2011 abril | Viagens com Seth Kugel - iG

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Arquivo de abril, 2011

quarta-feira, 27 de abril de 2011 América Latina, Brasil, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio, Ásia | 10:00

Como passei a ganhar a vida viajando

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Existem jornalistas de turismo que passam a vida inteira jantando nos restaurantes mais badalados de Paris, testando tours de helicóptero pelo Rio de Janeiro e provando o serviço de quarto nos hotéis cinco estrelas de Nova York (para ver se o champanhe tem borbulhas suficientes, imagino).

Como é que meus colegas conseguem arrumar esses bicos de luxo e eu não? Sei lá. Meus chefes sempre me mandam fazer coisas bem distintas: provar comidas de rua, testar os ônibus públicos que chegam ao Pão de Açúcar e ficar nos hotéis mais econômicos (com uma verba que inclui até a cervejinha do frigobar).

Tudo bem. Luxo é ótimo, quem nega mente. Mas viajar assim não é conhecer o mundo real. É pular de fantasilândia em fantasilândia, deixando passar os destinos de verdade, as culturas de verdade e as pessoas de verdade.

Na minha nova coluna que estreia hoje no iG, convido o leitor a me acompanhar por este mundo de verdade. Mas isso só começa na próxima semana. Primeiro, gostaria que me acompanhasse em uma pequena viagem ao meu passado, pelas três viagens que mais me marcaram – e me formaram.

Quênia, 1985


Arquivo pessoal

Eu e minha família queniana

Meu amigo Brian e eu tínhamos acabado de chegar na casa dos nossos anfitriões africanos, uma construção simples de barro numa aldeia remota, quando uma aranha tamanho-de-rato caiu do teto e pousou sobre a cabeça dele.

Eu tinha 15 anos e estava passando um mês e meio na África Oriental com mais 11 adolescentes norte-americanos, num intercâmbio organizado pela YMCA. Era a primeira vez que eu viajava sem meus pais. Fomos morar com uma família de agricultores num lugar onde a maioria dos moradores nunca tinha visto pessoas brancas, pelo menos de perto.

Brian achou que a aranha fosse só uma gota d’água e tentou tirá-la com a mão, mas a aranha pousou de novo sobre a camisa dele. Eu gritei. Ele gritou (mais forte ainda) e deu um salto. A aranha-rato caiu no chão e alguém da nossa família africana a matou como se não fosse nada. Para eles, foi nada mesmo. Viver sem geladeira, sem TV, sem água nem luz? Também nada. As mulheres comerem só depois dos homens terminarem? Nada. Lavar as mãos com um jato de urina de vaca? Nada.

Sabe o que os impressionou mais? O pelo nos braços e pernas de nós, gringos. Os quenianos quase não tinham. (As crianças adoraram acariciar nossos braços; os adultos conseguiram se controlar). E nossas mãos: tão macias e delicadas comparadas com as deles. Prova de que nunca tínhamos trabalhado na vida.

Para mim, o mundo nunca seria igual após aquela viagem (ou aquela experiência). Quando voltei aos Estados Unidos, parei de disputar com meu irmão o caderno de esportes do jornal todas as manhãs e comecei a ler o caderno de notícias internacionais, procurando as poucas notícias que chegavam da África. Três anos depois, na faculdade, decidi me especializar em política africana.

República Dominicana, 1993


Arquivo pessoal

Minha aluna Sheyla entre as suas priminhas

Meu primeiro trabalho depois da faculdade foi como professor da rede pública de ensino num programa de serviço social que se chamava Teach For America. (Já existe uma versão brasileira, dê uma olhada.) Dava aula no terceiro ano primário a crianças imigrantes, na Escola Pública 156, na infame região do South Bronx. Adorava ir, todos os dias, do apartamento que dividia com outros dois professores em Manhattan para esta região periférica e pobre de Nova York. Porém, cheia de energia e vida; para mim era como viajar para outro país, mas com bilhete de metrô em vez de passaporte. Falava-se mais espanhol do que inglês no bairro; eu aprendi rápido. (Só não tão rápido como os chineses, cujos restaurantes dependiam dos clientes latinoamericanos.)

Também adorava visitar as casas dos meus alunos – dominicanos na sua maioria – e nunca recusei um convite para jantar um arroz com frango ou um guisado caribenho. Um dia fui convidado para o aniversário da minha aluna Sheyla. Segundo o convite, a festa era no sábado às 15h.

Ainda ignorante em relação à cultura latina, cheguei pontualmente às 15h. Obviamente, a famíla de Sheyla nem tinha começado a arrumar a casa. Sheyla, que completou 8 anos naquele dia, tinha acabado de sair do banho. Ainda de toalha, correu para o quarto, morrendo de vergonha de seu professor.

Quando o próximo convidado chegou, precisamente três horas depois, os pais de Sheyla já tinham me convidado para viajar com eles à República Dominicana nas férias de verão. Claro que aceitei.

Ficamos todos na pequena casa da avó de Sheyla na capital Santo Domingo. Eu tinha que dividir a cama com o irmão de Sheyla, também aluno na Public School 156. (Nos EUA, um professor que compartilha uma cama com um aluno seria preso, mas fazer o quê?) Fiquei um mês por lá, onde aprendi a fazer “tostones” (bananas da terra fritas), a entender telenovelas e a pegar o ônibus público para o centro da cidade, além de lavar roupa à mão. Mas o que era mais difícil era dançar merengue, um requisito básico na cultura dominicana. Me obrigaram a praticar quase todos os dias e sempre chegavam vizinhos para rir do gringo.

Que vergonha. Mas valeu a pena. Devo minha carreira a essa família e a essa viagem. As primeiras matérias que publiquei no New York Times foram crônicas e notícias sobre a comunidade dominicana em Nova York (até hoje o maior grupo de imigrantes da cidade). Minha primeira viagem paga pelo jornal foi à República Dominicana. E 18 anos mais tarde, meu iPod está lotado de música dominicana, meu espanhol tem acento dominicano e quando danço merengue, ninguém mais ri de mim.

Brasil, 2004


Depois de estudar português por um ano, tinha chegado a hora de conhecer o país que, para a grande maioria dos norte-americanos, é um lugar muito misterioso: o Brasil (todos vocês conhecem meu país, ou pelo menos uma versão dele, pelos seriados, filmes e notícias que chegam; nos EUA há poucas reportagens sobre o Brasil e, na sua maioria, sobre favelas, carnaval, futebol…e, às vezes, uma reportagem sobre política de sua “capital”, Buenos Aires.)

Procurando escapar de turistas e conhecer um Brasil de verdade, optei por não visitar as praias cariocas nem passar o carnaval em Salvador. Entrei no Brasil pela fronteira colombiana, em Tabatinga (AM). A ideia era pegar um barco para Manaus – daqueles em que você dorme na rede – e passar quatro dias sem falar nenhuma palavra em inglês, conversando só com meus “vizinhos” e estudando um livro de gramática que tinha levado comigo.

Sem saber, eu peguei um barco de evangélicos, o que tinha duas consequências. A ruim: não vendiam cerveja. A boa: os meus vizinhos de rede me adoraram porque meu nome é inspirado no Velho Testamento. Fiz amizade com meus vizinhos da rede ao lado, um casal muito simpático com dificuldades de leitura. Eles liam a bíblia beeeem devagar. A gente fez uma troca: eu lia os versos bem rápido, em voz alta, e eles corrigiam minha pronúncia horrível.

Minha primeira crônica para um caderno de viagens foi sobre os quatro dias que passei no barco evangélico. E ainda hoje viajo do mesmo jeito: sempre topo uma aventura. Sempre tento evitar os roteiros comuns e triviais. Não gosto dos resorts, odeio as redes hoteleiras internacionais, sempre tento escolher a opção mais regional. E da mesma maneira quando era professor, nunca recuso um convite para jantar na casa de pessoas que conheço durante as minhas viagens, não importa quão pobres sejam ou afastado esteja o local.

As aventuras, os riscos, os desencontros culturais, os lugares, as pessoas, as aranhas…é isso a essência da viagem. É o que vou contar neste blog – junto, claro, com dicas sobre hotéis, restaurantes e outras atrações tradicionais. Cada semana também terá sempre uma seção de “anti-dicas” – o que NÃO fazer, que vou chamar de “Seth Erros”.

Para mim, este blog  é, de certa forma, minha próxima viagem. E como as viagens que gosto, não é de luxo. Pelo contrário. E é talvez o maior desafio da minha carreira: a primeira vez que escrevo em português, a primeira vez que escrevo exclusivamente para um público brasileiro (claro que os portugueses, angolanos, caboverdianos etc. são muito bem-vindos também). Vou depender de você, leitor, para me avisar como estou me saindo. Se gostar de algo, mande um comentário; se não gostar, mande dois. Vou tentar responder, esclarecer e até brigar com você quando for necessário.

SETH ERROS

Na viagem, você não deve…

1) Ter medo. Dos lugares incomuns, das comidas novas, das experiências inéditas.

2) Isolar-se. O viajante que viaja sozinho (como eu) não tem escolha: tem que conversar com desconhecidos. Para os que viajam com o companheiro ou os amigos, talvez isso não pareça tão necessário.  Mas é.  Faça um esforço, converse com desconhecidos no ônibus, no restaurante, na praia, no hotel. Viajar sem fazer amizades novas não tem graça.

3) Reclamar quando algo não é igual. No meu país, por exemplo, comer arroz e feijão nas refeições não é comum e muitos brasileiros reclamam disso. Mas sejam tolerantes conosco.

4) Ficar no roteiro turístico. Desvie um pouco! Entre em ruas pequenas, desça do metrô uma estação antes para se perder um pouco,  peça dicas aos habitantes locais.

5) Deixar os filhos para trás. Eu aprendi a viajar viajando, não ficando em casa com a babá ou com os avós.

6) Planejar demais. Eu sempre faço uma lista de atividades/restaurantes/ atrações que gostaria de conhecer. Mas não são compromissos, são sugestões. Os melhores lugares são os que se descobre no caminho.

7) Não planejar nada. Pelo menos dê um Google no destino para saber um pouco sobre o destino. (Exemplo: Líbia não é um destino tranquilo hoje em dia.)

Autor: Seth Kugel Tags: , , , ,