Harvard: um passeio pela universidade mais famosa do mundo
Sei. Você ia fazer faculdade em Harvard, e só não fez porque teria ficado com saudades do seu cachorro, ou tem alergia à neve, ou talvez achou o preço (mais de US$ 50.000 por ano) um pouco alto.
Não faz mal. Você ainda pode experimentar a vida em Harvard passando um ou dois dias em Cambridge, a cidade que abriga a universidade mais famosa do mundo. Afinal, apesar de ser muito difícil e custoso estudar em Harvard, é muito fácil e barato visitar a universidade.
Como muitas outras faculdades norte-americanas (e igual à University of Wisconsin, tema da coluna na semana que vem), o campus da Harvard está surpreendentemente aberto ao público. É, no mesmo país onde precisa tirar os sapatos e passar por máquinas que parecem da NASA para entrar em um avião, você pode andar pela famosa Harvard Yard, entrar em muitos dos prédios, assistir a várias palestras e até comer nos refeitórios ao lado dos alunos sem nem mostrar um documento.
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Para começar, um tour do campus. Harvard, como muitas outras faculdades norte-americanas, dá tours de graça guiados pelos próprios alunos. Esse tour oficial pode ser um pouco seco e formal, assim que surgiu uma alternativa: a empresa Trademark Tours faz uma versão mais divertida, mais irreverente e mais verdadeira. Óbvio que vai fazer este, né? Bom, na verdade, isso vai depender de duas coisas: primeiro, todos os tours são em inglês, e se você não fala o idioma fluentemente, não vai entender muitas das piadas e até se perder um pouco. Segundo, apesar de ser “grátis,” ao final o guia pede uma “gorjeta” de $10 para a empresa. (Você não precisa pagar, e uma boa ideia é fingir que você recebeu um telefonema importante e fugir ao final do tour para evitar constrangimentos.)
Eu testei o segundo tour durante uma visita a Cambridge (onde moram meus pais) na semana passada. Minha guia era a Lushuang, uma aluna de 18 anos nascida na China mas criada em San Francisco. Era muito simpática, bem sorridente, e 100% nerd. Ou seja, um aluno típico. Contou episódios importantes e curiosos da universidade e mostrou as janelas dos quartos de ex-alunos famosos. Entre eles: John F. Kennedy e Natalie Portman. A Lushuang também compartilhou um desejo – que daqui a 100 anos, algum guia fale “E aí, nesse dormitório, dormiu a Lushuang.”
“Só que ainda não sei o que vou fazer de extraordinário,” disse.
Ela também demonstrou o “grito primordial” que todos os calouros fazem à noite antes dos seus primeiros exames finais. Só que a versão dela não foi exatamente igual: os calouros fazem à noite e no meio do inverno – completamente pelados.
O campus está lotado de prédios lindos da época em que a arquitetura georgiana estava na moda. O coração dele é a Harvard Yard, conhecida por duas coisas: por ser onde moram os calouros, e por fazer parte da frase mais usada para imitar o sotaque dos bostonianos, que omitem muitos “r”: “Pahk the Cah in Hahvahd Yahd.” A frase é um pouco absurda, porque Harvard Yard é gramado e não é permitido estacionar nenhum carro, mas tudo bem.
O tour não entra em prédio nenhum, mas você pode explorar depois: quase todos os prédios (menos os dormitórios) ficam abertos durante o dia. Você pode andar por bibliotecas, sedes de departamentos, prédios de salas de aula. (Você pode até espiar as aulas do corredor, ou se a aula é de muitos alunos, entrar.) Se em algum momento alguém pedir uma identificação, é só se desculpar e dizer que você está visitando o campus e não sabia que não dava para entrar. (“Oh, I’m sorry, we’re visiting from Brazil, we didn’t know this wasn’t open to the public.”) Quem sabe, o cara pode gostar de futebol, ou já ter passado férias na Bahia, e deixar você entrar.
Onde comer? Com os alunos, óbvio. Não é fácil comer com os alunos de graduação, porque as refeições são incluídas nos $50.000 assim que seus refeitórios não têm caixa para você pagar. A melhor alternativa é almoçar no famoso (e luxuoso) Spangler Center Food Court da Harvard Business School, que você pode localizar neste mapa. O salad bar (44 centavos de dólar por porção) é muito bom e os sanduíches, excelentes, mas durante minha visita, pedi o “macaroni and cheese” (macarrão com queijo) com lagosta e verduras. Foi o prato mais caro do lugar – $11.50 – mas com pedaços enormes de lagosta em cima? Muito barato mesmo.
Uma visita a Harvard é muito mais do que fazer o tour, explorar o campus e comer no restaurante. Você pode assistir a alguns dos infinitos eventos – concertos, filmes, palestras, eventos esportivos – abertos ao público. Muitos aparecem neste site; outros você fica sabendo só andando pelo campus e vendo os posters. Muitos são de graça, outros (como os filmes bem-escolhidos do Harvard Film Archive) são pagos.

Na palestra sobre emulsões, chefs catalães preparam um molho romesco, e o público observa por um microscópio
Durante minha visita, fui a dois eventos. O primeiro foi uma palestra sobre como medir a mortalidade infantil em países em desenvolvimento. Apesar do professor ser muito técnico, eu gostei – e não só pelo vinho e queijo e frutas de graça – mas porque eu sou meio-nerd também. Mas o segundo qualquer pessoa adoraria. Faz parte de uma série chamada “Science and Cooking” (“Ciência e Cozinha”). Organizada pela Faculdade de Engenharia, a série combina uma mini-aula de ciências dada por um professor da Harvard, com uma demonstração de cozinha feita por um chef famoso.
Na parte a que eu assisti, falaram de emulsões e espumas. O professor explicou a ciência por trás da formação dessas substâncias, e depois dois chefs catalães demonstraram, na prática, como é fazer isso na cozinha. A parte mais incrível é quando o professor bota as emulsões que os chefs fazem sob um microscópio e projeta no telão para comparar com os diagramas que ele tinha mostrado na aula.
Mentira. A parte mais incrível foi quando o público conseguiu experimentar o resultado, que neste caso foi um molho romesco feito pelo chef catalão Carles Gaig.
Apesar de todas as atividades da universidade, Harvard não é só Harvard. Também é Harvard Square, a área comercial que praticamente faz parte no campus. E não é só pizzarias e bares para os alunos: a presença dos professores e administradores (muitos dos quais moram perto também) eleva a qualidade até um nível apropriado para os sofisticados leitores deste blog. Cafés e restaurantes, lojas de presentes, livrarias e cinemas comprovam que você está em um dos grandes centros intelectuais do país. (Não há nenhum Walmart nem McDonalds, e não é por coincidência.)
Entre minhas sugestões: o Crema Café, que tem bons espressos, sopas e sanduíches, e pode provar o “hot apple cider,” cidra de maça quente, tradicional na região durante o outono. O Pinocchio’s Pizza é bom se quer comer no lugar favorito do Matt Damon quando ele estudou em Harvard, mas o Oggi Gourmet é melhor em qualidade da pizza (e às segundas-feiras entre as 18h e as 20h uma pizza marguerita é só $6.) Para presentes bem legais, a Black Ink tem posters de Tintin, borrachas em forma de Lego, muitos sabonetes e mil coisas mais. (Alguns exemplos dos produtos se encontram no blog deles.)
Se quiser provar a cozinha típica de Boston e Nova Inglaterra em um restaurante que usa ingredientes dos fazendeiros e pescadores locais – é só entrar no Charles Hotel. É lá que você encontra o Henrietta’s Table, que tem sopas como corn chowder (uma sopa espessa de milho), peixes como o monkfish (tamboril) incrustado em farinha de milho, ou um Yankee pot roast (carne estufada) com batatas que vem da receita da avó do chef, Peter Davis. A melhor parte: não é caro. Eu convidei meus pais para almoçar lá e gastei menos de $60 em total. (Não fale para eles.)
Sua última parada da Harvard Square: o metrô. Não porque você precisa ir embora, mas porque como a parada se chama “Harvard,” é o lugar perfeito de tirar fotos embaixo do letreiro, tentando parecer tão inteligente quanto possível. (Sugestão: Posar como este cara.) Tirou? Parabéns, a foto é seu diploma: já se formou como Turista da Harvard.
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