20/12/2008 - 12:12
Mais uma vez está chegando a hora de fazermos juntos a grande mágica de fechar um ciclo e abrir outro.
Mais uma vez nos é dada a chance de fazer um acerto de contas do ano que vai acabando, para entrarmos frescos e mais leves no ano que vai começar.
Antes disso, no entanto, muita festa, muitos encontros, muita alegria e, é claro…brindes!
Este ano, enquanto estivermos esperando a meia-noite do dia 24 para saudar o nascimento do Menino-Deus, queria muito levantar um brinde especial, um brinde aos amigos!
Rubem Alves, no prefácio da edição brasileira de um livro des estórias lindo de um pedagogo português chamado José Pacheco e com o título mais do que convidativo de “Quando eu for grande, quero ir à primavera“, diz:
“Fernando Pessoa escreveu a mais bela declaração de amor que existe: ‘Quando te vi amei-te muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei…’ Na minha fantasia imagino que ele a escreveu para uma mulher. Mas penso que coisa parecida poderia ter sido escrita para um homem. Porque há homens que escontramos e quase instantaneamente vem a surpresa do reconhecimento! Misteriosamente, já éramos amigos em tempos imemoriais, anteriores a esta vida. Antes que se diga qualquer palavra já existe a compreensão. Não é preciso explicar. Disso sabia o Riobaldo (personagem de Guimmarães Rosa): ‘O senhor mesmo sabe. E se sabe, me entende…’ Já tive esta experiência várias vezes. E aprendi que a amizade não acontece por meio de construções temporais sucessivas. A amizade irrompe repentinamente no tempo, como uma dádiva da eternidade. Tal como aconteceu com Jean-Christophe, o herói adolescente de Romain Rolland. Já conhecera muitas pessoas. Mas aquele encontro era diferente. Voltando para casa à noite, seu coração cantava: ‘Tenho um amigo, tenho um amigo…’”
Sim, amigos, daqueles que são verdadeiros companheiros de viagem. Que nos emprestam seu olhar para a gente se descobrir através deles, mergulhando neles…
Amigos com quem a gente possa conversar absolutamente nus. Desvestidos das nossas máscaras e das nossas funções.
Amigos com quem ficar em silêncio, ouvindo as estrelas ou o barulho do mar.
Amigos que compartilhem os brindes e não tenham pressa de ir embora.
Amigos que cozinhem juntos e ajudem a lavar a louça depois.
Amigos com quem possamos viajar para lugares distantes ou para dentro de nós mesmos, sempre com o mesmo entusiasmo.
Amigos que nos conheçam bem e gostem de nós por causa disso e apesar disso.
Amigos assim, que façam a gente se sentir melhor, um pouquinho melhor que pensamos que somos.
Amigos com quem possamos fazer o exercício do encontro e do desencontro, com a alma leve de quem sabe que nada realmente é importante. Apenas o amor é que conta, sempre!
Um brinde a vocês todos, amigos virtuais, tão longe e tão perto…e Feliz Natal!!
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Religião e espiritualidade
Tags: amigos, festa de Natal, Natal
15/12/2008 - 13:22
Você conhece um conto de Mario de Andrade, chamado O Peru de Natal? Não, desta vez não vou recontá-lo aqui para você, por absoluta certeza de que jamais conseguiria reproduzir a irreverência refinada das frases, dos pontos, das pausas… Esta história você deve ler inteira, de preferência agora, nas vésperas do Natal.
Sim, porque você sabe, nosso Natal anda meio bambo, meio morno, assim sem paixão. Ao contrário do que prometem, as alegrias de consumo nos deixam mais ou menos anestesiados. E compramos mais do que podemos, gastamos, cá prá nós, muitas vezes sem razão nem necessidade. E lá se vai aquela mini-saia azul, comprada num impulso “irresistível”, indo parar no colo assombrado da sobrinha tímida, que se cobre de moleton até no verão… Isso para não falar no Papai Noel e nas loucuras que conseguimos fazer com o cartão de crédito apenas para que nossos filhos tenham a ilusão de que a felicidade pode vir sim embrulhada num papel de presente. E não é à toa que eles nos olham sem entender quando, no dia seguinte, já fartos, resolvem abrir o boneco que fala para ver o que tem dentro e a gente quase enfarta: “como, você não dá valor para o dinheiro, menino?”. É isto mesmo, mais sábios talvez do que nós, eles sabem que brinquedo é para brincar e que esta história de brinquedo sinônimo de status é coisa destes adultos esquisitos!!!
Janeiro chega com jeito de ressaca e, à medida em que vão se amontoando as contas do cartão e dos crediários, a gente se pergunta, o que aconteceu que o Natal ficou estranho? Como foi que a grande celebração da generosidade virou a festa planetária do consumo?
E se a gente fizesse uma coisa diferente neste Natal? Algo louco, como diz o personagem do conto de Mário de Andrade? Tão louco que no final a gente pudesse se reconhecer na frase que encerra o conto:
“Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar para nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.”
Da minha parte, vou engrossar o coro dos valorosos defensores de um Natal mais simples, cujas fileiras, acredite, estão engrossando no mundo todo! Com a crise planetária, frugal é chic! Pensei em algumas idéias, você pode acrescentar outras e fazemos uma grande lista!
Dê presentes que façam sentido. Lembram que eu dizia que muita gente compra presentes não pelo prazer de dar, mas pelo prazer de comprar? Cá para nós, consumir virou um passatempo… Poucas vezes guarda realmente alguma relação com o gesto generoso de fazer outra pessoa feliz. E se a gente expressar nosso amor de uma outra forma? E se, apenas este ano, a gente só comprasse aqueles presentes que realmente vão significar algo para quem recebe? Ou seja, não vou dar presentes para “todo mundo do trabalho” só porque senão “fica chato”. E ponto! Isso deve reduzir sua lista de presentes pela metade!
Tamanho não é documento. Depois do segundo dia de shopping frenético, lista na mão, horários contados no relógio, mesmo os seres humanos mais saudáveis são presas fáceis das maiores fantasias de consumo. Por exemplo, acreditar que o valor de um presente é medido pelo tamanho do pacote. Quer mentira maior? Mas a gente às vezes cai nessa e sai por aí desfilando pacotes gigantes de coisas sem graça nenhuma. Uma única meia do mais puro cashmere não pode ser muito mais interessante do que duas bermudas ”bobinhas”? Pegue carona num estilo de ser mais “bobo” — mistura de duas palavras em inglês, bohemian – bourgeois (boêmios-burgueses), cunhada por um escritor americano, David Brooks, e que serve para falar de gente que detesta excessos, curte as idéias por trás das coisas e paga muito caro apenas pelo que é exclusivo, faz bem para o planeta e é “uma obra de arte” . E ouse pensar pequeno e diferente.
Seja criativo. Um presente pode ter muitas caras. Quer presente melhor para sua avó do que sentar junto dela, oferecer-se para preparar um cafezinho e ouvir com atenção amorosa as suas histórias de outros natais? Ou comprar para sua amiga os ingressos para aquele show que ela vive dizendo que não pode perder? Pense em presentear com cursos, atenção, companhia, idéias de programas para fazer junto, enfim, subverta a idéia de que presente de Natal se compra em loja, muitas vezes, não precisa ser assim.
Crie doze dias de presentes realmente significativos. Li isso certa vez e desde então adotei! O tempo entre o Natal e o Dia de Reis, que na verdade, é o tempo que o Natal dura para a igreja cristã, inspirou um música chamada Os doze dias de Natal, cuja letra fala de apaixonados que dão presentes extraordinários aos seus verdadeiros amores, como perdizes que nascem em árvores. Esta é uma canção muito tradicional nos EUA, embora as origens deste costume de celebrar doze dias de festas nesta época se percam nas memórias dos povos europeus. Então, e se em cada um destes dias sagrados, a gente convidasse os filhos, a família, os amigos para dar presentes de alegria para o mundo!. No primeiro dia, o presente seria fazer as pazes com alguém. No segundo, tornar a vida de uma outra pessoa mais alegre. No terceiro, nada de implicar com as crianças nem de reclamações (isto vale para elas também ..ah, e para seu parceiro também!) No quarto dia, faça uma cesta com coisas gostosas e entregue num asilo ou num orfanato. No quinto dia, sorria para todo mundo que cruzar o seu caminho…e por aí vai, que idéias para ser gentil é que não faltam, não é?
O que você adora no Natal? Muitas vezes fazemos as coisas apenas por hábito ou porque sempre fizemos daquele jeito e mudar traz uma sensação esquisita de desconforto. Ou, ainda, mantemos tradições nas quais não acreditamos só porque “todo mundo faz” e não queremos ser diferentes. Mas não existe melhor época do que agora para avaliar o que realmente faríamos com o Natal se fossemos nós os inventores da festa. Nem todos os lugares do mundo comemoram o Natal da mesma forma. Existem tradições em outros países que talvez respondam de modo mais sincero aos desejos do nosso coração. Penso, por exemplo, nas Missas do Galo das pequenas aldeias portuguesas ou no hábito que ainda perdura em muitas cidades do sul da França de deixar a mesa posta com as sobras das iguarias da ceia do 24 para os anjos e os ancestrais se deliciarem, enquanto a família dorme. No dia seguinte, a toalha é dobrada em uma trouxa com todas as comidas e entregue num asilo ou num orfanato ou, então, vai alegrar o almoço de alguma família mais necessitada. Era assim na casa da minha avó e até hoje gosto de pensar que quando todos dormem, os espíritos dos antepassados se reúnem para beber e comer, se alegrar e, talvez, encher de bençãos a mesa dos vivos…
Reinventar o Natal é um grande desafio. Mas se não tivermos coragem de fazer isto nas nossas casas e nas nossas almas, talvez, em alguns anos, ninguém consiga mais reconhecer atrás da avalanche de pacotes o autêntico Espírito de Natal, feito de compartilhar afeto e agradecer pelas bençãos que sempre recebemos do Papai Noel!
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver
Tags: Natal, presentes
27/11/2008 - 11:07
Já importamos tanta coisa! Hambúrgueres, sons, jeitos, Halloweens, até aquela terrível compulsão pelos excessos…Temos quase tudo por aqui: shoppings, fastfoods e, inclusive, aqui e ali, uns toques daquele puritanismo so wasp (white anglosaxon protestant ou brancos, anglosaxões e protestantes: os “verdadeiros americanos”), tingem nosso tecido social, tecido com as cores mais ao sul do Equador….
Então se é assim, se mesmo em tempos pré-globalização nosso sonho irrequieto e escondido sempre foi Park Avenue, por que não importar mais um aspecto do american way of life? Só mais unzinho, vai?
É que hoje é Thanksgiving Day, o Dia de Ação de Graças, feriado favorito dos americanos e que é celebrado na quarta 5a. feira do mês de novembro. E eu fico achando que não podemos perder esta chance de tirar um dia inteiro só para contar bençãos: obrigada Deus, por ter me feito irmã dos pássaros; obrigada pelo café da manhã com as crianças; obrigada pela orquídea gratuita e selvagem que de repente iluminou o jardim; obrigada pelo pulo maluco do gato Salem que me fez rir hoje de manhã, justo na hora em que eu estava tão preocupada; obrigada pelo riso de hoje de manhã; obrigada por todos os risos…
Nós até temos este dia garantido na agenda oficial, mas é assim murchinho e nem de longe evoca a abundância e a generosidade que deveriam ser as convidadas de honra da festa.
Nos EUA, tudo começou com a chegada de 102 colonos exaustos, que vinham fugidos da fome e das perseguições religiosas na Europa. Faziam parte de um grupo reformista da Igreja da Inglaterra, que buscava a pureza original da fé, daí o nome, puritanos. Chegaram num navio que alguém feliz batizou de Mayflower, mas, ao chegar, descobriram que a vida no Novo Mundo não tinha nada de fácil. A história conta que no primeiro inverno, em 1620, muitos morreram. Na primavera, os índios da região que hoje é a Nova Inglaterra, algonquins da tribo Wampanoag, ensinaram os recém-chegados a cultivar o milho e a pescar. A colheita do outono de 1621 foi tão boa que todos comemoraram juntos, colonos e índios, com um grande banquete dos frutos da terra. Estava nascendo o Thanksgiving, com seus perus e tortas de abóbora e milho. Foi pena que a paz entre colonos e índios não tenha durado muito, mas a idéia de um dia de trégua, dia de agradecer a Deus pela colheita farta, pela comida na mesa, pelas bênçãos recebidas, foi se impondo, apesar de tantos pesares….
Aprendo na Internet que nosso Dia Nacional de Ação de Graças foi instituído em 1949, pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. E que a lei que oficializou a quarta 5a.feira de novembro para a celebração é do presidente Castelo Branco. Mas como alegria não nasce de decretos e ofícios presidenciais não fazem brotar a tolerância e a gratidão no coração de ninguém, nós mal nos damos conta do dia de Ação de Graças até hoje…
Mas ainda podemos mudar isto. Não seria bom aproveitar este nosso tempo de primavera para renovar o prazer de estarmos vivos? De olhar o mundo através dos desencantos e das feiúras e enxergar o núcleo luminoso que existe em todas as coisas, em todas as criaturas?
Por isso é que na quinta-feira, dia 27, — não, na quinta não, que nem tem graça celebrar uma coisa assim desta importância num dia no meio da semana –, vou subverter e lei e celebrar na 6a. feira um dia especial de Ação de Graças.
Não sei se não troco o famoso peru por uma galinha caipira ensopada com polenta mole e quiabos sem baba — como meu pai mineiro ensinava a fazer — acompanhando tudo. E quem sabe usamos a palha do milho para embrulhar uns pedacinhos de queijo de minas meia-cura ou aquele queijo tão bom que se come no norte, queijo de coalho, colocamos os embrulhinhos no forno, só uns minutos, hummm, será que não ia ficar bom? Podemos fazer uma salada com delícias da terra, da nossa terra, da terra de todos, que hoje, todas as terras podem ser abençoadas, se a gente não enchê-las de minas subterrâneas, bombas ou de lixos tóxicos… E pra adoçar as almas, doces de avó: mamão-verde de rolinhos, goiaba, abóbora e coco…minha tia Loló fazia um doce de carambola que as crianças apelidaram de Doce de Estrelinha da Branca de Neve. Pois então vamos acabar nossa refeição lambuzados de estrelas… Quem aceita um cafezinho?
Mas como este vai ser um dia tão especial, antes de comer, prepararíamos o espírito. Pensei na frase do monge cristão, Thomas Merton: “seja como for, o Senhor brinca e se alegra no jardim de sua Criação e se conseguíssemos nos livrar da obssessão que temos em querer dar um sentido a tudo, talvez pudéssemos ouvir Sua voz chamando-nos e poderíamos segui-Lo então em seu misterioso bailado cósmico”.
Rindo e brincando, convidaríamos Deus para sentar-se entre nós e se fizéssemos um instante de silêncio ouviríamos o brinde que Ele proporia: Filhos Amados do Instante e do Sonho, alegrai-vos hoje na Minha música, porque “escondido no coração mortal, o eterno vive; Ele vive recôndito na tua alma. Uma luz brilha lá que nenhuma dor ou sofrimento pode apagar”. É claro que Deus não precisaria citar ninguém a não se a si mesmo, mas nós, aqui, pegamos emprestadas as palavras do filósofo hindu Sri Aurobindo para nos ajudar no brinde.
Ficaríamos em volta da mesa, rindo e bebendo à saúde de todas as criaturas até de manhã. E assim apascentados, veríamos o dia nascer e o universo inteiro se fazer em puro encantamento.
E deixo você com minha crônica favorita de Ação de Graças há anos e o Salmo 19, talvez o mais festivo de todos e que, com certeza, há de iluminar nosso dia de hoje…
1 – Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
2 – Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite.
3 – Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz.
4 – A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o Sol,
5 – O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho.
6 – A sua saída é desde uma extremidade dos céus, e o seu curso até à outra extremidade, e nada se esconde ao seu calor.
7 – A lei do Senhor é perfeita, e refrigera a alma; o testemunho do Senhor é fiel, e dá sabedoria aos símplices.
8 – Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro, e ilumina os olhos.
9 – O temor do Senhor é limpo, e permanece eternamente; os juízos do Senhor são verdadeiros e justos juntamente.
10 – Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino; e mais doces do que o mel e o licor dos favos.
11 – Também por eles é admoestado o teu servo; e em os guardar há grande recompensa.
12 – Quem pode entender os seus erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos.
13 – Também da soberba guarda o teu servo, para que se não assenhoreie de mim. Então serei sincero, e ficarei limpo de grande transgressão.
14 – Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Redentor meu!
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver, Religião e espiritualidade
Tags: Ação de Graças, Natal, Peru de Ação de Graças, Receitas de Ação de Graças, Thanksgiven
19/11/2008 - 19:00
Já falei sobre Maya Angelou neste blog. devo ter falado, sim, porque já até esqueci quantas vezes seu poema, Fenomenal Woman, me ajudou a manter o queixo erguido e o peito aberto…
Maya Angelou é uma grande poetisa americana, mas, sobretudo, é uma mulher que se envolveu nos problemas do seu tempo e conseguiu ser ouvida numa época em que ser mulher, e negra, era, fundamentalmente, calar-se. Nascida em 1928, em St. Louis, no estado de Missouri, dá para imaginar como sua história esta costurada na história dos EUA, e, sobretudo, na história das relações entre negros e brancos, nos EUA.
Foi ela que fez o discurso de posse do ex-presidente Clinton, e, se você observou, ela estava lá ouvindo o discurso do presidente recém-eleito, Obama. E chorou, dizem. Também, pudera!
Pois tudo isso só para você entender porque me entusiasmei ao descobrir que é ela, Maya Angelou, a narradora do documentário The Black Candle, um filme inspirador, sobre famílias, comunidade e cultura negra, tudo girando em torno de uma celebração típicamente afro-americana: Kwanzaa.
Kwanzaa é uma festa que dura sete dias. O nome “Kwanzaa” deriva da expressão “matunda ya kwanza“, que significa “primeiros frutos” em swahili, a língua mais falada entre as centenas de línguas tribais que existem na África. A festa dos “primeiros frutos” é típica dos povos ancestrais, a origem do Natal cristão seria uma celebração desse tipo, a festa da vitória da vida contra a morte, da luz contra as trevas, da colheita farta que garantia a continuidade da tribo contra a ameaça da fome e do extermínio. Não é pouca coisa…Na África, segundo leio no site oficial, os rituais associados à colheita existiram no passado e existem ainda hoje: “Estas celebrações eram comuns nos tempos antigos, mas também existem hoje, cultivadas por imensos grupos sociais, como os zulus, tanto quanto por pequenos agrupamentos, como os matabelos, os thonga e os lovedus, todos do sudeste do continente africano”.
A idéia de criar um feriado “pan-africano” é atribuída a um professor de estudos africanos da Universidade da Califórnia, Maulana Karenga, num tempo difícil, que ficou conhecido como “o movimento pelos direitos civis americanos”, mas que durou mais de uma década, teve ares de guerra civil e virou a sociedade racista dos EUA literalmente de cabeça para baixo. Kwanzaa foi celebrado pela primeira vez de 26 de dezembro de 1966 a 1 de janeiro de 1967, Martin Luther King seria assassinado um ano mais tarde e os negros americanos brigavam pelo direito de voto.
Suponho que na época tenha sido um grito de protesto e de dor e nem deve ser mera coincidência os dias da festa dos primeiros frutos serem coladinhos no Natal e no Ano-novo, mas hoje, em tempos outros, tempos de Maya Angelou e de Obama, o tom também é outro. E os 7 valores propostos pelo professor Karenga em 1966, Umoja (unidade), Kujichagulia (auto-determinação), Ujima (trabalho coletivo e responsabilidade), Ujamaa (cooperação econômica), Nia (propósito), Kuumba (criatividade) e Imani (fé) convidam à união das famílias, à reverência ao criador e à celebração das bençãos da vida.
Este ano, quem não comemorava, talvez se anime. Estamos longe ainda da igualdade racial, mas devemos estar muito perto, é tempo de celebrar, com certeza!
Visite o site e assista o trailer do filme, The Black Candle
Navegue pelo site oficial do evento
Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade
Tags: Dia da Consciência Negra, Kwanzaa, Natal
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