Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia | Viagens com Seth Kugel - iG

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quinta-feira, 22 de março de 2012 Destinos Internacionais, Oceania | 06:57

Surpresas inesquecíveis pela Estrada do Mundo Esquecido, na Nova Zelândia

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Forgotten-World-Highway-Nova-Zelândia

Uma ponte típica - com ovelhas atrás, algo ainda mais típico - da Estrada do Mundo Esquecido

O nome parece mentira, ou no mínimo uma atração da Disney: A Estrada do Mundo Esquecido. Mas assim se chama a Rota 43 da Nova Zelândia, 151 quilômetros de caminho extremamente sinuoso e bem verde, passando por povoados com nomes tipo Kohuratahi e Whagamomomona, e com muitas vezes mais ovelhas e vacas do que gente. E apesar do nome ser, para mim, irresistível, tem muito poucos turistas. É um mundo esquecido mesmo.

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A Nova Zelândia se divide em duas ilhas principais, a do Norte e a do Sul, e estava fazendo uma viagem pela Ilha do Norte em “campervan”, um furgão compacto dentro do qual – nem sei como – tem uma minicozinha com fogão e geladeira e uma cama inesperadamente confortável para duas pessoas. É uma forma de viajar muito comum naquele país, e muito econômica: eu paguei 64 dólares nova-zelandeses por dia, o equivalente de R$ 98.

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito

Comecei na neblina das 8h em Tamarunui, onde peguei um mapa das atrações da estrada no i-SITE (o centro de informações turísticas). Fácil, pensei. Ia percorrer os 151 quilômetros em três ou quatro horas e chegar ao Parque Nacional Mount Egmont, que estava no fim das estrada, para fazer uma trilha de três horas, à tarde.

Mas com cinco minutos de estrada soube que não ia dar tempo para a trilha. Após cada curva, um cenário mais lindo, mais verde, mas pitoresco. E quem sabia que as ovelhas eram tão fotogênicas?  Ovelhas na neblina! Ovelhas no morro! Ovelhas do lado de lá de um rio!

Há décadas sou um fotógrafo chato – é só perguntar para meu irmão como era esperar enquanto eu escrevia os detalhes de cada foto que tirava quando tinha 12 anos.  Mas virei mais chato ainda com essas ovelhas, parando o campervan a cada três minutos. (Sorte que estava sozinho) Até comecei a experimentar como fazer as ovelhas olharem para a máquina. Testei várias formas de atrair sua atenção – apitos, tosses etc. Ao final, o que funcionou foi um beijo. Clarificando – o som de um beijo. E posavam mesmo.

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Os animais não eram as únicas razões para parar.  Tinham prédios tão velhos que pareciam abandonados, mas em condições suficientemente boas para me deixar em dúvida. No “Te Whakarae Community Hall”, um prédio cinzento, que pelo nome deve ter sido (ou ainda era) uma sala de reuniões para a comunidade, fiquei com tanta curiosidade que tentei entrar pela porta. Fechada. Droga.

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Prédio do centro comunitário - difícil saber se estava abandonado

Depois de quase 40 quilômetros de estrada, uma decisão: fazer um desvio de dez quilômetros até Ohura, um povoado que, segundo o mapa, tinha um pequeno museu. Fica longe? Talvez seja muito chato. Mas se eu não for e o lugar for muito legal?  Ah, que saco, vamos lá. (É, eu falo assim comigo quando viajo sozinho)

Ohura é um povoado muito sossegado. Ou melhor, MUIIITTO. Na rua principal tinha lojas de dois tipos: fechadas e abandonadas. E era meio-dia de uma sexta-feira. O museu também estava fechado, e um papel na porta indicava para ligar para Charley ou procurar ajuda na loja da esquina. Claro que não tinha sinal no celular e a loja da esquina estava fechada (já há muitos anos, descobri depois). Mas era só perguntar para a primeira pessoa que aparecesse onde morava Charley.

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O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

O museu em Ohura, numa antiga loja de ferramentas

Ir para a casa dele – a só um quarteirão do museu – me lembrava muito o sistema existente nas cidades do interior no Brasil.  A chave da igreja histórica sempre fica com uma senhora que mora perto. Chegando à casa, foi a esposa Janet que abriu a porta. Ela era maori, descendente do povo indígena da Nova Zelândia, agora uma minoria importante da população. (Bom, nem tão indígena, só chegaram no século 13, mas mais indígena do que os europeus que chegaram no século 17)

“Quer um café?”, ela me perguntou.

Então, resumindo: não ia ter trilha à tarde. Quem me conhece sabe que nunca vou recusar um convite para cafés.

“Café instantâneo”, disse Charley, aparecendo na cozinha para contradizer a esposa, algo que ele faria (e ela também) várias vezes nos próximos minutos, mas de forma legal. O Charley era um senhor de barba branca, tinha uns 75 anos e estava apaixonado por bicicletas. Tanto que, incluído no tour do museu (ou seja, inevitável antes de escapar da casa dele), estavaum tour na oficina onde ele fazia bicicletas para os netos.

Charley e Janet se mudaram para Ohura há poucos anos; antes moravam na cidade de Hamilton, onde ele era motorista de ônibus. Agora ele cuida do museu e Janet faz parte de vários comitês na cidade, inclusive o do Cosmopolitan Club, um clube social cujo nome parece absurdo numa cidadezinha no meio do nada, onde quase não mora ninguém.

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Na rua principal de Ohura, nenhuma das lojas funciona

Por fim, fomos para o museu, e juro que é um dos museus mais interessantes que já vi na vida. Claro que ajudou ter um guia pessoal (o Charley) para me mostrar os objetos, quase todos doados por alguém (ou alguma empresa) da cidade: telefones velhos, máquinas velhas da agência de Correios que fechou há décadas, uma cabana de madeira, livros amarelados com dicas antiquadas para mães sobre como cuidar de bebês, e uma coleção fascinantes de máquinas agrícolas que parecem impossivelmente antigas. Um mundo esquecido mesmo.

Charley e Janet Hedges em Ohura

Charley e Janet Hedges em Ohura

De volta à estrada, não parava de ver coisas curiosas.  Enxerguei o que pareciam caixas de arquivos umas em cima das outras, no meio do pasto. Chegando mais perto, descobri que dentro havia colmeias onde abelhas produziam mel. E, alguns quilômetros depois, tive que parar por causa das centenas de ovelhas que bloqueavam a rua enquanto voltavam para casa (depois de um dia difícil comendo pasto em algum campo vizinho, imaginava. Graças aos cachorros que cuidavam delas (e os humanos que cuidavam dos cachorros), só tive que esperar uns cinco minutos para passar.

A próxima atração era o túmulo de John Morgan, um dos pioneiros da área que morreu em 1895 fazendo um levantamento topográfico, que resultaria na mesma estrada que eu estava percorrendo. Eu prefiro ser cremado, não enterrado, mas se esse fosse o caso, seria legal ficar para sempre em um lugar tão lindo como o de John Morgan, um cantinho tranquilo de floresta ao lado da estrada. (A esposa, que morreu décadas depois, está enterrada com ele)

Já era hora de almoçar, e encontrei o lugar perfeito: um mirante incrível na parte mais alta da estrada, com morros verdes infinitos se estendendo para todos os lados e, para variar, algumas ovelhas também. Na cozinha do campervan, preparei uma salada de espinafre, peras, abacate e brócolis, e comi com biscoitos salgados e queijo cheddar, lá ao sol. (Esqueci de dizer que a neblina tinha sumido horas atrás)

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

Um mirante incrível na parte mais alta da estrada

E, finalmente, a cidade mais famosa do “mundo esquecido”, Whangamomona. (Para complicar as coisas, o “wh” se pronuncia como “f” em palavras de origem maori) A cidade – agora composta só por alguns prédios históricos e cento e poucos habitantes – é meio famosa no país por ter declarado sua “independência” em 1989. A causa original era uma disputa política, mas agora virou o cartão de visitas da cidade. A cada dois anos, em janeiro, celebram o “Dia da República” e até elegem um presidente.  Dentro do Whangamomona Hotel (onde se pode ficar por 65 dólares nova-zelandeses ou R$ 100 por pessoa, por noite) é possível ler matérias bem engraçadas sobre a história da República. Por exemplo, o primeiro presidente foi nominado sem ele mesmo ser informado, e o segundo presidente foi um bode. Você já tem uma ideia.

Eu parei lá para tomar um café – um letreiro fora do hotel diz que oferece “o melhor café por milhas”, o que é uma piada, já que a única concorrência é o café instantâneo da Janet. Também é o único lugar onde encontrei outros turistas.

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Colméias de abelhas (parecem caixas para arquivos, mas são colméias, qualquer dúvida é só abrir)

Ao final, cheguei ao parque nacional lá pelas 18h e decidi fazer uma trilha curtinha para não perder totalmente o parque (era o último dia da viagem). Optei pela Kapuni Loop Track, uma trilha de uma hora que chegava à cachoeira Dawson Falls.

Que decepção.  OK, a trilha era linda, bem-cuidada e sossegada, passando por uma floresta densa com árvores velhas e pitorescas. Mas cadê as ovelhas? Cadê os povoados pequeninhos? Cadê a emoção de não saber o que ia aparecer depois da próxima curva? E a cachoeira? Linda, mas linda dessa forma igual-a-todas-as-outras-cachoeiras-lindas-do-mundo, inclusive muitas que já vi no Brasil. Ou seja, totalmente esquecível. Muito diferente da Estrada do Mundo Esquecido, que não vou esquecer nunca.

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Autor: Seth Kugel Tags:

3 comentários | Comentar

  1. 3 Bóia Paulista 26/03/2012 11:42

    Oi, Seth. Tudo bem?

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia

    Responder
  2. 2 Sonia 29/03/2012 13:38

    Adorei! Muito bem escrito, parabéns!

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  3. 1 Fabrício 05/04/2012 10:46

    Realmente o país é fantástico.
    Apenas faço uma retificação no comentário “São tantas ovelhas que elas até atrapalham o trânsito”. Ora, o fato das ovelhas estarem lá, quem está em trânsito são as ovelhas. O autor fala como se o trânsito fosse composto só de automóveis. Trânsito é o deslocamento simultâneto de pessoas e mercadorias de qualquer modo. Portanto, as ovelhas não estão atrapalhando o trânsito, elas são o trânsito.
    Mania de todo o brasileiro achar que só automóvel é trânsito. Isso é moda inventado por um posto de gasolina.

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