2011 setembro | Viagens com Seth Kugel - iG

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Arquivo de setembro, 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011 Brasil | 07:59

Descobrindo Brasília

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Não existem cidades chatas, só viajantes tacanhos. Por isso, não acreditei quando contei para os amigos que ia para Brasília, para criar um roteiro legal para algum veículo gringo, e a grande maioria quis saber por que diabos um norte-americano visitaria uma cidade tão sem graça.

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Planalto pode ser visitado aos domingos

OK, alunos, vamos rever a lição número 1 das viagens: não existem cidades sem graça. Há cidades sujas, cidades sem monumentos históricos, cidades perigosas, cidades feias. (E, note bem, Brasília não é nenhuma dessas.) Existem cidades antipedestres, cidades quentes, secas e confusas demais. (Brasília é todas essas.) Mas qualquer cidade também tem uma cultura única para descobrir, lugares para conhecer, bairros para explorar, sítios culturais para visitar. E até se existisse no mundo uma cidade sem absolutamente nada para fazer – “bora”! –, seria uma ótima pauta: “O que fazer na cidade sem nada para fazer”.

E Brasília tem muito para descobrir, conhecer, explorar e visitar. Pode parecer um lugar chato quando está lotada de políticos e lobistas durante a semana. Mas no final de semana todos eles vão embora e deixam para trás duas coisas legais: os próprios brasilienses, e muitas vagas para estacionar.

Ainda não acreditam? Vou fazer uma lista.

1) Brasília tem história

Em 1960, quando foi inaugurada, Brasília era uma cidade totalmente do futuro. Mas já se passaram 51 anos, e tem história em todas as partes. Como no bar Beirute, estabelecido em 1966 e ponto de encontros políticos por décadas, inclusive durante o movimento das Diretas Já. Lá conheci uma mesa de jovens profissionais, todos recém-concursados pelo governo federal que haviam acabado de chegar à cidade.

Em outra mesa, conheci um grupo de coroas que me contaram que há décadas se reúnem na mesma mesa do bar. Indiquei a mesa de jovens para eles e comentei que era muito interessante estar em um lugar onde dois grupos tão diferentes podiam se reunir. Um deles me corrigiu e disse: “Nós não somos diferentes. Na verdade, somos muito parecidos. Só que eles são o que nós éramos há 30 anos, quando chegamos a Brasília. E daqui a 30 anos eles provavelmente serão como nós, agora, sentados na mesma mesa onde eles estão nesse momento”.

2) Brasília tem samba

Fui testar dois sambas no mesmo sábado à tarde. O primeiro foi o famoso Calaf, o samba no endereço menos sensual na história dos sambas: Setor Bancário Sul, Quadra 2, Loja 51/57. Escondido lá no meio dos bancos abandonados no final de semana está o Calaf, que só dá para encontrar seguindo o som da música. Tem samba ao vivo, cerveja gelada e um ambiente muito legal. (Pelo menos, tão legal quanto se pode esperar num setor bancário.) Outro lugar que visitei é o samba do momento, Cadê Tereza, (no endereço também supersexy de CLS 201 Bloco B Loja 1). A fila era enorme, o que é chato para todos os clientes; as mulheres não pagam, o que é chato para a metade deles, mas o lugar está bombando, o que não é chato para ninguém.


Os belos vitrais azuis do Santuário Dom Bosco

3) Brasília tem a igreja mais azul na história das igrejas

Eu visito tantas igrejas nas minhas viagens que já virou uma rotina. Notre Dame de Paris, St. Paul’s em Nova York, tanto faz: entro. Dou uma volta. Tiro uma foto. Vou embora. O Santuário Dom Bosco em Brasília quebrou a rotina. Fiquei paralisado com os infinitos vitrais azuis. Tirei centenas de fotos, tentando captar a incrível luz azul que entra. Fui embora bem depois.

 

 
4) Brasília tem pôr-do-sol

 

Brasília tem pôr-do-sol laranja, escarlate, cor-de-rosa, cor de lavanda, cor de fogo ou todas juntas

Não gosta da luz azul? Que tal laranja, escarlate, cor-de-rosa, cor de lavanda, cor de fogo, todas juntas? Normalmente, eu sou um cético quanto aos pores-do-sol, principalmente se estou viajando sozinho (ou pior, com algum amigo homem). Mas em Brasília, a vista da Ermida Dom Bosco impressiona até um viajante solitário. Ok, não estava precisamente sozinho – essa noite, enquanto eu admirava a vista, havia inclusive uma noiva de vestido de casamento posando para fotos. O pôr-do-sol era tão romântico que eu quase teria me casado lá mesmo com ela, se ela quisesse.

 

 
5) Brasília tem motoristas educados

 

Se você já dirige em outras grandes cidades brasileiras, alugar um carro e dirigir em Brasília é uma experiência inesquecível. Não tanto para você, mas mais para os pedestres que você poderia matar. Juro, os pedestres brasilienses pisam na rua sem nenhum sinal vermelho e todos os carros param de vez. Bom, quase todos: eu não. Pelo menos nas primeiras vezes, porque nem sabia o que acontecia. Por sorte, não atropelei ninguém.

6) Brasília tem lésbicas em motocicleta

OK, todas as grandes cidades têm, provavelmente. Mas em Brasília elas são mais legais – pelo menos o casal que eu conheci no bar Libanus. Sexta à noite o bar estava lotado e eu estava tirando fotos. Pedi licença para fotografar o casal (que eu achava que fossem irmãs), e elas me chamaram para sentar na mesa delas. Falamos da situação GLS em Brasília (elas acham uma cidade bem tolerante), da tolerância das famílias delas em Goiás, e de muitos outros temas que não tinham nada a ver com G nem L nem S.

Depois, me convidaram para uma festa de aniversário de uma amiga no bar Miau Que Mia. De todas as frases que pensei que ia escrever sobre Brasília, nunca imaginei a seguinte: “Entrei no carro para seguir um casal de namoradas goianas em motocicleta para um aniversário no Miau Que Mia”.

7) Brasília tem SUP no Lago Paranoá

A Ponte Juscelino Kubitschek (chamada também de “terceira ponte” porque os brasilienses aparentemente têm dificuldades com nomes de verdade e preferem os números e as siglas) é linda. Mais linda ainda é a vista de lá de baixo em cima de uma prancha de surfe fazendo o SUP. Nunca fez SUP? Nem sabe o que é? Tá, duas coisas para fazer. Assistir a este vídeo, e visitar o Clube do Vento durante sua visita a Brasília. (Só 20 reais!)


8) Brasília tem o escritório da Dilma

Sei, você já sabia. Mas sabia que dá para visitar? Só aos domingos entre 9h30 e 14h30 (de graça). Dá para ver todo o gabinete presidencial, inclusive a sala de reuniões onde se encontram os ministros, a sala de audiência que recebe chefes de Estado e embaixadores, e até o próprio escritório da presidente. Nesta última não pode entrar, só ficar na porta e tirar fotos. Queria muito entrar e deixar uma nota para Dilma sobre a mesa dela, ao lado do computador chique de onde ela dirige o País, ou, quem sabe, enrola no Facebook. Mas eu escreveria o quê? “Oi, Dilma. Tudo bem? Gostei do seu escritório. Boa sorte com isso de ser presidente. Um abraço, Seth”  Acho melhor não ter entrado mesmo.

9) Brasília tem restaurantes

Muitos, e bons. Há, por exemplo, o contemporâneo Zuu a.Z.d.Z, nome ótimo que fica melhor ainda ao lado do seu endereço brasiliense: Zuu a.Z.d.Z, SCLS 210, Bl. C Lj. 38

Infelizmente, o restaurante estava fechado no dia que eu quis almoçar lá. Então, fui ao Quitenete, um dos outros restaurantes da mesma chef, Mara Alcamim. Comi um risoto ótimo e passei muito tempo olhando e fotografando todos os doces e sobremesas.

Também não dá para perder o clássico Mangai, self-service nordestino-chique que fica quase na beira do Lago Paranoá e oferece mais de 80 pratos variados e 40 sobremesas.  OK, dá para perder, mas só se você mora em João Pessoa ou Natal, onde também existem sucursais.

10) Brasília tem outras atrações

Por exemplo, alguns monumentos de um cara chamado Niemeyer. Também vale a pena visitar, se é que dá tempo.

Autor: Seth Kugel Tags:

Brasil | 07:30

Seth erros em Brasília

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Seth erros em Brasília

Leia também: Descobrindo Brasília

1)   Achar a cidade chata se nunca foi ou se só foi a trabalho.

2)   Visitar o Santuário Dom Bosco se você não vê cores. Perder, se você não tem problema algum na visão.

3)   Comer no Mangai se você está de dieta (40 sobremesas, fala sério!)

4)   Fazer SUP (Stand Up Paddle) no Lago Paranoá se você não trouxe protetor solar.

5)   Mesmo que tenha protetor solar, fazer SUP no Lago Paranoá entre as 10h e as 14h. Nesse horário, o sol brasiliense é de rachar!

6)   Sair a pé em Brasília. Não dá para chegar a lugar nenhum, até se parecer pertinho no mapa.

7)   Achar que o Distrito Federal é só Brasília. A feira (supernordestina) de Ceilândia funciona de quarta a domingo, com mocotó e buchada, tabaco maranhense e jabuticaba por quilo.

Autor: Seth Kugel Tags:

quarta-feira, 14 de setembro de 2011 Sem categoria | 07:50

Use o Google para se comunicar

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Não falar o idioma local pode ser uma barreira enorme nas viagens, causando estresse e até perigo. Por outro lado, conseguir se comunicar com os habitantes locais quase sempre enriquece a experiência.

Claro que um viajante extrovertido consegue se fazer entender com sinais ou palavras básicas se quer pedir “o que aquele cara na outra mesa está comendo” ou se quer dizer ao taxista que vai para o aeroporto. Mas não funciona tão bem para entender o que o médico diz na sala de emergência, ou escrever um e-mail para reservar um quarto com berço, ou pedir para o vendedor da loja se tem essa mesma camisa em amarelo, tamanho GG.

Saber o idioma local, ainda que um pouco, sempre ajuda

Saber o idioma local, ainda que um pouco, sempre ajuda

Há anos que existem tradutores eletrônicos que tentam resolver o problema, mas o melhor e mais flexível de todos (pelo menos o melhor de todos que são gratuitos) é o Google Tradutor. Eu até diria que tem melhorado tanto que agora é suficientemente bom para transformar a maneira que viajamos, do planejamento em casa até as conversas nas ruas do destino.

Em junho, usei para reservar quartos em pousadas pequenas na Itália – essas que não têm reserva online nem nada.  Escrevi a mensagem em inglês, copiei e colei no Google Tradutor, copiei e colei o resultado no e-mail.  Também usei o site para traduzir a resposta. Foi um sucesso total.

Funcionaria do português para o inglês? Decidi fazer um teste. Como meu português não é perfeito, pedi para minha amiga Laura escrever a solicitação mais complicada e chata possível para um hotel fictício nos Estados Unidos:

“Boa tarde,

Gostaria de fazer uma reserva, mas antes tenho algumas dúvidas que gostaria de esclarecer. Preciso de um quarto para três pessoas (um casal e um bebê). Primeira dúvida, vocês oferecem berço? E serviço de babá, existe algum? Há algum tipo de tarifa promocional para crianças de até dois anos de idade?

Outra dúvida, o hotel tem piscina? E academia de ginástica? O café da manhã já está incluído?

Devo ficar uma semana, chegar no domingo e ir embora no outro sábado, mas queria ir à noite. Posso ficar até mais tarde ou tenho que pagar uma tarifa extra?

Última pergunta: o restaurante do hotel oferece opções para vegetarianos? Meu marido não come nenhum tipo de carne, e eu só como peixe.

Muito obrigada,
Laura (a chata)”

Nossa, ela é chata mesmo, né? Um teste perfeito para o tradutor. Vamos lá para o resultado.

“Good afternoon,
I would like to make a reservation, but have some questions you would like to clarify. I need a room for three people (one couple and a baby). First question, you provide cradle? And childcare, are there any? Are there any promotional rate for children under two years old?

Another question, the hotel has a swimming pool? And the gym? The breakfast is already included? Should I stay a week, arriving on Sunday and leave the other Saturday, but wanted to go at night. Can I stay late or have to pay an extra fee?

Last question: the hotel restaurant offers options for vegetarians? My husband does not eat any meat, and I only like fish.

Thank you,
Laura (the flat)”

Google Translator

Google Translator

Não é perfeito, mas dá para entender muito bem quase toda mensagem. Fiquei superimpressionado com o fato de que o Google sabe que “dúvida” é “question” e não “doubt,” um erro muito comum entre brasileiros que falam inglês. O único trecho que ficou um pouco confuso é o desejo dela de ficar até sábado à noite sem pagar uma diária extra. Ah, não deu certo “chata” também.

Mas cuidado! Tem que caprichar no português para o Google entender. Por exemplo, se Laura tivesse escrito “um casal e um bebe,” o Google teria traduzido “a couple and a drink” – ou seja, um casal e uma bebida.  E se tivesse esquecido o acento sobre o “ú” de dúvida, o Google teria traduzido como “doubt” mesmo, porque duvida sem acento não é o substantivo, é o verbo que significa “doubt” mesmo.

Com toda esta gramática a coluna está correndo o risco de ficar tão chata quanto Laura, na carta. Mas mais uma dica: vale a penar colocar sempre os pronomes. Laura escreveu “tenho algumas dúvidas que gostaria de esclarecer” mas o Google entendeu “….que você gostaria de esclarecer” Obviamente deve ser “eu.”

Bom, esse é só um uso. O Google Tradutor também traduz sites completos. Vamos dizer, por exemplo, que você está em Paris e não confia no seu guia de viagem em português para saber quais bons restaurantes ficam perto do seu hotel no 4º arrondissement.  Sem problema!  É só ir para a página de restaurantes do jornal Le Figaro, que dá dicas por arrondissement mesmo. Copiar a URL, colar no Google Tradutor, escolher Francês à Português, et voilà! Ao clicar no 4º arrondissement, você vai encontrar uma lista de restaurantes com descrições bem compreensíveis. Aqui vai o Le Georges:

“Com as suas vistas espectaculares sobre a Cidade Luz, o Georges, situado no terraço do Centro Nacional de Arte Contemporânea Pompidou…, tem uma localização única no topo do monumento arquitetônico do século 20 projetado por Renzo Piano e Richard Rogers. A decoração contemporânea do restaurante, assinado por Jakob MacFarlane, combina perfeitamente com a cozinha francesa moderna, que é servido aqui.”

Quase perfeito!  Nem todas as traduções saem tão bem, mas sempre dá para entender. (Outro site em francês sobre restaurantes em Paris é restoaparis.com, e para buscar na França inteira entre na página de gastronomia do jornal Le Monde.)

Ainda não mencionei a melhor parte: o Google Tradutor tem um app para seu smartphone. Ou seja, dá para traduzir cardápios ou letreiros, ou escrever “eu quero ir para o centro da cidade” no seu smartphone, traduzir para o idioma local e mostrar para um taxista. Ou para pedir para o vendedor a mesma camisa em amarelo e do tamanho GG. (O Google Tradutor até sabe que GG é XL. Impressionante.)

O app até entende sua voz, e ele pode falar a tradução até com um sotaque decente. Essa parte não funciona tão bem quanto escrever, mas daqui a alguns anos teremos uma máquina de tradução que parece algo da ficção científica.

Conclusão: Você não fala inglês? So what? That’s no longer an excuse not to travel. (E se não entende isso, você sabe o que fazer.)

Leia também: Sete erros para evitar com o Google Tradutor

Autor: Seth Kugel Tags: ,

Seth Erros | 07:30

Sete erros para evitar com o Google Tradutor

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Veja também:  Use o Google para se comunicar

1)    Usar gírias.

2)    Esquecer os acentos.

3)    Não colocar os pronomes.

4)    Usar para fins profissionais (nem é tão bom assim).

5)    Usar o app no exterior com um chip brasileiro antes de verificar quanto vai custar por MB. Procure um chip pré-pago no país onde você está, ou use só onde tem wi-fi de graça.

6)    Achar que vai funcionar na Mongólia ou na Etiópia. Nem o Google fala mongol ou amárico. Ainda.

7)    Desistir das aulas de inglês ou francês ou alemão porque acha que daqui a dez anos o Google Tradutor fará tudo.

Autor: Seth Kugel Tags:

quarta-feira, 7 de setembro de 2011 Brasil | 08:00

Explicando o Brasil aos turistas gringos

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Rio de Janeiro é a minha indicação para quem vem pela primeira vez ao Brasil - Fotos Getty Images

Rio de Janeiro é a minha indicação para quem vem pela primeira vez ao Brasil - Fotos Getty Images

Minha amiga Laura, uma paulistana, se mudou para Nova York em agosto. Como eu estava em Nova York quando ela chegou, me fez infinitas perguntas: em qual bairro morar, se deve usar bicicleta, se pode andar de metrô à noite, que tipo de colchão deve comprar etc. Em muitos casos, meus conselhos contradiziam algum outro que um amigo brasileiro tinha lhe dado.

Óbvio que eu estava certo, falei para ela. Como um brasileiro pode dar dicas sobre a vida nos Estados Unidos? Mas depois caiu a ficha: se os brasileiros são incapazes de dar boas dicas sobre meu país para seus amigos brasileiros, será que eu sou incapaz de dar boas dicas sobre o Brasil para os meus amigos norte-americanos?

- Leia também: Seth erros dos turistas norte-americanos

Fiquei na dúvida e decidi resolver o problema pedindo ajuda a um grupo legal que sempre tem opiniões interessantes: vocês, os leitores do blog.

Então, leitores legais, eu vou deixar vocês entrarem nas conversas privadas que eu tenho com gringos sobre o Brasil. As perguntas seguintes são as que me fazem com mais frequência e as respostas são mais ou menos o que eu digo para os meus amigos. How did I do?*

Aguardo (com um pouco de medo) suas respostas. Ah, mas como a experiência com outra coluna já me ensinou, seria bom vocês lembrarem: o iG não pode aprovar comentários com palavrões em português nem em inglês. Assim que, se você quiser me xingar, tenha a gentileza de fazer de forma sutil e sofisticada.

- Seth, morro de vontade de conhecer Brasil, mas não quero morrer no Brasil. O País é perigoso demais para visitar?

Será que o único filme brasileiro que você viu na vida é “Cidade de Deus”? Se alguém te perguntasse “Os Estados Unidos são um país perigoso?” você nem saberia o que responder. O Brasil é enorme, e como qualquer país grande, tem algumas regiões perigosas e muitas áreas tranquilas. Não se preocupe, você corre pouco risco de levar um tiro em um campo de soja no Mato Grosso ou em um resort em Trancoso.

Nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, porém, ocorrem assaltos. Assim que, quando você estiver em uma cidade grande, pergunte sempre se a zona que vai visitar é segura. E de toda forma, leve só um pouco de dinheiro, só um cartão de crédito, uma cópia do passaporte e só. Leve a máquina fotográfica se quiser, mas já sabendo o risco. Eu sempre ando de ônibus, mas se você preferir, pegue um táxi. A boa notícia é que, no Rio, algumas favelas perto das áreas turísticas já foram “pacificadas” e o turista pode até visitá-las. Mas como um comandante da polícia carioca me contou, o risco verdadeiro para os turistas não é andar em bairros pobres, é ser assaltado nas zonas turísticas mesmo.

Mas pelo amor de Deus, não precisa agir como a norte-americana que entrevistei no calçadão de Copacabana que tinha recebido o conselho de nunca ficar parada na rua nem por um segundo. Ela só concordou em me dar a entrevista se eu caminhasse ao lado dela, escrevendo e andando ao mesmo tempo. Absurdo.

- É minha primeira visita ao Brasil. Quais lugares recomenda? Rio ou São Paulo?

Eu amo São Paulo, mas admito que a cidade é grande, feia, difícil, confusa e nem tão interessante para os turistas. Se você não tem experiência nenhuma no Brasil, vai preferir ficar dentro de uma área bem pequena – Jardins principalmente – onde vai encontrar os preços absurdos e a atitude mais absurda ainda da classe AAA. Locomover-se pela cidade por transporte público é confuso. Deixe para outra visita.

Ao invés de São Paulo, vá para o Rio de Janeiro e Minas Gerais. O Rio é o cartão-postal do Brasil, e merece ser. É deslumbrante. Eu fico chateado com praticamente qualquer pessoa que diz que não aguenta sobreviver fora da cidade onde foi criada – que coisa chata –, mas faço uma exceção para os cariocas. Mas conhecer só o Rio e dizer que conhece o Brasil é tão absurdo quanto só visitar Nova York e dizer que conhece os Estados Unidos.

Por isso, deixe alguns dias para visitar também o interior de Minas Gerais, onde existe tudo menos praia: cachoeiras e natureza, cidadezinhas coloniais, história importante, cozinha típica e minha parte favorita: passeios em estrada de terra.

Para a segunda visita, Bahia e Amazônia. E só na terceira, São Paulo, e talvez o Sul e o Pantanal.

- Eu não falo nada de português, mas nos aeroportos, hotéis e táxis as pessoas devem falar inglês, né? E com certeza os museus e monumentos devem ter boas traduções.

Até mesmo nos aeroportos, muitos funcionários não falam inglês - Foto: Agência Estado

Hahahahahahahaha, essa foi boa! Os brasileiros são anfitriões ótimos, muito hospitaleiros, sempre com um sorriso, e muito dispostos a ajudar qualquer turista. Em português. Bom, muitos profissionais e estudantes falam inglês – só que não trabalham com turismo. No mundo turístico só nos melhores hotéis e restaurantes das grandes cidades e nos resorts chiques você vai encontrar uma pessoa que fale um inglês decente. E nem sempre.

Até nos aeroportos fica difícil. Meu amigo Adam, que vem frequentemente ao Brasil – mas só fala algumas frases de português (“crédito ou débito”, “caipirinha de jabuticaba”) –, ficou bem frustrado com um oficial da Polícia Federal que estava atendendo a fila de imigração em Guarulhos e nem sabia como falar “visto” em inglês. E quando fomos para Belém do Pará, até eu fiquei chocado que, no balcão de atendimento da Secretaria de Estado de Turismo no aeroporto, os atendentes nem sabiam falar “Hello.” Eu aproveitei para perguntar por quê. “É que somos concursados,” me disse um deles. E o concurso não incluiu um teste de inglês? “Não.”

Mas amigo, um conselho: não reclame do fato de eles não falarem inglês, porque eles vão responder que o norte-americano também não aprende outros idiomas. E se a vida fosse justa, isso seria certo. Mas a realidade é que um país que quer aumentar o turismo (e ser anfitrião de Copas do Mundo e Olimpíadas) precisa falar inglês.

- Mas eu falo espanhol. Dá para nos entendermos, né?

Ajuda com os táxis e os cardápios e até dá para conversar um pouco. Mas não adianta para conhecer a história da vida de alguém nem bater papo no bar. Também é muito comum o brasileiro entender seu espanhol, mas você não vai entender o português dele, já que o português é um idioma mais foneticamente complexo. E claro, cuidado com os falsos cognatos: se alguém pedir uma borracha, não está a fim de uma mulher bêbada. Está querendo apagar algo que escreveu com lápis.

- E as mulheres brasileiras, são todas gostosas, exatamente como as meninas da Victoria’s Secret?

Mulheres brasileiras são lindas, assim como francesas, russas, colombianas - Foto: Getty Images

Eu SABIA que é por isso que você quer ir ao Brasil. Que gringo típico. Olha, claro que muitas mulheres brasileiras são lindas. Muitas francesas, russas, colombianas, canadenses, vietnamitas e quenianas são lindas também. Porém a ideia de que as brasileiras são, de certa forma, geneticamente mais bonitas é absurda: acho que você está passando tempo demais buscando “praia” e “Rio de Janeiro” no Google Imagens. No geral, pode descobrir que a mulher brasileira é mais dedicada à beleza e à moda – cuidando das unhas, andando de salto alto etc – do que a norte-americana e a europeia. Mas como qualquer país, o Brasil é um país de mulheres humanas, não super-humanas como as pessoas acham.

- Deve ser muito fácil pegar uma delas, né?

Ah, mais um gringo que cai nessa. As minhas amigas brasileiras sempre reclamam que os estrangeiros acham elas fáceis, e agora você virou parte do problema. Algumas sim, algumas não, como em qualquer lugar. Mas o amigo norte-americano que chega da viagem ao Rio de Janeiro contando de todas as mulheres brasileiras que conquistou provavelmente está falando de prostitutas e de mulheres interesseiras (eu até diria semiprostitutas) que aceitam jantares e roupas e uma relação de “base económica” em troca de sexo. Seu amigo ficou em um hotel de Copacabana, né? Eu sabia!

Agora, olha como funciona de verdade. Claro que você pode conhecer uma mulher em qualquer lugar, mas o mais comum é isso acontecer nos bares, boates e festas onde depois de certa hora rola uma coisa que se chama “pegação”.  Não, nem tente pronunciar, nossa, seu português é um desastre! Olha o que precisa fazer: invente alguma coisa para falar e chegue na mulher. Reze para que ela entenda inglês e não lembre muito o Presidente Bush. Converse um pouco. Dance se puder. E, se as coisas caminharem bem, tente um beijo. É. Lá mesmo. Na pista, na rua, no bar, na mesa. Se não rolar, não se preocupe, espere um pouco e tente de novo ou até ela decidir “ir pro banheiro”. Só que um beijo não significa que você vai levar a moça pro seu hotel, e até pode nem significar que ela queira te ver de novo.

Se conseguir arrumar uma namoradinha, cuidado, não funciona como nos Estados Unidos. Se você não demonstrar muito carinho para ela em público – andar de mãos dadas, fazer cafuné, tocar a perna –,  você está ferrado. O quê? Você quer ir numa festa e conversar com seus amigos e deixar ela falar com as dela longe de você? Hahahahahaha – você acha que você está namorando uma norte-americana, né? De jeito nenhum: fique ao seu lado o tempo tudo. Eu recomendo o sistema do “braço brasileiro”. Tudo bem se o resto do seu corpo fica americano, mas treine seu braço para agir como se fosse um apêndice brasileiro para tocar a namorada constantemente. Com um pouco de prática, vira instinto, e parabéns: seu braço já virou brasileiro.

- Mas minha irmã vai comigo. Ela vai ser assediada por homens brasileiros?

Os homens brasileiros não enrolam ao chegar em uma mulher

Os homens brasileiros não enrolam ao chegar em uma mulher - Foto: Getty Images

É bem possível. Eu admiro muito a coragem do brasileiro típico que chega em qualquer mulher sem nem ficar nervoso. Não entendo muito bem o que eles falam, acho que é só alguma besteira tipo “você é muito gostosa”, “ah que cheirosa você tá” ou sei lá. Segundo minhas amigas brasileiras, em ocasiões infrequentes até falam algo inteligente. Se a sua irmã decidir falar ou dançar com ele, que não fique surpreso se depois de dois minutos ele tentar dar um beijo nela. Não é como os norte-americanos que enrolam a noite inteira e depois só pedem o telefone.

Mas alguma dica?

Duas.

1) O Brasil é ótimo. Você vai adorar.

2) “Visa” em português é “visto.” VEE-sto. Pode ser útil quando você chegar em Guarulhos e precisar se comunicar com a Polícia Federal.

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Seth Erros | 07:54

Seth erros dos turistas norte-americanos

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- Leia também: Explicando o Brasil aos turistas gringos

1) Achar que o Brasil é só Rio de Janeiro, São Paulo e Amazônia.

2) Achar que toda mulher brasileira é top model.

3) Pensar que todas essas top models adoram fazer sexo com turistas pálidos e gordos.

4) No Rio, ficar em Copacabana em vez de Ipanema ou Santa Tereza.

5) Em São Paulo, não sair do Jardins.

6) Ficar surpreso que a Amazônia tenha cidades grandes como Manaus e não só aldeias indígenas.

7) Não ir pro Brasil porque é muito longe e muito caro.

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