Jackson Heights: Nova York como você nunca viu
Em 2006, comprei um apartamento em Jackson Heights, Queens (um dos cinco “boros” da cidade de Nova York – os outros são Manhattan, The Bronx, Brooklyn e Staten Island). Escolher um bairro para morar em Nova York é uma decisão crucial: a primeira pergunta que outro nova-iorquino faz ao te conhecer é: “onde você mora?”. Não é para saber quanto dinheiro você tem – para isso perguntam “o que você faz?” ou olham seus sapatos -, mas para saber quem você é.
Eu sou muito Jackson Heights.
Pode ser que eu seja parcial, mas, para mim, quem não conhece Jackson Heights não conhece Nova York. Não me refiro aos museus, ao Central Park, aos restaurantes, à Quinta Avenida… Mas, na última década, Manhattan tem virado, pouco a pouco, um parquinho de diversões para os ricos. Os imigrantes, os artistas, a classe média – as forças vitais da cidade – se mudaram de lá. No meu bairro todos se misturam, produzindo uma criatividade caótica e uma tolerância admirável. Além disso, é um paraíso para quem ama viajar. Nas ruas, o inglês é o idioma que menos se escuta. Ali, é possível visitar a Colômbia, a Índia, o Uruguai e a Itália em cinco minutos, a pé. (O que é bom, pois quase nenhum nova-iorquino tem carro.)

Os apartamentos "Greystone", num quarteirão considerado um dos 50 melhores de Nova York, pela revista Time Out
Então, escolha um hotel em Manhattan, suba no Empire State quantas vezes quiser, passe um dia inteiro admirando a arte no MoMA, faça suas compras no Century 21, jante no Daniel, saia de madrugada no Meatpacking District. Mas reserve uma tarde para visitar meu bairro. De metrô, você só leva 22 minutos do Empire State à estação Roosevelt Avenue, mais rápido do que ir de Wall Street ao Metropolitan Museum of Art.
Chegando à estação, procure a saída principal e saia na Roosevelt Avenue, embaixo dos trilhos elevados do trem 7. Se não errou, verá dois ou três carrinhos de tacos mexicanos – é óbvio que você vai comer um. Preste atenção: se houver três carrinhos, vá ao do meio. Só dois, vá ao da esquerda. (O terceiro, às vezes, some. Não sei o motivo). No seu melhor sotaque mexicano peça “un taco al pastor”, ou seja, carne de porco com pedacinhos de abacaxi. Se te perguntarem “¿con todo?”, significa cebola, coentro e guacamole. A pimenta do carrinho é super forte, mas não se preocupe, é você quem a coloca.
Um taco custa dois dólares, muito barato, pois não é comida para turista nem para americano: os clientes são os imigrantes mexicanos do bairro, que trabalham muito, ganham pouco e só comem tacos verdadeiros.
Procure a 74 th Street e vire à direita. Acaba de entrar no bairro indiano. Bijuterias, lojas de saris (a roupa tradicional da mulher indiana) e de DVDs de Bollywood, tudo num só quarteirão. É fundamental entrar no supermercado Patel Brothers. Se você acha que supermercado não é uma atração turística, vai mudar de ideia. Ali, você pode passar uma hora vendo diversos produtos exóticos. Quando for embora, fale um “oi” para Jadeja Mahendra, vendedor de mangas do Patel. Ele fica o dia inteiro ao lado da saída principal, na rua. Há anos esse cara está aí e suas mangas são as mais baratas de Nova York.
Ainda na 74 th Street, há muitos restaurantes indianos com “buffets” de almoço onde é possível comer à vontade por 8 ou 9 dólares. (Em Manhattan, você paga 8 ou 9 dólares por um drinque.) Outra opção para seu almoço é virar à direita na 37th Avenue e comer no restaurante nepalês Thakali Kitchen (um dos poucos do gênero em Nova York). Os “momos” - “dumpling” estilo nepalês – são ótimos. Outra boa opção é a Elmhurst Pizza, que serve pizza em estilo grego. Para entrar no espírito do bairro, peça sua pizza “indo-pak”, com curry, cebola, alho e um monte de pimentas jalapeños. Cuidado: é muito, super, nuclearmente apimentada.
Continue na 37th Avenue. O coração residencial do bairro fica nos quarteirões a sua esquerda. Os prédios históricos de tijolo foram construídos na primeira metade do século 20, como parte do movimento mundial “Cidade Jardim”, uma tentativa de maximizar os espaços verdes em centros urbanos. Se você explorar as ruas da vizinhança (recomendo!), vai ver muitas árvores e flores. Porém, as partes mais verdes ficam escondidas. São os jardins interiores. Eles abrem para o público apenas uma vez por ano, em um domingo de junho. A data está chegando, dia 19. Se, por coincidência, você estiver na cidade, compre seu ingresso por 10 dólares na calçada fora da igreja da 81-10 35th Avenue. Há nove jardins abertos entre 12h e 16h.

Jardim interior do Hampton Court: um dos nove jardins do bairro que abrem ao público apenas uma vez por ano
Voltando à 37th Avenue, ao seu lado esquerdo, há mais um supermercado para visitar, o Trade Fair. Ele vende produtos importados de quase todos os países de imigrantes que moram no bairro. É incrível! Para os equatorianos, cobaia congelada – ao lado da polpa de graviola (sério!). Para os colombianos, arepas. Para os indianos, mil temperos. Ah, e se você não acredita que num país tão avançado como os Estados Unidos seu hotel não tem adoçante líquido para o café, o Trade Fair vende Zero-Cal importado do Brasil. Fica perto do Nescau.
Na 77th Street, no lado direito, há uma escola pública. Se passar por lá entre 14h e 15h, observe a diversidade de pais e mães esperando os filhos na saída. Bangladeshianos, americanos, colombianos… Os pais se reúnem por nacionalidade e idioma, mas pode ter certeza de que dentro da escola seus filhos são amigos, falam inglês entre eles e formam a próxima geração de nova-iorquinos. O produto mais interessante do bairro pode ser a comida. Mas o “produto” mais importante do bairro são os cidadãos americanos.
Nossa, falta muito. Precisa de um banheiro? Há um Starbucks quase chegando à 79th Street (minha rua!), mas não compre nada. (Não leu a coluna da semana passada?) No próximo quarteirão, há o Rudy Volcano, uma lojinha linda. O proprietário, Rudy, importa objetos de arte e roupas da Guatemala, sua terra natal, e vende, principalmente, para clientes americanos. Quase tudo no bairro é barato. Rudy Volcano é a exceção.
Agora, você chegou à “Pequena Colômbia”. Em muitas padarias, você pode provar os pães colombianos com queijo (os “pandebonos” ou “panes de queso”), mas vou sugerir outra opção, típica da cidade de Cali: o “tcholado”. Leva frutas, sucos, leite condensado e gelo. Uma delícia, sobretudo no verão sufocante nova-iorquino (que está chegando). Pode comprar seu “tcholado” na pequena La Paisa Bakery, na 82 th Street, muito perto da esquina com a 37 th. Um pouco depois, dê uma olhada na Aroma de Mujer, loja de roupas colombianas no lado esquerdo da 37 th. Muitas imigrantes colombianas não gostam dos cortes dos jeans, calcinhas e biquínis americanos e procuram roupas produzidas no seu próprio país.
O próximo destino é uma padaria uruguaia: La Nueva Bakery, na 86-10 37th Avenue. (Cuidado, também existe um restaurante que se chama La Nueva, dos mesmos donos). Sente-se para tomar um café ou o ótimo refrigerante uruguaio El Paso de los Toros (sabor grapefruit), acompanhado por um genuíno alfajor uruguaio.
Acabou o seu tour. Pode voltar a Manhattan pela linha 7 (a parada mais próxima está na 90 th Street com a Roosevelt Avenue) ou ir a pé para a estação da 74th (andando pela movimentada Roosevelt para pegar a linha E ou a F).
Claro que você poderia explorar mais o meu bairro e ficar para jantar no La Fusta, um restaurante argentino muito mais barato do que os existentes em Manhattan. Lá, o “bife de chorizo” é perfeito, o vinho é barato, o serviço é ótimo e a sobremesa de “crêpes flambées” com doce de leite é de morrer. Mas não é que tinha algo superimportante e superchique para fazer em Manhattan?
SETH ERROS
para evitar em Nova York e Jackson Heights.
1) Visitar a cidade e ficar só em Manhattan.
2) Desistir de ir para Jackson Heights por achar complicado chegar. Pode ir direto por três linhas do metrô: a E (pela Eighth Avenue), a F (pela Sexta Avenida) e a 7 (pela Rua 42). Se for pela E ou pela F, desça na estação Roosevelt Avenue-Jackson Heights; pela 7 desça na 74th Street-Roosevelt Avenue).
3) Comer antes de ir a Jackson Heights. (O ideal: jejum por três dias. O aceitável: não tomar café de manhã).
4) Preocupar-se com a limpeza dos carrinhos de tacos. São todos inspecionados pela prefeitura. Pode ser que os trabalhadores lá dentro sejam ilegais, mas a comida é legal.
5) Desistir de La Nueva Bakery porque está sem fome. Leve um alfajor coberto de chocolate para viagem e coma no dia seguinte em Manhattan, preferivelmente na calçada, para que os demais turistas morram de inveja.
6) (Só para mulheres) Perder a oportunidade de conversar com a dona colombiana da loja Aroma de Mujer sobre o mau gosto das norte-americanas.
7) Tentar encontrar o restaurante argentino La Fusta sem imprimir este mapa.
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18 comentários | Comentar
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18 Adonis 08/06/2011 11:29
Cara,
Parabéns pelo seu trabalho.
Este blog é muito bacana e ler essas dicas sobre viagem faz agente se sentir na própria viagem. Parece que todo lugar é interessante e agradável. E realmente é.
Ler o seu blog é bom pra qualquer um, pra quem vai viajar e para quem não vai. É aprender sobre outras culturas e saber que não importa o destino, a viagem é você quem faz.
Sabia que lendo esses textos da vontade de viajar na própria cidade? Porque percebemos que é possível conhecer coisas interessantes em qualquer lugar. Muitas vezes fazemos tudo no piloto automático, sem nos preocupar em sentir.
Valeu.
17 THELMA CRISTINA 08/06/2011 12:38
QUE DIGAS EXTRAORDINARIAS – ASSIM E CONHECER PRECIOSIDADES TAO BEM ESCONDIDINHAS!PARABENS!!
16 Andre 08/06/2011 13:03
Voce esqueceu de dizer que quem quizer pode pegar o trem R, e na roosevelt tem um centro espirita brasileiro, e quem quizer pode combrar otimos vinhos na licour da 74. Ja morei ahi, agora moro em Astoria,otimo bairro tambem. abraços.
15 Suely 08/06/2011 16:31
Existem algumas matérias, como essa tão interessante por exemplo, que tento enviar por email, faço todo o procedimento mas não é enviada porque será, por favor verifiquem para que seja providenciado esse problema. Já tem acontecido algumas vezes. Grata.
14 Mari Campos 08/06/2011 18:13
Putz, vontade de Jackson Heights djá!
13 Rê 09/06/2011 8:02
amei; suas dicas são demais!!!
12 Leandro Peixoto 09/06/2011 10:10
Não li toda a reportagem, mas ao que parece existem dicas legais do que fazer em New York fora do roteiro principal. Pode ser útil
Beijos
11 alec breve 09/06/2011 11:33
Estarei em Jackson Heights em setembro. Obrigado Seth pelas dicas. Alec.
10 Carlosny 09/06/2011 12:22
Parece que todo Heigths de NYC é legal. Semana passada eu estava na cidade e depois de visitar o Museu Cloisters em Washington Heigths, resolvi almoçar por lá mesmo antes de usar o mesmo ingresso no MET. Vale a pena. Os preços são bem camaradas já que apesar de ficar na “ilha” quem mora no entorno são imigrantes. Mas se vc for conhecer algum destes lugares fora dos guias turisticos, vá com descrição. Apesar do blogueiro não informar. Acontecem alguns furtos de celulares, cameras e etc..
9 Sandra 09/06/2011 12:39
Eu adoro Jackson Heights, meus amigos tambem moram la. Alias, ir em New York, a melhor coisa e nao fazer aquele programa “chavao”. O bom mesmo e descobrir lugares inusitados. E e esse definitivamente e um deles. Outro lugar que eu amo, e Brooklyn.
8 Cristina Pereira 09/06/2011 13:06
Obrigada por me trazer aquelas ruas de volta na memória. Os cheiros, as cores.
Você conseguiu capturar o espírito dos que escolhem New York com o coração.
Grande abraço,
Cris.
7 Guilherme Santos 10/06/2011 12:12
Muito interessante! Já vou incluir no meu plano de viagem pro segundo semestre! Tks!!
6 Alessandra NY 13/06/2011 0:15
Morei em Jackson Heights por quase 6 anos e assino embaixo. O bairro é incrível e acolhedor.
E extremamente seguro. É mais fácil ser roubado em Manhattan – o que também seria raro – do que em JH.
Parabéns pela matéria Seth. Não conhecia a dica do argentino. Vou conferir.
Só que continuarei cometendo o erro número 4:))
5 Raquel 17/06/2011 10:00
Seth,
Acabei de voltar de NY e quero ir de novo por sua causa! rsrs!
Ótima a sua coluna!
4 igor 30/06/2011 1:09
Pode ate ser interessante para quem e turista e nao conhece. A reportagem e interessante, mas I`m so sorry, I`m out of it.
3 Deise Marinho 27/07/2011 12:03
Olá! moro em Astoria e por causa desta reportagem, vou dar um pulinho pra conhecer este bairro encantador! Parabens pelo blog!
Deise
2 João Vergel 24/08/2011 23:37
Morei durante 1982 na Hampton, e nos fins de semana passeava pelo bairro, principalmente pela 82nd e 37th ave. Eu “paquerava” uma colombiana linda que ficava na bilheteria do cinema à noite, quando voltava da escola. Mas o gerente fazia uma “marcação” que atrapalhou intentos futuros. Muitas histórias: minha cabeça está a mil …
1 Fabio 17/09/2011 19:06
Comprei um apartamento aqui ano passado. To gostando bastante tambem. Engracado… a minha irma no Brasil foi quem me falou to teu blog. Valeu.