times Travel Show

E acho que nisso os representantes brasileiros fizeram um bom trabalho. Era bem interessante ouvir as regiões concorrendo umas com outras. “Amazonas tem natureza, mas é outra paisagem, uma floresta”, disse Alessandra Fernandes, que representava Mato Grosso do Sul e promovia o Pantanal. “Você não consegue visualizar muitos animais. O Pantanal é mais aberto.” A um metro de distância,  Nickolas Cabral dos Anjos, diretor executivo da Amazonastur, tentou convencer os visitantes que Amazonas era o destino ideal.

A Luciana Fernandes, que representava Pernambuco, me disse que explica para os visitantes que a relação custo-benefício de uma viagem para Recife é melhor do que a do Rio. “O Rio é lindo como destino, mas está muito caro”, disse.

Não faltavam visitantes com visões sofisticadas do país. Adorei os Creamer, um casal idoso com um espírito aventureiro que representa o melhor do turista norte-americano e europeu.

Para Janet Creamer, a Europa já perdeu o encanto. “Já fomos muitas vezes”, ela me disse. “É velho. Não só fisicamente, mas culturalmente. Quero visitar os lugares que estão crescendo agora. Fomos recentemente para a China. Dava para perceber: o país estava sendo construido na nossa frente. No Brasil, a cultura está bombando. A economia está bombando.”

- Mais: Como passei a ganhar a vida viajando

New York Travel Show-Nova York-turismo-Brasil

Jack e Blue Thomas recebem informações sobre o Pantanal com uma representante de Mato Grosso do Sul

Porém, não sabia muito do país. Só conseguiu dar o exemplo do Rio (“uma cidade moderna, muito pitoresca, muita atividade, muita criatividade”) e expressar uma vaga noção sobre sua visita ideal para a floresta. “Quero ver natureza, animais e, claro, viajar por um rio e conhecer as tribos indígenas.” (Nem é tão fácil, senhora) Mas para turistas que sabem o que querem, a apresentação da Embratur foi perfeita.

Blue Thomas, de 34 anos, visitou o estande do Brasil com o marido Jack Thomas. Ela tinha trabalhado como voluntário na favela da Rocinha alguns anos atrás, e ele já tinha visitado o Rio. Conseguiram me explicar uma versão de um Brasil diferente (?)OK que foi a melhor que ouvi. “Você pode visitar várias vezes e ter experiências muito diferentes. Pode ver a cultura afro-brasileira”, disse ela.

“Ou experimentar um resort em alguma ilha”, disse Jack.

“Ou ir à floresta”, disse Blue.

“Ou morar numa favela”, disse Jack.

Mas ainda assim, não faltava esse Brasil de fantasia. O sonho da Blue? “Dormir numa rede, nas árvores, ao lado dos bichos preguiça.”

Talvez não muito realista, mas poderia ter sido pior. Imagine se o marido tivesse pedido para falar comigo a sós procurando boas cantadas em espanhol para usar com as mulatas de topless e descalças, que dançam samba com macacos durante os jogos de futebol que acontecem nas favelas durante o Carnaval. A imagem do país vai melhorando.

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