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14/09/2009 - 10:36

Aprender a morrer

Joy for the death_Cocayhi

Morremos mal hoje, escondidos, envergonhados, atrás das portas automáticas das UTIs; morremos sozinhos, feito aparelhos velhos, ligados inutilmente nas tomadas.

Morremos de morte morrida, fatal, trágica, de susto, morte de motoboy. Morremos de doenças cujo nome não ousamos pronunciar porque elas vem insinuadas de culpas, morremos como castigo…

Morremos desajeitados, fora de contexto: qualquer um que já tenha se internado num hospital sabe que ali não se vai para morrer, ao contrário, médicos e enfermeiros são treinados para salvar vidas, soldados de uma guerrilha feita de vitórias sempre provisórias. Os que vão morrer que desculpem, saiam da frente, por favor, desocupem os leitos, são tantos para salvar…a morte nos hospitais chega invariavelmente com jeito de derrota! Deus é o grande adversário ou o grande ausente!

Morremos mal hoje, perplexos e desconfiados, e tudo que podemos desejar é que não doa!

Essa morte de todos os dias, corriqueira, tão desnecessária, apavora e desconcerta, entendemos as desgraças, as grandes tragédias, sobretudo porque elas são plurais, anônimas: morte de bando, contada às dezenas, centenas e milhares parece menos morte…

Será que é possível morrer bem? Não falta quem aposte que sim.

Não que a morte deixe de nos meter medo, fim e finitude são palavras que usamos para definir nossa humanidade, reservamos a eternidade, a imortalidade, aquilo que é ilimitado, para além de qualquer fronteira e de qualquer experiência possível, para os deuses, nós, os homens, sabemos que vamos morrer, mais dia menos dia…A morte, como diriam os budistas, não é uma questão de SE, é uma questão de QUANDO…

“A vida e a morte são vistas como um todo, onde a morte é o começo de um novo capítulo da vida, um espelho no qual o inteiro significado da vida é refletido”, ensina Sogyal Rimpoche, no Livro Tibetano do Viver e do Morrer.

Incluir a morte dentro da vida, tirá-la deste “não-falar”, trazê-la para a luz, é um desafio, um aprendizado e um exercício de amor incondicional!

Há muito trabalho a fazer…e muita gente trabalhando para ajudar as pessoas a morrerem uma “boa morte”. Três pistas para ajudar na sua pesquisa sobre o assunto.

Para começar: conheça Elisabeth Kübler-Ross
Na década de 80, Elisabeth Kübler-Ross, uma psiquiatra suíça, lançou um livro revolucionário: On death and dying. Elisabeth foi uma pioneira, estudiosa dos meandros da morte e do morrer (o nome grego complicado é tanatologia, de thanatos, morte e logia, estudo) e ativista dos direitos dos pacientes terminais em relação à própria morte. Foi eleita uma das cem personalidades do século pela revista Time, escreveu dezenas de livros sobreo tema e passou a vida ensinando médicos e enfermeiros que, para lidar com a morte dos outros, é preciso antes elaborar suas próprias questões espirituais: “Para aqueles que buscam compreendê-la, a morte é uma imensa força criativa. As mais profundas reflexões espirituais sobre a vida, têm sua origem nas reflexões e estudos sobre a morte”.

Para saber mais, visite o site da ERKFoundation

Um lugar para morrer
Ajudar a morrer, virou um ramo da medicina, chamado medicina paliativa e, embora ainda haja muito a fazer para tornar esse assunto menos tabu, a situação já foi pior. Nos anos 1970 e 1980, a psiquiatra Cecily Saunders lançou o Movimento Hospice. Hospices são lugares especiais onde as pessoas podem ir para morrer em paz, num ambiente tranqüilo e espiritual, cercadas da mais moderna tecnologia para aliviar a dor e dar conforto a quem se prepara para morrer (em alguns países você também pode optar por ficar na sua própria casa e receber o atendimento de um Hospice). O nome é emprestado da Idade Média. Era assim que os monges chamavam o lugar onde recebiam os viajantes cansados e doentes.

Em alguns países, como Inglaterra, Espanha e Canadá os hospices estão se tornando comuns, no Brasil as iniciativas ainda são raras, mas no Sítio Vida de Clara Luz, por exemplo, fundado em 2004, por Bel Cesar, psicóloga e budista, que desde 1991 dedica-se a acompanhar pessoas com doenças terminais, existem espaços destinados a funcionar como Hospice.  Mais informações você consegue no site do Centro de Dharma.

Aprenda: um curso para ensinar a morrer
O dr. Franklin Santana Santos é médico e professor na USP da cadeira de “Tanatologia – Educação para a Morte”. Graças a ele muitos esforços e reflexões isoladas sobre o tema estão confluindo e o resultado são os dois volumes do livro A Arte de Morrer, compilação de trabalhos de especialistas em diversas áreas, da medicina à religião, relacionados à morte e ao morrer.

Essa abordagem multidisciplinar ele também adota no Curso de Tanatologia da FMUSP – Educação para a Morte – Uma Abordagem Plural e Interdisciplina. O objetivo é sensibilizar os profissionais das várias áreas para a questão da morte e ajudar a construir uma cultura que ajude as pessoas em geral e os pacientes terminais dos hospitais do país a morrerem com mais dignidade. A boa notícia é que você pode fazer o curso presencialmente, caso esteja em São Paulo,  ou online, da sua casa, em qualquer lugar.

Para conhecer esses trabalhos, navegue pelo site Saúde e Educação

E descubra o jeito budista de ver a morte no Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche, publicado pela Palas Athena.

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A foto é de Adrian Mohedano, mexicano, e foi tirada em durante os festejos  do Dia dos Mortos, em 2007. No México o Dia dos Mortos é uma festa de luzes (para guiar os espíritos que vem visitar suas famílias), muitas flores, boa comida, bebida farta e muitos amigos em volta!

Leia mais sobre o Dia dos Mortos no México

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Bem-viver Tags: , , , , ,
02/11/2008 - 14:40

Dia dos Mortos no México, dia de festa

Dia dos Mortos no México
Pessoas visitam o túmulo dos parentes no cemitério de San gregorio Atlapulco, na cidade do México. A foto é de Henry Romero/GettyImages/IG

 

Que tal celebrar a morte com flores e muita festa? Se isso para nós parece estranho, no México, ao contrário, ninguém fica triste no Dia de Finados. Os mexicanos brincam com a morte e transformam todos os símbolos tradicionalmente associados com ela em motivo de riso e diversão. Começando com a comida. De todas as iguarias que são preparadas especialmente para a ocasião, a mais apreciada são pequenas caveiras sorridentes feitas de açúcar ou de chocolate, decoradas com lantejoulas e marcadas com o nome dos parentes falecidos de cada família. Aliás, as caveiras estão por toda a parte, exibindo seus enormes sorrisos e sombreros enfeitados com flores e plumas.

E se, nos povoados, o povo dança e canta nas ruas, nas cidades a festa é transferida para os cemitérios mesmo. É onde os amigos se encontram para passar o dia comendo, bebendo e cantando em homenagem aos seus “muertitos”. A alegria e irreverência, no entanto, não tiram o caráter religioso do Dia de Muertos. “Em poucos lugares do mundo se pode viver um espetáculo parecido ao que acontece durante as grande festas religiosas do México”, afirma o escritor Otávio Paz, em seu livro Labirinto da Solidão. E o Dia de Muertos é, sem dúvida, a maior celebração religiosa desse povo festeiro.

As manifestações populares que acontecem nos dias 1 e 2 de novembro são o resultado de uma forma de sincretismo, que mistura elementos do catolicismo popular, com rituais antiqüíssimos, típicos dos povos que habitavam o México milênios antes da chegada dos espanhóis: os olmecas, os teotihuacanos, os maias, os zapotecas, os mixtecos, os toltecas e os mexicas.

Visões do paraíso

Os mexicanos da época pré-hispânica se consideravam imortais. Para eles, a morte era apenas um jeito diferente de viver. “Os antigos diziam que os homens, quando morriam, não desapareciam, mas começavam a viver de novo, como se despertassem de um sonho, transformados em espíritos ou em deuses”, conta o historiador Bernadino de Sahagun, no clássico História Geral das coisas da Nova Espanha. Esses espíritos imortais habitavam um mundo paralelo ao dos vivos e, em muitos aspectos semelhante a ele.

A noção de que existe um mundo “do outro lado”, reservado para os mortos é compartilhada por quase todas as tradições religiosas. De modo geral, pegar o melhor ou o pior lugar é uma questão de mérito e das boas ações que praticamos em vida. O que torna tão original o pensamento dos antigos povos mexicanos, é que essa escolha está relacionada com a causa física da morte de cada um. Daí existirem nesse mundo espiritual vários paraísos. Um deles, por exemplo, correspondia ao deus Tláloc e chamava-se Tlalocan. Ali eram recebidos os que morriam afogados ou por qualquer outra razão que se relacionasse à água. Contava-se que haviam muitas árvores e alimento abundante para a alegria de seus habitantes.

É claro, que sempre haviam os casos em que a causa da morte refletia a vida. Os guerreiros, por exemplo, iam para um lugar especial, assim como os prisioneiros de guerra, que costumavam ser oferecidos em sacrifício para alimentar com seu sangue o deus-sol Tonatiuh. Essa distinção também era reservada às mulheres que morriam de parto, chamadas cihuateteos.

Quem morresse de causas naturais tinha lugar reservado em Mictlán, o reino de Mictlanteculi e Mictlancihualt , senhor e senhora dos mortos. Contava-se que, quando o sol se punha na terra, nascia em Mictlán. Estava longe de ser um local de castigo, mas o caminho até lá era cheio de perigos. Rios profundos, altíssimas montanhas e animais selvagens aguardavam os viajantes. Para que pudessem vencer tantos obstáculos, as pessoas eram enterradas com facas de obsidiana, oferendas e comida e bebida para a viagem.

Os mortos-crianças iam para Chichihualcuahtli, onde o leite para alimentar os pequenos escorria das árvores. Esse cuidado típico de mãe parecia natural para esses povos que acreditavam que gerar a vida e tirá-la eram dois atributos do feminino e, de fato, muitas deusas-mães povoavam seu universo espiritual.

A Mãe-Morte
“A representação da morte no México é sorridente”, ensina o escritor Fernando Salazar Bañol, “ chama-se Coatlicue, ou Mãe-Morte e também é conhecida como a deusa da terra. É ela que gera todas as coisas e também as devora”. Essa idéia nasce da observação dos ciclos da Natureza, onde tudo está sempre nascendo, morrendo e renascendo. Cecílio A. Robelo, em seu Diccionario Náhuatl conta que a lua enviou um recado aos homens por intermédio de uma lebre: “Assim como eu morro e renasço todos os dias, vocês também vão morrer para renascer depois”.

Por isso, até hoje, os mexicanos se sentem à vontade para brincar com ela. “ A morte não tem nada de terrível. No México, ela é feita de açúcar e distribuída para as crianças”, conclui Fernando Salazar.

A hora da festa
Essa familiaridade está tão arraigada na alma mexicana que, ainda hoje, existe uma idéia muito forte de que os mortos têm licença para visitar seus parentes do mundo dos vivos, na época de Finados. No dia primeiro, Dia de Todos os Santos, também chamado Dia dos Santos Inocentes, os visitantes são os mortos-crianças. Os mortos adultos só aparecem no dia seguinte.

Para recebê-los, as casas são enfeitadas com cempasúchitl, uma flor amarela, típica do Dia de los Muertos. No lugar mais importante da casa, um altar é preparado em três andares, simbolizando a Santíssima Trindade, ou o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nele, além da figura do santo da devoção da família e de imagens de Jesus Cristo, colocam-se fotos, água, frutas e os pratos de comida favoritos do ancestral que se quer honrar.

O banquete é preparado com um cuidado respeitoso. Não podem faltar receitas mexicanas tradicionais, como a calabaza de tacha, um doce de abóbora feito com açúcar e canela, o famoso pan de muertos, uma torta com decorações que imitam ossos e as caveiras de açúcar, que as crianças adoram.

O altar é todo enfeitado com papel picado de cor preta, símbolo do luto cristão e laranja, a cor do luto azteca. E, por toda parte, velas, muitas velas para ajudar os espíritos a encontrarem seu lugar.

Tudo tem que estar pronto até dia 31 de outubro, à meia-noite. A família reza junta e, em seguida, convida os ancestrais a participarem da festa. As velas são acesas e o ambiente é purificado, queimando-se uma resina aromática, o copal. Ninguém toca na comida. Os mortos devem ser os primeiros a se servir. Apenas no dia seguinte os vivos voltam para se reunir aos parentes falecidos e, juntos, saborearem o banquete. É hora de comer e beber ao som da música favorita dos que já partiram.

O ritual se repete no dia 2, para os mortos adultos. Hoje, nas cidades, em vez de fazer uma festa em casa, as pessoas preferem levar a refeição para os cemitérios, onde passam o dia lavando os túmulos e decorando-os com muitas flores. Lá eles rezam, choram, cantam e, eventualmente, se embriagam, porque, afinal a morte é um fenômeno inseparável da vida. E, para os mexicanos, a melhor forma de enfrentá-la, é rir e brincar com ela.

Jose Guadalupe Posada (1852-1913)

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
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