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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012 Sem categoria | 11:20

Deu gringo no carnaval

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Este fim de semana, enquanto vocês curtiram o carnaval, eu trabalhei, conduzindo um experimento social… na folia. Levei dois gringos que nunca antes tinham visto nem um bloco, nem um trio elétrico, para participar do carnaval. Não o do Rio de Janeiro, nem o de Salvador, experiências já conhecidas por milhões de turistas, mas o da cidade histórica de São Luiz do Paraitinga, no interior paulista. Uma celebração bem tradicional, bem conhecida entre os paulistas, mas que atrai poucos visitantes de outros Estados, sem falar de outros países.

Pessoas de todas as idades se divertem pelas ruas do centro histórico de São Luiz do Paraitinga

As vítimas – quer dizer os sujeitos – eram meus amigos Adam, um colega profissional que conhece mais de 50 países e não fica surpreso com nenhum fenômeno cultural, e Jon, um amigo do colégio que trabalha como professor de escola pública e sai raramente dos Estados Unidos.

Para quem não conhece, São Luiz do Paraitinga é a cidade de 10 mil habitantes que, dois anos atrás, virou notícia nacional quando uma enchente destruiu grande parte do centro histórico (sem falar de muitas casas fora do centro) e causou o desmoronamento da igreja matriz, enquanto muitos residentes observavam horrorizados de um dos morros verdes que rodeiam a cidade. Eu visitei a cidade em 2009, cobri a enchente em 2010 e morria de vontade de testemunhar a volta do carnaval para o centro histórico.

Músicas que não sejam marchinhas de São Luiz do Paraitinga são literalmente proibidas

Apesar de muitos prédios ainda estarem em ruínas, a cidade está quase tão bonita quanto a lembrança que eu tinha da minha primeira visita. Só que com muitas dezenas de milhares de foliões lotando as ruas com fantasias e seguindo o trio elétrico que anda cada bloco da praça principal, atravessa o rio que causou todos os problemas e chega na Praça de Eventos, onde tem um palco e barracas de cerveja, batidas e lanches sem fim. Detalhe: em São Luiz não tocam samba, nem axé, nem Rebolation, nem Ai Se Eu Te Pego – músicas que não sejam marchinhas luizenses são literalmente proibidas.

Tentei, antes de eles chegarem, adivinhar o que mais os impressionaria. A energia provavelmente, as mulheres com certeza e, quem sabe, as fantasias, as batidas de maracujá e a música. Mas depois da primeira noite como foliões, eles me surpreenderam.

Crianças se divertem entre os adultos no bloco do Barbosa

“É fascinante”, disse o Jon. “A grande maioria das pessoas tem entre 15 e 30 anos e estão muito bêbados, há pouca presença policial nas ruas, mas não vimos nenhuma briga.” Quando ele sai em Boston, onde mora, quando há bebidas e jovens, sempre têm brigas. Adam também ficou mais do que surpreso: a falta de violência acabou com uma convicção firme. “Sempre associei o álcool com a testosterona – quanto mais bebe, mais o desejo de ser masculino e brigar. Mas isto refuta minha teoria.”

Um incidente impressionou o Adam: um cara carregou uma menina de salto alto nos braços e a girou rapidamente na praça central. No ato, os saltos bateram diretamente nas costas de outra mulher. Mas ela só sorriu e deu o polegar para eles. “Em Boston”, disse Jon, “essa menina teria tirado os brincos, dado eles para uma amiga e começado a bater na mulher.”

Mas talvez o fenômeno mais curioso para meus amigos foi a agressividade dos homens solteiros (e, suponho, os não-solteiros que encontraram um jeito de chegar sozinhos no carnaval) ao dar em cima das mulheres.  Não só a agressividade: também a habilidade, a facilidade e a persistência – de soltar cantadas constantes e não aceitar a rejeição. E mais incrível ainda: às vezes funcionava com um beijo público.

Viramos "notícia" em um bloco fantasiado de repórteres

De um lado, ficaram impressionados – a grande maioria dos nossos compatriotas, nos Estados Unidos, desistiria depois da primeira tentativa, ou nem tentaria com mulheres que não conheciam. Mas do outro, ficaram com nojo da agressividade física dos que pegavam no cabelo das mulheres e até praticamente forçavam elas a beijar – algo que seria considerado assédio sexual no nosso país.

Como é que a mulher brasileira tolera isso, perguntaram. Ou será que algumas gostam? Durante o carnaval perguntaram para algumas mulheres e 100% disseram que não gostavam. Mas visto a quantidade de beijos que aconteceram, muitas pelo menos aceitam a prática. (Outra coisa que impressionou: nos Estados Unidos seria mais comum encontrar um cantinho para escapar e beijar, não mostrar as línguas para todos no meio da rua. Piada favorita de Adam, um cara bem sarcástico: ver mais um casal beijando e dizer “Que surpresa! Estão ficando na rua!”)

Boneco gigante desfilava pelas ruas

Se não sabiam exatamente o que pensar do “romance” de rua, ficaram fascinados pela energia dos blocos e a capacidade dos brasileiros de aprender a música e a dança de cada bloco em três minutos. E se mover pelas ruas com uma felicidade extraordinária e um ritmo perfeito. Acho que o bloco que mais nos impressionou foi o do Barbosa, que tinha um coro viciante que simplesmente não me sai da cabeça:

Ô, ô, Barbosa
Essa curva é perigosa
Siga em frente nessa linha
Que eu vou contar pra Tia Rosa.
(Repete-se mil vezes)

Até o Jon, que fala só “obrigado” e “desculpe”, estava cantando, com palavras totalmente inventadas que nem pareciam português.

Os grupos que iam espontaneamente dançando pelas ruas eram até mais impressionantes para nós do que os blocos oficiais. Adoramos a “buzina paralisadora”, na qual um grupo dança loucamente pela rua até um deles tocar uma buzina e todo o mundo se congela no lugar (claro, em pose dramática). Dois toques e começam de novo a dançar e cantar: “Buzina pa-ra-li-sa-dora, buzina pa-ra-li-sa-dora”.

(Isso não é invento de São Luis. Vem do programa Chapolin – aparentemente de 1972. Mas converter algo de um programa originalmente para crianças mexicanas num sucesso de carnaval, é muito brasileiro mesmo. Até o Chaves e o Chapolin ficariam surpresos)

Mas carnaval não é só para observar. Eu queria que meus amigos gringos participassem também. Por isso eu tinha mandado uma lista das fantasias associadas aos blocos para Jon, que fez um trabalho heroico para trazer algumas para o Brasil. Nosso melhor momento foi domingo à tarde, no bloco Bebêbum. Nos preparamos no quarto da pousada, botando primeiro uma fralda tamanho adulto em cima da cueca e depois um babador azul, uma chupeta enorme e um gorrinho para bebês, desse tipo que você amarra por baixo do queixo.

Meus amigos Adam e Jon encontraram outros "bebês" pelas ruas

Eu sou meio atrevido e poucas vezes sinto vergonha. Mas saindo em público de fraldinha, babador e mais nada dava frio na barriga. (Detalhe: barriga peluda e exposta) Jon, que é o mais extrovertido, entrou na rua procurando imediatamente sua mãe, em espanhol. “Mami! Mami!” gritou, chegando nas mulheres. Eu corrigi e, sem parar um instante, foi procurando em português com sotaque gringo: “Mamãe! Mamãe!”.

Desculpe a falta de modéstia, mas se tinha melhor fantasia de bebê entre os foliões, não vimos. Arrasamos entre muitos grupos demográficos. Grupos de mulheres pediram fotos com a gente. Alguns homens já bêbedos pediram a fraldinha emprestada para urinar. (Brincando, espero) Um senhor idoso nos parou – com uma expressão totalmente séria no rosto – e começou a nos criticar para estar na rua sem as nossas mães. Mas as mais encantadas foram as crianças entre um e três anos que ficaram hipnotizadas olhando fixo para nós, como se tivéssemos chegado de outro planeta.

Eu e meus amigos vestidos de Saci

Eu e meus amigos vestidos de Saci

Por alguma razão, Jon fez mais sucesso entre os homens gays ou fingindo ser – eu acho que porque a fraldinha dele era mais apertada, quase como uma sunga. Vários homens pegaram na bunda dele, davam cantadas… até um menino de uns 10 anos deu um tapada na bunda. Um morador de rua pegou nele e começou a… acho melhor não falar.

Aí começou o bloco: “Mamãe, eu quero beber, me dá, me dá, a mamadeira, a mamadeira”. Andávamos cantando e dançando, porque, depois de várias horas de andar como bebês em público, parecia a coisa mais normal do mundo.

Por fim chegou a hora de tirar as fraldinhas e voltar a vestir roupa normal. Bom, menos anormal, vamos dizer. Era hora de vestir a próxima fantasia: a do Saci. O Saci não é conhecido nos Estados Unidos, mas o Jon, usando apenas a foto do site Wikipédia, comprou bermudas vermelhas, cachimbos e três jogos americanos vermelhos que conseguiu transformar em os gorrinhos em forma de cone. (Só não pintamos os rostos de preto, já que isso nos Estados Unidos tem um significado racista que não conseguimos superar)

Mais uma vez formamos um bloco, as mulheres pedindo fotos e nós cantando “Ô, ô, ô, o saci chegou… ô, ô, ô, o saci chegou…” tantas vezes que na manhã seguinte ainda estávamos cantando no quarto.

Uma observação final do Adam que achei curiosa – e certinha. No Halloween, nos Estados Unidos, – nosso grande dia de nos fantasiar— muitas mulheres usam fantasias sexualmente provocativas. Por exemplo, de enfermeira-quase-stripper, de aluna em uniforme de escola, de freiras com saia bem curtinha etc. No carnaval, ele observou, isso não é comum – as fantasias são simplesmente divertidas. Sua análise: a sociedade brasileira tem uma atitude muito mais saudável em relação ao sexo. “Não existe esta sexualidade reprimida que temos nos Estados Unidos, que só podemos soltar um dia por ano.”

O primeiro leitão à pururuca de Jon e Adam, no Tempero da Terra

Mas a observação principal foi em relação à boa vontade, atitude positiva e energia do brasileiro. E não só dos foliões. Várias vezes notaram até os seguranças dançando ao lado do trio elétrico, enquanto cumpriam sua tarefa. Os vendedores de drinques sempre sorriam e faziam piadas, igual os donos dos restaurantes e bares (incluindo o Tempero da Terra, onde Jon e Adam provaram seu primeiro leitão à pururuca) e o sempre alegre Henrique, dono da nossa pousada. E as ganhadoras do prêmio Nobel de atitude positiva: as mulheres vítimas de quem sabe quantos milhares de cantadas horríveis e beijos tentados.

“Deve-se distribuir um panfleto no aeroporto para os turistas norte-americanos”, disse o Jon, “nos advertindo da gentileza excessiva do povo brasileiro, que estamos prestes a experimentar”.

Confira a cobertura completa do carnaval 2012.

Autor: Seth Kugel Tags:

21 comentários | Comentar

  1. 21 janio pereira 22/02/2012 12:34

    que maravilha isso que é carnaval saudável, que saudade deste tipo de folia, fiquei aqui em são paulo mofando dentro de casa com minha família , nem imaginava que tinha festas ainda hoje em dia assim, pois teria ido com toda alegria com minha famíli, parabens á todos que ainda tem respeito pelo carnaval de rua assim , muitooo bom, próximo ano se deus me der vida e saude irei com minha família…parabens pra são luiz , depois de tanta tragédia , e a ainda encontrar muitaaaaaaaa alegria…amei á matéria…

    Responder
  2. 20 Francisco 22/02/2012 12:42

    Ótima resenha Seth. Para nós brasileiros é sempre muito importante ver como estrangeiros nos vêem. As vezes um olhar de fora diz muito, e é sempre bom pra nossa estima.Obrigado. Sucesso e Abraços

    Responder
  3. 19 Aline Pierrobom Cordeiro 22/02/2012 12:42

    Devo dizer que SLP me permite ter uma viosão muito próxima de um gringo durante o Carnaval, já que graças a Deus, foge do estigma carnavalesco comercial, Amor este lugar, infelizmente não estive esse ano, mas ano q vem estarei lá e espero que hajam muito mais gringos tendo contato com uma cultura rica e uma arquitetura maravilhosa.

    Parabéns pela atitude de divulgar aqui!

    Responder
  4. 18 Tiago 22/02/2012 13:13

    Esse é o melhor carnaval de todos…
    Remete aos velhos tempos, o original!

    acompanho sua coluna e quando vi que voce tinha ido fiquei contente!
    pois todos os meus amigos estavam lá tambem, e eu infelizmente nao pude ir…

    fica a dica: #carnavalsaoluizparaitinga2013

    Responder
  5. 17 Amanda 22/02/2012 13:23

    Adorei a matéria, escrita excelente e com uma ótima pitada de senso de humor. (:

    Responder
  6. 16 Lana Ribeiro 22/02/2012 13:45

    Ah, Seth , este seu texto está um “barato ” ! Adorei você de bebê e de saci.
    Que bom que vocês descobriram um Carnaval diferente .

    Responder
  7. 15 José Figueredo Filho 22/02/2012 13:48

    Oi Seth, gostei da reportagem, sua narrativa leva a gente até o fim da matéria, muito legal. Desculpando a falta de educação, a “gentileza excessiva do povo brasileiro” talvez seja uma etapa seguinte na evolução do nosso comportamento, até nos tornarmos frios e insensíveis, capazes de estranhar uma coisa singela chamada “carinho”.

    Responder
  8. 14 Helen 22/02/2012 14:15

    Seu texto ficou leve, como deveria ser o Carnaval, não só em São Luiz do Paraitinga, mas em todo o Brasil. Quanto ao “não se importar” da brasileira, creio que, durante o Carnaval, as pessoas ficam mais toleráveis, e acabam deixando o estresse rotineiro de lado, para viver a vida como ela deveria ser vivida, sem muito nervosismo, nem muita soberba.
    Mais uma vez, gostei do texto! Você, muitas vezes, me parece mais brasileiro do que muitos de nós que nascemos aqui. Abraços, Helen.

    Responder
  9. 13 Rose Assis 22/02/2012 14:21

    Achei muito legal a ideia desses meninos principalmente a fantasia deles vestidos de bebês parabens pela criatividade.

    Responder
  10. 12 WILLIAM MOREIRA 22/02/2012 14:26

    Muito boa a matéria, ótimo ter a visão de gringos sobre o nosso verdadeiro carnaval. Seth faça uma matéria sobre gringos em São Paulo, sobre a feira livre, sobre pastel e nosso transporte público.

    Responder
    • Seth Kugel 23/02/2012 0:57

      OK, vou tentar! Obrigado pela sugestão! Abs

  11. 11 Mari Campos 22/02/2012 14:31

    Genial, Seth! Verdadeira ode ao Carnaval da encantadora Paraitinga!

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  12. 10 José Carlos 22/02/2012 14:32

    Muito bom! Adorei o post! Ri muito de você e seus amigos!

    Responder
  13. 9 KINHO 22/02/2012 14:47

    Os Brasileiros são vistos no exterior como uma raça preguiçosa, mau nutrida, mau educada e, desonesta e até estão com a razão, mas temos uma alegria dentro de nós que nenhum país do mundo tem, e eles que se mordam de inveja de nós. E VIVA O CARNAVAL BRASILEIRO NAS SUAS MAIS CRIATIVAS E DIVERSIFICADAS FORMAS DE SER.

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  14. 8 Kelly 22/02/2012 15:31

    Muito boa matéria, me deu até vontade de no próximo carnaval conhecer essa cidade “renascida das cinzas”….parabéns!

    Responder
  15. 7 Elena 22/02/2012 16:11

    Mas conta pra gente Seth seus amigos conheceram alguma brasileira e ficaram com elas? Experimentaram o que é ficar na rua? Conta pra eles que “amor de Carnaval não dura até o Natal”, mas eu não acredito muito nisto.

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    • Seth Kugel 23/02/2012 0:56

      Ah, Elena, essas coisas não posso falar…as minhas amizades são importantes demais para arriscar!!!!!

  16. 6 jacintho 22/02/2012 16:16

    Não estou conseguindo enviar e-mail

    Responder
  17. 5 Lilian 22/02/2012 20:44

    Amei ver minhas filhas no carnaval de São Luis!
    Abração Seth!

    Responder
  18. 4 Wagner 22/02/2012 21:03

    Olha minha família aí …!!!
    As quatro mulheres da minha vida.
    Obrigado Seth.
    Ps: oooô São Luis voltou oooô!

    Responder
  19. 3 Márcio 22/02/2012 21:18

    Excelente matéria, Seth! A ideia de trazer dois conterrâneos seus, e narrar suas impressões sobre o carnaval em uma cidade interiorana do Brasil foi muito boa, e certamente proporcionou a eles uma experiência única e genuinamente brasileira, que nenhum pacote de viagem, por mais caro que seja, proporcionaria. Para nós, brasileiros, traz uma visão de fora, o que nos ajuda muito a nos compreendermos melhor, seja nos pontos positivos, seja nos negativos, e tenho que dizer que você foi muito feliz e verdadeiro nas suas impressões sobre o nosso povo, sem recorrer a chavões e preconceitos. Parabéns!

    Responder
  20. 2 dri vcfazobr 22/02/2012 22:38

    Olá Seth, não é que as brasileiras aceitam a agressividade masculina, é que não temos saída , um “não” pode gerar violência maior , ou aceita ou fica em casa. Embora não pareça, aqui, isso também é considerado assédio,mas diante de tanta criminalidade e impunidade, isso ficou apenas no papel,sendo usado apenas em casos gravissimos como quebrar um braço, matar alguém. Porém acho que esse tipo de agressividade masculina é que mais gera brigas em festa no Brasil.
    E não é exclusivo dos homens maranhenses, esse tipo de prática acontece em todo o Brasil.

    Responder
  21. 1 Nadia Rodrigues 23/02/2012 18:14

    Que texto ótimo!!! Adorei saber sobre a aventura de seus amigos gringos por aqui.
    Que bom que eles (e você, claro) se divertiram!

    Responder
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