Descobrindo Brasília
Não existem cidades chatas, só viajantes tacanhos. Por isso, não acreditei quando contei para os amigos que ia para Brasília, para criar um roteiro legal para algum veículo gringo, e a grande maioria quis saber por que diabos um norte-americano visitaria uma cidade tão sem graça.
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OK, alunos, vamos rever a lição número 1 das viagens: não existem cidades sem graça. Há cidades sujas, cidades sem monumentos históricos, cidades perigosas, cidades feias. (E, note bem, Brasília não é nenhuma dessas.) Existem cidades antipedestres, cidades quentes, secas e confusas demais. (Brasília é todas essas.) Mas qualquer cidade também tem uma cultura única para descobrir, lugares para conhecer, bairros para explorar, sítios culturais para visitar. E até se existisse no mundo uma cidade sem absolutamente nada para fazer – “bora”! –, seria uma ótima pauta: “O que fazer na cidade sem nada para fazer”.
E Brasília tem muito para descobrir, conhecer, explorar e visitar. Pode parecer um lugar chato quando está lotada de políticos e lobistas durante a semana. Mas no final de semana todos eles vão embora e deixam para trás duas coisas legais: os próprios brasilienses, e muitas vagas para estacionar.
Ainda não acreditam? Vou fazer uma lista.
1) Brasília tem história
Em 1960, quando foi inaugurada, Brasília era uma cidade totalmente do futuro. Mas já se passaram 51 anos, e tem história em todas as partes. Como no bar Beirute, estabelecido em 1966 e ponto de encontros políticos por décadas, inclusive durante o movimento das Diretas Já. Lá conheci uma mesa de jovens profissionais, todos recém-concursados pelo governo federal que haviam acabado de chegar à cidade.
Em outra mesa, conheci um grupo de coroas que me contaram que há décadas se reúnem na mesma mesa do bar. Indiquei a mesa de jovens para eles e comentei que era muito interessante estar em um lugar onde dois grupos tão diferentes podiam se reunir. Um deles me corrigiu e disse: “Nós não somos diferentes. Na verdade, somos muito parecidos. Só que eles são o que nós éramos há 30 anos, quando chegamos a Brasília. E daqui a 30 anos eles provavelmente serão como nós, agora, sentados na mesma mesa onde eles estão nesse momento”.
2) Brasília tem samba
Fui testar dois sambas no mesmo sábado à tarde. O primeiro foi o famoso Calaf, o samba no endereço menos sensual na história dos sambas: Setor Bancário Sul, Quadra 2, Loja 51/57. Escondido lá no meio dos bancos abandonados no final de semana está o Calaf, que só dá para encontrar seguindo o som da música. Tem samba ao vivo, cerveja gelada e um ambiente muito legal. (Pelo menos, tão legal quanto se pode esperar num setor bancário.) Outro lugar que visitei é o samba do momento, Cadê Tereza, (no endereço também supersexy de CLS 201 Bloco B Loja 1). A fila era enorme, o que é chato para todos os clientes; as mulheres não pagam, o que é chato para a metade deles, mas o lugar está bombando, o que não é chato para ninguém.
3) Brasília tem a igreja mais azul na história das igrejas
Eu visito tantas igrejas nas minhas viagens que já virou uma rotina. Notre Dame de Paris, St. Paul’s em Nova York, tanto faz: entro. Dou uma volta. Tiro uma foto. Vou embora. O Santuário Dom Bosco em Brasília quebrou a rotina. Fiquei paralisado com os infinitos vitrais azuis. Tirei centenas de fotos, tentando captar a incrível luz azul que entra. Fui embora bem depois.

Brasília tem pôr-do-sol laranja, escarlate, cor-de-rosa, cor de lavanda, cor de fogo ou todas juntas
Não gosta da luz azul? Que tal laranja, escarlate, cor-de-rosa, cor de lavanda, cor de fogo, todas juntas? Normalmente, eu sou um cético quanto aos pores-do-sol, principalmente se estou viajando sozinho (ou pior, com algum amigo homem). Mas em Brasília, a vista da Ermida Dom Bosco impressiona até um viajante solitário. Ok, não estava precisamente sozinho – essa noite, enquanto eu admirava a vista, havia inclusive uma noiva de vestido de casamento posando para fotos. O pôr-do-sol era tão romântico que eu quase teria me casado lá mesmo com ela, se ela quisesse.
Se você já dirige em outras grandes cidades brasileiras, alugar um carro e dirigir em Brasília é uma experiência inesquecível. Não tanto para você, mas mais para os pedestres que você poderia matar. Juro, os pedestres brasilienses pisam na rua sem nenhum sinal vermelho e todos os carros param de vez. Bom, quase todos: eu não. Pelo menos nas primeiras vezes, porque nem sabia o que acontecia. Por sorte, não atropelei ninguém.
6) Brasília tem lésbicas em motocicleta
OK, todas as grandes cidades têm, provavelmente. Mas em Brasília elas são mais legais – pelo menos o casal que eu conheci no bar Libanus. Sexta à noite o bar estava lotado e eu estava tirando fotos. Pedi licença para fotografar o casal (que eu achava que fossem irmãs), e elas me chamaram para sentar na mesa delas. Falamos da situação GLS em Brasília (elas acham uma cidade bem tolerante), da tolerância das famílias delas em Goiás, e de muitos outros temas que não tinham nada a ver com G nem L nem S.
Depois, me convidaram para uma festa de aniversário de uma amiga no bar Miau Que Mia. De todas as frases que pensei que ia escrever sobre Brasília, nunca imaginei a seguinte: “Entrei no carro para seguir um casal de namoradas goianas em motocicleta para um aniversário no Miau Que Mia”.
7) Brasília tem SUP no Lago Paranoá
A Ponte Juscelino Kubitschek (chamada também de “terceira ponte” porque os brasilienses aparentemente têm dificuldades com nomes de verdade e preferem os números e as siglas) é linda. Mais linda ainda é a vista de lá de baixo em cima de uma prancha de surfe fazendo o SUP. Nunca fez SUP? Nem sabe o que é? Tá, duas coisas para fazer. Assistir a este vídeo, e visitar o Clube do Vento durante sua visita a Brasília. (Só 20 reais!)
8) Brasília tem o escritório da Dilma
Sei, você já sabia. Mas sabia que dá para visitar? Só aos domingos entre 9h30 e 14h30 (de graça). Dá para ver todo o gabinete presidencial, inclusive a sala de reuniões onde se encontram os ministros, a sala de audiência que recebe chefes de Estado e embaixadores, e até o próprio escritório da presidente. Nesta última não pode entrar, só ficar na porta e tirar fotos. Queria muito entrar e deixar uma nota para Dilma sobre a mesa dela, ao lado do computador chique de onde ela dirige o País, ou, quem sabe, enrola no Facebook. Mas eu escreveria o quê? “Oi, Dilma. Tudo bem? Gostei do seu escritório. Boa sorte com isso de ser presidente. Um abraço, Seth” Acho melhor não ter entrado mesmo.
9) Brasília tem restaurantes
Muitos, e bons. Há, por exemplo, o contemporâneo Zuu a.Z.d.Z, nome ótimo que fica melhor ainda ao lado do seu endereço brasiliense: Zuu a.Z.d.Z, SCLS 210, Bl. C Lj. 38
Infelizmente, o restaurante estava fechado no dia que eu quis almoçar lá. Então, fui ao Quitenete, um dos outros restaurantes da mesma chef, Mara Alcamim. Comi um risoto ótimo e passei muito tempo olhando e fotografando todos os doces e sobremesas.
Também não dá para perder o clássico Mangai, self-service nordestino-chique que fica quase na beira do Lago Paranoá e oferece mais de 80 pratos variados e 40 sobremesas. OK, dá para perder, mas só se você mora em João Pessoa ou Natal, onde também existem sucursais.
10) Brasília tem outras atrações
Por exemplo, alguns monumentos de um cara chamado Niemeyer. Também vale a pena visitar, se é que dá tempo.







