11 razões para ir ao Texas
As prioridades de muitos turistas brasileiros que visitam os Estados Unidos são:
1) Conhecer a Disney.
2) Conhecer Nova York.
3) Voltar pra Disney e Nova York.
Eu não nego o atrativo de tirar uma foto com o Mickey e comer os cupcakes famosos da Magnolia Bakery, em Nova York, mas nenhum dos dois lugares faz parte dos EUV: os Estados Unidos de Verdade. A Disney, claro, é uma terra de fantasia e não pretende ser outra coisa. Mas Nova York também é: lotada de estrangeiros, e até os americanos que moram lá são bem diferentes. Em 2004, por exemplo, 82% dos residentes de Manhattan votaram a favor de John Kerry contra 17% a favor de George W. Bush nas eleições presidenciais. Como falei, terra de fantasia.
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Vou sugerir um destino do qual todos já ouviram falar, mas poucos pensaram em visitar. Um estado de paisagens lindas, cidades interessantes, cozinha única e um caráter tão forte que por dez anos (1836-1846) foi um país independente. Ah, e tem voos diretos do Brasil. Assim, que chega dessa desculpa.
O Estado do Texas. Terra dos cowboys, das picapes e de uma das cidades mais interessantes do país, a capital, Austin. (E duas das mais chatas, Dallas e Houston, mas aí chegam a maioria dos voos internacionais).
Nem eu pensava que o Texas valia a pena até janeiro, quando fiz uma viagem de 10 dias pelo Estado… bom, na verdade, por 2.700 quilômetros, uma pequena parte do Estado. (É enorme, maior do que o Japão e a Grã-Bretanha juntos)
Sei: ir para o Texas é uma ideia meio radical, e vocês talvez estejam pensando em desistir deste artigo e clicar em outro mais interessante no iG, tal como “Uma em cada dez pessoas já fez sexo no trabalho, diz pesquisa”. Mas aguente aí, leia os onze destaques da minha viagem e pense no meu caso. (E se está lendo a coluna no trabalho, nem reclame: nove em dez de vocês não têm nada mais interessante para fazer). Vamos a elas:
1) As vistas panorâmicas que te fazem sentir ator em um filme de cowboy. Eu passei sete dos meus dez dias andando de carro, e nem sei quantas vezes parei ao lado da estrada (quase sempre vazia) para tirar fotos de algum pôr-do-sol atrás de um moinho de vento ou de um senhor mexicano visitando o túmulo (coberto de flores plásticas) da esposa falecida, com montanhas no fundo. Nunca vi um lugar tão vazio e tão cheio ao mesmo tempo.
2) As cidadezinhas do interior. Nos 2.700 quilômetros que percorri, só tinha planejado cinco destinos: as cidades de Austin, Waco e San Angelo, a cidadezinha de Marfa que tem um museu famoso, e o Parque Nacional de Big Bend. Mas os lugares que gostei mais foram os vilarejos que visitei sem planejar. Um deles foi West, que parecia uma dessas cidades do Velho Oeste mesmo, só que com um detalhe diferente: tinha vários restaurantes tchecos, resultado da imigração tcheca do século 19.
Outro foi a pequenina Valera, que apareceu no caminho entre Waco e San Angelo justo no momento em que fiquei com fome, e onde comi um chicken fried steak (um filé de carne empanado e frito como se fosse frango) num restaurante acolhedor, simples e beeeem texano (dos sotaques até o cardápio), que se chama The Grazin’ Patch. O vilarejo é tão pequeno que na página de Facebook do restaurante eles indicam a localização dizendo apenas: “fica a leste do sinal”. E como isso, você chega facilmente. (A mesma frase descreveria pelo menos mil restaurantes em Nova York)
Destaque da minha visita: as crianças da família local na mesa do lado se desafiando a comer uma pimenta jalapeño inteira. (Uma menina ofereceu US$ 5 a um menino para que ele comesse a pimenta inteira, mas ao final ele não o fez)
Também visitei Presidio, uma cidadezinha na fronteira com o México, com mexicanos que moram nos Estados Unidos, na sua maioria, e restaurantes que servem a verdadeira comida tex-mex (essa cozinha de burritos e enchiladas servida em muitos restaurantes “mexicanos” do Brasil).
3) As torres de água. Quase todas as cidadezinhas do interior são marcadas por torres de água que anunciam o nome da cidade. Isso é bem interior mesmo, parece filme. (Aliás, já percebeu que no Texas quase tudo parece filme?).
4-) Os “trailers” de comida da capital, Austin. Como eles surgiram, eu não sei. Mas muito da melhor comida de Austin (a capital texana onde comecei e terminei minha viagem – e o lugar onde George W. Bush foi governador antesde ser eleito presidente) é servido em reboques suficientemente grandes para uma cozinha inteira caber lá dentro. A variedade de comidas nos trailers é imensa – sanduíches de porco desfiado, arroz asiático com champignons, linguiça marroquina, doughnuts de pêssego e muito mais.
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5-)Música ao vivo na capital. Você pode pensar que é por ser sede principal da enorme University of Texas que Austin tem tantas opções de música ao vivo todas as noites, ao longo de todas as semanas do ano, mas não é somente por isso. Esta cidade ama a música em todas as suas formas. Country e rock (e rock-country), claro. Mas também tem blues, jazz, pop, música latina. É só dar uma olhada no jornal semanal Austin Chronicle, no site The Austinist e no mapa sempre atualizado BillsMap – a variedade é impressionante. Em Nova York, você também pode assistir a um concertode jazz – junto com muitos turistas. Em Austin, o público é local. (Também recebe todos os anos o South By Southwest, um dos festivais de música – e cinema – mais famosos dos Estados Unidos)
6-) O Parque Nacional Big Bend. OK, está longe pra caramba das grandes cidades, mas facilmente faz parte de uma viagem de carro. (Fica perto de Marfa, por exemplo.) O parque tem 3.242 quilômetros quadrados de puros cenários de filme de cowboy no Deserto Chihuahua: tem montanhas, cânions, rios, cactos, trilhas. E solidão: é um dos parques nacionais menos visitados dos Estados Unidos apesar de ser um dos mais bonitos. Também tem ursos pardos e leões-da-montanha, o que podem agregar um pouco de emoção ao seu passeio. (Placas explicam o que fazer se encontrar um dos animais, que muito poucas vezes atacam os humanos)
7-) A tradição do barbecue. Em muitos Estados menos sofisticados em assuntos de carne, a palavra “barbecue” pode significar simplesmente um churrasco típico em casa, com hambúrgueres e carne assada. Mas o barbecue de verdade é a arte de cozer carne bovina e suína muito lentamente usando não só o calor, mas também a fumaça da madeira. Os lugares mais tradicionais, como o Louie Mueller Barbecue, na cidade de Taylor, sempre tem filas com apaixonados pelo seu brisket (peito bovino), gloriosamente gorduroso, e costelas de porco suculentas.
Você pode discutir por horas com um texano sobre qual é o melhor barbecue do Estado, mas a melhor opção é gastar esse tempo comendo. Para mim todos são ótimos, até os lugares desconhecidos. Adorei o Packsaddle Bar-B-Q em San Angelo, por exemplo, onde um prato de costela com iscas de peixe-gato frito vale só US$ 7,85 e as paredes são cobertas de carrinhos e fotos dos pilotos da NASCAR, que os texanos adoram tanto quanto os brasileiros adoram a Fórmula 1.
8-)Os kolaches e o cobbler. Meu vício é doces, e foi durante esta viagem que descobri o kolache, um pão doce de origem tcheca com recheio de frutas ou carne, mas o pão é mais mole do que um “Danish”. O cobbler, um doce de frutas cobertas de massa doce levada ao forno, é a sobremesa oficial dos lugares de barbecue, servido quente com sorvete de baunilha feito em casa. Engordei vários quilos durante minha viagem ao Texas e foi tudo culpa do cobbler.
9-) As surpresas de San Angelo. Não fica entre as maiores cidades do Estado, e é meio desconhecida fora, mas encontrei várias coisas inesperadas por lá: um museu de arte que parece que pertence a uma cidade mais “sofisticada” (que preconceito antitexano, nem acredito que escrevi isso). O ótimo Fort Concho, base militar do século 19, época das guerras entre norte-americanos e tribos indígenas, que foi convertida em museu e é bem interessante. E dentro de um dos prédios tem mais uma surpresa: um pequeno museu dedicado à história do telefone. Ah, e outra surpresa, umapousada no centro da cidade com tema de blues – cada um dos três quartos é dedicado a um cantor diferente; as diárias começam em US$ 109.
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10-) A fronteira. O Rio Grande, que fica na fronteira entre o México e os Estados Unidos, é lindo. Mas o que é interessante aqui não é a beleza: é a política. Os Estados Unidos gastam sei lá quantos bilhões de dólares protegendo a fronteira contra os imigrantes latino-americanos ilegais que chegam do México (e que, em sua jornada em direção aos EUA, passam pelo México). É impressionante ver a quantidade de veículos da Border Patrol (a agência que patrulha a fronteira) em todos os lugares, até nas áreas mais isoladas. E é igualmente impressionante olhar o deserto vasto, montanhoso e ameaçador e imaginar os imigrantes tentando atravessar.
11-) O charme dos texanos. Os brasileiros em geral são muito mais charmosos do que os norte-americanos, admito.
Mas os texanos fazem um pouco de concorrência: todos os que eu conheci foram muito simpáticos e abertos a conversar. Comparando de novo com as suas outras opções de viagem: os nova-iorquinos geralmente falam com você só se você pedir ajuda. E o Mickey? Ele nem fala.
Então, “bora” pro Texas? Não? Bom, se vocês não ficaram com vontade de ir, pelo menos convenci alguém – eu mesmo. Tem mais milhares de quilômetros de estradas texanas para percorrer e vou voltar tão logo for possível.
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