2011 julho | Viagens com Seth Kugel - iG

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Arquivo de julho, 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011 Brasil | 07:58

SETH ERROS: EDIÇÃO ESPECIAL – Como ser brasileiro, mas não demais, no exterior

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É bem difícil um turista chegar ao Brasil e não se apaixonar pela paisagem, pela música, pela comida. Mas é o povo que deixa a melhor impressão. Vocês são charmosos, otimistas, sorridentes, hospitaleiros. E as qualidades são contagiantes. O estrangeiro chega e entra na mentalidade brasileira. Como dizem, quando em Roma, faça como os romanos…

Mas o que acontece quando o romano sai de Roma? Ou seja, agora que muitos brasileiros estão viajando pela primeira vez para o exterior é preciso pensar em quais “brasilidades” funcionam, e quais não, além das fronteiras brasileiras.

Sorrir muito e ter uma atitude positiva são qualidades que sempre ajudam

Sorrir muito e ter uma atitude positiva sempre vão dar certo. Outros costumes… nem tanto. Seguindo a tradição da coluna, fiz uma lista de sete, ou seja Seth, erros para o brasileiro evitar no exterior. (Um esclarecimento para o leitor. Deve ser irônico receber conselhos de comportamento de alguém dos Estados Unidos, país que produz talvez o turista mais chato e irritante do mundo – o famoso “ugly American”. Mas é que meu povo já é um caso perdido. Há séculos que nós viajamos pelo planeta fazendo besteiras, e cachorro velho não aprende truques novos. Para vocês, ainda há tempo.)

1) FALAR COM O POLEGAR. É talvez a “brasilidade” mais comentada pelos americanos que visitam o seu país pela primeira vez: esse sinal de levantar o polegar (ou até os dois) para dizer “ok”, ou “não tem problema”, ou “de nada”, ou “pode passar” ou até simplesmente “bom dia”. O brasileiro não inventou o “thumbs up” (como se diz em inglês), mas é de longe o país que mais usa. Por exemplo, tenho um amigo que cada vez que viaja ao Brasil conta quantos “thumbs up” recebe por dia. Dois polegares ao mesmo tempo valem dois, óbvio.

Tudo bem dentro do Brasil. Mas em muitos outros países, é esquisito – até brega – fazer isso. (E em alguns países é vulgar: Bangladesh, por exemplo.) Para nós, nos Estados Unidos, é coisa do passado. Lembra muito o personagem “The Fonz” do seriado “Happy Days”, um cara cool demais… só que nos anos 50.


2) TOMAR BANHO. E OUTRO. E MAIS UM.
Os brasileiros são, sem dúvida, o povo mais limpo do mundo. Às vezes acho que nos dias mais quentes do verão vocês passam mais tempo debaixo do chuveiro do que fora. Eu não admito aos amigos brasileiros que nem sempre tomo banho antes de dormir, por medo de perder a amizade ou talvez até meu visto.

Mas quando for viajar, lembre que o Brasil tem 14% da água doce do mundo, e só 3% da população do planeta. Em muitos países a água é escassa, em outros o custo para aquecê-la é alto. Quando eu estudava em Paris, hospedado com uma família francesa, minha “mãe” reclamava muito quando eu passava mais de cinco minutos no chuveiro. Num hotel, pelo menos, ninguém vai saber que você está gastando demais os recursos naturais do país. Mas se você ficar na casa de amigos, tente se limitar a um banho curto por dia. Não se preocupe: que eu saiba ninguém nunca morreu por ficar pouco tempo no banho, nem mesmo na França.

Em muitos países, o tamanho dos biquínis brasileiros vão atrair olhares estranhos

3) USAR SUNGAS E BIQUÍNIS BRASILEIROS. Não é que não pode. É que você só deve ficar ciente das repercussões. Queridas brasileiras, eu conheço vocês, e vocês adoram comentar quando uma gringa aparece na praia de Ipanema com um desses biquínis feios que cobrem a bunda toda. Agora se preparem para uma revanche. Se vocês andarem com um biquíni brasileiro ­– desses que tapam talvez 10% da sua bunda – em muitos países vão atrair alguns olhares estranhos das mulheres locais. (Os homens vão gostar, com certeza, mas só porque o biquíni lembra um pouco a roupa de uma stripper.)

Quanto à sunga, em alguns países, tudo bem. Em outros, como é o caso do meu, se considera bem esquisito e meio vulgar. Exemplo: num episódio do programa americano Curb Your Enthusiasm, o personagem principal (o comediante Larry David) enxerga o psiquiatra dele na praia… de sunga. Fica horrorizado e decide desistir da terapia.


4) LIXO NO LIXO.
O mundo está dividido em duas partes: a que tem sistema de esgotos que permite jogar o papel higiênico na privada, e a que não tem. E, desculpe a intimidade, mas no mundo com sistema de esgotos que permite, se considera muito nojento jogar papel usado no lixo.

Fora do Brasil as pessoas não costumam se beijar tão apaixonadamente em público

5) BEIJAR À VONTADE. O problema do beijo de cumprimento é bem documentado, não vou perder seu tempo falando de quantas vezes se beija em cada cidade do mundo. O problema é o beijo na boca, que no Brasil é muito mais aceitável em público do que em outros países. Ou seja: nas ruas, nos parques, nas mesas de bares e restaurantes, até na fila para entrar no cinema. Por isso eu sempre digo que o lema oficial do Brasil deveria ser “Get a room!”. Essa frase, que em tradução livre seria algo como “Arrume um motel!”,  é o que se fala quando um casal está expressando sua afeição de forma… exagerada.

Juro que em nenhum outro país do mundo (que eu conheça) os casais se beijam tão aberta e apaixonadamente em público quanto no Brasil. E pior, ao lado dos amigos. Eu não estou contra, e até faço também quando a situação se justifica… no Brasil. Mas em outros países, na maioria das situações, é preciso se controlar para não constranger os outros. Existem exceções: no cinema, até pode, mas pelo amor de Deus só se estiverem sozinhos, e não ao lado de um casal de amigos. Na balada ou numa festa, ok, não precisa arrumar um motel para se beijar. Mas arrume um cantinho escuro pelo menos.

Cheque no guia de viagem quanto se deve dar de gorjeta em cada país, mas nunca deixe de dar

6) ESQUECER A GORJETA. Em Nova York, os garçons odeiam os estrangeiros. Por quê? Porque um garçom nos EUA não ganha quase nada de salário – recebe até menos de um salário mínimo, porque vive das gorjetas. Até os estrangeiros que sabem disso acham justo deixar 10% ou 12%. Não é. É 15% se você é chato (ou se o garçom foi chato) e 18% ou 20% se não. E sem reclamar. Em outros países, a gorjeta varia muito, por isso você sempre deve dar uma olhada no sua guia de viagem ou procurar na internet. (Eu não conheço um bom site em português mas em inglês existem muitos – bota “tipping by country” no Google.

7) PEDIR CERVEJA COMO SE ESTIVESSE NO BRASIL. Uma vez fui jantar em Nova York com uma família de brasileiros. O pai acabava de chegar ao país e tentou explicar à garçonete (em português, que ela não entendia) que queria a cerveja com dois dedos de colarinho. Quando a bebida chegou sem espuma nenhuma, ele reclamou e tentou explicar de novo. A garçonete falou para nós: “Explique para ele que entendo o que ele quer, mas o negócio do chope não funciona assim.” E é verdade: colarinho na cerveja é um fenômeno brasileiro que é difícil de encontrar na maioria de países (fora a cerveja Guinness).

Não espere cerveja muito gelada em todos os países. A baixa temperatura não ajuda a sentir o sabor

Quanto à cerveja gelada, o mundo está mais dividido. Normalmente, pessoas de países tropicais gostam de cervejas fracas e bem geladas, para se refrescar num dia quente. Esse é o caso do Brasil. Mas em muitos outros países se acredita que o sabor é mais importante, e é fato que cerveja muito gelada perde o sabor. Um dia, na Bolívia, eu estava jantando com um casal de brasileiros que reclamou à garçonete que a cerveja estava quente. Tentei explicar para eles: “não vai ter mais gelada, aqui se toma assim.”

Nossa, já chegamos a sete? Então preciso colocar um bônus especial para meus queridos paulistanos:

7 – B) MATAR PEDESTRES À VONTADE. Não sou advogado, mas segundo observo nas ruas de São Paulo,  a lei local determina que um motorista que vê um pedestre atravessar a rua e não tenta matá-lo vai preso. Mas quando você alugar um carro em outro país, preste atenção: o pedestre tem algo que se chama “direitos.” Em alguns países da Europa, da Ásia e estados dos Estados Unidos, a lei até exige parar o carro quando alguém pisa na faixa de pedestres.

Agora, a boa notícia. O brasileiro é tão querido no mundo – pelos jogadores de futebol, pela música, pela atitude – que até pode cometer os erros e ninguém vai reclamar. Bom, talvez o pedestre, se é que ele sobrevive.

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quarta-feira, 20 de julho de 2011 Europa, Ásia | 08:00

Surfando no sofá alheio, em Istambul

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Se você for para Istambul, recomendo que fique na casa do seu amigo turco para não gastar dinheiro em um hotel.

Ah, você não tem um amigo turco em Istambul? Pois arrume um já!

É o que eu fiz pelo CouchSurfing, um site que já é hit mundial entre os mochileiros e qualquer outro viajante que prefira não pagar hospedagem e goste de fazer amizades novas. (Só no Brasil tem quase 81 mil membros).

A Mesquita Azul

A Mesquita Azul, principal ponto turístico de Istambul

Fiquei na casa do Erol Fazlioglu, 39 anos, engenheiro e conhecedor de capitais mundiais. Ele até me preparou café da manhã turco todos os dias: chá, queijo, verduras e pão tostado.

Como funciona o CouchSurfing? Você cria um perfil no site (de graça), e os outros membros podem entrar em contato com você para ver se seu sofá (ou cama extra, ou rede, ou colchão no chão da sala) estará disponível nas datas que precisa. Você pode fazer o mesmo quando viajar.

À primeira vista, parece um milagre: um tipo de Hoteis.com de graça, com disponibilidade em quase todas as cidades do mundo. Mas aprendi nos últimos meses que não é precisamente tão fácil. Nem deve ser.

Mulher de roupa ultraconservadora brinca com crianças em Istambul

Mulher de roupa ultraconservadora brinca com crianças em Istambul

As rejeições são comuns para os principiantes (como eu). Um lugar para dormir pode não custar nada de dinheiro, mas custa tempo e criatividade.

Para vocês evitarem os problemas que eu enfrentei, vou compartilhar minhas duas experiências, na França e na Turquia. (CouchSurfers brasileiros, contem as suas nos comentários!)

Buscar um sofá é como se candidatar ao emprego

Cheguei à França – em Nice – no final de maio, pensando em ficar em albergues por cinco noites. Não tinha feito reserva – erro! – e nenhum albergue (nem hotel barato) da cidade tinha disponibilidade no sábado, 28 de maio, um dia antes do Grand Prix de Mônaco. Eu já tinha um perfil no CouchSurfing, mas nunca tinha usado. Era isso, ou dormir na estação de trem.

Pescadores em Istambul

Pescadores em Istambul

Busquei Couchsurfers na área e escrevi breves pedidos a cinco ou seis deles. Fui rejeitado por todos. Ah, pensei, seria pela data, ou pelo pedido feito meio em cima da hora. Até receber a resposta negativa de um cara chamado de Yves.

Ele me escreveu: “Como verá no meu perfil (o qual você obviamente não leu) seu pedido está longe de atender aos meus pré-requisitos… assim que não é uma surpresa que minha resposta seja negativa.” Yves ainda me disse que teria sido muito legal se eu tivesse ficado na casa dele – um francês que fala português de Portugal conversando com um americano que fala português do Brasil e bebendo caipirinhas.

Que mala, pensei. Mas quando li o perfil do Yves, no qual ele pede que você escreva exatamente por que você acha que se daria bem e se divertiria com ele, eu mudei de ideia: eu fui o mala. Ele foi até legal de me explicar o que eu havia feito de errado. A lição: buscar um sofá pelo CouchSurfing não é como reservar um hotel online, é como se candidatar para um emprego. Você precisa escolher com cuidado a “empresa” para a qual quer “trabalhar”, e mandar uma “carta” mostrando que você seria o candidato ideal para o “posto”.

Abajures à venda no Grand Bazaar em Istambul

Abajures à venda no Grand Bazaar em Istambul

Tentei de novo em Istambul. Já tinha colocado mais detalhes no meu perfil, com mais fotos nos quais aparento ser a pessoa mais simpática e confiável possível.

E escrevi para meus possíveis anfitriões. “Adorei sua foto na bicicleta”, disse para um tal de Soner. Rejeitado. Para um italiano de Nápoles que estava morando em Istambul, narrei com detalhes sobre quanto gostava da cidade natal dele. Rejeitado. Etc, etc. Rejeitado, rejeitado. Droga.

Ter referências sempre ajuda

Percebi mais dois problemas. Primeiro, sou homem, e todo mundo prefere (ou confia mais em) mulheres como hóspedes. Esse problema não ia se resolver sem cirurgia. Segundo, o fato de ser principiante no CouchSurfing significava que no meu perfil não tinha referência nenhuma de membros que tinham me recebido em suas casas, nem dos que tinham ficado na minha.

Meu anfitrião, o Erol, se prepara para comer um sanduíche típico (e barato) de Istambul: peixe e verdura

Meu anfitrião, o Erol, se prepara para comer um sanduíche típico (e barato) de Istambul: peixe e verdura

Consegui resolver esse último problema: fiz uma busca no site para encontrar os membros recém-cadastrados em Istambul. Quem não tem referências não pode pedir referências, pensei. E mandei uma mensagem a Erol, que começou com “Você é novato ao CouchSurfing? Eu também!”

Deu certo! Erol falou que tinha adorado o fato de eu ter aprendido todas as capitais mundiais quando eu era criança (algo que está no meu perfil), pois ele tinha feito a mesma coisa. E não foi só isso, ele começou a me mandar mapas de como chegar à casa dele, e me perguntar o que eu queria fazer em Istambul, que ele estaria livre nos dias que eu ia ficar na cidade.

Beleza. Visitamos mesquitas e galerias de arte, comemos lambacun (um tipo de pizza turca) e até fomos a um banho turco onde te lavam, dão massagem e esfoliam uma quantidade nojenta de células da pele morta. Erol me ensinou a palavra mais útil do idioma, “az,” que significa “quero só um pouquinho de açúcar no meu café turco (esse que parece lama).” E fomos tomar “brejas” na rua de Nevizade, que é lotada de bares. (Erol é de família muçulmana, mas não é praticante – assim que não seguia a proibição de álcool do Islã).

Quando nossa conversa foi atingida por um desses momentos de silêncio constrangedor, nós fizemos um jogo sobre as capitais mundiais. (Sim, ele acertou Brasil-Brasília, minha primeira pergunta, óbvio. Nada de Buenos Aires.)

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Aula de cultura turca

A visita às atrações turísticas, até eu poderia ter feito sozinho. Mas o que fizemos no último dia, não. Erol tinha um amigo que morava na ilha de Buyukada, uma das pequenas “Prince’s Islands” que ficam a uma hora da cidade por barco e servem de escape para os moradores de Istambul durante o verão. São lugares bem charmosos e montanhosos, com casas antigas, vista para o mar e, a melhor parte, nenhum veículo motorizado. Os habitantes e turistas circulam a pé, de bicicleta ou nos “táxis” (que são carruagens a cavalo).

A vista da mesa de jantar em Buyukada

A vista da mesa de jantar em Buyukada

O amigo de Erol nos encontrou no porto e nos levou para fazer compras. Depois subimos e subimos e subimos um morro – até chegar ao apartamento dele, com vista panorâmica das outras ilhas, e vista de perto das famílias de gaivotas que moravam nos tetos das casas vizinhas.

Lá Erol e eu ficamos sentados na varanda, tomando raki (um licor turco com sabor de anis) e conversando, enquanto o amigo preparava um jantar de peixe. Comemos com queijo turco, salada russa, e pão, apreciando o pôr-do-sol. Adoraria dizer que conversamos exclusivamente sobre política, filosofia e arte, mas como somos três homens solteiros (e meio infantis), nosso anfitrião também nos mostrou como ele consegue espantar as gaivotas nos tetos vizinhos com um apontador a laser (desses que usam para apresentações). Mas como somos homens sensíveis, não espantamos as gaivotas pais de família, só os solteiros.

Óbvio que conversamos também sobre as mulheres. Expliquei as “regras” de paquerar e namorar nos Estados Unidos e no Brasil, e perguntei como funcionava na Turquia. Decidi tirar minha maior dúvida. “Vocês namorariam uma mulher que usasse véu?”

Café de manhã turco, preparado pelo Erol

Café de manhã turco, preparado pelo Erol

Esperava palavras politicamente corretas tipo “Seria um pouco diferente, mas claro que dependeria da mulher e da situação. Tudo é possível.”

Mas não foi assim que eles responderam. A verdade é que nem responderam, ficaram aturdidos. Se entreolharam. “É que nunca pensei nisso,” falou um deles – nem lembro qual – e o outro concordou. Não era que o fato de uma mulher usar ou não véu fosse irrelevante. Pelo contrário, era tão longe da realidade deles, que ambos nunca tinham pensado na possibilidade de namorar alguém assim. Seria como se eu tivesse perguntado “você namoraria uma mulher com quatro olhos?”

Existem muitas coisas sobre a sociedade turca que um estrangeiro como eu não consegue entender numa só visita ao país, nem em dez. Mas foi um bom começo descobrir esse abismo que existe entre os turcos religiosos conservadores e os turcos agnósticos liberais, como Erol e seu amigo.

Uma revelação que devo 100% ao CouchSurfing, com um agradecimento especial para o seu membro mais cara-de-pau, o Yves.


- Leia também: Seth erros para evitar no CouchSurfing…  e em Istambul

Notas relacionadas:

  1. O lado multicultural de Londres
  2. Minha viagem incrível para Sanliurfa (sem chegar a Sanliurfa)
Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

Seth Erros | 07:54

Seth erros para evitar no CouchSurfing… e em Istambul

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- Leia também: Surfando no sofá alheio, em Istambul

1) Começar a usar o CouchSurfing sem investir tempo em seu perfil.

2) Não passar várias horas vendo perfis no site para aprender a “linguagem” do CouchSurfing e saber como funciona.

3) Pensar que vai arrumar um sofá no último minuto, ou na primeira tentativa. Dá trabalho. (Se você é uma modelo de 23 anos pode até ser um pouco mais fácil, acho, mas nem tanto.)

4) Só ficar na casa dos membros e não abrir a sua casa para eles.

5) Em Istambul, ficar só no lado “europeu” da cidade. Balsas partem a todo momento para o lado asiático, onde tudo é mais barato, inclusive hotéis, bares e banhos turcos.

6) Pensar que pode visitar qualquer mesquita a qualquer hora. As orações são feitas cinco vezes por dia, e o horário das mesmas depende da data. Procure o horário na internet.

7) Perder uma visita a uma das “Ilhas do Príncipe”. Ou ir no fim de semana, quando todos os turcos lotam as praias, ruas e sorveterias.

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  2. Sete erros para as atrações imperdíveis
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quarta-feira, 13 de julho de 2011 Europa, Ásia | 07:45

Minha viagem incrível para Sanliurfa (sem chegar a Sanliurfa)

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Depois de três dias apurando uma matéria sobre pistaches em Gaziantep (cidade turca famosa pelo produto), decidi que seria uma pena estar no Sudeste da Turquia sem visitar a cidade histórica de Sanliurfa, com seu bazar famoso, seu centro antigo e a caverna onde supostamente nasceu o profeta Abraão. No caminho, passaria por uma zona rural cheia de pés de pistaches, perfeita para tirar algumas fotos para a reportagem.

Então, na sexta-feira passada, parti para Sanliurfa de manhã. Mas nunca cheguei ao meu destino.

Meu Peugeot alugado faz pose ao lado do pomar de pistache

Meu Peugeot alugado faz pose ao lado do pomar de pistache

É que tenho um vício. Me bota num carro de aluguel e me dá um mapa que mostra estradas rurais pequenas e tortuosas que passam por povoados com nomes exóticos marcados com pontinhos pretos – de jeito nenhum que vou seguir pela estrada principal.

Foi assim que minha viagem pela estrada moderna de 145 quilômetros entre Gaziantep e Sanliurfa acabou, depois de 50 quilômetros, na cidadezinha de Dutlu, onde peguei uma estrada velha e empoeirada que ia até lugares chamados Baglica, Guzelkoy e Gulkaya. Até havia uma placa indicando que a estrada era ruim. Perfeito.

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Não sei o que acontece comigo, mas quando saio de uma estrada moderna, anônima e lotada de caminhões e entro numa estrada estreita, ruim e praticamente vazia me sinto liberado. Cinquenta metros depois de sair da estrada principal, duas crianças de bicicleta passaram por mim. Bom sinal. Nos dois lados, pés de pistaches, perfeitos para fotos. E em pouco tempo, cheguei ao primeiro pontinho preto do mapa, Baglica.

Impossível não virar à direita

Impossível não virar à direita

Gostaria que Baglica fosse um vilarejo pitoresco, com casas tradicionais e alguns homens com cabelos brancos tomando chá num café que existisse desde o século 17. Não foi bem esse o caso. Baglica era um lugar feio, com casas de cimento e maquinário agrícola enferrujado. Tudo bem. O mundo não produz cenários fotogênicos sempre. O importante, pensei, era conhecer as pessoas que moram nesse lugar. Só que não tinha ninguém na rua, e nenhuma loja ou café para bater papo com o dono.

A segunda cidade, Guzelkoy, era igualmente feia, mas pelo menos havia uma pessoa viva na rua. Saí do carro para tirar fotos do lugar e ele me lançou um olhar esquisito. Sorri, falei um “oi” e tentei usar minhas poucas palavras em turco (“turist”, “fotograf makina”, “Amerikan”) para me comunicar. Ele não respondeu, mas anotou o número da placa do carro num bloco como se eu fosse um espião. Tchau.

Difícil acreditar que, num país onde não tem guerra nem guerrilha, nem muito crime, todos os residentes de uma zona rural sejam tão antipáticos. Imaginei que, por azar, tinha encontrado a pessoa mais mal-humorada da região e decidi seguir em frente.

E minha sorte mudou no pontinho preto seguinte do mapa, Intepe. É uma cidadezinha um pouquinho maior (500 habitantes!) e um pouquinho menos feia (mas não muito!). Saí do carro para tirar fotos de um bando de gansos – não porque eu gosto de gansos, mas porque eu queria sair do carro. Alguns segundos depois, um senhor de cabelos brancos chegou e me virei para cumprimentá-lo.

A cidadezinha de Intepe

A cidadezinha de Intepe

“Olá!”, falei em inglês, mostrando um sorriso largo. “Não falo turco! Turista! Fotografia! Pistaches!”

E começou uma dessas conversas que era ele falar turco com sinais e eu falar inglês com sinais e ninguém entender as palavras, mas os dois entenderem o sentido. Tradução:

“O que você faz aqui? Em Intepe?”

“É que estava indo a Sanliurfa e vi no mapa essas cidades e queria ver e tirar fotos.”

“Entendo! Está com fome? Quer visitar minha casa?”

Hmmm, deixa eu pensar. Visitar a casa de uma família muçulmana na Turquia rural? Ver onde, como e com quem eles vivem? Compartilhar uma refeição com eles? Fazer novas amizades?

0,000000001 segundo depois, respondi: “Claro que quero!” (A pessoa que, no meu lugar, respondesse “não” está proibida de ler minha coluna para sempre.)

Perihan serve meu almoço. Também na foto, Nuveram e o neto Abdullah

Perihan serve meu almoço. Também na foto, Nuveram e o neto Abdullah

Nuveram Danaoglu (o nome do meu novo amigo turco) e eu passamos por seu jardim bem cuidado, com pés de romãs e videiras e uma rede para descansar. Em seguida, entramos em uma dessas salas que você sempre vê nos filmes e noticiários sobre o mundo muçulmano: sem móveis, com tapetes no chão e almofadas nas paredes. Foi assim que descobri que dentro de uma cidade feia estava escondida uma casa linda.

Conversamos sobre a comida turca (contei tudo o que tinha comido – praticamente as únicas palavras em turco que sabia falar) e falamos das cidades no meu mapa. Pouco a pouco, chegaram outros membros da família Danaoglu – a mulher dele, Perihan, com véu e roupa tradicional, e filhos e netos em roupa ocidental, que começaram a fazer as perguntas que todos os turcos aprendem no primeiro dia da aula de inglês.

“Qual é seu nome”

“De onde você é?”

“Que idade você tem?”

Música de baglama, um instrumento tradicional turco

Música de baglama, um instrumento tradicional turco

Só faltava “The book is on the table”, mas acho que na Turquia não aprendem isso porque em casas tradicionais, como a do Nuveram, não tem mesa.

Depois, “conversamos” sobre outros assuntos internacionais: futebol, por exemplo. Eles disseram o nome de alguns jogadores (Messi, Ronaldinho), eu dei minha opinião (e ensinei como pronunciar “Ronaldinho” em português). Também mostrei as fotos que tinha tirado em Gaziantep.

O Abdullah, 12 anos, até falou um pouco de inglês mesmo e uma menina que se chamava Nur, 11, foi procurar seu caderno escolar de inglês, que eles usaram como dicionário. Alguns dos adultos me filmaram com celulares. Eu, claro, tirei muitas fotos.

Gringo Come Comida Turca

A família ficava mais simpática a cada minuto. Um dos meninos só falava duas coisas em inglês: “Perfect!” (“Perfeito”) e “I love you”. Mas ele usou as duas expressões de forma muito criativa. Tipo, “Intepe, perfect?”. “Evet, evet!”, respondi, “sim” em turco. E depois, apontando para mim, perguntou “Turkey I love you?”. “Evet, evet,” respondi. E ele: “America I love you. Seth I love you.”

O show começa: americano come, turcos observam

O show começa: americano come, turcos observam

E chegou o momento esperado: a comida. Um prato cheio de arroz em estilo turco, frango grelhado e pão muito fino que servia como talher. Uma salada de tomates e pepinos. E dois pratos de pimentas verdes (apimentadas, como todas as pimentas da região). Fiz um sinal do tipo: “vamos comer todos!” Só que todos os outros indicaram que já tinham comido. Era tudo para mim.

O show começou. Ao vivo, de Intepe: Gringo Come Comida Turca. Vai gostar? Vai conseguir comer tudo? Tentei ser muito cortês, pausando cada minuto para dizer para a Perihan que toda comida era muito gostosa (e era). Também fiz uma piada, falando “Turquia, frango, salada, pistaches, eu…” e apontando para minha barriga que estava crescendo rápido. Todos riram. (Acho que o turista que não fala o idioma local e consegue fazer até a pior piada ganha risos automáticos pelo seu esforço.)

Depois, eles me levaram para a casa vizinha, onde morava o lado musical da família. Nos sentamos no tapete da sala, de novo, e o pai (filho do Nuveram e Perihan, pelo que entendi) começou a tocar o baglama, um tipo de violão turco. Os filhos dele, Haluc e Nur, também tocavam e cantavam. Fique emocionado pensando na sorte que tive de participar de um algo tão especial, tão longe do meu país.

Tour pela "cidade"

Tour pela "cidade"

Depois um grupo de meninos me levou para caminhar pela cidade e pelos pomares. Foi legal, mas o sol estava bem forte e, segundo eles, havia perigo de cobras. Fiquei feliz quando voltamos.

Já era quase 18h quando parti de Intepe. Recebi vários abraços fortes, alguns beijos no rosto (dos meninos), e vários “I love you”s, claro. Das meninas e mulheres, só um “prazer” e um tchau com a mão. Fiquei pensando como teria sido se eu fosse mulher. Teriam me convidado para a casa? Teria conseguido falar mais com as mulheres? Ou menos? E se tivesse chegado como parte de um casal? Teria sido diferente? Obviamente, tinha muito para aprender sobre a sociedade turca.

Mas apesar das perguntas sem respostas, saí de Intepe pensando em quão incrível havia sido minha experiência, algo que vou lembrar por muitos anos e que vou contar para muitas pessoas. Qual foi a melhor parte? Tenho quase certeza de que o Nuveram, a Perihan, os filhos e os netos também vão lembrar por muitos anos, e contar para muitas pessoas, do turista que chegou ao seu pontinho preto no mapa e passou a tarde com eles.

Quanto à cidade de Sanliurfa? Deve ser maravilhosa, e algum dia espero chegar lá.

Continue lendo:

Seth erros para não fazer se você quiser conhecer a cultura local


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Seth Erros | 07:35

Seth erros para não fazer se você quiser conhecer a cultura local (na Turquia e no mundo)

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- Leia também: Minha viagem incrível para Sanliurfa (sem chegar a Sanliurfa)

1) Ficar mudo só porque você não fala o idioma do lugar. Existem muitas formas de se comunicar: sinais, desenhos, gestos, sorrisos.

2) Pensar que as únicas diferenças entre tomar um ônibus e alugar um carro são o preço e o conforto. A diferença mais importante é o poder explorar lugares e parar onde quiser.

3) Sempre seguir a rota do Google Maps ou do GPS. A vida local não se vive nas estradas ou avenidas principais.

4) Desistir de conversar com todos os habitantes locais só pelo azar de o primeiro deles ser chato.

5) Tentar fomentar uma revolução na cultura local. Costumes de milhares de anos não vão mudar pelas ações de um turista que passa uma hora num lugar. Aprenda tudo que for possível e leve esse conhecimento com você para usar (e fomentar revoluções, se quiser) no futuro.

6) Esquecer que um país grande não tem uma só cultura. Na Turquia, por exemplo, os direitos das mulheres e dos gays são muito mais avançados em Istambul do que no Sudeste tradicional.

7) Na Turquia, visitar só Istambul e a costa. O Sudeste está cheio de tradições diferentes e tem uma história fascinante e uma comida maravilhosa.

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  1. Sete erros para não cometer quando comer uma pizza na viagem
  2. Sete erros para as atrações imperdíveis
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terça-feira, 5 de julho de 2011 Seth Erros | 20:01

Seth erros de quem vive arrumando desculpa para não viajar

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- Leia também: Não há desculpa para não viajar

1) Pensar que você não pode viajar por causa da idade ou de uma deficiência ou de restrições à dieta. Sempre tem um jeito.

2) Para pessoas com restrições alimentares, viajar sem levar comida de emergência (como os amendoins da minha mãe).

3) Para pessoas que tomam remédios, viajar sem estoque extra (e divididos entre várias malas se uma delas se extraviar).

4) Viajar sem levar os contatos dos seus médicos.

5) Não saber como ligar para seu país a partir de outro país. Se seu celular não funciona, abra uma conta do Skype para ligar de um computador para telefones fixos ou celulares.

6) Se viajar para um país que fala um idioma diferente, leve um papel no idioma local que explique seus problemas de saúde em caso de emergência. Se não encontrar on-line, você sempre pode recorrer ao Google Tradutor.

7) Cometer um crime. Na cadeia, é difícil mesmo viajar.


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Autor: Seth Kugel Tags:

Estados Unidos, Europa | 20:00

Não há desculpa para não viajar

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Existem muitas desculpas para as pessoas que têm medo de viajar. Aceito somente três, e só na forma temporária:

1) Não tenho dinheiro (agora).
2) O consulado não me deu visto (desta vez).
3) Meus filhos são muito pequenos (ainda).

Ah, ok, “estou na cadeia” também funciona. Difícil mesmo viajar. Mas qualquer outra desculpa – sou velho demais, tenho dieta restringida, nunca fiz antes, tenho medo etc, nem me fale.

Meus pais em lua-de-mel em Antígua

Meus pais em lua-de-mel em Antígua

A contraprova, para mim, são meus pais, Peter e Judy Kugel, que me levaram nas minhas primeiras viagens quando eu era criança – e eles ainda podiam fazer tudo. E agora que estão mais maduros (81 anos e 73 anos, respectivamente) e têm vários problemas de saúde (meu pai, por exemplo, tem mal de Parkinson, e minha mãe não pode ingerir nem um miligrama de glúten sem que isso cause complicações)? Ainda fazem quase tudo.

Não acredita? É só ver as fotos deles o ano passado comigo na Nicarágua: meu pai ajudando a empurrar o carro que ficou atolado na lama em uma Zona Rural sem sinal de celular para pedir ajuda, ou minha mãe comendo “quesillos” nicaraguenses numa barraca simples que ficava em uma estrada rural. Eles podem e você não? Credo.

Na semana passada, escrevi sobre nossa viagem recente à Croácia. Fiquei impressionado (mais uma vez) com a flexibilidade e habilidade dos dois como viajantes e decidi fazer uma entrevista com eles por telefone da Turquia, onde estou agora. A ideia original era entrevistar minha mãe primeiro, e depois meu pai. Só que minha mãe ficou na linha durante a segunda entrevista e não resistiu: teve de interromper meu pai. Para variar.

Primeira viagem de verão em família, em Wyoming, EUA (nem sei quem é o cara no lado direito)

Primeira viagem de verão em família, em Wyoming, EUA (nem sei quem é o cara no lado direito)

Seth Kugel: Mãe, você pode explicar sua doença?
Judy Kugel:
Faz muuuuito tempo que estou viajando, mas há 11 anos fui diagnosticada com a doença celíaca, o que significa que não posso comer nada com glúten. E muitas coisas contêm glúten: pão, por exemplo, assim como qualquer receita feita com farinha de trigo, centeio, cevada ou aveia. [Uma observação: Faz mais de uma década que minha mãe não toma uma cerveja. Tadinha.
Seth Kugel:
Por isso, em Cambridge [cidade dos Estados Unidos onde moram], vocês quase nunca comem em restaurantes. Na viagem, isso é impossível de evitar. Como isso te afeta?
Judy Kugel: Nunca vou parar de viajar, mas é verdade que tudo fica mais complicado. Você chega a um restaurante e no primeiro momento eles trazem à mesa um pão maravilhoso com azeite de oliva fino. Aí você fica pensando: “Tô morrendo de fome e não posso comer nada ainda.” Mas isso não é razão para não viajar. Às vezes é só um ajuste – adoro sorvete, mas não posso pedir uma casquinha. Às vezes é mais difícil. Quando estou na França, é extremamente difícil não comer um croissant.

Seth Kugel: Precisa levar comida com você?
Judy Kugel: Sempre viajo com alguma proteína e algo que contém ferro, normalmente um pacote grande de amendoim com uvas passas. Quando volto para casa nem posso olhar um amendoim por um mês. Mas na viagem isso me sustenta.

Família em viagem pela Croácia

Família em viagem pela Croácia

Seth Kugel: E o idioma? Como explica para os garçons uma situação tão perigosa se eles não falam o mesmo idioma que você?
Judy Kugel: Existem cartões na internet que explicam a doença em muitos idiomas. Quando visito um país, sempre imprimo o cartão do no idioma local. Mas acontece que em alguns países é até mais fácil para um celíaco comer que nos Estados Unidos. Em muitos países da América Latina o milho é a matéria-prima para cozinhar, e isso eu posso comer. Quando te visitamos no Brasil, adorei aquele pão impossível de pronunciar [pão de queijo] feito com farinha de mandioca. Agora encontramos um mercado brasileiro perto da casa que vende esse pão congelado e fazemos em casa.

Seth Kugel: Em algum momento a doença interfere na escolha dos destinos?
Judy Kugel: Eu não desconsidero nenhum país, mas é verdade que quase sempre que viajo perco peso porque não corro riscos. Existe um clube de viagens para celíacos, mas nunca pensei em viajar com eles. A verdade é que nunca deixaria de viajar por isso porque as viagens enriquecem minha vida mais que qualquer outra coisa.

Seth Kugel: Qualquer outra coisa?
Judy Kugel: Exceto meus filhos.

A família Kugel em Zimbabue

A família Kugel em Zimbábue

Seth Kugel: Boa resposta. Pai, eu acho que apesar do mal de Parkinson e das outras doenças que você tem, você está melhor do que a maioria dos homens de 81 anos. Mas, ainda assim, isso deve causar problemas na hora de viajar, né?
Peter Kugel: Sim. Devido à apneia de sono preciso viajar com uma máquina que se chama CPAP. É um incômodo porque é difícil passar pela segurança no aeroporto. Quando fomos para Cuba, me pararam na alfândega e fui o último do grupo a sair. Quase perdi o ônibus porque nunca tinham visto aquele aparelho. Além disso, em qualquer quarto de hotel sempre preciso de uma tomada ao lado da cama. Em casa eu sempre durmo do lado direito da cama; e na viagem às vezes preciso trocar de lugar com sua mãe. Mas são só pequenos obstáculos.

Seth Kugel: E o mal de Parkinson?
Peter Kugel:
Afeta muito minha mobilidade. Antes sua mãe e eu sempre andávamos de 30 km a 40 km de bicicleta por dia. Agora não podemos mais. Eu sempre era o mais forte do grupo e, de um dia para outro, deixei de ser.
Judy Kugel:
Aos 77 anos ainda era. Aos 78 não.
Peter Kugel:
Na Croácia, tive problemas no caminho para uma caverna por causa das pequenas pedras soltas. E para chegar a uma das casas onde ficamos, em Dubrovnik, era preciso subir muitas escadas. Isso foi difícil.
Judy Kugel:
Seu pai está exagerando. Ele lida muito bem com as situações e acho que nunca desistiríamos de uma viagem por causa de sua incapacidade.
Peter Kugel: É verdade, nenhum problema me impede de fazer algo. Só fica um pouco mais difícil.

Meus pais e meu irmão em Bariloche

Meus pais e meu irmão em Bariloche

Seth Kugel: E sua companheira da viagem?
Peter Kugel: Ajuda muito. Nos damos muito bem, mas nós discutimos às vezes por bobagens (ou pequenas coisas), segundo meus filhos.

Seth Kugel: Então, muita coisa mudou nas suas viagens por causa de doenças ou idade?
Judy Kugel:
Em geral, não. Viajamos muito bem, e acho que nosso estilo não mudou muito.
Peter Kugel:
Algum dia, nem sei quando, vamos ter que começar a viajar em cruzeiros ou outras alternativas, onde cuidam mais de você.
Judy Kugel: Mas não somos o tipo de viajante que gosta de ficar no ônibus com um monte de velhinhos, porque não nos consideramos velhos. Adoramos as pessoas jovens e achamos que nos damos bem com eles.

Meus durante a última viagem feita à Croácia

Meus pais durante a última viagem feita à Croácia

Seth Kugel: Mas em algum momento vocês ficam preocupados por estar longe dos seus médicos se acontecer algo?
Peter Kugel:
Quando viajamos com você para a Nicarágua, poderíamos ter contratado um seguro de saúde que incluía o transporte por helicóptero se algo acontecesse conosco. Mas não fizemos isso. Hoje em dia os serviços médicos do mundo todo estão melhores que nunca e sempre podemos ligar para nossos médicos nos Estados Unidos.
Judy Kugel: Tudo que você faz na vida envolve algum risco. Se tivéssemos medo de viajar e ficássemos em casa, sem dúvida alguma, o telhado cairia sobre nós.


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Autor: Seth Kugel Tags: ,