2011 maio | Viagens com Seth Kugel - iG

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Arquivo de maio, 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011 Europa | 08:00

O lado multicultural de Londres

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Eu não sou travesti, juro. Mas numa tarde de janeiro passado quis muito me vestir de mulher. Para ser específico: mulher muçulmana.

Deixe-me explicar. Foi durante uma viagem a Londres em que tinha decidido visitar Green Street, um bairro de imigrantes em East London. Cheguei em um destes ônibus vermelhos de dois andares e, quando desci, tinha esfriado muito e começava a chover. Pior, eu tinha esquecido meu casaco no hotel. Neste mesmo momento passaram por mim três mulheres vestidas com burcas (essa roupa muçulmana que cobre o corpo inteiro, da cabeça aos pés). Tive dois sentimentos ao mesmo tempo. O primeiro foi o choque maravilhoso do turista de “Cheguei a outro mundo!”. O segundo foi inveja: a roupa pareceu tão prática para um inverno londrino. Queria uma.

Fotos Seth Kugel

Mulheres muçulmanas apreciam vitrine de loja de roupas indianas, na Green Street

Não quero entrar na polêmica sobre burcas e o tratamento dado à mulher no Islã. Mas ver mulheres andarem com burcas durante horas após ficar maravilhado com obras de grandes mestres do Renascimento, na National Gallery, na Trafalgar Square, é um dos prazeres que só acontece nos grandes polos de imigração.

E Londres, como Paris, Nova York e Los Angeles, é um deles (São Paulo também já foi, mas faz tempo que a maioria dos seus sírios, espanhóis, italianos e japoneses foi abrasileirada). Em Londres, Green Street é um dos centros principais de imigração da Índia e de seus vizinhos, esse subcontinente hindu e muçulmano que tem uma história longa e complicada com o Reino Unido, seu ex-colonizador.

Se é só curry (o que em Londres é sinônimo de comida indiana) o que você quer, pode ir a Brick Lane, uma rua pitoresca de prédios velhos com placas em inglês e hindi e ótimos descontos na hora do almoço. (O Aladin é um dos mais populares.)

Mas Green Street é um destino muito mais interessante – precisamente  por não ser um destino turístico, mas uma comunidade viva. Minutos depois de ver aquelas mulheres de burca, avistei uma multidão de pessoas na calçada, do lado de fora de uma loja de jornais, a East Side News. Todos estavam lendo, com grande interesse, pedaços de papel pregados na janela.

Fotos Seth Kugel

Anúncios na vitrine da loja East Side News

Fui ler os papéis, óbvio. Alguns exemplos:

“Quarto disponível só para vegetarianos, £55/semana inclui comida e luz”

“Aluga-se quarto duplo com família bangladeshi, apropriado para casal ou duas meninas”

“Quarto duplo. Procuram-se: meninos muçulmanos (indianos, paquistaneses)”.

Eram classificados, na versão vitrine! Fiquei encantado não só pelo cenário que parecia tão anacrônico no mundo virtual, mas também pelos detalhes culturais dos anúncios: “só para vegetarianos”, “procuram-se muçulmanos” etc. Nos Estados Unidos, seriam “só não-fumantes” e “animais de estimação proibidos”. Entrei na loja para perguntar se era um serviço gratuito ou se os anunciantes pagavam. Resposta: pagavam sim, £1.50 (R$ 4) por semana. No verso de cada papel – visível do lado de dentro da loja – estava a data de “vencimento” do anúncio.  Fascinante.

Próximo destino: loja de bijuterias. Normalmente não sou o tipo de homem que entra muito em joalherias – para confirmar é só perguntar às minhas ex-namoradas. Mas visitar o bairro indiano e não ver uma bijuteria é como visitar Paris e não comer um pain au chocolat. As lojas são tão exageradamente luminosas e as bijuterias tão brilhantes e cheias de detalhes que é quase impossível resistir.

Fotos Seth kUGEL

Família de imigrantes do Sri Lanka escolhem bijuterias para casamento. A noiva é a segunda do lado esquerdo

Dentro da loja, encontrei uma família inteira olhando a mercadoria… e mais ninguém. Nesses momentos, quando você se sente muito fora de lugar, sempre há duas opções: bater um papo com alguém ou ficar com vergonha e fugir. Detsa vez arrumei coragem para conversar e falei um “oi” para um homem com uma expressão de desespero, tipo “homem-esperando-mulher-em-loja-de-sapatos”.

“Quem vai se casar?”, perguntei. Ele apontou para os noivos (que acenaram um “oi”) e nós dois começamos a conversar. Sua família era do Sri Lanka, um país que sofreu uma terrível guerra civil entre tâmeis e cingaleses; sua família foi para a Inglaterra para escapar da violência; só a mãe dele ficou na ilha, localizada perto do subcontinente indiano.

Dei meus parabéns para o casal e fui para o próximo destino imperdível: uma doceria. Adoro os doces indianos (bom, não é surpresa, adoro todos os doces). São feitos à base de leite, têm cores quase néon e, às vezes, vêm embrulhados em papel-alumínio comestível.

Fotos Seth Kugel

Doceria indiana no bairro londrino

Escolhi o Eastern Goods (165 Green Street), onde o balconista reconheceu meu sotaque norte-americano e conversou comigo sobre sua estadia nos Estados Unidos. Quando escolhi doces para levar, ele me presenteou com vários extras.

Só faltava jantar (antes de comer os doces, claro). O homem na loja de joias tinha me explicado que o centro da comunidade do Sri Lanka não se encontrava na Green Street, mas na High Street, a 15 minutos a pé na direção leste e perto da estação de metrô East Ham. Me perdi totalmente e cheguei lá 40 minutos depois (sem a ajuda do meu mapa  turístico, que não incluia esta área.)

Em uma loja de comidas importadas do Sri Lanka, pedi dicas de restaurantes. Me mandaram para Thaykam (278 High Street), um self-service onde se come à vontade por £4.99 (R$ 13). A comida era muito parecida com a indiana: curries, grão-de-bico, verduras cozidas. Perguntei para outro cliente qual era a diferença. Mas ele era indiano e brincou: “Não existe tradição culinária no Sri Lanka. Roubaram tudo da gente”.  Ri, mas não acreditei.

Green Street e Brick Lane não são os únicos lugares onde se pode aprender sobre os indianos. O museu Victoria & Albert (o “V&A”) reúne peças de arte e móveis de todo o ex-império britânico. Lá estão muitos tesouros da Índia, inclusive um tigre, feito de madeira, dominando um soldado britânico com uma mordida no pescoço. Mas não é apenas uma escultura: uma manivela mexe o braço do homem e a boca do tigre; o homem grita e o tigre ruge. E – li, mas quase não acreditei – no tronco do tigre há um…órgão musical! Pertencia a Tipu Sultan, um líder indiano que (adivinhem só?) era conhecido por ser inimigo dos britânicos.

Só essa obra valeria o preço do ingresso do museu – isso se a entrada fosse cobrada. Em Londres os museus são quase todos de graça.  O mesmo preço, por coincidência, de uma caminhada pela Green Street.

SETH ERROS

PARA EVITAR EM UMA VIAGEM A LONDRES

1) Limitar-se ao mapa turístico. A estação do metrô onde se encontra Green Street (Upton Park) fica fora da maioria dos mapas – mas não do Google Maps, claro.

2) Conhecer só a “Londres europeia.”. É uma das cidades mais diversas do mundo.

3) Em Green Street, achar que todos são indianos.  Há também imigrantes do Paquistão, Bangladesh e Sri Lanka.

4) Visitar Green Street de dieta.  É só ver os doces indianos no balcão e acabou.

5) Ter medo de perguntar.  Não existe guia para te explicar tudo o que acontece em Green Street (apesar deste site em inglês). Você precisa pesquisar com a boca.

6) Sair de Londres sem comer curry – se não for para Green Street, pelo menos visite a Brick Lane.

7) Visitar Green Street no dia de um jogo de futebol do clube West Ham United.

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

quarta-feira, 18 de maio de 2011 Estados Unidos | 07:30

Flórida além da Disney (e de Miami)

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A cada ano aproximadamente 300 bilhões de brasileiros chegam a Orlando, Flórida, para visitar a Disney. Ok, estou exagerando. Mas se a população do Brasil fosse mais numerosa, eles teriam que abrir um consulado dentro do Castelo da Cinderela.

Arquivo pessoal

Eu e meu irmão na Disney

Não estou criticando. A Disney é ótima! Eu visitei quando tinha 6 anos e a foto minha e do meu irmão com o Pluto (não com o Pateta, conforme disse antes) virou um clássico da família (apesar do menino loiro desconhecido que entrou na foto sem a gente perceber).

Mas como para muitos brasileiros a visita à Disney é também a primeira oportunidade de conhecer os Estados Unidos, acho que vale a pena aproveitar e descobrir um pouco do que fica fora do Reino Mágico e de outros parques de diversão. Ou seja, lugares onde o Mickey e a Minnie não andam pelas ruas e uma água sem gás custa menos de R$ 4.

Trata-se de esticar a viagem por só mais dois dias, alugar um carro e explorar a região. (Ah, e visitar Miami – que fica a 365 km de Orlando – é proibido, pois é um lugar quase tão atípico dos Estados Unidos quanto a Disney).


DESTINOS

Existem diversas opções. O roteiro depende do gosto da sua família e do tempo que vocês têm. Eu fui recentemente ao Kennedy Space Center (a 87 km da Disney) e fiquei impressionado com os foguetes de verdade, os filmes Imax e as apresentações multimídia que contam a história da exploração espacial (dentro de alguns anos, vai chegar o ônibus espacial aposentado Atlantis). O Kennedy está preparado para receber os brasileiros com mapas, guias em áudio e site em português.

Fotos Seth Kugel

Menina observa ônibus espacial de longe no Kennedy Space Center

Para os fãs do automobilismo, existe o tour do Daytona Beach International Speedway de Nascar (a 120 km da Disney). Se você se programar bem, dá para assistir a uma das corridas – a mais famosa é a Daytona 500 em fevereiro.

Um pouco mais longe está a cidade histórica de St. Augustine (a 200 km), fundada pelos espanhóis em 1565. A atração que mais gostei (tirando o Luli’s Cupcakes) foi o ótimo Castelo de São Marcos, uma fortaleza que passou pelas mãos dos espanhóis, ingleses e americanos – lá, dá para ver uma demonstração de canhão feita por “soldados” vestidos com uniformes da época.

Para as crianças, há o museu Ripley’s Believe It Or Not! (em português: “Acredite Se Quiser!”) lotado de coisas bem esquisitas. Lá também você encontra a prova de que entrou numa região conservadora do meu país: no museu existe uma réplica da famosa estátua David, de Michelangelo. Mas ela fica atrás de umas árvores para que os olhos inocentes não fiquem ofendidos pelo corpo nu da obra-prima do mestre italiano. Acredite se quiser!

Fotos Seth Kugel

Fernandina Beach tem quilómetros de praia sem fim

Mais distante fica Fernandina Beach (a 310 km), uma cidadezinha com quilômetros de praias brancas e um centro histórico de casas vitorianas lindas do século 19. Não esqueça os ótimos cupcakes da Patty Cakes Bakery. (Dá para perceber que não perco a oportunidade de provar um cupcake?)

HOSPEDAGEM

Minha recomendação: fique com sua família em um motel.

Peraí. Preciso me explicar melhor.

Um “motel” em inglês norte-americano é simplesmente um hotel para motoristas (motor + hotel = motel), onde seu carro chega até a porta do seu quarto. É tipicamente mais barato e menos luxuoso que um hotel, mas tem todo o básico: banheiro, TV, ar-condicionado, camas. Camas para dormir, claro, apesar de também estarem disponíveis para outras atividades – como para crianças pularem em cima.

O motel também é um clássico das viagens em família que todos nós gringuinhos aprendemos quando crianças. Papai e mamãe no banco da frente, nós crianças atrás, a cada cinco minutos gritando “Já chegou?”. E, 253 “já chegou?” depois, finalmente chega-se ao motel perto de alguma praia ou algum parque nacional.

Fotos Seth Kugel

O Luna Sea Motel em Cocoa Beach

Existem vários tipos de motel. As cadeias nacionais, como Days Inn, onde fiquei por duas noites em St. Augustine recentemente, são perfeitamente aceitáveis. Mas é melhor escolher um motel independente, como o Ocean Mist Motel em Ormond Beach, perto de Daytona. Não é nada espetacular, mas quando passei ao lado dele em abril, fiquei impressionado com o estacionamento lotado apesar de ser fora de alta temporada. “Não pode ser tão ruim”, pensei. Pelo contrário. Descobri que aquele era um lugar simples mas limpo e bem cuidado, onde os donos – um americano casado com uma chinesa – cuidam muito bem dos clientes e promovem um clima social.

Mas nem todos os motéis são assim…  Há alguns que são sujos. Por isso, você sempre deve pedir para ver um quarto antes de pagar.

COMIDA

Para o café de manhã, tem que ir a um diner, essa clássica lanchonete americana que você já viu nos filmes (lembra a última cena de Pulp Fiction – Tempo de Violência?). A ordem típica seria pancakes, bacon e café. Só não reclame quando o café chega fraquíssimo. Assim é o café de diner: uma experiência cultural.

Para almoço ou jantar procure um “seafood shack”, casas muito informais que servem peixe e frutos do mar fritos ou grelhados. Eu posso recomendar três por experiência própria:

Fotos Seth Kugel

A varanda no restaurante Our Deck Down Under

Our Deck Down Under em Port Orange (perto de Daytona Beach) fica quase embaixo de uma ponte que liga uma ilha estreita (“barrier island” em inglês) com o continente e faz tanto sucesso que, de sexta a domingo, a fila fica tão grande que você nem deve tentar. Ok, deve, para pedir um sanduíche de mahi-mahi, camarões frescos ou ostras fritas.

Muito parecido, com mais charme mas menos estrutura é o Singleton’s Seafood Shack em Mayport (perto de Fernandina Beach). E finalmente, há o Archie’s Seabreeze em Fort Pierce, um lugar onde realmente dá para sentir que você está nos EUA. Quando eu fui lá, um guitarrista tocava e cantava ao vivo rock clássico, ao mesmo tempo em que eram servidos camarões feitos no bafo e vendidos pela libra, anéis de cebola e cerveja Budweiser.

Fotos Seth Kugel

Camarões, anéis de cebola e cerveja Yuengling no Archie's

E garçonetes que sabem tratar os clientes. Da última vez que estive no Archie’s Seabreeze, estava meio distraído com o celular, escrevendo um e-mail importante para meus chefes em Nova York, quando chegaram meus camarões. Alguns minutos depois, ainda estava escrevendo e a garçonete voltou para dizer docemente: “Os camarões vão esfriar, querido!” Fiquei surpreso. Na Disney, em Miami e em Nova York – três lugares que ficam dentro dos Estados Unidos sem fazer parte dos Estados Unidos – as garçonetes não prestam tanta atenção e não dizem “querido”.

Desliguei o celular e descasquei o primeiro camarão. Ainda estava quente.

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,

quarta-feira, 11 de maio de 2011 América Latina, Brasil | 07:30

Razões para encarar a Amazônia de barco

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Os amigos paulistanos e cariocas que me perdoem, mas meus brasileiros favoritos não conheci em terra firme. Trata-se de uma família que viajou comigo no ano passado em um barco que navegava de Manaus a Porto Velho. Era um casal rondonense com três filhas entre 3 e 10 anos: Israeli, Isabele e Valéria.

Foi no “Dois Irmãos”, um desses barcos que servem de ônibus fluvial entre cidades de Amazônia que não são ligadas por estrada. Kléber, o marido, me contou que a família tinha passado um ano e pouco em Santarém, cuidando de um parente doente. Voltavam para Porto Velho para retomar a vida que tinham antes. No início, todos iam ficar na casa de um amigo solteiro. “Todos os cinco na casa de um cara?”, perguntei, pensando no meu apartamento em Nova York. “É um amigo muito bom”, respondeu Kléber.

Fotos Seth Kugel

O barco Dois Irmãos num porto no Rio Madeira

Mas entendi bem rápido por que o amigo seria tão generoso com eles. Essa família era muito unida, generosa e extremamente doce. A menina mais velha, Israeli, passava o tempo fazendo palavras cruzadas e tentando aprender um jogo de cartas com duas senhoras peruanas. Isabele recebia tratamentos no “salão de beleza” de outra vizinha de rede que sabia mexer com cabelos. A menor, Valéria, fazia travessuras e depois sorria de forma tão charmosa que derretia o coração de qualquer um que pensasse em reclamar. “Tem cara de anjo, mas só a cara”, diziam Israeli e Isabele, já acostumadas às malandragens da irmãzinha.

Em que outro tipo de viagem teria sido possível fazer amizade com essa família? Nem sei dizer. Mas durante os quatro dias em que minha rede ficou pendurada perto das deles, teria sido impossível não virarmos amigos.

Fotos Seth Kugel

As irmãs Israeli e Isabele fazem visita ao meu espaço

Além de conversar com os pais, eu dava algumas aulas de inglês a Isabele, jogava cartas com Israeli e as duas senhoras peruanas e recebia visitas de Valéria logo cedo pela manhã (claro que queria reclamar, mas aquele sorriso…). A família cuidava da minha máquina fotográfica e do meu notebook enquanto tomava banho. Conversávamos e jantávamos todos juntos, sentados no chão, em um espaço entre as suas redes.

Acho a Amazônia muito problemática para turistas. Os que querem ver uma grande variedade de bichos exóticos deveriam pensar no Pantanal. Os que querem visitar comunidades indígenas devem saber lidar com grandes distâncias, obstáculos burocráticos e questões éticas. Os que querem ficar em Manaus ou Belém e só fazer roteiros urbanos, tudo bem, mas visitar a Amazônia sem conhecer a natureza não faz muito sentido.

Na minha opinião, a solução ideal é incluir uma viagem de barco dentre os seus planos. Além de fazer amizades e ver a paisagem, você entra em um dos poucos lugares – quase pré-históricos – em que celular não pega e email não chega. E é muito barato.

Fotos Seth Kugel

A querida família de Kléber

Já fiz essa viagem três vezes: de Tabatinga a Manaus em 2004 (como mencionei na minha primeira coluna), de Manaus a Porto Velho em 2010 e agora, em fevereiro, de Belém a Santarém. E não vejo a hora de pendurar minha rede de novo.

O custo é mínimo. O preço varia de 30 a 50 reais por dia, valor que pode incluir todas as refeições. Em alguns outros barcos, tem a opção do viajante comprar fichas de almoço e jantar a bordo, que custam entre 5 e 7 reais. É preciso também uma rede, sempre disponível nas cidades de embarque a um valor de 25 a 40 reais.

Em uma viagem normal, fazer amizades com os habitantes locais exige um esforço grande. Mas nesses barcos, nem a pessoa mais tímida pode evitar uma conversa com o “vizinho”. Você vai comer, dormir e até escovar os dentes ao lado dos seus colegas de bordo. É óbvio que vão conversar. E muito.

Fotos Seth Kugel

Processando vídeos na minha rede

Conheci muitas pessoas e ouvi muitas histórias em todos os três barcos. Um monte de eletricistas que iam de Manaus a Porto Velho para procurar emprego. Uma jovem que ia visitar o pai no Acre e passou o tempo todo estudando para o concurso da Polícia Militar de Amazonas (claro que, morrendo de curiosidade, peguei o livro e estudei um pouco também – uma boa opção de emprego se caso esta coluna não der certo). Uma menina de 17 anos que estudava em Belém e voltava uma vez por ano para ver os pais numa cidade pequena às margens do Rio Tapajós. Um dentista peruano que se havia se mudado para Manaus em busca de um salário melhor. Uma mulher grávida que fugia do marido que batia nela e que me contou toda a sua história.

Mas você não vai encontrar só amizades a bordo. Tem a paisagem, com um quase sempre inesquecível pôr-do-sol (quando você pensar em esquecê-lo, na próxima tarde, virá outro melhor).

Fotos Seth Kugel

Passando por uma comunidade ribeirinha

Mas talvez a (outra) melhor parte é conhecer as comunidades ribeirinhas, com casas humildes e pitorescas, e observar os barcos com ou sem motor que os habitantes usam como se fosse carro para fazer compras, visitar os vizinhos, ir para o médico e levar as crianças à escola.

Às vezes, os barcos recebem a visita dos que eu chamo de “piratas”: crianças e adolescentes que se aproximam das grandes embarcações, prendem a canoa ao barco com um gancho, sobem ao convés e vendem comidinhas aos passageiros. Adoro observar quais mercadorias chegam a bordo em cada cidade onde o barco para. Na última viagem, o convés inferior estava todo lotado de cebolas. Pareciam suficientes para dar bafo à Amazônia inteira.

Fotos Seth Kugel

Prepare-se para ver um belo pôr-do-sol todo o fim de tarde

Há também entretenimento a bordo – quer dizer, mais ou menos. O convés superior é a área social. Nos barcos que eu conheci sempre tinha uma televisão com sinal ruim, uns alto-falantes usados exclusivamente para tocar forró e tecno-brega em alto volume e uma lanchonete pequena. É lá também que rolam os romances entre os passageiros.

Mas, mesmo com toda essa atividade, ainda te sobra muito tempo. A melhor opção: ler na rede, sentindo a brisa constante.

Apesar das minhas experiências mágicas a bordo desses barcos, reconheço que não é uma viagem para qualquer turista. Os banheiros são simples e compartilhados por muitas pessoas e, apesar dos esforços da tripulação, nunca chegam a ficar precisamente limpos. Dica: procure os toaletes do convés inferior, perto dos motores: são menos frequentados e, consequentemente, mais limpos.

Fotos Seth Kugel

O PF no barco custa de R$ 5 a 7

E, se der o azar de pegar um barco muito lotado, dormir na rede fica mais difícil com um bombeiro aposentado dormindo a um centímetro do seu braço esquerdo e uma mulher grávida a um milímetro do direito.

Quanto à comida – bom, não é gourmet, nem tem pratos exóticos amazônicos, como tacacá e doce de cupuaçu. O cardápio a bordo se resume a duas letras: PF – arroz, feijão, macarrão, farinha e carne ou peixe. Quer frutas? Leve frutas. Quer biscoito? Pode comprar na lanchonete, mas leve para garantir. Alguns barcos têm água filtrada de graça, outros vendem, mas levar uma garrafa de 5 litros é uma boa ideia.

Eu também recomendo levar pimenta, algo que aprendi com o tenente aposentado Isidoro Rebelo Tenório, que viajava de Santarém a Humaitá para ver como ia a construção da sua casa. Ele era generoso em me deixar jogar algumas gotinhas de sua pimenta nesses PFs sem graça.

Infelizmente, as amizades feitas a bordo não sempre são muito duradouras. Gostaria de poder dizer, por exemplo, que ainda mantenho contato com Kléber e sua linda família. Uma vez tentei mandar um email para o endereço que me deram, para dizer que a Valéria saiu num vídeo que tinha feito da viagem. Mas não tive resposta.

Se alguém lá em Porto Velho ler este post e reconhecer a família, mostre essa coluna (e o vídeo) para eles, por favor. E peça para que entrem em contato comigo. Saudades dessa cara de anjo, apesar de ser só a cara.

SETH ERROS

O que NÃO fazer se for viajar de barco

1) Chegar sem verificar a data do embarque. Os barcos não saem todos os dias. Apesar de existir algumas informações no site Navegando e Lendo, tem que confirmar da forma antiga: ligar.

2) Comprar passagem por agência. É mais barato comprar a bordo ou no porto de embarque.

3) Chegar no último minuto. Muitas pessoas chegam de manhã para botar suas redes nos melhores lugares.

4) Colocar a rede perto do motor. Dormir lá é como ter um companheiro que ronca supersonicamente.

5) Viajar de camarote. É como ir a McDonalds e pedir uma McCaviar. No barco se viaja na rede e ponto.

6) Esquecer seus livros e seu iPod. Não dá para conversar o dia todo.

7) Ficar no barco durante as paradas. Nada mais interessante do que passar uma hora numa cidade pequena da Amazônia, comendo sorvete de uxi e observando o ritmo da vida local.

Notas relacionadas:

  1. República Dominicana: o Brasil Caribenho
Autor: Seth Kugel Tags: , , , , ,

quarta-feira, 4 de maio de 2011 América Latina | 07:30

República Dominicana: o Brasil Caribenho

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Ano passado, estava lendo o jornal e vi que a CVC estava oferecendo um pacote para a República Dominicana, esse pequeno país hispânico que divide uma ilha caribenha com o Haiti.

“Brasileiros na República Dominicana”, pensei. Que ótima… E péssima ideia.

Fotos Seth Kugel

Playa Encuentro em Cabarete

Ótima porque o país é lindo e verde e tem praias e montanhas de sobra. E o povo dominicano é muito alegre, gentil com os turistas, tem um dom musical, adora dançar e não tolera uma refeição sem arroz e feijão.  Ou seja: são brasileiros caribenhos (e isso sem falar de sua mistura africana-índia-europeia, da história de ditadura militar, da indústria açucareira e de outras mil semelhanças.)

Péssima porque o pacote anunciado te leva para Punta Cana, a região menos “dominicana” da República Dominicana. Há quatro décadas, esta área era praticamente deserta, com praias virgens e poucos habitantes. Nem se chamava Punta Cana. Alguns empresários descobriram esse pequeno paraíso sobrevoando a região de helicóptero –  na época, não existia Google Earth – e começaram a construir resorts. E mais resorts. Tantos resorts que é possível ir do aeroporto de Punta Cana a alguns deles sem enxergar uma só casa habitada por um dominicano. Perfeito, talvez, para um nova-iorquino que quer escapar da neve em quatro horas de voo. Mas vale a pena para um brasileiro viajar mais de 12 horas só para relaxar numa praia bonita? E para que existe Ubatuba, Búzios, Floripa e Costa de Sauípe? Pela mesma quantia é possível ir para Fernando de Noronha, pelo amor de Deus.

A solução, claro, é montar seu próprio itinerário.

Passei o último réveillon na costa norte do país, perto da cidade de Puerto Plata, com três amigos americanos. Ficamos hospedados no Barefoot Beach Pad, vendidos como hotel. Na verdade, são apartamentos limpos e confortáveis à beira-mar que custam menos de R$200 por noite e ficam perto da cidadezinha de Cabarete, conhecida pelo vento e pelo surf. A escolha foi do meu amigo Tom, que queria aprender kitesurfing.

Eu cheguei com outras prioridades: comida, praia e música.

COMIDA

A comida dominicana se parece, à primeira vista, com a cozinha brasileira.  O prato mais típico é carne acompanhada de arroz, feijão e salada. Frutas tropicais como mamão e maracujá são comuns, assim como a mandioca (só que se chama “yuca”). Até os pastéis, que nos outros países hispânicos se chamam  “empanadas”, aqui são “pastelitos”. Fácil, né?

Fotos Seth Kugel

Lagosta, pescado e tostones em Playa Grande

Claro que os temperos são diferentes e há iguarias locais como os “tostones” – bananas-da-terra fritas, prensadas e fritas de novo. Não esqueça o sal e o ketchup, ou, como dizem os dominicanos, “catchú”.
Cabarete é uma cidade muito turística, mas apesar dos restaurantes e lanchonetes que ofereciam desde hamburgueres até sushi, encontramos um lugar simpático, simples e barato de comida dominicana: Sandro’s.

O “prato do dia” no Sandro’s –um guisado de porco acompanhado de arroz, feijão e salada de repolho com abacate – custava cerca de 150 pesos (R$ 6). Vale a pena também pedir uma porção de tostones, claro.

PRAIA

A praia principal de Cabarete é perfeita para a prática de windsurfing de dia e para as baladas à noite. Mas existem outras praias ótimas na região.

Fotos Seth Kugel

Playa Encuentro em Cabarete

Playa Encuentro fica a dez minutos do centro, com escolas de surfing informais e uma extensa faixa de areia onde sempre é possível encontrar um ponto deserto.  As ruínas de um hotel abandonado dão um toque de mistério ao lugar e um restaurante simpático, Chez Arsenio, vende sanduíches para comer sob as palmeiras.

Um pouco mais longe – 45 minutos de carro, na cidade de Rio San Juan – fica Playa Grande. Além de ser grande (óbvio), a praia possui uma associação de vendedores que fazem de tudo: assim que você chega ao local, eles já avisam para não estacionar o carro sob os coqueiros (para evitar danos causados por cocos) e, em seguida, alugam cadeiras (“cheilones”, do francês “chaise longue”). Na hora de almoço, os vendedores oferecem lagostas e peixes grelhados na hora. E a qualquer hora, peça “una verde” – uma cerveja Presidente muuuuuito gelada, em garrafa verde.

MÚSICA

E, por favor, não se deixe seduzir pela  música eletrônica e pop das discotecas da praia de Cabarete (os lugares perfeitos para conhecer mochileiros dinamarqueses com dreadlocks etc.). Vá conhecer a verdadeira música dominicana.

Apesar de contar com uma pequena população de 10 milhões de habitantes, a República Dominicana exerce uma enorme influência musical sobre a América Latina. Os dominicanos são responsáveis por dois dos gêneros mais ouvidos no mundo hispânico: merengue e bachata. Infelizmente, são pouco conhecidos no Brasil, mas há uma bachata famosa que virou um sucesso em sua versão brasileira (lembram do Fagner?).

Vale a pena se familiarizar com os ritmos musicais antes de viajar. E graças ao YouTube, isso é fácil. Para o merengue, procure os clássicos de Juan Luis Guerra e Sergio Vargas, ou a versão urbana do grupo Omega. Na bachata, um gênero mais romântico (e meio brega), há o Joe Veras e a banda Aventura. A banda dominicana é famosa na Europa e eu até ouvi uma de suas músicas em Manaus, mas só os caribenhos sabem dançar corretamente.

Em qualquer cidade da República Dominicana, você pode ir a uma discoteca local para dançar. Mas o país é tão pequeno que não é raro encontrar um show de um músico famoso em algum lugar perto de você. É só prestar atenção nas estradas: sempre tem cartazes simples pregados em árvores ou nos postes.

Fotos Seth Kugel

Dançando no show do Frank Reyes

Lá em Cabarete, saímos duas vezes para ouvir música ao vivo. A primeira vez foi na virada do ano. Seguindo a dica de uma amiga dominicana que mora em Nova York, deixamos os turistas em Cabarate para trás e fomos ao Rancho Típico Puerto Plata. Fomos os únicos estrangeiros entre mais de 500 dominicanos, a maioria sentada em grupos de família, bebendo rum ou refrigerante sob um teto de palha e madeira. A banda tocou merengue típico e dançamos com as tias, filhas e primas da família ao nosso lado.

Pelos cartazes ficamos sabendo que no dia seguinte Frank Reyes (meu bachatero favorito!) daria um show em outro local de Puerto Plata. Convenci meus amigos (que nunca tinham ouvido falar do tal Frank Reyes) que valia a pena pagar 1000 pesos (R$43) para ir ao show. Frank atrasou muito, chegando só depois da 1h, mas assim que ele entrou em cena, a noite foi um espetáculo – não tanto no palco, mas na pista, com o público cantando, gritando, tirando fotos ou dançando os sucessos “Nada de nada” e “Princesa”. Até meu amigo Adam, que não dança nem sob tortura, se animou e dançou algumas músicas com umas dominicanas muito pacientes.

*

Mas você não precisa ir para Cabarete e Puerto Plata.

Vale a pena ficar um dia na capital, Santo Domingo, a única verdadeira metrópole do país, para visitar os museus, as praças e o prédio onde morou o filho de Cristóvão Colombo, Diogo, na época em que ele foi vice-rei das Índias de Castela.

Mas é preciso também sair da cidade e nem pense em se limitar às praias mais próximas. O país é muito pequeno. Recomendo pegar a nova estrada para a península verde de Samaná, com hotéis pequenos e praias lindas. Entre janeiro e março, há excursões para observações de baleias. Outra dica é conhecer as cidades de Constanza e Jarabacao, nas montanhas. Ou sair totalmente do roteiros turísticos e visitar o noroeste do país, onde levei meus três amigos após três dias em Cabarate, em busca de praias desertas e a especialidade da região, chivo picante (cabra apimentada).

Mas onde quer que você esteja, não se esqueça de procurar os cartazes à beira da estrada para saber os melhores lugares para dançar.

SETH ERROS

O que não fazer na sua viagem à Flórida

1) Ir a Punta Cana. A República Dominicana de verdade está em outras partes.

2) Pensar que é caro. Pesquisando na internet, encontrei passagens de R$800 a R$1300 para Santo Domingo, pela TACA ou Avianca.

3)
Ir em agosto ou setembro. É temporada de furacões.

4) Depender do espanhol que aprendeu em Madrid. O espanhol dominicano é falado muito rápido com letras que somem (“¿Cómo estás?” vira “¿Cómo tú tá?”) e possui vocabulário próprio (maracujá é “chinola”, não “maracuyá”).

5) Conversar sobre futebol. Dominicanos jogam beisebol e ponto: mais de 10% dos jogadores das Grandes Ligas de Beisebol dos Estados Unidos são dominicanos.

6) Ir sem ter aprendido um pouco sobre a música dominicana. Pode escutar merengue e bachata 24 horas por dia pela web: www.bachataradio.com.

7) Resistir aos “plátanos”. Fritos ou fervidos, verdes ou doces, essas bananas-da-terra são tão importantes para a cultura dominicana que em Nova York o bairro de imigrantes dominicanos muitas vezes é chamado de Platanolândia.

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,