Adoro a web! Adoro viver neste tempo! Imagine quando teria sido possível assistir músicos do mundo inteiro tocando a mesma canção, cada um sentado no seu banco, na sua rua, cada um tocando junto com todos os outros…sem sair da sua cidade!
Playing for change é um movimento cujo objetivo é conectar pessoas de todo o planeta através da música. E Mark Johnson, o autor da idéia, também é o diretor e produtor do documentário “Toque para mudar” (numa tradução bem livre), que usa as técnicas mais modernas e muita improvisação para fazer músicos nos quatro cantos do planeta tocarem juntos aquelas canções antigas, que atravessam fronteiras, como Stand by Me, “darling, darling, stand by me...”, lembram dela?
Mark Johnson levou 10 anos para fazer o filme: “Tocar música com pessoas de diferentes culturas, religiões, culturas, economias e políticas é um exemplo poderoso”, diz ele numa entrevista para Bill Moyers (lembram quem é Bill Moyers, o jornalista que tinha aquelas deliciosas conversas com Joseph Campbell?). E continua: “Isso ilustra o fato de que é possível encontrar caminhos para trabalhar juntos e compartilhar nossas experiências uns com os outros de forma positiva. Antes de sermos diferentes, somos seres humanos, iguais”.
Os documentários deram origem a uma fundação, a The Playing For Change Foundation, que provê ajuda material, educação e troca de informações entre músicos e apoio para centros de estudo de música, como o Mehlo Arts Center e a Ntong Music School, ambos na África do Sul.
E como vivemos nestes tempos de “teia”, todos os filmes estão disponíveis online para a gente se deliciar, no site da fundação
Quando começaram a construir um condomínio horizontal no terreno baldio que havia atrás de casa, nós e nossos vizinhos entramos em pânico. Condomínios horizontais seguem regras peculiares em relação a recuos e espaços, as casas ficam muitíssimo mais próximas umas das outras. “Vai desvalorizar nosso bairro”, dizia uma. “Vamos precisar vender nossas casas”, apavorava-se outro. Saí daquela reunião triste, por mim, por todos. Cheguei no dentista, abri uma revista e…fui abduzida pela foto dourada de uma vila na Sicília: casas, umas sobre as outras, cobrindo uma colina cercada de mar de humanidades empoleiradas…
Comecei a rir…houve um tempo em que a noite era escura, de um jeito que a gente hoje nem imagina. Nesse tempo, dormir era uma ousadia e o corpo do outro, a respiração quente do outro, a única proteção. As cidades medievais são todas assim, casas grudadas umas nas outras, idênticas, enfileiradas nas ruas minúsculas, tortas, labirínticas, tudo truques, para driblar o medo da noite e do inimigo desconhecido que vivia em algum lugar, fora dos muros, do outro lado, depois da floresta, atrás das montanhas, no horizonte do mar…
Nada de novo debaixo do Sol, como diria o salmista. Já vivemos empoleirados. O outro nos acompanha sempre, desde sempre. Há que se viver com isso.
Mas como?
A revista européia Monocle fez um estudo entre seus leitores para descobrir como seria o bairro ideal. Juntou tudo com algumas idéias bem modernas sobre autosustentabilidade e economia de recursos naturais e chegou a algumas conclusões. O bairro ideal deve ter casas de tamanhos e estilos variados, misturadas com lojinhas, pelo menos um bar ou restaurante aconchegante, serviços 24h para emergências e esquecidos, supermercado, evidente, um parque, um lago, bondes, janelas em vez de ar-condicionados, escola, abastecimento de frutas e legumes através de produtores locais ou, no mínimo, próximos.
Sim, o bairro ideal…um sonho que a gente começa a construir sendo…o cidadão ideal. E é aí que entra o homo cordialis.
Uma espécie que já esteve ameaçada de extinção, mas que, a julgar pela quantidade de cursos e workshops e livros sobre “empatia”, “rapport”, “comunicação não-verbal”, parece que anda procriando, em cativeiro, mas…!
E como seria esse homem/mulher cordial, vizinhos perfeitos, cidadãos do futuro, habitantes impecáveis de um mundo apinhado e tolerante?
Vamos ver…
- dizer por favor, muito obrigado/a, com licença, básico
- respeitar filas, à pé, de bicicleta, de carro
- ser generoso com os sorrisos
- e muito econômico nas críticas
- saber quando oferecer ajuda…
- e quando manter distância
- conhecer o mundo o suficiente para apreciar seus múltiplos aspectos
- e tolerar conviver com seres diferentes de si mesmo
- não deve se intimidar com costumes exóticos, ao contrário, encontrar o vizinho tailandês caçando grilos ao entardecer para fritá-los no jantar deveria no máximo provocar nesse ser cordial um sorriso de cumplicidade e, eventualmente, com graça e elegância, ele poderia oferecer uma lanterna
- precisa dominar a arte de conversar, sobre o tempo, economia, política, futebol e até religião sem perder a expressão afável e, sobretudo, jamais, nestas situações, ameaçar seu interlocutor com a possibilidade de, a qualquer momento, transformar-se num missionário furioso
- e saber ouvir é fundamental, numa proporção de, digamos, três perguntas realmente interessadas sobre o outro, para cada minuto de conversa sobre si mesmo
- manter sua vida privada, privada, o que pode parecer óbvio, mas não é, algumas pessoas insistem em compartilhar suas preferências e hábitos mais íntimos, incluindo nessa longa lista de coisas para fazer apenas entre quatro paredes, singelezas, como coçar-se e arrotar, só para dar dois exemplos banais
- evitar compartilhar com os vizinhos seus gostos musicais também é bom preceito, mas compreender que existem festas para as quais não somos convidados e elas podem acontecer bem do lado da nossa janela também é…
- exercitar o olhar direto, amistoso, ao cruzar com outros seres humanos, ousar um cumprimento: bom dia, boa tarde, boa noite! Ser gentil não é obrigação apenas dos políticos…
- entender que a rua, o bairro, a cidade não são exatamente “seus”, são de todos, agora, o seu cachorro, ele é só seu… (isso, aliás, vale para todo o seu lixo e para o seu carro quando ele está parado na frente da garagem do outro ou em um lugar proibido, por exemplo)
- agradecer, sempre e pedir desculpas, quando for o caso, o outro nem ligou? O ser cordial sabe que a maior parte das vezes em que somos de fato cordiais não é por causa do outro, é para alimentar uma sensação gostosa de que afinal estamos longe das selvas…
Tudo isso porque, você sabe, não basta escolher o prefeito e o vereador, você, e cada um de nós, precisa começar já a escolher o tipo de cidadão que gostaria de ser.
Se você correr, ainda dá tempo. Porque hoje é o Dia Internacional da Paz. Houve manifestações aqui e ali pelo mundo todo, como essa, em Multan, no Paquistão.
A comemoração do Dia Internacional da Paz foi estabelecida em 1982, em uma assembléia das Nações Unidas. Meu filho nasceu em 82. Um bom ano, afinal, para se nascer…
Em 2008, a ONU está convidando os cidadãos do mundo inteiro a exercitarem sua vocação para a paz e enviarem mensagens de tolerância e boa vontade por e-mail ou por carta. As mensagens reunidas serão apresentadas para os dirigentes de vários países que vão se reunir para a 63a. Assembléia Geral da ONU, em Nova York, no dia 23 de setembro.
E na web você descobre que milhões de pessoas em todo o planeta vão participar de eventos para celebrar o dia. No site do International Day of Peace, por exemplo, você encontra um mapa com todos os eventos programados. E, se quiser participar de forma mais permanente, também não faltam opções. O mesmo pessoal que organizou o protesto de luz, Candle4Tibet, criou uma comunidade só para amantes da paz, a IPeace. Gosto dessa idéia de comunidades de idéias. Você acredita que uma pessoa faz diferença? Sim, sem dúvida. E juntas, elas se apóiam e alimentam a esperança comum.
“A paz”, disse Martin Luther King, “não é apenas um objetivo a ser alcançado, é também os meios e os recursos de que dispomos para alcanar esse objetivo”.
Por isso, corra. Porque hoje se você parar e observar à sua volta. Deve existir uma energia nova no ar.
Quem nasceu depois de 68 deve achar que ele sempre existiu. Quem nasceu antes, talvez imaginasse, como eu, que era alguma inscrição hindu, nascida quando os jovens da minha época descobriram a Índia, a meditação, os mantras…
Pois não é nada disso. O símbolo mais tradicional de “paz” que a gente conhece nasceu, isso sim, na prancheta de Gerald Holtom, um artista inglês que recebera a incumbência de criar um símbolo para a primeira Campanha Pelo Desarmamento Nuclear, CND, na Inglaterra, em 1958. O trabalho de Holtom foi apresentado e aprovado pelo Direct Action Committee Against Nuclear War e selecionado para aparecer em público na primeira marcha contra a Guerra Nuclear, que entrou para a história como a 1st Aldemaston March, e reuniu centenas de pessoas numa caminhada de quatro dias desde Trafalgar Square, em Londres, até o Centro de Pesquisas Nucleares de Aldermaston, em Berkshire.
A ironia é que o símbolo da paz é, de fato, uma combinação de sinais militares. Holtom usou os símbolos de um tal de alfabeto semáforo, um sistema de sinais que utiliza os braços e bandeiras para transmitir informações. Não tinha noção de que isso existia, embora agora eu imagine porque os sinais de trânsito em São Paulo chamam-se “semáforos”…Mas já tinha visto algo semelhante nas pistas dos aeroportos.
Enfim, militarismos à parte, nosso amigo artista parece que era um fervoroso defensor da paz e que teria justamente escolhido usar os sinais deste alfabeto que representavam o N (de “nuclear”) e o D (de “desarmamento”) para expressar sua revolta, seu desespero diante da ameaça nuclear. Assim, os sinais que a gente vê no símbolo da Paz, sugerem alguém em atitude de desespero, com os braços estendidos para baixo, as palmas das mãos viradas para fora, como se perguntasse “e agora?”, “por quê?”
Das caminhadas contra os armamentos nucleares, o símbolo caminhou pelos movimentos que chacoalharam a década de 60: estava lá nas explosões do Civil Rights que confrontaram negros e brancos nos EUA e também estava, vestido de flores, nas manifestações dos jovens hippies, da Califórnia às barricadas de Paris.
Tentaram bani-lo durante o apartheid na África do Sul, tentaram apagá-lo das paredes das universidades francesas, mas como todos os símbolos poderosos ele resistiu, engordou de significados, grita “liberdade”, fala de “amor”, conta histórias de “mudanças”, e, afinal, vira símbolo da paz. Quem iria imaginar?
Gostou da historinha? Então entre no site e crie sua própria versão do símbolo aniversariante…é bem divertido e você ajuda a divulgar a idéia de que ainda hoje, justo agora, vale muito a pena falar de paz…