iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

21/07/2009 - 13:01

A barba do profeta

Danish Ismail (INDIAN-ADMINISTERED KASHMIR RELIGION ANNIVERSARY SOCIETY) Reuters   

De onde será que vem nossa quedinha ancestral por relíquias? Hoje, na Índia, muçulmanos da Caxemira estão se reunindo em volta da mesquita de Hazratbal para celebrar o ‘Meeraj-un-Nabi’, a ascensão do profeta Mohammed ao céu. Durante a celebração, os devotos buscam a chance única, mágica, e que bem vale alguns socos e empurrões, de tocar um tufo de cabelo que, acredita-se, seria da barba do profeta.

A palavra “relíquia” remete a “restos”, no sentido que a gente fala de “restos mortais”. Relíquias são pedacinhos de seres considerados maravilhosos e que são veneradas porque de alguma forma a gente gosta de pensar que a santidade é coisa tão poderosa que seria possível adquirirmos um pouquinho dela, apenas por tocar, apenas por estar perto. Impregnadas de sagrado, insufladas do mistério divino, as relíquias em todas as religiões atraem fiéis, por mais macabro que esse movimento possa aparecer para os não-crentes.

Hoje, são os muçulmanos da Índia que buscam compartilhar a barba abençoada do profeta, mas amanhã serão os budistas que celebrarão as relíquias de Buda, no Sri Lanka, apesar do próprio Buda ter pedido para que os fiéis evitassem esse tipo de veneração. Do lado cristão, os mártires sempre proveram a alma dos fiéis de infindáveis relíquias. Mas as relíquias de “primeira classe”, essas são relacionadas ao Cristo e a tudo que possa ter tocado, ainda que de leve, seu corpo humano de deus vivo.

Relíquias, coisa esquisita…mas, sabem, quando entrei na Basílica de Ste-Madeleine, em Vézelay, França, com suas paredes de pedra polida e coração de gruta, e parei diante do nicho onde estão guardados os restos da santa, fui envolvida pelo silêncio que cerca todos os imponderáveis.  Mais que isso, eu podia jurar que tinha “me tornado” esse silêncio espantoso!

Pior, os restos na cripta não são os originais, que atraíram milhares de peregrinos a Vezelay durante a Idade Média, e foram queimados pelos calvinistas no século 16, durante as guerras religiosas. Estes vieram para a diocese como presente do Arcebispo de Sens, em 1876. E no entanto…

Amanhã, dia 22 de julho, é dia de santa Maria Madalena. Amanhã, mesmo achando relíquias coisas muito estranhas, sei que vou lembrar destes momentos em que não estamos mais separados, só nós e nossa pequeneza. Ali, ao alcance da mão, o objeto mágico nos lembra que somos mesmo pedaços de pedaços de pedaços, fragmentos divinos…tocando de levinho uns nos outros, às vezes…

Deve ser por conta disso, que o tufo da barba do profeta vale o esforço, as cotoveladas, o cansaço!!!!

A foto é da Reuters, tirada por Danish Ismail (INDIAN-ADMINISTERED KASHMIR RELIGION ANNIVERSARY SOCIETY)  

 

Autor: Adília Belotti - Categoria(s): Religião e espiritualidade Tags: , , ,
Voltar ao topo